Open-access “ELA É PUTA, MAS AO MESMO TEMPO NÃO É”: A ETNOGRAFIA DE UMA CONTROVÉRSIA NO FÓRUM GP-GUIA SOBRE A LEGIBILIDADE SOCIAL DE MULHERES PROVENIENTES DA MERCANTILIZAÇÃO POR DESVIO

“SHE IS A WHORE BUT AT THE SAME TIME SHE IS NOT”: THE ETHNOGRAPHY OF A CONTROVERSY IN THE GP-GUIA FORUM ABOUT THE SOCIAL LEGIBILITY OF WOMEN RESULTING FROM COMMODIFICATION BY DEVIATION

Resumo

Este artigo pretende se concentrar no estudo de um processo específico de mercantilização por desvio. No interior do fórum digital GP-Guia, um tópico de discussão instrui os participantes sobre as maneiras adequadas de elaboração dos perfis visando contatar mulheres em aplicativos de relacionamento dispostas a realizarem práticas sexuais pagas que, originalmente, não integravam esses espaços de sociabilidade com a finalidade econômica. Diante dessa nova forma de mercantilização sexual, pretende-se analisar a controvérsia dos foristas em torno do estatuto social ocupado por essas mulheres em face do sistema de classificação vigente no fórum, baseado no critério de alienabilidade, que distingue as civis das garotas de programa. Para tanto, foi realizada uma análise das práticas de rotulação mobilizadas pelos foristas para objetivar o sentido de realidade atribuído às mulheres provenientes da mercantilização por desvio.

Palavras-chave:
Mercantilização por desvio; Rotulação; Tinder; Ideal moral; Consumo sexual

Abstract

This study aims aims to focus on a specific process of commodification by deviation. Within the digital forum GP-Guia, a discussion topic instructs participants on the appropriate ways to create profiles to contact women on dating apps who are willing to engage in paid sexual practices and who were not originally part of these spaces of sociability for economic purposes. In view of this new form of sexual commodification, this study aims to analyze the controversy between forum members regarding the social status of these women in light of the classification system in force on the forum based on the criterion of alienability, which distinguishes civilians from call girls. For this, this study analyzed the labeling practices mobilized by forum members to objectify the sense of reality attributed to women resulting from commodification by deviation.

Keywords:
Commodification by deviation; Labeling; Tinder; Moral ideal; Sexual consumption

INTRODUÇÃO

Na seção gaúcha do fórum GP-Guia, dedicado à produção de relatos sobre a experiência sexual de consumidores cis-heterossexuais com garotas de programa a fim de avaliar a qualidade dos serviços prestados por estas trabalhadoras, uma discussão proveniente da seção Assuntos Gerais chamou a atenção por seu aspecto inusitado. As conversações no tópico “Tinder - gp, acompanhantes e novatas” delineavam os contornos empíricos de um processo ao qual Appadurai (2000) denominou por mercantilização por desvio. Em linhas gerais, o forista mento inaugurou a conversação pública assinalando sua utilização do aplicativo de relacionamento Tinder com a finalidade de conhecer mulheres dispostas a realizarem atividades sexuais em troca de dinheiro. O que ele notou, no entanto, foi um contingente significativo de mulheres interessadas nessa proposta que, a princípio, não estavam participando desta rede social com tal finalidade mercantil. Trocando em miúdos, tais mulheres passaram a receber um estatuto mercantil no âmbito de suas respectivas biografias (Kopytoff, 2000) em um ambiente no qual se supunha que elas estariam protegidas de tal condição - vale lembrar que o regulamento do Tinder veda o compartilhamento de conteúdos, nos perfis de seus usuários, que promovam o comércio sexual.

Diante dessa problemática, o foco deste artigo consiste em mapear e analisar a controvérsia em torno da inteligibilidade dessas mulheres provenientes do Tinder no âmbito do tópico de conversação em questão. Em outras palavras, qual seria o estatuto social que os foristas do GP-Guia atribuiriam a essa modalidade de mulheres que troca sexo por dinheiro? Pretende-se entender as implicações que a experiência sexual com as mulheres do Tinder acarreta ao sistema de classificação vigente no GP-Guia, fundado em um critério de alienabilidade hierárquico que distingue as civis (mulheres não alienáveis) das garotas de programa (alienáveis). A análise ancora-se na depuração dos rótulos usados pelos foristas para se referenciarem a essas mulheres, procedimento esse que objetiva o sentido de realidade vinculado a essas pessoas (Becker, 2008). O corpus mobilizado pela etnografia contempla uma conversação pública formada por 220 mensagens trocadas por membros da seção riograndense do GP-Guia entre setembro de 2019 e junho de 2024.

O percurso textual inicia-se com uma breve caracterização do fórum GP-Guia, a fim de descrever suas pretensões e sua lógica de funcionamento, além de chamar a atenção para o contexto enunciativo que modaliza as formas de intervenção realizadas pelos foristas nessa plataforma. Em seguida, a segunda seção do texto aprofunda-se no problema de pesquisa supramencionado e está dividida em quatro momentos: 1) a emergência de uma categoria discreta de pessoa, cujo significado é construído a partir da relacionalidade que estabelece com as categorias polares das civis e garotas de programa; 2) a explicitação das reações de uma parcela dos foristas a essa intrusão categorial, destacando a tentativa destes de reforçar o sistema classificatório até então vigente no GP-Guia; 3) a especificação da natureza mercantil diferencial vinculada a essas mulheres e que pode ser melhor compreendida pela noção de sexo transacional (Cantalice, 2009); 4) a explicitação de uma polêmica em torno da pertinência do tópico, fundada nas consequências que a presença de tais mulheres acarretaria à lógica da dádiva que ampara a existência do GP-Guia.

CONFIGURAÇÃO E FUNCIONAMENTO DO GP-GUIA

O fórum digital GP-Guia (https://www.gp-guia.net/) é um espaço de interlocução promovido por homens cis-heterossexuais, em anonimato, voltado ao compartilhamento de relatos escritos sobre suas experiências sexuais com garotas de programa a fim de avaliar a qualidade dos serviços dessas profissionais e servir como referência para que os demais foristas optem por contratar ou não as mulheres retratadas. Essas narrativas são denominadas como test drives (TDs) em alusão à condução supervisionada de carros feita por concessionárias para permitir aos compradores sentir a dirigibilidade do veículo.

O regulamento que estabelece as diretrizes para a publicação de conteúdos e a interação dos usuários define o GP-Guia como “uma ferramenta de defesa dos clientes, assim como o Procon”1. Este mesmo regulamento estimula os participantes a, além de preencherem os campos que avaliam e descrevem as atividades das garotas de programa, fornecerem um relato detalhado do atendimento recebido sem que, contudo, o conteúdo incorra em exagero, em injustiça com a situação vivenciada ou em apreciações emotivas sobre o trabalho das profissionais2.

A descrição produzida pelos confrades3 pretende instituir um mecanismo de confiança (Giddens, 1991) que, por um lado, visa a contornar as incertezas sobre as potenciais frustrações emocionais e financeiras associadas ao atendimento das profissionais, dado que indica tanto as práticas que elas se dispõem a realizar, quanto produz um julgamento sobre a performance da acompanhante, forjando um horizonte de expectativas que orienta a satisfação dos desejos dos consumidores; e, por outro, pretende servir como uma instância de regulação da qualidade do serviço das garotas de programa, configurando um espaço reflexividade - através dos questionamentos informados pelas demandas dos clientes - que sirva ao aperfeiçoamento do trabalho prestado - com base na leitura dos TDs sobre os próprios atendimentos ou através das postagens sobre as profissionais melhor pontuadas no fórum.

A consciência sobre o significado do compartilhamento dos TDs não é alheia à percepção dos próprios usuários do GP-Guia:

Uma das coisas que faz o gpguia ser o que é, é exatamente isso, postar. Comer puta e guardar para si. É sinônimo de vá se internar e ponha uma camisa de força. É tão decepcionante, e tão fabuloso ao mesmo tempo, que você não pode deixar isso guardado para si.

E por isso que é tão ridículo… Algumas putas ficarem bravas com o próprio serviço merda que elas prestam, toda puta deveria seguir como regra as bases de atendimento e aprender como se deve atentar lendo os TDs dos próprios tópicos (symphony from death, 26 jun. 2024, 14:36).

Além das dimensões supramencionadas, o comentário de symphony from death destaca um terceiro aspecto significativo relacionado à produção dos relatos. O sentimento presente em sua fala deseja exprimir incredulidade e indignação com um conjunto de foristas que optam por não publicizar suas experiências sexuais com garotas de programa, independente dessas experiências terem sido prazerosas ou frustrantes.

Primeiramente, esse sentimento dual explicita a lógica da dádiva (Mauss, 2003) que estrutura o funcionamento do GP-Guia, pois a narração de TDs é um gesto aparentemente desinteressado que, todavia, solicita contraprestações contínuas pelos demais foristas, para que as garotas de programa qualificadas positivamente sejam coletivizadas e circulem entre os confrades. Uma das maiores formas de censura atribuídas a um forista consiste em qualificá-lo como sonegador ou chupim, isto é, um membro que se beneficia das informações compartilhadas sem retribuir a dádiva.

O segundo nível do sentimento dual de symphony from death corresponde à materialização da performance hegemônica de masculinidade que fornece o tom geral - e o ideal moral (Durkheim, 1994) - a partir do qual as interações realizadas no GP-Guia tendem a ser comparadas e reguladas4.

A incompreensão de symphony from death quanto ao silêncio de alguns usuários se presta a questionar a omissão dos foristas em fornecer provas públicas de suas virilidades (Bourdieu, 2002) - inviabilizando, aos demais participantes, a emissão do julgamento sobre a performance desses usuários enquanto legítimos homens. Embora o cadastro e a participação de mulheres não sejam vedados no GP-Guia, a proposta comunicacional que produz a especificidade deste espaço de sociabilidade baseia-se em uma noção de confraria masculina marcada pela tensão entre os polos da camaradagem e da competitividade. O compartilhamento dos TDs, portanto, também aponta para uma lógica comum a esse universo de sentido, qual seja, a de amealhar capital simbólico através da narração das proezas sexuais perante seus pares para afirmar publicamente sua masculinidade (Sacramento, 2005).

Estas considerações remetem à necessidade de entender o consumo sexual de um modo mais abrangente e complexo, reconhecendo que tal prática não remete apenas à atividade sexual com garotas de programa, mas inclui, também, o consumo do próprio lugar de sociabilidade em questão (França, 2012), pois as narrativas compartilhadas no fórum constituem pontos de apoio para a produção da identidade dos membros dessa plataforma ao lhes apresentar, por meio dos códigos de conduta disseminados, formas coletivamente chanceladas para se reconhecerem e se produzirem como homens.

Estrutura e moderação do GP-Guia

Em relação à estrutura do site, as discussões entabuladas no GP-Guia dividem-se em seções específicas vinculadas às delimitações territoriais dos estados do Brasil. Nos tópicos de cada ente da federação, outro conjunto de subdivisões temáticas é acionado. No caso do Rio Grande do Sul, área que contempla a situação etnográfica descrita, tal delimitação interna compreende: a) Porto Alegre / Mudanças / Informações sobre GPs e Casas; b) Porto Alegre / Acompanhantes; c) Porto Alegre / Boates, Clínicas e Privês; d) Porto Alegre / Sites, Agências e Pontos de Rua; e) Porto Alegre / Área Trash; f) Rio Grande do Sul / HHs, Encontros e Eventos; g) Rio Grande do Sul / Interior Estado; h) Rio Grande do Sul / Assuntos Gerais; i) Rio Grande do Sul / Mural dos profissionais. As intervenções dos foristas são feitas no interior dos tópicos de cada uma dessas subdivisões.

Uma figura importante para a coordenação e o funcionamento do GP-Guia é o moderador do fórum, uma posição não remunerada exercida voluntariamente por uma parcela dos usuários. O mediador tem o objetivo de fazer cumprir o regulamento do fórum e realiza uma análise sistemática das mensagens postadas pelos usuários para avaliar a adequação às diretrizes estabelecidas sobre a natureza dos conteúdos publicados e a pertinência do conteúdo à especificidade de cada seção do GP-Guia.

Compete ao moderador assegurar, na formulação dos TDs, a comprovação da identidade laboral da mulher cuja atividade sexual será retratada através de informações que atestem o status de garota de programa, como a divulgação do link do anúncio publicado pela profissional. O moderador também ocupa um papel de mediador nos conflitos que eventualmente surgem tanto na interação entre os foristas como na relação desses usuários com as prestadoras de serviços sexuais.

O regulamento do GP-Guia prega que a elaboração dos TDs seja pautada por um princípio de justiça sobre o atendimento recebido pelas garotas de programa. Por isso, os foristas devem se comprometer em divulgar apenas informações verdadeiras5. Caso alguma trabalhadora sexual sinta-se injustiçada, ela pode solicitar uma investigação junto à moderação e, caso consiga comprovar seus argumentos, recebe um direito de resposta a ser publicado na postagem difamatória.

Também cumpre ao moderador avaliar postagens que constituam tentativas indevidas de autopromoção pelas garotas de programa. O GP-Guia constitui uma vitrine de publicidade e credibilidade para as trabalhadoras sexuais, visto que as avaliações realizadas pelos foristas são um instrumento informal de certificação do trabalho desenvolvido, o que pode ser capitalizado pela profissional através do aumento da clientela e do aumento dos preços cobrados em seus atendimentos. Em consonância com Weiner (1976), é possível observar que o processo de produção de valor das prestadoras de serviço sexual no GP-Guia também ganha materialidade pelo acúmulo de histórias - expressas sob a forma de TDs - associadas a cada garota de programa.

Para além de se estabelecer como guardião das regras de sociabilidade, o moderador, dado seu capital simbólico, também ocupa o papel de promotor e guardião dos ideais morais que modalizam as interações no fórum - com destaque para aqueles que dizem respeito à sagrada (Durkheim, 2003) noção de masculinidade compartilhada no GP-Guia.

CLASSIFICANDO AS MULHERES PROVENIENTES DO TINDER

O forista mento compartilhou com os demais participantes da seção gaúcha do fórum digital GP-Guia a sugestão de utilizar o Tinder como uma forma de conhecer mulheres dispostas a estabelecer interações sexuais em troca de dinheiro, ao fornecer as diretrizes da utilização do aplicativo para a criação de um contexto mercantil (Appadurai, 2000). Então, uma pergunta implícita, que sustentou um intenso volume de debates no tópico “Tinder - gp, acompanhantes e novatas” imediatamente pairou no ar: “qual o estatuto das mulheres do Tinder que, não estando no aplicativo com finalidade mercantil, decidem participar de relações sexuais intermediadas por dinheiro?”.

Segundo Becker (2008), o processo de rotulação confere uma natureza e uma inteligibilidade social a uma classe de pessoas, que será responsável tanto por definir nossas imagens e expectativas com relação à sua conduta, como as linhas de ação que adotaremos nas interações que estabeleceremos com ela. Logo, uma análise da forma de nomeação das mulheres alvo de mercantilização por desvio constitui um procedimento necessário para entender a maneira como os membros do GP-Guia assimilam a especificidade social das egressas do aplicativo Tinder que aceitam realizar interações sexuais em troca de dinheiro.

A emergência de uma nova forma de categorização

No plano empírico, um procedimento necessário consiste em observar as distintas nomenclaturas manejadas pelos foristas para compreenderem as mulheres recrutadas na interface do Tinder. Na argumentação gestada neste tópico do GP-Guia, uma parcela dos usuários optou por distinguir as mulheres conhecidas através dos aplicativos de relacionamento da categoria das garotas de programa.

Quando o forista mento explica a outro forista a etiqueta para abordar essa classe emergente de mulheres, ele se expressa nos seguintes termos: “E no mais é conversar lembro que como não são putas, a maioria prefere conversar normal, poucas são diretas” (mento, 29 set. 2019, 11:06, grifo nosso). Embora não qualifique o que elas sejam propriamente, mento delineia os contornos de uma fonte de significados para as egressas do Tinder por meio da explicitação da relação da qual tais significados derivam, ou seja, da oposição que estas mulheres estabelecem com a noção preexistente de garotas de programa. Ademais, a tentativa de estabelecer fronteiras entre essas duas noções de mulher não corresponde apenas a um princípio de diferenciação, mas remete a uma dinâmica de segregação que serve à criação de uma hierarquia de valor entre essas categorias.

Na contabilidade realizada por mento para persuadir os demais membros do fórum sobre a efetividade e as benesses do processo de triagem de mulheres via Tinder, uma parte específica de sua explicação remete a essa questão: “Eu particularmente evito GP, só se valer muita a pena então, se descubro ou parece ser GP já tiro o match. Creio que removi umas 7 GP para um total de 45 match é um número baixo” (mento, 16 set. 2019, 16:27, grifo nosso).

Se, por um lado, mento reconhece que a interface do Tinder também está composta por garotas de programa oferecendo seus serviços sexuais, por outro, ele não as concebe em pé de igualdade com as mulheres que seleciona no Tinder, apesar de ambas as classes procederem à troca de intimidade sexual por dinheiro. Assim, ele afirma seu esforço em proceder a uma depuração que visa à criação de uma rede de contatos formada exclusivamente por mulheres provenientes da mercantilização por desvio. O procedimento de filtragem é descrito com detalhes mais ricos por jefao:

Segue a minha experiência com tinder. […] Teve uma da região até era um poquinho gordinha tinha o rosto bonita que quando chamei para explicar o perfil, ela responde Siimm eu faço PG valor 350, ai ja deletei kkk ora essa eu to procurando uma civel ou semi puta ela ja vem dizendo que faz pg (jefao, 25 jun. 2024, 21:00, grifo nosso).

O relato citado explicita um dos procedimentos de verificação adotados pelos usuários para reconhecer possíveis profissionais do sexo, a saber, a análise dos códigos linguísticos utilizados por esta categoria de mulheres. Ao notar que a mulher traduziu sua proposta de relacionamento pela ideia de programa (PG) - jargão empregado por prestadoras de serviço sexual -, o forista optou por encerrar as conversas com tal mulher por concebê-la enquanto garota de programa.

O usuário Brownn_mann2 chama a atenção para a possibilidade de manipulação da identidade (Goffman, 2004; Leach, 1996) pelas garotas de programa em certos contextos mercantis ambíguos com o objetivo de aumentarem seu valor social e converterem esse prestígio em maior capital econômico. Seu relato pretende fornecer aos demais foristas alguns parâmetros de avaliação para desmascarar tais mulheres:

Então encontra-se mulher de todos os tipos, o que já dificulta o approach (em sites de GP é sempre GP que se encontra, aqui não), inclusive acompanhantes disfarçadas de “civis”, só que pelas roupas, pelos papos6 e pelas tatuagens de presidiária são facilmente identificadas (Brownn_mann2, 23 jan. 2021, 23:07, grifo nosso).

Não obstante, os limiares entre estas classificações nem sempre são tão perceptíveis quanto supõe Brownn_mann2. Alguns usuários, como gaucho21cm, se relacionaram com garotas de programa acreditando que estavam lidando com as mulheres da mercantilização por desvio: “Pois é Madruga… Furuncando, 2 que deu match são GP, incluindo minha TOP… Vou comer, claro… Mas sabendo que é GP… A busca da civil TOP continua!!!” (gaucho21cm, 27 abr. 2021, 17:06).

Além de assinalarem a problemática dos limiares e formas de depuração empregadas pelos foristas para distinguir as mulheres do Tinder das garotas de programa, os depoimentos de jefao, Brownn_mann2 e gaucho21cm são ilustrativos ao colocar em primeiro plano as denominações diferenciais empregadas para denominar essa classe de mulheres. Assim, jefao e gaucho21cm as qualificam pela designação civis; jefao, sinalizando uma hesitação sobre o estatuto dessa categoria, opta por rotulá-las como semi putas; Brownn_mann2 tenta traduzir a ambiguidade dessa parcela de mulheres pela utilização da noção de “civis” (entre aspas).

À diferença da tentativa de estabelecer limites rígidos entre esta categoria de mulheres e as garotas de programa, as fronteiras entre as mulheres mercantilizadas por desvio e as civis são mais porosas na avaliação de um conjunto de foristas, oscilando entre a sobreposição dessas mulheres à classificação de civil, a despeito de sua alienabilidade, e a formação de uma categoria intermediária forjada na tentativa de compatibilizar o reconhecimento de sua alienabilidade e o valor - concebido como positivo - associado ao polo das civis. Outras soluções linguageiras dessa categoria que aparecem ao longo do tópico do GP-Guia são “semi-profissionais” (M. Brando, 22 fev. 2022, 16:31), “semi-acompanhantes” (pokegp, 19 maio 2022, 19:19), “semi-gp” (Wcl123, 3 jan. 2023, 20:01), “semi-civis” (Qualquer1, 5 set. 2022, 13:47).

Reforçando as fronteiras classificatórias preexistentes

Um primeiro ataque à percepção porosa do lugar das mulheres recrutadas pelos foristas no Tinder foi formulado pela primeira vez em novembro de 2021 pelo usuário maneca:

Olha meu amigo…reconheço que estou ficando velho…mas pra mim, GP = Garota de Programa = mulher que faz sexo por dinheiro… Talvez vc esteja pegando amadoras, ok… mas que são PUTAS, disso não tenho dúvidas, querendo elas ou não esse rótulo… Nada contra, sem ofensas, adoro as PUTAS! (maneca, 28 nov. 2021, 11:09).

O esforço de maneca consiste em revogar o estatuto ambíguo dessa categoria de mulheres em prol do fortalecimento da classificação dualista original que fornecia sustentação à apreciação das mulheres no interior do fórum GP-Guia e estava pautada em um critério concebido em termos de alienabilidade.

A mediação do dinheiro, de acordo com maneca, é inquestionavelmente definidora da classificação das mulheres, independentemente da maneira como elas compreendam o intercâmbio monetário por práticas sexuais. Na concepção do forista, o que se poderia pleitear seria a definição de modalidades distintas de prostituição baseadas em certos graus de engajamento temporais - as amadoras corresponderiam a estágios iniciais de uma trajetória que poderia culminar (ou não) em maior nível de institucionalização profissional. Maneca, entretanto, não associa seu procedimento classificatório a uma hierarquia de ordem moral. A fala do forista aponta para a polissemia do termo puta e não compreende essa categoria a partir de um princípio de corrupção moral, mas, antes, procura fornecer um valor positivo ao trabalho por elas prestado, enfatizando certa preocupação em não as estigmatizar.

Apesar da argumentação de maneca, a reverência ao estatuto ambíguo vinculado às mulheres do Tinder se mantém até setembro de 2022, quando symphony from death e Hisoka85 ingressam no debate e realizam um contraponto à inteligibilidade das mulheres provenientes da mercantilização por desvio. Para tanto, procuraram ressaltar certas dimensões que eles consideravam problemáticas no processo de captação dessas mulheres e que não teriam sido enfatizadas até então: “Pois é… esse tipo de comentário sobre o lado obscuro dos apps de paquera, o pessoal que defende o uso como se fosse a nova roda para pegar mulher, não exponhe por aqui” (Hisoka85, 4 set. 2022, 21:56).

Ambos os foristas tentam reestabelecer a legitimidade das fronteiras originalmente traçadas no GP-Guia, a saber, a dicotomia entre as garotas de programa e as civis segundo o critério da alienabilidade:

Que mundo estamos vivendo? Uma civil que cobra por sexo? Não é civil caralho…é puta e ainda fica de modernidades… minha filha tu é puta… te enxerga. Pra mim civil da de graça… […] Tu quer uma “namorada” te dando a ilusão de sou uma civil e não dou pra todo mundo ai…blz! Dai é tua escolha de vc mesmo se enganar. Pois é isso que rola. Ela não é nada mais do que uma mina que é prostituta mas acha que não é (symphony from death, 3 set. 2022, 17:14)

Elas não são civis, elas cobram por isso, pode sim ter meninas menos profissionais, mas agora você me dizer que não são prostitutas, daí é realmente brincar com a inteligência da galera. Outra questão sem logica, Porque você quer pagar? Se você tem a opção gratuita? E as opções de gratuito e pago são praticamente as mesmas. Vejam só, você vai flertar com a “civilzinha” e ainda vai pagar pra ela…sendo que a mesma opção se encaixa, na civil que não vai te cobrar…manos, essa lógica de vcs está muito fora da caixa (symphony from death, 5 set. 2022, 20:53).

Se vende o corpo por dinheiro é puta sim (não importa se isso está sendo normalizado socialmente, a alcunha não muda) (Hisoka85, 11 maio 2023, 13:51).

Embora a avaliação desenvolvida por symphony from death convirja com a de maneca, o tom delas é bastante distinto. Transparece, nas postagens feitas por symphony from death, um sentimento de indignação com a especulação de que as mulheres captadas no Tinder possam ser classificadas sob a condição de civis.

A exaltação e a virulência do depoimento de symphony from death evidenciam que uma potencial subversão da ordem classificatória fundada no critério da alienabilidade é interpretada por ele como uma grave violação de um sistema subjacente de valores que organiza e distingue as condutas apropriadas (sagradas) em detrimento das inapropriadas (profanas). Conforme salienta Archetti (2003), a perspectiva durkheimiana sobre a moralidade, embora também reconheça importância da dimensão racional-cognitiva das crenças, confere grande centralidade às emoções enquanto instâncias mediadoras dos ideais morais que regulam o campo das ações empreendidas pelos indivíduos para estabelecer certo grau de estabilidade à perpetuação da vida social.

Os sentimentos morais de symphony from death não passaram despercebidos por Qualquer1, um de seus antagonistas mais atuantes no fórum: “O segundo não entendeu também [o uso apropriado do Tinder] e certamente uma terapiazinha faria bem rsrs. Muita revolta nesse teu post symphony nossa. Cara se é puta ou não o que importa isso? Precisa bradar aos quatro ventos como se fossem pessoas inferiores? acho que não” (Qualquer1, 23 dez. 2022, 20:58, grifo nosso).

À luz da problemática de Durkheim (1994) sobre a moralidade, o cotejo entre as posições de symphony from death e Qualquer1 coloca em primeiro plano a discussão de Zelizer (2011) referente às imbricações entre dinheiro e afeto. Em consonância com Bloch e Parry (1989), a antropóloga opõe-se à moralização do dinheiro - pressuposta nas análises de Simmel, Marx e Weber acerca do papel da moeda nas economias modernas (Maurer, 2006) - e, para tanto, procede à desnaturalização dessa conexão tácita ao evidenciar que, ao se olhar com atenção para as trocas monetárias cotidianas, muitas delas estão associadas a contextos de intimidade sem que tal relação seja considerada negativa ou problemática pelos agentes. Zelizer procura destacar a inadequação analítica de compreender a relação entre dinheiro e afetos como esferas isoladas, portadoras de lógicas específicas de atuação irredutíveis entre si, cuja intersecção implicaria prejuízo ao funcionamento dessas esferas pela contaminação de seus princípios de funcionamento por outros que lhe são alheios.

Se, por um lado, como nota Maurer (2006), a teoria de que o dinheiro age tal qual um ácido que derrete e desagrega a formação de laços íntimos autênticos, longe de ser uma verdade universal, diz respeito a uma cosmologia específica da modernidade, por outro, Zelizer reconhece o potencial analítico dessa narrativa moral como um importante marcador de fronteiras nos contextos de interação nos quais os limites da relação entre dinheiro e intimidade tornam-se conflituosos para os agentes sociais e precisam ser explicitados para distinguir relações sociais que possuem aspectos comuns entre si, mas seriam considerados pelos agentes como portadores de naturezas - e consequências - diferentes.

Tendo em mente a contribuição de Zelizer, o esforço de symphony from death corresponde à tentativa de forjar verdadeiras fronteiras morais que visariam distinguir entre formas legítimas e ilegítimas do exercício de se constituir como mulher e operariam de maneira análoga à diferenciação relatada por Giddens (1993), a propósito do sistema moral subjacente ao amor romântico, que contrapõe as mulheres puras - que estariam incumbidas de realizar as tarefas de gerenciamento emocional e seriam aptas ao matrimônio e à maternidade - às impuras - conhecedoras da ars erótica que, devido ao reconhecimento do próprio prazer sexual, seriam detentoras de menor valor social e estariam confinadas à esfera de divertimento ocasional.

A observação de Qualquer1 a respeito da assimetria de valor que constitui a diferenciação das mulheres operada por symphony from death encontra respaldo empírico em outro momento da discussão quando GdrdeNH, ao narrar uma desventura acontecida com uma mulher que ele havia conhecido no Tinder, mencionou ter utilizado a casa de sua mãe para realizar o encontro afetivo. Symphony from death não apenas estende sua narrativa de fronteiras morais ao lugar apropriado onde se devem praticar atos sagrados e profanos, de modo a recriminar GdrdeNH pelo cenário (Goffman, 2004) inadequado para tal finalidade - “Tem um ponto muito interessante que eu já vi aqui e não só esse, porque vcs levam as putas pra casa? Ou para casa da mãe… cara esse é um dos piores erros cometidos por alguém que se diz comedor” (symphony from death, 19 dez. 2022, 19:28) - como, ao ser questionado pelo forista dum45 - que defende a pertinência de se levar garotas de programa ao próprio lar -, aciona elementos de certo imaginário que concebe as profissionais do sexo enquanto figuras marginais e degradantes - portanto, moralmente inferiores - que seriam dignas de toda desconfiança pelos consumidores de sexo pago:

Confrade, se vc gosta de se arriscar desse jeito, é uma escolha sua. Vou citar 3 riscos de uma variável de 50.

A puta sabe onde tu mora, e da a letra para outros. E depois tu nem vai saber que foi ela que deu a letra.

A puta te dar um boa noite cinderelo.

A puta do nada te expor para a vizinhança.

Os riscos de levar alguém que vc nem sabe de onde é, ainda mais nesse ramo que é utilizado por gente que tem envolvimento com diversas coisas, tráfico por ex. Ou vc acha que a princesinha da padre chagas ou aquela top bacana…não conhece algum vagabundo? Se 90% delas da uma cheirada de vez enquando? Daí pega um cabaço que nem o amigo ali de cima, se ela tá na maldade, tu se fode bonito, vai te extorquir, se aproveitar etc… daí quando tu menos espera, aparece um assalto…bah aconteceu isso e aquilo… e tu nem sequer vai desconfiar que foi a putinha que tomava tua porra, e dava o cu pra ti na tua cama. Desculpe… é muita inocência levar uma puta pra dentro de casa. NENHUMA puta é inocente. Como também grande maioria dos putanheiros tbm não são, mas sim existe uma parte dos putanheiros que são sim, bem inocentes. Mas isso é uma questão de segurança minha. Eu não levo puta pra minha casa… e olha… até namoradas foi difícil eu levar, tenho meu casulo como meu templo. E não levo qualquer um pra conhecer. Ainda mais uma puta. Mas claro, as vezes quem leva, nem mesmo sabe o risco que está passando. É bom falar essas coisas aqui, pq por incrível que pareça, tem gente que não tem nem idéia dos riscos (symphony from death, 20 dez. 2022, 05:35, grifos nossos).

Para além da estigmatização da figura da garota de programa que declaração de symphony from death evoca, um aspecto que novamente se destaca é a exacerbação dos sentimentos morais que configuram o relato. Levar uma garota de programa para a própria casa é interpretado pelo forista como uma afronta ao caráter inviolável e puro do lar, reservado a uma parcela bastante restrita de seus convivas.

A grafia das palavras em caixa alta para transmite a ideia de que se está gritando com os demais, fato que parece se prestar a uma estratégia de intimidação no fórum, para além da troca racional de argumentação empreendida ao longo do debate. O emprego de caixa alta, aliás, está grafado na palavra “nenhuma”, evidenciando uma relação, para ele incontroversa, entre a troca de dinheiro por sexo e a predisposição à imoralidade. Segundo esse ponto de vista, o dinheiro parece desvelar uma imoralidade intrínseca à própria substância daquelas pessoas que o aceitam para a realização de práticas sexuais, independentemente do contexto que configura a relação efetuada.

Embora a desconfiança de symphony from death seja concentrada sob a imagem das garotas de programa, ela é coextensiva às mulheres em geral - incluindo aquelas que ele caracteriza como civis e que seriam marcadas por certa pureza quanto aos interesses afetivos envolvidos nas práticas sexuais -, fato evidenciado quando ele explicita que teme, inclusive, a presença de suas namoradas no seu lar. Essa última observação coloca em cena certa inteligibilidade social de compreensões essencialistas e oposicionais das relações entre “as mulheres” e “os homens”, enfatizando certa hesitação sobre os reais interesses daquelas no interior dos jogos sexuais e afetivos realizados com estes.

Outra controvérsia introduzida por symphony from death consistiu na sua crítica frontal ao próprio fenômeno da mercantilização por desvio realizada no Tinder, visando enfatizar a corrupção moral que esse tipo de procedimento enseja sobre a figura das mulheres decorrente da subversão da finalidade dos aplicativos de relacionamento:

Já falei em comentário anterior, que me aventurei no tinder e me dei muito bem. GRATUITAMENTE, eu concordo que é um bom divisor de águas, até o cara mais cabaço do mundo pega mulher no tinder. Isso não há dúvidas, o POREM É, ESTAMOS FALANDO DE PUTAS, E NAO CIVIS. O TINDER É UMA FERRAMENTA DE RELACIONAMENTO, e não uma ferramenta de prostituição, o que vcs estão fazendo é ferrando com a própria ferramenta, não venham dizer para minha pessoa que já tem calos nesse mundo da putaria de que CIVIL QUE DA POR DINHEIRO continua sendo civil (symphony from death, 23 dez. 2022, 08:21).

O argumento de symphony from death alude à hipótese dos mundos hostis, descrita por Zelizer (2011), e procura destacar a contaminação de um espaço pressuposto como não mercantil por uma lógica mercantil que o coopta e, aos seus olhos, o desvaloriza. Na opinião desse usuário, os foristas que usam essa estratégia de recrutamento estariam estragando o ambiente do aplicativo ao despurificá-lo moralmente.

Symphony from death advoga em prol da especialização dos espaços, separando de maneira clara os contextos mercantis dos não mercantis para que os princípios que regulem essas esferas não se misturem e as ambiguidades classificatórias sejam evitadas. Novamente, a rígida delimitação de fronteiras entre civis e garotas de programa é propagada, aos berros, para justificar um caráter supostamente incontroverso dos processos de categorização das mulheres cuja definição seria estabelecida pela aceitação ou recusa do dinheiro em interações sexuais.

Outros foristas, como yogui dog, fazem eco ao argumento de symphony from death, assinalando a existência de um uso preferencial ao ambiente do Tinder, embora reconheçam a existência de usos alternativos nesse espaço como um efeito colateral possível, sem entrar em um mérito moral destes usos: “Mas como os outros foristas aqui já falaram o objetivo desse aplicativo não é programa nem vitrine de GP, é relacionamento. Se as gp fazem dele isso e se há procura da nossa parte frente a oferta, blz” (yogui dog, 23 dez. 2022, 17:09). Em contrapartida, defensores do recrutamento de mulheres pelo Tinder questionam a ideia de uma prescrição apriorística do ambiente, que regularia as interações aceitáveis e legítimas no Tinder. As ambiguidades das relações sociais, para estes foristas, seriam constitutivas desses aplicativos: “Agora você quer lançar o manual do uso correto do tinder, caramba kkk” (mento, 23 dez. 2022, 15:05).

Mesmo no seio da posição que pretende proceder à delimitação estrita das fronteiras, o estatuto das mulheres recrutadas no Tinder não está isento de incerteza, como revela o exemplo de GdrdeNH. Ao efetuar um balanço sobre sua primeira incursão sexual com mulheres da mercantilização por desvio, GdrdeNH lança dúvidas sobre a procedência de tais mulheres, sugerindo que muitas delas sejam egressas dos circuitos de prostituição sem que os foristas tenham ciência - “No quesito de serem civis acredito que seja mera ilusão, pois se essa já tem experiencia na vida acredito que muitas outras tenham também, seja em agencias ou boates ou prives (até pq lidar com essa coisa exige um certo ‘know how’)” (GdrdeNH, 1 out. 2022, 13:36) -, para, no momento seguinte, concluir categoricamente: “Mas queria completar dizendo o obvio: se deu por dinheiro, é puta, não adianta.. Seja pelo fatal model ou seja pelo tinder ou ate uma rede social” (GdrdeNH, 1 out. 2022, 13:36).

Em sua segunda intervenção no fórum, porém, salta aos olhos a maneira híbrida pela qual ele descreve a mulher que havia conhecido no Tinder: “No caminho ela pede pra parar, diz que tá com fome e sugere pra gente comer no subway. Ela é puta, mas ao mesmo tempo não é, então não vi problema algum de pagar um lanche pra aquela princesinha antes de degustar do que ela teria de melhor pra me oferecer” (GdrdeNH, 18 dez. 2022, 10:37, grifo nosso).

A contraposição dos relatos de GdrdeNH é ilustrativa, por um lado, da dificuldade dos foristas em criar um consenso efetivo sobre o novo fenômeno social com o qual tiveram de se deparar e, por outro, da apreensão contextual das categorias sociais, mostrando a fluidez e a possibilidade de manipulá-las de acordo com as circunstâncias específicas nas quais usuários do GP-Guia estão concretamente inseridos - no caso de GdrdeNH, seu relato deixa, nas entrelinhas, um suposto interesse afetivo pela mulher que havia conhecido no Tinder.

Ademais, é importante se observar as nomenclaturas atribuídas às mulheres provenientes da mercantilização que constituem uma espécie de contrapartida às categorias intermediárias descritas anteriormente. Nesse caso, porém, as denominações se constituem em relação direta com o polo das garotas de programa, o que implica a depreciação de seu valor social. Alguns destes rótulos são: “pseudo quenga” (Morsa_Poa, 16 set. 2020, 05:27); “pseudo putas” (symphony from death, 3 set. 2022, 17:14); “tinderianas” (symphony from death, 24 dez. 2022, 00:10); “GPs de Aplicativo” (Hisoka85, 19 maio 2023, 15:02).

Uma nova modalidade de mercado sexual

No debate no fórum, a voz que se insurge mais frontalmente às proposições de symphony from death é a de Qualquer1. Entusiasta do recrutamento de mulheres no Tinder, Qualquer1 se contrapõe sistematicamente ao processo de demarcação de fronteiras reiterado pelo seu antagonista. Chama atenção a maneira como ele concebe as mulheres da mercantilização por desvio:

Tinder não tem só putas que saiem por grana, outro erro de percepção. Tem mulheres de todos os estilos, inclusive putas. Então como já falei, basta ter a noção e saber fazer a conversa. Sim tu consegue sair com mulheres que não são GPs de graça e sim consegue sair com mulheres que não são GPs por dinheiro. Tudo questão de papo. Tem pra tudo. Generalizar que todas são putas no Tinder é não ter noção (Qualquer1, 20 dez. 2022, 12:31, grifo nosso).

Qualquer1 parte da existência de uma distinção entre garotas de programa e mulheres recrutadas no Tinder. Assim, embora reconheça que ambas as categorias coexistam no aplicativo, para este forista elas não são redutíveis a uma mesma classificação tipológica:

Amigo symphony, poderia dizer que a tua argumentação é de alguém que não trabalha bem com modernidades. Cara tu pode bater os pés, dar piti, fazer o que quiser. Esse mercado chegou e não vai parar. Não adianta. Aceita que doi menos. A sociedade está sempre em mudança. Basta olhar pros lados. Como os demais foristas que usam esse tipi de nicho sempre dizem, não é uma disputa entre Gp tradicional e mulheres que não são GPs mas topam presentes para sair. São outros interesses. Então fica tranquilo que não vai alterar a questão do mercado de GPs tradicionais. Não precisa se assustar com as mudanças amigo. Cada um com seu gosto. O fato é que as questões que envolvem sexo estão mudando e vão continuar mudando, não adianta. A sociedade está cada vez mais normalizando esse tipo de coisa, basta ver os sites de conteúdos que estão sendo divulgados em todas as mídias e falados inclusive entre o meio social dito tradicional. Ou seja, as pessoas estão se acostumando com o fato de ganhar dinheiro de forma pública envolvendo retribuição sexual. Sei que fica difícil para o pessoal preconceituoso aceitar isso. Sempre vem o chavão: Ah tudo puta!! Mas na real as coisas estão mudando. Quer chamar de puta ok, tanto faz, mas que são situações muito diferentes, são (Qualquer1, 10 maio 2023, 14:57, grifo nosso).

Para Qualquer1 a mercantilização sexual não é um processo unitário cujo denominador comum seria o intercâmbio monetário, como pressuposto pelos foristas que defendem a classificação dualista “civil x GP”. O que se pretende destacar é a existência de processos diferenciais de mercantilização sexual que, por suas conformações específicas, conduzem à formação de distintas noções de mulheres. Qualquer1 não negligencia que a prática do recrutamento de mulheres no Tinder constitui um mercado, mas aponta para o fato de que as características desse mercado não podem ser equiparadas ao mercado de prostituição, visto que ambos obedecem a lógicas operatórias diferentes.

De acordo com esse ponto de vista, o dinheiro não possui a natureza niveladora com a qual é concebida no critério classificatório da alienabilidade, pois a mesma troca monetária pode estar envolvida no processo de produção de classes divergentes de mulheres com propriedades socialmente distintas. Como Qualquer1 faz notar, o dinheiro na mercantilização por desvio, mais do que um universal e inquestionável meio de troca, pode ser convertido em um operador de uma dinâmica de dádiva ao ser equiparado à condição de um presente e, assim, ensejar a produção de um laço social de duração e intensidade variáveis entre as partes envolvidas. Segundo Maurer (2006), as funções do dinheiro (como meio de troca, reserva de riqueza, medida de valor, método de pagamento ou unidade de conta) não podem ser pressupostas de antemão, mas, antes, precisam ser investigadas nos contextos empíricos.

O raciocínio empreendido por Qualquer1 também parece proceder a uma distinção sobre o lugar e o significado do sexo no seio dos processos diferenciais de mercantilização que ele opõe. Enquanto na prostituição o sexo parece ser reduzido à dimensão de um serviço prestado, em relação às mulheres recrutadas no Tinder, o sexo parece ser a própria moeda de troca responsável por estabelecer um vínculo social - fato aludido pela ideia de retribuição sexual formulada por Qualquer1. O estatuto sexual das práticas associadas às mulheres da mercantilização por desvio, que se estabelece na difusa interface entre as dinâmicas monetária e da dádiva, parece compatível com a noção de sexo transacional:

Sexo transacional não é um elemento que se confunde com trabalho sexual, mas sim uma vertente do próprio mercado do sexo, uma variante que em vez de estipular antecipadamente os atos sexuais e seus respectivos preços e períodos de tempo, desenrola-se mais informalmente, sem acordos pré-estabelecidos entre os parceiros. Assim, as trocas não ocorrem de maneira mais imediata, mantendo uma dinâmica mais solta (Cantalice, 2009: 185).

[…]

Sexo transacional prescinde da ideia de preço, mas não de valor e acumula elementos de um sistema troca-dádiva e características da moedificação de uma mercadoria mesclando fatores utilitários e simbólicos (Cantalice, 2009: 211).

A querela entre Qualquer1 e symphony from death serve para explicitar a disputa entre duas correntes de foristas em torno dos processos de definição social sobre o estatuto das mulheres associadas à mercantilização por desvio: enquanto o primeiro materializa a remodelação dos princípios classificatórios, reconhecendo essas mulheres como uma categoria intermediária que se embebe da relação ambígua com a noção de civil, o último simboliza a tentativa de manter intacta a dicotomia originalmente operante no fórum ao atribuir o rótulo de garotas de programa às mulheres recrutadas nos aplicativos de relacionamento por conta da natureza alienável a elas associada.

Conflito de interesses

Uma página particularmente significativa da controvérsia entre essas duas posições pode ser encontrada na contestação, feita por master B, sobre a pertinência do tópico “Tinder - gp, acompanhantes e novatas” no GP-Guia: “Na minha opinião o tinder aqui é irrelevante, se não pode compartilhar contato, anúncio, fotos das pervas não serve pra nada neste guia, nem deveria estar aqui minha opinião” (master B, 22 dez. 2022, 00:36). Enquanto usuários como FrankZappa do Bigode fazem eco ao questionamento levantado por master B - “Esse excerto acima é verdadeiro! Nem deveria estar mesmo” (FrankZappa do Bigode, 22 dez. 2022, 11:42) - foristas como mento e Preste_João defendem a legitimidade da discussão, ressaltado a pertinência de sua presença na seção Assuntos Gerais do GP-Guia, destinada à publicação de temáticas conexas ao universo do consumo sexual pago:

Eu já penso diferente. A área de assuntos gerais serve justamente para essa troca de informações e experiências. E o tinder é uma ferramenta tão maravilhosa para encontrar sexo que eu vou comprar outro celular e outro chip só para voltar a usar. Muitos foristas (eu entre eles) conseguiram e seguem conseguindo sexo pelo tinder e outros apps por causa dessa troca de informações entre nós (Preste_João, 22 dez. 2022, 14:50).

@Preste_João Concordo contigo, estamos na área correta, assuntos gerais.. Galera inventa cada uma. Kkk. Inclusive já troquei indicação com alguns no privado (mento, 22 dez. 2022, 23:54, grifo nosso).

Quem, no entanto, exprime com mais clareza as consequências problemáticas da mercantilização por desvio para a manutenção do fórum GP-Guia é o usuário Hisoka85:

A questão que o pessoal ali em cima levantou da finalidade do fórum sobre o Tinder tem um ponto interessante, pois, tem alguns aqui que usam os aplicativos pagos para pegar putas e que ficam restritos só a esse modelo não contribuindo com TDs públicos há um bom tempo, já que, os TDs com gurias do Tinder e similares não podem ser publicados aqui, o que realmente castra a finalidade principal do GPGuia que é catalogar e divulgar o atendimento das prestadoras (Hisoka85, 23 dez. 2022, 13:11).

Como salientado anteriormente, o funcionamento do GP-Guia está alicerçado em uma dinâmica da dádiva que consiste na obrigação de retribuir os relatos públicos fornecidos pelos foristas através da elaboração dos TDs que descrevem e avaliam os atendimentos das prestadoras de serviço sexual. No entanto, a precondição para essa dinâmica consiste no compartilhamento dos anúncios das trabalhadoras sexuais junto aos relatos dos foristas, procedimento que pretende atestar a identidade laboral da mulher retratada ao mesmo tempo que permite aos foristas contratar a prestadora cujas atividades foram descritas no TD.

O estatuto difuso das mulheres do Tinder, entretanto, impede a produção de relatos sobre as práticas sexuais realizadas com elas, pois, por não terem anúncios, elas não podem ser classificadas como garotas de programa. O próprio moderador tio chota reconhece o terreno espinhoso relativo ao tema quando censura Metelho17, que improvisou a escrita de um TD na discussão desenvolvida no tópico, desrespeitando a preservação da privacidade da identidade dessas mulheres:

Camarada,

Esse tópico já não é muito a nossa praia, e vc ainda quer colocar o nome das meninas , aí quebra a perna do guia. Seja bem vindo ao guia, por favor poste os tds das meninas que comeu e que tenham anuncio público, senão não resolve.

tio chota

Moderação GPGuia (Metelho17, 28 set. 2020, 15:44, grifo nosso).

Sobre a dádiva que fundamenta a existência do GP-Guia, para além da troca de relatos entre os foristas, está em jogo o próprio princípio de coletivização dessas mulheres, afinal, o estatuto público da troca de mensagens faz com que a circulação de tais profissionais seja aberta, permitindo o acesso dos interessados à experiência sexual fornecida pelas garotas de programa.

A lógica de recrutamento de mulheres do Tinder opõe-se à dinâmica dadivosa, pois serve à produção de um circuito fechado de mulheres, impedindo sua ampla coletivização por conta da natureza ambígua do estatuto classificatório delas. A relação parasitária e moralmente condenada dos chamados chupins, que se beneficiam do conhecimento coletivo do fórum sem contribuir para a perpetuação o fortalecimento dessa própria coletividade, ganha uma nova faceta com a mercantilização por desvio, afinal, ela não se materializa sob a forma de uma sonegação, mas de uma privatização do conhecimento amparada pela impossibilidade de socialização das mulheres mercantilizáveis.

Se os TDs permitem uma troca de mulheres de caráter coletivo, na mercantilização por desvio a troca das mulheres é estabelecida por acordos entre indivíduos particulares através de mensagens privadas no GP-Guia. Os contatos das egressas do Tinder se convertem em um capital simbólico concentrado nas mãos de poucos foristas, que os utilizam como moeda de troca para aumentar o número de opções de seu catálogo pessoal: “Quero trocar indicações de gurias do tinder, quem tem interesse manda mensagem no privado. Somente troca” (tdbom, 3 fev. 2023, 10:13).

Não se pode desconsiderar uma potencial dinâmica vinculada ao circuito paralelo de troca de mulheres provenientes da mercantilização por desvio desenvolvido nas comunicações internas ao GP-Guia:

E está mais que claro, esse assunto venho a tona, para poder implementar a nova sensação da putaria das redes…já que o fórum querendo ou não é uma vitrine para o início da carreira de putas. Tanto faz sentido, que já trocam contatos no PV [contato privado do fórum GP Guia] das “tinderianas”. E terminando, antes que falem ou pensem alguma bobagem pelo que eu disse antes, se o fórum permite tais informações e divulgação das tinderianas, não tem problema nisso. O problema é mais uma via que já virá cheia de vícios e “tendeciosidades” que já conhecemos desse mundo (symphony from death, 24 dez. 2022, 00:10)

O relato de symphony from death destaca o fato de que o status de tais mulheres não poder ser pressuposto como estático, estando, conjunturalmente, à transformação mediante a transição entre processos de mercantilização distintos. A circulação dessas mulheres entre os foristas pode ser uma das vias para a transição de uma modalidade de sexo transacional para uma modalidade de sexo profissional. Nesse processo, o GP-Guia, conforme salienta symphony from death, seria uma das instâncias iniciais da produção de valor de tais mulheres, pois lhes permitiria adquirir um prestígio e uma reputação ainda que restritos a uma circulação inicialmente privada.

A circulação dessas mulheres pode, eventualmente, alterar as próprias pretensões pessoais delas em relação à troca de sexo por dinheiro, o que inclui a possibilidade de participarem de novos contextos de mercantilização (Appadurai, 2000) e poderem ser reintegradas ao âmbito público das trocas coletivas realizadas no GP-Guia por meio da realização de TDs:

A última disse que gostou de fazer isso e agora quer ter mais clientes, pois quer ganhar uma grana extra. Tem 19 anos recém feitos, uma boneca (Dr Acula, 14 jul. 2021, 09:19, grifo nosso).

Apenas a título de contribuição à tese de que “quem dá por grana é puta e ponto final” a GP de tinder que deu ensejo à postagem nº 122 deste tópico (“NĀO ROMANTIZEM ESSA MERDA DE TINDER, EU ME FUDI COM ISSO (parte I)” ingressou no [site de anúncio de garotas de programa] FatalModel de Porto Alegre na data de hoje e diz “estar pela primeira vez na cidade” (FrankZappa do Bigode, 28 dez. 2022, 16:09).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo procurou refletir sobre as consequências da perturbação causada à dinâmica do fórum GP-Guia pelo processo de mercantilização por desvio tributário da realização de práticas sexuais pagas, pelos foristas, com mulheres que, inicialmente, não possuíam um estatuto mercantil.

Um primeiro aspecto vinculado a essa intrusão consistiu na tentativa de transformação do sistema classificatório vigente na plataforma, de maneira a assimilar as mulheres provenientes do Tinder como uma categoria discreta e ambígua situada entre os polos das civis e das garotas de programa. Embora concebidas como igualmente alienáveis, a parcela dos foristas partidária dessa remodelação classificatória percebeu a experiência sexual desfrutada com essas mulheres como qualitativamente distinta daquela realizada com garotas de programa. Esse fato permitiu desnaturalizar o lugar do dinheiro, visto que este não possui, necessariamente, o mesmo significado em contextos de sexo profissional e sexo transacional.

A pretensão de remodelação das bases categoriais para assimilar a presença das egressas do Tinder, porém, não foi consensual. Outra parcela de foristas procurou mobilizar o sistema classificatório dicotômico anterior para situar o lugar dessas mulheres sob a condição de garotas de programa, em razão de sua alienabilidade. Esse enrijecimento das fronteiras classificatórias, para alguns foristas, sinalizava concomitantemente o enrijecimento de fronteiras morais, pois a ambiguidade das mulheres do Tinder colocava em risco (Sahlins, 1997) os ideais morais de masculinidade e feminilidade legítimas que modulavam a sociabilidade desenvolvida no fórum.

O estatuto controverso das mulheres da mercantilização por desvio também produziu uma colisão com os fundamentos da lógica da dádiva que fornecem sustentação à existência do GP-Guia. Ao não serem compreendidas estritamente como garotas de programa, os relatos das experiências sexuais com essas mulheres eram vedados no interior do fórum, impossibilitando a coletivização do acesso a essas mulheres pela totalidade dos foristas. Em contrapartida, a lógica privada da troca de contato das mulheres provenientes do Tinder produziu uma assimetria de poder entre os participantes do GP-Guia, dado o acesso desigual que eles tinham às mulheres da mercantilização por desvio.

Agradecimentos:

Gostaria de agradecer o trabalho dos pareceristas da revista, pois eles engrandeceram substancialmente a qualidade da discussão realizada no texto com suas provocações e sugestões de elaboração. Também gostaria de agradecer a Arlei Damo e a Paula Sandrine Machado pelas riquíssimas interlocuções e recomendações bibliográficas sem as quais esse trabalho não teria se tornado possível.

REFERÊNCIAS

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  • Sahlins, Marshall. (1997). Ilhas de história Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
  • Weiner, Annette. (1976). Women of value, men of renown: new perspectives on Trobriand Ex change Austin: University of Texas Press.
  • Zelizer, Viviana. (2011). Encontros de intimidade e economia. In: Zelizer, Viviana. A negociação da intimidade Petrópolis: Vozes, p. 17-47.
  • Fonte de financiamento:
    Capes.
  • Aprovação do Comitê de Ética:
    Não se aplica.
  • Disponibilidade de Dados:
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
  • 1
    Disponível em: https://www.gp-guia.net/viewtopic.php?f=29&t=51683. Acesso em: 6 set. 2024.
  • 2
    Este comportamento geralmente recebe censura pública através da alcunha BOP (baba ovo de puta).
  • 3
    Código interno a este grupo de agentes que visa produzir uma distinção identitária enquanto consumidores sexuais com garotas de programa.
  • 4
    A censura aos homens que produzem relatos emocionais dos encontros com garotas de programa constitui um exemplo notável da regulação. Como a explicitação dos sentimentos é incompatível com o ideal hegemônico de masculinidade, sua manifestação costuma ser cerceada e ridicularizada pelos foristas.
  • 5
    O anonimato no GP-Guia não pretende desresponsabilizar os usuários por suas declarações, mas constitui a condição de possibilidade para a discussão do consumo sexual de mulheres cisgênero. A exposição da identidade dos foristas poderia acarretar perda de prestígio social tanto pelo tabu sobre essa prática sexual quanto por muitos foristas serem casados.
  • 6
    Um código mobilizado para sinalizar o baixo nível de capital cultural (Bourdieu, 2011) da linguagem de um conjunto de garotas de programa corresponde à sigla PPP (papo padrão de puta).

Editado por

  • Editora responsável:
    Tatiana Bacal (UFRJ, Brasil).

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Fev 2025
  • Revisado
    20 Ago 2025
  • Aceito
    27 Nov 2025
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