Um livro descolonizado

Leonardo Nolasco-Silva Sobre o autor
ALMEIDA, Júlia; MIGLIEVICH-RIBEIRO, Adélia; GOMES, Heloísa T. Crítica pós-colonial: panorama de leituras contemporâneas. Rio de Janeiro: 7Letras, 2013

Crítica pós-colonial: panorama de leituras contemporâneas é uma obra coletiva em sentido amplo: além de trazer uma compilação de textos que evidencia sujeitos quase sempre subestimados pela narrativa histórica, realiza essa tarefa de maneira transdisciplinar, multiplicando olhares, permitindo diálogos profícuos e, sobretudo, abrindo mão das fronteiras que usualmente engessam e racionalizam os livros dessa natureza. Aqui, a unidade textual se impõe em meio à diversidade de perspectivas.

O objetivo geral da obra - indicar um panorama de leituras pós-coloniais a partir do conjunto heterogêneo de pesquisas realizadas no Brasil - é complementado com a apresentação de estudos transnacionais que, estrategicamente situados, permitem ao leitor compreender nossas inspirações e, ao mesmo tempo, nossa condição de objetos de estudo. Nas trilhas abertas pelos autores e autoras, descobrimos pistas que nos revelam um mundo em vias de ser (re)fazer e, diante desse desafio, a crítica pós-colonial é apresentada como bússola e, ao mesmo tempo, como incentivo para desviar das rotas aparentemente seguras.

Dividida em quatro partes - na verdade, constituída por quatro peças interconectadas - a coletânea pratica os gestos que teoriza: reúne discursos não pela lógica disciplinar, mas pela coerência histórico-cultural das narrativas produzidas, desconstruídas e ressignificadas, tendo a introdução de Júlia Almeida como prólogo que situa o leitor no panorama geral dos estudos pós-coloniais, enquanto o instiga a percorrer os caminhos vindouros.

Na primeira estação, desembarcamos em terras brasileiras e assistimos a uma série de indagações sobre as ocorrências do exercício da crítica pós-colonial no Brasil. O conjunto de autores discute dilemas teóricos e metodológicos, propondo uma revisão epistêmica que evidencia nossas singularidades e, paralelamente, reconhece nossas falas compartilhadas.

A segunda parada nos desloca para o terreno das "ressonâncias culturais inter-hemisféricas" e, ali, entramos em contato com a complexa trama das produções literárias pós-coloniais africanas, seja por meio do registro cultural, seja das diásporas que narram estranhamentos e identificações. Contrárias aosessencialismos, essas falas se firmam como enunciação política e cultural. Trata-se da autorrepresentação positiva da periferia nas entrelinhas da literatura, nas crônicas de identidades em trânsito e nos planos do cinema contestador das convenções.

Na estação de número três, visitamos as Descolonizações epistemológicase, já de início, percebemos a desnaturalização da própria narrativa textual por meio de uma fala cujos componentes principais são as notas de rodapé. A partir desse movimento, discute-se uma nova geopolítica do conhecimento, deslocando alguns dos sentidos mais caros ao Ocidente.

Por fim, desembarcamos no cenário dos Movimentos sociais e trânsitos de diferenças onde, mais uma vez, assistimos à desconstrução das certezas eurocêntricas por meio de atualizações culturais engendradas pelos subalternos - negros e índios - produtores de uma cultura viva, de uma história ainda não completamente narrada e/ou conhecida pelo grande público.

Uma vez apresentado esse roteiro geral das viagens propiciadas pela obra em tela, poderemos fotografar as paisagens de cada estação.

Um primeiro retrato sugere que a crítica pós-colonial precisa ser entendida a partir da identificação dos alicerces por ela ameaçados, ainda que esses alicerces sustentem as ideologias dos grupos que contestam o poder estabelecido. É o caso da recepção tardia no Brasil da obra do jamaicano Frantz Fanon - autor que evidenciava os conflitos raciais enquanto exaltávamos a mestiçagem ou priorizávamos, conceitualmente, a luta de classes para explicar as desigualdades sociais no Brasil.

Uma segunda fotografia sintetiza a necessidade de mudança metodológica e de ampliação epistêmica que a revisão proposta pelo pós-colonial nos impõe. No caso da antropologia, por exemplo, as narrativas etnográficas tradicionais devem dar lugar à fala do sujeito observado - ele mesmo produtor de discursos acerca de quem é e de onde vive. Na literatura - e são variados os trabalhos que se valem desse lócus de enunciação - há de se identificar os indícios de fatos históricos, de tensões raciais e de projeções ideológicas que oportunizam a percepção de narrativas nem sempre condizentes com a crônica historiográfica oficial. Alerta-se também para o reconhecimento de vozes subalternas que, em alguma medida, falam por meio da ficção - contrariando (ou ilustrando?) a indagação de Gayatri Spivak em Pode o subalterno falar? Também disparadora de caminhos novos, a sociologia do conhecimento começa a identificar (inspirada por Walter Mignolo) uma razão pós-colonial que, na América Latina, antecede os estudos fundadores de língua inglesa e, nesse tocante, a (re)visitação da obra de Darcy Ribeiro por Adélia Miglievich-Ribeiro, é um empreendimento inspirador de novas releituras. Que outros pensadores brasileiros teriam indicado em suas obras uma consciência do colonialismo intelectual até hoje praticado no Brasil?

As fotografias contidas no álbum "Fricções culturais" se valem da cena literária da África lusófona para contextualizar autores e obras em suas vivências sócio-político-culturais, informando que a produção literária pós-independência dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palops) contém pistas valiosas sobre a colonização e descolonização tardias da África. A análise dessasescritas autóctones aponta saberes e práticas até então silenciados pela pena do colonizador e, assim evidenciando, confere complexidade a um conjunto de identidades rotineiramente pensadas como homogêneas. A heterogeneidade africana, aliás, ganha contornos mais fortes a partir dos relatos de escritoras negras americanas em trânsito pelo Caribe e América do Sul. A diáspora feminina se traduz em estranhamentos, contradições e autoconhecimento, permitindo ao leitor a ampliação dos sentidos sobre questões de gênero, raça e etnia. O protagonismo feminino e africano merece destaque também nos textos que se voltam para uma literatura afro-brasileira, problematizando uma estética subalterna que, aos poucos, se legitima, expandindo seus domínios. Tal estética, presente também no campo do audiovisual, traz imagens do cinema periférico, com destaque para as rupturas (ou descolonizações) do Cinema Novo.

Em outro conjunto de imagens, colecionadas na terceira parte do livro, a lente utilizada é a da percepção dos entraves e das potencialidades de uma virada epistemológica. O processo de revelação parte da observação do quão influentes são os preceitos eurocêntricos de construção do conhecimento, geralmente pautados em polaridades, assimetrias e contraposições - de um lado, o Ocidente; do outro, o resto. Rejeitando tais dicotomias e maniqueísmos, outras imagens ilustram as interações múltiplas e complexas do pacto colonial, indagando pelas reações e percepções dos colonizados antes de tornarem-se subalternos. Esses procedimentos, de alguma forma, dificultam a habitual categorização conceitual da sociologia do Norte, restando aos pesquisadores/intérpretes do Sul a constituição de uma sociologia morena, capaz de analisar nossas singularidades e pertencimentos. Seguem-se a isso alguns "cliques" sobre a polissemia presente nos conceitos de "terra" e "cultura de massa", fomentadores de uma "viva cultura insubmissa".

O desfecho imagético deste álbum de imagens expostas ao sol, sem o tratamento de laboratórios colonizadores, focaliza os movimentos sociais, indicando que a contemporaneidade presencia realocações, trânsitos e ressignificações de pertença. A mobilidade social do negro, as políticas compensatórias e o intercâmbio de experiências subalternas em meio à modernidade/colonialidade, apresentam questões desafiadoras aos estudos de raça e etnia. O que dizer da fala subalterna dos Racionais MC's que, da periferia, denunciam o racismo ao mesmo tempo em que estimulam os debates sobre os embates entre cultura dominante e cultura de periferia? O que significam para o pensamento pós-colonial os movimentos indígenas, como o zapatismo, ao redesenharem o conceito de luta revolucionária, distorcendo a noção usual de etnia? Quais são as relações entre as perspectivas da tradução e as bases da crítica pós-colonial em sociedades onde o bi/multilinguismo quase sempre submete a língua indígena ao exercício constante da tradução que oportuniza a comunicação colonizada?

Diante dessas indagações, podemos dizer que Crítica pós-colonial: panorama de leituras contemporâneas é uma obra aberta, aos moldes do conceito de Umberto Eco. O leitor, ao entrar no bosque projetado por essa coletânea, poderá fazer passeios inferenciais e, a partir desses gestos, descobrir novos temas, métodos e posturas teóricas. E, se o exercício da leitura não estiver submetido aos padrões eurocêntricos de construção do conhecimento, é possível que o leitor, ao final, descubra-se em avançado processo de descolonização.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Sep-Dec 2015
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