Da cidade dos afetos para a cidade saudável

From affection cities to the healthy cities

Helio Hirao Sobre o autor

Resumo

Trata-se de experimentações de pensar a produção de subjetividades na cidade por meio dos afetos entre os corpos (humano, arquitetural e territorial) para potencializar a promoção do bem-estar humano com melhoria da saúde pública. A Organização Mundial de Saúde aponta a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. Desse modo, busca investigar cidades saudáveis relacionando ambiente construído e social com os sujeitos das cidades, enfocando as múltiplas e complexas particularidades da saúde no espaço em transformação e movimento. Para tanto, este estudo trata de três experiências de orientação desenvolvidas com trabalhos finais de graduação em Arquitetura e Urbanismo, utilizando a abordagem metodológica rizomática de Deleuze e Guattari, com a prática da deriva situacionista e experimentação da cartografia de afetos, que potencializaram intervenções em áreas do entorno de rios das cidades de Bragança Paulista e Presidente Prudente. Assim, por meio da tessitura da produção de afetos nas zonas de intensidades das multiplicidades, heterogeneidades e singularidades espaciais existentes permitiu vibrar todos que se aproximaram para engajarem em uma proposta espacial libertária nos microespaços de resistência, ativando-as, promovendo invisibilidades sociais e, dessa maneira, poder potencializar a cidade saudável.

Palavras-chave:
Cidade Saudável; Deriva; Cartografia; Rizoma; Afetos

Abstract

Experiments of thinking the production of subjectivities in the city through the affects between the bodies (human, architectural and territorial) to enhance of human well-being with improvement of public health. The World Health Organization points to health as “a state of complete physical, mental and social well-being and not just the absence of illness and disease.” This paper seeks to investigate healthy cities relating as a built and social environment with city subjects focusing on the multiple and complex health particularities in transformation and movement. Therefore, this study deals with three experience orientations developed with final undergraduate works in Architecture and Urbanism, using a rhizomatic methodological approach of Deleuze and Guattari, with the practice of situationist derive and experimentation of affections cartographies, to strengthen interventions in the side of rivers in Bragança Paulista and Presidente Prudente cities. Thus, through the process of the production of affects in the intensities zones, multiplicities, heterogeneities and singularities of space allowed to vibrate all who approached to engage in a libertarian spatial proposal in the microspaces of resistance, activating them, promoting social invisibilities and, in this way, empower the healthy city.

Keywords:
Healthy City; Derive; Cartography; Rhizome; Affections

Introdução

Esta experimentação de procedimento metodológico de intervenção na cidade busca alternativas de apreensão da realidade por meio do reconhecimento da produção de subjetividades entre os corpos (homem, arquitetura e território), com a prática da deriva e a experimentação de cartografias de afetos para elaborar intervenções que ativem práticas espaciais existentes e promovam novas, ao objetivar potencializar a cidade saudável.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”, compartilha-se um contexto que desenvolve Guimarães (2019GUIMARÃES, R. B. Saúde coletiva e saber geográfico. Caderno Prudentino de Geografia, Presidente Prudente, v. 1, n. 41, p. 119-132, 2019. Dossiê “60 Anos do Departamento de Geografia da UNESP/FCT.), em seu Laboratório de Geografia da Saúde da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), ao aproximar as temáticas de saúde e ambiente, com intensidade no enfoque no meio biótico, no ser vivo e em suas interações com o ambiente, assumindo uma relação indissociável dos componentes físicos, biológicos e sociais.

Aborda-se, desse modo, a cidade saudável, relacionando ambiente construído e social com os sujeitos das cidades, enfocando as múltiplas e complexas conexões da saúde no espaço em constante transformação e movimento.

O processo de homogeneização, padronização e estandardização das ambiências urbanas e dos comportamentos dos sujeitos da cidade contemporânea, no contexto de globalização, leva a uma precípua preocupação quanto à sua espetacularização, que valoriza os espaços públicos como cenários a serem contemplados, empobrecendo a experiência dos espaços da cidade pelas pessoas.

Diante de uma conjuntura de aceleradas mudanças e transformações no contexto das cidades, cada vez mais híbridas e desterritorializadas, realizadas de modo objetivo e pragmático em função das necessidades imediatas e oportunidades especulativas do mercado imobiliário e financeiro, e sem nenhum cuidado em preservar ou ativar suas diversidades e singularidades socioculturais e espaciais, revela-se a necessidade de outra perspectiva acerca de ações de intervenção nos corpos (homem, arquitetura e território) da cidade.

Com o crescente abandono - demolição e desvalorização de seus registros materiais históricos e culturais - verifica-se a perda de qualidade dos espaços públicos abertos, proporcionada pela perspectiva hegemônica da produtividade econômica e especulativa da cidade, o que encaminha para a construção de um cenário urbano genérico com total falta de sincronismo das pessoas com seu território.

Do mesmo modo, percebe-se nas obras de intervenções arquitetônicas um desígnio dominante de uniformização e padronização dos espaços das cidades, potencializando o início de processos de gentrificação irreversíveis, em importantes áreas urbanas deterioradas, sobre os registros materiais de inúmeras camadas históricas acumuladas ao longo do tempo.

O artigo trata de um movimento do pensamento projetual de intervenções sobre áreas do entorno de rios urbanos, aparentemente vazios e abandonados, em estado de espera, que, no entanto, apresentam rastros e pegadas de apropriações socioespaciais invisíveis à perspectiva dos interesses da cidade produtiva e especulativa, os terrain vague de Solà-Molares (2002), em cidades de médio porte do interior de São Paulo.

A monografia de Stephanie Tomé Lobozzo Dower (2018DOWER, S. T. L. Respingos de ativação: águas resistem. 2018. 130 f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente, 2018.) contraria os princípios do urbanismo tecnocrata que desconsiderou os rios das cidades, abandonando-os como depositário de resíduos sólidos, transformando-os em espaços residuais, desconexos com as suas territorialidades e singularidades. Por isso, experimenta, pela prática do caminhar pensante, o Ribeirão Lavapés, de Bragança Paulista/SP, de águas poluídas e densa ocupação informal em suas margens. Nessa caminhada, a apreensão do contexto socioespacial pelas experimentações cartográficas dos afetos a conduz a ativar e ressignificar as práticas sociais e os acontecimentos nas margens do Ribeirão, potencializando a tessitura das conexões da produção de subjetividade dos sujeitos com sua ambiência natural e construída (Figura 1).

Figura 1
Ribeirão Lavapés - cartografias: margens ocupadas, águas poluídas, depósito de lixo

Lucas Pereira Bosco (2019BOSCO, L. P. Cartografias de ativação. 2019. 85 f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente, 2019.) faz uma experimentação espacial pelos espaços residuais do córrego Água Bôscoli, de Presidente Prudente/SP, tamponado e destinado à rua de pedestres. Apreende pela prática de derivas e experimentações cartográficas (Figura 2) esse espaço aberto, terrain vague (Solà-Morales, 2002SOLÀ-MORALES, I. Terrain vague. In: SOLÀ-MORALES, I. Territórios. Barcelona: Gustavo Gili, 2002. p. 181-193.), ladeado pelos muros de fundos de lotes residenciais, para ativar os agenciamentos espaciais dos sujeitos do local, tornando visíveis as invisibilidades reconhecidas, potencializando por meio de intervenções espaciais essas múltiplas e diversas singularidades para o bem-estar físico, mental e social das pessoas.

Figura 2
Rua de pedestre sobre o tamponamento do córrego Água Bôscoli e as cartografias de afetos

A escuta nômade de Natália Maria Fernandes de Moraes (2019MORAES, N. F. Praça em potencial: uma experiência nômade pela paisagem sonora. 2019. 172 f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente, 2019.) reconhece, principalmente pelas sensações sonoras e seus territórios, o espaço da Praça Oscar Figueiredo Filho (Figura 3), em parte que o córrego do Veado, em Presidente Prudente/SP, foi canalizado, mas não tamponado. A captura pelo afeto do som das águas, das batalhas do vale (hip-hop), dos pássaros, dos cachorros, dos ventos, da intensidade do sol e da chuva e do movimento dos carros e das pessoas tece as conexões subjetivas com a ambiência pela confecção de aquarelas em papel e bordados em tecidos, produzindo intervenções entre os corpos.

Figura 3
Praça Oscar Figueiredo Filho em fotos e cartografias do afeto

Deriva e cartografia de afetos

O procedimento metodológico projetual adotado realiza práticas espaciais por meio de derivas situacionistas (Debord, 2003DEBORD, G. Teoria da deriva. In: JACQUES, P. O. (Org.). Apologia da deriva. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. p. 87-91.), relacionando o reconhecimento de efeitos da natureza psicogeográfica e a afirmação de um comportamento lúdico-construtivo com o caminhar como praticantes ocasionais dos “territórios atuais”, “espaços intermediários” ou “espaços entre” - a transurbância de Careri (2013CARERI, F. Walkscapes: o caminhar como prática estética. São Paulo: GG Brasil, 2013.) nas ambiências arquitetônicas abordadas.

Essa imersão no contexto existente permitiu diminuir as distâncias com os sujeitos do espaço, evitando ao máximo seu reconhecimento superficial e o olhar estrangeiro que nega o “outro” (Montaner, 2014MONTANER, J. M. Del diagrama a las experiencias, hacia una arquitectura de la acción. Barcelona: Gustavo Gili, 2014).

Em vez de apreender a partir de regras estabelecidas, buscou cognições por meio de pistas do método cartográfico (Escóssia; Tedesco, 2015ESCÓSSIA, L.; TEDESCO, S. O coletivo de forças como plano de experiência cartográfica. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (Org.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2015. p. 92-108.) para guiar o procedimento metodológico da produção de aproximações das realidades que se expressam de múltiplas maneiras, incluindo dados quantitativos e qualitativos.

Nesse processo, a investigação assume a possibilidade de cognição do espaço com a experimentação cartográfica (Deleuze; Guattari, 1995DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.) por meio de elaboração de mapas móveis do espaço vivenciado, constituindo-se em uma prática espacial ancorada no real. Assim, produziu-se experimentalmente um mapa da cidade que é atualizado pela prática do espaço, agora apropriada e modificada pelos seus habitantes (Jacques, 2003JACQUES, P. O. (Org.). Apologia da deriva. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.). Reconhece-se, assim, micropráticas do espaço, as diversas apropriações como microrresistências ou táticas de resistências dos praticantes desse espaço (Certeau, 1998CERTEAU, M. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1998.), por vezes despercebidas ao olhar pragmático e especulativo da cidade produtiva.

Essa aproximação com a realidade, considerada em sua multiplicidade e singularidade, em constante transformação e movimento, relaciona o corpo como os diferentes elementos heterogêneos do espaço. Compartilha, assim, o conceito de corpo da ética espinosiana como individualidade e singularidade portadora de relações de movimento e repouso entre partículas, que não se define por suas formas ou funções, mas pelo poder de afetar e ser afetado, assim como, coloca Deleuze (2002DELEUZE, G. Espinosa: filosofia prática. São Paulo. Escuta, 2002.), todo corpo possui um grau de potência mediado pelas intensidades dos afetos e, Guizzo (2019GUIZZO, I. Reativar territórios: o corpo e o afeto na questão do projeto participativo. Belo Horizonte: Quintal, 2019.) complementa, um corpo em sua duração tece um conjunto de relações em movimento ou mutáveis capaz de produzir um único efeito ao afetar e ser afetado por outros corpos.

O projeto apreende, portanto, com a experimentação espacial e a apropriação coletiva, o que enriquece as sensações individuais e coletivas e, dessa forma, contribui para o sentimento de pertencimento das pessoas com seus espaços (Guattari, 1992GUATTARI, F. A restauração da cidade subjetiva. In: GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. p. 149-158.).

Compreende as cartografias como mapas que procuram descrever as experiências dos espaços de forma rizomática (Deleuze; Guattari, 1995DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.), expressando graficamente as redes e conexões dos afetos, das práticas socioculturais e de uma configuração de elementos, forças, ou linhas que atuam simultaneamente no espaço.

Dessa forma, a pesquisa proposta traz para o debate e aprofunda a discussão sobre os procedimentos metodológicos de apreensão da realidade pela prática da deriva e da experimentação cartográfica, acompanhando os movimentos das subjetividades e dos territórios, sobrepondo os afetos e as forças captadas por meio de expressões gráficas/artísticas.

Abre-se, assim, um caminho alternativo para a concepção de intervenções em ambiências preexistentes conduzido pelo seu conteúdo de práticas espaciais como expressão de conteúdo dessas forças e desses afetos entre os corpos ressingularizados para ativar e potencializar a cidade saudável contemporânea.

Prática, experimentação e intervenção

Dower (2018DOWER, S. T. L. Respingos de ativação: águas resistem. 2018. 130 f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente, 2018.) caminha entre as margens do Ribeirão paradoxal e marcado pelas eventuais enchentes que as desconhecia. A deriva lhe mostra microespaços de insurgências dos moradores, nos lotes vagos, ao longo das fissuras que se abrem nas margens do ribeirão e são descritas pelas cartografias (Figura 4) potencializadoras das brechas para ativação das suas multiplicidades e singularidades apreendidas.

Figura 4
Cartografias dos afetos do Ribeirão Lavapés (aquarela s/ papel)

As intervenções nas fissuras, propostas por Dower (2018DOWER, S. T. L. Respingos de ativação: águas resistem. 2018. 130 f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente, 2018.), aproveitam o contexto existente. Em uma delas (Figura 5), reconhece o espaço como uma instalação artística com os restos de pedras e areias em uma ambiência poética, entre o ribeirão e a avenida dos Imigrantes, ressignifica esse espaço poético organizando essas pedras como uma arquibancada para usos a serem determinados pelas pessoas, incluindo admirar e valorizar o rio, se não fosse poluído; configura cortes no terreno para contenção d’água das eventuais enchentes.

Figura 5
Cartografias de intervenção sobre as fissuras do Ribeirão Lavapés (lápis e aquarela s/ papel)

Em outra (Figura 5), localizada em continuidade de uma viela que cruza a avenida dos Imigrantes, possui uma ponte metálica de pedestre, abaixo do nível das vias, ligando à outra margem. Reconhece o problema das enchentes e da existência de rastros e pegadas dos diversos usos, substituindo a antiga ponte por outra, também de estrutura metálica com cordoalhas de aço tencionadas, que se abrem estendidas nas laterais para as múltiplas apropriações e o escoamento das águas.

A experimentação para Bosco (2019BOSCO, L. P. Cartografias de ativação. 2019. 85 f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente, 2019.) possibilitou diferentes experiências e intensidades sensitivas ao reconhecer a não linearidade das sensações, e afetos que vão e voltam ou seguem para longe, mas que se contorcem quase como uma dança, como um desvio que transborda. Reconhece a intensidade de três ambiências (Figura 2 e 6), cada qual com suas multiplicidades, singularidades, e subjetividades espaciais ao longo da Rua de Pedestres.

Figura 6
Cartografias dos afetos da Rua de Pedestres (técnica mista-colagem)

Desse modo, Bosco (2019BOSCO, L. P. Cartografias de ativação. 2019. 85 f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente, 2019.), ao pensar a intervenção (Figura 7) com apreensão do conteúdo dos espaços articulando as múltiplas singularidades desse complexo território, por vezes conflitantes, deixa a intervenção em aberto, por exemplo, a intensidade luminosa em um espaço pode acolher ou afugentar pessoas, dependendo do contexto e da situação. A intervenção deve ser compartilhada e conduzida pelo movimento do tempo e das pessoas, na experimentação e na prática do espaço.

Figura 7
Cartografias de intervenções (Lápis e colagem s/ papel)

A experiência sonora e nômade de Moraes (2019MORAES, N. F. Praça em potencial: uma experiência nômade pela paisagem sonora. 2019. 172 f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente, 2019.) pelos espaços da Praça Oscar Figueiredo Filho (Figura 8) descreve uma forma arquitetônica setorizada, determinando as diferentes atividades que ocorrem, mas reconhece o extravasamento dos territórios sonoros.

Figura 8
Cartografias de afetos da Praça Oscar Figueiredo Filho (bordado s/ linho e aquarela s/papel)

A intervenção de Moraes (2019MORAES, N. F. Praça em potencial: uma experiência nômade pela paisagem sonora. 2019. 172 f. Monografia (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente, 2019.) se sobrepõe simultaneamente à sua cartografia (Figura 9) ao relacionar a forma arquitetônica da Praça com o extravasamento dos territórios sonoros e a produção de subjetividades e, sem hierarquizar, considera os múltiplos sons, inclusive os ruídos e as ausências do som em seus diversos tempos, potencializando as suas conexões e intensidades no espaço, estimulando relações de contágio entre os corpos (homem, arquitetura e território).

Figura 9
Cartografias de intervenção da Praça Oscar Figueiredo Filho

Considerações finais

As experimentações espaciais descritas pelas derivas, cartografias e intervenções mostram outra perspectiva de pensar a cidade em seu devir considerando a alteridade. Dentro do processo de agenciamento dos espaços da cidade instituída, a microrresistência das pessoas, apreendida pelos rastros e pegadas, reconhecida nas ambiências, potencializa a qualificação da forma do espaço expresso pelo seu conteúdo socioespacial.

Essas intervenções espaciais atuam nas brechas possíveis dos contextos citadinos como potencializadora de experiências, a partir de uma apreensão subjetiva da tessitura das forças e dos afetos das pessoas com seu espaço, e tendem a ser efêmeras, uma vez que a cidade contemporânea está em constante movimento e transformação. Revela-se como um ato de resistência à imposição de subjetividades homogêneas e padronizadas.

Possibilita, assim, ativar as intensas conexões entre os corpos (homem, arquitetura e território) por relações de contágio, fortalecer as relações de bem-estar físico, mental e social das pessoas e, por isso, promover a cidade saudável. Diferente dos princípios da cidade modernista, em que a forma determina a função; esse caminho projetual, a partir da ressignificação da tessitura das forças e dos afetos, pode estimular um processo de envolvimento das pessoas com o espaço levando a sua participação colaborativa na construção da forma de sua cidade.

Com isso, não procura soluções urbanísticas milagrosas, entretanto, acompanha e se adapta com pequenas intervenções formais, expressando seu conteúdo sociocultural, considerando o movimento e as rápidas transformações da sociedade contemporânea, contemplando e respeitando as diversidades e multiplicidades das singularidades existentes.

Dessa forma, esse procedimento metodológico projetual permite uma aproximação com a realidade transitória dos espaços e sua apreensão e cognição constituem um conteúdo parcial com potência para sobrepor, simultaneamente, as formas arquitetônicas, a produção de subjetividades e o modo de vida saudável. São partes de um processo contínuo que necessita de atualização a cada momento, cujos agenciamentos devem ser compartilhados nesse processo rizomático do emaranhado de forças e de afetos entre os corpos envolvidos.

Referências

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  • SOLÀ-MORALES, I. Terrain vague. In: SOLÀ-MORALES, I. Territórios. Barcelona: Gustavo Gili, 2002. p. 181-193.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Jul 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    29 Jan 2020
  • Revisado
    30 Abr 2020
  • Aceito
    05 Maio 2020
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