Meio ambiente e enfermagem: suas interfaces e inserção no ensino de graduação

The environment and nursing: their interfaces and inclusion in undergraduate programs

Gabriela Azevedo de Souza Bruzos Helayne Mika Kamimura Suelen Alves Rocha Thais Amanda Calori Jorgetto Karina Pavão Patrício Sobre os autores

Resumos

A degradação ambiental vem modificando nosso cenário de forma acelerada e interferindo negativamente no processo saúde-doença de toda a comunidade. No entanto, o meio ambiente vem sendo concebido como um simples cenário, algo externo ao ser humano, não onde estamos inseridos e no qual acontecem suas interações e inter-relações. A complexidade dos problemas ambientais clama pela adoção de medidas que superem práticas assistencialistas, levando à adoção de práticas transdisciplinares que avancem na promoção da saúde. Neste artigo procura-se discutir, nesta perspectiva, a necessidade de inserção nos cursos de graduação em saúde a temática saúde e meio ambiente, adotando como exemplo um curso de enfermagem do interior paulista que inseriu uma disciplina relacionada ao tema. Analisa também o papel do enfermeiro na relação com o meio ambiente segundo a representação social dos alunos, trabalhada a partir do Discurso do Sujeito Coletivo. Nota-se que é fundamental discutir essa temática ambiental entre os profissionais da saúde, a fim de que eles se empoderem desse conhecimento e consigam identificar problemas relacionados à questão ambiental, propondo ações resolutivas e preventivas, juntamente com a comunidade, procurando amenizar os riscos ambientais a que todos estão expostos. Reforça-se a profundidade do papel dos profissionais de saúde diante dos problemas ambientais, buscando a saúde em uma perspectiva ampliada de promoção da saúde.

Ensino; Meio Ambiente; Saúde Ambiental; Enfermagem


Environmental degradation has been quickly changing our scenario and negatively interfering in the health-disease process of the whole community. However, the environment has been conceived as a simple scenario, something external to the human being, instead of where we are included and where interactions and inter-relations occur. The complexity of environmental problems claims for the adoption of measures that can overcome assistentialist practices, leading to the adoption of trans-disciplinary practices that can advance in healthcare promotion. In this article, an attempt is made to discuss, in this perspective, the need to include the topic 'health and the environment' in undergraduate healthcare programs by taking as an example a Nursing program in the state of São Paulo, Brazil, which has included it as one of its disciplines. It also analyzes the nurse's role in the relationship with the environment according to the students' social representation and based on the Collective Subject Discourse. It is fundamental to discuss the whole environmental topic among healthcare professionals, so that they can acquire such knowledge and develop skills to identify environment-related problems. In this way, they will be able to propose problem-solving and preventive actions together with the community, aiming at reducing the environmental risks to which everyone is exposed. The depth of healthcare professionals' roles in view of environmental problems is reinforced, as they seek for healthcare in an enlarged perspective of health promotion.

Education; Environment; Environmental Health; Nursing


PARTE I - ARTIGOS

  • Meio ambiente e enfermagem: suas interfaces e inserção no ensino de graduação
    The environment and nursing: their interfaces and inclusion in undergraduate programs
  • Gabriela Azevedo de Souza BruzosI; Helayne Mika KamimuraII; Suelen Alves RochaIII; Thais Amanda Calori JorgettoIV; Karina Pavão PatrícioV

    IGraduanda em enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp). Endereço: Rua Careaçu, nº32, Jardim França, CEP 02339-000, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: gabriela@bruzos.com.br

    IIGraduanda em enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp). Endereço:Rua Cristalino Rolim de Freitas, 263, CEP 18150 000, Ibiuna, SP, Brasil. E-mail: helayne_mika@yahoo.com.br

    IIIGraduanda em enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp).

    Endereço:Faculdade de Medicina - Depto de saúde Pública, Rubião Junior, sem nº, CEP 18618-970, Botucatu, São Paulo, Brasil. E-mail: suamina@hotmail.com

    IVGraduanda em enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp). Endereço: Faculdade de Medicina - Depto de saúde Pública, Rubião Junior, sem nº, CEP 18618-970, Botucatu, São Paulo, Brasil. E-mail: thatha_jorgetto@hotmail.com

    VProfessora Doutora do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp). Endereço: Faculdade de Medicina - Depto de saúde Pública, Rubião Junior, sem nº, CEP 18618-970, Botucatu, São Paulo, Brasil. E-mail: pavao@fmb.unesp.br

    RESUMO

    A degradação ambiental vem modificando nosso cenário de forma acelerada e interferindo negativamente no processo saúde-doença de toda a comunidade. No entanto, o meio ambiente vem sendo concebido como um simples cenário, algo externo ao ser humano, não onde estamos inseridos e no qual acontecem suas interações e inter-relações. A complexidade dos problemas ambientais clama pela adoção de medidas que superem práticas assistencialistas, levando à adoção de práticas transdisciplinares que avancem na promoção da saúde. Neste artigo procura-se discutir, nesta perspectiva, a necessidade de inserção nos cursos de graduação em saúde a temática saúde e meio ambiente, adotando como exemplo um curso de enfermagem do interior paulista que inseriu uma disciplina relacionada ao tema. Analisa também o papel do enfermeiro na relação com o meio ambiente segundo a representação social dos alunos, trabalhada a partir do Discurso do Sujeito Coletivo. Nota-se que é fundamental discutir essa temática ambiental entre os profissionais da saúde, a fim de que eles se empoderem desse conhecimento e consigam identificar problemas relacionados à questão ambiental, propondo ações resolutivas e preventivas, juntamente com a comunidade, procurando amenizar os riscos ambientais a que todos estão expostos. Reforça-se a profundidade do papel dos profissionais de saúde diante dos problemas ambientais, buscando a saúde em uma perspectiva ampliada de promoção da saúde.

    Palavras-chave: Ensino; Meio Ambiente; Saúde Ambiental; Enfermagem.

    ABSTRACT

    Environmental degradation has been quickly changing our scenario and negatively interfering in the health-disease process of the whole community. However, the environment has been conceived as a simple scenario, something external to the human being, instead of where we are included and where interactions and inter-relations occur. The complexity of environmental problems claims for the adoption of measures that can overcome assistentialist practices, leading to the adoption of trans-disciplinary practices that can advance in healthcare promotion. In this article, an attempt is made to discuss, in this perspective, the need to include the topic 'health and the environment' in undergraduate healthcare programs by taking as an example a Nursing program in the state of São Paulo, Brazil, which has included it as one of its disciplines. It also analyzes the nurse's role in the relationship with the environment according to the students' social representation and based on the Collective Subject Discourse. It is fundamental to discuss the whole environmental topic among healthcare professionals, so that they can acquire such knowledge and develop skills to identify environment-related problems. In this way, they will be able to propose problem-solving and preventive actions together with the community, aiming at reducing the environmental risks to which everyone is exposed. The depth of healthcare professionals' roles in view of environmental problems is reinforced, as they seek for healthcare in an enlarged perspective of health promotion.

    Keywords: Education; Environment; Environmental Health; Nursing.

    Introdução

    A Organização Mundial da Saúde (OMS) conceitua meio ambiente como tudo que é externo ao ser humano, podendo ser dividido em físico, biológico, cultural e social, sendo que qualquer um ou todos podem interferir no estado de saúde da população (OMS, 1995). No entanto, essa definição submete a uma visão antropocêntrica, ou seja, o ser humano é o centro e o meio ambiente um cenário ao seu redor. No campo da saúde fica claro que não dá para adotar essa noção, embora se trabalhe muito nessa vertente. Na realidade estamos inseridos no meio ambiente e ele não é algo externo a nós. Existe uma relação direta entre o ser humano e o meio ambiente e se essa relação sofre alterações pode acabar desencadeando doenças na população nele inserida. Segundo Tambellini e Câmara (1998):

    [...] a ideia do ambiente como elemento importante para o campo da saúde é antiga, porém, sua caracterização em termos técnico-científicos tem sido suficientemente vaga e imprecisa para admitir variadas formas e concepções na elaboração de sua [do ambiente] possível relação com a saúde propriamente dita. Invariavelmente, este ambiente tem sido visto como meio externo, muitas vezes considerado como, simplesmente, o cenário onde se desenrolam os acontecimentos ou os processos especiais de uma determinada doença ou grupo delas.

    Becker (1992) denomina esse processo como a "desnaturalização da natureza". Tentar definir o limite entre o espaço e o universo de seres vivos e inertes, que nele se circunscrevem, sempre será arbitrário, uma vez que ambos existem em relação aos sistemas que o circundam. O meio ambiente não deveria ser concebido somente por fatores exógenos ao ser humano, mas também considerar os intrínsecos, como sua história e suas complexidades organizadas, sendo que todos esses fatores podem influenciar no processo saúde-doença da população (Samaja, 2003; Patrício, 2006).

    Percorrendo a história de ocupação do território brasileiro, desde os primórdios da colônia, constata-se que ela ocorreu de forma predatória, devastando nossas paisagens. As atividades agrícolas no país começaram a ser realizadas por meio das queimadas das florestas, utilizando as cinzas para adubação do solo, o que o tornava fértil por 2 ou 3 anos. Após esse período, o solo ficava totalmente exaurido e as formigas proliferavam. Dessa forma, os senhores das terras reivindicavam novas sesmarias, alegando a baixa produtividade dos solos. Para produzir açúcar nos engenhos, muita lenha oriunda da mata Atlântica foi queimada. As ferrovias também consumiam, em suas locomotivas a vapor, muita lenha proveniente dessas matas. Na pastagem, utilizavam-se as queimadas para que ervas crescessem e o gado pudesse se alimentar. As encostas e os cursos de muitos rios foram modificados à custa de extração de ouro e diamante (Pádua, 2002). Sérgio Buarque de Holanda, referindo-se aos colonizadores, coloca: "pelo muito que pediam à terra e o pouco que lhe davam em retribuição". Pádua cita que Frei Vicente Salvador (1564-1636), em História do Brasil, de 1967, critica colonizadores que "usam a terra não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem e a deixarem destruída".

    O crescimento populacional, aliado ao desenvolvimento tecnológico mundial e ao aumento exacerbado do consumo, tem gerado muitos avanços, mas, em contrapartida, tem causado danos ao meio ambiente, chamando a atenção de todo o planeta. O modelo econômico prevalente baseia-se na extração de matéria-prima, sem sustentabilidade, levando à extensa devastação e deterioração de áreas, interferindo diretamente no meio ambiente. Como subprodutos desse processo, temos poluição e contaminação do solo, da água e do ar. Esse modelo de desenvolvimento atualmente adotado favorece o aparecimento de riscos para a saúde e para o ambiente (Augusto e Branco, 2003). Para agravar ainda mais a situação o ecossistema não tem mais a mesma capacidade de regeneração comparada à fase pré-industrial, o equilíbrio da terra foi alterado (Silva e Schramm, 1997; Boff, 2004). Como ressaltam Barcellos e Quitério, 2006, p. 171:

    A crise ambiental tem obrigado todos os setores da sociedade a rever conceitos e valores, explicitados conflitos de interesse e evidenciado a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento. A crise ambiental também é uma crise de conhecimento. O saber é, como uma alternativa à crise, o reconhecimento da complexidade que envolve as relações entre sociedade e ambiente.

    Assim sendo, o meio ambiente mantém uma relação íntima com a saúde da população que está inserida nele, ou seja, o meio não é apenas o cenário onde a população vive, mas no qual acontecem suas interações e inter-relações, influenciando direta e indiretamente no processo saúde-doença. A degradação do meio ambiente pode aumentar a morbimortalidade da população, pois o processo saúde-doença sofre influências dos aspectos históricos e sociais, além das circunstâncias ambientais e ecológicas, conforme o grau de relação que o ser humano tem com o meio ambiente (Ribeiro e Bertolozzi, 1999; Ianni, 2005; Santos e col., 2003). No entanto, para compreender e adotar medidas resolutivas é necessário avançar além do modelo reducionista, medicocêntrico e assistencialista, que não consegue abordar a temática complexa da saúde e meio ambiente. Como Barcellos e Quitério (2006, p. 177) colocam:

    O modelo conceitual da vigilância das situações de risco é baseado no entendimento que as questões pertinentes às relações entre saúde e ambiente são integrantes de sistemas complexos, exigindo abordagens e articulações interdisciplinares e transdisciplinares, palavras de ordem na promoção da saúde.

    Torna-se impossível tentar compreender a relação entre saúde e meio ambiente sem ter uma visão global das variáveis envolvidas, da realidade na qual está inserida (Patrício, 2006).

    Com o intenso e acelerado processo de desenvolvimento econômico e populacional pelo qual o mundo vem passando, é fundamental discutir a temática ambiental entre os profissionais da saúde, para que eles se empoderem desse conhecimento e consigam identificar problemas relacionados à questão ambiental, propondo ações resolutivas e preventivas, juntamente com a comunidade, procurando amenizar os riscos ambientais a que todos estão expostos.

    Em poucos cursos superiores das ciências da saúde discute-se a temática saúde e meio ambiente de forma oficial e sistemática, formando profissionais sem uma visão global dos problemas que irão enfrentar na saúde ambiental (Schmidt, 2007). Na prática, os cursos não conseguem levantar possíveis associações entre doenças e questões ambientais. Dessa forma, urge a necessidade de implantar discussões sobre essa temática entre os graduandos da área da saúde, para que eles alcancem uma melhor abordagem, resolução e prevenção das doenças que vêm acometendo a população, assim como dos riscos ambientais a que todos estão expostos.

    O Código Internacional de Enfermagem define que o enfermeiro deve ser responsável pela preservação do meio ambiente, protegendo-o contra o empobrecimento, a degradação e a destruição (Camponogara e col., 2006). Embora definido como atribuição legal profissional do enfermeiro, muitos profissionais não dão a devida importância a essa ação voltada ao meio ambiente. Na orientação de enfermagem, o enfermeiro costuma abordar apenas aspectos gerais, se a população tem acesso a água tratada, esgoto, quantos cômodos tem a casa e suas características, não questionando sobre outros problemas ambientais do entorno e a importância da preservação do meio na manutenção da saúde (Ribeiro e Bertolozzi, 1999). Dessa forma, observa-se a necessidade de inserir discussões na graduação que permitam alcançar uma visão mais crítica e ativa em relação à enfermagem e seu papel na questão ambiental.

    Um curso de enfermagem do interior paulista, passando por grandes discussões e reformas, reestruturou uma disciplina ministrada ao primeiro ano de enfermagem, que anteriormente enfocava questões voltadas ao saneamento básico e resíduos sólidos. Com essas novas demandas, a disciplina passou a discutir as relações entre saúde e meio ambiente de forma mais complexa, partindo do conceito de meio ambiente como o local onde ocorrem as inter-relações que podem interferir diretamente no processo saúde doença e qual o papel e a atuação do enfermeiro nessa relação, destacando o papel de cada cidadão na preservação ambiental. Desenvolveu-se um trabalho teórico prático, com visitas a campo em parceria com o serviço de Vigilância em Saúde Ambiental do município.

    Objetivo

    Analisar a inserção da temática saúde e meio ambiente no ensino de graduação de enfermagem e o papel do enfermeiro na relação com o meio ambiente segundo a representação social de alunos de um curso de enfermagem do interior paulista.

    Metodologia

    Elaborou-se um questionário, com 12 questões abertas, que foi distribuído a alunos de enfermagem do primeiro ao quarto ano, sendo que duas turmas já haviam tido uma disciplina sobre saúde e meio ambiente e outras duas não. O instrumento foi aplicado no ano de 2007 e 2008, com a participação de 75 alunos (62% do total). Os alunos participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, aprovado pelo Comitê de ética da universidade, sendo garantido seu anonimato.

    Como referencial metodológico, adotou-se a metodologia qualitativa e os depoimentos foram analisados seguindo a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). Trata-se de técnica de organização e tabulação dos dados qualitativos obtidos por meio da fala dos sujeitos. Como o próprio autor explica:

    O Sujeito Coletivo se expressa então através de um discurso emitido no que se poderia chamar de "primeira pessoa (coletiva) do singular". Trata-se de um "eu" sintático que, ao mesmo tempo que sinaliza a presença de um sujeito individual do discurso, expressa uma referência coletiva na medida em que este "eu" fala pela ou em nome de uma coletividade. Este discurso coletivo expressa um sujeito coletivo, que viabiliza um pensamento social. (Lefèvre e col., 2002, p. 18).

    Para chegar ao DSC, trabalha-se com as seguintes figuras metodológicas: Expressões-chave (ECH), trechos, pedaços das falas que traduzem um aspecto determinado sobre o tema investigado; Ideias Centrais (IC), categorias que expressam de forma mais sintética, precisa e fidedigna possível um grupo de expressões-chave selecionadas das falas; Ancoragem (AC), quando uma ECH leva diretamente a uma figura metodológica e não a uma IC, ou seja, "seria a manifestação linguística explícita de uma dada teoria, ou ideologia, ou crença que o autor do discurso professa e que, na qualidade de afirmação genérica, está sendo usada pelo enunciador para 'enquadrar' uma situação específica"; e o Discurso do Sujeito Coletivo, discurso-síntese das ECHs contendo a mesma IC (Lefèvre e col., 2002).

    Adotou-se como referencial teórico a Teoria das Representações Sociais, uma abordagem dedicada à investigação dos processos cognitivos e construtos relacionados ao modo como as pessoas pensam cotidianamente. Pode-se dizer que o processo de representar resulta em teorias do senso comum, elaboradas e partilhadas socialmente, ligadas a inserções específicas dentro de um conjunto de relações sociais, isto é, a grupos sociais, que têm por funções explicar aspectos relevantes da realidade, conceituar a identidade grupal, orientar práticas sociais e justificar ações e tomadas de posição depois que elas são efetuadas (Wachelke e Camargo, 2007). Segundo Moscovici (2007), um dos grandes propulsores desta teoria, "representar significa, a uma vez e ao mesmo tempo, trazer presentes as coisas ausentes e apresentar coisas de tal modo que satisfaçam as condições de uma coerência argumentativa, de uma racionalidade e da integridade normativa do grupo". (p. 216). Uma representação, segundo a teoria das representações sociais, não é uma cópia fidedigna de algum objeto existente na realidade objetiva, mas uma construção de saberes sociais em que as estruturas de conhecimento do grupo recriam o objeto baseado em representações já existentes, substituindo-o, emergindo o simbólico e imaginativo, mobilizando sempre o componente afetivo (Wachelke e Camargo, 2007; Guareschi e Jovchelovitch, 2008).

    Resultados e Discussão

    Do primeiro ao quarto ano de graduação em enfermagem participaram, respectivamente: 25, 20, 16 e 14 alunos (Tabela 1), sendo que o segundo e o terceiro anos já haviam cursado a disciplina de saúde e meio ambiente e os outros não.

    Para ilustrar as IC que apareceram no questionário, apresentaremos sala a sala, apontando as diferenças segundo suas representações.

    Quanto ao conceito de meio ambiente, todos os anos entrevistados expuseram as IC como natureza, espaço físico e interações, remetendo ainda à ideia de meio ambiente como algo externo, porém algo que se inter-relaciona: "É o meio que engloba todo e qualquer tipo de vida existente, [onde se] relaciona todos os seres. Tudo que constitui esse cenário, todas suas formas, o local em que este está inserido [incluindo ar, terra etc.]. É o verde, água, vegetação, floresta, cachoeira, mar (A1). O primeiro ano também reforçou o conceito como o ambiente composto de fatores químicos, físicos e biológicos, trazendo os conceitos teóricos do ensino médio, pois, em poucas escolas, vem se discutindo a temática de meio ambiente na perspectiva de suas interações e complexidade, com a incorporação de uma educação ambiental cidadã (Reigota, 2008). Quanto aos discursos obtidos no segundo ano, observou-se que os sujeitos possuem um conceito mais elaborado em relação ao meio ambiente, associando-o com a saúde: "É o modo pelo qual obtemos saúde". Os discursos demonstram que o terceiro ano relaciona o mesmo com o processo saúde-doença e bem estar. "É o conjunto de fatores biopsicossociais que fazem parte e influem na vida do ser humano". Esses dois anos já haviam tido a disciplina que discute essa temática e isso pode ter facilitado a aquisição de conceitos mais amplos, embora o quarto ano também tenha apresentado uma visão ampliada de meio ambiente expressa por: "[...] É o meio em que vivemos, é tudo que nos cerca e envolve o desde fatores sociais até ambientais. É todo local passível de vida ou não, onde o ser humano habita e necessita tê-lo para ter condições de vida".

    Quando questionados sobre a relação da enfermagem com o meio ambiente, todos os anos reforçaram essa relação, enfocando o processo saúde-doença, evidenciado pelo discurso:

    A enfermagem cuida da saúde, e a saúde está ligada às condições sanitárias e ambiente físico. Enfermagem trabalha com o meio ambiente que interfere na saúde e na qualidade de vida das pessoas, um ambiente saudável propicia melhores condições de vida à população. A enfermagem deve estar atenta, pois não é necessário tratar só a doença, e sim tratar o meio contaminante.

    O primeiro ano relacionou a função educadora do enfermeiro como importante para auxiliar na melhoria de condições de vida da comunidade, evidenciada pelas IC: descarte adequado de resíduos hospitalares, uso adequado de materiais para realização de técnicas, conscientização, preservação ambiental e influência na vida. No segundo ano apareceram as seguintes IC: orientação, educador, conhecer a realidade, "necessidade do enfermeiro conhecer a realidade local em que a sua comunidade está inserida para orientá-la quanto aos fatores de risco que podem desencadear doenças". Para o terceiro ano, o profissional de enfermagem deve atuar na prevenção de doenças, modificando o meio ambiente e as condições de vida, promovendo a saúde da população: "A enfermagem visa promoção, se o meio ambiente não está bem cuidado e preservado, o objetivo da enfermagem não será alcançado.". O quarto ano enfatizou bastante o descarte de lixo e a preservação ambiental, enfocando mais a questão de saneamento, deixando de destacar o papel de educador que o enfermeiro pode exercer, como apareceu nos outros anos.

    Os alunos foram questionados, como futuros enfermeiros poderiam ajudar no problema ambiental. Ao comparar as respostas, pôde-se observar que duas ações foram citadas por alunos de todos os anos: conscientização da população ("conscientizar a população sobre o quanto é importante preservar o ambiente e quais as consequências se ele não for devidamente cuidado") e a importância da educação ("palestras e educação da população e dos outros profissionais da área"). O cuidado com os resíduos hospitalares também foi citado em todos os anos, exceto no terceiro ("Descarte ideal do lixo hospitalar em local adequado e de acordo com a legislação da Anvisa, ou seja, segundo alguns padrões"). A preservação do meio ambiente com "pequenos atos como não jogar lixo no chão, reciclar o lixo, não queimar, coleta seletiva, preservação, plantio de árvores", foi citado no primeiro e no segundo anos. A prevenção de doenças foi citada pelos terceiro e quarto anos, provavelmente por terem base teórica maior sobre a relação saúde e meio ambiente ("Agir na prevenção e proliferação da doença, [pois] o ambiente está relacionado com a doença, então serve para prevenção"). O quarto ano foi o único que citou IC novas, mostrando uma assistência voltada mais aos recursos administrativos como: uso racional de materiais ("Economizar, não gastar desordenadamente objetos e materiais, pois estes provêm de matéria-prima de outros meios, que acabam se esgotando. Além de fazer uso de produtos que não prejudique o meio. Materiais que não interfiram no meio negativamente devem ser usados no hospital, produtos biodegradáveis, etc."), saneamento básico hospitalar ("Verificar se há tratamento do esgoto hospitalar e providenciar para que não haja irregularidades quanto ao esgoto, produtos de limpeza hospitalares, [tendo] a adequação de saneamento básico, [e] seguir normas da Anvisa e RDC") e educação em relação ao desenvolvimento sustentável ("...expandiria a ideia de desenvolvimento sustentável"), provavelmente por já terem adquirido maior carga de conhecimento teórico-prático ao longo do curso.

    Discutindo a visão dos alunos de enfermagem sobre a importância de se ter ou não uma disciplina que discutisse a temática de saúde e meio ambiente, observou-se que a maioria achava importante para sua formação ter na grade horária a matéria, porém alguns alunos disseram não ser necessária, mas não justificaram com argumentos sólidos, apresentando respostas mais simples como "não acho importante". Os demais alunos justificaram a importância do tema por discutir a relação entre saúde e meio ambiente ("É importante aprender a relacionar o meio ambiente e a saúde dos pacientes para entendermos o que é o meio e como podemos melhorar as condições na nossa atuação profissional"), o que vai ao encontro de um dos principais objetivos da disciplina: "discutir as inter-relações do homem com o meio ambiente e como interferem no processo saúde-doença". Além disso, todos os anos, exceto o terceiro, destacaram a importância na aquisição da conscientização em vários aspectos: a respeito do lixo comum, do lixo hospitalar, da preservação ambiental e da conscientização da própria população. Apontaram também a importância de conhecer os problemas da comunidade: "É importante para conhecermos o meio onde a população vive e quais as consequências disso em sua saúde", sendo que o quarto ano acrescentou a isso a parte mais prática: "É importante tanto em relação da prevenção ambiental [produtos hospitalares] quanto à adaptação de assistência de enfermagem de acordo com as condições ambientais do paciente". O primeiro ano e o terceiro ano lembraram que seria necessário a discussão sobre a prevenção, promoção e tratamento: "Fundamental para a prevenção/promoção das doenças e tratamento das doenças relacionadas com o meio ambiente". O primeiro e o quarto anos citaram a necessidade de se discutir condutas diante do meio ambiente: "Acho que é importante para termos uma breve noção do que é correto fazer, ou seja, quais ações devemos praticar ou não, quais são corretas ou não. Afinal, dessa forma teremos benefícios no âmbito hospitalar e no meio ambiente, aumentando a qualidade de vida". Alguns discursos destacaram outros pontos importantes de serem discutidos numa disciplina, mas foram pontuais em cada ano, como: formação adequada de futuros profissionais da saúde ("Ajudar na conscientização dos futuros profissionais de saúde. Irá ajudar aos futuros enfermeiros ter uma melhor humanização") e conhecer leis governamentais ("Conhecer melhor os meios de preservação, as leis governamentais") - primeiro ano; interação ("O principal é aprender a interagir com o agente comunitário") - terceiro ano; compreender as relações dos seres vivos ("Para conhecermos melhor as relações entre os seres que vivem no meio ambiente e saber preservá-lo") e saúde e desenvolvimento sustentável ("Promover a saúde e o desenvolvimento sustentável do meio ambiente") - quarto ano.

    Conclusão

    O estudo revelou que os graduandos de enfermagem, de forma geral, constroem representações sociais sobre o conceito de meio ambiente e da relação da atuação profissional com essa temática, no entanto esses conceitos parecem superficiais e não remetem a discussões mais críticas ou intervenções profissionais futuras efetivas, mesmo nos anos mais avançados, que destacaram atitudes mais técnicas. Isso reforça as considerações iniciais da necessidade de inserção de conteúdos teóricos sobre a temática na formação desses futuros profissionais de saúde e de proporcionar vivências que despertem o significado do meio ambiente não como algo externo ou cenário. Ao mesmo tempo, os alunos reconheceram a necessidade de inserção na graduação de uma disciplina que discutisse a relação da saúde com o meio ambiente, proporcionando uma visão mais crítica e ativa sobre o papel da enfermagem, como categoria profissional, na questão ambiental e quais suas possíveis ações para prevenir doenças associadas a problemas ambientais.

    Diante dos desequilíbrios ambientais, esses futuros profissionais enfrentarão muitas patologias que terão como fatores desencadeantes os problemas ambientais. Então, precisarão de ferramentas e habilidades trabalhadas durante a graduação, com embasamento teórico e reflexivo, para levantar e estabelecer possíveis causas ambientais, propondo intervenções que sejam eficazes e efetivas. Segundo Leonardo Boff (2004), o futuro da humanidade está ameaçado, o pulsar da Terra foi alterado e poderemos enfrentar muitos problemas de saúde como consequência de tudo isso, com doenças reemergentes e emergentes, como a dengue, associada ao lixo descartado inadequadamente, que se transforma em criadouros, a febre a amarela em regiões do Estado de São Paulo, associada ao desmatamento e à expansão da urbanização próxima às matas e as várias pandemias que estamos enfrentando, como as influenzas aviária e suína, que rapidamente se alastram com o adensamento populacional.

    A complexidade dos problemas ambientais clama pela adoção de medidas que superem práticas assistencialistas, levando à adoção de práticas transdisciplinares, com uma equipe sensível e atenta às questões ambientais. Além de discutir o papel de cada cidadão na luta por um meio ambiente mais equilibrado, garantindo uma melhor qualidade de vida com menos ricos ambientais. Reforça-se a profundidade do papel dos profissionais de saúde diante dos problemas ambientais, pela construção da saúde numa perspectiva ampliada de promoção da saúde.

    Recebido em: 10/09/2009

    Aprovado em: 01/06/2010

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    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      27 Jul 2011
    • Data do Fascículo
      Jun 2011

    Histórico

    • Recebido
      10 Set 2009
    • Aceito
      01 Jun 2010
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