RESUMO
Introdução: Manuscritos submetidos a periódicos de Ciências Sociais frequentemente reproduzem teorias sem desenvolverem interpretações próprias dos dados, o que reduz a contribuição analítica dos artigos. Embora o modelo IMRaD organize a escrita científica, sua aplicação recorrente privilegia descrição e revisão de literatura em detrimento da explicação autoral. Este artigo discute como incorporar a explicação autoral como eixo central dos manuscritos.
Materiais e métodos: O estudo utiliza abordagem qualitativa baseada em revisão narrativa de literatura sobre escrita acadêmica, documentos orientadores e experiência editorial da autora. A análise sistematiza dificuldades recorrentes em manuscritos, como uso instrumental da teoria e interpretação limitada dos achados.
Resultados: Propõe-se um modelo de escrita que reforça três operações: i) definição precisa do problema de pesquisa e da lacuna teórica; ii) explicitação de critérios e decisões metodológicas; iii) apresentação dos achados acompanhada de interpretação autoral ancorada nos dados. O modelo diferencia descrição, mobilização teórica e explicação, destacando esta última como componente distintivo da contribuição científica. Exemplos operacionais mostram como transformar dados brutos e categorias analíticas em explicação substantiva.
Discussão: Sustenta-se que o fortalecimento da explicação autoral melhora a qualidade analítica dos artigos, favorece diálogo crítico com teorias existentes e reduz a reprodução acrítica de referenciais. Conclui-se que o modelo fornece parâmetros aplicáveis a distintas tradições metodológicas, oferecendo uma referência para aprimoramento da escrita científica.
Palavras-chave
escrita científica; autoria acadêmica; IMRaD; produção do conhecimento; revisão narrativa
ABSTRACT
Introduction: Manuscripts submitted to Social Science journals often reproduce existing theories without developing their own interpretation of the data, which limits their analytical contribution. While the IMRaD structure provides a clear framework for scientific writing, its widespread use tends to prioritize description and literature review over authorial explanation. This article explores how authorial explanation can be positioned at the core of the analytical process.
Materials and methods: This study takes a qualitative approach, drawing on a narrative review of the literature on academic writing, key editorial documents, and the author's own editorial experience. The analysis identifies and categorizes recurring challenges in manuscripts, including the instrumental use of theory, inadequate methodological justification, and limited interpretation of findings.
Results: The article proposes a writing model centered on three core operations: (i) clearly defining the research problem and theoretical gap; (ii) explicitly outlining methodological choices and decisions; and (iii) presenting findings alongside authorial interpretation grounded in the data. The model distinguishes between description, theoretical application, and explanation, highlighting the latter as the distinctive element of a scientific contribution. Practical examples demonstrate how raw data and analytical categories can be transformed into meaningful, substantive explanations.
Discussion: Strengthening authorial explanation improves the analytical rigor of articles, encourages critical engagement with existing theories, and limits the uncritical reproduction of theoretical frameworks. The proposed model provides guidelines applicable across diverse methodological traditions, offering a practical reference for enhancing scientific writing.
Keywords
scientific writing; academic authorship; IMRaD; knowledge production; narrative literature review
I. Introdução
Este artigo apresenta um modelo de escrita científica alinhado ao que a literatura já consolidou e acrescenta a necessidade de incluir explicações autorais em todas as etapas de um artigo. Alguns dados mostram a importância desse campo: em 2023, o Brasil registrou a publicação de aproximadamente 157 mil artigos científicos (Brasil, 2024), o que colocou o país na décima posição entre as nações com maior volume de produção científica no período (Brasil, 2024).
Para auxiliar pesquisadores, existe ampla literatura sobre escrita científica, com destaque para os manuais produzidos em língua inglesa. A literatura identifica entraves persistentes no processo de publicação, como a pressão crescente por produtividade, que limita a diversidade temática e metodológica, reforçando padrões que privilegiam determinados tipos de pesquisa em detrimento de abordagens consideradas menos convencionais (Griffiths & Norman, 2016). A escrita fica mais difícil quando se espera condições ideais para produzir, prática que interrompe a continuidade e amplia o adiamento do texto (Silvia, 2018). Outros trabalhos evidenciam obstáculos estruturais do próprio texto acadêmico, como introduções que não formulam com precisão o problema de pesquisa ou discussões desorganizadas, aspectos que prejudicam a compreensão dos achados e que são recorrentes em manuscritos rejeitados em periódicos científicos (Wu, 2011). Há ainda evidências de que a aprovação de artigos depende do alinhamento rigoroso às diretrizes editoriais, da objetividade na apresentação dos achados e da descrição metodológica que permita replicação, componentes frequentemente insuficientes em manuscritos submetidos por pesquisadores iniciantes (Perez et al., 2024).
Diversos autores(as) apresentam caminhos para fortalecer a escrita acadêmica, dentre os quais destacamos o ensino do modelo IMRaD (acrônimo para Introduction, Methods, Results and Discussion). O modelo se consolidou por padronizar a comunicação científica e facilitar a avaliação por pares ao organizar o manuscrito em perguntas centrais sobre problema, método e resultados (Wu, 2011). Ele pode ser aplicado às humanidades e ciências sociais quando dados, método e lógica analítica são apresentados de forma clara - o que aumenta a compreensão do texto (Codina, 2022).
Logo, a literatura sobre escrita científica apresenta modelos amplamente utilizados e consolidados, mas ainda abre espaço para contribuições que reforcem a interpretação original produzida por quem pesquisa. No sentido de contribuir com esse aspecto, a pergunta de pesquisa do texto é: como a centralidade da explicação autoral em cada seção do artigo pode aprimorar a elaboração de textos científicos e ampliar sua capacidade analítica?
As dificuldades da explicação autoral dialogam com críticas formuladas pelo movimento negro, que mostra como a ciência ocidental se apoia em bases coloniais e racistas (Gonzalez, 1988; [Nego Bispo] Santos et al., 2025). Tais perspectivas questionam a ideia de neutralidade científica e evidenciam como a ciência reproduz hierarquias coloniais. A ruptura dessa lógica ocorre quando saberes retomam suas próprias referências e dispensam mediações externas, por exemplo, com a valorização de epistemologias afro-indígenas e a formulação de categorias próprias, que deslocam padrões hegemônicos e ampliam o campo interpretativo.
Com base nesses ensinamentos que reforçam a importância da formulação de categorias próprias, o objetivo do artigo é propor um modelo de escrita científica que integra a literatura existente com uma abordagem focada na explicação autoral. Mostramos que a originalidade do artigo não está apenas no fato de tratar de um aspecto ainda não observado, mas sobretudo na explicação que oferece aos resultados alcançados. Essa explicação pode se apoiar em teorias existentes, mas deve necessariamente trazer a contribuição autoral do pesquisador(a). A abordagem não destoa do modelo IMRaD; ela apenas torna mais evidente a função central da explicação autoral em um artigo científico.
A combinação entre experiência editorial, revisão bibliográfica e exemplificação prática busca oferecer um modelo de escrita que fortalece a explicação autoral, ampliando as chances de aprovação em periódicos nacionais e internacionais.
II. Metodologia
A metodologia deste estudo articula dois eixos principais: a experiência editorial e de publicação de artigos acumulada pela autora e uma revisão não sistemática da literatura sobre escrita científica. A abordagem é qualitativa e interpretativa, orientada à identificação de elementos que fortalecem o caráter autoral na produção de artigos.
A autora foi editora associada na área de ciência política de um importante periódico de ciências sociais entre 2019 e 2021. Durante esse período, acompanhou a tramitação e avaliação de dezenas de manuscritos, observando dificuldades recorrentes e razões frequentes de rejeição. Somando-se a essa experiência, desde 2024 é diretora de uma editora universitária - trabalho que tem evidenciado o quanto a formulação das interpretações originais é elemento decisivo para a construção do conhecimento. O artigo também traz a experiência da autora como escritora de dezenas de artigos científicos - o que contribuiu para o presente trabalho principalmente nos exemplos sobre escrita.
Este texto foi construído ainda com uma revisão não sistemática da literatura sobre escrita científica. A revisão não buscou exaustividade, mas priorizou textos que discutem rotina da escrita, estrutura IMRaD, práticas editoriais, clareza argumentativa e construção da autoria.
Além disso, o estudo dialoga com investigação anterior em que se identificou que uma das principais dificuldades de aprovação de artigos científicos está relacionada à incompatibilidade entre a forma de escrita adotada por autores(as) e as expectativas dos periódicos. Essa constatação orientou a formulação do presente trabalho e ajudou a definir os focos analíticos centrais.
III. Resultados e discussão
O Quadro 1 apresenta a proposta de estrutura de um artigo científico construída com os aprendizados derivados da literatura e da experiência da autora como editora e escritora de artigos científicos. A estrutura segue o modelo IMRaD, com ênfase no caráter autoral do artigo. Nesse formato, a introdução situa o tema e identifica a lacuna; os métodos descrevem com precisão como o estudo foi conduzido; os resultados expõem os dados e as interpretações autorais. Cada uma dessas partes será explicada com maior detalhamento, acompanhada de exemplos que ilustram seu funcionamento.
III.1. Título e resumo
A escrita objetiva do título orienta a leitura e favorece a comunicação do núcleo da pesquisa. Estudos apontam que o título influencia a aprovação de manuscritos porque apresenta o foco do estudo de modo direto (Perez et al., 2024). Um título como “O caráter autoral como fator essencial para a aprovação de um artigo científico” cumpre essa função ao expor a interpretação construída, enquanto opções genéricas como “Reflexões sobre ciência e sociedade” não permitem identificar o problema investigado tampouco os resultados alcançados.
O resumo de um artigo científico não deve discorrer sobre o tema do artigo e sim sobre os principais elementos da pesquisa, com ênfase para sua contribuição ao campo. O resumo pode incorporar explicitamente ou como exercício o modelo IMRaD, que organiza o texto em introdução, métodos, resultados e discussão - estrutura reconhecida por reforçar transparência, rastreabilidade e clareza na apresentação de estudos (Codina, 2022; Wu, 2011). Segue um exemplo curto de resumo seguindo o modelo IMRaD: Introdução: O estudo investiga fatores que influenciam a aprovação de artigos científicos. Métodos: A análise baseia-se em revisão sistemática da literatura. Resultados: Identificou-se que o caráter autoral das explicações apresentadas em cada seção do artigo é decisivo para a aprovação. Discussão/conclusões: o modelo oferece parâmetros para aprimorar a escrita e aumentar a aderência às exigências editoriais.
III.2. Introdução
A introdução de um artigo precisa definir o problema de pesquisa, situar sua relevância e indicar a lacuna que o estudo busca preencher (Codina, 2022). Também deve evitar contextualizações extensas sem foco e apresentar com precisão a motivação do estudo, já que introduções vagas estão entre as causas de rejeição editorial (Wu, 2011).
Para ser enxuto, o artigo deve se concentrar em uma única relação observada, ou em uma única “história”, que explicite de forma direta a contribuição inédita da pesquisa. Isso significa que todos os conceitos, discussões ou contextos históricos que não tenham relação direta com o objetivo específico do texto, não devem ser abordados. Por isso a delimitação do tema é fundamental: o artigo deve restringir-se ao problema investigado, evitando digressões ou tópicos secundários que não dialoguem com os resultados.
Como sugestão, o primeiro parágrafo pode começar com a frase: “Este texto trata da (relação que vai observar e o nome do objeto) mostrando como (descoberta da pesquisa).” Esse início apresenta o foco da pesquisa e já permite indicar a interpretação construída sobre o problema, tornando evidente o caráter autoral desde a primeira frase.
Quando cabível, no segundo parágrafo, a introdução pode apresentar o objeto de pesquisa com informações, por exemplo, sobre sua fundação, seus objetivos institucionais, sua composição e outras características que permitam ao leitor(a) compreendê-lo. Essas informações costumam estar disponíveis em documentos institucionais ou em sites oficiais. Podem existir trabalhos publicados sobre o objeto da pesquisa e eles devem ser inseridos nessa etapa do artigo.
Em seguida, o texto deve contextualizar o objeto dentro da área de estudo, apresentando conceitos essenciais e definindo-os a partir de autores(as) de referência. A título ilustrativo: “O estudo se insere no campo da contracolonialidade, que é definida conforme o piauiense Nego Bispo (Santos et al., 2025), como a recusa ao sistema colonial que mercantiliza saberes e vidas e, ao mesmo tempo, a criação de modos próprios de existir ancorados nas cosmologias e trajetórias comunitárias.” Nessa etapa, mais importante que acumular muitas citações é selecionar conceitos-chave trabalhados por autores(as) reconhecidos - conforme a orientação teórica do autor(a) do texto.
Passamos agora para a parte em que há mais reprodução de trabalhos: a revisão da literatura, também chamada de revisão bibliográfica ou estado da arte. Nesses parágrafos o autor(a) deve apresentar uma síntese dos estudos sobre seu tema, privilegiando pesquisas recentes, especialmente publicadas nos últimos cinco anos.
Fazemos aqui três observações importantes sobre a revisão da literatura. Primeiro distinguimos ela do referencial teórico e da revisão sobre o objeto da pesquisa. O referencial teórico reúne autores(as) que fornecem os conceitos centrais e orientam a análise, geralmente poucos nomes já consolidados. Isso difere da revisão sobre o objeto da pesquisa, que apresenta estudos e informações sobre a instituição, grupo ou obra investigada. Já a revisão da literatura deve sistematizar a produção sobre o tema de estudo. Por exemplo, em uma pesquisa sobre os resultados de um curso de escrita decolonial no mestrado da UFPI, o referencial teórico pode incluir autores(as) da contracolonialidade, como Nego Bispo, que serão usados para definir os conceitos e orientar as explicações sobre os resultados; a revisão do tema reunirá artigos recentes sobre escrita decolonial publicados em bases como SciELO; e a revisão sobre o objeto apresentará informações institucionais sobre o próprio curso.
Em segundo lugar, no modelo mais curto aqui proposto, a revisão da literatura integra a própria introdução e cumpre a função de identificar as lacunas do campo, reforçando a contribuição autoral do estudo. Esse modelo já aparece na literatura sobre escrita de artigos. Muitos artigos são rejeitados porque suas introduções não delimitam o problema nem articulam o diálogo com o estado da arte, o que reforça a necessidade de incorporar a revisão ao início do texto (Wu, 2011). A estrutura IMRaD integra a revisão da literatura à introdução, pois é nessa seção que se apresentam o que já se sabe sobre o tema, o problema de pesquisa e a lacuna que justifica o estudo (Codina, 2022). Adicionando a essas contribuições, como este artigo defende que o caráter autoral deve orientar a escrita científica, a revisão da literatura não pode ocupar espaço desproporcional nem substituir o núcleo analítico do artigo. Por isso que a maior parte do manuscrito precisa ser dedicada à explicação dos resultados, e não à reprodução extensiva de outras obras.
No entanto, sabe-se que a organização do artigo depende das normas editoriais, pois muitas revistas exigem uma seção específica de revisão após a introdução, o que demanda atenção ao formato solicitado.
Na proposta aqui apresentada a revisão bibliográfica tem uma função essencial: deve apresentar o que a literatura já produziu sobre o problema, organizando contribuições, limitações e lacunas que justificam o estudo, conforme descreveu Becker (2020). Logo, não se trata de acumular referências de forma descritiva ou sem direção, mas de apresentar um mapeamento que tenha como propósito evidenciar a lacuna e justificar a pertinência do artigo. Sugerimos que esses parágrafos sejam organizados por ideias, e não por autores(as) isoladamente, permitindo ao leitor identificar as linhas principais de interpretação e os consensos ou controvérsias em curso.
Por isso, logo após a revisão bibliográfica a pergunta deve ser apresentada, em forma interrogativa, articulada ao objetivo do trabalho e formulada de modo que leve a uma explicação nova sobre o assunto, e não à repetição do que a literatura já afirma. A pergunta pode ser formulada de modo a antecipar a descoberta, como: “De que forma o caráter autoral influencia a aprovação de artigos científicos em periódicos?”.
Para orientar a resposta da pergunta em seguida deve-se apresentar o referencial teórico. A escolha deve recair sobre um a três autores(as) centrais, capazes de oferecer ferramentas à análise. Os mesmos autores(as) usados para definir conceitos podem aparecer novamente como parte desse referencial. Considere que não é necessário abarcar todas as teorias disponíveis, mas selecionar aquelas que efetivamente contribuem para a interpretação dos resultados. Essa escolha não é neutra: trata-se também de uma decisão que expressa a forma como o pesquisador(a) enxerga os fenômenos que investiga. Em alguns casos, é possível formular uma hipótese derivada do referencial teórico.
A introdução deve necessariamente apresentar o objetivo do artigo. Esse objetivo precisa ser descrito de modo explícito e detalhar quais categorias ou itens serão analisados, sempre em consonância com os resultados que a pesquisa trará. Esse aspecto é tão importante que muitas vezes o pesquisador(a) formula objetivos preliminares no início da investigação, e os reavalia ao final, de modo que fiquem em consonância com os resultados efetivamente alcançados. Como exemplo, um artigo pode começar buscando, por meio de revisão sistemática, os fatores que explicam a aprovação de trabalhos científicos, especialmente quando esses critérios ainda não são evidentes. No percurso da análise, pode surgir a descoberta de que o caráter autoral é o elemento decisivo, o que leva à reformulação do objetivo e à escolha de autores(as) tratam de autoria e escrita científica. Esse processo demonstra que a escrita envolve necessariamente revisões sucessivas.
Finalize a introdução com as contribuições da pesquisa, mostrando como a investigação acrescentou de forma original ao campo de estudos. Sempre que pertinente, podem ser incluídas também contribuições sociais, indicando de que modo os resultados têm relevância prática para determinados grupos, instituições ou políticas públicas.
III.3. Metodologia
A metodologia é uma seção central de um artigo científico: a falta de definição metodológica é um dos principais motivos de rejeição de manuscritos, pois impede entender a relação entre pergunta, análise e resultados (Wu, 2011). A seção de metodologia deve explicar com precisão como a pesquisa foi conduzida, detalhando procedimentos, fontes e critérios analíticos para garantir transparência e permitir a avaliação do percurso realizado, em consonância com a lógica do IMRaD, que exige métodos claros e verificáveis (Codina, 2022).
A metodologia informa o tipo de pesquisa, por exemplo, qualitativa, e explica por que esse enquadramento atende ao objetivo do estudo. Em seguida, descreve a técnica de coleta de dados, como entrevistas ou análise documental, e identifica os objetos ou materiais, indicando critérios de escolha, como experiência prévia, participação em um programa ou disponibilidade de registros. A seção também deve listar o material coletado, como dez entrevistas, três relatórios ou um conjunto de cem atas, e explicar como a pesquisa ocorreu na prática, incluindo acesso ao campo, contato com participantes ou uso de bases públicas. Por fim, apresenta a técnica de organização e análise dos dados, como categorização temática ou análise de conteúdo, e informa como cada procedimento foi aplicado para produzir os resultados.
A definição e explicitação de critérios para cada etapa da metodologia é essencial porque organiza o percurso da pesquisa e reduz escolhas arbitrárias. Esses critérios orientam a seleção do tipo de pesquisa, dos objetos, da técnica de coleta e dos procedimentos de análise. A justificativa associada a cada item explicita porque essas escolhas são adequadas ao problema investigado. Essa combinação (critério e justificativa para cada item) fortalece a consistência do estudo e permite que o leitor(a) compreenda como cada decisão sustenta o resultado produzido. A título ilustrativo: “O artigo examinou toda a literatura sobre escrita científica disponível no SciELO porque esse portal reúne a base mais consolidada e de acesso aberto da produção científica brasileira, o que permite mapear tendências nacionais e identificar como a escrita acadêmica tem sido orientada nos principais periódicos do país.”
III.4. Resultados e discussão
é possível organizar essa seção de forma separada, com apresentação dos resultados e, em seguida, a discussão. Em revistas brasileiras, ambas costumam aparecer juntas. Ainda assim, é fundamental que haja discussão.
A primeira etapa dos resultados é a descrição dos dados. Nessa etapa propomos primeiro que os dados sejam introduzidos ao leitor(a). O pesquisador(a) deve anunciar a categoria, conceito ou objetivo em foco e informar como os dados foram coletados e organizados.
Na sequência, os dados devem ser apresentados de forma sistemática. O uso de figuras é recomendável porque organiza informações e facilita a leitura. Podem ser incluídos por exemplo gráficos de barras para volumes comparativos, gráficos de linhas para evoluções temporais, nuvens de palavras para temas recorrentes, quadros com trechos de textos, entrevistas ou legislações. O importante é apresentar os dados de forma sistematizada.
Após a apresentação, o pesquisador(a) deve descrever os dados detalhadamente. é o momento de indicar frequências, tendências ou padrões que emergem, sem ainda atribuir causas. é comum pesquisadores encerrarem a seção dos resultados na descrição dos dados, sem passarem para a discussão deles - etapa essa que consideramos central no artigo, principalmente quando é apresentada uma explicação autoral e inédita sobre os dados.
A etapa da discussão dos dados, pode se guiar pelas seguintes perguntas: o que os dados significam? Por que eles se apresentam dessa forma? A explicação dos resultados pode ser guiada pelo referencial teórico, que oferece categorias e conceitos úteis para interpretar os dados. No entanto, é essencial que essa interpretação seja também autoral, isto é, construída a partir da leitura crítica do material empírico pelo próprio pesquisador(a). As análises devem sempre estar ancoradas nos dados apresentados, evidenciando como eles sustentam os argumentos desenvolvidos. Quando necessário, podem ser incorporados dados adicionais ou resultados de outras pesquisas que complementem a interpretação, mas sem substituir a contribuição original do autor(a). Como exemplo: “Os dados mostram que 70% dos artigos repetem a mesma teoria, isso indica que a produção científica segue limitada por padrões que inibem explicações próprias e reforçam a lógica colonial que valoriza apenas certos autores.”
Em seguida, o autor(a) deve apresentar os avanços de suas interpretações construídas a partir dos dados, em diálogo com os artigos analisados na revisão da literatura. Esse movimento é fundamental para demonstrar como o estudo dialoga com pesquisas anteriores e, ao mesmo tempo, avança em relação a elas. Dessa forma, tanto a revisão da literatura quanto o referencial teórico exposto na introdução reaparecem na discussão dos resultados.
Por fim, cada seção de resultados deve ser concluída com uma síntese dos achados, conectando-os diretamente aos objetivos estabelecidos para o item.
Essa sequência de análise dos dados - introdução, apresentação, descrição, destaque dos pontos relevantes, explicação e relação com a literatura/objetivo da pesquisa - deve ser repetida para cada categoria, conceito ou objetivo da pesquisa.
é importante diferenciar a explicação autoral tanto da descrição dos dados quanto da simples confirmação de teorias e de resultados já apresentados por outros estudos. A descrição apenas informa o que aparece no material. A explicação autoral responde por que isso ocorre. A teoria ajuda a entender os dados, mas é importante que haja uma contribuição própria para o campo. Por exemplo, uma descrição informa apenas o dado, como afirmar que 70% dos artigos confirmam a teoria. A explicação autoral pergunta porque isso acontece. Em um exemplo hipotético um artigo pode explicar o dado mostrando que a replicação de teoria acontece principalmente entre cientistas que têm menor contato com debates sobre colonização da ciência desenvolvidos por autoras negras. Esse movimento não abandona a teoria, mas acrescenta ao conhecimento. A explicação dos dados é enriquecida pelas experiências de vida que, somadas às leituras, ajudam o pesquisador(a) a compreender por que os resultados assumem determinada forma.
A literatura já aponta a que caráter analítico de uma pesquisa é central para a escrita científica (Becker, 2020; Swales & Feak, 2012). No entanto, essa é uma parte frequentemente negligenciada da pesquisa, e uma explicação possível está na própria colonização da ciência, que historicamente incentivou a reprodução de autores consagrados em vez da construção de interpretações próprias. Essa herança reforça a prática de citar sem elaborar, dificultando que pesquisadores(as) assumam a autoria de suas explicações e fortaleçam o caráter analítico do texto.
O trabalho de Gonzalez (1988) e Nego Bispo (Santos et al., 2025) foram centrais para orientar esse olhar. Suas críticas à ciência ocidental como práticas assentadas em bases coloniais evidenciaram como epistemologias eurocêntricas invisibilizam saberes. Essa perspectiva encorajou a explicitar um modelo que não apenas organiza a escrita científica, mas que também busca ampliar a legitimidade de diferentes trajetórias acadêmicas.
Com base nesse referencial, defendemos aqui que não basta descrever o fenômeno investigado, nem apenas relatar dados coletados ou repetir o que outros autores disseram. A marca da escrita científica é a explicação: é preciso mostrar o porquê do que foi observado, produzindo interpretações que ajudem a compreender melhor o problema de pesquisa. Escrever a seção de resultados exige, portanto, coragem analítica. é o momento de assumir a autoria da interpretação, de articular dados e conceitos com ousadia e responsabilidade.
III.5. Conclusão e referências
A conclusão de um artigo científico deve ser breve, objetiva e diretamente conectada ao objetivo apresentado na introdução. Para isso, pode iniciar retomando o tema e o propósito central da pesquisa, em seguida resumir os principais achados sem repetir dados ou tabelas, destacando apenas os pontos mais relevantes da análise. Quando houver hipótese, deve ser confirmada ou negada à luz dos resultados. Também é recomendável explicitar eventuais limitações. Não é recomendável reproduzir autores(as) tampouco incluir explicações que não foram desenvolvidas na seção dos resultados e discussão.
Por fim, a conclusão deve apontar direções para pesquisas futuras e indicar possíveis mudanças no campo, abrindo caminho para a continuidade do debate. A conclusão tem justamente essa função: abrir perspectivas para outros(as) pesquisadores(as) do campo. A título de exemplo, a conclusão pode terminar com essa ideia “A análise sugere caminhos para estudos futuros sobre autoria e usos da teoria e indica a necessidade de práticas que ampliem vozes diversas.”
A seção de referências é o fechamento formal de um artigo científico e deve obedecer a critérios de rigor e padronização, incluindo apenas as obras efetivamente citadas no corpo do texto. O formato das referências deve seguir o padrão estabelecido pela revista em que o artigo será submetido (como APA, Chicago, Vancouver ou ABNT). é importante também incluir obras digitais sempre que forem utilizadas. O que se avalia não é a quantidade de autores(as) citados(as), mas a capacidade do pesquisador(a) de demonstrar que reconhece o referencial teórico escolhido a partir de sua própria visão de mundo, que compreende o debate atual sobre o tema e que insere seu trabalho como contribuição às discussões mais recentes.
IV. Conclusões
Este artigo parte da ideia de que escrever não é apenas relatar procedimentos ou reproduzir teorias consagradas, mas construir interpretações próprias sobre o fenômeno investigado. Defendemos que o caráter autoral do texto deve ocupar o centro da produção acadêmica, pois é nele que o estudo revela sua contribuição real. Esse entendimento se apoia em autores(as) que mostram como bloqueios de escrita, rotinas herdadas e expectativas disciplinares que incentivam a mera reprodução de argumentos alheios, ocultando a posição de quem pesquisa e reduzindo a força explicativa dos artigos.
Ao longo do texto, argumentamos que a centralidade da explicação autoral não é um detalhe de estilo, mas uma forma de reposicionar pesquisadores(as) como sujeitos ativos da produção de conhecimento. Em vez de se limitar ao acúmulo de citações, a escrita deve demonstrar interpretações autorais para responder à pergunta da pesquisa e sustentar a contribuição do artigo. O conjunto dos achados mostra que, quando cada seção do artigo incorpora a explicação autoral, o texto ganha coerência argumentativa e aprofunda sua capacidade de interpretação, superando a simples descrição dos dados.
São necessárias algumas explicações adicionais e ressalvas sobre o modelo apresentado. Primeiramente é importante ressaltar que o esquema apresentado deve ser compreendido como um modelo sugestivo, pensado para oferecer um ponto de partida à organização do manuscrito. Não se trata, contudo, de um guia rígido a ser seguido em todas as pesquisas. O autor(a) mantém plena liberdade para adaptar a estrutura às especificidades da sua abordagem, observando sobretudo o formato mais comum adotado pelo periódico ao qual o artigo será submetido. Incentivamos também que cada um busque construir o seu modelo considerando as suas características da escrita. Assim, o modelo funciona como referência inicial e não como guia único, servindo ao propósito de orientar, mas sem restringir a autonomia da escrita científica.
Outra limitação deve-se ao fato de que o modelo apresentado é indicado para pesquisas originais, isto é, àquelas que, a partir da revisão da literatura, identificam uma lacuna e explicitam como o estudo contribui para preenchê-la.
Pesquisas futuras podem investigar quem é replicado na literatura e por que essa replicação ocorre, examinando mecanismos que estabilizam teorias e limitam explicações próprias. Também são necessários estudos sobre quem controla padrões editoriais e espaços de divulgação científica, identificando como essas estruturas restringem a entrada de novas vozes. Outro eixo promissor envolve analisar como classe, gênero, raça e região influenciam a produção e a circulação do conhecimento, o que permite ao leitor(a) compreender de modo mais preciso como diferentes desigualdades moldam o acesso ao debate acadêmico.
Como desdobramento prático, sugerimos ampliar a formação em escrita, diversificar os sujeitos que ocupam espaços de poder editorial e valorizar saberes produzidos em diferentes territórios. Democratizar essas instâncias não é apenas uma meta institucional, mas condição para que a ciência produza interpretações mais diversas e representativas.
Declaração de uso de IA
A autora informa que utilizou ferramentas de inteligência artificial para sugestões de correções ortográficas do manuscrito.
Contribuição de autoria (CRediT)
Olivia Cristina Perez: coleta de dados, análise de dados, elaboração do manuscrito, redação, discussão dos resultados.
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Editor Científico:
Adriano Codato http://orcid.org/0000-0002-5015-4273
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Editor Associado:
Adriano Codato http://orcid.org/0000-0002-5015-4273
Declaração de disponibilidade de dados
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Declaração de disponibilidade dos dados
Uso de dados não informado; nenhum dado de pesquisa gerado ou utilizado.
