Levantamentos parasitológicos, em particular a esquistossomose mansônica, nas cidades de Itanhaém e Mongaguá (Litoral Sul do Estado de São Paulo)

Parasitological studies in particular schistosomiasis mansoni in the counties of Itanhaém and Mongaguá (Southern coast of the State of São Paulo, Brazil

Paulo de Toledo Artigas Mário Demar Perez Josué Massanao Otsuko Getulio Nishimori Sobre os autores

Resumos

São apresentados os resultados dos exames parasitológicos obtidos em levantamentos realizados na cidade de Itanhaém, em 1968, e de Mongaguá, em 1969. Entre os casos de esquistossomose registrados não houve nenhum identificado como autóctone das áreas estudadas; os exemplares de Biomphalaria tenagophila coletados estavam negativos para formas evolutivas do Schistosoma mansoni.


The results of parasitological human fecal examinations obtained through studies performed in Itanhaém and Mongaguá, in the Southern Coast of the São Paulo State, are reported. In spite of 51 cases of human schistosomiasis found, there was not a single case identified as autochton. Many specimens of Biomphalaria tenagophila, a good intermediate host were found, but were negative for Schistosoma mansoni larval forms. There were also registered Trichostrongylidae eggs in mine persons and one case with Meloidogyne sp eggs.


ARTIGO ORIGINAL

Levantamentos parasitológicos, em particular a esquistossomose mansônica, nas cidades de Itanhaém e Mongaguá (Litoral Sul do Estado de São Paulo)1 1 Apresentado na sessão de 5-5-69 do Departamento de Higiene e Medicina Tropical da Associação Paulista de Medicina – São Paulo, S.P., Brasil

Parasitological studies in particular schistosomiasis mansoni in the counties of Itanhaém and Mongaguá (Southern coast of the State of São Paulo, Brazil

Paulo de Toledo ArtigasI; Mário Demar PerezI; Josué Massanao OtsukoII; Getulio NishimoriII

IDo Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas da U.S.P. – São Paulo, S.P., Brasil

IIAluno monitor dos serviços parasitológicos da Jornada Científica do Centro Acadêmico de Farmácia e Bioquímica – São Paulo, S.P., Brasil

RESUMO

São apresentados os resultados dos exames parasitológicos obtidos em levantamentos realizados na cidade de Itanhaém, em 1968, e de Mongaguá, em 1969. Entre os casos de esquistossomose registrados não houve nenhum identificado como autóctone das áreas estudadas; os exemplares de Biomphalaria tenagophila coletados estavam negativos para formas evolutivas do Schistosoma mansoni.

SUMMARY

The results of parasitological human fecal examinations obtained through studies performed in Itanhaém and Mongaguá, in the Southern Coast of the São Paulo State, are reported. In spite of 51 cases of human schistosomiasis found, there was not a single case identified as autochton. Many specimens of Biomphalaria tenagophila, a good intermediate host were found, but were negative for Schistosoma mansoni larval forms. There were also registered Trichostrongylidae eggs in mine persons and one case with Meloidogyne sp eggs.

INTRODUÇÃO

O Centro Acadêmico de Farmácia e Bioquímica, em colaboração com a Cadeira de Parasitologia da Faculdade de Farmácia e Bioquímica da Universidade de São Paulo realizou, nos anos de 1966 e 1967, no município de Peruibe (litoral sul do Estado de São Paulo) a primeira e segunda Jornadas Científicas, visando em particular a obtenção de dados epidemiológicos relativos à esquistossomose mansônica.

Na zona urbana de Peruibe foram então identificados casos autóctones da parasitose em estudo (ARTIGAS, PÉREZ & BAGGIO¹, 1969) e focos de Biomphalaria tenagophila infestados com Schistosoma mansoni (PEREZ & ARTIGAS4, 1969). Os resultados dos trabalhos na zona rural ainda não foram dados à publicidade, pois não tendo sido concluídos durante a Segunda Jornada, ainda estão em fase de elaboração.

A fim de se ter conhecimento da extensão da parasitose na faixa litorânea que se extende desse município até o de São Vicente, já identificado como área endêmica, as cidades de Itanhaém e de Mongaguá foram escolhidas, respectivamente, para a realização, em 1968, da Terceira Jornada, e em 1969, da Quarta Jornada, sendo que em Itanhaém as atenções estiveram voltadas para os bairros "Belas Artes" e "Jardim Ivoty", por concentrarem número significativo da população fixa, enquanto que em Mongaguá foi coberta tôda a área urbana.

MÉTODOS DE TRABALHO

Em Itanhaém o mapeamento das áreas escolhidas foi facilitado pelo material fornecido pela Prefeitura Municipal dêsse Município e pela "Imobiliária Novarro", tendo sido, para melhor condição de trabalho, cada bairro dividido em 4 zonas.

Foram incluídos no levantamento parasitológico 696 indivíduos; para a realização do sorteio das casas, as mesmas foram distribuídas em grupos de 100 (cem), observada a numeração dada prèviamente, pela Jornada, de forma a ocorrer em cada zona número de casas sorteadas proporcional ao número das existentes, o que permite a obtenção de amostragem mais homogênea. O número das sorteadas foi de 208, o que corresponde a 25% das ocupadas pela população fixa.

A cidade de Mongaguá foi dividida em duas áreas: a área "A", também denominada de "além linha", compreendida entre os morros e a Estrada de Ferro Sorocabana, que corta a cidade em tôda sua extensão e a área "B", "aquém linha", situada entre a Estrada de Ferro e o Oceano. Cada área por sua vez foi subdividida em zonas: I A, II A, III A e I B, II B, III B e IV B, respectivamante, tendo a zona II A avançado, devido condições sócio-econômicas idênticas, em parte da área B, até atingir a rua Inocêncio dos Passos. Foram sorteadas 80% das casas da população fixa, sendo que a área A, por concentrar maior número da população fixa e apresentar piores condições sócio-econômicas, contribuiu com 62% do total das casas sorteadas. Participaram do censo coprológico 567 pessoas, respectivamente, 388 da área A e 179 da área B.

Foram pesquisadas tôdas as valas que cortam as áreas habitadas; assim é que da zona I A, o trabalho se extendeu do Rio Quarenta até a Rua Campos Sales; da zona II A, dessa Rua até o Rio Mongaguá, além das valas que correm ao longo da Estrada de Ferro e da Rua Duque de Caxias até a praça de retôrno; as que correm ao longo das Ruas Bruno Tamagnini, Olindo Tamagnini e Giácomo Zorzi, assim como a que se extende da Rua Bruno Tamagnini à Avenida das Gaivotas; na zona III A, do Rio Mongaguá até a Rua Cascata. Nas zonas IB e II B, as valas entre o Rio Mongaguá e o Rio Quarenta, e as Avenidas São Paulo; o Rio Quarenta, no trecho compreendido entre a Rua São Paulo e a Estrada de Ferro, valas que margeiam a Estrada de Ferro, no trecho compreendido entre o Rio Guapiu e a Rua Campos Sales; nas zonas III B, trecho compreendido entre a Rua Sete de Setembro e a José Menossian e, finalmente, na zona IV B, as valas da Rua da Cascata, compreendida entre a Rua São Paulo e a Rua das Batuiras.

Em sua maioria, as valas apresentavam-se sêcas e cobertas, total ou parcialmente, por vegetações, que em alguns pontos, sobretudo nas que se extendiam ao longo da Estrada de Ferro, atingia cêrca de 70 cm de altura, o que dificultava sobremaneira o trabalho realizado.

Em ambos os levantamentos, cada amostra de fezes, submetida aos métodos de Faust modificado, de Willis e de Hoffman, Pons e Janner, foi examinada por quatro alunos, distribuída em 4 preparações, uma lâmina para cada método, com exceção do sedimento cujo exame era repetido duas vêzes, com tempo mínimo de 30 minutos para cada sedimentação.

As coletas de planorbídeos foram realizadas em períodos compreendidos entre 9 h e 17 h, horários de verão, sendo oa mesmos examinados após dilaceração; em Itanhaém, devido ao grande número de valas existentes, foram pesquisadas apenas as que apresentavam maior interêsse epidemiológico, ao passo que em Mongaguá foram examinadas todas as que cortam a cidade.

RESULTADOS

1. DE ITANHAÉM

1.1 – Exames coprológicos

Das 696 pessoas participantes do censo coprológico, 424 – isto é, 60,8% – estavam parasitadas por protozoários e 662 – ou seja, 95,1% – por helmintos (Tabelas 1 e 2).

Dos casos positivos para amebas, não foi possível, em 15 dêles – 2,1% – fazer-se a identificação específica do parasito; entre os portadores de helmintos foram encontrados 9 – 1,3% – positivos para ovos de Trichostrongylidae (Nematoda, Trichastrongyloidea) e um para ovos de Meloidogyne sp (= Heterodera sp).

Dos 31 – 4,5% – casos positivos para Schistosoma mansoni, 2 foram, a princípio, tidos como suspeitos de serem autóctones de Itanhaém, porém, em visita posterior à cidade para confirmação de dados, do primeiro (E. S., com 13 anos de idade, sexo masculino, côr parda) obtivemos informações que alteravam o quadro anamenéstico da primeira entrevista, e o segundo (I. C. C., com 6 anos de idade, sexo feminino, cor parda) não foi localizado; por tais motivos as fichas correspondentes foram confiadas ao médico-sanitarista local para posterior confirmação; os demais são de indivíduos procedentes dos Estados de Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, ou de outras localidades do Estado de São Paulo: Pedro de Toledo, Ana Dias, Biguá e Guarujá.

Taxas Percentuais Específicas

A – Protozoários

B – Helmintos

1.2 – Estudo dos planorbídeos

Nas 14 coletas realizadas, foram recolhidos 2.186 exemplares de planorbídeos, identificados como Biomphalaria tenagophila, tendo sido examinados 2.143, todos negativos para formas evolutivas do Schistosoma mansoni, sendo que alguns estavam infestados por formas evolutivas de outros trematóideos, das quais registramos cercárias dos grupos Leptocercaria, Hemiurocercaria e Furcocercaria; pertencendo ao primeiro, identificamos paranfistomo e xifidiocercárias e, ao último, cercárias Longifurcata, incluindo a Cercaria caratinguensis Ruiz, 1935.

2. DE MONGAGUÁ

2.1 – Exames coprológicos

Na área A, 348 indivíduos, correspondendo a 98,7%, tiveram os exames de fezes positivos e na área B, a porcentagem de positividade foi de 79,3%, isto é, 142 indivíduos, sendo que na área total estudada o número de pessoas infestadas por protozoários foi de 185 (=32,6%); por helmintos foi de 473, ou seja, de 83,4% (Tabelas 3 e 4, distribuição por grupos etários e por sexo).

Taxas Percentuais Específicas

A – Protozoários

B – Helmintos

Das pessoas parasitadas, 159 – 28,0% – de acordo com os resultados dos exames, eram portadoras de duas especies de parásitos e 103 – 18,1% – apresentavam pluri-infestação.

Dos indivíduos parasitados por Schistosoma mansoni, 11 procediam dos Estados da Bahia, Minas Gerais, Alagoas, Pernambuco e da Paraíba e os 9 restantes de diferentes pontos do Estado de São Paulo: sendo 8, constituintes da mesma família, de Pedro de Toledo (L. B., 59 anos de idade, sexo feminino; J. S., 42 anos de idade, sexo masculino; M. L. S., 15 anos de idade, sexo feminino; S. L. S., 13 anos de idade, sexo feminino; A. L. S., 10 anos de idade, sexo masculino; M. L. S., 10 anos de idade, sexo masculino; N. F., 7 anos de idade, sexo feminino e A. L. S., 2 anos de idade, sexo feminino, todos de côr preta )e 1 de Pedro de Barros H. L., 6 anos de idade, sexo feminino, côr prêta) ; segundo informações o local de infestação dos casos de Pedro de Toledo é o Rio do Peixe, sendo que, em Mongaguá, a família em questão freqüenta o Rio Aguapiu.

Registrou-se ainda um caso de infestação por Chilomastix mesnili, que não consta da Tabela 3, de urna menor de 12 anos de idade, sexo feminino.

2.2 – Estudos dos planorbídeos

Foram encontrados planorbídeos apenas nas valas da Rua da Cascata, no trecho compreendido entre as ruas São Paulo e das Batuiras e em valas dessa última rua; foram coletadas 1.046 exemplares de Biomphalaria tenagophila, que ao exame se mostraram negativos para formas evolutivas de trematóides, porém a maioria estava positiva para Chaetogaster sp (Annelida, Oligochaeta) que segundo Ruiz5 (1951) são cercariófagas.

Em diversos pontos foram coletados moluscos da família Ampullariidae pertencentes ao gênero Ampullarius (=Ampularia), terminologia baseada em TAYLOR & SOHL6 (1962).

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

Os dados apresentados neste trabalho, associados aos das Jornadas anteriores, permitem concluir que a faixa do litoral sul do Estado de São Paulo, que se extende de Peruibe até Mongaguá, apesar de apresentar condições favoráveis, como a presença de indivíduos parasitados eliminando ovos de Schistosoma mansoni e a de Biomphalaria tenagophila, que em certos pontos do Estado de São Paulo tem se mostrado hospedeiro intermediário de primeira grandeza do esquistossomídeo em aprêço, além das baixas condições sócios-econômicas, a esquistossomose, com exceção da zona urbana de Peruibe, não se apresenta, ao menos por ora na condição de autóctone.

O registro da ocorrência, em Itanhaém, de 9 casos positivos para ovos de trichostrongilídeos, correspondendo à 1,3%, vem se juntar ao de CORRÊA 2 (1948) que, em levantamento realizado no período de 1942 a 1948, no Município de São Paulo, em 46.951 indivíduos, constatou 95 positivos, ou seja, 0,15%.

Em Itanhaém foram ainda registrados 3 casos de infestação por Hymenolepis nana, que não constam na Tabela 2, em crianças com 3, 4 e 7 anos de idade, sendo a primeira e a última do sexo feminino.

Com relação aos planorbídeos, CORRÊA et al.3 (1962), em duas pesquisas, realizadas em Itanhaém, coletaram e examinaram 275 exemplares de Biomphalaria tenagophila com resultados também negativos.

Recebido para publicação em 19-3-1970

  • 1. ARTIGAS, P. T.; PEREZ, M. D. & BAGGIO, D. Censo coprológico no município de Peruibe (litoral sul do Estado de São Paulo). Registro de casos autóctones de esquistossomose Mansoni. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 3:141-47, dez. 1969.
  • 2. CORRÊA, M. O. A. Considerações em tôrno da ocorrência de ovos de helmintos da família Trichostrongylidae (Leiper, 1912) em fezes humanas. Rev. Inst. A. Lutz, 8:87-98, 1948.
  • 3. CORRÊA, R. R. et al. Planorbídeos da Estado de São Paulo. Sua relação com a esquistossomose (Pulmonata, Planorbidae). Arq. Hig., S, Paulo, 27:139-59, jun. 1962.
  • 4. PEREZ, M. D. & ARTIGAS, P. T. Contribuição ao levantamento da Carta Planorbídica do Estado de São Paulo. Pesquisa de focos cem formas evolutivas do Schistosoma mansoni. II Município de Peruibe (litoral sul do Estado de São Paulo). Rev. Saúde públ., S. Paulo, 3:149-52, dez. 1969.
  • 5. LUIZ, J. M. Nota sôbre a cercariofia de um Oligochaeta de gênero Chaetogaster v. Baer, 1827. An. Fac. Farm. Odont., S. Paulo, 9:51-6, 1951.
  • 6. TAYLOR, D. W. & SOHL, N. F. An outline of gastropod classification. Malacologia, 1:7-32, Oct. 1962.

  • 1
    Apresentado na sessão de 5-5-69 do Departamento de Higiene e Medicina Tropical da Associação Paulista de Medicina – São Paulo, S.P., Brasil

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Set 2006
  • Data do Fascículo
    Jun 1970
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