Prevalência de toxoplasmose ovina determinada pela reação de Sabin-Feldman em animais de Uruguaiana, RS, Brasil

Prevalence of toxoplasmosis in sheep from Uruguaiana (Rio Grande do Sul, Brazil detected by Sabin-Feldman dye-test

Resumos

Determinou-se a prevalência de toxoplasmose ovina em soros de 100 animais, provenientes de Uruguaiana, RS e abatidos em Bragança Paulista, SP, Brasil, através de reação de Sabin-Feldman (RSF). Considerando-se animais positivos aqueles com títulos > ou = 16, obtiveram-se 39% de soro-reagentes, com títulos e percentuais de soropositividade correspondentes a: 16 (66,7%), 64 (23%), 256 (2,6%), 1024 (5,1) e 4000 (2,6%).

Toxoplasmose animal; Ovinos; Toxoplasma gondii; Reação de Sabin-Feldman


The sera from 100 ovines from Uruguaiana (Rio Grande do Sul, Brazil), slaughtered in Bragança Paulista (S. Paulo, Brazil), were examined for the presence of antibodies against Toxoplasma gondii using the Sabin-Feldman dye test. Considering positive those sera with titer > or = 16, the prevalence of this zoonosis was 39% with titers and percentages of seropositivity of: 16 (66.7%), 64 (23%), 256 (2.6%), 1024 (5.1%) and 4000 (2.6%).

Toxoplasmasis, animal; Sheep; Toxoplasma gondii; Sabin-Feldman dye test


Prevalência de toxoplasmose ovina determinada pela reação de Sabin-Feldman em animais de Uruguaiana, RS, Brasil1 1 Apresentado no VI Congresso Estadual de Medicina Veterinária, III Congresso Nacional de Clínica Veterinária de Pequenos Animais, III Encontro Sul Brasileiro de Médicos Veterinários — Gramado, 1979 — Rio Grande do Sul 2 Título — recíproca da diluição.

Prevalence of toxoplasmosis in sheep from Uruguaiana (Rio Grande do Sul, Brazil detected by Sabin-Feldman dye-test

Carlos Eduardo LarssonI; Ligia M. Ferreira JamraII; Eny Câmara GuimarãesII; †Dino Baptista Germano PattoliIII; Hebans Lincoln L. da SilvaIV

IDo Departamento de Patologia e Clínica Médicas da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo — Cidade Universitária — 05508 — São Paulo, SP Brasil

IIDo Instituto de Medicina Tropical de São Paulo — Av. Dr. Eneas Carvalho de Aguiar — Caixa Postal 2921 — 01000 — São Paulo, SP — Brasil

IIIDo Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP — Av. Dr. Arnaldo, 715 — 01255 — São Paulo, SP — Brasil

IVDo Serviço de Inspeção de Produto Animal (SERPA-SP) — Ministério da Agricultura — Av. Francisco Matarazzo, 101 — 05001 — São Paulo, SP — Brasil

RESUMO

Determinou-se a prevalência de toxoplasmose ovina em soros de 100 animais, provenientes de Uruguaiana, RS e abatidos em Bragança Paulista, SP, Brasil, através de reação de Sabin-Feldman (RSF). Considerando-se animais positivos aqueles com títulos ³16, obtiveram-se 39% de soro-reagentes, com títulos e percentuais de soropositividade correspondentes a: 16 (66,7%), 64 (23%), 256 (2,6%), 1024 (5,1) e 4000 (2,6%).

Unitermos: Toxoplasmose animal, Uruguaiana, RS, Brasil. Ovinos. Toxoplasma gondii. Reação de Sabin-Feldman.

ABSTRACT

The sera from 100 ovines from Uruguaiana (Rio Grande do Sul, Brazil), slaughtered in Bragança Paulista (S. Paulo, Brazil), were examined for the presence of antibodies against Toxoplasma gondii using the Sabin-Feldman dye test. Considering positive those sera with titer ³16, the prevalence of this zoonosis was 39% with titers and percentages of seropositivity of: 16 (66.7%), 64 (23%), 256 (2.6%), 1024 (5.1%) and 4000 (2.6%).

Uniterms: Toxoplasmasis, animal, Uruguaiana, RS, Brazil. Sheep. Toxoplasma gondii. Sabin-Feldman dye test.

INTRODUÇÃO

A infecção toxoplásmica nos espécimes ovinos tem merecido a atenção dos pesquisadores que se dedicam à Medicina Veterinária e à Saúde Pública. A importância atribuída à protozoose em termos veterinários reside nas verdadeiras epizootias de abortamento e natimortalidade, e seus conseqüentes prejuízos econômicos, fatos já observados na Nova Zelândia, Austrália e Inglaterra (Beverley e Watson, 19644; Jacobs e col., 1963 18; Dubey, 19688; Jacobs, 197317; Hartley e Munday, 197415) e na India e no Canadá (Dubey, 19688).

Epidemiologicamente, sabe-se que dentre as vias de transmissão da toxoplasmose ao homem, aquela que tem sido incriminada com maior freqüência é a da veiculação de cistos teciduais através de produtos cárneos, principalmente quando estes são ingeridos sem um tratamento térmico adequado. Vários trabalhos apresentam evidências de que a infecção toxoplásmica humana pode estar relacionada a costumes alimentares regionais ou nacionais (Jacobs e col., 196318; Desmonts e col., 19657; Berengo e col., 19693; Garrido e col., 1972 13). Alguns pesquisadores têm afirmado que a possibilidade de transmissão da infecção, a partir de urna determinada espécie animal, está vinculada às condições geográficas e econômicas regionais, ao tipo de rebanho predominante, à extensão territorial e à constituição do solo (Garrido e col.,131972). A carne ovina é considerada, na França e na Nova Zelândia, a principal fonte de infecção toxoplásmica humana (Desmonts, 1962, citado por Araújo, 19642; Jacobs e col., 196318).

Tais fatos podem ser extrapolados para algumas regiões brasileiras, bem como para determinados grupos étnicos de nosso país, em que o manuseio e o consumo de carne ou vísceras de ovinos são, provavelmente, os responsáveis pela ocorrência da antropozoonose.

A despeito do surgimento de novas provas sorológicas, a RSF, também conhecida como reação ou teste do corante, continua sendo prova-padrão para a determinação de anticorpos antitoxoplasma em soros animais (Ishizuka e col., 1974 16). No Brasil, entretanto, a determinação da prevalência da toxoplasmose ovina através da RSF é praticamente desconhecida, motivo pelo qual julgamos oportuno realizar o presente estudo.

MATERIAL E MÉTODOS

Utilizaram-se 100 amostras de soro, coletadas, no decorrer do ano de 1978, de animais da espécie ovina (ovelhas e capões), sem raça definida, oriundos de Uruguaiana (RS) e abatidos em Bragança Paulista (SP), cujas carcaças destinavam-se aos estabelecimentos de distribuição e consumo, no município de São Paulo.

Coletou-se sangue após secção da veia jugular e, após a retração do coágulo, o soro foi separado por aspiração, sendo, a seguir, submetido à centrifugação, desprezando-se as amostras hemolisadas. As amostras foram mantidas à -20°C até o momento da execução da reação sorológica.

Para a pesquisa de anticorpos antitoxoplasma foi utilizada a reação de Sabin-Feldman (RSF), empregando-se soro de cobaia como fator acessório (Jamra e Guimarães, 1976 19). Realizou-se a reação com amostras previamente inativadas a 57°C, durante 60 min, em várias diluições crescentes, a partir de 1 :4.

RESULTADOS

Das 100 amostras examinadas através da RSF, considerando-se como reagentes os soros com títulos2 1 Apresentado no VI Congresso Estadual de Medicina Veterinária, III Congresso Nacional de Clínica Veterinária de Pequenos Animais, III Encontro Sul Brasileiro de Médicos Veterinários — Gramado, 1979 — Rio Grande do Sul 2 Título — recíproca da diluição. iguais ou maiores que 16, obtiveram-se 39 soros reagentes, conforme o disposto na Tabela 1.

Considerando-se o número de soros reagentes em função do título de anticorpos antitoxoplasma, obtiveram-se 26 soros reagentes na diluição 1:16 (66,7%), 9 na 1:64 (23%), 1 na 1:256 (2,6%) e 2 (5,1%) e 1 (2,6%) soros reagentes, respectivamente, nas diluições 1:1024 e 1:4096 (Tabela 2).

Com o escopo de permitir uma maior e melhor comparação da prevalência da infecção toxoplásmica nos ovinos criados no Brasil e em outros países, compilaram-se os resultados aqui obtidos com aqueles constantes da literatura referente a essa zoonose, os quais encontram-se na Tabela 3.

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

A prevalência de 39% de animais soro-positivos (Tabela 1), obtida no presente trabalho, pode ser considerada como elevada, em relação àquelas obtidas em outros países americanos. Tal percentual somente é inferior ao verificado no Canadá (Tizard e col., 1978 34).

Os resultados verificados no presente levantamento mostram-se comparativamente maiores que os determinados por Amaral e col. (1978)1, no Estado de São Paulo, através da reação de hemaglutinação indireta (RHI), em animais oriundos parcialmente da mesma região. Tal diferença entre os 2 inquéritos executados praticamente na mesma época, pode, a nosso ver, ser creditada aos diferentes títulos iniciais considerados ou a diferenças de sensibilidade e/ou especificidade entre as duas provas sorológicas.

A despeito da RSF apresentar algumas desvantagens, conforme o relatado por vários pesquisadores citados por Larsson (1976) 22, ela é considerada , ainda hoje, como prova padrão por ser bastante sensível e específica, e por evidenciar precocemente os anticorpos antitoxoplasma. A RSF, em confronto com a reação de imunofluorescência indireta (RIFI), utilizada em vários outros trabalhos europeus (Tabela 3), apresenta uma série de vantagens, dentre as quais destacamos a inexistência de falsospositivos, desde que o soro seja previamente inativado. Frenkel (1977) 11 utilizando a RSF não obteve falsos-positivos em decorrência de reações cruzadas entre Besnoitia spp., Sarcocystis spp. e Toxoplasma sp., contrariamente ao observado quando da execução da RIFI.

A RHI é uma reação que detecta os anticorpos antitoxoplasma em fases mais tardias da evolução da infecção, fato que talvez possa explicar os diferentes percentuais de soropositividade obtidos no trabalho de Amaral e col., 19781 e no presente estudo.

Com relação aos demais trabalhos realizados com soros de ovinos, dispostos na Tabela 3, impõem-se um fator limitante quanto à comparabilidade, decorrente da consideração pelos autores, de diferentes títulos iniciais. Assim, os resultados deste levantamento seriam comparáveis apenas àqueles executados através da reação do corante e com títulos iguais ou maiores a 16. Desta forma, o percentual aqui disposto (3.9%), somente está próximo àqueles determinados por Sato (1960) 31 e Maitani (1970)23 dentre os países asiáticos, e aos de McCulloch e col. (1964)25 e Vanderwagen e col. (1974)35 nas Américas. Na Europa, comparativamente, apenas na Noruega (Waldeland, 1976)36 observou-se prevalência próxima à verificada neste estudo.

Ao se considerar a freqüência de soro-positividade em função do título de anticorpos (Tabela 2), obteve-se 35 (89,7%) animais soropositivos, com títulos compreendidos entre 16 e 256. Tal fato demonstra que aproximadamente 90% dos ovinos reagentes eram portadores de infecção toxoplásmica crônica. Em apenas um caso (2,6%), dentre os soro-reagentes, pôde-se detetar título elevado (4096), indicando infecção recente ou mesmo doença toxoplásmica (Krogstad e col., 197221; Seah, 1973)32, percentual relativamente próximo àquele obtido por Amaral e col. (1978)1, no Brasil, que foi de 4%.

No presente trabalho não nos ativemos a possíveis diferenças de prevalência frente à variável sexo, por já estar bem estabelecido que inexistem variações de positividade entre machos e fêmeas. Relativamente ao fator idade, trabalhou-se com indivíduos adultos, em que o percentual de soropositivos é maior, assertiva esta válida, tanto para o homem (Frankel, 1971 12; Fleck, 19729; Riemann e col. 1974 28), como para os animais (Folkers e Kuil, 1964 10; Nobuto e col. 1969 26; Campana-Rouget e col. 19746).

Concluindo, o êxito de Waldeland (1976)37 no isolamento do Toxoplasma gondii, a partir de carcaças de animais com títulos baixos de anticorpos circulantes, aliado à alta prevalência de toxoplasmose ovina, alertam-nos para o importante papel desempenhado por estes espécimes como fontes de infecção toxoplásmica, principalmente em determinados grupos étnicos ou em regiões do país onde é hábito a ingestão de carne ou vísceras de ovinos, sem o tratamento térmico adequado.

AGRADECIMENTOS

Aos Srs. Aparecido Roberto dos Santos e Nilson Eugênio da Costa, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, Nelson Sprega (S1F 1787/ SERPA), pela colaboração na coleta das amostras. À Sra. Regina M. Sakata Mirandola (FMVZ-USP), pelo respaldo técnico.

Recebido para publicação em 23/05/1980

Aprovado para publicação em 12/09/1980

  • 1
    Apresentado no VI Congresso Estadual de Medicina Veterinária, III Congresso Nacional de Clínica Veterinária de Pequenos Animais, III Encontro Sul Brasileiro de Médicos Veterinários — Gramado, 1979 — Rio Grande do Sul
    2
    Título — recíproca da diluição.
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    1 Apresentado no VI Congresso Estadual de Medicina Veterinária, III Congresso Nacional de Clínica Veterinária de Pequenos Animais, III Encontro Sul Brasileiro de Médicos Veterinários — Gramado, 1979 — Rio Grande do Sul 2 Título — recíproca da diluição.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      01 Fev 2006
    • Data do Fascículo
      Dez 1980

    Histórico

    • Recebido
      23 Maio 1980
    • Aceito
      12 Set 1980
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