Religiosidade e qualidade de vida de pacientes com insuficiência renal crônica em hemodiálise

Religiosity and quality of life of chronic renal failure patients under hemodialysis treatment

Fabio Correia Lima Nepomuceno Ivaldo Menezes de Melo Júnior Eveline de Almeida Silva Kerle Dayana Tavares de Lucena Sobre os autores

Resumos

Objetivou-se avaliar a correlação entre a atitude religiosa e a Qualidade de Vida (QV) de 100 pacientes com insuficiência renal crônica em um serviço de hemodiálise. Utilizou-se como método de coleta de dados o formulário WHOQOL-Abreviado e Escala de Atitude Religiosa. Nas análises, o componente 1 da Escala de Atitude Religiosa se correlacionou com o domínio psicológico do WHOQOL-Abreviado (r = 0,21, p<0,05); o componente 2, com o nível de independência de QV (r = 0,28, p< 0,01); o componente 3, com o nível de independência (r=0,22, p<0,05), com o domínio relações sociais (r =0,22, p<0,05); e a satisfação com a QV, com o componente de religiosidade 2 (r = 0,22 , p<0,05). Assim, conclui-se que a religiosidade é uma fonte de conforto e esperança para os pacientes, promovendo bem-estar geral.

Insuficiência Renal Crônica; Religião; Qualidade de Vida


The study aimed to evaluate the correlation between religious attitude and quality of life (QOL) of 100 chronic renal failure patients under hemodialysis treatment. Data collection applied the questionnaires Socio-Demographic Data Form WHOQOL-Abbreviated Scale and the Religious Attitude Scale. The analyses revealed that component 1 of Religious Attitude Scale showed a correlation with the psychological domain of the WHOQOL-short (r=0.21, p<0.05); component 2 correlated with QOL level of independence (r=0.28 , p<0.01); component 3 correlated with the level of independence (r=0.22, p<0.05) and with the social relationships domain (r=0.22, p <0.05); satisfaction with QOL correlated with religiosity 2 (r=0.22, p<0.05) component. Thus, one may conclude that religiosity is a source of comfort and hope to patients, providing overall well-being.

Renal insufficiency chronic; Religion; Quality of life


Introdução

A Insuficiência Renal Crônica (IRC) é caracterizada pela rápida redução da função renal, tendo como resultado a diminuição da diurese e a perda da homeostase interna, ou seja, perda do equilíbrio químico e do funcionamento normal do organismo, até a paralisação quase total (cerca de 90%) ou total do funcionamento renal, fazendo com que o seu portador adquira diversas incapacidades, que, na maioria das vezes, exigem períodos longos de acompanhamento. O enfrentamento de alterações na saúde e na vida em geral ocorre nos mais diversos níveis: orgânico, psíquico, social e econômico (CASTRO ET AL, 2003; SANTOS, 2006).

Os tratamentos disponíveis nas doenças renais terminais são: diálise peritoneal ambulatorial contínua, diálise peritoneal automatizada, diálise peritoneal intermitente, hemodiálise e transplante renal. Esses tratamentos substituem parcialmente a função renal, aliviam os sintomas da doença e preservam a vida do paciente, mas nenhum deles é curativo (RIELLA, 2008).

Independentemente da terapêutica escolhida, o portador da doença crônica irá apresentar alterações físicas, psicológicas, sociais e emocionais que aumentam progressivamente. A adaptação às condições de uma doença crônica pode ser considerada mais difícil do que a uma doença aguda que exige apenas temporária aceitação da condição de estar doente e dependente da ajuda externa (SANTOS, 2005).

Dessa forma, a IRC é considerada um problema na saúde pública, pois causa elevada taxa de morbidade e mortalidade e, além disso, tem impacto negativo sobre a Qualidade de Vida (QV) relacionada à saúde, visto que esta é a percepção subjetiva da pessoa acerca de seus sintomas, satisfação e adesão ao tratamento (UNRUH ET AL, 2003).

Contudo, estudos sobre QV permanecem restritos quando se trata de IRC, devendo, então, se estimular a produção de trabalhos científicos que possam reverter em prática clínica dos profissionais de saúde, pois, a partir das investigações desenvolvidas sobre QV, torna-se possível o aprofundamento de fatores subjetivos que conduzem ao bem-estar da população, grupos e indivíduos, explicando os processos que levam as pessoas à sua satisfação moral, bem-estar e felicidade bem como os mecanismos de enfrentamento e de defesa relacionados com a doença.

Dentre esses fatores está à religiosidade, pois é considerada uma variável que apresenta efeitos positivos nos aspectos biopsicossocial, espiritual, ambiental e na saúde dos indivíduos, sendo reconhecida como possível fator de prevenção ao desenvolvimento de outras co-morbidades, pois é utilizada pelos indivíduos em situação de adoecimento como forma de buscar melhora e força para o enfrentamento da doença, podendo, assim, desempenhar uma função importante na melhoria da QV do paciente (PANZINI ET AL, 2007).

A partir de 1950, estudos epidemiológicos mostram uma boa relação entre religiosidade e QV de indivíduos doentes, pois se observa menor prevalência de depressão, menor mortalidade, menor tempo de internação e até melhor função imunológica. Sendo assim, torna-se necessário em um país como o Brasil, em que 92,6% da população possui uma religião e aproximadamente 90% costuma frequentar igrejas, que sejam verificados os efeitos da religiosidade na vida dos pacientes portadores de IRC (LUCCHETTI ET AL, 2010).

Com base nessas informações o objetivo desta pesquisa foi o de avaliar a correlação entre a atitude religiosa e a QV de pacientes com IRC em um serviço de hemodiálise.

Materiais e métodos

A pesquisa foi realizada em serviços nefrológicos da cidade de João Pessoa-PB: Clínica de Nefrologia da Paraíba (CLINEPA) e Unidade de Doenças Renais (UNIRIM).

A amostra constou de 100 pacientes com IRC atendidos nesses serviços, sendo 50 do sexo masculino e 50 do sexo feminino. Os critérios de inclusão foram: ter idade superior a 18 anos; estar em tratamento por hemodiálise; ter capacidade de compreensão e verbalização adequadas para responder às perguntas; ser portador de IRC há mais de 1 ano; e concordar em participar do estudo.

Após a aprovação do projeto pelo colegiado do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões e dos esclarecimentos iniciais, foi feito o convite às instituições com serviços de hemodiálise. Posteriormente, com a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética da Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba sob o protocolo CEP 081, declarando estar em pleno acordo com os objetivos e aspectos metodológicos do estudo, autorizando, assim, a sua execução, foi dado início à pesquisa.

Os dados foram coletados após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em consonância à Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta a pesquisa com seres humanos.

A participação dos pacientes ocorreu de forma voluntária, sendo-lhes assegurado o direito de desistência a qualquer momento, assim como foi garantido sigilo e anonimato.

Aplicaram-se os seguintes instrumentos para coleta de dados: formulário com a versão abreviada da World Health Organization Quality of Life Assessment (WHOQOL-Abreviado) para avaliação da QV e Escala de Atitude Religiosa.

Para avaliar a religiosidade dos pacientes, utilizou-se a Escala de Atitude Religiosa, que apresenta consistência interna verificada através do Alfa de Cronbach de 0,91. Essa escala foi elaborada originalmente em português e é composta por vinte itens organizados em escala Likert de cinco pontos (1-nunca a 5-sempre), onde as respostas seguem o seguinte padrão: nunca, raramente, às vezes, frequentemente e sempre. Tais itens estão distribuídos em três domínios: cognitivo, afetivo e comportamental (DINIZ; AQUINO, 2009).

Para as análises estatísticas, empregou-se a plataforma do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) para Windows, versão 15. Utilizaram-se o teste t de Student para testar se dois grupos diferem estatisticamente a partir da comparação de suas médias e cálculos de correlação de Pearson para verificar se havia associações entre as variáveis, sendo essa uma medida que descreve a intensidade ou grau de correlação entre as variáveis, além da análise de variância como medida da dispersão estatística. Além disso, calcularam-se as médias e desvios padrão para a descrição do perfil dos participantes.

Resultados e discussão

Em relação ao perfil dos participantes, a média de idade foi de 55 anos, com um desvio padrão de 14,6, sendo a idade mínima de 18 anos e a máxima de 90 anos.

Neste estudo, quanto ao tempo em que os pacientes são portadores da doença renal crônica, observou-se uma média de 48 meses, com um desvio padrão de 52 meses, sendo o tempo mínimo de 12 meses e tempo máximo de 300 meses de adoecimento. Entretanto, o tempo médio de tratamento da doença nesses pacientes foi de 30 meses, com um desvio padrão de 33,5 meses, com o tempo mínimo de um mês de tratamento e máximo de 144 meses.

Quanto ao tempo de tratamento hemodialítico, observou-se que 27% estavam com mais de 24 meses e menos de 36 meses nessa terapia; seguido de 23% com menos de 12 meses; e 17% com mais de 12 meses e menos de 24 meses na hemodiálise.

O WHOQOL- abreviado é um formulário que está dividido em domínios com relação à avaliação da QV, saúde e outras áreas da vida, tais como: domínio físico, domínio psicológico, domínio nível de independência, domínio relações sociais e domínio ambiental. Os domínios são pontuados de forma independente, considerando a premissa de que a QV é um construto multidimensional. Dessa forma, quanto maior o valor do escore melhor é o domínio de QV avaliado (ZANEI, 2006). De acordo com a tabela 1, foi constatada na auto-avaliação da QV uma média de resultados superior à observada em relação à pergunta sobre a satisfação com a própria saúde.

Tabela 1.
Valores da avaliação de qualidade de vida pelo formulário WHOQOL-abreviado de pacientes renais crônicos em tratamento por hemodiálise. João Pessoa, 2011 (n=100)

O domínio físico obteve a menor média de pontuação dos cinco aspectos avaliados. Os domínios relações sociais e nível de independência também se mostraram bastante comprometidos nesses pacientes. Por fim, o domínio ambiental apresentou melhor escore, seguido do domínio psicológico.

Ferreira (2008) também utilizou o WHOQOL-bref para análise da QV de renais crônicos em hemodiálise e identificou a seguinte ordem decrescente de médias dos domínios: relações sociais, psicológico, meio ambiente e físico. Nesse contexto, este estudo corrobora a pesquisa de Ferreira (2008) quanto ao domínio físico, constando, também, comprometimento dos aspectos físicos dos pacientes com IRC, evidenciado por meio de sua média e desvio padrão, confirmando que os pacientes renais crônicos apresentam alterações motoras e funcionais. Entretanto, houve contradição entre os dados desta pesquisa e os estudos de Ferreira (2008) quanto ao domínio relações sociais, visto que as relações sociais apresentaram uma média elevada para o autor, enquanto neste trabalho as relações sociais dos pacientes estavam bem comprometidas, com média reduzida.

Mendonça (2007) mostra, por meio das médias dos domínios do WHOQOL-Abreviado, que a perda de QV mais significativa foi no domínio físico, seguido pelo domínio geral e pelo domínio ambiental. Os domínios sociais e psicológicos tiveram escores melhores em relação à QV, mas o desvio padrão indicou que os participantes (N = 86) apresentaram respostas mais homogêneas nas questões relativas ao domínio ambiental e mais heterogêneas no domínio social. Assim, o referido trabalho corrobora com o apresentado neste estudo quanto ao maior comprometimento do domínio físico dos pacientes renais crônicos em hemodiálise. Entretanto, não apresentou semelhança em relação à homogeneidade das respostas, visto que as respostas mais homogêneas apresentadas aqui dizem respeito aos domínios relações sociais e físico, e as mais heterogêneas, ao domínio ambiental.

Chitolina e Audino (2011) verificaram em seus estudos sobre QV de 22 pacientes com IRC de um hospital da região oeste do estado de Santa Catarina que o domínio relações sociais apresentou as maiores médias. Os domínios físicos e psicológicos apresentaram os menores percentuais de médias. No domínio físico, o comprometimento se justifica pela cronicidade da doença, que resulta em diversos comprometimentos osteomioarticulares. No domínio psicológico, observou-se uma percepção negativa para QV, manifestada por meio das alterações comportamentais. Os pacientes declararam a existência de sentimentos negativos, alterações de sono e concentração, insatisfação consigo mesmo (autoconceito), com a aparência (autoimagem) e com a situação de portador de patologia crônica. Também os aspectos desesperança, ansiedade, depressão e autoconceito resultaram em níveis negativos no sentido de piorar seu quadro emocional, naquele estudo.

Para Duarte et al. (2003), a doença renal reduz acentuadamente o funcionamento físico e profissional, e a percepção da própria saúde tem um impacto negativo sobre os níveis de energia e vitalidade, o que pode reduzir ou limitar as interações sociais, estando de acordo com o estudo realizado por Castro et al. (2003) envolvendo 84 pacientes com IRC submetidos à hemodiálise, em que os menores valores médios foram observados na dimensão aspecto físicos.

No estudo de Terra e Costa (2007), realizado em uma clínica de hemodiálise de hospital universitário do município de Alfenas-MG, abrangendo 30 pacientes que se encontravam em tratamento hemodialítico, verificou-se que o domínio físico da QV da população estudada apresentou um valor baixo, ou seja, uma QV nem ruim, nem boa, na área física. Vale destacar que esse domínio apresentou o menor escore médio quando comparado com os demais domínios e a QV geral. O escore médio geral do domínio relações sociais atingiu o maior valor, apresentando, dessa forma, uma QV entre boa e muito boa. Entre todos os domínios do instrumento WHOQOL-bref e da QV geral, esse domínio foi o que apresentou maior escore médio, naquele estudo.

Após a análise das médias, desvios padrão e variância, realizaram-se as associações entre as variáveis aqui estudadas. Assim, a tabela 2 apresenta uma matriz correlacional entre os componentes da Escala de Atitude Religiosa e os domínios do formulário WHOQOL-abreviado.

Tabela 2.
Matriz correlacional entre QV e atitude religiosa de pacientes renais crônicos em tratamento por hemodiálise. João Pessoa, 2011 (n=100)

Na tabela 2, o componente 1 da Escala de Atitude Religiosa (busca de conhecimento religioso) se correlaciona com o domínio psicológico do formulário WHOQOL-abreviado (r = 0,21, p<0,05). Além disso, também há uma correlação entre este componente com o domínio relações sociais (r = 0,25, p<0,05). Pode-se verificar também uma correlação entre o componente 2 da atitude religiosa (expressões e manifestações corporais religiosas) com o nível de independência de QV (r = 0,28, p< 0,01) e com o domínio de relações sociais (r = 0,22, p<0,05). Por fim, é possível observar uma correlação entre o componente 3 da Escala de Atitude Religiosa (aspectos emocionais e atitudes religiosas) com o domínio nível de independência (r=0,22, p<0,05), com o domínio relações sociais (r =0,22, p<0,05) e com o domínio ambiental (r =0,23, p<0,05). Entretanto, não se verificou correlação significativa entre qualquer componente da atitude religiosa e o domínio físico, que é o aspecto mais comprometido dos pacientes com IRC dessa amostra.

Na tabela 3, compara-se a matriz correlacional da questão 1 (como você avaliaria sua qualidade de vida?) e da questão 2 (quão satisfeito você está com a sua saúde?) com os três componentes da Escala de Atitude Religiosa. Não houve correlação significativa entre a satisfação com a saúde dos pacientes com nenhum componente de religiosidade; entretanto, pode-se verificar que houve correlação entre a satisfação com a QV e o componente de religiosidade 2, ou seja, os pacientes com uma melhor QV apresentam maiores expressões e manifestações corporais durante suas práticas religiosas (r = 0,22 , p<0,05).

Table 3.
Matriz correlacional entre avaliação da qualidade de vida e da satisfação com a saúde e a atitude religiosa de pacientes renais crônicos em tratamento por hemodiálise. João Pessoa, 2011 (n=100)

Segundo Castro et al. (2003), a pessoa portadora de IRC apresenta diversas incapacidades e co-morbidades. O enfrentamento de alterações na saúde e na vida em geral do portador de IRC ocorre nos mais diversos níveis: orgânico, psíquico, social e econômico. Esse dado pode ser confirmado nesta pesquisa, na qual se verificou que a saúde dos pacientes está comprometida e a QV está alterada nos aspectos biopsicosociais, visto que os pacientes apresentaram sinais clínicos da doença renal, limitações quanto às atividades de vida diária e de trabalho, além da insatisfação em relação à sua condição de vida.

Os estudos de Doorn et al. (2004) destacaram que as variáveis psicossociais, os traços de ansiedade e sintomas depressivos afetam substancialmente a forma como os pacientes avaliam sua QV. O apoio social e familiar apresentou elevada relação com os domínios dor e bem-estar emocional, naquela amostra.

De acordo com Trentini et al. (2004), o tratamento de hemodiálise é necessário e indispensável, embora não seja suficiente para se obter QV satisfatória. Os usuários da hemodiálise precisam participar ativamente da prevenção de males que venham a deteriorar sua QV.

Os estudos de Castro e colaboradores (2003) afirmam haver uma clara redução da QV nesses pacientes, em especial nos aspectos físicos, psicológicos e vitalidade. Da mesma forma, correlacionou-se, também negativamente, o tempo de tratamento em hemodiálise com os aspectos emocionais e saúde mental, sugerindo que pacientes com maior tempo de IRC e de tratamento dialítico apresentam progressivo comprometimento das relações familiares e sociais. Dessa forma, há uma concordância entre os autores acima e os achados deste trabalho no que diz respeito aos aspectos físicos, psicológicos, social e espiritual dos pacientes renais crônicos, sendo sua QV considerada afetada de maneira multifatorial por estar relacionada com o modo e estilos de vida.

Nos estudos de Mendonça (2007), não se observou correlação da religião com nenhum domínio da QV em pacientes renais crônicos.

A tabela 4 consiste em uma matriz correlacional entre o tempo da doença e o tempo de tratamento com os domínios da QV. Nela, pode-se observar uma correlação negativa entre o tempo da doença com o domínio físico (r=-0,20, p<0,05), o que significa que quanto maior o tempo da doença, maior comprometimento ocorre nos aspectos físicos dos pacientes renais crônicos. Verifica-se, ainda, uma correlação negativa entre o tempo da doença e o domínio nível de independência (r = -0,24, p<0,05), representando que quanto maior o tempo da doença maior comprometimento há na independência dos pacientes. Por fim, observa-se uma correlação negativa, com forte significância estatística, entre o tempo de doença e o domínio relações sociais (r = -0,27, p<0,01), configurando a perda das relações sociais como consequência da trajetória de vida dos pacientes renais crônicos.

Tabela 4.
Matriz correlacional do tempo da doença e do tempo de tratamento com a qualidade de vida de pacientes renais crônicos em tratamento por hemodiálise. João Pessoa, 2011 (n=100)

Semelhante achado foi descrito por Merkus et al. (1997) em seus estudos em treze centros de diálise na Holanda com 120 pacientes com IRC, nos quais a QV foi avaliada e onde se verificou que quanto maior o tempo da doença renal crônica maior o comprometimento na QV.

Nesta pesquisa, pode-se observar uma correlação negativa entre o tempo da doença e os domínios físico, nível de independência e relações sociais, o que não foi observado nos estudos de Mendonça (2007), que não detectaram correlação significativa entre o tempo em tratamento e os domínios da QV.

Os avanços da tecnologia na área de diálise contribuíram substancialmente para o aumento da sobrevida dos pacientes renais crônicos. Entretanto, a permanência por tempo indeterminado em tratamento dialítico pode interferir na QV dessa população (NETO ET AL., 2000).

Kimmel et al. (2003) realizaram um estudo multicêntrico com 165 pacientes dialíticos mostrando associação direta entre crenças espirituais (utilizando a Escala de Crenças Espirituais), QV e satisfação com a vida.

Berman et al. (2004), em seus estudos em um centro na Filadélfia (EUA), verificaram que, dos 74 pacientes envolvidos, os que apresentaram elevados valores na escala de religiosidade intrínseca -aspecto que faz parte do indivíduo realmente religioso, que internaliza sua fé e suas crenças na vida diária- mostraram também elevada satisfação com a QV.

O editorial de Finkelstein et al. (2007) teve como tema central a relação entre espiritualidade, QV e paciente em diálise, visto ser tão difícil conseguir um impacto positivo na QV de pacientes em diálise. Dessa forma, parece importante explorar o papel da espiritualidade na coordenação e suporte ao cuidado destes pacientes.

Contudo, Makluf et al. (2006) apontam a religiosidade como uma variável que pode apresentar tanto efeitos positivos como negativos sobre a QV dos indivíduos, mas que surge como possível fator de prevenção do desenvolvimento de doenças na população previamente sadia e de eventual redução de óbito ou impacto em diversas doenças.

O objetivo da religião é a salvação da alma e não a cura, podendo proporcionar, adicionalmente, o bem-estar psicológico, pois o ser humano religioso ancora a sua existência no 'Absoluto'. Pode-se interpretar a religiosidade como um fator de proteção do vazio e do desespero existencial (FRANKL, 2003). Nesse sentido, a religiosidade poderia oferecer bem-estar psíquico ao sujeito e ajudar o homem na busca de respostas para suas indagações de cunho filosófico-existencial. Entretanto, não se pode conceber que a ausência de religiosidade conduza a doenças, mas é compreensível que a religiosidade pode se constituir em fator de proteção ou mesmo de enfrentamento diante das adversidades do cotidiano. Assim, a religiosidade não é uma condição necessária nem suficiente para o bem-estar psicológico, mas pode levar a uma cosmovisão capaz de ajudar o indivíduo a descobrir sentidos na vida.

Considerações finais

Evidencia-se com esse estudo que, de forma geral, há influência da religiosidade na QV dos pacientes renais crônicos. Observou-se que os componentes da atitude religiosa apresentaram correlação positiva com os domínios relações social, psicológico, nível de independência e ambiental. Entretanto, não houve influência da religiosidade sobre o domínio físico. Assim, constatou-se que a religiosidade é fonte de conforto e esperança para os pacientes, fortalecendo-os, promovendo bem-estar geral e ajudando na aceitação da condição inevitável.

Quanto à QV, o domínio ambiental foi o que sofreu menor impacto na vida desses pacientes, enquanto o domínio físico foi o mais afetado, o que significa que quanto maior o tempo da doença, maior comprometimento ocorre nos aspectos físicos dos pacientes renais crônicos. Uma vez que, como foi constatado neste e em outros estudos, a religiosidade possui um papel importante para o paciente em hemodiálise, principalmente melhorando sua QV e auxiliando no enfrentamento da doença, esse aspecto deve ser considerado pelos profissionais que assistem a esse tipo de paciente.

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  • Suporte financeiro: não houve

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Mar 2014

Histórico

  • Recebido
    Abr 2013
  • Aceito
    Jan 2014
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