Moradia universitária: processos de socialização e consumo de drogas

Resumos

OBJETIVO: Conhecer e analisar o discurso dos moradores de um conjunto residencial estudantil universitário sobre os processos de socialização e consumo de drogas. MÉTODOS: Pesquisa qualitativa, realizada com 20 alunos de graduação residentes em moradia estudantil universitária em São Paulo, SP, 2003. Tomou-se a moradia como um espaço de socialização juvenil que viabiliza a presença de estudantes de baixa renda, na universidade. As entrevistas abordaram o conhecimento dos alunos sobre a história da moradia, a experiência de viver em uma moradia estudantil e a percepção dos moradores sobre o consumo de drogas. O procedimento metodológico que serviu de base para a coleta, organização e análise das entrevistas foi o discurso do sujeito coletivo. RESULTADOS: Os resultados mostraram que: os estudantes têm pouco conhecimento sobre a história da moradia; as alternativas para os problemas que enfrentam na moradia têm sido buscadas individualmente; observou-se entre os moradores as duas principais concepções de prevenção ao consumo de drogas - guerra às drogas e redução de danos. Observou-se haver uma visão negativa sobre a moradia estudantil relacionada com a constante divulgação de fatos conturbados e com o desconhecimento sobre a importância da moradia para viabilizar a permanência de estudantes pobres na universidade. CONCLUSÕES: Na opinião de seus moradores, a moradia estudantil viabiliza o acesso a universidade, apesar de dificuldades na convivência coletiva e na administração da universidade. Em relação ao uso de drogas na moradia, parte dos moradores ressalta a necessidade de menor tolerância ao consumo de drogas e outra parte destaca a importância de trabalho educativo, principalmente com os ingressantes.

Comportamento social; Estudantes; Habitação social; Drogas ilícitas; Conhecimentos; Entrevistas; Pesquisa qualitativa


OBJECTIVE: To investigate and analyze the discourse of students living in university residence halls regarding socialization processes and drug consumption. METHODS: This was qualitative research among 20 undergraduate students living in university residence halls in the city of São Paulo, Brazil, in 2003. Residence halls were taken to be socialization spaces for young people that enable the presence of low-income students at university. The interviews covered students' knowledge of the history of the residence hall, their experience of living in student residences and their perceptions regarding drug consumption. The methodological procedure that served as the basis for collection, organization and analysis of the interview data was examination of the collective discourse of the subjects. RESULTS: It was shown that the students had little knowledge of the history of the residence hall; solutions for problems they faced in the residence hall were sought individually; and the two main concepts observed among the people living there for preventing drug consumption were war on drugs and damage limitation. It was seen that there was a negative view regarding student residence halls that related to the constant publication of disturbing events and lack of knowledge of the importance of residence halls for enabling poor students to remain at university. CONCLUSIONS: In the opinion of the people living in student residence halls, such accommodation enables access to university, despite the difficulties in living together and in administration by the university. With regard to the use of drugs in the residence hall, some of the people living there emphasized the need for less tolerance towards drug consumption, while others stressed the importance of educational work, particularly among those who are just starting to live there.

Social behavior; Students; Low-cost housing; Street drugs; Health knowledge; Health knowledge; Interviews; Qualitative research


ARTIGOS ORIGINAIS

Moradia universitária: processos de socialização e consumo de drogas

Thais Helena Mourão LaranjoI; Cássia Baldini SoaresII

ICentro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas de Ermelino Matarazzo. Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

IIDepartamento de Enfermagem em Saúde Coletiva. Escola de Enfermagem. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

RESUMO

OBJETIVO: Conhecer e analisar o discurso dos moradores de um conjunto residencial estudantil universitário sobre os processos de socialização e consumo de drogas.

MÉTODOS: Pesquisa qualitativa, realizada com 20 alunos de graduação residentes em moradia estudantil universitária em São Paulo, SP, 2003. Tomou-se a moradia como um espaço de socialização juvenil que viabiliza a presença de estudantes de baixa renda, na universidade. As entrevistas abordaram o conhecimento dos alunos sobre a história da moradia, a experiência de viver em uma moradia estudantil e a percepção dos moradores sobre o consumo de drogas. O procedimento metodológico que serviu de base para a coleta, organização e análise das entrevistas foi o discurso do sujeito coletivo.

RESULTADOS: Os resultados mostraram que: os estudantes têm pouco conhecimento sobre a história da moradia; as alternativas para os problemas que enfrentam na moradia têm sido buscadas individualmente; observou-se entre os moradores as duas principais concepções de prevenção ao consumo de drogas – guerra às drogas e redução de danos. Observou-se haver uma visão negativa sobre a moradia estudantil relacionada com a constante divulgação de fatos conturbados e com o desconhecimento sobre a importância da moradia para viabilizar a permanência de estudantes pobres na universidade.

CONCLUSÕES: Na opinião de seus moradores, a moradia estudantil viabiliza o acesso a universidade, apesar de dificuldades na convivência coletiva e na administração da universidade. Em relação ao uso de drogas na moradia, parte dos moradores ressalta a necessidade de menor tolerância ao consumo de drogas e outra parte destaca a importância de trabalho educativo, principalmente com os ingressantes.

Descritores: Comportamento social. Estudantes. Habitação social. Drogas ilícitas. Conhecimentos, atitudes e práticas em saúde. Entrevistas. Pesquisa qualitativa.

INTRODUÇÃO

No mundo todo, a partir da década de 50, houve uma corrida dos jovens para o ensino superior, formando na década seguinte um grupo de expressão política que adquiriu visibilidade social.11

No caso brasileiro, a partir da década de 60, a juventude de classe média passou a ter maior acesso à universidade, o que até então era privilégio dos ricos.10 Somente nos últimos anos do século XX assistiu-se a algum acesso das classes mais baixas às instituições de ensino superior, restringindo-se a cerca de 10% dos jovens.19

Uma leitura sociológica leva a crer que a disseminação contemporânea do consumo de drogas em todo o mundo associa-se à condição clara de mercadoria que a droga assume a partir do capitalismo.3 O consumo passa a "atender" a necessidades, que vão desde a aplacação de angústias provenientes da realidade insegura em que os mecanismos de confiança e segurança estão abalados, à reprodução de valores que contemporaneamente fornecem as bases para a vida em sociedade – competição, individualismo e hedonismo.20

Os estudos epidemiológicos sobre o consumo de drogas entre universitários se caracterizam pela sua natureza descritiva e multifatorial, com preocupação em estabelecer as drogas mais usadas, o padrão e os fatores que podem levar ao uso, o perfil do usuário e as atitudes com relação ao consumo. Estudos realizados com alunos universitários levam a crer que morar longe da família aumenta a chance de uso de drogas.2,7 Essa associação é particularmente delicada, uma vez que pode colaborar para a manutenção do estigma de que morar em conjunto residencial estudantil significa ser liberal com relação ao consumo de drogas ou mesmo usuário.

A associação entre as variáveis moradia estudantil e consumir drogas merece aprofundamento para ampliar a compreensão do significado de morar num conjunto residencial universitário ou viver a sociabilidade juvenil sob tais condições de moradia.

Os poucos estudos qualitativos relativos ao tema "drogas e universitários" sugerem que mudanças nos padrões de sociabilidade e de inserção social são capazes de afetar a frequência de consumo de maconha.16 Para estudantes da área da saúde, o meio universitário estimula o consumo abusivo de álcool, que é visto como moda e sinal de maturidade, causando o isolamento dos que têm atitudes contrárias.* * Santos LV, Silva WO, Damásio VF, Stacciarine JM, Munari DB. Percepções de estudantes da área de saúde sobre o abuso de álcool no meio acadêmico. In: Anais do VI Encontro de Pesquisadores em Saúde Mental e V Encontro de Especialistas em Enfermagem Psiquiátrica; 2000 abril.17-20; Ribeirão Preto. São Paulo: EERP-USP; 2000, p. 199-209.

No campo da prevenção, duas abordagens se destacam: a da guerra às drogas e a da redução de danos. Cada uma dessas aproximações é retro-alimentada por um conjunto de teorias e práticas que vão desde a explicação para o consumo de drogas até um conjunto de estratégias para a prevenção.20 A redução de danos coaduna-se com os referenciais adotados no presente estudo, enfatizando a necessidade de circunstanciar o consumo de drogas ao modo de produção e aos contextos específicos por ele produzidos e nos quais este consumo se realiza. A guerra às drogas – mecanismo imperialista de dominação – persegue o consumidor, atribuindo-lhe o peso da mudança de comportamento, utilizando métodos proibicionistas e aterrorizantes.20

A importância da presente pesquisa reside em: 1) na ausência de trabalhos científicos sobre moradia estudantil; e 2) na importância da moradia como um espaço de socialização que democratiza o acesso à universidade para muitos jovens.

Com a finalidade de contribuir para a prevenção do consumo prejudicial de drogas entre jovens, o objetivo da presente pesquisa foi analisar a concepção de universitários residentes em moradia estudantil sobre o consumo de drogas, mediada pelos processos de socialização no contexto específico da moradia estudantil.

MÉTODOS

O estudo foi realizado no Município de São Paulo, em 2003, num conjunto residencial universitário do Estado de São Paulo. Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza exploratória, que realizou a apreensão empírica do objeto por meio de entrevistas individuais, semi-estruturadas e gravadas. O seguinte roteiro foi seguido: conhecimento sobre a história da moradia; descrição de como é morar no conjunto residencial; participação em atividades sociais, políticas, de lazer, esportivas da moradia; atividades de final de semana; percepção sobre o uso de drogas na moradia; opinião sobre o usuário de drogas; posicionamento sobre um conjunto de idéias disseminadas de que a moradia é um ambiente que propicia o uso de drogas; sugestões para o enfrentamento do problema de consumo de drogas no local.

O número total de moradores oficialmente cadastrados era de 1.348 (970 de graduação e 378 de pós-graduação). O conjunto residencial compunha-se de sete blocos, de A-G, com seis andares e 11 apartamentos por andar, cada apartamento dimensionado para três estudantes. A moradia é gratuita e destina-se a alunos de graduação e pós-graduação da universidade, regularmente matriculados que passam por processo seletivo no início de cada ano. Esse processo é classificatório e baseado em uma avaliação do nível socioeconômico do aluno, feita pelas assistentes sociais da Divisão de Promoção Social da universidade. No final de cada ano é realizada a reavaliação dos alunos.

Os alunos moradores encontravam-se na faixa etária de 22 a 24 anos (37%), eram solteiros (96%) e sem filhos (95%), tinham algum tipo de bolsa de estudo, incluindo-se estágio (54%) e recebiam entre um e dois salários-mínimos (89%).

Foi utilizada a técnica de entrevista de snowball, que possibilita melhor recepção e disponibilidade do entrevistado em relação à pesquisa, pois permite que pesquisador e entrevistado sejam de alguma forma apresentados.6 À medida que se realizavam as entrevistas, era solicitado que fosse indicado um colega do sexo feminino ou masculino de acordo com a quantidade de entrevistados de cada sexo até o momento.

Houve preocupação em entrevistar alunos de graduação que moravam há mais de um ano nos diferentes blocos que compõem a moradia, sendo metade de cada sexo. Essas informações foram obtidas de acordo com ficha do perfil dos moradores, elaborada pela instituição que administra a moradia e que serviu de base para a constituição da amostra. Na tentativa de espelhar a heterogeneidade dos moradores e respeitando-se as indicações gerais para a pesquisa qualitativa sobre saturação teórica, foram realizadas 20 entrevistas.

O procedimento operacional que serviu de base para a coleta, organização e análise do material foi o discurso do sujeito coletivo,15 utilizando-se também indicações de Bardin sobre análise temática.4

O discurso do sujeito coletivo é um conjunto de procedimentos metodológicos que visa a organizar o material verbal em forma de discursos síntese das diferentes idéias de um determinado grupo. Desse modo, para se conhecer o que um dado grupo social pensa sobre determinado tema, faz-se necessário acessar os discursos individuais, agrupando-os por semelhança ou complementaridade.

Ao final constituiu-se um um único discurso formado pelo pesquisador a partir de várias expressões-chave com o mesmo sentido, agrupadas em três categorias amplas: o que dizem os moradores sobre a história da moradia; como é morar no conjunto residencial; a opinião dos moradores sobre o consumo de drogas.

RESULTADOS

Os entrevistados mostraram conhecer pouco a respeito da história da moradia, mas alguns recordam quase que de maneira lendária a informação de que sua origem estaria ligada à possível hospedagem de atletas para jogos Panamericanos que não aconteceram devido a uma epidemia um tanto incerta também. Muitos discursos refletiram conhecimento sobre a luta do movimento estudantil, relacionando-o a uma história conturbada e fazendo referência a conflitos que sinalizariam o início do estigma que marca a moradia.

Os moradores enfatizaram que morar no conjunto residencial viabiliza estudar na universidade.

"Aqui você consegue administrar muito bem o dinheiro porque além da moradia você tem uma sustentação que é a bolsa-alimentação, a bolsa-trabalho. Uma coisa que muda (...) também é o seu padrão de consumo, acho que seria muito diferente se eu morasse na minha cidade e estudasse aqui, por exemplo eu pensaria duas vezes em chegar numa livraria e gastar 30 reais num livro e eu fui entrar [pela primeira vez] no cinema aqui na universidade".

A superação das expectativas sobre a convivência na moradia parece estar na dependência de encontrar pessoas que, ao contrário do estigma veiculado, são "normais", conversam, arrumam a casa, fazem comida, vivem seu cotidiano. A decepção com a convivência é atribuída ao individualismo dos estudantes, que não têm espírito coletivo, "mesmo sendo da área de humanas".

Os padrões de sociabilidade dos jovens são percebidos como alterados em função do isolamento a que ficam submetidos nos finais de semana. Poucos conseguem visitar a família com frequência, sendo a solidão apontada como consequência desse isolamento.

"Eu acho que é muito estranho a gente acaba ficando isolado, você acaba começando a viver num mundo à parte porque são regras diferentes, são costumes diferentes e a gente brinca que a gente está na bolha, na ilha, num jardim zoológico mesmo, porque é tudo tão organizado e você sai pensando que a sociedade é isso mesmo. Tem menos vantagens do que aqueles condomínios fechados no sentido clássico, mas essa coisa, esse desprendimento da realidade social, é o fato de você de repente quando você sai demora um certo tempo pra perceber que desemprego existe e que a pessoa não tem dinheiro pra comprar tal coisa".

As alternativas para enfrentar o problema da solidão e do isolamento variam entre a transformação do apartamento em um espaço de convivência e a organização de atividades de lazer diversificadas que possam se constituir numa oportunidade de socialização.

Existem regras na moradia, mas que não precisam ser cumpridas. Esse excesso de liberdade acompanhado da falta de autoridade não é visto só como algo positivo, apontando-se que a consequência é o não-aprendizado de respeito ao espaço público.

Aparentemente os alunos não têm a quem recorrer para resolver problemas na moradia. A gerência demora em resolver questões como a falta de energia ou água, inclusive omitindo-se em relação ao tráfico de drogas.

"E outra é claro, não estou falando que a gente está inocente nessa história, tem o traficante aqui porque a gente compra, mas é uma coisa pesada, a gente sente que certas coisas complicadas acontecem aqui principalmente [por causa] desses traficantes que a gente sabe que têm aqui, parece que é uma coisa que fica assim meio de canto é um assunto que ninguém fala então deixa quieto como se fosse se resolver. A moradia parece livre por essas coisas, pelo lado da administração a gente tem a impressão que [eles] não fazem nada e pela gente [mesmo] que permite que isso aconteça".

O estudantes consideram que a sociedade tem uma visão muito distorcida sobre a moradia e seus moradores, sofrendo preconceito mesmo dentro da universidade.

"Todo mundo já tem uma idéia de república, qualquer tipo de república já falam que é uma bagunça, que é uma baderna, que não sei que. Mas as pessoas falam muito do que elas não conhecem porque eu quando vim morar aqui pintavam pra mim um lugar totalmente horrível, que eu fiquei com medo de vir morar. Mas a partir do momento que eu vim pra cá vi como era e desfiz totalmente essa visão. [Hoje] eu não acho que seja uma assim coisa aberta todo mundo que entra usa droga, não vejo nada disso(...)".

Para compreender as teorias apresentadas pelos alunos para explicar o consumo de drogas, organizou-se o material filiando as falas às duas correntes contemporâneas majoritárias – a guerra às drogas e o movimento da redução de danos.

"As pessoas que usam drogas aqui na moradia são meio estranhas, são assim meio de barra pesada eu acho. Então fica mais difícil, tem outras pessoas que eu achava super legais e que começaram a usar drogas, aí pararam de estudar direito, usam maconha não estudam tanto, eram super inteligentes e aí ficam só fazendo bagunça. [Agora no geral, tem a questão] da fraqueza que vem, quero experimentar vai lá e experimenta e não consegue sair, nem sempre é culpa da pessoa tem alguns que a gente sabe que são retardados mesmo, que vai lá porque é legal e acha que é o topo da parada, mas tem gente que vai por pura inocência (...)".

Entre as estratégias para a prevenção situadas no campo da guerra às drogas nota-se que alguns alunos posicionaram-se incisivamente contra qualquer uso de drogas.

"Primeiro [deve ser feito] o que é feito na sociedade inteira, porque a universidade por mais que queiram não está fora, ela não é uma entidade autônoma da sociedade, ela está dentro da sociedade. Pra diminuir [os problemas] só colocando o policiamento lá dentro [da moradia], só tirando o pessoal, fazendo uma inspeção rígida mesmo. O encarceramento, é uma resposta legal pra esse tipo de prática".

No campo de concepções que conformam o movimento da redução de danos, os discursos foram menos reducionistas.

"(...) Parece que a sociabilidade passa necessariamente pelo uso de drogas, o que é uma coisa interessante, não tem nem errado nem certo é no mínimo interessante como a sociabilidade se dá, tem que passar necessariamente pela droga. [No que se refere] a universidade em si ela é muito, muito vazia em questões de relacionamentos questões de relacionamentos intersubjetivos, aqui na moradia [é assim]. A pessoa que usa drogas tende a aprofundar isso aqui, mesmo porque você é obrigado a estudar e se desligar às vezes parece que você fica meio esquecido aqui".

Foi possível caracterizar uma série de sugestões dos alunos sobre como proceder frente ao consumo de drogas como filiadas à concepção de redução de danos.

"Eu acho precisa existir um debate maior a respeito das individualidades, de como as pessoas percebem o uso de drogas realmente, como isso afeta a vida delas, o consumo seja em suas famílias seja a própria pessoa é aí que o trabalho deve ser começado para que o uso se reduza, para que o narcotráfico se enfraqueça, que na verdade se tornou um negócio altamente lucrativo hoje em dia".

Considerou-se importante que sejam desenvolvidas atividades com os ingressantes:

"Mas pra quem chega como bixo é uma orientação, mas não assim não tome drogas, droga é um monstro, é mostrar o quanto pode ser prejudicial no início de um curso da pessoa, ela se envolver com drogas e não saber o que está fazendo, nesse sentido acho que é legal ter uma orientação porque muita gente começa de uma maneira e não sabe o que fazer e perde ano, perde semestre, nesse sentido. [Portanto] eu acho que uma das coisas era criar, atividades que acolhessem os calouros e criar um ambiente de convívio mais intenso.(...). Atividades [podem ser] culturais e principalmente com calouros. Tipo de tentar criar um ambiente, um estilo de sociabilidade que não necessite, que não precise necessariamente passar pela droga".

Houve também uma sugestão para que a universidade disponibilize o acesso a tratamento e suporte para alunos dependentes que desejam ajuda. A sugestão é que se invista em divulgar a realidade da moradia a partir do ponto de vista daqueles que necessitam da moradia para concretizar seus estudos.

Do lado mais tolerante, uma parte considerável dos alunos reconheceu o consumo de drogas na moradia, sem que isso lhes causasse problemas. Os problemas com o consumo são relativizados na admissão de que há diferentes tipos de usuários e que nem todos têm problemas com o uso.

DISCUSSÃO

Embora o conhecimento dos moradores sobre a história da moradia universitária – factual e fragmentado – remeta à sua origem, são desconhecidos os detalhes dessa história, sua localização no seio dos acontecimentos mais gerais do País e suas implicações políticas. Sabe-se que a história da moradia foi marcada por reivindicações e lutas dos estudantes, conturbada por mortes e invasões, mas desconhece-se o papel da universidade nesse processo. Uma análise relevante apresentada pelos alunos fala em nome de uma possível relação entre a história conturbada da moradia e sua imagem negativa atual.

Os alunos consideram que a moradia cumpre, apesar dos problemas, a sua função principal que é viabilizar o curso universitário para alunos pobres e que moram longe da universidade.

Um dos problemas apresentados pelos estudantes é que a universidade pública oferece o mínimo necessário para que os alunos possam ter onde morar, não se apresentando para a discussão e solução de problemas estruturais que dificultam o acesso à moradia e o cotidiano dos estudantes. Essa relação entre os moradores e a universidade reflete a dinâmica social mais ampla, comandada pelas leis do mercado, que conferem à educação universitária e a outros direitos o status de mercadoria.9

A moradia universitária ajuda a democratizar a universidade facilitando a vida daqueles que contornaram o esquema capitalista neoliberal e mesmo sendo pobres conseguiram entrar em uma universidade pública de boa qualidade.

Os jovens que ultrapassam a barreira de classe e chegam à universidade são muito mais impactados pela vivência de uma nova realidade do ponto de vista cultural do que pelos conteúdos ministrados nas salas de aula. O paradoxo se apresenta na medida em que isso pode causar um deslumbramento irreal dessa nova possibilidade. Os que vêm de classes abastadas tiveram a oportunidade de ir gradualmente construindo esse repertório cultural o que torna essa vivência parte de um processo iniciado anteriormente.10

No cotidiano da moradia, os estudantes levantaram também o problema do lazer que parece ser para muitos uma atividade esporádica, pouco estudada e mesmo percebida como secundária em trabalhos acadêmicos, embora "o lazer para os jovens (...) [se constituía] como um espaço especialmente importante para o desenvolvimento de relações de sociabilidade, das buscas e experiências através das quais procuram estruturar suas novas referências e identidades individuais e coletivas".1

Levantou-se também a dificuldade dos moradores em viver coletivamente, com predominância do individualismo nas relações. Mais uma vez se está diante de uma questão social mais ampla, uma vez que essa é a principal forma de relacionamento entre as pessoas na contemporaneidade.

Os alunos também referiram sofrer preconceito pelo fato de morar no conjunto residencial e mostram-se por sua vez preconceituosos em relação aos consumidores de drogas. As generalizações provenientes da mídia, que se encarrega de expor os acontecimentos negativos e explosivos a respeito da moradia e dos moradores, e aquelas provenientes da chamada "lei do menor esforço" que caracterizam o cotidiano das pessoas são mecanismos indutores do preconceito.14

No caso dos consumidores de drogas, utiliza-se "drogado" como uma categoria de acusação que em si encerra um conjunto totalizador de negatividades, em que os acusados são moralmente nocivos e podem ameaçar o status quo.22

A concepção de que a moradia não é responsável pelo consumo de drogas de moradores está presente na fala de muitos alunos, que apresentam motivações variadas para o início do consumo, sendo que essas não se referem necessariamente à moradia. Os moradores constituem um grupo heterogêneo, pois são provenientes de cidades, Estados e países diferentes e isso se reflete na visão deles sobre o consumo e o consumidor de drogas, bem como nas sugestões para amenizar os possíveis problemas decorrentes.

De um lado, houve discursos conservadores e repressores com propostas de coerção da liberdade e punição severa aos usuários de drogas, culpabilizando-os pelos problemas advindos do uso de drogas. As estratégias da guerra às drogas não têm sequer diminuído as taxas de criminalidade,23 e a manutenção dessa política constitui uma forma de dominação imperialista dos países latino-americanos.12 Além disso, "a hostilidade e o medo despertado facilitam a intensificação do controle social, a ampliação do poder do Estado de punir e o simultâneo enfraquecimento do Estado Democrático de Direito".13 A mídia colabora na fabricação de um verdadeiro estado de pânico na população brasileira, veiculando informações alarmistas sobre drogas ilícitas, sendo que as drogas mais usadas pela população são álcool e tabaco.18

De outro lado, houve contraposições nos discursos dos alunos que reconheceram a importância da contextualização, da relativização do julgamento totalizador do usuário de drogas e que fizeram propostas de prevenção a partir do conhecimento da realidade do usuário, objetivando a superação do preconceito e a promoção de um debate social mais amplo. Velho21 ressalta a importância dessa contextualização e afirma que as generalizações têm apenas contribuído para a estigmatização dos usuários.

Os alunos percebem a relação entre o consumo de drogas e os processos de socialização na moradia. De forma geral, o primeiro contato com a droga acontece em atividades sociais, situações de festas, churrasco, encontro de amigos.5

Vários autores apontam a necessidade da universidade repensar seu papel. Chauí9 relata as consequências da ideologia neoliberal na universidade, que propõe diminuição dos espaços públicos e alargamento dos privados. Foracchi10 aponta a submissão da universidade a uma sociedade tecnológica, com grupos de interesses opostos e sem compromisso com a cultura, preocupados com a comercialização de seus produtos.

Uma sugestão importante apresentada pelos alunos e que seria uma alternativa viável na busca de soluções para os problemas vividos pelos moradores é a realização de pesquisas científicas que aprofundem o conhecimento da moradia.

Parte das propostas para a prevenção apresentadas pelos moradores se coadunam com os pressupostos da redução de danos, sugerindo ações educativas de caráter emancipatório.

O debate social amplo sugerido pelos moradores é um passo enfatizado por analistas da área. Esse debate pode contribuir também para a compreensão das raízes dos problemas contemporâneos dos jovens e favorecer o desenvolvimento de um projeto público da juventude universitária que parece fragmentada e absorvida pelos "valores pós-modernos"8 de descontinuidade, indeterminação e descrédito nas utopias.

  • Correspondência:
    Thais Helena Mourão Laranjo
    Escola de Enfermagem da USP
    Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, 419 Cerqueira César
    05403-000 São Paulo, SP, Brasil
    E-mail:
  • Recebido: 20/9/2005

    Revisado: 26/6/2006

    Aprovado: 12/7/2006

    Artigo baseado na dissertação de mestrado de THM Laranjo, apresentada à Escola de Enfermagem da USP, em 2003.

  • *
    Santos LV, Silva WO, Damásio VF, Stacciarine JM, Munari DB. Percepções de estudantes da área de saúde sobre o abuso de álcool no meio acadêmico. In: Anais do VI Encontro de Pesquisadores em Saúde Mental e V Encontro de Especialistas em Enfermagem Psiquiátrica; 2000 abril.17-20; Ribeirão Preto. São Paulo: EERP-USP; 2000, p. 199-209.
    • 1. Abramo HW. Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. São Paulo: Página Aberta; 1994.
    • 2. Andrade AG, Bassit AZ, Kerr-Correa F, Tonhon AA, Boscovitz EP, Cabral M, et al. Fatores de risco associados ao uso de álcool e drogas na vida, entre estudantes de medicina do estado de São Paulo. Rev ABP-APAL 1997;19:117-26.
    • 3. Baratta A. Introdução a uma sociologia da droga. In: Mesquita F, Bastos FI, organizadores. Drogas e Aids: estratégias de redução de danos. São Paulo: Hucitec; 1994. p. 21-44.
    • 4. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; 1977.
    • 5. Bastos FI. Redução de danos e saúde coletiva: reflexões a propósito das experiências internacional e brasileira. In: Sampaio CM, Campos MA, organizadores. Drogas, dignidade e inclusão social: a lei prática da redução de danos. Rio de Janeiro: Aborda; 2003. p. 15-41.
    • 6. Becker HS. Métodos de pesquisa em ciências sociais. 2Ş ed. São Paulo: Hucitec; 1994.
    • 7. Boskovitz EP, Cruz ETN, Chiaravalloti Neto F, Moraes MS, Paiva Neto JV, Ávila LA, et al. Uso de drogas entre estudantes universitários em São José do Rio Preto, São Paulo. Rev Psiquiatr Clín (São Paulo). 1995;22(3):87-93.
    • 8. Chauí M. Público, privado, despotismo. In: Novaes A, organizador. Ética. São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria de Cultura; 1992. p. 345-90.
    • 9. Chauí M. Ideologia neoliberal e universidade. In: Oliveira F, Paoli MC, organizadores. Os sentidos da democracia: políticas do dissenso e hegemonia global. Rio de Janeiro: Vozes; 1999. p. 27-51.
    • 10. Foracchi MM. A juventude na sociedade moderna. São Paulo: Pioneira; 1972.
    • 11. Hobsbawm E. Era dos extremos: breve histórico do século XX - 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras; 1995.
    • 12. Kaplan M. Tráfico de drogas, soberania estatal, seguridad nacional. Sistema 1997;(136):43-61.
    • 13. Karan ML. Redução de danos, ética e lei: os danos da política proibicionista e as alternativas compromissadas com a dignidade do indivíduo. In: Sampaio CM, Campos MA, organizadores. Drogas, dignidade e inclusão social: a lei prática da redução de danos. Rio de Janeiro: Aborda; 2003. p. 45-97.
    • 14. Konder L. A questão da ideologia. São Paulo: Companhia das Letras; 2002.
    • 15. Lefèvre F, Lefèvre AMC. Os novos instrumentos no contexto da pesquisa qualitativa. Caxias do Sul: EDUCS; 2000.
    • 16. Magalhães MP, Barros RS, Oliveira RC, Azevedo RB, Almeida SP, Silva MTA. Avaliação dos efeitos da maconha por usuários de população estudantil. Ciênc Cult (São Paulo). 1986;41:652-7.
    • 17. Marlatt GA. Redução de danos: estratégias práticas para lidar com comportamentos de alto risco. São Paulo: Artes Médicas; 1999.
    • 18. Noto AR, Batista MC, Faria ST, Nappo S, Galduroz JCF, Carlini EA. Drogas na imprensa brasileira: uma análise dos artigos publicados em jornais e revistas. Cad Saúde Pública 2003;19:69-79.
    • 19. Salum MJL. Defesa da universidade pública: a responsabilidade em construir novas sociabilidade, educação, saúde e enfermagem. Univ Soc (São Paulo). 2001;10(23):173-83.
    • 20. Soares CB, Jacobi PR. Adolescentes, drogas e Aids: avaliação de um programa de prevenção escolar. Cad Pesqui 2000;(109):213-37.
    • 21. Velho G. A dimensão cultural e política dos mundos das drogas. In: Zaluar A, organizador. Drogas e cidadania. São Paulo: Brasiliense; 1994. p. 23-30.
    • 22. Velho G. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar; 1999.
    • 23. Zaluar A. Introdução. In: Zaluar A, organizador. Drogas e cidadania. São Paulo: Brasiliense; 1994. p. 7-22.

    Correspondência: Thais Helena Mourão Laranjo Escola de Enfermagem da USP Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, 419 Cerqueira César 05403-000 São Paulo, SP, Brasil E-mail: thaisml@hotmail.com * Santos LV, Silva WO, Damásio VF, Stacciarine JM, Munari DB. Percepções de estudantes da área de saúde sobre o abuso de álcool no meio acadêmico. In: Anais do VI Encontro de Pesquisadores em Saúde Mental e V Encontro de Especialistas em Enfermagem Psiquiátrica; 2000 abril.17-20; Ribeirão Preto. São Paulo: EERP-USP; 2000, p. 199-209.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      04 Jul 2007
    • Data do Fascículo
      Dez 2006

    Histórico

    • Recebido
      20 Set 2005
    • Revisado
      26 Jun 2006
    • Aceito
      12 Jul 2006
    Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo Avenida Dr. Arnaldo, 715, 01246-904 São Paulo SP Brazil, Tel./Fax: +55 11 3061-7985 - São Paulo - SP - Brazil
    E-mail: revsp@usp.br