Lógica das sensações na atividade física: uma análise dos discursos de academias de ginástica brasileiras e suas projeções na sociedade contemporânea

Odilon José Roble Luiza Silva Rodrigues Karen Adrie de Lima Sobre os autores

Resumos

Para o filósofo alemão Christoph Türcke, autor de "Sociedade Excitada", de 2010, é possível identificar um novo padrão de comportamento nas sociedades atuais, o da "lógica das sensações". Nessa lógica, buscam-se incessantemente estímulos sensoriais e a espetacularização do cotidiano. Nossa pesquisa teve como objetivo investigar a possibilidade de identificar tal lógica nos discursos sobre saúde e prática de atividades físicas. Para isso, analisamos os discursos de cem academias de ginástica brasileiras, por meio de seus sítios eletrônicos. Como tratamento metodológico utilizamos um processo de codificação no qual agrupamos unidades de registros em unidades de contexto para posteriores inferências. Reunimos cinco unidades de contexto representativas dos discursos das academias sobre atividade física e saúde, envolvidas com a lógica das sensações: promessas de comportamento; sugestões de emoções; propostas de estímulos sensoriais; conceitos holísticos; e projeções estéticas. Com isso, propusemos diversas inferências, a maior parte em torno da premissa de que a atividade física e a saúde vêm se convertendo, no discurso das academias de ginástica, em uma oportunidade para a experiência de sensações estimulantes e para a produção de um estilo de vida espetacularizado, para o qual o próprio espaço da academia seria palco. Dessa forma, corroboramos a hipótese inicial de que as reflexões de Türcke aplicam-se ao campo das atividades físicas na sociedade contemporânea, de que estão presentes no discurso das academias de ginástica brasileiras e de que um setor específico de reflexão emerge-se no contexto da relação entre saúde, atividade física e sociedade: o da filosofia da sensação.

Atividade Física; Sensação; Sociedade Contemporânea


For the German philosopher Christoph Türcke, in "Excited Society" (2010), it is possible to identify a new standard of behavior, the "logic of sensations". In this logic, human beings search incessantly for sensorial stimuli and sensationalize the everyday. Our review questioned if it would be possible to identify such logic in discourses on health and physical activities. For this, we analyzed the discourse from a hundred Brazilian gyms, through their web sites. In our methodology we used a coding process in which we grouped recording units into context units. We found five representative context units of the gyms' discourse on physical activities and health, involved with the logic of sensations: promises of behavior, suggestion of emotions, proposals of sensorial stimulus, holistic concepts and esthetic projections. With that, we were able to make a lot of inferences, many of them around the premise that physical activity and health have been converging, in the gyms' discourse, into an opportunity for to experience stimulating sensations and produce a sensationalized life style, for which the gym space itself would be onstage. Thus, we corroborate the initial hypothesis that Türcke's thoughts probably apply pertinently to the harvest of physical activity in contemporary society, that this is present in the Brazilian gym discourse and that a specific sector of reflection is emergent in the context of the relation between health, physical activities and society: the philosophy of sensation.

Physical Activity; Sensation; Contemporary Society


Introdução

Se em outras épocas o estudo do movimento humano e da atividade física resumia-se aos aspectos ligados à sua eficiência técnica ou a parâmetros biodinâmicos, hoje encontramos uma grande variedade de abordagens que reúnem saberes oriundos de diversas áreas do conhecimento. Essa abertura epistemológica, além de ampliar o escopo do conhecimento nas ciências da atividade física, coloca-nos em contato com discussões atuais polissêmicas e de caráter mais abrangente na tessitura social.

O movimento humano, como uma das ações básicas do homem, está em evidente relação com esses fenómenos contemporâneos e tanto sofre modulações influenciadas por eles como também pode ser vetor de transformações nesses mesmos fenómenos. A espetacularização do cotidiano e a lógica da sensação afetam e são afetadas pela forma humana de se movimentar e, com isso, de construir discursos, linguagens, representações ou, em suma, uma estética.

Sobre a sociedade do espetáculo, Debord (1997)DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. construiu referência bastante conhecida que vem alimentando uma discussão sobre a informação como mercadoria e a estetização da notícia, como estudado por Coan (2011)COAN, E. I. A informação como mercadoria e a estetização da notícia na sociedade contemporânea. Estudos de Sociologia, Araraquara, v. 16, n. 30, p. 19-35, 2011.. Para este autor, com o passar do tempo, foi acrescida à mercadoria a força da imagem, a fim de produzir um efeito de atração informacional-sensorial no consumidor. No sentido económico, como explica Haug (1997)HAUG, W. F. A crítica da estética da mercadoria. São Paulo: Unesp, 1997., ocorre na expressão estética (do grego aesthesís - percepção, sensação) da mercadoria uma restrição dupla: de um lado, a beleza, manifestação sensível que agrada aos sentidos do consumidor; de outro, aquela beleza que se desenvolve a serviço da realização do valor de troca que foi agregado à mercadoria, a fim de excitar no observador o desejo de posse e motivá-lo à compra (Haug, 1997HAUG, W. F. A crítica da estética da mercadoria. São Paulo: Unesp, 1997.).

Para Debord (1997)DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997., a sociedade do espetáculo é uma decorrência natural do modo capitalista de organização social, em suma, um modo de alienação que opta pela simples aparência como conduta de vida. Na opinião desse autor, uma crítica bem estruturada revela que sob o manto dessa espetacularização da vida reside uma negação da existência, convertida em puro fetiche da mercadoria. O termo "sociedade do espetáculo" parece muito pertinente à atualidade, repleta de reality shows e mediada pela circulação de eventos privados nas redes sociais. Contudo, como exposto, Debord parece mais atado ao espetáculo como resultado inerente da vida social mediada pela dinâmica da mercadoria, não se aprofundando no interesse pela produção de sensações.

No que diz respeito às sensações, teve impacto recente a obra de Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., na qual se propõe uma "filosofia da sensação". Para Türcke, seus estudos avançam em relação ao caminho aberto por Debord na medida em que vão além de uma mecânica do fetichismo da mercadoria, na qual a sensação aparece unicamente como parte do processo de consumo capitalista. Para a sua filosofia da sensação é necessária uma imersão mais profunda, que reconheça uma lógica na qual sensação e percepção constituem elementos estruturantes da vida social, ou seja, diferentemente de Debord (para o qual o trabalho de base da crítica social parece assumido como já feito, restando apenas descortinar seus efeitos contemporâneos, entre eles, o do fetichismo das sensações e do espetáculo da vida cotidiana), em Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. o tráfego das sensações no contemporâneo, mais que um efeito da sociedade capitalista, é uma espécie de reconfiguração da mesma, exigindo uma crítica totalmente nova.

Para concretizar essa nova crítica, Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. erige essa "filosofia da sensação" que corresponde, basicamente, em construir nexos de inteligibilidade entre o desejo do homem contemporâneo pelas sensações e as características essenciais da sociedade moderna. Se antes a sensação era entendida apenas como um estímulo físico a ser processado pela razão, a proposta de Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., nessa filosofia da sensação, é a de compreender que a condição moderna teria reificado a sensação a um ponto de torná-la um novo paradigma do contemporâneo, uma espécie de meta comum. É possível compreender, desse modo, que todo um conjunto de hábitos, tendências e orientações sociais se direcionem para alimentar esse interesse pelo estímulo sensorial. Um estudo sistemático da produção e absorção desses estímulos coloca em pauta esse paradigma, elaborando um discurso urgente sobre o contemporâneo. A essa intervenção intencional e metódica Türcke dá o nome de filosofia da sensação, sendo sua obra um primeiro esforço nesse sentido.

Para entendermos melhor o que é esse papel estruturante da sensação, Türcke aponta a modificação do conceito de sensação e com ele a transformação do mundo moderno em uma "sociedade excitada". A sociedade excitada é aquela que vive sob a busca constante de estímulos, não aceitando a interrupção das sensações em nenhum momento ou esfera da vida. Isso pode ser percebido, segundo ele, da arte à política, do senso comum à ciência, por meio de diversos exemplos que demonstram forte apego ao estimulante. Nesse sentido, o conceito de "sensacional", que a princípio designava apenas aquilo que produz sensação, passa a ser compreendido como sinônimo de formidável ou entusiasmante. Um dos elementos centrais dessa nova configuração é a pressão das notícias1 1 Entendamos aqui "notícias" como aquelas oriundas dos veículos oficias, assim como também os fatos privados que circulam instantânea e abundantemente pelas redes sociais (Facebook, Twitter etc.). , uma lógica na qual o "ser comunicado porque importante" é suplantado pelo "importante porque comunicado" (Türcke, 2010TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., p. 17). Na teoria do autor, a sensação passa a ser algo incessantemente ansiado, o que alavanca uma propaganda desenfreada que promete sensações, assim como uma série de iniciativas nesse paradigma.

Para Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., a sociedade industrial dos séculos XVIII e XIX teria trazido consigo uma esperança de que os homens agiriam coletivamente, numa espécie de grande engrenagem a favor do progresso. No século XX essa esperança se dissipa, mas a efervescência geral não, ou seja, a impressão de que somos partes de uma engrenagem se mantém, mas emerge um desejo intenso do indivíduo de se destacar da massa.

Experimentar sensações e comunicar essas sensações publicamente passa a ser um fascínio. As telas, primeiramente do televisor, depois dos computadores, são reprodutoras potentes dessas experiências sensoriais e as publicam abundantemente. As sensações assumem, assim, uma espécie de vício. Se antes o vício era identificado como uma dependência ou doença, nos dias atuais a palavra se aplica mais aos estímulos. Com isso, Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. indica a constante busca do homem contemporâneo pelos estímulos e como essa procura converteu-se numa espécie de compulsão, recuperando uma expressão um tanto desgastada: a de válvula de escape.

Se na história da humanidade sempre existiram paliativos contra o peso da existência, os mais potentes hoje não são, na opinião do autor, drogas ou álcool e, sim, os estímulos sensoriais da chamada sociedade da informação acelerada. Para ele, é um equívoco supor que tenhamos criado uma sociedade da informação, pois desde tempos remotos a circulação de informações é uma prerrogativa do social. O que se modifica nos dias atuais é a busca frenética pela velocidade da notícia, o que explicita nosso desejo não pela informação em si, mas pelo estímulo que ela provoca.

Fazendo um percurso histórico da importância que teve o êxtase em sociedades diversas, o autor nos mostra como vários entorpecentes, como o ópio por exemplo, assumiram papéis intermitentes entre benéficos à saúde e alucinógenos frenéticos. De modo tácito, o cuidado com a saúde prevê que, em certos momentos, haja alívio do sofrimento (anestésicos) e, em outros, incentivos à vida (estimulantes e tonificantes). A medicina, historicamente, teria feito amplo uso dessa balança. Na condição moderna, em razão da previsibilidade da vida a partir das condições de classe, o desejo pelas sensações externas como reguladoras do ânimo passaram a ser compulsivas. Evidentemente, um conjunto pesado de mercadorias e serviços oferecendo estímulos formou-se nas mais variadas áreas da sociedade.

Não é de se estranhar, portanto, que as atividades físicas sejam cooptadas por essa lógica e que, promover sensações, passe a ser uma palavra de ordem também nesses espaços. As academias de ginástica são, por sua associação a um estilo de vida moderno, um espaço privilegiado para o diagnóstico dessa tendência. Estudos anteriores já associaram as academias de ginásticas a paradigmas de saúde e qualidade de vida, na sua maioria representando aquilo que Toscano (2001)TOSCANO, J. J. de O. Academia de ginástica: um serviço de saúde latente. Revista Brasileira de Ciência & Movimento, Brasília, DF, v. 9, n. 1, p. 40-42, 2001. identificou ao afirmar que a academia de ginástica é um serviço de saúde latente2 2 Para o autor, "serviço de saúde" é o termo genérico dado ao local destinado à promoção, proteção ou recuperação da saúde em regime de internação ou não. A academia de ginástica não é considerada um serviço de saúde por ainda não ter incluído conceitos epidemiológicos na sua prática. Porém, tem o mesmo objetivo que um serviço de saúde: prevenir doenças, maior qualidade de vida etc., por isso, pode ser considerado um serviço de saúde latente. . Nosso objetivo nesse artigo é, portanto, discorrer sobre a presença dessa lógica das sensações nos discursos das academias de ginástica brasileiras, o que pode levar a concluir que as atividades físicas correspondem a um espaço especialmente dedicado a produzir estímulos sob essa lógica. Nesse sentido, o discurso de saúde agregado a esses espaços pode ser meramente casual, pois também é condicionado por uma lógica sensorial.

Este texto foi configurado em uma pré-análise elaboradora de regras de recorte, em uma análise de conteúdo e em uma discussão inferencial. Nesse sentido, constitui uma metodologia qualitativa, ainda que alguns dados sejam apresentados de modo quantitativo para melhor ilustração da análise e exploração do caminho argumentativo. Essa forma de abordagem constituiu nossa tentativa de interpretar os discursos sobre a atividade física presentes nas academias de ginástica brasileiras.

Sob o pretexto de serem promotoras de bem-estar e saúde essas academias parecem prometer toda uma sorte de estímulos, muitos deles elementos da lógica das sensações. A proliferação de academias de ginástica na sociedade contemporânea fez com que se acirrasse a busca por captar alunos e, para isso, suas propagandas prometem benefícios diversos, muitos deles compreensíveis por essa filosofia da sensação proposta por Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010.. A análise de conteúdo operada nos trouxe uma organização coesa dos dados, permitindo-nos inferências que foram subsidiadas por essa filosofia da sensação proposta por Türcke, apresentada em suas linhas gerais nos parágrafos acima. A seguir, serão detalhados os métodos de nossa investigação, que conduzirão às inferências propostas.

Metodologia

O que pretendemos neste estudo é investigar a presença de uma lógica das sensações nos discursos de academias de ginástica brasileiras de acordo com aquilo que Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. denominou filosofia das sensações. Nesse sentido, investigamos se, sob o pretexto de proporem bem-estar e saúde aos praticantes de atividades físicas, os discursos dessas academias estão de fato apontando para a venda de sensações. Para isso, seguindo um raciocínio realizado pelo próprio Türcke, abordaremos a propaganda como uma manifestação dessa tendência, como o modo contemporâneo mais imbricado de se anunciar estímulos sensoriais.

Com uma metodologia fundamentada na Análise de Conteúdo, tal como descrita por Laurence Bardin (2010)BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2010., nosso primeiro movimento foi o de uma "pré-análise", na qual investigamos 20 sítios eletrónicos de academias de ginástica para elaborarmos o corpus da pesquisa, ou seja, o conjunto de dados que sofrerão análise e as regras de recorte específicas para essa análise. É importante lembrar que nosso intuito principal neste texto é o de argumentar sobre a apropriação conceitual da filosofia das sensações no que concerne à atividade física e saúde, portanto, o conjunto de dados coletados (o corpus constituído) é apenas a matéria a partir da qual refletiremos e não o resultado em si. A pré-análise, no sentido proposto por Bardin (2010)BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2010., corresponde a uma fase de intuições na qual o objetivo é tornar as variáveis em operacionais. Em nosso caso, a análise dos discursos presentes em sítios eletrónicos de academias de ginástica pareceu algo muito pertinente em razão do referencial que estamos utilizando e da natureza do dado que buscávamos obter. Contudo, é sempre arenoso o terreno de pesquisa quando se escolhe a internet como referência, uma vez que sabemos da extrema mobilidade das informações nessa mídia. A pré-análise, portanto, teve como principal meta aproximar-se do objeto de estudo e, em um primeiro momento, avaliar a viabilidade de obtenção dos dados nessa fonte. Os 20 sítios eletrónicos analisados apresentaram congruências discursivas e estéticas, atendendo aos preceitos de homogeneidade e representatividade, o que nos levou a supor que haveria coesão suficiente para tomarmos essa referência como fonte.

O segundo momento da pré-análise constituiu-se na tentativa de tornar operacionais as variáveis dessa fonte. Para isso, de acordo com Bardin (2010)BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2010., cabe à pré-análise estipular algumas regras de recorte baseadas em hipóteses erigidas a partir da leitura flutuante do material, no caso, a partir dos sítios eletrónicos das 20 academias pesquisadas nesse primeiro momento. Elaboramos cinco dessas regras, sendo necessário o sítio eletrónico conter, no mínimo, uma delas para fazer parte da amostra deste estudo. As regras de recorte que propusemos a partir de nossa pré-análise são:

  • R1: Imagens chamativas, grandes, impactantes ou que, de modo geral, se sobreponham ao conteúdo textual.

  • R2: Presença de música e/ou vídeo sendo que tais recursos não sejam informacionais e, sim, constituintes de uma "ambiência" do sítio.

  • R3: Palavras ou expressões de cunho eminentemente sensorial, análoga ou metaforicamente apropriadas pelo discurso. Tratam-se aqui de palavras como "estimulante" ou "relaxante" e expressões como "bem-estar" ou "ambiente confortável", portanto, unidades direcionadas a sensações que a academia promete ao frequentador.

  • R4: Palavras ou expressões de conteúdo emocional, análoga ou metaforicamente apropriadas pelo discurso. Tratam-se aqui de palavras como "satisfação" ou "felicidade" e expressões como "ambiente repleto de alegria" ou "clima de amizade", portanto, unidades direcionadas a emoções que a academia promete ao frequentador.

  • R5: Conteúdos de clara estimulação estética não previstos nas regras anteriores.

A unidade de análise desse corpus é a academia de ginástica e, em consonância com nossos propósitos, a forma de expressão dos estímulos que pretendemos analisar são suas propagandas. Desse modo, configuramos nosso corpus como sendo academias de ginástica brasileiras e elegemos a propaganda por meio da Internet (os sítios eletrónicos das próprias academias) como nosso foco de análise. Essa escolha deu-se pela detecção de um modelo geral de propaganda razoavelmente homogêneo nos sítios eletrónicos, atendendo assim à regra da homogeneidade proposta por Bardin (2010)BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2010..

Em termos quantitativos optamos por tratar as academias brasileiras de maneira regional. Em concordância com essa divisão e por meio dos dados obtidos em material eletrónico do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF, 2013CONFEF - CONSELHO FEDERAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA. Conselhos Regionais. Rio de Janeiro, 2013. Disponível em: <http://www.confef.org.br/extra/crefs/>. Acesso em: 7 abr. 2013.
http://www.confef.org.br/extra/crefs/...
), foram elencadas as unidades de Conselhos Regionais de Educação Física (CREF's) existentes no país, bem como os estados por elas contempladas: CREFi/RJ-ES; CREF2/RS; CREF3/SC; CREF4/SP; CREF5/CE-MA-PI; CREF6/MG; CREF7/DF; CREF8/AM-AC-AP-PA-RO-RR; CREF9/PR; CREF10/PB-RN; CREF11/MS-MT; CREF12/PE-AL; CREF13/BA-SE; CREF14/GO-TO.

Como é possível notar, na divisão feita pelo CONFEF, Goiás e Tocantins estão agrupados em uma mesma unidade (CREF14), o que impossibilita a divisão para a análise a partir das regiões federativas. Portanto, a fim de permitir uma constituição mais fidedigna do corpus optamos por utilizar uma divisão baseada nas regiões federativas com a seguinte adaptação: Centro-Oeste (com o acréscimo de Tocantins); Nordeste; Norte (com a ausência de Tocantins); Sudeste; Sul.

A partir disso, contabilizamos as pessoas jurídicas de cada unidade CREF, ou seja, o "N° de academias" por região, mostrado na tabela Tabela 1.

Tabela 1
Número de academias de ginástica segundo CREF, Brasil, 2013

Dado o número total de academias registradas no país, foi elaborada uma segunda tabela (Tabela 2) para agrupar os CREF's por região (de acordo com a ressalva feita com Tocantins, conforme citado anteriormente) e então poder encontrar o percentual correspondente ao número de academias por região quando comparado com o total do território nacional. Tal procedimento segue as orientações estatísticas de autores como Sounis (1979)SOUNIS, E. Bioestatística. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1979., Vieira (1986)VIEIRA, S. Elementos de Estatística. São Paulo: Atlas, 1986. ou Magalhães e Lima (1999)MAGALHÃES, M. N.; LIMA, A. C. P. Noções de probabilidade e Estatística. São Paulo: IME Usp, 1999.. A partir dessas orientações dividimos, de maneira significativa, a amostra geral na amostra de análise.

Tabela 2
Número e proporção (%) de academias de ginástica segundo Regiões Administrativas, Brasil, 2013

Após esse levantamento, optamos por analisar cem sítios eletrônicos de academias de ginástica brasileiras, com distribuição coerente entre as regiões, de acordo com as porcentagens expressas pela Tabela 2. Ainda que, frente ao número total de academias registradas (24193) essa amostra sejapercentualmente muito pequena, para nosso propósito de análise qualitativa é um número expressivo para subsidiar nossas inferências. Lembremo-nos, portanto, de que não se trata de afirmar um dado presente na realidade brasileira da área, mas de discutir uma possível tendência a partir de um suporte teórico, ilustrando tal discussão com dados empíricos.

Para uma distribuição coerente da amostra frente à representatividade de cada região, mantivemos os percentuais da Tabela 3 para a escolha das 100 academias, estabelecendo o Centro-Oeste (com acréscimo de Tocantins) com 11 academias, Nordeste com 14, Norte (com exclusão de Tocantins) com uma, Sudeste com 49 e Sul com 25. Todas as academias foram analisadas por meio de seus sítios eletrônicos. Como critério de inclusão, de modo a não operarmos com ofertas distintas de atividades (o que, por suposição, levariam a ofertas distintas de sensações) as academias deveriam oferecer necessariamente os serviços de musculação e fitness (considerados por nós como muito representativos da identidade atual das chamadas academias de ginástica), sendo excluídas as academias voltadas somente para modalidades de lutas, natação e Pilates, por exemplo.

Tabela 3
Número de academias de ginástica que compreenderam a amostra segundo recortes e Regiões Administrativas, Brasil, 2013

Apresentação dos dados

Após a análise dos cem sítios eletrônicos de academias, utilizamos a Análise de Conteúdo como uma forma de organizar uma variedade considerável de conceitos e palavras-chaves que apareceram em torno da lógica das sensações. Com amparo em Bardin (2010)BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2010., utilizamos um processo de codificação no qual agrupamos unidades de registros em unidades de contexto para posterior elaboração dos indicadores/inferências conclusivas do trabalho.

A unidade de registro é a unidade de significação a codificar e "corresponde ao segmento de conteúdo a considerar como unidade de base, visando a categorização e a contagem frequencial" (Bardin, 2010BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2010., p. 130). Já a unidade de contexto serve de atributo de compreensão para codificar a unidade de registro e "corresponde ao segmento da mensagem, cujas dimensões (superiores às da unidade de registro) são ótimas para que se possa compreender a significação exata da unidade de registro" (Bardin, 2010BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2010., p. 133).

Como descrito, iniciamos com uma quantificação dos recortes de 1 a 5. Para uma melhor visualização dessa operação elaboramos a Tabela 3:

Não iremos discutir os recortes por região, pois nosso objetivo é construir uma análise de cunho mais panorâmico, preferindo uma inferência em termos da realidade brasileira como um todo. Como sugerido pelos dados da Tabela 2, outros estudos podem ater-se a essa divisão bastante desigual em termos quantitativos das academias de acordo com a região. Em nossa abordagem, fundamentalmente qualitativa, essa discrepância torna-se menos necessária para o processo inferencial que propomos.

Em nossa análise, a partir das unidades de registro correspondentes aos dados brutos retirados dos sítios eletrónicos, sugerimos cinco unidades de contexto que consideramos capazes de agrupar significativamente os registros. Vejamos abaixo quais são essas unidades de contexto e quais os principais registros que aparecem nos discursos das academias agrupados em cada uma dessas unidades:

  1. Verbos utilizados como promessas: encantar, se apaixonar, estimular, sentir prazer, relaxar, concretizar sonhos, cuidar, motivar, conquistar objetivos, desafiar, curtir, animar, divertir.

  2. Emoções e estados emocionais: alegria, felicidade, amor, bem-estar, autoestima, sentir-se bem, ficar bem consigo mesmo, bom humor.

  3. Sensações: sensação, sentido, satisfação, diversão, descontração, liberdade, vitalidade, aulas dinâmicas, ambiente agradável, familiar, descontraído, acolhedor, unido, sala climatizada, com música, TV, ar condicionado, ducha quente, conforto.

  4. Conceito holístico: Corpo em harmonia e equilíbrio, desenvolvimento integral, cuidar do aluno por completo, diferenciar das convencionais.

  5. Relações e projeções estéticas do ambiente: estrutura moderna, bem planejada, charmosa, design futurista. Relações e projeções estéticas do corpo: boa forma, em forma, melhorar o "corpicho", beleza, estética corporal, bonita(o), corpo atraente, sarado, jovem, transformação estética, modelar o corpo, corpo ideal, estilo, capa de revista.

Na próxima seção, apresentaremos o processo inferencial tendo como base a análise de cada uma dessas cinco unidades de contexto. Optamos por alocar as inferências na seção Resultados pela posição que elas ocupam na estrutura de desenvolvimento de uma análise em Bardin (2010BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2010., p. 128), ou seja, no polo distal do tratamento dos resultados, ainda que, evidentemente, elas sejam uma parte constituinte da análise dos dados.

Resultados: inferências sobre o corpus da pesquisa

Para os propósitos concernentes a uma análise de conteúdo, dado seu caráter metodológico qualitativo, o tratamento dos dados de modo a constituir um corpus para a interpretação é um passo fundamental que de certa forma circunscreve o que vai ser analisado e, com isso, estabelece limites para o que se pode discursar sobre os dados em parâmetros razoáveis de segurança metodológica. Contudo, reside no processo inferencial o ponto central dessa forma de investigação. As inferências são, ao mesmo tempo, o momento mais insólito da pesquisa e também o seu núcleo mais produtivo. Isso porque é nessa etapa que os pesquisadores colocam-se como protagonistas da investigação e produzem um argumento capaz de trazer ao cenário uma discussão fenomênica mais profunda, com todas as vantagens e riscos dessa profundidade analítica.

No nosso caso, trata-se de, a partir da delimitação que pudemos realizar e do corpus consideravelmente coeso que erigimos, interpretar esse corpus à luz dos subsídios filosóficos que orientaram nosso ponto de partida. Temos, portanto, a tarefa de criar nexos de inteligibilidade entre a filosofia das sensações apresentada por Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. e o cenário investigativo que construímos.

A primeira unidade de contexto, "verbos utilizados como promessas" foi associada por nós com aquilo que Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. aponta como a tendência atual de intensa circulação de mensagens. Para o autor, há uma propensão em nossa cultura de aceitarmos as notícias como sendo sempre verdadeiras. Evidentemente, essa credibilidade é maior nos veículos de imprensa consagrados, mas mesmo na atividade publicitária, quando o formato da mensagem se assemelha ao de uma notícia, temos a tendência em sermos cooptados pela impressão de verdade nessa mensagem. Associando isso à expectativa disseminada de que a atividade física é benéfica à saúde, os discursos das academias apresentam, com frequência, um tom de promessas, nas quais cruza-se essa expectativa de saúde com a eficiência dos serviços da academia. Nessa direção, aproximam-se daquilo que Türcke (2010TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., p. 15) chama de "notícia pura", ou seja, afirmações que são anunciadas como verdades e adequadas a todos indiscriminadamente.

O uso do conceito de saúde, nesse sentido, parece ter se tornado uma poderosa arma para as academias, uma vez que se sentem amparadas por essa relação entre atividade física e benefícios à saúde. A partir disso, os discursos listam muitas promessas, a maior parte delas em torno das ideias de saúde, bem-estar e aparência física. Em alguns casos, essas promessas parecem extrapolar até mesmo os limites específicos das intervenções da academia, pois ao se suporem promotoras de saúde e bem-estar, prometem preparar melhor o indivíduo para a vida cotidiana. Aderir ao programa proposto pela academia não seria apenas uma opção de se exercitar, mas um engajamento mais amplo no curso da vida atual, supostamente dinâmica e competitiva. É nesse sentido que verbos tais como, "libertar-se" (do stress), "entrar" (em forma), "encontrar" (equilíbrio, satisfação, saúde) ou "manter-se" (jovem, saudável) entre outros, são livre e abundantemente associados às atividades físicas de modo a prometer resultados da intervenção da academia na vida do sujeito.

A segunda unidade de contexto, referente a "emoções e estados emocionais", aproxima as práticas da academia com a possibilidade de um bem-estar proporcionado por sensações agradáveis. De modo tácito, o discurso expresso assume um tom compensatório, em que uma possível condição emocional insatisfatória do sujeito seria atenuada. Contra a suposta rotina exaustiva da vida moderna, a academia ofereceria um contrabalanço emocional, ou seja, por meio de suas práticas, o indivíduo buscaria alívio à pressão de tal rotina. Essa dinâmica lembra a noção de êxtase na filosofia das sensações de Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010.. Para o autor, o êxtase existe desde tempos imemoriais e sempre atendeu à necessidade humana de suportar o peso da vida, especialmente em momentos difíceis ou exaustivos. Os discursos das academias de ginástica por nós analisados parecem carregar essa promessa de êxtase e contrabalanço emocional. Não deixa de ser paradoxal o fato de que a prática de atividades físicas em academias de ginástica possa ser, também ela, exaustiva, pois exige esforços físicos diversos, muitos deles intensos. Contudo, esse discurso carregado de estados emocionais parece querer atenuar também essa ideia. É nesse sentido que encontramos expressões como "relaxe do stress de São Paulo", "quem passa por aqui vive melhor", "experiência única e inovadora", como indicadores de um estado emocional prometido ao frequentador.

A terceira unidade de contexto agrupa as "sensações" em discurso direto. Todas as unidades estão, de algum modo, associadas à lógica da sensação, mas nessa terceira agrupamos os estímulos que apelam de modo explícito ao sentir. Apresentados em torno de uma constelação sensorial onde o princípio de agradabilidade é constante, esse direcionamento alimenta a compulsão generalizada pela busca de sensações nomeada por Türcke (2010TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., p. 65) de sensation seeking. Para o autor, na sociedade contemporânea, afirma-se algo como "quem não tem sensações, não é" (Türcke, 2010TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., p. 65), ou seja, a identidade do sujeito parece estar associada de modo cabal com o conjunto de sensações que ele experimenta e como ele divulga tais experiências. Os discursos das redes sociais na internet, em grande medida, alimentam essa dinâmica no sentido em que o comportamento padrão é o de se registrar as experiências e divulgá-las. Para Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., esse comportamento é uma espécie de vontade de sentir a si próprio, ou seja, ao registrar e divulgar suas sensações coletivamente o indivíduo de algum modo atesta sua própria vida. Evidentemente, essa prova não se refere simplesmente ao estar vivo, mas de modo mais subjetivo, refere-se a uma "existência excitada" (Türcke, 2010TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010.), consubstanciada pelas experiências sensoriais.

A venda de sensações elementares como as proporcionadas pelo corpo em atividade física parecem buscar essa excitação. Mais uma vez, tal reconciliação é um projeto subsumido na moral do corpo saudável e proativo. O princípio do sensation seek, ao mesmo tempo que projeta o indivíduo em busca de experiências sensoriais, conferindo movimento e atividade à vida do sujeito, pode também torná-lo refém dessas experiências. A compulsão pela sensação pode produzir uma espécie de entorpecimento e isolamento. Por exemplo, nos dados obtidos em nossa pesquisa, encontramos imagens de vários praticantes se exercitando em esteiras ergométricas lado a lado, mas cada um deles absorvidos em suas próprias sensações sendo que, tais sensações, correspondem basicamente a fones de ouvido, televisores colocados em frente às esteiras, revistas que são lidas durante a corrida (nas esteiras já há um local para encaixá-las) ou até mesmo o uso de aparelhos celulares e tablets durante o exercício. A busca pelas sensações, nesse caso, parece isolar os sujeitos na medida em que conduz a uma introspecção sensorial. O cenário mais amplo lembra as pinturas da solidão moderna retratada por Edward Hopper3 3 Edward Hopper (1882-1967) foi um pintor norte-americano conhecido por suas obras que retratavam a solidão da vida moderna em cenários nos quais personagens habitavam espaços comuns, mas com expressivo isolamento. . Corroboram nesse sentido dados que encontramos e acondicionamos nessa unidade de contexto, tais como "ambiente wi-fi" ou "integrado ao seu iPod".

Ainda em relação a essa terceira unidade de contexto, referente às sensações de modo mais direto, podemos identificar nos discursos das academias de ginástica uma forma de expressão que parece tentar captar o sensation seek, associando termos que só tem sentido em seu impacto sensorial. Encontramos exemplos como "mais verão para seu corpo" ou ainda, "aquecido por sediar os maiores eventos esportivos do mundo" (essa frase aparece sem nenhuma explicação prévia a que ela se refere). Esses exemplos parecem indicar que os discursos, nesses casos, intencionam um impacto sensorial, antes até de uma lógica clara na frase. O sensation seek, para Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., corresponde a essa busca difusa, compulsiva e não necessariamente ligada a nexos de razão. Palavras ainda como, "prazer", "agradável" ou "estimulante" estão presentes em quase todos os discursos analisados.

Na quarta unidade de contexto observamos tendências holísticas, em especial aquelas voltadas para um suposto bem-estar integral do indivíduo. No contexto das práticas corporais renovadoras, associadas em torno do conceito de Educação Somática (Strazzacappa, 2012STRAZZACAPPA, M. Educação Somática e artes cênicas. Campinas: Papirus, 2012.), é frequente o processo de desconstrução de práticas mecanizadas e concepções dicotômicas de corpo, propondo-se uma sinergia entre o biológico, a consciência e o meio ambiente (Lima, 2010LIMA, J. A. de O. Educação somática: limites e abrangências. Pro-posições, Campinas, v. 21, n. 2, p. 51-68, 2010.). No material analisado por nós, as promessas de "corpo equilibrado" ou "desenvolvimento integral", como exemplos, não são acompanhadas de qualquer outra referência ou menção à prática que evidencie essa sinergia, deflagrando a impressão de que esses termos se autonomizaram como palavras de apelo sensorial, num processo de esvaziamento do seu significado. Não é difícil observarmos uma tendência ao holístico, mais como recurso propagandístico do que como opção de tratamento das atividades. Os conceitos de "corpo integral" ou "corpo em harmonia" aparecem abundantemente no conjunto dos nossos dados sem, contudo, nenhuma menção que ouse explicitar, afinal, a que se referem tais conceitos. Em Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. esse processo é entendido como uma forma de estetização das relações de produção. Nessa estetização, o desenvolvimento da sociedade capitalista conduziu a uma percepção de polaridade entre vencedores e perdedores. Os perdedores são, fundamentalmente, aqueles que não se adaptam as condições, sendo os vencedores aqueles que, além de se adaptarem, conseguem ainda tirar algum proveito delas. Em diálogo com nossos resultados, pensamos que essa estetização está também presente nessas tendências holísticas na medida em que elas parecem conferir aos termos utilizados no discurso uma associação desse holismo com uma certa integração positiva no curso da vida, ou seja, expressões como "seu corpo em harmonia" ou "equilíbrio entre corpo, mente e alma" aparecem como uma forma de preparar melhor o indivíduo para viver em sociedade. No mesmo sentido do que expusemos para a unidade de contexto anterior, algumas expressões de tendência holística nos discursos parecem também direcionadas apenas para o impacto sensorial da frase, sem um sentido estrito mais identificável. Encontramos, por exemplo, a expressão "bem-estar em equilíbrio", ou ainda, "vida plena de vitalidade".

Por fim, a última unidade de contexto que obtivemos versa sobre as relações e projeções estéticas, tanto no que concerne ao ambiente da academia como na suposta imagem do praticante em seu meio. Retomando a posição de Berkeley, na qual "ser é ser percebido" (esse est percipi), Türcke (2010TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., p. 39) discorre sobre os contornos atuais dessa máxima. Se para o filósofo irlandês do século XVIII esse fundamento nos lançaria na realidade vivida, pois é fundamentalmente relacional, na sociedade excitada de hoje as palavras e os textos de propaganda elaboram como que uma "segunda realidade", marcadamente sensorial, "desobrigada e descomprometida, na qual se pode entrar e da qual se pode sair ao seu bel prazer" (Türcke, 2010TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., p. 29). O esse est percípí passa a exigir esforços e converte-se em medida do comportamento e do status social. Para Türcke (2010TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., p. 56), essa medida do comportamento "alcança um novo grau de compulsão para emitir (Sendezwang)" nos reality shows ao estilo Bíg Brother. Neles, pessoas e situações ordinárias mostram-se capazes de emitir sensações em grande escala, realimentando a roda da excitação na qual os discursos por nós analisados provavelmente pegam carona. Não nos deixa de ser uma constatação conveniente o fato desse reality show em questão possuir, geralmente no centro da casa, uma academia de ginástica na qual muitos episódios centrais de relacionamento se desenrolam.

É nesse impulso que, parecer saudável (ou assumir as etiquetas do estilo saudável) ocupa mais espaço do que ser realmente saudável. É evidência decorrente que toda uma sorte de produtos e serviços irá se direcionar para essa aparência. Maffesoli (1999)MAFFESOLI, M. No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 1999. argumenta que, na lógica do presente, as aparências são mais do que uma emanação parcial da essência, mas passaram a representar o desejo de "sentir em comum". Em Maffesoli a aparência passou a ter um papel central na lógica do cotidiano moderno, o que de certo modo aproxima sua análise da de Türcke. Contudo, ao passo que Maffesoli assume em alguma medida essa condição pós-moderna (termo que Türcke recusa, preferindo "condição moderna"), não vendo nela formas de desequilíbrio mas de um novo equilíbrio, Türcke fala explicitamente da dificuldade de se manter equilibrado na torrente de estímulos da sociedade excitada.

Nos nossos resultados, várias expressões dos discursos parecem revelar essas projeções estéticas. Desde a recorrente ideia de "satisfação" que, de algum modo, sugere o comportamento futuro do sujeito, até indicativos do tipo "esteja na moda", "faça amizades", ou ainda, "seja feliz" e "toque seu coração". Transformar-se e, com isso, adaptar-se melhor à lógica das sensações parece um produto de venda interessante nos discursos das academias, o que nos permitiu compor essa unidade de contexto denominada projeções estéticas.

De modo geral, percebemos um diálogo muito possível entre nossas unidades de contexto e a filosofia da sensação de Türcke. A disseminação de academias de ginástica pelo país, como apontadas em nossos dados quantitativos, mostra como houve um espraiamento desses espaços e, com isso, a proliferação de discursos sobre atividade física, saúde e estética neles presentes. Concluímos que os resultados nos levam a entender como aplicável a filosofia da sensação de Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. para a análise dos discursos de academias de ginástica no Brasil. Discursos mais conscientes e promotores efetivos de saúde parecem ter menos espaço do que propostas superficiais de prazer, status e diversão. De modo algum afirmamos, com isso, que não endossamos a ideia de que as atividades físicas devam ser lúdicas, prazerosas e divertidas. O que evidenciamos com esse cruzamento é o de que a lógica das sensações parece protagonizar os interesses das academias de ginástica e que seus discursos misturam, de modo livre, promoção de saúde com venda de estímulos sensoriais.

Considerações Finais

Diante da pesquisa realizada e das inferências que construímos, parece-nos possível afirmar que as academias de ginástica brasileiras estão erigindo um discurso centrado na oferta da atividade física como produto associado à busca de sensações. Mais do que um dado complementar para entendermos o fenómeno das academias de ginástica na atualidade, essa constatação parece apontar para um completo redirecionamento das atitudes e projetos que envolvem a atividade física nesses cenários. Nossas inferências apontam para uma conjuntura na qual a circulação de sensações parece ocupar um lugar mais central e determinante do que, por exemplo, qualquer teoria de base científica que se direcione para um ganho otimizado de resultados nessa natureza de prática.

É evidente que nossa interpretação deve distinguir o discurso formulado para atrair alunos da prática em si. Não nos é possível inferir de modo direto que a lógica das sensações presente nos discursos das academias é exatamente o que se tenta aplicar no cotidiano das aulas. Talvez um estudo de natureza experimental e longitudinal pudesse apresentar com mais consistência essa possibilidade que aqui é apenas aventada. Contudo, pelos dados e inferências que apresentamos, nos é procedente identificar a lógica das sensações proposta por Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. no cenário das academias de ginástica. Mais ainda, nos é possível compreender que o tema não é secundário nesse campo e que sua interpretação sistemática e constante se faz necessária caso desejemos, a partir do discurso acadêmico, filosófico e científico, elaborar qualquer contribuição efetiva para a reflexão sobre tais fenômenos.

Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010. não faz uma discussão específica sobre a saúde em nenhum momento da sua obra, porém, como vimos, ao referir-se aos muitos frenesis da história humana, destaca que diversas substâncias serviram tanto ao tratamento de enfermidades como à busca de êxtases. O fiel da balança costumou ser a realidade social envolvida. Para Türcke (2010)TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., o desenraizamento provocado pela derrocada da condição pré-moderna (perda de relação com a terra, fim do hereditário, nomadismos) alimentou uma passagem da ideia de substâncias curativas para doses regulares dessas mesmas substâncias como modo de suportar a fadiga cotidiana. Encontramos pontos de convergência entre essa lógica paliativa e a prática de atividades físicas nos discursos das academias de ginástica. Mais ainda, o conceito de saúde parece servir como coringa aos propósitos dos discursos, representando algo sempre muito bom de se obter, mas convenientemente adequado a diferentes ações das academias. Praticamente não há menção concreta, nesses discursos, sobre quais benefícios específicos à saúde as atividades físicas oferecidas proporcionarão. Numa nuvem espessa de sensações e promessas vagas a saúde aparece como um topos idealizado.

Ao longo deste texto evitamos uma postura valorativa, preferindo a exposição contextual em nossas inferências. Contudo, podemos destacar a ponderação do próprio Türcke (2010TÜRCKE, C. Sociedade excitada: filosofia da sensação. Campinas: Unicamp, 2010., p. 66), para quem "a torrente de excitação representa estímulos demais, colocando o organismo na situação paradoxal de não mais ser capaz de transformar os puros estímulos em percepção". Para ele, quem é pego em um rodamoinho tem a cada instante um aqui e agora diferente. Não deixa de nos ser concernente refletir sobre a integridade do fenômeno atividade física quando afogado nesse rodamoinho. Evidentemente, um alarmismo conservador ou uma falta de percepção da inevitável torrente de informações que marcam o contemporâneo não ajudariam no debate. Aliás, o debate desse contemporâneo, tal como ele se apresenta e com os discursos que sobre ele podemos fazer, isso sim, talvez se identifique com nossa possibilidade de colaboração. Essa foi nossa iniciativa nesse texto, ao nos apropriarmos de uma interpretação contundente do contemporâneo como a de Christoph Türcke e a colocarmos em diálogo com o polissêmico fenômeno da atividade física, tal como tratada pelas academias de ginástica brasileiras.

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    Entendamos aqui "notícias" como aquelas oriundas dos veículos oficias, assim como também os fatos privados que circulam instantânea e abundantemente pelas redes sociais (Facebook, Twitter etc.).
  • 2
    Para o autor, "serviço de saúde" é o termo genérico dado ao local destinado à promoção, proteção ou recuperação da saúde em regime de internação ou não. A academia de ginástica não é considerada um serviço de saúde por ainda não ter incluído conceitos epidemiológicos na sua prática. Porém, tem o mesmo objetivo que um serviço de saúde: prevenir doenças, maior qualidade de vida etc., por isso, pode ser considerado um serviço de saúde latente.
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    Edward Hopper (1882-1967) foi um pintor norte-americano conhecido por suas obras que retratavam a solidão da vida moderna em cenários nos quais personagens habitavam espaços comuns, mas com expressivo isolamento.

Referências

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  • VIEIRA, S. Elementos de Estatística São Paulo: Atlas, 1986.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Mar 2015

Histórico

  • Recebido
    05 Jul 2013
  • Aceito
    10 Jul 2014
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