Equivalência semântica da versão em português do instrumento Abuse Assessment Screen para rastrear a violência contra a mulher grávida

Semantic equivalence of the Portuguese version of the Abuse Assessment Screen tool used for the screening of violence against pregnant women

Resumos

INTRODUÇÃO: Programas de investigação epidemiológica e de ação no âmbito da violência familiar estão em franca ascensão, requerendo instrumentos de aferição adaptados e vertidos para o português. O objetivo do estudo é avaliar a equivalência semântica entre o original em inglês e duas versões para o português do instrumento Abuse Assessment Screen (AAS) usado no rastreamento de casos de violência contra a mulher grávida e recomendar uma versão-síntese para uso corrente. MÉTODOS: O processo de avaliação de equivalência semântica envolveu quatro etapas: tradução, retradução, apreciação formal de equivalência e crítica final através de consultas com especialista na área temática. RESULTADOS: Para cada item do instrumento apresentam-se os resultados relativos às quatro etapas. O texto cobre cada passo do processo que levou à versão final. As duas versões mostraram-se bastante semelhantes, com 14 das 15 assertivas similares, embora a segunda versão tenha se mostrado mais adequada, ainda que para alguns itens tenha sido decidido juntar as duas versões ou mesmo utilizar um item oriundo da versão um. CONCLUSÃO: É importante usar mais de uma versão no processo, em várias etapas de avaliação e de crítica, e discutir a pertinência de se acrescentar uma etapa adicional de interlocução do instrumento com membros da população-alvo.

Violência doméstica; Mulheres maltratadas; Gravidez; Questionários; Pesquisa; Tradução


INTRODUCTION: Research programs and actions regarding family violence have been growing steadily. Therefore, there's a need to develop data collection tools. In Brazil, further problems come up since tools that have been developed elsewhere need to be adapted and translated. This study focuses on the Abuse Assessment Screening (AAS) used to detect violence against pregnant women. The objective is to evaluate the semantic equivalence between the original tool in English and two Portuguese versions, and propose a synthetic version to be used in the field. METHODS: The evaluation of semantic equivalence was carried out in 4 steps: (1) translation, (2) back translation, (3) formal appreciation of equivalence and (4) a final critical assessment by family violence experts. RESULTS: Translation, back translation and the steps 3 and 4 assessment are presented for each item of the tool, along with the original in English. The text covers each discussion that led to the final version. Both versions were quite similar in 14 out of 15 items. Nevertheless, the second version showed to be slightly more adequate although for some items the decision was to combine both versions or, in one case, use an item from version 1. CONCLUSION: The procedure undertaken in this study is discussed in the light of Herdman et al.'s proposal (1998) regarding transcultural equivalence. The study also stresses the importance of using more than one version in the process and the appropriateness of including an additional step about the assessment of the target population's understanding of the tool.

Domestic violence; Battered women; Pregnancy; Questionnaires; Research; Translation


Equivalência semântica da versão em português do instrumento Abuse Assessment Screen para rastrear a violência contra a mulher grávida* * Subvencionado pela Faperj (Processos E-26/171.223/98 e E-26/150.893/99) e pelo CNPq(Processo n o 300234/94-5).

Semantic equivalence of the Portuguese version of the Abuse Assessment Screen tool used for the screening of violence against pregnant women

Michael E Reichenheima, Claudia Leite Moraesa e Maria Helena Hasselmannb

aDepartamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. bDepartamento de Nutrição Social do Instituto de Nutrição da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

DESCRITORES
Violência doméstica#. Mulheres maltratadas#. Gravidez#. Questionários#. Pesquisa, métodos. Tradução. RESUMO

INTRODUÇÃO:

Programas de investigação epidemiológica e de ação no âmbito da violência familiar estão em franca ascensão, requerendo instrumentos de aferição adaptados e vertidos para o português. O objetivo do estudo é avaliar a equivalência semântica entre o original em inglês e duas versões para o português do instrumento Abuse Assessment Screen (AAS) usado no rastreamento de casos de violência contra a mulher grávida e recomendar uma versão-síntese para uso corrente.

MÉTODOS:

O processo de avaliação de equivalência semântica envolveu quatro etapas: tradução, retradução, apreciação formal de equivalência e crítica final através de consultas com especialista na área temática.

RESULTADOS:

Para cada item do instrumento apresentam-se os resultados relativos às quatro etapas. O texto cobre cada passo do processo que levou à versão final. As duas versões mostraram-se bastante semelhantes, com 14 das 15 assertivas similares, embora a segunda versão tenha se mostrado mais adequada, ainda que para alguns itens tenha sido decidido juntar as duas versões ou mesmo utilizar um item oriundo da versão um.

CONCLUSÃO:

É importante usar mais de uma versão no processo, em várias etapas de avaliação e de crítica, e discutir a pertinência de se acrescentar uma etapa adicional de interlocução do instrumento com membros da população-alvo.

KEYWORDS
Domestic violence#. Battered women#. Pregnancy#. Questionnaires#. Research, methods. Translation. ABSTRACT

INTRODUCTION:

Research programs and actions regarding family violence have been growing steadily. Therefore, there's a need to develop data collection tools. In Brazil, further problems come up since tools that have been developed elsewhere need to be adapted and translated. This study focuses on the Abuse Assessment Screening (AAS) used to detect violence against pregnant women. The objective is to evaluate the semantic equivalence between the original tool in English and two Portuguese versions, and propose a synthetic version to be used in the field.

METHODS:

The evaluation of semantic equivalence was carried out in 4 steps: (1) translation, (2) back translation, (3) formal appreciation of equivalence and (4) a final critical assessment by family violence experts.

RESULTS:

Translation, back translation and the steps 3 and 4 assessment are presented for each item of the tool, along with the original in English. The text covers each discussion that led to the final version. Both versions were quite similar in 14 out of 15 items. Nevertheless, the second version showed to be slightly more adequate although for some items the decision was to combine both versions or, in one case, use an item from version 1.

CONCLUSION:

The procedure undertaken in this study is discussed in the light of Herdman et al.'s proposal (1998) regarding transcultural equivalence. The study also stresses the importance of using more than one version in the process and the appropriateness of including an additional step about the assessment of the target population's understanding of the tool.

INTRODUÇÃO

Apesar de a violência familiar ser descrita desde a antigüidade, somente há cerca de 30 anos é que o tema vem sendo sistematicamente discutido por pesquisadores da área de saúde. A importância dada ao problema é fruto da crescente conscientização das hierarquias e das desigualdades de gênero, do paulatino reconhecimento dos direitos da mulher e das consistentes evidências da grande magnitude do fenômeno, principalmente nos Estados Unidos e na Europa.2,14

No Brasil, a dimensão da violência familiar ainda não pôde ser adequadamente identificada.13 No entanto, a despeito do conhecimento ainda ser incipiente, algumas pesquisas sobre o tema têm apontado para um cenário que merece ser enfrentado imediatamente.1,8

Independentemente dos diferentes estágios em que se encontra o conhecimento sobre o assunto em diferentes localidades, programas de investigação epidemiológica e de ação no âmbito da violência familiar estão em franca ascensão.13 Com isso, cresce também a necessidade de aprofundar e aprimorar instrumentos voltados para a detecção e o acompanhamento de vítimas e de suas famílias, bem como de um instrumental de aferição para ser aplicado em contextos de pesquisa. No caso da pesquisa epidemiológica, isto é fundamental.

No Brasil, a questão da instalação e da expansão de programas de investigação voltados para o desenvolvimento de instrumentos de coleta de informação é ainda mais complexa. Além de todas as minúcias requeridas na concepção, no aprofundamento e na consolidação de um instrumento15¾ o que já implica inevitavelmente um longo intervalo entre o início do processo e o seu eventual uso ¾ há o fato de que, muitas vezes, o instrumento não nasce aqui e, portanto, requer ainda mais estudos para poder ser usado na língua portuguesa. Aceitando-se que é importante fazer comparações de resultados e de perfis epidemiológicos entre diferentes localidades e culturas, é mister que se avalie com rigor a equivalência entre um instrumento no idioma original e suas diversas versões. Uma vez que boa parte do instrumental em violência familiar tem sido concebida e estabelecida alhures, programas de investigação de equivalência transcultural são desejáveis e necessários.5

O presente estudo enfoca precipuamente o instrumento Abuse Assessment Screen (AAS), desenvolvido nos EUA, em 1989, pelo Nursing Research Consortium on —Violence and Abuse.6,7,9,10 O AAS visa especificamente o rastreamento de casos de violência contra a mulher durante a gestação, um evento freqüentemente descrito fora do Brasil,3 mas ainda pouco estudado no País. O instrumento contém cinco questões para identificar a freqüência e a gravidade do evento, os sítios de lesão corporal acometidos em um período específico e o perfil do perpetrador. McFarlane et al6 relatam o estabelecimento de validade de conteúdo. Em McFarlane et al7 e Norton et al9 encontram-se evidências de que há boa consistência de detecção de violência contra a grávida entre o AAS e outros instrumentos afins.

O presente estudo tem o objetivo de avaliar a equivalência semântica entre itens constituintes do instrumento AAS original em inglês e de duas versões para o português e, subseqüentemente, propor uma versão-síntese para uso corrente.

MÉTODOS

O processo de avaliação de equivalência semântica envolveu quatro etapas: tradução, retradução, apreciação formal de equivalência e uma crítica final por especialistas na área temática.

A etapa 1 consistiu em duas traduções do instrumento original (inglês) para o português, realizadas de forma independente. A primeira versão (V1) foi feita por um profissional de nível superior formado em letras e com especialização em inglês. Um profissional com experiência na área temática (violência familiar) e fluente no idioma inglês fez a segunda versão (V2).

Na etapa 2, a V1 e a V2 foram retraduzidas para o inglês por, respectivamente, um segundo profissional de nível superior formado em letras e com especialização em inglês (R1) e uma tradutora juramentada (R2). Tais retraduções ocorreram novamente de forma independente e, desta feita, mascaradas em relação ao perfil profissional dos que atuaram na primeira etapa.

A apreciação formal da equivalência semântica (etapa 3) foi realizada, subseqüentemente, por um profissional com o mesmo perfil daqueles envolvidos em V1 e R1. Duas questões distintas foram apreciadas. Primeiro, avaliou-se a equivalência semântica entre o original e cada uma das retraduções sob a perspectiva do significado referencial dos termos/palavras constituintes.5 O significado referencial representa as idéias ou objetos do mundo que uma única ou um conjunto de palavras aludem. Presume-se que, se o significado referencial é o mesmo no original e na respectiva versão, existe uma correspondência literal entre estes.

O segundo aspecto apreciado representou o significado geral de cada pergunta, instrução ou opção de resposta do AAS, captado na versão em português em comparação ao original. Esta correspondência transcende a literalidade de termos ou assertivas, encampando também aspectos mais sutis, como, por exemplo, o impacto que estas têm no contexto cultural da população-alvo. Nesse sentido, interessa avaliar a pertinência e a aceitabilidade do estilo empregado ou o uso específico de uma palavra, escolhida dentre uma gama de termos similares formando um matiz (como, por exemplo, o gradiente convergido pelos termos "bater", "surrar" ou "espancar"). Esta apreciação é importante porque a correspondência literal de um termo não implica, necessariamente, que a mesma reação emocional ou afetiva seja evocada em diferentes culturas. Assim, é indispensável uma sintonia fina que alcance também uma correspondência de percepção e de impacto.5

Esta questão é particularmente relevante em relação aos instrumentos usados no âmbito da violência familiar, pois uma palavra ou assertiva usada com a intenção de agredir psicologicamente pode ter uma grande capacidade de insulto no contexto e local de origem, ao passo que a versão literal do termo, usada agora em uma novo contexto sociocultural, pode carecer de poder afrontante e não ser tão ofensiva. Neste caso, uma substituição por outro termo permitiria resgatar plenamente a equivalência desejada.

Para cada aspecto de equivalência semântica avaliado, foram usados formulários específicos. Três formulários para cada tipo de significado foram submetidos à apreciação. Dois continham assertivas ¾ perguntas, instruções ou opções de resposta ¾ oriundas do original, posicionadas lado-a-lado às das duas retraduções, respectivamente. O terceiro formulário continha pares com as assertivas das duas retraduções, mas não foi avaliado formalmente na etapa 4; serviu somente como um estratagema processual de mascaramento, com o objetivo de evitar que os avaliadores identificassem a origem das assertivas.

No formulário usado para apreciar o significado referencial, optou-se por escalas visuais (Visual Analogue Scale ¾ VAS) como opção de resposta.15 Desta forma, a equivalência entre pares de assertivas pôde ser julgada de forma contínua, entre 0% e 100%. No outro formulário, usado para a avaliação de significado geral, optou-se por uma qualificação em quatro níveis: inalterado (IN), pouco alterado (PA), muito alterado (MA) ou completamente alterado (CA).

Na última etapa (4), foi realizada uma crítica do processo, com o objetivo de identificar e encaminhar os problemas de cada uma das etapas pregressas. A partir daí, pôde-se propor uma versão sintética, escolhendo e incorporando itens oriundos de uma das duas versões trabalhadas ou optando por certas modificações para melhor atender os critérios expostos acima.

RESULTADOS

A Tabela 1 capta os resultados das etapas 1 a 3. São apresentados itens do formulário original em inglês, as duas traduções e suas respectivas retraduções.

A Tabela 2 sintetiza as decisões tomadas após a quarta etapa, consolidadas no instrumento em português proposto para uso, apresentado no Anexo. Alguns pontos referentes ao processo de decisão são destacados a seguir.

Como um todo, as duas versões mostraram-se bastante semelhantes. A Tabela 2 mostra que, em 14 dos 15 itens, as assertivas eram similares. Contudo, seguindo os critérios expostos na metodologia, na etapa 4, deu-se alguma primazia à V2 na especificação da versão final. Em alguns casos, como no item (n), a escolha foi menos estilística e mais substantiva. Fez-se a opção por preservar a sutileza do termo "sexual activities" e usar, na versão final, a tradução literal "atividades sexuais" da segunda versão. A tradução "relações sexuais", encontrada em V1 e rejeitada na etapa 4, seria restritiva, uma vez que certas atividades sexuais não necessariamente implicam em uma relação sexual. Entendeu-se que, se na concepção do instrumento original os autores quisessem especificamente caracterizar uma relação sexual, o teriam feito usando os termos específicos.

Em duas situações decidiu-se juntar termos similares das duas versões, com a finalidade de melhor cobrir o significado na versão em português. No item (h) optou-se por usar tanto o termo "maus-tratos" quanto "agressão", por melhor abarcarem, em conjunto, o termo inglês "abuse". Pelos mesmos motivos, no item (i) decidiu-se incorporar na versão final os termos "sem machucar" e "[sem] ferimento" para captar "no injuries".

No item (m), as duas versões concordaram por completo. Esta apreciação decorre somente da etapa 4, uma vez que a avaliação feita na etapa 3 qualificou muito mal a primeira versão (Tabela 2). No entanto, observa-se que o problema ocorre principalmente na retradução (R1), sendo a tradução em si (V1) idêntica à V2. A decisão tomada na quarta etapa é respaldada pela congruência da retradução de V2. Aliás, o mesmo problema ocorreu em relação ao item (h). Apesar da retradução insatisfatória e da subseqüente avaliação ruim na terceira etapa, na etapa de crítica decidiu-se aceitar V1 e juntar seu conteúdo com V2, conforme já descrito.

No outro extremo, apesar de alguma similaridade nas assertivas das versões quanto ao item (j), nenhuma das duas mostrou-se adequada, tendo-se optado por uma terceira alternativa. Nem o termo "equimoses", nem "murro" seriam apropriados para captar "bruises". O termo "equimoses", encontrado em V1, ainda que correto do ponto de vista da tradução literal, sofreria de pouca equivalência de estilo, uma vez que se trata de um termo sofisticado, eminentemente médico e de pouca circulação e entendimento na população alvo que o instrumento pretende cobrir. O termo "murro" usado em V2 foi julgado como sendo equivocado. Optou-se por uma modificação, propondo-se "machucado/mancha roxa" para representar o termo "bruises".

No único item discordante (g), a primeira versão mostrou-se mais apropriada, ao contrário da tendência geral. A decisão, na etapa 4, de usar V1, contrariou e sobrepujou a avaliação da etapa 3. Entendeu-se que, no contexto do instrumento em que o item é usado, "score" seria sinônimo de "mark", tornando, portanto, apropriado o uso do termo português "marque". Ainda que aparentemente uma decisão trival, o fato é que o entendimento de "score" como "escore" (como, aliás, ocorreu em V2 e que acarretou em uma má avaliação na 3ª etapa), teria, obviamente, implicado um significado completamente distinto.

Em uma única oportunidade decidiu-se por uma modificação em que explicitamente se mexe na estrutura do instrumento original. Foi na quarta etapa, em que se eliminou por completo a alternativa "vários"/"múltiplos" das perguntas complementares das questões 2, 3 e 4 ¾ item (e). Tal como está formulada no AAS, a pergunta sobre o status do perpetrador permite mais de uma opção como resposta, o que torna a última opção redundante.

DISCUSSÃO

A validade de uma investigação epidemiológica depende de vários quesitos, dentre os quais a validade das informações colhidas.11 Não só importa a qualidade do processo de coleta, mas também a do instrumento utilizado. Para ser considerado válido, um instrumento deve ser capaz de captar adequadamente o evento ou o conceito subjacente. Nesse sentido, se já é laborioso alcançar essa validade no âmbito do contexto lingüístico em que um instrumento é concebido, isto é ainda mais difícil quando um instrumento necessita ser usado em uma língua estrangeira.

Herdman et al4 trouxeram à baila esta questão no contexto dos programas de investigação sobre qualidade de vida, identificando a confusão terminológica e uma real carência de sistemática na avaliação de equivalência transcultural entre instrumentos desenvolvidos em um certo idioma e sua(s) versão(ões). Apontam os citados autores que, em última instância, a falta de equivalência transcultural leva ao comprometimento da validade de informação e, assim, à incapacidade de corretamente estudar-se um conceito. Dando seqüência a esta crítica, Herdman et al5 oferecem um roteiro de investigação, no âmbito da equivalência transcultural, que envolve aprofundamento cronologicamente ordenado de seis subtipos de equivalência: conceitual, de itens, semântica, operacional, de mensuração e funcional.

Mesmo que nenhuma crítica similar pudesse ser identificada na literatura sobre violência familiar, é de se supor que as mesmas deficiências também ocorram aqui. Assim sendo, programas de investigação sobre a equivalência transcultural calcados em roteiros definidos são necessários e bem-vindos. O presente estudo pretende ser uma instância dessa nova agenda, procurando pautar-se no referido roteiro.

Admite-se que o presente estudo aceita tacitamente a pertinência da equivalência conceitual e de itens, enfocando imediata e exclusivamente a equivalência semântica. Mesmo que seja possível argumentar que o AAS, por ser eminentemente factual e abarcar conceitos genuinamente universais, não exige maiores aprofundamentos, ainda teria sido conveniente percorrer as duas primeiras etapas da avaliação de equivalência transcultural. Isto não pôde ser realizado devido a questões de ordem logístico-operacionais ligadas ao estudo de fundo no qual se aninha a presente investigação.12

Uma outra lacuna diz respeito à inexistência, por ora, de uma avaliação de equivalência de mensuração.5 No entanto, avaliações neste âmbito (consistência interna, teste-reteste e validade de constructo, entre outros) estão previstas para um futuro próximo, assim que a versão em português do AAS for utilizada no estudo de fundo. Essas limitações circunstanciais necessitam ser observadas no caso de um possível uso da versão em português do instrumento AAS por parte do leitor.

Na mesma linha de argumentação, é importante destacar o fato de que, a despeito de não ter sido um objetivo explícito do estudo, a equivalência operacional parece estar bem cuidada, uma vez que se procurou respeitar o layout do original na versão final em português e o modo de aplicação, utilizando entrevistas, ser semelhante.5 É possível assumir a equivalência operacional como realizada.

Do ponto de vista processual, destaca-se a relevância de se usar e se confrontar mais de uma versão. Além de possibilitar uma escolha de itens a incorporar ou, ainda, permitir a junção de itens oriundos de diferentes versões, esta estratégia permite escrutinar a seqüência dos procedimentos, incluindo as próprias traduções, suas retraduções e as apreciações que se seguem. A importância de uma crítica geral também deve ser ressaltada. Na quarta etapa foi possível detectar problemas nas fases anteriores do estudo e, daí, redirecionar decisões que, do contrário, teriam sido, no mínimo, insatisfatórias.

Ainda no âmbito da avaliação da equivalência semântica, seria proveitoso se uma etapa adicional de interlocução com membros da população-alvo também fosse implementada. Solicitar a uma amostra da população-alvo para parafrasear itens traduzidos pode lançar luz sobre possíveis incongruências de significados entre o original e a versão proposta. Esta atividade complementar está prevista no decorrer do estudo de fundo.12

Deve-se enfatizar que a presente versão é proposicional, podendo a comunidade interessada em violência familiar opinar e oferecer suas críticas, para aprimorar a versão em português do instrumento AAS.

Correspondência para/Correspondence to:

Michael E. Reichenheim

Instituto de Medicina Social da UERJ

Núcleo de Pesquisas das Violências

Rua São Francisco Xavier, 524, 7º andar, bloco D

20559-900 Rio de Janeiro, RJ, Brasil

E-mail:michael@ims.uerj.br

Recebido em 25/8/1999. Reapresentado em 25/8/2000. Aprovado em 19/9/2000

  • 1
    ABRAPIA. Maus tratos contra crianças e adolescentes: proteção e prevenção - Guia de orientação para profissionais de saúde. Petrópolis: ABRAPIA; 1992.
  • 2. Gelles RJ. Intimate violence in families London: SAGE Publications; 1997.
  • 3. Heise L. Gender-based abuse: the global epidemic. Cad Saúde Pública 1994;10:135-45.
  • 4. Herdman M, Fox-Rushby J, Badia X. "Equivalence" and the translation and adaptation of health-related quality of life questionnaires. Qual Life Res 1997;6:237-47.
  • 5. Herdman M, Fox-Rushby J, Badia X. A model of equivalence in the cultural adaptation of HRQoL instruments: the universalist approach. Qual Life Res 1998;7:323-35.
  • 6. McFarlane J, Parker B, Soeken K, Bullock L. Assessing for abuse during pregnancy: severity and frequency of injuries and associated entry into prenatal care. JAMA 1992;267:3176-8.
  • 7. McFarlane J, Parker B, Soeken K. Abuse during pregnancy: association with maternal health and infant birth weight. Nurs Res 1996;45:37-42.
  • 8
    Ministério da Saúde. Violência contra a criança e o adolescente: proposta preliminar de prevenção e assistência à violência doméstica. Brasília (DF): MS/SASA; 1997.
  • 9. Norton LB, Peipert JF, Zierler S, Lima B, Hume L. Battering in pregnancy: an assessment of two screening methods. Obstet Gynecol 1995;85:321-5.
  • 10. Parker B, McFarlane J. Identifying and helping battered pregnant women. MCN Am J Matern Child Nurs 1991;16:161-4.
  • 11. Reichenheim ME, Moraes CL. Alguns pilares para a apreciaçăo da validade de estudos epidemiológicos. Rev Bras Epidemiol 1998;1:131-48.
  • 12. Reichenheim ME, Moraes CL. Estudo caso-controle da violęncia domiciliar como fator de propensăo de prematuridade: projeto de pesquisa Rio de Janeiro: Instituto de Medicina Social, UERJ; 1998.
  • 13. Reichenheim ME, Hasselmann MH, Moraes CL. Conseqüęncias da violęncia familiar na saúde da criança e do adolescente: contribuiçőes para a elaboraçăo de propostas de açăo. Cienc Saúde Coletiva 1999;1:109-21.
  • 14. Straus MA, Gelles RJ. Physical violence in American families: risk factors and adaption to violence in 8.145 families New Brunswick: Transaction Publisher; 1990.
  • 15. Streiner DL, Norman GR. Health measurement scales: a practical guide to their development and use Oxford: Oxford University Press; 1989.

Anexo

  • *
    Subvencionado pela Faperj (Processos E-26/171.223/98 e E-26/150.893/99) e pelo CNPq(Processo n
    o 300234/94-5).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2001
  • Data do Fascículo
    Dez 2000

Histórico

  • Aceito
    19 Set 2000
  • Revisado
    25 Ago 2000
  • Recebido
    25 Ago 1999
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo Avenida Dr. Arnaldo, 715, 01246-904 São Paulo SP Brazil, Tel./Fax: +55 11 3061-7985 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revsp@usp.br