Accessibility / Report Error

Fonoaudiologia em saúde pública: apreciações preliminares a propósito de experiência pioneira em São Paulo, SP (Brasil)

Vision, language, and audition research in a local public health unit: principles and preliminary data

Resumos

Apresentam-se e discutem-se a fundamentação teórica e os dados preliminares sobre uma experiência de fonoaudiologia em unidade sanitária local. Quanto à primeira, detalham-se os níveis de atuação na especialidade, sobretudo quanto à sua aplicação preventiva, especialmente prevenção primária. Tais dados, referentes ao Centro de Saúde I "Geraldo de Paula Souza'', Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, S. Paulo (Brasil), abrem espaço para discussão de alguns aspectos básicos da importância de serviços desta natureza na prática sanitária corrente.

Linguagem; Visão; Fala; Audição; Centros de Saúde


Principles and preliminary data in vision, language, and audition (VLA) reached through research at a local public health unit are presented and discussed in this paper. Application levels are detailed, especially in primary prevention. Data referring to the experience of the VLA service of the Geraldo de Paula Souza Health Center of the Public Health School of the University of S. Paulo (Brazil) raise discussion about some basic points about the importance of VLA currently being used in public health in current preventive practice.

Language; Vision; Speech; Hearing; Community health services


Fonoaudiologia em saúde pública: apreciações preliminares a propósito de experiência pioneira em São Paulo, SP (Brasil)

Vision, language, and audition research in a local public health unit: principles and preliminary data

Marina de Mesquita SampaioI; Aguinaldo GonçalvesII

IDo Centro de Saúde "Geraldo de Paula Souza" da Faculdade de Saúde Pública da USP — Av. Dr. Arnaldo, 715 — 01255 — São Paulo, SP — Brasil

IIDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP — Av. Dr. Arnaldo, 715 — 01255 — São Paulo, SP — Brasil

RESUMO

Apresentam-se e discutem-se a fundamentação teórica e os dados preliminares sobre uma experiência de fonoaudiologia em unidade sanitária local. Quanto à primeira, detalham-se os níveis de atuação na especialidade, sobretudo quanto à sua aplicação preventiva, especialmente prevenção primária. Tais dados, referentes ao Centro de Saúde I "Geraldo de Paula Souza'', Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, S. Paulo (Brasil), abrem espaço para discussão de alguns aspectos básicos da importância de serviços desta natureza na prática sanitária corrente.

Unitermos: Linguagem. Visão. Fala. Audição. Centros de Saúde, São Paulo, Brasil.

ABSTRACT

Principles and preliminary data in vision, language, and audition (VLA) reached through research at a local public health unit are presented and discussed in this paper. Application levels are detailed, especially in primary prevention. Data referring to the experience of the VLA service of the Geraldo de Paula Souza Health Center of the Public Health School of the University of S. Paulo (Brazil) raise discussion about some basic points about the importance of VLA currently being used in public health in current preventive practice.

Uniterms: Language. Vision. Speech. Hearing. Community health services, S. Paulo, Brazil.

1. INTRODUÇÃO

Entende-se a fonoaudiologia como o estudo integrado da linguagem, oral e escrita, e da audição. Seu conhecimento envolve não somente a análise do funcionamento de tais funções fisiológicas, mas também daquilo em que se baseia o aparecimento da linguagem oral e escrita, conhecido como funções básicas da linguagem. Entre tais funções, estão: a audibilização (ou o uso das percepções auditivas), a visualização (ou o uso das percepções visuais), a orientação têmporo-espacial, o esquema corporal e a lateralidade.

A atuação fonoaudiológica advém, principalmente, de três enfoques básicos: o preventivo, o curativo e o estético (Amorim1, 1972). É dito que o primeiro é representado em parte pela fonoaudiologia escolar, na medida em que atua junto aos planejamentos, currículos e descoberta precoce de problemas de linguagem ou audição. O curativo toma lugar junto a clínicas e hospitais e se propõe a trabalhar na recuperação de distúrbios já instalados, como a deficiência auditiva, a dislexia (Quiros e Cella10, 1972) e a afasia (Travis12, 1957). O estético se preocupa com a dicção e a impostação da voz de pessoas que dela se utilizam como atividade profissional, tais como professores, oradores, cantores e atores e normalmente aparecem em clínicas particulares.

Em termos amplos de Saúde Pública situa-se, portanto, a ação fonoaudiológica sobre crianças, sobretudo pré-escolares, a nível de prevenção primária, secundária e terciária (Leavell e Clark9, 1966). No primeiro nível atua como fonte de estimulação e policarenciados; como prevenção secundária, atua através do diagnóstico precoce e tratamento imediato; no nível de prevenção terciária sua atuação se dá sobre os indivíduos que já têm os problemas completamente instalados, no sentido de reabilitá-los. Existem modelos bem consolidados que destacam seu papel em várias áreas de nosografia humana, sobretudo na história natural das dificuldades de aprendizado (Williams13, 1976).

Igualmente do ponto de vista de Saúde da Criança, intimamente ligado ao campo e à problemática abrangidas pelas ações da fonoaudiologia, estão as limitações visuais do pré-escolar, cujos enfoques e procedimentos de prevenção e recuperação constituem importante componente das ações de saúde, seja a nível conceitual (Cooper e col.5, 1974), operativo (Haffner8, 1973) e mesmo ético (Coblens 4, 1974).

No Brasil, a fonoaudiologia surgiu há aproximadamente dez anos e desde então tem-se desenvolvido primordialmente na área curativa, junto a clínicas, hospitais e instituições congêneres. De fato, gama tão extensa de aplicação não encontra experiências concretas em nosso meio, não sendo freqüente, mesmo entre profissionais da saúde, conceitos impróprios sobre a atuação fonoaudiológica. Trazemos nesta comunicação, os resultados preliminares de nossa experiência, com o objetivo de levar ao conhecimento de outros profissionais do campo da saúde pública, esta problemática.

2. PROCEDIMENTOS E METODOLOGIA

Durante o período de dezembro de 1977 a novembro de 1978, submeteram-se a triagem fonoaudiológica e de visão todas as crianças de 4 a 7 anos da área de Saúde da Criança do Centro de Saúde "Geraldo de Paula Souza" (CSGPS)1 1 Trata-se da unidade sanitária local da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo que corresponde a um CS.II, de acordo com a classificação da Secretaria da Saúde. Destina-se a três objetivos básicos: assistência, treinamento e investigação. Quanto ao primeiro aspecto, atende a comunidade estimada aproximadamente de 100.000 habitantes. Para maiores detalhes a respeito, vide Gonçalves e Espírito Santo 6 , 1978. 2 Embora a formação da fonoaudiologia não inclua o estudo da visão, o profissional em questão responsabiliza-se também por esta área. 3 Para apreciação das mesmas, observe-se, preliminarmente, que por razões operacionais todas as crianças não foram vulneráveis a todas as provas. , com o seguinte procedimento:

1. Triagem da audição por via aérea (e óssea, se necessário) realizada em 500, 1000, 2000 e 4000 Hz, através de audiômetro portátil Maico-Modelo MA.20, sem a presença de câmara acústica, em ambiente relativamente ruidoso (razão pela qual, para um gráfico audiométrico ser considerado normal, se define uma margem de segurança de 10 a 15 db).

2. Triagem visual2 1 Trata-se da unidade sanitária local da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo que corresponde a um CS.II, de acordo com a classificação da Secretaria da Saúde. Destina-se a três objetivos básicos: assistência, treinamento e investigação. Quanto ao primeiro aspecto, atende a comunidade estimada aproximadamente de 100.000 habitantes. Para maiores detalhes a respeito, vide Gonçalves e Espírito Santo 6 , 1978. 2 Embora a formação da fonoaudiologia não inclua o estudo da visão, o profissional em questão responsabiliza-se também por esta área. 3 Para apreciação das mesmas, observe-se, preliminarmente, que por razões operacionais todas as crianças não foram vulneráveis a todas as provas. , realizada a partir do aparelho Ortho-rater, que mede acuidade, foria, profundidade e cores (Bausch e Lomb3, s/d).

3. Triagem de linguagem, realizada a partir de testes específicos de avaliação da linguagem e suas funções básicas.

Após a realização das triagens, o paciente é inserido nas alternativas do fluxograma apresentado na Figura.


As terapias fonoaudiológicas compreendem as seguintes etapas: anamnese, exame de linguagem, orientação aos responsáveis, orientação aos professores e terapias fonoaudiológicos semanais (uma vez por semana, 30 min. cada). Esse trabalho é realizado em duas salas, uma de triagem e de terapias fonoaudiológicas em grupo e outra de terapias individuais. A fonoaudióloga responsável pelo setor atua como supervisora e orientadora do trabalho de auxiliares do último ano de fonoaudiologia. As anotações das triagens e dos encaminhamentos são registradas na pasta família da Unidade. As informações obtidas a partir das terapias fonoaudiológicas são arquivadas no Setor de Fonoaudiologia do CSGPS em pastas individuais ou em grupos.

3. RESULTADOS

Os dados obtidos, ainda que preliminares, permitem a identificação de algumas tendências, cuja discussão se encaminha predominantemente para um enfoque empírico descritivo e não bio-fisiológico, dado que inexistem, na casuística considerada, indicações etiológicas das afecções constatadas, em decorrência da própria metodologia assumida.

Observando-se globalmente os resultados das três triagens3 1 Trata-se da unidade sanitária local da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo que corresponde a um CS.II, de acordo com a classificação da Secretaria da Saúde. Destina-se a três objetivos básicos: assistência, treinamento e investigação. Quanto ao primeiro aspecto, atende a comunidade estimada aproximadamente de 100.000 habitantes. Para maiores detalhes a respeito, vide Gonçalves e Espírito Santo 6 , 1978. 2 Embora a formação da fonoaudiologia não inclua o estudo da visão, o profissional em questão responsabiliza-se também por esta área. 3 Para apreciação das mesmas, observe-se, preliminarmente, que por razões operacionais todas as crianças não foram vulneráveis a todas as provas. (Tabela 1), vê-se, entre os pré-escolares, a incidência das alterações fonoaudiológicas com equivalência aparente às visuais.

Ao se procurar definir os grupos de risco para os agravos fonoaudiológicos e de visão, estratificando-se os pré-escolares afetados por idade e sexo (Tabelas 2, 3 e 4), observa-se que, embora não haja uma distribuição por sexo preferencial, há um predomínio relativo dos primeiros elementos com cinco anos de idade, enquanto os segundos predominam em crianças com seis.

A Tabela 5 revela que, da população de pré-escolares rotineiramente inscritos no CSGPS, no período considerado, apenas pouco mais de um terço não apresenta tais agravos detectados.

4. DISCUSSÃO

A referida semelhança na prevalência dos agravos fonoaudiológicos e de visão revela-se surpreendente, quando se observa que, habitualmente, em que pesem flutuações nosográficas regionais, a prática sanitária dá prioridade a realização de provas visuais sobre as fonoaudiológicas. Seria pelo fato de as primeiras implicarem menor gasto operacional que estas? Mas, ao contrário deste, sabe-se que o custo social das afecções de linguagem e audição se revela notavelmente superior. Portanto, a decorrente pseudo-sensação de segurança da autoridade sanitária a respeito, frente aos dados apresentados, mostra-se uma distorção evitável.

Ainda a propósito da Tabela 1, o número de deficientes visuais detectados pela metodologia empregada revela-se inferior ao existente, em nosso meio, decorrente do emprego dos recursos habituais, como é o caso dos estudos de Gonçalves e col.7 (1978), usando a tabela de Snellen, em crianças com idades discretamente superiores ( = 8,15 e 6 = 1,01 anos). A se confirmarem tais números, abre-se espaço para a discussão sobre qual instrumento seria mais adequado de se utilizar: um mais caro de maior acurácia, ou um mais barato, que encerra certa margem de falsos positivos? A respeito, também Rodrigues e col.11, 1972, apresentam dados contributórios.

Interessante também é notar que o número de alterações da linguagem encontradas por esta metodologia de semiologia armada não difere amplamente do obtido por Gonçalves e col.7, 1978, pela anamnese com a mãe. Pode-se daí inferir, por exemplo, que o papel da fonoaudióloga na unidade sanitária local, com relação a afecções da linguagem, não seja precipuamente o de detectar problemas, mas sim o de conscientizar os responsáveis da necessidade de trabalhá-los.

Em compensação ao fato observado de que pouco mais de um terço das crianças examinadas não apresenta agravos em nenhuma das três triagens, vê-se que pouco mais de um sexto apresenta concomitância de agravos de dois tipos. No entanto, quase a metade apresenta um apenas. Estes dados, associados ao fato de que, por exemplo, em 1974, das 5.702.070 crianças matriculadas na primeira série do primeiro grau, apenas 3.963.216 foram aprovadas ao final do período escolar 2, ressalta, portanto, a necessidade da existência de fonoaudiólogas em serviços de Saúde Pública e, decorrentemente, da formação dos correspondentes recursos humanos.

A consideração de, pelo menos, os pontos aqui levantados, parece indicar a conveniência de implementação de estudos mais aprofundados e extensivos dos aspectos apresentados.

AGRADECIMENTOS

À Sra. Polycena Alves Arruda, Educadora Chefe do CSGPS, pela contribuição na coleta dos dados e à Profa. Dra. Sabina Léa Davidson Gotlieb pela orientação na tabulação desses dados.

Recebido para publicação em 08/01/1980

Aprovado para publicação em 21/02/1980

  • 1. AMORIM, A. Fonoaudiologia geral. Săo Paulo, Editora Pioneira, 1972.
  • 2
    ANUÁRIO ESTATÍSTICO DO BRASIL: 1976 (Fundação IBGE) Rio de Janeiro, 1976.
  • 3
    BAUSCH & LOMB INC. Instruciones en español del Master Ortho-Rater y Modified Ortho-Rater. 3a. ed. Rochester, N. Y., s.d.
  • 4. COBLENS, S. L. Optometric public health: a critique and prediction. Amer. J. Optom. Physiol. Opt., 51:346-51, 1974.
  • 5. COOPER, J. et al. Intervention programmes for preschool children with delayed language development: a preliminary. Brit. J. Disord. Commun., 9: 81-91, 1974.
  • 6. GONÇALVES, A. & ESPIRITO SANTO, A.C.G. Relatório das atividades da Direçăo no período de agosto a dezembro de 1977 e perspécticas de atuaçăo. Săo Paulo, Centro de Saúde "Geraldo Paula Souza", Faculdade de Saúde Pública da USP, 1978.
  • 7. GONÇALVES, A. et al. Apresentaçăo e avaliaçăo de um programa anual experimental em saúde-escolar. Rev Adm. paul., 31:45-65, 1978.
  • 8. HAFFNER, A. N. Defining optometric clinical service delivery. Amer. J. Optom., 50:987-90, 1973.
  • 9. LEAVELL, H. & CLARK, E. G. Medicina preventiva. Săo Paulo, Editora Mc Graw-Hill do Brasil, 1976.
  • 10. QUIROS, J. B. & CELLA, M. La dislexia en la nińez. Buenos Aires, Editora Paidós, 1972.
  • 11. RODRIGUES, R. C. et al. Levantamento das condiçőes de Saúde de alunos de estabelecimentos de ensino primário da Secretaria dos Negócios da Educaçăo do Governo do Estado no município de Săo Paulo, Brasil. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 6:343-59, 1972.
  • 12. TRAVIS, L. E. Handbook of speech-pathology and audiology. Englewood Chiffs, N. J., Prentice-Hall, 1957.
  • 13. WILLIAMS, J. F. Learning disability: a multifaceted health threat. Amer. J. Optom. Physiol. Opt., 53:755-7, 1976.
  • 1
    Trata-se da unidade sanitária local da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo que corresponde a um CS.II, de acordo com a classificação da Secretaria da Saúde. Destina-se a três objetivos básicos: assistência, treinamento e investigação. Quanto ao primeiro aspecto, atende a comunidade estimada aproximadamente de 100.000 habitantes. Para maiores detalhes a respeito, vide Gonçalves e Espírito Santo
    6 , 1978.
    2
    Embora a formação da fonoaudiologia não inclua o estudo da visão, o profissional em questão responsabiliza-se também por esta área.
    3
    Para apreciação das mesmas, observe-se, preliminarmente, que por razões operacionais todas as crianças não foram vulneráveis a todas as provas.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      31 Jan 2006
    • Data do Fascículo
      Jun 1980

    Histórico

    • Aceito
      21 Fev 1980
    • Recebido
      08 Jan 1980
    Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo Avenida Dr. Arnaldo, 715, 01246-904 São Paulo SP Brazil, Tel./Fax: +55 11 3061-7985 - São Paulo - SP - Brazil
    E-mail: revsp@usp.br