Resumo
A Casa das Minas de São Luís é considerada o mais antigo centro religioso de procedência africana de que se tem notícia no Maranhão. Fundado provavelmente nas primeiras décadas do século XIX, serviu de modelo para outros centros no Norte do Brasil. Tomando por referência os trabalhos de Sergio Ferretti, o artigo apresenta as pesquisas dos anos 1940 que estabeleceram a singularidade da origem daomeana da Casa das Minas e examina as diferentes narrativas, em especial aquela formulada por Pierre Verger em 1953, que buscaram dar conta de sua fundação. Denominei saga de Nã Agontimé esse conjunto de narrativas que contextualizo, então, com base em trabalhos mais recentes sobre o tráfico negreiro atlântico. O artigo argumenta que tais narrativas, situadas na confluência entre mito e história, expressam de modo notável a força simbólica da ideia de origem nos estudos socioantropológicos das religiões afro-brasileiras.
Palavras-chave
Casa das Minas; Sergio Ferretti; mito e história; narrativas de origem; São Luís do Maranhão
Abstract
The Casa das Minas of São Luís do Maranhão is considered the oldest religious centre of African origin that is known in Maranhão. Probably founded in the first decades of the nineteenth century, it served as a model for other centres in northern Brazil. Setting out from Sérgio Ferretti’s writings on the Casa das Minas, the paper presents the research findings that established the singularity of its Dahomean origin in the 1940s and examines the different narratives, especially the one formulated by Pierre Verger in 1953, which sought to establish its foundation and which I refer to as the saga of Nã Agontimé. More recent works on the Atlantic slave trade allow us to contextualize such narratives more clearly, situating them at the confluence between myth and history, revealing how they express in remarkable fashion the symbolic force of the idea of origin in the socio-anthropological studies of Afro-Brazilian religions.
Keywords
Casa das Minas; Sergio Ferretti; myth and history; origin narratives; São Luís do Maranhão
A Sergio Ferretti (in memoriam)
O interesse intelectual pelas religiões afro-brasileiras ganhou forma na segunda metade do século XIX no bojo dos estudos sobre o negro e sua marcante presença na formação da sociedade brasileira. Ao longo da costa centro e sul do continente americano, descortinaram-se divindades, mitologias e práticas rituais que, muito distintas daquelas conhecidas pelo cristianismo católico então predominante, desafiavam a passagem do tempo e os forçados deslocamentos espaciais: elas haviam atravessado o Atlântico com os escravos que chegaram ao país de diferentes pontos do continente africano e também os séculos de duração do regime escravista que, no Brasil, só conheceu oficialmente seu fim em 1888. Entre o final do Império e a instauração da República, as religiões afro-brasileiras revelavam-se, na linguagem antropológica contemporânea, um lugar fecundo de expressão e produção de diferenças socioculturais (Carneiro da Cunha, 1979).
Se o tráfico atlântico de escravos ligava e religava continuamente Brasil e África (Verger, 1987), as crenças e práticas rituais rearticulavam-se ao chegar em novas terras, buscavam nichos secretores de sociabilidades e modos de vida próprios (Bastide, 1971) em meios sociais inóspitos. Essas duas dimensões de um mesmo processo histórico - os vínculos de Brasil e África, e a rearticulação e ressignificação de sistemas religiosos africanos em sua inserção no país - emolduram o estudo das religiões afro-brasileiras. Como indicou Maggie (2015), ao longo do século XX esse estudo desdobrou-se em duas vertentes centrais: aquela que buscou africanismos e dedicou-se a remontar à origem dos rituais, cerimônias, cultos e objetos encontrados, em que se destacam Arthur Ramos e Melville Herskovits; e aquela que enfatizou o estudo das transformações e rearticulações das religiões ao as inserir em suas novas condições sociais, representada por autores como Robert Park, Donald Pierson, Franklin Frazier e Ruth Landes.
O animismo fetichista dos negros da Bahia, de Nina Rodrigues, publicado em 19002 (ver a respeito Corrêa, 1998 e Fry & Maggie, 2006), é um marco nessa vertente caudalosa de pesquisas que integram o pensamento social e, entre 1930 e 1940, acompanham a configuração das ciências sociais no país.3 Esse estudo precursor compartilhava os pressupostos do racialismo e evolucionismo então vigentes, pois, ao denunciar a “ilusão da catequese”, Nina Rodrigues (1935) a atribuía a uma suposta incapacidade dos negros para as “elevadas abstrações do monoteísmo”. Tal perspectiva, entretanto, era muitas vezes superada pela qualidade das observações de campo relatadas. Como observou Edison Carneiro (1964: 209), Nina Rodrigues revelava em seu estudo “uma indisfarçável simpatia pelos candomblés”. Merecem destaque observações lúcidas, como a que segue:
Quando em dias de abril de 1895, as lutas políticas das facções partidárias deste estado chegaram a uma tensão tal que a toda hora se esperava o rompimento de uma guerra civil [...] na porta do edifício das câmaras amanhecera deposto um grande feitiço ou coisa feita. A imprensa diária meteu o caso a ridículo sem se lembrar de que era aquele um modo de intervenção da população fetichista da cidade, tão lógico e legítimo na sua manifestação sociológica, quanto era natural a intervenção do digno prelado arquidiocesano que, conferenciando com os chefes dos grupos litigantes, procurava restabelecer a paz e o amor da família baiana (Nina Rodrigues, 1935: 194).
Também em São Luís do Maranhão, a julgar pelo noticiário local, o centro religioso afro-brasileiro Casa das Minas já emergia como ativo participante da vida urbana, em data anterior àquela da situação descrita por Nina Rodrigues para Salvador, Bahia. Um pequeno anúncio no jornal A Pacotilha, de 22 de junho de 1887, intitulado “Pedido justo”, deixa entrever o preconceito existente para com a população negra:
Pede-se a pessoa que levou por brincadeira ou má intenção a imagem do Menino Deus, da Casa das Minas, que se achava no altar ali armado, queira fazer o obséquio de ir entregá-lo na referida casa, pois viu-se perfeitamente a pessoa que tirou-a, e não se lhe disse nada para não envergonhá-lo, e não dizer-se - enfim é festa de pretos - o que não nos doía a cabeça. Se não for entregá-lo passará pela decepção de ver o seu nome por extenso neste jornal. Quem me avisa meu amigo é.4
O surgimento da Casa das Minas em São Luís do Maranhão remontaria, segundo os especialistas, possivelmente às primeiras décadas do século XIX.5 Seu estudo, entretanto, só emergirá de modo mais definido nos anos 1940, com os trabalhos de Nunes Pereira (1947) e Octávio da Costa Eduardo (1948). Com pesquisas iniciadas nos anos 1970, e já no ambiente das pós-graduações brasileiras, Sergio Ferretti6 retomou e renovou com dois de seus principais trabalhos (Ferretti, 1985 e 1995)7 o estudo dessa Casa “considerada a casa mãe de outros tambores de mina do Maranhão e da Amazônia, embora formalmente não haja outras que lhe sejam filiadas” (Ferreti, 1985: 16). Tambor de mina é a denominação ampla dessa variante da religiosidade afro-brasileira que tem por divindades os voduns e espalhou-se por outras regiões do país.
Partindo das contribuições e indicações de Ferretti (1985, 1995), este texto busca reconstituir de modo sintético os elos centrais que compuseram, de meados do século passado aos nossos dias, narrativas instigantes acerca das origens da Casa das Minas de São Luís do Maranhão. Debruça-se sobre os estudos de Nunes Pereira (1947) e de Octávio da Costa Eduardo (1948), que, ao indicar a vinculação dos voduns nele adorados com ancestrais históricos da realeza do antigo Daomé, configuraram a singularidade desse centro religioso. Essa indicação atrairá o interesse de Pierre Verger (1953a), que formulará, por sua vez, a hipótese de que a rainha daomeana Nã Agontimé, vendida como escrava aos negreiros do tráfico atlântico entre o final do século XVIII e o início do XIX, teria fundado a Casa das Minas. Tal hipótese especulativa configura o que denominei a saga de Nã Agontimé, uma envolvente fabulação que busca preencher vazios intransponíveis, violentos traumas e silêncios seculares. Pesquisas mais recentes, ao estabelecerem dados históricos fidedignos, permitem contextualizar e relativizar a hipótese de Verger. Uma breve notícia acerca da situação atual da Casa das Minas e um modesto tributo à memória de Sergio Figueiredo Ferreti encerram nosso percurso.
CASA DAS MINAS DE SÃO LUÍS DO MARANHÃO
A Casa Grande das Minas ou Casa das Minas Jêje, situada no Centro Histórico de São Luís do Maranhão - mais precisamente na rua São Pantaleão, n. 857 - está, desde 2005, entre os terreiros tombados como patrimônios culturais brasileiros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).8 Assim como a Casa de Nagô, também antiga na cidade, a Casa das Minas ostenta em seu nome a marca da proveniência do grupo que a criou: eram negros minas ou minas-jêje. Mina ou Minas é termo que se refere aos escravizados vindos da região da antiga Costa do Ouro (atual Gana e mais amplamente toda a região do golfo de Benim na África Ocidental). Arthur Ramos (1947: 10) atribuiu essa denominação ao Forte de Elmina ou de São Jorge da Mina, datado do século XV, que se tornara o principal empório de escravos da região sob os portugueses.9 Por isso, o termo teria passado a designar genericamente todos os negros embarcados daquele porto para o Brasil. Por essa razão, nos diz Ramos, na documentação do tráfico negreiro costumava-se acrescentar ao termo genérico mina, outro termo, que buscava identificar de modo mais preciso a origem étnica de um grupo: “minas-nagô; minas-gêge; minas-popô. A Casa das Minas Jêje, a que logo voltaremos em detalhe, teria sido criada por um grupo de africanos oriundos do antigo Daomé, atual Benim: “negros gêges, Mina-gêge” (Ramos, 1947: 10).10
No primeiro estudo de Sergio Ferretti (1985),11 a perspectiva etnográfica, com base na experiência da observação participante longa e próxima, entrelaça cuidadoso estado da arte acerca da Casa, narrativas de memória das vodunsi (as sacerdotisas ou filhas de santo que recebem as divindades, os voduns, durante o transe) sobre a história do centro religioso e suas experiências de liderança e convívio (que revelam conflitos, fofocas e disputas, diferentes perspectivas a respeito de eventos marcantes na história da Casa), o exame da organização social (a luta e negociação pelo uso e propriedade dos prédios e espaços), da mitologia (na ocasião da pesquisa mais intensiva realizada entre 1974 e 1978, a Casa tinha 60 divindades cultuadas), dos rituais mais íntimos e das festas religiosas que se abrem para o povo citadino em geral (as festas de são Sebastião e do Divino Espírito Santo). Ao longo de muitas décadas, o lento e progressivo declínio da Casa - do ponto de vista da ausência de renovação das iniciações plenas que garantiriam a continuidade geracional do culto12 - se ilumina à luz da singularidade de sua história associada ao culto de divindades ancestrais da realeza do antigo Daomé. Desenha-se para o leitor um ambiente quase onírico em que dados históricos se encontram com vislumbres da memória, sempre parcialmente silenciada por muitos segredos, pois, como sempre dizem as vodunsi, os voduns são discretos e não apreciam revelações.
Ferretti (1995: 217) voltaria ao tema com sua tese de doutoramento, Repensando o sincretismo: a Casa das Minas de São Luís do Maranhão, que distingue variantes do conceito de sincretismo - no final organizados pelo autor em três grupos “conforme predominam as noções de mistura, paralelismo, convergência” - que marcou a literatura pertinente. O autor reconhece a relevância de críticas ao conceito tantas vezes usado de modo simplório como uma junção quase mecânica de ideias díspares. Destaca aquela feita por Leacock e Leacock (1975) que, ao pesquisarem o batuque paraense, viram no termo sincretismo o obscurecimento do processo criativo envolvido na rearticulação de um sistema religioso. Defende, entretanto, a originalidade de seu estudo de caso que analisa “o sincretismo num dos grupos religiosos afro-brasileiros mais tradicionais” (Ferretti, 1995: 222). De fato, nesse livro, que retoma aspectos do trabalho anterior, destacam-se as etnografias das festas religiosas relacionadas ao calendário ritual católico,13 que geralmente expandem as redes de relações sociais do centro religioso. São elas: a festa de Averequete (um vodum que, por sua vez, “adora” são Benedito); o banquete dos cachorros que homenageia são Lázaro; o Arrambam, que fecha os terreiros de tambor de mina no início da quaresma; a Festa do Divino Espírito Santo.14
Nesses dois livros, sempre enfatizando a contemporaneidade da Casa, Sergio Ferretti empreende também o cuidadoso registro das pesquisas anteriores. Junto à expressão de “orgulho das raízes”, viu-a como uma manifestação da organização e criatividade populares, como uma religião em que se mesclavam “uma espécie de teatro popular, uma oportunidade de lazer, de divertimento com comidas e bebidas e encontros entre muitas pessoas - a comunidade se exterioriza” (Ferretti, 1985: 15). Mais adiante reafirmou: “Privilegiamos esta casa como objeto de estudo, não com a intenção inviável de procurar africanismos puros ou de identificar núcleos religiosos mais autênticos, mas por a considerarmos como uma das mais representativas e até hoje um dos modelos de organização do tambor de mina do Maranhão” (Ferretti, 1985: 50).
As narrativas acerca da história da Casa das Minas, entretanto, expressam de modo notável a força simbólica da ideia de origem nos estudos socioantropológicos das religiões afro-brasileiras.15 Trata-se de um caso em que a história do tráfico negreiro e a antropologia das religiões têm encontros bem demarcados na bibliografia disponível. A força simbólica dos mitos de origem é bem conhecida da antropologia, que entende sua narração contemporânea como a ativação de valores e significados do presente (Lévi-Strauss, 1976). É mais rara, entretanto, a autoconsciência de sermos partes integrantes dos processos culturais que os fabricam.16 O simples ato de recontar histórias, afinal, mesmo que para examiná-las, implica permitir que elas exerçam sobre nós sua força. Ao buscar situar os estudos de Sergio Ferretti num cenário mais amplo,17 precisei reconstruir ainda que sumariamente as narrativas existentes acerca da origem da Casa das Minas. Ao fazê-lo, surpreendi-me inteiramente absorvida por elas, que foram compondo aos poucos o desenho de um infindável quebra-cabeças. Em torno da Casa das Minas, como veremos, mito e história entranharam-se em um caso único, cujo estudo continuará por muito tempo a atrair futuros pesquisadores no Brasil e mundo afora.
A CASA DAS MINAS E O DAOMÉ. OS ESTUDOS DOS ANOS 1940
Os estudos afro-religiosos no Maranhão ganharam forma definida na segunda metade dos anos 1940.18 Em 1947, Nunes Pereira (1947) publicou a monografia A Casa das Minas. Contribuição ao estudo das sobrevivências daomeianas no Brasil.19 No ano seguinte, Octávio da Costa Eduardo (1948) publicou The negro in Northern Brasil. A study in acculturation (ver Ferretti, 2017). Esses dois estudos trazem consigo a marcante presença dos dois expoentes mundiais dos estudos afro-brasileiros e afro-americanos da época - Arthur Ramos e Melville Herskovits, respectivamente. Sua publicação em datas tão próximas é, por si, significativa.
Arthur Ramos introduz o texto de Nunes Pereira, autenticado pela experiência vivida e qualificado pelo próprio autor como um depoimento, oriundo do convívio religioso cotidiano datado da infância, pois sua mãe e sua madrinha teriam sido vodunsis da Casa das Minas. Melville Herskovits orientou, por sua vez, Octávio da Costa Eduardo em seus estudos pós-graduados na Northwestern University, nos Estados Unidos.20 O livro de Nunes Pereira inaugura as publicações da Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia que, fundada por Arthur Ramos, se encerrou com sua morte em 1949.21 O livro de Octávio da Costa Eduardo, por sua vez, é o 15º número da série de monografias da American Ethnological Society. A influência intelectual de Herskovits sobre Ramos é bem conhecida, e eles mantiveram estreito relacionamento, tendo mesmo planejado, por ocasião do seminário Aculturação, realizado na Northwestern University em 1941 (Ramos, 1947), uma viagem conjunta de estudos ao Maranhão, da qual se encarregaria Octávio da Costa Eduardo por sugestão de Herskovits. Os esperados resultados da pesquisa de Eduardo ainda não estavam disponíveis quando Ramos escreveu sua introdução ao livro de Nunes Pereira.
O conceito de aculturação - que enfatiza o exame de traços culturais remanescentes de uma cultura originária22 - e mesmo aquele de transplantação - uma metáfora botânica - compõem o pano de fundo dos trabalhos de Nunes Pereira e de Eduardo. A busca das origens, em suma, predominante no enfoque socioantropológico das religiões no país até os anos 1970 (Maggie, 2015), inspira esses estudos, bem diferentes, entretanto, em sua natureza.
Nunes Pereira, cujo relato é dedicado a Andresa Maria, então a principal vodunsi da Casa, é apresentado por Ramos como um “ilustre etnógrafo amazonense”. Mãe Andresa, segundo Ferretti (1985), teria assumido o comando da casa de 1914 a 1954 e foi sua última grande chefe, pois o ritual que completaria o processo de iniciação de novas gonjaí,23 de modo a incorporar novas gerações à possibilidade de expressão religiosa plena, nunca foi promovido por ela. Mãe Andresa era a guardiã de preciosa memória, a qual, registrada por Nunes Pereira (1947) e por Eduardo (1948), logo atrairá a atenção de Pierre Verger (1953a),24 em cujas formulações se imbricarão, já na segunda metade do século XX, o interesse religioso e por pesquisas documentais sobre o tráfico atlântico.
Para Nunes Pereira (1947: 18-19): “A Casa é das Minas, sim, de uma sociedade africana transplantada para o Brasil, mas o patrimônio que ela representa está confiado a uma verdadeira Mãe: autoritária, quando é mister; boníssima, sempre”. A Casa chama-se Querebetan em língua jêje, e, “se o tipo da Casa, na sua arquitetura, é colonial portuguesa, a sua alma é lidimamente africana, como a de Mãe Andresa Maria” (Nunes Pereira, 1947: 23): “Ali, há mais de um século, alguns Negros Minas se constituíram em sociedade genuinamente africana, com as suas leis, os seus deuses, os seus costumes e as suas tradições” (Nunes Pereira, 1947: 19). Ele queria saber da “fundação dessa Casa, isto é, do ato social, político, religioso tradicional que a estabeleceu lá na antiga São Pantaleão!” (Nunes Pereira, 1947: 22, itálico do autor). A resposta lhe chegou pela oralidade: “A Tradição, falando através da boca de Andresa Maria, diz que quem a ‘assentou’ foi contrabando”. E, segundo Almerinda, sua madrinha, era “gente vinda diretamente da África, Mina-Gêge. Trouxeram o pegi das divindades cultuadas consigo”.25 “Nós é que estamos zelando” (Nunes Pereira, 1947: 22), afirma sempre a dona da Casa.
Na opinião de Arthur Ramos (1947), a pesquisa pioneira de Nunes Pereira supria uma importante lacuna na série dos estudos brasileiros sobre o problema do negro. Ao comentá-la, Ramos configura com clareza os contornos do que viria a caracterizar, de modo cada vez mais nítido na literatura subsequente, a singularidade da Casa das Minas de São Luís do Maranhão em meio à história das religiões afro-brasileiras. Segundo Ramos, Nina Rodrigues já teria registrado fragmentos culturais deixados pelos “geges ou Ewes, mas tão íntima foi sua fusão com os Nagôs, predominantes em número, que a Mítica gêge foi quase totalmente assimilada pela mítica yoruba correspondente, a ponto de se falar, desde os tempos das primeiras pesquisas, numa religião ou mitologia ‘gêge-nagô’, com referência ao conjunto de traços estudados” (Ramos, 1947: 5-6). As evidências de tradições e divindades jêjes até então existentes constituiriam apenas traços isolados, vestígios.26 No Maranhão, entretanto, essas tradições existiriam como um verdadeiro “bloco cultural”: “Lá existe, de forma institucionalizada, o culto dos voduns, onde a filiação daomeiana pode ser facilmente identificada” (Ramos, 1947: 8).27
Esse “rico filão de sobrevivências africanas no norte do Brasil” (Ramos, 1947: 9) demonstrado por Nunes Pereira terá seus contornos reforçados e enriquecidos por novos dados com a pesquisa de Octávio da Costa Eduardo (1948: 11), que enfoca, justamente, o “problema geral das sobrevivências africanas entre os negros do Norte do Brasil”.28 A densa pesquisa compara comunidades rurais e urbanas maranhenses em termos da presença de padrões africanos de organização econômica, familiar e religiosa, e empreende um exaustivo trabalho de análise de dados populacionais e de inventários dos escravos no Maranhão.29 Nesse estudo desenha-se com clareza a singularidade do dito grupo negro de ascendência daomeana assinalada por Nunes Pereira. Vale citar um trecho mais longo:
Se invertermos nossa ênfase e tentarmos descobrir a data de chegada mais antiga para uma ou ambas as tribos [povos iorubanos e daomeanos], encontramos certos fatos relativos ao grupo de ascendência daomeana que devem ser mencionados aqui. Como será visto mais adiante esse grupo está familiarizado com o nome do rei daomeano Agongolo ou Agongoro, que governou Daomé de 1789 a 1797, segundo Le Herissé, e de 1789 a 1818, segundo Burton e Skertchly.30 Esse nome, ligeiramente modificado para Agongono, com tônica na penúltima sílaba, em vez de na antepenúltima, como pronunciado no Daomé, é dado também a uma das divindades cultuadas pelo grupo e pode ser tomado como indício de que os escravos daomeanos chegaram ao Maranhão no final do século XVIII ou início do século XIX. Isso não significa que escravos daomeanos não foram trazidos mais tarde, mas é bastante intrigante descobrir que o nome do grande rei Ghézo, que reinou de 1818 a 1858, é totalmente desconhecido para essas pessoas. Isso sugere que a proporção de escravos introduzidos antes de 1818 foi maior do que a introduzida depois. Nesse contexto, podemos notar que a maioria dos escravos mina foi mencionada nos inventários para o ano de 1815 [...] Se dados posteriores confirmarem o que esses materiais indicam, pode-se dizer que o grupo daomeano manteve sua identidade no Maranhão durante mais de 150 anos (Eduardo, 1948: 14-15).
Na visão do próprio Arthur Ramos,31 a hipótese atestada pela monografia de Nunes Pereira de proveniência africana direta da Casa das Minas era ainda especulativa, pois derivava do critério de comparação cultural de traços minas-jêje encontrados tanto no culto dos voduns da Casa das Minas em São Luís como no culto daomeano. Com o trabalho de Octávio da Costa Eduardo, contudo, a hipótese ganha nova densidade e aproxima-se do fato histórico, pois a análise de inventários regionais atesta a presença relevante de grupos de escravos daomeanos que teriam chegado ao Maranhão em torno de 1815. Eduardo (1948) aproxima o padrão dos agrupamentos de divindades de culto em famílias, bem como a mitologia da Casa das Minas, daqueles existentes no culto aos voduns no Daomé.32 Em especial, os nomes das divindades cultuadas no Maranhão seriam, informa Eduardo (1948: 77), “impressionantemente semelhantes, quando não idênticos àqueles dos reis do Daomé”.33 Ele prossegue com um comentário tão notável quanto sua descoberta:
O grupo daomeano do Maranhão não sabe que essas divindades têm os nomes dos reis daomeanos, mas é difícil acreditar que isso não era do conhecimento de seus antepassados [...] O fato de que os nomes dos reis daomeanos são dados a divindades adoradas pelo grupo daomeano é prova suficiente de que a adoração dessas figuras reais daomeanas prossegue hoje por esse grupo no Brasil, ainda que sem saber.
A relevância etnográfica dos trabalhos de Nunes Pereira (1947) e de Eduardo (1948) ressoará na segunda metade do século XX. A hipótese da conexão da Casa das Minas com a realeza daomeana ecoará além do campo das ciências sociais ou dos estudos religiosos, imprimirá sua marca no imaginário intelectual da época e ganhará a atenção de historiadores do tráfico atlântico de escravos. Nesse cenário, Pierre Verger emerge como um autor/ator central na construção de uma narrativa-síntese acerca da origem da Casa das Minas.
Como bem sintetizou Ferretti (1985: 25), sendo a Casa das Minas uma das mais antigas casas de culto afro-brasileiras que sobrevivem até hoje e talvez “o único lugar fora da África em que são cultuados voduns da família real de Abomey”, Pierre Verger (1953a) apresentou a hipótese de que a Casa das Minas teria sido fundada por membros da família real de Abomé, entre eles a rainha Agontimé, vendidos como escravos para o Brasil no reinado de Adandozan (ou Adanzan) (1797-1818). Pierre Verger colorirá - com nomes, dados e detalhes históricos - o laço até então suposto a ligar a Casa das Minas maranhense à antiga realeza do Daomé.
Abomé, localizada no interior do território africano, é a capital histórica do antigo reino do Daomé, que existiu entre 1645 e 1900, até sua tomada final em 1904 pelos franceses, com o que se iniciou o período colonial da história do Daomé.34 O período histórico abarcado pela hipótese de Verger abrange os reinados de Agongono entre 1789 e 1797, aquele de Adandozan entre 1797 e 1818, e o de Ghézo entre 1818 e 1858.
AS HIPÓTESES DE PIERRE VERGER E SEUS DESDOBRAMENTOS
Em 1953, o diretor do Institut Français de l’Afrique Noire (Ifan), Théodore Monod, agradece os esforços de Pierre Verger, colaborador do Ifan desde 1940, para a publicação do número 27 da série Mémoires de L’Institut Français d’Afrique Noire, intitulado Les afro-américains, dedicado a compreender as relações entre os negros dos dois lados do Atlântico. O esforço vinha se somar àquele da Unesco, que conduzia naquele mesmo momento ampla pesquisa sobre a experiência brasileira de relações entre negros e brancos e os resultados de um contato social que ignoraria “as temíveis e ameaçadoras tensões que se pode observar alhures” (Monod, 1953: 7).35 É expressiva a participação do caso brasileiro no número, enfocado tanto no item África - com o dossiê de quase 100 páginas de Pierre Verger (1953b) sobre a “Influência do Brasil no Golfo de Benim”36 - como com uma seção sobre o Brasil que reúne artigos de boa parte dos principais especialistas da época: Roger Bastide, Edison Carneiro, Octávio da Costa Eduardo, Gonçalves Fernandes, Gilberto Freyre, Joseph H. Greenberg, Carlos Ott, Donald Pierson e Pierre Verger, este último com o segundo artigo de sua autoria no volume (Verger, 1953a)37 para o qual nos voltamos.38
Nesse artigo, Pierre Verger39 apresentou a hipótese de que o culto dos voduns de Abomé teria sido trazido para São Luís do Maranhão no começo do século XIX pela mãe do rei Ghézo, vendida como escrava ao tráfico negreiro pelo irmão por parte de pai de Ghézo, o rei Adandozan. Desde há muito a realeza daomeana vendia, para os portugueses, escravos de grupos inimigos capturados em guerras.Verger (1953a: 158), entretanto, informa que nenhum rei de Abomé jamais vendera como escravo um daomeano de Abomé: “Eles entregavam seus inimigos aos negreiros mas, assim como a terra do reino, nenhum abomeano podia ser alienado”.40 Quando da morte do rei Agongono, contudo, Adandozan, seu filho mais velho, ao assumir o reino em 1797, teria se celebrizado por atos violentos e cruéis, entre eles a venda de membros da família real para os negreiros. Essa parte deportada da família estaria relacionada a seu irmão por parte de pai, Ghézo, que, por sua vez, em 1818 tomaria o trono a Adandozan. Durante seu reinado, que perdura até 1858, Ghézo teria enviado embaixadores em busca do paradeiro de sua mãe nas Américas.
Desejos misturados a dados oriundos das duas margens do Atlântico confluem para a construção da hipótese. Há, na margem brasileira, o desejo de Verger de explicar a intrigante presença de divindades da família real do Daomé no culto da Casa das Minas do Maranhão. Na margem africana, transparece nas fontes utilizadas o desejo de engrandecimento da memória do “grande rei Ghézo” (Eduardo, 1948: 15) na história da realeza do antigo Daomé.41 A hipótese, cuja construção somos convidados a acompanhar, interpela de imediato o leitor não apenas pelos vívidos detalhes provenientes de pesquisa e da longa vivência de Verger na África. Subjaz a seu texto um notável pathos dramático, pois os passos da história narrada encarnam-se em ações de sujeitos comprovada ou supostamente históricos. As informações até então existentes relativas às conexões dos voduns maranhenses com os da família real do Daomé, expandidas por dados convergentes, articulam-se em uma narrativa que, ainda que apresentada como pura especulação, ganha de imediato grande eficácia simbólica.
Resumo a leitura trazida por Verger (1953a) das cinco fontes das quais se extraem os detalhes que comporão sua própria versão final. Entendo-as como variantes míticas de uma mesma história que passo a denominar a saga de Nã Agontimé. Ao mesmo tempo, procuro contextualizar tais fontes ainda que brevemente.
Fonte 1: Auguste Le Hérissé foi administrador colonial no Daomé,42 tendo se casado com uma princesa da família real. Era membro correspondente do Comité d’études historiques et scientifique de l’Afrique Occidentale Française, e seu livro - L’Ancien royaume du Dahomey. Moeurs, réligion, histoire (Hérissé, 2014), publicado originalmente em 1911 - é considerado um valioso relato acerca do antigo reino. Tal como composta por Verger, essa versão narrativa destaca a rivalidade existente entre Adandozan e Ghézo que emerge do testemunho de um chefe nativo a Le Hérissé. Ghézo, ainda menor por ocasião da morte de seu pai, é quem teria sido indicado pelo oráculo de Ifá como seu digno sucessor. Adandozan “era filho de uma outra mulher de Agonglo”, e Ghézo o teria derrubado do trono em 1818, pois “suas atrocidades e injustiças haviam atormentado os daomeanos”, entre elas: “Adandozan não havia hesitado em vender aos mercadores de escravos da costa a mãe de Ghézo e uma parte de sua família” (Verger, 1953a: 157).
Fonte 2: Le pacte de sang au Dahomey, de Paul Hazoumé (1937). Hazoumé nasceu no Benim e celebrizou-se como intelectual e escritor africano francófono.43 O livro foi publicado pelo Instituto de Etnologia da Universidade de Paris. O nome da mãe de Ghézo, Nã Agontimé - procurada sem sucesso por embaixadores reais daomeanos no Brasil e nas Antilhas -, é trazido por essa fonte. O livro de Hazoumé examina o valor e a extensão da instituição do pacto de sangue no antigo Daomé: uma relação ritual profunda que, sobreposta à lealdade com os parentes, ligava os pactuantes por meio da obrigação de ajuda mútua por toda a vida, com solidariedade, confiança ilimitada e grande discrição. O relato acerca da kpojito Agontimé - que interessa a Verger - emerge já no primeiro capítulo, em que Hazoumé define a etimologia da palavra Kpojito [kpo (o leopardo) + dji (dar à luz, parir) + to (a pessoa, ou pai, que pariu o leopardo]: “Era o tratamento consagrado às mães dos reis pois supunha-se que o rei era um leopardo, descendente de Agassou, o ancestral da família real. Agontimé era o nome da mãe de Ghézo” (Hazoumé, 1937: 6, nota 1). A menção ao “sacrilégio” da venda de Agontimé emerge no contexto do exame empreendido por Hazoumé de um dos mais célebres pactos de sangue do reino do Daomé: aquele firmado entre o mercador de escravos Francisco Félix de Souza, o chachá de Ajudá,44 e o príncipe Gapê. Graças ao apoio que lhe teria dado Francisco Félix, Gapê ascende ao poder e, já como rei Ghézo, deseja “reencontrar sua mãe, a rainha Agontimé, vendida aos negreiros por Adandozan” (Hazoumé, 1937: 31).45
Fonte 3: O livro Daomé, de Cortez Curado (1888), major do Exército português que comandou o forte e o distrito de Uidá entre 1885 e 1887.46 Com base nessa fonte emerge nomeado um dos embaixadores enviados por Ghézo às Américas. Chamava-se Dossouyévo (também Dossou-Yovo)47 e fora dignatário da corte do rei Agongono (o pai de Adandozan e de Ghézo); falante do português e do inglês, era homem de confiança do mercador Francisco Félix. Curado teria encontrado pessoalmente Dossouyévo no Daomé já na velhice. Ele se lembraria, entretanto, apenas de sua participação na embaixada enviada por Ghézo a dom João VI em 1818, que teria ficado retida na Bahia durante três anos sem alcançar a corte. A viagem de Dossouyévo teria nesse caso outro motivo que não a busca de Nã Agontimé.48
Fonte 4: O Livro de família de Oliveira, natural de Uidá, viria, entretanto, confirmar a versão da busca de Agontimé pelas Américas, com uma variação: os embaixadores não teriam buscado a mãe biológica de Ghézo, pois “Foi sua mãe de criação (Ghézo perdera sua verdadeira mãe poucos dias depois de seu nascimento) quem foi deportada além-mar por Adandozan. Ele [Ghézo] implorou a Francisco Félix de Souza - o grande mercador de escravos de Ajudá, aliado de Ghézo - para que a reencontrasse custasse o que custasse” (Verger, 1953a: 158).
Fonte 5: O relato de um neto de Dossouyévo a Verger vem confirmar o pedido do rei Ghézo a Francisco Félix de Souza e a seu avô, dignatário da corte do rei Agongono, que teria tido relevante participação na derrubada de Adandozan. É dele a fala transcrita por Verger (1953a: 158): “Foi mesmo Nã Agontimé ela mesma que foi reencontrada por meu avô. Mas foi em Cuba que os enviados daomeanos esperaram três anos até encontrarem uma passagem para o Brasil e quando eles reencontraram a mãe de Ghézo, eles praticamente não tinham mais dinheiro. Dossouyévo deixou Atindé Bakou [também Atindebacou, o outro embaixador daomeano enviado por Ghézo] e retornou ao Daomé; Ghézo lhe deu três barras de ouro; ele partiu novamente e três meses depois ele voltou com a rainha-mãe”.49
Aspectos dessas diferentes versões narrativas se fundem na composição da hipótese final de Verger (1953a: 158): a mãe de Ghézo estaria entre os membros da família do rei Agongono que “foram vendidos depois de sua morte como escravos e transportados para um ponto desconhecido das duas Américas”. Teriam chegado ao Maranhão, o único lugar das Américas onde divindades ancestrais da família real de Abomé são cultuadas. Os nomes de voduns de uma família em especial dessas divindades, a ele citados em 1948 por mãe Andresa em São Luís do Maranhão, teriam sido imediatamente reconhecidos pelo principal sacerdote de Abomé como correspondendo àqueles dos antigos reis do Daomé.50 Como nenhum vodun da lista apresentada por Andresa é posterior ao rei Agongono, fato, aliás, já assinalado por Eduardo (1948), Verger (1953a: 160) conclui: “Seria bem possível que o culto das divindades dos reis de Abomé tenha sido estabelecido na ‘Casa das Minas’ de São Luís do Maranhão por Nã Agontimé, viúva do rei Agongono, mãe de Ghézo que, com uma parte de sua família, foi enviada como escrava por Adandozan e que Dossouyévo e Migan Atindebacou procuraram por tanto tempo em fazendas das duas Américas”.
A romancista norte-americana Judith Gleason (1970) atendeu ao apelo de Verger à imaginação investigativa de seus leitores. Essa pletora de elementos transformou-se no romance Agõtime: her legend. Gleason pesquisou no Maranhão e na Bahia, seus capítulos são ilustrados por Carybé, e Verger, que ela nomeia apenas como Fatumbi,51 foi um de seus principais interlocutores entre os estudiosos do tema: “Era uma vez uma rainha negra, Agontimé, exilada pelo destino de uma África real. Os deuses que ela trouxe para o Novo Mundo conheceram uma modesta sobrevivência. Esta é a sua história, uma exploração de seu destino não louvado” (Gleason, 1970: V).
Sob inspiração direta da monografia de Nunes Pereira, o caminho da Casa das Minas da vida real para a ficção literária também ressoou nacionalmente com o romance Os tambores de São Luís, do intelectual maranhense Josué Montello (1975). Montello compartilhava com Nunes Pereira o sentimento de proximidade da Casa das Minas pelo viés afetivo da vivência de infância em São Luís.52 Os tambores da Casa abrem o romance e ressoam pelas ruas por onde trafega Damião, seu principal personagem: instado pelas mãos de Nochê Andresa Maria, Damião adentra a Casa da rua de são Pantaleão, onde “como que se reintegrava no mundo mágico de sua progênie africana [...] qual se voltasse a lhe ser propício o vodum que acompanha na Terra os passos de cada negro”. Era então “outra vez o negro puro, filho de sua raça, em contato com as remotas raízes africanas” (Montello, 1975: 7).
As pesquisas de Verger sobre as relações Brasil/África culminaram na publicação da edição francesa em 1968 de Fluxo e refluxo (Verger, 1987). Como corroboram Soares (2014) e Parés (2013), Verger localizou e transcreveu no capítulo VII do livro, nove cartas dos monarcas daomeanos Agongono e Adandozan aos monarcas portugueses. Um ano antes, em 1967 (Soares, 2014), uma visita ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, lhe trouxera o conhecimento da coleção de objetos daomeanos que então compunha o acervo museológico da instituição.53 No artigo “Uma rainha africana mãe de santo em São Luís” (Verger, 1990),54 ao qual logo voltaremos, tais objetos comporão um desdobramento da hipótese inicial da fundação da Casa das Minas por Nã Agotimé.
No intervalo entre a ida de Verger ao Museu Nacional, em 1967, e seu artigo de 1990, nos dias 24 a 28 de junho de 1985, a Unesco promoveu juntamente com a Universidade Federal do Maranhão o colóquio “As sobrevivências das tradições religiosas africanas nas Caraíbas e na América Latina”. Diversos centros de pesquisas nacionais e internacionais estiveram presentes, e estudiosos de países africanos, Cuba, Haiti, Venezuela, Caraíbas e Brasil (Rio de Janeiro, Maranhão, Bahia, São Paulo) apresentaram trabalhos e redigiram um relatório final (Unesco, 1986). O diretor-geral da Unesco foi representado pelo diretor da Divisão dos Estudos e Difusão Cultural, Maurice Glélé, e vale a pena saber que Glélé, do Benim, é um descendente direto do rei Ghézo (Costa e Silva, 2004: 87).55 Sergio Figueiredo Ferretti (1986) presidiu os trabalhos e apresentou a comunicação “As religiões de origem africana no Maranhão”, um panorama geral da religiosidade afro-brasileira no Maranhão. Pierre Verger (1986a, 1986b) apresentou “As contribuições especiais das mulheres do candomblé no Brasil” e “Um estudo sobre as divindades iorubas, fon, banto com os lugares de culto no Brasil e em paralelo os nomes das divindades correspondentes em África e sua localização” que, malgrado o título, aborda apenas as divindades iorubas. São três atores-chave cujo encontro no colóquio talvez ajude a entender por que, muito embora a Casa das Minas não figure de modo especial nos trabalhos apresentados, o relatório final atesta: “São Luís e a experiência original da Casa das Minas, fundada no Brasil pela Rainha Agontimé, mãe do rei Ghézo, condenada à deportação a seguir a um ajuste de contas no seio da família real, antes que o seu filho acedesse ao trono do Daomé em 1818 e lançasse uma vasta operação em busca da mãe [...] [Na comunidade da Casa das Minas] as sujeições rituais decorrentes da sua origem fon não excluem de maneira alguma as exigências de integração profunda no contexto sociocultural e político-econômico brasileiro” (Unesco, 1986: 34).
A hipótese especulativa formulada por Verger em 1953 emerge como afirmação no relatório da Unesco de 1986. Quatro anos depois, Verger retoma parte dos argumentos já apresentados e busca complementá-los com o conhecimento, obtido em 1967, da coleção dos objetos daomeanos do Museu Nacional: “Parece que houve represálias ao bárbaro tratamento infligido por Adandozan a Nã Agontimé, mãe de Ghézo. O trono de Adandozan não figura no Museu Histórico de Abomé. Pode-se pensar que, por espírito de retaliação, este trono de Adandozan teria sido mandado por Ghézo em exílio no mesmo Brasil onde Nã Angotimé foi vendida” (Verger, 1990: 154). É bem verdade que Verger se refere também à hipótese alternativa de que tais objetos tivessem sido enviados pela embaixada do rei Adandozan ao rei de Portugal em 1810. Ele reitera, contudo, a primeira hipótese, que viria reforçar aquela anterior da fundação da Casa das Minas por Nã Agontimé como uma possível comprovação: o trono encontrado no Museu Nacional atestaria a retaliação de Ghézo à deportação de sua mãe por Adandozan.56 Origem, identificação e data de envio dos objetos da coleção daomeana foram, entretanto, bem estabelecidas tanto pela museologia e pesquisa de acervo do Museu Nacional (Soares, 2014) como pela publicação de todo o conjunto das cartas daomeanas enviadas aos reis de Portugal (Parés, 2013).57 Em 1990, Verger não conhecia a carta do rei Adandozan a dom João V, datada de 9 de outubro de 1810 - a carta 13 publicada por Parés (2013) -, na qual se encontram nomeados um a um os objetos que viriam a integrar - por caminhos também já deslindados - a coleção daomeana do Museu Nacional (Soares, 2014). A hipótese de que o trono daomeano existente na coleção brasileira resultaria de retaliação por parte de Ghézo não encontrou bases plausíveis. A saga de Nã Agontimé, entretanto, cala mais fundo no imaginário intelectual.
A SAGA DE NÃ AGONTIMÉ
Os personagens históricos centrais das narrativas que compõem a saga se entrelaçam por fortes liames de parentesco: Adandozan e Ghézo são classificados como irmãos por parte de pai, o rei Angongono; e Nã Agontimé, vendida aos negreiros por Adandozan, nos é apresentada como a mãe de Ghézo, que teria mandado buscá-la nas Américas, onde ela teria, possivelmente, fundado a Casa das Minas de São Luís do Maranhão. Os sistemas de parentesco, entretanto, variam enormemente entre as diferentes sociedades humanas, abarcam laços consanguíneos, laços de afinidade e laços rituais e políticos que se articulam em complexos padrões de comportamento, obrigações morais e em diversas terminologias classificatórias. No antigo Daomé, religião, poder e parentesco associavam-se intimamente. Pesquisas acadêmicas mais recentes acerca da história do Daomé e do tráfico negreiro atlântico lançam nova luz sobre os personagens da saga e permitem melhor dimensionar as ações a eles atribuídas nas narrativas apresentadas. Para tanto, retomo, e de certo modo reconto, a saga de Nã Agontimé, contextualizada e relativizada pelas leituras que pude empreender acerca do tráfico atlântico que então ligava o Brasil/Portugal ao Daomé. Utilizo como referências os trabalhos de Soares (2014), Parés (2013), Costa e Silva (1998, 2004) e Bay (1995, 1998).58
Entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, como indicou Parés (2013), transformações profundas no mundo atlântico entrelaçaram o Daomé e a Costa da Mina, a Europa e o Brasil (ver também Costa e Silva, 1994). Napoleão guerreava na Europa e, em 1808, a família real portuguesa deslocava-se para o Brasil; os principais portos africanos do tráfico passavam por acirradas disputas e se reordenavam na Costa da Mina. Enquanto a Inglaterra declarava o final do tráfico em 1807, “crescia a demanda por escravos no Brasil em decorrência de um novo surto de prosperidade no setor açucareiro provocado pela saída de cena do Haiti” (Parés, 2013: 300). Se o tráfico negreiro para as colônias britânicas e os Estados Unidos estava proibido, e acarretara a queda do preço dos cativos em Ajudá “a um pouco menos da metade dos níveis anteriores a 1807”, nos portos brasileiros, na mesma época, o preço dos escravos “subira de forma considerável” (Costa e Silva, 2004: 81). Assim é que, mesmo depois da assinatura do Tratado de Aliança e Amizade com a Inglaterra (1810), que previa a abolição do tráfico de escravos africanos pelos portugueses, o tráfico do golfo de Benim para o Brasil permaneceu intenso (Soares, 2014), e o embarque de escravos pelos portugueses era mesmo, segundo Costa e Silva (2004), autorizado a partir de Ajudá, embora não em outros portos da costa.59
Na primeira metade do século XVIII, os daomeanos percebiam-se como guerreiros e não como mercadores de escravos, pois apenas depois de reservar para sacrifícios partes significativas dos prisioneiros de suas guerras, colocavam os demais no mercado do tráfico (Costa e Silva, 2004). Os sacrifícios humanos, por sua vez, eram parte da permanente comunicação simbólica estabelecida entre a realeza e seus ancestrais tornados divindades: os humanos sacrificados eram considerados mensageiros entre os vivos e os habitantes do reino das sombras ou mesmo seus acompanhantes e cuidadores, que deveriam continuar a zelar por eles (Bay, 1995). Costa e Silva (1994: 24-25) comenta o quanto a ideia de Estado-nação no Daomé desdobrava-se “sob o disfarce de eternidade” como uma realidade espiritual: “dela e de sua representação como estado não se excluíam os ancestrais e os vindouros”.
No final do século XVIII, Adandozan já era o grande fornecedor de escravos da região. No mesmo período, Francisco Félix de Souza - um ator central nos bastidores da saga de Agontimé - já era também nitidamente reconhecido pelos daomeanos como comandante do forte de Ajudá (Costa e Silva, 2004). Ajudá era então uma cidade “grande e espalhada”, “distante quase cinco quilômetros da praia” e uma larga estrada real - com hospedarias vigiadas pelos espiões reais, centros religiosos e mercados - ligava-a a Abomé, a capital do reino. Francisco Félix atuava como uma espécie de agente comercial nas articulações do tráfico, adiantava mercadorias ao rei contra a entrega de cativos. Certa feita, não tendo a troca sido cumprida, Francisco Félix, indo queixar-se a Adandozan, terminara preso. Teria sido nessa ocasião, nos diz Costa e Silva (2004) conforme Hazoumé (1937), que o príncipe Gapê o teria visitado na prisão e firmado com ele o compromisso de lealdade inquebrantável e fidelidade absoluta do pacto de sangue. O mercador se tornaria um dos articuladores centrais na ascensão de Gapê ao poder como rei Guézo, e as sagas de família contam que Guézo concedeu a Francisco Félix não só terras como o monopólio da exportação de escravos (Costa e Silva, 2004). De sua parte, Francisco teria sido um competente agente do rei e “soube aproveitar a expansão da demanda no Brasil e, a partir de 1820, o consequente aumento dos preços de exportação no litoral africano, para devolver a Ajudá a condição de grande centro do comércio de escravos: já agora, o segundo ao norte do Equador, logo depois de Lagos” (Costa e Silva, 2004: 90). Essa posição africana e as relações mantidas por Francisco Félix no outro lado do oceano com importadores de escravos, donos de navio e financiadores do tráfico o teriam qualificado perante Guézo “também como mediador dos esforços de encontrar, resgatar e trazer de volta aquela que deveria ser sua kpojito, sua rainha-mãe” (Costa e Silva, 2004: 103), embarcada como escrava por Adandozan.
A ascensão de Adandozan ao trono, em 1797, ocorrera de forma ainda mais violenta que a de outros reis do Daomé (Costa e Silva, 2004), em meio a acirradas disputas entre um príncipe tido como irmão de Angongono e outros dois filhos seus - Dogan e Anibabel.60 Os reis tinham haréns, e Bay (1995) narra detalhes das diversas conspirações sucessórias em que as mulheres de origem comum, esposas do rei, em especial as candidatas ao posto de rainha-mãe, tinham papel ativo. O derramamento de sangue de membros da estirpe real era tabu, e as formas de eliminação dos adversários indesejados e politicamente perigosos abrangiam torturas cruéis, abandono ao mar, afogamento e sua venda como escravos às Américas: “E foi este o destino de muitos - cerca de seiscentos dos partidários de Dogan e Anibabel” (Costa e Silva, 2004: 83). Entre eles, a futura kpojito, Nã Agontimé.
A escolha feita por Ghézo dessa esposa de Agonglo como rainha-mãe associa-se claramente a sua ascensão ao poder em 1818. Embora Bay (1995: 19) mencione que, por volta de 1840, “uma pessoa foi instituída para reinar como kpojito, sob o nome de Agontimé”, nenhum dos relatos a que tive acesso indica quando exatamente essa eleição teria ocorrido, e as razões dessa escolha permanecem especulativas.
Kpojito Agontimé, nomeou-a Hazoumé (1937). Nã Agontimé, nominou-a Verger (1990). Na, Nã, Naye, Naie, Nae correspondem a título honorífico que precede o nome pessoal da kpojito. Kpojito, informa Bay (1995), era um posto oficial no antigo Daomé, um cargo que existiu a partir de certo momento da história do reino,61 até sua extinção no começo do século XX. Denominava a mulher parceira do rei no poder, considerada a mais rica e poderosa do reino. E, segundo a autora, uma das poucas certezas a esse respeito (Bay, 1995)62 é que aquelas nomeadas para o cargo tinham sido esposas do antecessor daquele que as convocava para ocupá-lo. Era nessa condição que elas se tornavam progenitoras simbólicas do novo rei: “Na perspectiva daomeana, a questão da relação biológica entre a kpojito e seu par masculino real é irrelevante [...] Cada rei substitui o primeiro ancestral, e a kpojito ergue-se no lugar de sua mãe” (Bay, 1995: 12).
Ao reinstaurar a cada novo reino o tempo ancestral, a história do antigo Daomé traz consigo a natureza cíclica dos mitos. A dinastia real reinava no mundo visível e no mundo das sombras povoado pelos ancestrais divinizados, fundadores míticos dos clãs e por espíritos poderosos e perigosos do século XIX (Bay, 1995). Nascimento e morte eram passagens entre os dois mundos, e os sacrifícios, oráculos e preces (o transe pela mediação dos sacerdotes, creio eu também) eram formas da comunicação entre eles. A atribuição do cargo de kpojito era perpétua. A transmissão ritual do cargo a sucessivas gerações assegurava, por assim dizer, a permanência corporal viva da pessoa originalmente nomeada, num espelhamento perfeito entre os dois mundos. O nome atribuído à kpojito, bem como seu status, tornava-se, assim, permanente. Agontimé - assim nomeada como a sexta ocupante do cargo no Daomé pré-colonial (Bay, 1995) - foi vista pelo viajante inglês John Duncan em 1845 em saudação reverencial ao rei Ghézo (Bay, 1998); e, segundo Costa e Silva (2004: 104), “cinco anos depois Frederick Forbes, diante do túmulo da mãe de Guézo, assistiu à dança ritual de uma senhora que detinha o título de kpojito e o nome de Agontimé”; e ainda, 15 anos depois, outro viajante, Richard Burton, viu a kpojito Agontimé desfilar diante do rei. Para Bay (1995), a Agontimé de Ghézo era uma mulher que se notabilizou por seus poderes rituais, mas tendo sido vendida para o tráfico além-mar bem antes do reinado de Ghézo, claramente não estava envolvida na luta que precedeu sua ascensão ao poder. “A escolha de Ghézo por uma mulher que se acreditava estar vivendo no hemisfério ocidental simbolizava as fontes de apoio efetivas do rei, os mercadores do tráfico de Ajudá, e a sua escolha pode mesmo ter sido um esforço intencional de sinalizar o interesse de contatos mais próximos com o Brasil”.63 Costa e Silva (2004: 103) de sua parte também pondera: “Num sistema polígamo como o dos fons, no qual o filho de uma das várias esposas de um homem tinha por mãe todas e cada uma de suas mulheres, Guézo poderia ter escolhido qualquer das cônjuges para rainha-mãe”. Talvez por simbolizar a inimizade com Adandozan, Ghézo a quis como parceira no poder e mandou procurá-la nas Américas”. Nenhum dos relatos disponíveis estabelece ou menciona qual teria sido o seu lugar de destino. As plausíveis razões da escolha de Ghézo permanecem especulativas. E, embora saibamos que aquela esposa de Agongono, mais tarde eleita rainha-mãe por Ghézo, foi vendida aos negreiros atlânticos por Adandozan, seu destino efetivo e a busca por ela nas Américas permanecem obscuros.
A inalcançável verdade insiste, entretanto, em ser perseguida. Em 1981, Costa e Silva visitou com Sergio Ferretti a Casa das Minas de São Luís do Maranhão e ouviu as mães de santo ressaltarem, “sem jamais mencionar o nome de fundadora do santuário” (Costa e Silva, 2004: 104),64 que aquelas que o estabeleceram eram todas africanas tendo chegado ao Maranhão no mesmo navio. Ele prossegue (Costa e Silva, 2004: 104): “O que coincide com a lembrança que se guarda no Daomé, de que Agontimé teria sido vendida junto com 63 de suas dependentes e servidoras”.65
Se a existência da kpojito daomeana Agontimé pode ser registrada e estabelecida, a vida da esposa de Agongono, deportada para as Américas por Adandozan, cujo nome à época permanece desconhecido, parece destinada a ser para sempre um mistério a escapar não só da história como até mesmo do mito. Talvez seja mesmo um segredo guardado para sempre pelos voduns que não mais dançam na Casa das Minas de São Luís do Maranhão.
Em 8 de fevereiro de 2015, morreu a última chefe da Casa, dona Deni Prata Jardim, com 89 anos. Um neto de sua antecessora, mãe Amélia, tocador de tambor, mantém atualmente a agenda cultural da Casa das Minas que, como patrimônio brasileiro, prossegue aberta à visitação. A festa do Divino Espírito Santo e as festas juninas, tradicionais no calendário festivo da Casa prosseguem,66 porém os rituais religiosos do culto aos voduns cessaram. O culto aos voduns, entretanto, certamente se mantém em outros centros religiosos do país. Como assinalou Ferretti (1986), são numerosos os terreiros de tambor de mina em São Luís, e foram intensos os contatos mantidos entre o povo da Mina por todo o Maranhão e com outros estados, como Pará, Ceará, Pernambuco, Bahia, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo. Os voduns ancestrais da realeza daomena, entretanto, não dançam mais no Maranhão; permanecem, porém, cultuados no Benim, na outra margem do Atlântico, de onde vieram outrora.
Oriundo de família kardecista, Sergio Ferretti teve educação católica. Na entrevista concedida a Vagner Silva (publicada neste mesmo número), ele nos diz, com timidez, que queria ser monge beneditino, que na Casa das Minas se sentia algumas vezes como se estivesse no mosteiro, pois sempre apreciou nas religiões o gosto pela liturgia (ver também Silva, 2000). Foi durante seus estudos na universidade católica de Louvain, na Bélgica, que a leitura do livro de Roger Bastide lhe despertou o interesse pelas religiões afro-brasileiras. A militância na Juventude Universitária Católica levou-o ao Maranhão em 1963/1964. Nos anos 1970, depois de continuar a formação no exterior e de intensa atuação no centro de pesquisas da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, para lá voltou como professor. Lá conheceu e casou-se com Mundicarmo, sua companheira de uma vida em que as pesquisas de ambos eram partilhadas no cotidiano.67 Lá engajou-se na construção institucional de museus e centros culturais, participou ativamente da Comissão Maranhense de Folclore, da entrada das ciências sociais na graduação e pós-graduação universitárias. Pesquisou a cultura popular maranhense de modo permanente, mas interessou-se particularmente pelas religiões e, entre elas, pela experiência religiosa da Casa das Minas do Maranhão. Creio que esse interesse resultou da confluência do cientista social, pesquisador incansável e generoso anfitrião, com seu ecumenismo. Ferretti viveu intensamente o encontro entre religiões, pesquisou no encontro entre religiões e no encontro entre religião e ciência. Pois, se para ele (Ferretti, 1985: 56) a formação científica e a religiosa requeriam a mesma prolongada convivência e a mesma lenta e gradual absorção de procedimentos adequados, as diferentes religiões sabiam dialogar por entre as questões existenciais mais profundas das distintas sociedades humanas, como os mistérios da vida e da morte.
NOTAS
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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