Os cinco anos do "Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais"

The five years of the "Special Programme for the Research and Training in Tropical Diseases"

Oswaldo Paulo Forattini

EDITORIAL

Os cinco anos do "Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais"

The five years of the "Special Programme for the Research and Training in Tropical Diseases"

Oswaldo Paulo Forattini

Editor

Está consagrada a classificação da Humanidade em duas categorias fundamentais, a dos países assim ditos "desenvolvidos" e a dos que têm de carregar o fardo de formarem o bloco dos "Subdesenvolvidos" ou, como eufemisticamente são designados, dos "em desenvolvimento". Claro está que as diferenças entre ambas referem-se a vários parâmetros decorrentes, em maior ou menor extensão, da renda e do enriquecimento. Todavia, no que respeita a seus respectivos contingentes populacionais, essas duas partes estão longe da equivalência, e bem mais do que poderia sugerir a simples idéia de proporção inversa. Cerca de três quartos da população mundial alinha-se no segundo desses, grupos e deste, estima-se que ultrapasse o bilhão o número de habitantes nas regiões tropicais. Em que pese o extraordinário progresso técnico e científico atingido pela medicina moderna essas populações continuam, nos dias que correm, pagando, elevados tributos às doenças infecciosas, agravados pelos baixos níveis da qualidade de vida ali prevalentes. Assim sendo, e visando propiciar soluções adequadas para esse grave problema mundial, em dezembro de 1976 a Organização Mundial da Saúde juntamente com o Banco Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, apresentou, o "Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais". Inicialmente previsto para atuar no período de 1977 a 1981, completa agora o seu primeiro qüinqüênio de atividades.

Focalizando, de início, seis doenças como problemas de saúde pública – malária, esquistossomíase, filaríase, tripanossomíase (tanto africana como americana), leishmaniose e hanseníase – visou o Programa dois objetivos gerais. Em primeiro lugar, a realização de investigações destinadas ao desenvolvimento e aperfeiçoamento dos meios de controle. Em segundo lugar, propiciar o treinamento e o fortalecimento de instituições, com o fim de incrementar a capacidade de pesquisa sobre essa temática nos países tropicais. Decorridos cinco anos de existência, já conta com apreciável folha de realizações.

Compulsando os dados do Quinto Relatório Anual (julho 1980 – junho 1981), torna-se altamente animador observar-se o desenvolvimento de múltiplos projetos, com significativa ênfase em estudos de quimioterapia e imunologia. São promissores os resultados obtidos com a experimentação de vários compostos para a malária, esquistossomíase, oncocercíase, leishmaniose e hanseníase. Em relação à primeira, é digno de nota o desenvolvimento da mefloquina, cuja ação antimalárica tem provado ser de elevada eficácia diante de infecções com parasitas resistentes à cloroquina e, em especial modo, às devidas a cepas P. falciparum com resistência múltipla a drogas. Abrem-se assim novas perspectivas que, cuidadosamente seguidas no conjunto dos meios profiláticos, de muito servirão ao controle da endemia. Ainda no campo da terapêutica, merecem destaque os projetos e pesquisas destinados a elucidar c mecanismo de ação de substâncias esquistossomicidas e sua atuação farmacológica no organismo humano, bem como a ação macrofilaricida de drogas em oncocercíase animal, com vistas à possível aplicação na parasitose do Homem. É de se assinalar, para esta última helmintíase, os testes que incluiram mais de 3.000 compostos químicos. Em relação à hanseníase, mencione-se as pesquisas sobre a freqüência da resistência primária à dapsona em áreas endêmicas, e quanto a leishmaniose, o uso do nifurtimox em combinação com compostos antimoniais.

No que concerne à imunologia, avultam os projetos relativos à malária, objetivando o desenvolvimento de vacinas e o aperfeiçoamento de técnicas para imunodiagnóstico. Nesse sentido, o programa estimulou várias linhas de pesquisa, com particular ênfase em anticorpos inibidores interagentes com antígenos de superfície de esporozoitos, merozoitos e gametocitos. Com a utilização de P. berghei pôde-se isolar antígeno, que está sendo objeto de estudo com vistas à sua eventual produção mediante técnica de engenharia genética, e paralelamente proporcionando a mesma aplicação para P. falciparum. Ao mesmo tempo, para este protozoário e a partir de modelo de malária em roedores, pôde-se adaptar método de radioimunoensaio capaz de detectar baixas concentrações parasitárias no sangue, de até 8 parasitas por 10 6 hemácias.

Também em relação à esquistossomíase, tripanossomíases, leishmaniose e hanseníase, estão em desenvolvimento projetos destinados ao estudo de mecanismos imunológicos, com vistas a métodos diagnósticos e elucidação de quadros de patologia dessas infecções. Merece ser assinalada a demonstração de reações cruzadas entre antígenos de L. enriettii e L. tropica, abrindo a possibilidade de utilização da primeira dessas espécies para o desenvolvimento de possíveis vacinas.

Quanto às pesquisas de campo, têm recebido também apoio por parte do "Programa Especial". Destacam-se estudos sobre controle de anofelinos em áreas com populações exófilas e resistentes a inseticidas, controle de moluscos e dinâmica da transmissão da esquistossomíase em diferentes sistemas de irrigação, ecologia de vetores de filaríase, distribuição de doença de Chagas e de seus vetores com a determinação das preferências alimentares desses triatomíneos, e a distribuição e biologia dos transmissores e reservatórios de leishmanioses.

Muitos outros projetos estão em andamento e cuja menção, mesmo simples, não caberia no estreito âmbito de editorial como este. Todavia, é de se citar o estímulo dado às pesquisas sobre controle biológico de vetores, como as que têm levado a resultados bastante promissores no que concerne à atuação sobre às formas imaturas de mosquitos e borrachudos, do Bacillus Thuringiensis. As atividades também se estedem no campo epidemiológico e ao dos aspectos sócios-econômicos. Finalmente, é das mais oportunas a orientação visando fortalecer as instituições de pesquisa nos países atingidos. Mediante auxílio a longo prazo foram beneficiadas 22 delas, ao lado de outras 26 que receberam auxílio a curto prazo.

No seu primeiro qüinqüênio de existência o "Proprama Especial" pode ser considerado como alicerçado em bases firmes, face à oportuna orientação e execução de seus objetivos. São cerca de mil projetos que, até o momento, resultaram em 984 artigos publicados, com elevado teor de qualidade. Esta importante iniciativa da Organização Mundial da Saúde acha-se destinada a amplo sucesso, indo ao encontro das reais necessidades da pesquisa e do desenvolvimento científico de grande parte da Humanidade. Tem o mérito congregar esforços de pesquisadores de múltiplos países, num verdadeiro mutirão que beneficia e beneficiará sobremodo as futuras gerações de, pelo menos, um terço da população mundial.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Out 2005
  • Data do Fascículo
    Abr 1982
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