Percepção dos trabalhadores inseridos na reabilitação profissional do Instituto Nacional do Seguro Social: a organização do trabalho adoece?

Perception of the workers inserted in the professional rehabilitation of the National Institute of Social Security: does the work organization get sick?

Andréa Domingues da Silva Souza Maria de Fátima Ferreira de Queiróz Sobre os autores

RESUMO

O artigo apresenta dados de pesquisa realizada com trabalhadores afastados de suas atividades laborais, por acidente, e no Programa de Reabilitação Profissional do Instituto Nacional do Seguro Social. Objetiva compreender a percepção desses trabalhadores sobre o trabalho e a condição de adoecimento em relação à organização do próprio trabalho, ao gênero (homem) e à saúde dos trabalhadores. A pesquisa foi qualitativa, de intervenção, com o recurso de oficinas. A análise foi feita pelo Discurso do Sujeito Coletivo. Os dados coletados apresentam o trabalho reconhecido como condição de existência, porém, por interesses do capital, o trabalhador não se reconhece para além da relação de troca e se aliena no mundo do trabalho, o que se reflete na relação saúde-doença.

PALAVRAS-CHAVE
Reabilitação; Saúde do trabalhador; Identidade de gênero

ABSTRACT

The article presents data from research carried out with workers who were separated from their work activities, by accident, and in the Professional Rehabilitation Program of the National Institute of Social Security. It aims to understand the perception of these workers about work and the condition of illness in relation to the organization of the work itself, gender (man), and the health of the worker. The research was qualitative, of intervention, with the use of workshops. The analysis was made by the Discourse of the Collective Subject. The collected data present the work recognized as a condition of existence, however, due to the interests of capital, the worker is not recognized beyond the relation of exchange and is alienated in the world of work, which is reflected in the health-disease relation.

KEYWORDS
Rehabilitation; Occupational health; Gender identity

Introdução

O presente artigo aborda a situação dos trabalhadores que se encontram em processo de reabilitação profissional no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), buscando sua compreensão da relação trabalho-saúde. O serviço de reabilitação no INSS tem enfoque individual, e é parte da seguridade social da população trabalhadora brasileira, no âmbito da previdência social.

No que se refere à atenção ao acidentado, de acordo com o Decreto nº 3.048/99, artigo 137, a equipe de reabilitação profissional é, preferencialmente, multiprofissional, e especializada em medicina, serviço social, psicologia, sociologia, fisioterapia, terapia ocupacional e outras áreas afins ao processo. Cabe a estes profissionais realizar a avaliação socioprofissional e do potencial para o trabalho do segurado11 Brasil. Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999. Aprova o Regulamento da Previdência Social e dá outras providências. Diário Oficial da União. 6 Maio 1999 [acesso em 2014 nov 10]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3048.htm.
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,22 Brasil. Instituto Nacional do Seguro Social. Despacho Decisório nº 2 DISART/INSS [acesso em 2014 nov 10]. Brasília, DF: INSS, 2011. Disponível em: http://www.consultaesic.cgu.gov.br/busca/dados/Lists/Pedido/Attachments/436806/RESPOSTA_PEDIDO_despacho_decisorio_2_dirsat.pdf.
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. A participação do trabalhador indicado no Programa de Reabilitação Profissional é obrigatória, sob pena de o segurado ter seu benefício suspenso. Na conclusão de seu processo,

a previdência social emitirá certificado individual, que indica as atividades que poderão ser exercidas pelos beneficiários, nada impedindo que este exerça outra atividade para a qual se capacitar33 Brasil. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras procidências [acesso em 2014 nov 10]. Diário Oficial da União. 24 Jul 1991. Não paginado. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm.
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A readaptação, nas empresas, muitas vezes, é inviável, e quando se segue com o propósito de qualificação profissional, o INSS tem encontrado barreiras administrativas para a compra de cursos, comprometendo o atendimento à demanda necessária.

O público atendido no Programa de Reabilitação Profissional é, prioritariamente, masculino, sendo esta realidade um reflexo do acesso ao benefício auxílio-doença, pois, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social, em 2015, foram registrados, no Brasil, 612.632 acidentes de trabalho, sendo que, deste total, 410.646 (69%) foram relacionados ao sexo masculino, sendo somente 201.973 (31%) relativos ao sexo feminino. A realidade de Guarulhos (SP), localidade do serviço em estudo, correspondeu a 5.655 acidentes de trabalhos, com 16 óbitos, durante o ano de 201544 Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho: AEAT 2015. Brasília, DF: Ministério da Fazenda; 2015. v. 1.,55 Guarulhos [internet]. Prefeitura de Guarulhos; c2016 [acesso em 2016 jan 16]. Disponível em: http://www.guarulhos.sp.gov.br.
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A realidade exposta provoca a reflexão sobre a relação do homem com o trabalho e, consequentemente, com sua saúde. Este contexto é aflorado nos atendimentos, e presente nas falas dos segurados, reforçando preocupações, angústias e sofrimentos, frente ao significado social e cultural do 'masculino', na sociedade, associado ao seu trabalho e possível afastamento.

Ao longo do tempo, o trabalho foi sofrendo mutações, de acordo com o sistema econômico vigente de cada época, e, desta maneira, se desconfigurou do lugar de realização humana para meio de subsistência e mercadoria, tendo como objetivo a valorização do capital.

É nessa condição degradante que o trabalhador vem sendo submetido às relações de trabalho no sistema capitalista. Tal realidade, além de estabelecer uma condição de alienação e escravidão, apresenta histórico de morbimortalidade decorrente do capital e do trabalho. Segundo dados do Ministério da Previdência Social:

[...] em 2011, ocorreu cerca de 1 morte a cada 3 horas, motivada pelo risco decorrente dos fatores ambientais do trabalho e ainda cerca de 81 acidentes e doenças reconhecidos a cada 1 hora na jornada diária. Em 2011, observamos uma média de 49 trabalhadores/dia que não mais retornaram ao trabalho devido a invalidez ou morte66 Brasil [internet]. Ministério da Fazenda. Secretaria de Previdência [acesso em 2013 out 7]. Disponível em: http://www.mpas.gov.br
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Nesse aspecto, embasado por Antunes77 Antunes R, Alves G. As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital. Educ. Soc. 2004 Maio-Ago; 25(87):335-351., é importante destacar que, com a mundialização do capital, a organização do trabalho vem se apresentam do com novos arranjos e - porque não dizer? - armadilhas para o trabalhador. A realidade do subemprego, do desemprego estrutural, das terceirizações e dos subcontratos, entre outras formas de relações trabalhistas, resultam em uma exploração intensificada, trazendo novos mecanismos de controle e coerção, como: concorrência; competitividade; assédio moral; captura da subjetividade dos trabalhadores, para além do ambiente de trabalho;e discurso participacionista, de integração, colaboração, o que acaba por influenciar a anulação da liberdade humana.

No processo histórico das relações de trabalho e da organização do trabalho está presente a ofensiva neoliberal, que, ancorada no Estado mínimo de direito e mercado máximo, deixa o trabalhador constantemente ameaçado em seus direitos trabalhistas, o que está profundamente relacionado a condições precárias e degradantes de trabalho e influencia significativamente no processo saúde-doença desse mesmo trabalhador, que fica vulnerável às crises do capital. Segundo Caio Antunes, "o capital vive de crise em crise"88 Antunes C. Trabalho, alienação e crise estrutural do capital: bases do receituário neoliberal. In: Navarro L, Lourenço EAS, organizadoras. O avesso do trabalho III: saúde do trabalhador e questões contemporâneas. 1. ed. São Paulo: Outras Expressões; 2013. p. 353-366.(362), e, para superar as crises, intensifica a exploração do trabalhador e ataca os direitos trabalhistas duramente conquistados no passado. Nesses momentos de crise do capital, há uma intensa busca por recuperação produtiva e de domínio societal. Atualmente, o capital tem articulado uma resposta que, segundo Silva, está sobre um tripé, como segue:

[...] a reestruturação produtiva, a financeirização e a ideologia neoliberal (NETTO, 2012). De modo que, as transformações no mundo do trabalho, cujas transformações caracterizam-se pela precarização do processo de trabalho e o desmonte das conquistas políticas e sociais da classe trabalhadora são mudanças advindas do processo de globalização financeira, inovações tecnológicas (com a rede informacional - para Alves (2016), a quarta revolução industrial), bem como das novas formas de gestão e do processo de reestruturação produtiva99 Silva JPC, Ferreira LS, Almeida BLF. A nova organização do trabalho e a saúde do trabalhador [internet]. In: Anais do 5º Encontro Internacional e 12º Nacional de Política Social; 2017 Jun 5-8. Vitória: Periódicos UFES, 2017 [acesso em 2018 mar 11]. Disponível em: http://periodicos.ufes.br/EINPS/index.
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(4).

No Brasil, em 2016, com o agravamento da crise mundial do capital, o ideário neoliberal, com o apoio da burguesia, organizou um golpe de Estado, o que repercutiu em ações políticas de intensificação à exploração da classe trabalhadora. Exemplos disto são as aprovações das Leis da Terceirização e da Reforma Trabalhista, que resultam no aumento de inseguranças quanto a direitos trabalhistas e em fragilidade nas relações de trabalho, deixando-as mais precárias e, consequentemente, interferindo na saúde do trabalhador. Segundo Braga:

[...] com o advento do golpe de 17 de abril de 2016 [...] aprovou-se uma lei que permite a universalização da terceirização e uma contrarreforma da CLT, que, em termos práticos, elimina a promessa da sociedade salarial para a imensa maioria dos trabalhadores brasileiros. Além de permitir a generalização do trabalho terceirizado e intermitente, atinge mortalmente a função dos sindicatos no País de fiscalizarem o respeito aos direitos trabalhistas pelas empresas por meio do princípio do negociado sobre o legislado, a contrarreforma votada pelo congresso nacional no dia 11 de julho de 2017 permite incontáveis formas de flexibilização da jornada de trabalho, colocando um ponto final naquele ciclo protetivo que, historicamente, iniciou-se há exatos 100 anos, com a greve geral do junho-julho de 1917 na cidade de São Paulo1010 Braga R. O golpe parlamentar e o fim da sociedade salarial no Brasil. IdeAS. 2017/2018 [acesso em 2018 mar 11]; 10:1-6. Disponível em: http://journals.openedition.org/ideas/2220.
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4.

Nesse contexto perverso de retirada de direitos, de inseguranças sociais e trabalhistas, está a construção histórico-social do trabalhador, quanto à questão de gênero, associada também à questão do afastamento do trabalho. A sociedade brasileira apresenta, em sua história, um contexto patriarcal, no qual estabeleceu uma relação de domínio do homem sobre a mulher caracterizando as relações de poder no campo da política, pois, grandes decisões políticas foram tomadas por homens. O homem seguiu durante milênios, constituindo-se como representação do poder, não sendo a ele permitido chorar e/ou sentir medo, pois ele é viril; deve ter coragem para enfrentar desafios e situações perigosas, bem como impor autoridade e respeito, pois a dor e a subjetividade são expressões da mulher1111 Saffioti H. O poder do macho. 2. ed. São Paulo: Moderna; 1987.,1212 Boris GDJB, Bloc LG, Teófilo MCC. Os rituais da construção da subjetividade masculina: o público e o privado. Público Priv. 2012; (19):17-31..

Diante desse contexto, muitas vezes, o homem sofre uma culpabilização pessoal, por não conseguir desempenhar o papel de provedor da família, devido ao afastamento do trabalho. Mas, na maioria das vezes, essa culpa o acompanha sem que ele consiga refletir sobre as condições de trabalho às quais estava submetido, que, inclusive, interferiam no cuidado da sua própria saúde, bem como reforçavam uma relação de exploração e poder.

Contudo, são avaliados alguns fatores de necessária reflexão, principalmente quando analisados pela ótica da integralidade do sujeito. Neste estudo, destacam-se dois fatores: o primeiro refere-se ao afastamento do trabalho, e às contraindicações relativas ao retorno, que, às vezes, impedem o trabalhador de retornar à ocupação exercida anteriormente, fazendo com que ele perca sua identidade. A este contexto de fragilidade também está associado, como segundo fator, o significado cultural e social do 'masculino' na sociedade, e tal realidade interfere nas relações sociais e familiares estabelecidas por esses homens.

Atualmente, o INSS não privilegia espaços direcionados a atividades em grupo, que possibilitem reflexões conjuntas entre os trabalhadores temporariamente afastados do trabalho e inseridos no Programa de Reabilitação Profissional. Os atendimentos ocorrem de maneira individualizada, sem a perspectiva institucional de compartilhamento de vivências, anseios e expectativas em relação ao futuro desses indivíduos, que sofreram acidentes e foram afastados de sua vida cotidiana de trabalho.

Assim, torna-se necessária uma intervenção que possa estabelecer um olhar integral sobre esses trabalhadores segurados, possibilitando-lhes espaços de cuidado, reflexão e - porque não dizer? - quebra de paradigmas alienantes.

Foi nesse contexto que se objetivou compreender a percepção desses trabalhadores sobre o seu trabalho e a condição de adoecimento, em relação à organização do trabalho, ao gênero (ser homem) e à saúde do trabalhador. Todos eles inseridos em condições de precariedade, que os colocam vulneráveis diante do próprio trabalho.

Métodos

A pesquisa desenvolve-se pautada na abordagem qualitativa, pelo método da pesquisa intervenção, que contou com o recurso de oficinas. Compreende-se que a pesquisa qualitativa permite desenvolver o espaço de escuta adequada, bem como aproximação e reflexão junto aos trabalhadores, pois favorece uma relação dialética com o processo de pesquisa.

Associando esse pressuposto aos objetivos do presente trabalho, optou-se, no âmbito da pesquisa qualitativa, pela eleição de estudo com base no método da pesquisa intervenção, pois, segundo Paulon et al., nessa abordagem:

Forças instituintes fazem funcionar outros registros de atuar, de pensar, que burlam a racionalidade, a busca da verdade e a homogeneização do pensamento. Essas forças são convocadas na pesquisa-intervenção pela desnaturalização permanente do objeto que se pretende conhecer, pela implicação do pesquisador, pelas contingências que acompanham as situações e seus efeitos e pelo acontecimento [...]1313 Paulon SM, Romagnolin RC. Pesquisa-intervenção e cartografia: melindres e meandros metodológicos. Estud. Pesqui. Psicol. 2010; 10(1):85-102.(95).

O desenvolvimento do método contou ainda com o recurso de oficinas. De acordo com Amaral et al.,

[...] a oficina é caracterizada como 'uma prática de intervenção psicossocial, seja em contexto pedagógico, clínico-comunitário ou de política social' e [...] como um processo estruturado com grupos, independentemente do número de encontros, sendo focalizado em torno de uma questão central que o grupo se propõe a elaborar, em um contexto social. A elaboração que se busca na oficina não se restringe a uma reflexão racional, mas envolve os sujeitos de maneira integral, formas de pensar, sentir e agir1414 Amaral MA, Fonseca RMGS. A oficina de trabalho como estratégia educativa com adolescentes na área da sexualidade. REME Ver. Min. Enferm [internet]. 2005 [acesso em 2014 jan 15]; 9(2):168-173. Disponível em: http://www.reme.org.br/sumario/32.
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169.

Outros recursos utilizados foram materiais de estímulos (música, papel craft, canetas coloridas, cola), como pontos de partida para a reflexão das temáticas abordadas nas oficinas e na avaliação, ao término, visando auxiliar o desenvolvimento da atividade proposta e a construção dos encontros subsequentes.

A seleção dos trabalhadores para o grupo (oficinas)

Foram selecionados, para participar dos encontros, trabalhadores afastados por acidente de trabalho ou suspeita de doença ocupacional. A inclusão nos grupos ocorreu por duas entradas: seleção a partir da pesquisadora e das profissionais que trabalhavam no Programa de Reabilitação Profissional do INSS, e em parceria com profissionais do Centro de Referência de Saúde do Trabalhador de Guarulhos (SP) (Cerest Guarulhos).

Os trabalhadores selecionados foram do sexo masculino, na faixa etária de 35 a 46 anos, que passaram em atendimento no Programa de Reabilitação Profissional, do INSS - Agência da Previdência Social de Guarulhos (SP), no período de agosto/2013 a janeiro/2014.

Como procedimento metodológico, foram realizados dois grupos, sendo que o Grupo 1 contou com a participação de 11 e o Grupo 2, com a participação de 12 trabalhadores, totalizando, assim, 23 participantes. As oficinas, em número de seis por grupo, ocorreram semanalmente, em momentos distintos, no Cerest Guarulhos, com duração de duas horas cada. Todos os voluntários assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) de número 30333414.1.0000.5505.

As temáticas abordadas foram referentes à relação capital x trabalho, associadas ao contexto do lugar do masculino na sociedade, percebendo como essas questões sociais têm interferido no processo de saúde-doença do trabalhador. As oficinas foram planejadas com o objetivo de abordar tais assuntos, porém, não foram realizadas de maneira rígida e linear, ou seja, se moldaram a cada encontro, de acordo com a dinâmica de cada grupo. O quadro 1 apresenta a estrutura das oficinas realizadas com os trabalhadores acidentados e adoecidos da reabilitação do INSS, em Guarulhos, no ano de 2014.

Quadro 1
Estrutura das oficinas realizadas com os trabalhadores acidentados e adoecidos da reabilitação do INSS, Guarulhos, 2014

Realizou-se análise dos dados coletados através das oficinas grupais, utilizando-se a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), desenvolvido por Lefévre et al.1515 Lefévre F, Lefréve AMC. O discurso do sujeito coletivo: um novo enfoque em pesquisa qualitativa. Caxias do Sul: Educs; 2003., por ser um método amplamente utilizado no campo da saúde. De acordo com Lefévre et al.

[...] o DSC busca construir, com pedaços de discursos individuais, como em um quebra-cabeça, tantos discursos-síntese se fizerem necessários para expressar uma dada figura, ou seja, um dado pensar ou representação social sobre o fenômeno1515 Lefévre F, Lefréve AMC. O discurso do sujeito coletivo: um novo enfoque em pesquisa qualitativa. Caxias do Sul: Educs; 2003.19.

Na análise desenvolvida, a partir da construção do DSC, as falas dos trabalhadores afastados foram agrupadas em temáticas propostas nas oficinas, com o intuito de demonstrar a relevância das discussões com o enfoque no coletivo.

Resultados/discussão

No presente artigo, dentre as análises da pesquisa, optou-se por apresentar as seguintes temáticas: 'A organização do trabalho'; 'O adoecimento pelo trabalho e o consequente afastamento'; e 'Sou cabra macho' sim, senhor!'. Elas abordam, a partir do discurso dos trabalhadores, a forma como está estabelecida a organização do trabalho na atualidade, expressando as realidades vivenciadas no dia a dia, as situações e condições de trabalho às quais os trabalhadores estão submetidos e como eles relacionam esses fatores ao afastamento do trabalho, além do olhar desses trabalhadores para a fragilidade masculina relacionada ao afastamento do trabalho.

No discurso coletivo, os trabalhadores reconhecem que o lucro é o maior - e, muitas vezes, único - objetivo das empresas, e como eles mesmos são utilizados para atenderem a essa demanda. Desta maneira, tem havido uma superexploração do trabalhador, que, às vezes, se submete a determinadas situações de trabalho, como, por exemplo, horas-extras, cumprimento de metas e atuação polivalente, tanto por medo do desemprego como pela demasiada concorrência no mercado, que o colocam em uma realidade competitiva, seja no ambiente de trabalho,seja na busca por recolocação. Cabe salientar que essa realidade de subordinação ao capital inviabiliza a organização da classe trabalhadora.

O dia que eu for falar 'Não' para eles, o que eles fazem? Me mandam embora e pegam outro ajudante geral para colocar e fazer o mesmo serviço. Na entrevista, eles já perguntam: 'Você tem disponibilidade para trabalhar de sábado e domingo?'. Você precisa do trabalho e fala: 'Tenho!'. 'Você tem disponibilidade para trabalhar feriado?': 'Tenho!'. 'Tem disponibilidade para trabalhar em outras cidades e outros estados?': 'Tenho!'. Senão, você não entra. Na empresa, todo dia chega currículo. A empresa tem lá uma meta para atingir. As metas só vão aumentando. Você chega no limite delas, eles pegam e aumentam de novo [...] se você fala 'Pode vir, que eu consigo', eles vão tirar de você o máximo. Às vezes, você está no seu limite, mas quer demonstrar que você consegue. Mas é nessa brincadeira que a saúde vai embora. É uma pressão psicológica, prisão psicológica. Os encarregados, os maiores culpados também, igual lá na firma lá, no reator que eu trabalhava, ele tem cinco metros de altura. Eu falei para o encarregado uma vez, eu falei assim: 'O exaustor não está puxando o gás de dentro'. Ele falou:'Não, puxa sim!'. Eu falei: 'Não está puxando, esse reator vai explodir'. Quando estava com 3 mil litros de aço dentro do reator, que começou a formar o gás, o reator foi para o alto. Eu pulei de uns três metros de altura, e eu me queimei todinho na empresa. Com dois meses, eu voltei a trabalhar. Aí, eu olhei para a cara do encarregado e falei: 'Não te avisei que ia explodir?'. Ele: 'Falou. Mas você sabe: a gente tem que cumprir o pedido, tem que entregar, senão, a gente perde o cliente'. Eu falei assim: 'É, vocês preferem perder uma vida do que perder um cliente!'. Então, é desse jeito que nós somos tratados [...] você sabe o que pode acontecer, só que não adianta, você fala para o encarregado, mas o encarregado não te ajuda. (DSC - Trabalhadores dos Grupos 1 e 2).

Com relação ao excedente de horas trabalhadas, é importante destacar que os trabalhadores preferiram cumpri-las por temerem os riscos anteriormente citados, e também por ter sido esta a alternativa de angariar (conquistar, atingir) melhor salário ao final do mês, assim proporcionando melhores condições de vida às suas famílias. Porém, eles reconheceram que o excesso de horas-extras resultou em cansaços físico e mental, que culminaram em adoecimentos ou em acidentes decorrentes do trabalho. Todavia, não realizaram críticas sobre o processo de mais-valia a que estão submetidos, mesmo compreendendo que o maior lucro é do empregador.

Além disso, reconheceram que aquele foi o caminho para conquistas e melhoria da sua qualidade de vida.

Existe uma certa competitividade também entre os trabalhadores, porque você quer mostrar produtividade: eu sou melhor que ele. Por quê? Porque se houver um corte, eu vou ficar e ele que vai ser dispensado. E a gente, nessas horas, não pensa que a gente está se prejudicando. Mesmo irracionalmente, a gente está se prejudicando porque a gente aceita, de uma certa maneira. A gente aceita essa imposição do patrão. Por quê? Porque nós precisamos do emprego para sustentar a família. Então, de uma certa maneira, somos culpados também, porque a gente também é omisso. Mas a gente só vai se dar conta quando nós estamos já na fase do remédio. Aí, já é tarde. Eu trabalhei em uma empresa, em que eu entrava das duas horas da tarde e saía no outro dia. No outro dia, sete horas da manhã. E batia no peito, e dizia: 'Eu trabalhei todo esse tempo'. Eu gerava todo esse lucro para a empresa e falava isso com todo orgulho. Acabei com minha saúde pela fome de lucro. Apesar d'a gente sempre estar falando que está marcado. [Os trabalhadores, quando mencionam marcas, estão se referindo às marcas que colocaram no boneco que foi construído nas oficinas, como material de estímulo para o debate das temáticas abordadas durante os encontros] A gente tem que ver os frutos do nosso sacrifício, os filhos na faculdade. Nós estamos marcados, mas colhemos os frutos dessas marcas, também, de uma certa maneira. É por isso que eu não me sinto culpado de ter feito essa carga horária a mais na minha vida, de ter me afastado um pouco da minha família, porque isso trouxe benefício. Tudo que eu levo para minha família, eu não me sinto culpado... (DSC - Trabalhadores dos Grupos 1 e 2).

Ainda sobre a organização atual do trabalho, os trabalhadores, em seus discursos, confirmaram conceitos de Ricardo Antunes1616 Antunes R. A corrosão do trabalho e a precarização estrutural. In: Navarro L, Lourenço EAS, organizadoras. O avesso do trabalho III: saúde do trabalhador e questões contemporâneas. 1. ed. São Paulo: Outras Expressões; 2013. p. 21-28., que a caracteriza em um contexto intensificado de precarização - e isto, em escala global - e desproteção de direitos trabalhistas, além de novos mecanismos de controle e coerção, discursos participacionistas, que o próprio trabalhador reconhece como armadilhas para envolvê-lo e, assim, conseguir atender o objetivo do capital, ou seja, o lucro.

A vida do trabalhador, que não é só nós, é do trabalhador brasileiro, do trabalhador mundial, é correria mesmo; da sociedade onde a gente vive, a sociedade onde a gente está inserido, é a sociedade moderna. E, não sendo pessimista, a tendência é piorar. É um capitalismo selvagem, o cliente pede e a empresa tem que fazer o serviço. Só que a empresa, é o seguinte: ela não quer contratar o número de funcionários adequados para cumprir aquilo; se tiver um funcionário que faça serviço de dois, para ela é melhor. Esse condicionamento mental, que eles usam com a gente, tem essa cultura, de você tem que trabalhar, você tem que produzir. Por que o patrão dele sempre pedia: 'Você pode nos ajudar?'. Todo jeito, para você se sentir reconhecido. Mas, na verdade, aquele cara está treinado para fazer você trabalhar; é o artifício que ele tem para trazer você numa boa, achando que você é importante. É mentira, porque você é uma engrenagem que está gerando algo muito importante para eles. Hoje, eu tenho essa consciência, mas foi tarde demais. (DSC - Trabalhadores dos Grupos 1 e 2).

Esse cenário coloca o trabalhador em situações de vulnerabilidade, que repercutem no desgaste de sua saúde e vida, materializando sofrimentos - tanto no corpo como na mente - questão intimamente ligados às relações sociais de trabalho. Porém, na sociedade moderna, por vezes, essas situações de vulnerabilidade são tratadas como adoecimentos sem relação com o trabalho1717 Lourenço EAS. Na trilha da saúde do trabalhador: a experiência de Franca/SP. Franca: UNESP/FHDSS; 2009..

De acordo com Remijo,

as doenças relacionadas ao trabalho precisam ser reconhecidas como oriundas da superexploração do trabalho, para, a partir daí, contar com leis que refreiem esse processo1818 Remijo AP. A situação da classe trabalhadora no Brasil: sob o prisma de Rui Marini a superexploração do trabalho. In: Lourenço EAS. Saúde do Trabalhador: desafios para a Seguridade Social e Movimento Sindical. São Paulo: Unesp; 2012. p. 35-44.(42).

A empresa tem lá uma meta para atingir. Onde eu trabalhava mesmo, tinha que chegar fazer por dia, e atingir, embuchar umas peças e atingir uma meta de 1,5 mil. Se você não atingisse a meta, você seria chamado no escritório para explicar porque não atingiu aquela meta. Então, às vezes, a pessoa preocupada com a produção acaba com medo de ser demitido da empresa; acaba se machucando. Eu penso ser dessa forma. Na linha de produção, tudo que chegava [...] era para ontem, até que foi na hora que eu me acidentei no meu braço. Passei por alguns especialistas, passei por uma (psiquiatra) que falou para mim que o trabalho para qual eu estava sendo pago, acabou chegando onde eu cheguei, pois já tinha um pouco de tendência desse problema. E o trabalho exacerbado simplesmente acelerou. Eu era o líder, eu tinha conquistado a posição de um líder. Então, eu me sentia na obrigação. (DSC - Trabalhadores dos Grupos 1 e 2).

Outro ponto apresentado neste estudo abordou a permanência do trabalhador no trabalho, mesmo que doente. Os trabalhadores referiram que, ao sentirem dores e perceberem o adoecimento, se automedicaram, visando à melhora para, assim, poderem realizar mais um dia de trabalho.

Reconheceram uma entrega total ao trabalho, acreditando que nada atingiria sua saúde, pois essa era inabalável. No entanto, avaliaram que, devido ao trabalho exagerado, surgiu o sofrimento frente essa realidade, começando a ter contato com o corpo por meio da doença.

Infelizmente, junto com o trabalho, vêm essas coisas ruins, como todo mundo colocou, que são as doenças. Tinha 18 anos de firma, fazia um trabalho repetitivo, acabei adquirindo hérnia de disco. Começou a doer e eu fiquei praticamente dois anos depois só trabalhando, até que chegou uma hora que não deu mesmo. Fui fazer os exames e já era hérnia de disco. Sempre a gente vai adiando, né? Só vai mesmo no médico quando a gente não tem mais condição de trabalhar. É aquele tal negócio: se você vai no médico e leva atestado na firma, a firma já te vê com maus olhos. Às vezes, dava uns problemas na canela, porque a gente ficava subindo e descendo, e aguentava a dor para atingir as metas. O ombro ficava um caroço, de carregar aquelas escadas de madeira, e não sentia nada. (DSC - Trabalhadores dos Grupos 1 e 2).

A situação apresentada no discurso evidencia o que é chamado de presenteísmo, que, segundo Paschoalin, define-se

pela presença física do trabalhador em seu local de trabalho, porém, com algum problema de saúde que o impede de desempenhar-se plenamente, ocasionando redução de sua produtividade1919 Paschoalin HC. Presente no Trabalho mesmo doente: o presenteísmo na enfermagem [tese]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2012. 170 p.(33).

Por fim, essa temática chama a atenção sobre as ações em saúde do trabalhador, visando garantir saúde e segurança no trabalho: ou não são desenvolvidas, ou não há a preocupação em acolher as queixas/demandas dos trabalhadores, em relação ao ambiente de trabalho.

A escuta das chefias imediatas, em relação aos trabalhadores, não é realizada como uma engrenagem do sistema. Os chefes não abrem espaço para dar voz ao trabalhador, seus semelhantes, sendo estes os que conhecem o chão da fábrica, as atividades que realizam; preferem não ouvir os seus 'saberes', conforme se verifica no discurso abaixo:

O problema, também, é que as empresas não investem tanto no funcionário, né? Não dá a possibilidade d'ele trabalhar mais suave [...] um estresse dentro da empresa. Agora, pequenos acidentes com os colegas, isso não é anotado. Tem empresa que você vê, tem uma placa que tem 'Estamos tantos dias sem ter acidentes'. É mentira. Isso é fictício [...] Quando eu me queimei no reator, que eu saí, estava um número. Quando eu voltei, estava o mesmo número. Quer dizer: para eles, não aconteceu acidente nenhum. (DSC - Trabalhadores dos Grupos 1 e 2).

Os trabalhadores, em seu discurso, observaram as estratégias das empresas, de não reconhecimento dos acidentes, estes que acabam não passando de 'placas' computando números que não condizem com a realidade do adoecimento.

Outro fator trazido para reflexão, e que interfere na saúde do trabalhador afastado do trabalho, foi o relacionado ao gênero masculino, pois este estudo apresenta como os homens se sentem humilhados por não mais suprirem as necessidades de suas famílias e as mulheres precisarem ir para o mercado de trabalho. Isto gerou-lhes um sofrimento psíquico, pela posição que as mulheres assumiram na família,pois eles não se reconheciam mais, se sentiam sem honra. Houve, também, inseguranças quanto ao valor do benefício, bem como em relação à continuidade deste, sendo o único meio através do qual eles podiam auxiliar suas famílias, diante do afastamento do trabalho.

Como é difícil... Você era um chefe de família, você que bancava todas as despesas da casa, você que pagava todas as contas. De repente, você se torna uma pessoa, entre aspas, inútil; sua esposa tem que começar a trabalhar, você tem que cortar todas as despesas da sua casa para poder viver com aquele salário que você recebe do INSS; tem que aguentar desaforo. Humilhação. Não é questão de ser machista, porque um cabra machista não deixa nem a mulher sair de casa para trabalhar. A questão não é essa. A questão minha era que, se eu não estivesse no INSS hoje, se eu não tivesse sido operado, meu salário estava em torno de 4 a 5 mil. Hoje eu não ganho nem dois salários mínimos, então, é difícil. E para o homem, afeta muito mais, porque acaba abalando ele. Ele acaba se achando um inútil, porque não consegue fazer nada. Como é que fica? É aí, é onde vem a honra, né? É, acho que a honra é a parte mais pesada. É onde pega, é onde vem tudo isso. Não tem honra, então, a sua dignidade vai lá em baixo [...]. Meu Deus, como é difícil. Você se torna humilhado e castrado, porque você não consegue controle em nada. Pelo que estava conversando aqui, geralmente os homens, desde criança, põem na cabeça que o homem que tem que manter a casa, e a mulher também pensa do mesmo jeito. (DSC - Trabalhadores dos Grupos 1 e 2).

Este estudo retrata, ainda, que a ideologia masculina permeou inclusive o ideário feminino, pois os trabalhadores reconheceram o machismo nas mulheres, quando elas apresentaram dificuldades para dividirem a remuneração, para além das suas próprias necessidades, assim continuando a atribuir ao masculino a responsabilidade pelo sustento da família. E isso gerou novos conflitos.

A sociedade, quanto ao homem e mulher, ela é uma sociedade machista, ou seja, isso independente de que seja homem. Agora, quando a mulher passou a ser machista? É quando a gente observa que, na maioria desses casos, quando a mulher passa a trabalhar fora, ela não vai trabalhar para querer ajudar a casa. A maioria, infelizmente, tem acontecido, ela vai querer trabalhar para se manter, porque agora os recursos do marido não estão dando para manter ela, ou seja, manter a sua vaidade ali. E o que acontece?'Vou trabalhar para me manter, eu vou ganhar o meu'. Isso aí, acaba; isso aí, detona. O dinheiro dela, ela gastava só com ela, não gastava em casa, entendeu? (DSC - Trabalhadores dos Grupos 1 e 2).

Os discursos também possibilitaram trazer à discussão a relação entre virilidade e trabalho, pois, segundo Dejours,

a ideologia defensiva é funcional no nível do grupo, de sua coesão, de sua coragem, e é funcional também no nível do trabalho, é a garantia da produtividade2020 Dejours C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. São Paulo: Cortez; 1992.(72).

A ideologia defensiva é o sistema de defesa compartilhado pelas profissões, com atitudes de negação e de desprezo pelo perigo, e tem valor funcional em relação à produtividade, pois se utiliza da exploração da ansiedade do trabalhador, que busca responder aos ritmos do trabalho e de produção exigidos2020 Dejours C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. São Paulo: Cortez; 1992..

Eu me considero um guerreiro [o trabalhador menciona ser guerreiro em referência à música 'Guerreiro Menino', de Gonzaginha, que foi utilizada como material de estímulo para facilitar a discussão da temática 'Sou cabra macho sim, senhor!'] porque, desde os 14 anos, eu já trabalho registrado [...]. Me identifica essa parte de guerreiro, da luta, da batalha, onde você procura conquistar, procurar o melhor para você e sua família. Hoje, eu não me sinto muito guerreiro porque não foi isso que eu esperava para mim. Esperava coisa melhor. Eu trabalhava, ralava dentro das empresas, para mim ter coisas melhores. Hoje, eu não me sinto mais muito guerreiro, porque veio a depressão. Muitas vezes, a gente põe na cabeça que, por ser guerreiro, eu sou forte, eu vou vencer. E, de repente, ele está falando e ele mesmo está passando a perna nele mesmo, sabia? Ele é frágil. É um guerreiro, mas não é um robô. O homem também tem dor e sangra. A gente chora, mas a gente tem que mostrar que é forte perante a família, porque a gente é o pilar da família. Muitas vezes, se a gente deixar abalar, abala toda a família. Então, acho que é por isso que o homem, ele fala que o homem também chora [menção a ser guerreiro em referência à música 'Guerreiro Menino', de Gonzguinha]. Mas, muitas vezes, você chora ali, sozinho no seu canto, mas não deixa demonstrar os seus sentimentos. Tem que se sacrificar pela família. As pessoas não se dão conta disso: que ele é tão frágil como qualquer outra. Ele acha que tem que ser forte, tem que ser forte, e aí, vai querer fazer tudo ao mesmo tempo. (DSC - Trabalhadores dos Grupos 1 e 2).

No entanto, os trabalhadores expressaram que a força, a virilidade e o 'poder' que fizeram com que se sentissem guerreiros, nem sempre foram bons, pois essa construção social sempre trouxe uma ideia de que o homem não podia ser frágil. E isso os fragilizou ainda mais, pois exigiu deles próprios uma permanente força, enquanto a fragilidade, que também possuíam, por vezes, não foi notada socialmente. Quanto a isto, vale citar Dejours: o "[...] sofrimento mental e a fadiga são proibidos de se manifestarem numa fábrica"2020 Dejours C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. São Paulo: Cortez; 1992.72. Então, recorre-se à medicalização, que tem por finalidade deslocar o conflito entre o homem e o trabalho, e a desqualificação do sofrimento mental.

Contudo, este estudo possibilita refletir, a partir dos próprios trabalhadores, que a realidade citada deve ser questionada, mudada, pois a dor e a fragilidade também são inerentes aos indivíduos do gênero masculino, e devem ser consideradas e cuidadas socialmente. Além disto, aqui se revela o quanto há a reprodução do machismo na sociedade brasileira.

Conclusões

Este estudo demonstra que os trabalhadores reconhecem a relação entre o adoecimento (ou o acidente) e as condições de trabalho às quais estão submetidos. Referindo-se a uma reestruturação produtiva, ele reafirma a importância da pesquisa intervenção, pois esta permitiu o aflorar do conhecimento e a percepção dos trabalhadores sobre seus trabalhos e suas condições de adoecidos por estes. Os trabalhadores imersos no processo de produção capitalista, tanto pelas exigências da nova organização do trabalho como pelas 'necessidades pessoais', somente refletem sobre o processo saúde-doença e a relação deste com o trabalho - ou seja, sobre o contexto do seu processo de afastamento - quando adoecidos. A relação com o trabalho é íntima, singular, e isto foi observado durante o desenvolvimento da pesquisa. Compreende-se, ainda, que os trabalhadores realizam uma entrega nesta relação.

A concorrência no mercado de trabalho é massiva, e os trabalhadores não se sentem protegidos pelos direitos do trabalho, principalmente, na atual conjuntura de retirada destes, e, assim, temem o desemprego. Desta maneira, se submetem a determinadas atitudes que retroalimentam o capital. Ou seja, como relataram a partir de uma das músicas que foram utilizadas como material de estímulo - 'Admirável gado novo' -, são peças que compõem a engrenagem do sistema capitalista. Refletem a conjuntura da nova organização do trabalho, e tal contexto dialoga com o que é afirmado por Antunes1616 Antunes R. A corrosão do trabalho e a precarização estrutural. In: Navarro L, Lourenço EAS, organizadoras. O avesso do trabalho III: saúde do trabalhador e questões contemporâneas. 1. ed. São Paulo: Outras Expressões; 2013. p. 21-28., que define a organização do trabalho como precarizada, opressora e concorrente, ou seja, característica da política neoliberal no mundo atual.

No entanto, quando os trabalhadores se deparam com a realidade de não mais 'funcionarem nessa engrenagem' do sistema capitalista, começam a refletir e questionar esse processo de 'entrega ao trabalho' e da superexploração. Apontam, na pesquisa, o arrependimento e a descoberta da fragilidade que também possuem, mas que, consciente ou inconscientemente, negam, devido à ideologia masculina ainda presente na sociedade, conforme apresentado por Boris et al.1212 Boris GDJB, Bloc LG, Teófilo MCC. Os rituais da construção da subjetividade masculina: o público e o privado. Público Priv. 2012; (19):17-31. ao longo da pesquisa.

Exemplo desse fato, influenciado tanto pela ordem do capital como pela 'cobrança social', está o presenteísmo citado anteriormente por Paschoalin1919 Paschoalin HC. Presente no Trabalho mesmo doente: o presenteísmo na enfermagem [tese]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2012. 170 p., que se refere à permanência do trabalhador no ambiente de trabalho mesmo com dores/doentes, assim recorrendo a automedicações, à coragem e à resistência como exigências do ser 'homem', viril, nas relações de trabalho e interpessoais, sobretudo na família.

O trabalhador, ao se colocar no centro da discussão, em relação à organização do trabalho e o seu processo de afastamento, apresenta um conjunto de situações que o fragiliza demasiadamente e, assim, o dificulta a enxergar novas perspectivas de vida.

Seligmann Silva2121 Silva ES. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser o dono de si mesmo. São Paulo: Cortez; 2011. apresenta estudos sobre como a organização atual do trabalho coloca os trabalhadores em constante desgaste, sofrimento e adoecimentos. Alguns depoimentos dos trabalhadores do setor siderúrgico corroboram as reflexões feitas pelos trabalhadores no estudo em questão. Estes trazem em suas falas a obrigatoriedade das horas-extras, se expressam sobre o medo de falar de suas dores e perder o emprego, e sobre a necessidade de cumprir com as metas exigidas pelas empresas do setor estudado.

É importante salientar que este estudo possibilitou um olhar a desvelar o que parece óbvio, saindo do reducionismo, das generalizações. Conceitos foram afirmados pela própria classe trabalhadora, e outros foram (e ainda estão sendo) revisitados por novas reflexões, considerando a realidade daqueles que, de fato, estão vivenciando as dores de serem retirados do trabalho e inseridos em um serviço da previdência social, no caso, a reabilitação profissional. A intervenção possibilitou reflexões sobre os limites da atuação profissional frente a essa realidade perversa do sistema capitalista, na qual a pesquisadora também assume o papel de trabalhadora.

Esse processo de constante construção é compreendido como de educação e educação em saúde, pois os trabalhadores relataram terem suas angústias acolhidas no espaço de grupo, o que lhes possibilitou dividir situações semelhantes, bem como conhecer situações que os empoderaram, no sentido de iniciarem o pensamento para novas conquistas, mudanças ou, simplesmente, repensarem conceitos.

Além disso, observa-se que os trabalhadores refletiram sobre a relação de trabalho e o processo de saúde-doença, compreendendo a integralidade do sujeito, apreendendo que ocorreu a educação em saúde e a reflexão sobre o 'ser trabalhador' em uma sociedade capitalista e opressora, e a discussão dessa problemática possibilitou-lhes o repensar de suas funções.

  • Suporte financeiro: não houve

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Mar 2018

Histórico

  • Recebido
    05 Nov 2017
  • Aceito
    18 Mar 2018
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