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Entre revelar e esconder: pais e filhos em face da descoberta da homossexualidade

Between revealing and hiding: parents and children faced with the disclosure of homosexuality

Entre revelar y esconder: padres e hijos frenta al descubrimiento de la homosexualidad

Resumos

Este trabalho trata da relação entre pais e filhos quando diante da situação social da descoberta da homossexualidade. Foram ouvidos 20 jovens brasileiros do sexo masculino entre 18 e 24 anos de idade, universitários, de camadas médias e que se autoidentificam como homossexuais. Privilegiamos conhecer as experiências vividas por esses jovens no sentido de assumir a homossexualidade em casa. O reconhecimento da homossexualidade pelos familiares e, sobretudo, entre eles mesmos movimenta nesses jovens todo um conjunto de medos que se expressam em formas concretas de violência, sofrimento psíquico e incertezas. Procuramos compreender como esses jovens lidam com as agressões e os sofrimentos que cotidianamente recaem sobre suas vidas, indo de encontro a um esforço coercitivo de seus familiares para os adequarem à norma sexual hegemônica.

jovens homossexuais; família; violência doméstica; Brasil


This paper addresses parent-child relations when faced with the social situation of the disclusure of homosexuality. Twenty 18-to-24 year old young middle-class male college students who self-identify as gay were heard, privileging their coming out experiences at home. The recognition of their homosexuality by their families, and particularly by themselves activates a variety of fears and concrete forms of violence, psychological distress and uncertainty. We seek to understand how these youths cope with aggression and suffering, reacting to a coercive effort by their relatives to adequate them to the hegemonic sexual norm.

young homosexuals; family; domestic violence


Este artículo estudia la relación entre padres e hijos ante la situación social de descubrimiento de la homosexualidad. Se entrevistaron 20 jóvenes brasileños de sexo masculino, de entre 18 y 24 años de edad, universitarios, de camadas medias y que se autoidentifican como homosexuales. Se privilegió conocer las experiencias vividas por esos jóvenes, en el sentido de asumir su homosexualidad en casa. El reconocimiento de la homosexualidad por parte de los familiares y, especialmente, entre ellos mismos, pone en movimiento en los jóvenes un conjunto de miedos que se expresan en formas concretas de violencia, sufrimiento psíquico e incertidumbre. Se procura comprender cómo esos jóvenes lidian con las agresiones y sufrimientos que cotidianamente recaen sobre sus vidas al ir en contra del esfuerzo coercitivo de sus familiares para adecuarlos a la norma sexual hegemónica.

jóvenes homosexuales; familia; violencia doméstica; Brasil


Apresentação

Os estudos sobre família têm se constituído como um campo importante de discussão entre os cientistas sociais. Ainda que apontem para as transformaçõ es históricas e sociais que vêm ocorrendo na noção de família (Mello, 2005MELLO, Luiz. 2005. Novas Famílias: conjugalidade homossexual no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Garamond. 232 p.), esses estudos continuam destacando esta instituição como um componente fundamental para a compreensão da vida em sociedade. Dada a sua importância, a revisão da literatura socioantropológica sobre o tema tem mostrado uma sensível preocupação dos pesquisadores com as estratégias de poder assumidas pela família, sobretudo em contexto urbanos, quando diante de filhos e filhas não conformados às expectativas baseadas, em expressão consagrada por Butler (2003)BUTLER, Judith. 2003. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 236 p., no esquema sexo-gênero-desejo (Saggese, 2009SAGGESE, Gustavo Santa Roza. 2009. Quando o armário é aberto: visibilidade e estratégias no coming out de homens homossexuais. Dissertação de Mestrado, IMSUERJ.; Oliveira, 2013OLIVEIRA, Leandro de. 2013. Os sentidos da aceitação: família e orientação sexual no Brasil contemporâneo. Tese de Doutorado, PPGAS-MN-UFRJ.; Lopes, 2011LOPES, Paulo Victor Leite. 2011. Sexualidade e construção de si em uma favela carioca: pertencimentos, identidade, movimentos. Dissertação de Mestrado, PPGAS-MNUFRJ.).

Neste trabalho, dedicaremos atenção à relação pais e filhos em face de situações de encobrimento e revelação da homossexualidade. Os relatos coletados neste estudo evidenciam que a "família de origem" tende a não ser tão elástica em suas funções socializadoras quando sabem da homossexualidade aparente ou assumida pelos filhos. A violência passa a ser o recurso empregado para fazer frente a esta questão. Ao longo do texto é possível verificar que o emprego da violência é tão mais dramático quanto mais a família encarna rígidos ideais de autoridade.

Podemos perceber que as relações domésticas são reveladoras de pesadas estruturas de poder que configuram um esforço de heterossexualização compulsória. Esse esforço faz com que comportamentos considerados não conformados às expectativas familiares acerca da sexualidade e do gênero sejam controlados pelos familiares visando à reintegração desses jovens à norma sexual dominante - ora sob o pretexto de garantir uma melhor qualidade de vida para os jovens, ora preocupando-se com a "má fama" e o "falatório" que essa informação pode atrair na vizinhança.

Assumimos aqui o conceito de família proposto por Cynthia Andersen Sarti (2004)SARTI, Cynthia Andersen. 2004. "A família como ordem simbólica". Psicologia USP, São Paulo. Vol. 15, nº 3, p. 11-28.. Para esta autora, a família é entendida não apenas como um grupo de sujeitos ligados por laços de consanguinidade, mais também por laços de afetos, de interesses partilhados em comum ou mesmo interesses jurídicos. Segundo Sarti, "a família, como o mundo social, não é uma soma de indivíduos, mas sim um universo de relações" (Sarti, 2004:18SARTI, Cynthia Andersen. 2004. "A família como ordem simbólica". Psicologia USP, São Paulo. Vol. 15, nº 3, p. 11-28.) animadas por trajetórias e projetos individuais interligados. Partindo desta definição, podemos conceber a família como um agregado de indivíduos em constante interação uns com os outros. Essas interações têm na "casa" um espaço de referência, onde diferentes gerações se relacionam, mantendo entre si laços de lealdade. Assim, além dos pais (mãe e pai), fazem parte deste "mundo de relações": tias, tios, primos, dentre outras pessoas que transitam por esse espaço - ainda que não mantenham quaisquer relações de consanguinidade.

Notas metodológicas

A revisão da literatura especializada sobre gênero e sexualidade no Brasil tem registrado um aumento significativo dos estudos que identificam a juventude como objeto privilegiado de investigação (Citeli, 2005CITELI, Maria Teresa. 2005. A pesquisa sobre sexualidade e direitos sexuais no Brasil (1990-2002): revisão crítica. Rio de Janeiro: Cepesc. 155 p.). Esses estudos têm se concentrado, principalmente, sobre as práticas sexuais e as formas de sociabilidade nesse momento da vida. Entretanto, essas pesquisas não têm dado conta da compreensão de um problema recorrente entre os jovens homossexuais brasileiros: a violência. Tampouco, têm nos ajudado a compreender a relação dos jovens homossexuais com o mundo doméstico, bem como com a violência que ali ocorre. Preocupando-nos com estas questões, buscamos construir as histórias de vida de 20 jovens homossexuais na tentativa de compreender os conflitos ocorridos no momento em que esses jovens revelaram a sua homossexualidade ao grupo doméstico.

Partiremos do conceito de "juventude como um processo", como se configura nas análises de Maria Luiza Heilborn (2006)HEILBORN, Maria Luiza. 2006. "Entre as tramas da sexualidade brasileira". Revista Estudos Feministas, Florianópolis. Jan./ abr. 2006. Vol. 14, nº 1, p. 43-59. acerca desta temática. Esse entendimento nos permite detectar diferentes níveis da transição biográfica desses jovens a partir da exploração de uma ampla matriz de possibilidades de construções e apresentações de si que não se reduzem à idade cronológica. Os motivos que colocam esse grupo social em estado privilegiado de análise em relação a outros é o caráter processual que o envolve (Heilborn, 2006HEILBORN, Maria Luiza. 2006. "Entre as tramas da sexualidade brasileira". Revista Estudos Feministas, Florianópolis. Jan./ abr. 2006. Vol. 14, nº 1, p. 43-59.). É esse traço peculiar que nos permite investigar os meandros dos processos sociais que definem movimentos de constantes mudanças roteirizados por histórias de vida e projetos individuais.

Esta pesquisa foi produzida a partir de 20 entrevistas conduzidas entre os anos de 2008 e 2009 com jovens universitários do sexo masculino, entre 18 e 24 anos, que se autoidentificavam como homossexuais. Tais entrevistas fazem parte da pesquisa "Violência antigay na universidade",1 1 Este trabalho foi feito a partir de dados da pesquisa "Violência antigay na universidade", coordenada pelo professor Dr. João Bosco Hora Góis, no âmbito do Programa de Estudos Pós-graduandos em Política Social, sob os auspícios do CNPq. a qual foi dividida em dois momentos: uma parte dedicava-se a compreender a violência contra jovens homossexuais universitários do sexo masculino, e a outra se debruçava sobre as experiências de violência contra jovens homossexuais universitárias do sexo feminino. Este artigo foi construído a partir dos relatos de história de vida de jovens do sexo masculino.

Cabe aqui esclarecer as condições nas quais foram produzidos estes dados e como a inserção de um dos pesquisadores foi fundamental para esta tarefa. O conjunto dessas entrevistas fez parte do meu processo de formação acadêmica e mesmo pessoal.2 2 Nesta parte sobre as dimensões metodológicas deste trabalho, o uso da primeira pessoa diz respeito à participação de um dos pesquisadores - Thiago Barcelos Soliva - no processo de construção das entrevistas. Agradeço, mais uma vez, a generosidade do professor Dr. João Bosco Hora Góis na orientação do trabalho. Minha entrada na universidade, quando tinha 21 anos, me proporcionou acesso não somente a novas informações, mas também a pessoas que conviviam com a homossexualidade de uma forma que até então eu, morador de um município pouco populoso da Baixada Fluminense (estado do Rio de Janeiro), não conhecia. Meu interesse científico pela homossexualidade surgiu nesse momento e comecei a pesquisar textos que discutiam, sobretudo antropologicamente, esta questão. Foi a partir deste interesse que busquei professores dentro da universidade com quem pudesse estabelecer uma relação de pesquisa. Conheci o professor João Bosco através de um artigo seu que havia lido na Revista Gênero. Tomei coragem e me apresentei a ele. Agendei uma reunião em sua sala, expus meus interesses de pesquisa e, prontamente, ele me disse que estava iniciando uma investigação sobre violência e homossexualidade. Disse ainda que de imediato eu não contaria com uma bolsa, mas perguntou se eu aceitaria participar. Aceitei sem pestanejar e no prazo de um ano participei como voluntário, captando informantes para a pesquisa e tomando parte no processo das entrevistas. Logo consegui uma bolsa, podendo me dedicar de forma exclusiva às atividades de pesquisa. Como bolsista de Iniciação Científica, dei continuidade às entrevistas e às discussões sobre os resultados do estudo. Simultaneamente a esse processo, com mais tempo em função da bolsa, envolvi-me ainda mais na vida universitária, participando de festas e reuniões de grupos de militância acadêmica e LGBT. Conhecer esses jovens, assim como fazer parte de suas redes sociais, me colocou em uma situação privilegiada em relação a eles, já que possibilitou uma maior inserção nas rotinas desses grupos de amigos, facilitando, dessa forma, o acesso às informações mais íntimas que nos foram sendo reveladas à medida que avançávamos na entrevista. As outras entrevistas resultaram de indicações feitas pelos que já haviam sido solicitados a conceder depoimento anteriormente, gerando um "efeito bola de neve" entre aqueles que participaram e aqueles que seriam convidados a participar. Essas entrevistas tiveram duração média de duas horas, com variações pontuais. Muitos se identificaram com a pesquisa de imediato e, prontamente, quando solicitados, se dispuseram a acionar amigos com histórias que julgavam merecedoras de serem ouvidas. Assim, conseguimos um dado número de jovens que viabilizaram esta pesquisa. Tendo como eixo central as experiências de violência, entendidas como expressões da discriminação e da exclusão, com particular interesse para aquelas que se relacionavam com a família, essas entrevistas foram gravadas, transcritas na íntegra e depois analisadas.

Em relação ao perfil dos entrevistados, eles foram selecionados entre o corpo discente da Universidade Federal Fluminense (UFF3 3 A UFF foi criada em 18 de dezembro de 1960 pela Lei nº 3.958. Hoje, esta universidade é a segunda maior instituição de ensino superior do estado do Rio de Janeiro. Ela está dividida em escolas, faculdades e institutos espalhados pela cidade de Niterói. Possui ainda cursos em municípios como Campos, Rio das Ostras, Angra dos Reis etc. Os cursos oferecidos na cidade de Niterói estão dispostos majoritariamente em três campi, onde está concentrada a maior parte de sua estrutura docente - Campus do Gragoatá, Campus da Praia Vermelha e Campus do Valonguinho. ). Todos os jovens tinham entre 18 e 24 anos de idade. A variação dos cursos em que esses jovens estavam inseridos não foi uma preocupação básica na tarefa de escolha dos informantes. Vale ressaltar, no entanto, que foi expressiva a participação de jovens que faziam cursos situados na grande área das ciências humanas. A cor foi outro marcador de pouco potencial explicativo nessa pesquisa, posto que, das 20 entrevistas realizadas, somente um jovem se declarou de cor preta.4 4 A exiguidade de interlocutores de cor preta pode ser um indicador da diferença de acesso entre brancos e negros ao ensino superior brasileiro. Ainda que a literatura especializada tenha dado alguma atenção às ligações entre cor e sexualidade como componentes que acentuam a violência homofóbica (Carrara & Ramos, 2006CARRARA, Sérgio; FACCHINI, Regina; SIMÕES, Júlio & RAMOS, Silvia. 2006. Política, Direitos, Violência e Homossexualidade: Pesquisa 9º Parada do Orgulho GLBT - São Paulo, 2005. Rio de Janeiro: Cepesc. 79 p.), nossos dados não ofereceram subsídios para melhor compreender essa dinâmica.

Todos esses jovens eram moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro: 12 moravam em Niterói, três moravam em São Gonçalo e cinco moravam no município do Rio de Janeiro. Dos que moravam em Niterói, 14 foram para esta cidade em função da faculdade, uma vez que nasceram e foram criados em cidades afastadas da região. Todos os entrevistados dedicavam-se exclusivamente às atividades universitárias, não exercendo até aquele momento nenhum trabalho remunerado.5 5 Quase todos esses jovens tinham no momento da pesquisa bolsas de iniciação científica, monitoria ou de outra natureza relacionadas às rotinas acadêmicas. Nenhum deles possuía vínculo empregatício com empresas ou demais instituições. Aqueles que vinham de outras localidades situadas fora da Região Metropolitana recebiam financiamento dos pais para se manterem na cidade de Niterói. Todos carregavam determinadas "marcas de distinção" (Bourdieu, 2011BOURDIEU, Pierre. 2011. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk. 560 p.) - 12 tinham pais com ensino superior completo, 16 falavam outro idioma, sete já tinham feito alguma viagem internacional - que os identificam como pertencentes às camadas médias e intelectualizadas da sociedade brasileira.

As entrevistas foram conduzidas dentro das dependências da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense. Os agendamentos eram feitos previamente com os jovens, respeitando os seus compromissos pessoais. O coordenador da pesquisa, professor João Bosco, era o responsável pela condução das perguntas, sendo auxiliado por mim. Foi uma preocupação básica deste estudo oferecer condições mínimas para a realização das entrevistas. Para tanto, usávamos uma sala de reuniões, com uma mesa ampla, na qual se encontravam café e água. Tentávamos sempre iniciar as entrevistas de forma descontraída, falando sobre amenidades, para depois começarmos a fazer as perguntas estruturadas. O silêncio da sala e o ar descontraído nos ajudaram a construir uma atmosfera menos tensa. O fato de sermos assumidamente gays também colaborava para o esforço de fazê-los falar de si. Quase sempre iniciávamos a entrevista abordando assuntos relacionados ao universo gay e aos seus símbolos.

Optamos por não usar um termo de consentimento, protocolo comum em pesquisas com informantes. A rejeição ao termo, na verdade, se constituiu como uma estratégia de pesquisa, uma vez acharmos que o seu uso poderia aprofundar ainda mais a distância entre nós e eles, pois um documento pode despertar desconfiança naqueles que o assinam. Embora optássemos pelo não uso do termo, todos os entrevistados foram informados dos objetivos da pesquisa, bem como dos princípios de confidencialidade que a cercavam. Alertamos todos para que ficassem à vontade a fim de não responder a qualquer pergunta que julgassem impertinente, ou mesmo que recusassem o uso do gravador.

Mesmo tomando estes cuidados, durante o andamento das entrevistas nos deparamos com diferentes questões quanto às perguntas e à forma como esses jovens lidavam com a ideia de terem suas intimidades "invadidas" por perguntas que os faziam reviver experiências passadas e, algumas vezes, não superadas. Muitos informantes narraram a dificuldade em falar sobre episódios que marcaram tanto suas histórias de vida. Embora estando previamente avisados da presença do gravador, muitos deles mostraram-se preocupados com as percepções dos entrevistadores em relação a eles, do vocabulário utilizado e com o conteúdo das informações, sendo comum entre as falas a seguinte pergunta: "isso vai ser gravado?". Somente um dos informantes se recusou, no ato da entrevista, a que houvesse o uso de gravador.

Em outras situações, alguns desses jovens mostravam-se visivelmente nervosos com as perguntas dirigidas a eles. Alguns falavam ininterruptamente, ressaltando lembranças de uma vida marcada pela violência. Outros se escondiam em respostas fechadas que dificultavam o avanço do diálogo, talvez em uma estratégia de proteção de si por meio da tentativa de esquecimento de um passado de sofrimentos que não sabíamos se havia sido superado.

Dadas essas dificuldades, sempre tentávamos, através do diálogo e da aproximação, afastar medos e fantasmas presentes nessas narrativas. Foi muito comum nos deixarmos levar no fluxo das narrativas pela emoção, assim como fez Saggese (2009)SAGGESE, Gustavo Santa Roza. 2009. Quando o armário é aberto: visibilidade e estratégias no coming out de homens homossexuais. Dissertação de Mestrado, IMSUERJ. em sua pesquisa sobre as experiências de coming out entre homens homossexuais.

Pudemos rir, nos entristecer e refletir com esses jovens sobre as suas trajetórias, as quais não eram, em minha opinião, muito diferentes da nossa história de vida.

Família, homossexualidade e violência

Analisaremos aqui as tensões entre jovens homossexuais e suas famílias de origem em face de uma dada situação social - a descoberta da homossexualidade. Muitas são as experiências frustradas que se inserem na relação filho homossexual/família, dificultando a decisão de assumir a homossexualidade entre os casos analisados. As agressões, as ameaças e outros tantos tipos de violência comunicam a intolerância, a frustração e os medos que esses familiares comumente exteriorizam quando se deparam com a existência de um filho homossexual. Muitas vezes, tal como sinaliza Sarti (2004)SARTI, Cynthia Andersen. 2004. "A família como ordem simbólica". Psicologia USP, São Paulo. Vol. 15, nº 3, p. 11-28., essa dificuldade também pode estar relacionada ao fato de os próprios pais ou outros membros da família não se sentirem à vontade ou capazes de lidar com seus próprios medos ou "demônios" ligados a temas mais íntimos, como sexualidade, por exemplo.

Somado a isso, esses medos se relacionam intimamente com o rompimento dos projetos6 6 Traço aqui uma aproximação com a obra de Gilberto Velho (1994) a propósito dos projetos. Para este autor, os projetos correspondem à margem de manobra existente nas sociedades para alternativas e opções individuais. que esses familiares têm para os destinos sociais de seus filhos. Nesse caso, sobretudo pais e mães se deparam com a ruptura brusca dos "sonhos" que nutriam em relação ao filho, instaurando uma "crise" no fluxo das relações domésticas (Oliveira, 2013OLIVEIRA, Leandro de. 2013. Os sentidos da aceitação: família e orientação sexual no Brasil contemporâneo. Tese de Doutorado, PPGAS-MN-UFRJ.). Como se essa notícia por si só fizesse ruir por completo todo um roteiro de vida esperado para esses jovens ao nascer.7 7 Como mostra Elizabeth Badinter (1993), esses estereótipos são construídos a partir do exame ultrassom. Em outros termos, quando os pais tomam conhecimento do sexo biológico dos filhos, eles não poupam esforços para construção de técnicas de diferenciação (roupas, brinquedos etc.) incentivadores desses projetos de vida para a criança que ainda está para nascer. Planos como netos, casamento, continuação da família são abruptamente corrompidos e ameaçados. O que resta é tão somente a percepção de que precisam fazer algo para resgatar tais projetos.

Esse processo desencadeia fortes conflitos que fazem dos ambientes familiares espaços marcados por medos, receios e incertezas para esses jovens:

  • Ele chegou muito puto, minha mãe confirmou, enfim, foi uma puta discussão, tipo aquelas coisas, tipo você gosta mesmo de dar o cu, sabe, enfim, preferia que você fosse bandido, você morreu pra mim, você não é mais meu filho: você tá (sic) morto pra mim (C., 22 anos).

  • De repente, eu chegava, minha tia chegava e não falava comigo; eu chegava e meu tio se distanciava, aí minha tia não queria mais lavar minhas roupas, é assim, porque é uma família do interior e tal e tem a cabeça muito fechada, e assim eu não fiquei horrorizado com isso (V., 20 anos).

  • Aí, chegando em casa, foi aquela coisa, senta aí e vamos conversar, qual é a sua? Eu quero saber, e eu joguei aberto com ele, ué você quer saber se eu sou gay, eu sou. Aí, assim, o desespero dele foi grande, ele na hora falou assim: "B., eu preferia que você me dissesse que... que era marginal, que se prostituía, que usava drogas porque tudo disso eu vi [virar] "ex", mas ex-gay eu não conheço" (B., 21 anos).

Soa como um dito popular a ideia de que os pais são os primeiros a ficar sabendo, contudo, os últimos a aceitarem a homossexualidade de seus filhos. Com efeito, esta convenção cultural não está tão descolada da realidade quanto poderíamos supor. Afinal, são os pais que ao longo dos anos se responsabilizam pela socialização dos mais jovens. São eles que observam atentamente os comportamentos - se eles correspondem ou não ao gênero ao qual pertencem. Aliás, são eles os responsáveis por imprimir as primeiras interdições e prescrições do tipo ideal de gênero e sexualidade a ser seguido (Badinter, 1993BADINTER, Elizabeth. 1993. XY: sobre a identidade masculina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 266 p.). É seguro supor que são os pais que são capazes de perceber "indícios" que os levariam a crer que alguma coisa está "errada". Diante desses indícios, o grupo doméstico tende a operar um rígido movimento de repressão baseado na autoridade familiar. Esse movimento de repressão parte de extremos que vão desde a interdição até formas mais cruéis de violência.

Diferentes daqueles que agridem na rua - cuja identidade é muitas vezes bloqueada ao conhecimento da vítima - os que agridem em casa são as principais referências sociais assumidas por esses jovens. Esse tipo de violência tem a capacidade de atingir seus agredidos de duas formas: pela dor de ser agredido e pelo fato de o agressor ser alguém com quem mantém uma relação de proximidade. Nessas oportunidades, os pais protagonizam cenas de violência que refletem uma homofobia latente.8 8 As noções de homofobia, violência homofóbica e homofobia latente vêm sendo objeto da preocupação de pesquisadores que buscam considerar estes termos em suas implicações sociológicas e culturais. Para Gail Mason (2002 apud Saggese, 2009), a homofobia não pode ser considerada uma questão particular ou individual, sem se levarem em conta outras especificidades e a produção de diferenças, como cor, gênero e classe, que incidem sobre a construção da violência. Para esta autora, seria melhor falar em uma "violência relacionada à homofobia" do que em "violência homofóbica", uma vez que a sua experiência nunca está somente relacionada à homossexualidade, mas também a outros marcadores que incidem sobre ela. Esses momentos são responsáveis pelo rompimento dos vínculos familiares, provocado por repetidas e intensas situações de hostilidade dentro de casa.

As entrevistas sugerem que a violência que ocorre em casa se manifesta em diferentes fases. Ela tende a surgir em um momento mais nebuloso, que poderíamos chamar de "período de desconfiança" - caracterizado pelas queixas e as interdições dirigidas aos filhos a favor de um comportamento que manifeste coerência na relação sexo-gênero-desejo (Butler, 2003BUTLER, Judith. 2003. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 236 p.) - passando para situações de "descoberta da homossexualidade", nas quais pais e filhos se veem confrontados com os medos em relação à afirmação de uma sexualidade não conformada ao projeto familiar.

Esta última fase realiza-se por meio de formas dramáticas de expurgação (formas concretas de violência e interdições mais taxativas), derivando para um momento de "reconciliação", ou mesmo de definição da situação (a aceitação pela família ou a saída definitiva da casa dos pais). Claro que essas fases não são regras fixas a serem seguidas em todas as situações. Elas se relacionam antes com diferentes maneiras de negociação que dão contornos distintos às situações de exposição e encobrimento pelas quais passam esses jovens.

O que chamamos aqui de "período de desconfiança" - vivenciado pelos pais - ocorre de forma concomitante ao momento da autodescoberta da sexualidade por esses jovens. Se eles, em fases anteriores de suas vidas, viam seus desejos como algo transitório - como alguma coisa que possivelmente iria passar com o transcurso dos anos, agora eles se dão conta de que isso não vai ocorrer. Descobrir que desejam uma pessoa do mesmo sexo é tarefa complicada, que envolve uma teia de sentimentos e medos. Reconhecer que os desejos pelos seus pares não ficou para trás - com a infância - é uma questão difícil com a qual, de agora em diante, esses jovens passarão a lidar. Os depoimentos que recolhemos mostram que as primeiras iniciativas desses jovens de se relacionarem com a homossexualidade ocorreram através do silêncio e da vergonha. Os pais, em regra, não são acionados de imediato. A rejeição marca a interação entre o jovem e o grupo doméstico nesse primeiro momento (Saggese, 2009SAGGESE, Gustavo Santa Roza. 2009. Quando o armário é aberto: visibilidade e estratégias no coming out de homens homossexuais. Dissertação de Mestrado, IMSUERJ.).

A análise de Eve Kosofsky Sedgwick (2007)SEDGWICK, Eve Kosofsky. 2007. "A epistemologia do armário". Cadernos Pagu, Campinas. Jan.-jun. 2007. Nº 28, 19-54. sobre a "política do armário" oferece uma importante contribuição para entendermos a dinâmica entre esses jovens e o "segredo" de sua sexualidade. Para a autora, o "armário" se constitui como uma estrutura definidora da opressão gay, a qual se caracteriza como elemento fundamental da vida social desses indivíduos. O "armário", segundo Sedgwick (2007)SEDGWICK, Eve Kosofsky. 2007. "A epistemologia do armário". Cadernos Pagu, Campinas. Jan.-jun. 2007. Nº 28, 19-54., é uma imagem importante por meio da qual os gays constroem sua subjetividade, implicando uma forma singular de experienciar o mundo através de um intrincado esquema de cálculos e levantamento de possibilidades, até mesmo entre aqueles que vivenciam mais abertamente a sua homossexualidade, como mostra a autora.

  • Mesmo num nível individual, até entre as pessoas mais assumidamente gays, há pouquíssimas que não estejam no armário com alguém que seja pessoal, econômica ou institucionalmente importante para elas. Além disso, a elasticidade mortífera da presunção heterossexista significa que, como Wendy e Peter Pan, as pessoas encontram novos muros que surgem à volta delas até quando cochilam (Sedgwick, 2007:22SEDGWICK, Eve Kosofsky. 2007. "A epistemologia do armário". Cadernos Pagu, Campinas. Jan.-jun. 2007. Nº 28, 19-54.).

O "armário" implica diferentes estratégias de silêncio e qualquer tentativa de saída:

  • Pode trazer a revelação de um desconhecimento poderoso como um ato de desconhecer, não como um vácuo ou o vazio que ele finge ser, mas como um espaço epistemológico pesado, ocupado e consequente (Sedgwick, 2007:35SEDGWICK, Eve Kosofsky. 2007. "A epistemologia do armário". Cadernos Pagu, Campinas. Jan.-jun. 2007. Nº 28, 19-54.).

As tentativas de evitar essa revelação são fundamentadas no medo da rejeição familiar e social - consequência imediata do ato de "assumir-se". Tendo tais receios como pano de fundo, a esses jovens são dirigidas inúmeras perguntas em forma de queixas, que começam a ser formuladas diante da certeza de que algo está "errado". A percepção de que alguma coisa está faltando é a principal marca dessas interpelações. Perguntas como: Cadê a namorada? Quando você vai namorar? Quando você vai me dar netos? Estas são algumas das queixas que emergem perante o fato incontornável de que o roteiro de vida desse jovem não corresponde àquele de um jovem heterossexual. Estas perguntas tornam-se tão mais coercitivas quanto mais os jovens se esquivam da trajetória que lhe é imposta.

Associada a tais perguntas, encontra-se, entre esses jovens, a certeza de que seus desejos e aspirações não estão nos braços de um oposto sexual. Nessas condições, a iniciação afetivo-sexual com outros do mesmo sexo é sempre tida como um momento de afirmação desses desejos. Somente três desses jovens relataram ter interagido sexualmente com mulheres, muito embora essa experiência tenha sido feita de forma experimental e mesmo, como afirmaram, "de brincadeira". Conversando com alguns deles sobre como teria sido o primeiro beijo com outro homem, eles revelaram que o beijo teria figurado como uma espécie de "divisor de águas" em suas vidas, teria consolidado a certeza de que era este o projeto de sexualidade e felicidade que queriam levar adiante. Oliveira (2013)OLIVEIRA, Leandro de. 2013. Os sentidos da aceitação: família e orientação sexual no Brasil contemporâneo. Tese de Doutorado, PPGAS-MN-UFRJ. também chama a atenção para a importância da experiência do beijo com outro do mesmo sexo como uma forma de ampliar novos horizontes e "antever novas formas de se conectar e de se relacionar com outras pessoas" (Oliveira, 2013:48OLIVEIRA, Leandro de. 2013. Os sentidos da aceitação: família e orientação sexual no Brasil contemporâneo. Tese de Doutorado, PPGAS-MN-UFRJ.).

A primeira ida à boate ou outro espaço de sociabilidade gay (bares, saunas, pontos de pegação etc.) constitui-se como um "rito de passagem" entre esses jovens. Quase sempre essa entrada no "circuito gay" é feita sem o conhecimento dos pais. Aparentemente, a partir desse momento, algumas certezas vão se afirmando, e o encontro com seus pares homossexuais torna-se uma constante nesses locais. São nesses encontros que começam a ser criadas redes de amizades entre eles e outros iguais. Diferentes pesquisas sobre a construção da sociabilidade gay (Green, 2000GREEN, James N. 2000. Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: Ed. Unesp. 541 p.; Saggese, 2009SAGGESE, Gustavo Santa Roza. 2009. Quando o armário é aberto: visibilidade e estratégias no coming out de homens homossexuais. Dissertação de Mestrado, IMSUERJ.; Soliva, 2012SOLIVA, Thiago Barcelos. 2012. A confraria gay: um estudo de sociabilidade, homosexualidades e amizades na Turma OK. Dissertação de Mestrado, PPGSA-IFCS-UFRJ.) têm chamado a atenção para a importância dos amigos gays na consolidação da experiência homossexual. De acordo com estes autores, é através dos amigos que é afiançado a esses jovens o acesso a espaços de convivência, os quais são responsáveis pela transmissão de códigos culturais, estratégias de proteção, estilos corporais, técnicas para a obtenção de parcerias sexuais etc.

À medida que vão se afirmando essas certezas, as estratégias de silêncio acentuam-se, novas estratégias de encobrimento são adotadas em uma tentativa de amenizar as exigências familiares. Um desses recursos é o "namoro heterossexual". Nesta situação, encontramos frequentemente o estabelecimento de acordos consensuais celebrados entre esses jovens e amigas de sua rede de amizades - as mais confiáveis (de acordo com eles) - que passam a ser assumidas como suas namoradas. Aparentemente, esses acordos buscam uma forma de aliviar as tensões exercidas pela família em função de um suposto comportamento homossexual que vai se evidenciando, como podemos observar no relato abaixo:

  • Não tinha namorada, não aparecia com namorada, arranjei pra... a cobrança era tão grande, arranjei uma amiga pra levar pra casa, pra mostrar minha namorada, jantar, aquelas almoços gigantescos com toda a família: "vamos conhecer a namorada do W.", depois de tanto tempo, era, finalmente, a namorada do W. E foi horrível, foi péssimo, foi horripilante (S., 23 anos).

Eventualmente, esse silêncio é rompido em ocasiões em que toda a família é confrontada com o assunto. Assistir televisão em família no domingo quando em um determinado programa o tema está sendo apresentado passa a ser um momento caracterizado por grande embaraço. Transtornos tais como os narrados por W. (22 anos) são exemplos emblemáticos dessas situações de exposição.

  • Os comentários lá [em casa] eram feitos de uma coisa que eu tinha pânico, que eram as entrevistas do "Fantástico" [TV Globo] de domingo à noite sobre gays, e sempre tem... até hoje isso não muda, eles sempre... to eu lá quieto, eles vão e jogam aquilo, então, tá lá todo mundo em casa, né, mesa ... e aquilo me incomodava. Pela televisão que gerava os olhares, tipo a casa inteira olhando pra mim... Eu sentia a pergunta e tinha que levantar, quer dizer, "eles vão comentar alguma coisa", eu com medo e a falta de confiança do que aquilo podia gerar, eu saía (W., 22 anos).

Todavia, a experiência do ocultamento torna-se, com o passar dos anos, tarefa cada vez mais difícil e dolorosa. Diante dessa realidade, certos jovens optam por revelar a seus pais seu "segredo". A "descoberta" da homossexualidade pelos pais geralmente vem acompanhada de dramáticas tensões capazes de romper os laços de solidariedade que a família tende a amarrar. Essas situações manifestam o efeito de uma particular "operação de suspense", como afirma Sedgwick (2007)SEDGWICK, Eve Kosofsky. 2007. "A epistemologia do armário". Cadernos Pagu, Campinas. Jan.-jun. 2007. Nº 28, 19-54., apontando a imprecisão do que estar "por vir" depois da "revelação". Em algumas circunstâncias, a descoberta pode ser provocada por uma atitude espontânea do filho homossexual, que se vê cercado de dúvidas numa insuportável atmosfera de incertezas. Isto pode ocorrer por ele achar que estará então dividindo com os pais um "problema" que precisa compartilhar, saindo, assim, do ocultamento.

Esse momento de desespero insuportável foi narrado por vários jovens, dentre os quais T. (21 anos), que revelou aos pais sua homossexualidade numa reunião de família. Em um dado momento dessa reunião, T. tomou a iniciativa de tirar uma foto dos familiares, pedindo para tanto que todos se reunissem à sua frente. Quando faziam pose para a foto, T. contou de imediato que era gay, e bateu a foto, capturando a expressão de uma só vez dos familiares no momento da revelação. A atitude de T. nos mostra o grau de desespero que aparentemente existia na sua vida. Contar aos pais transformou-se em uma oportunidade de "gritar" para todos o que vinha sentindo há muito tempo calado. Chamam ainda a atenção as formas que esses jovens escolhem para expor sua orientação sexual, através de um ato rápido, direto e, na maioria das vezes, bastante claro, expressando, dessa maneira, a explosão de sentimentos que culmina com a frase tida como libertadora: "Eu sou gay!".

Embora tal atitude seja apontada por muitos como um momento de libertação e de consolidação de suas certezas em relação à homossexualidade, essa ocasião sempre tem um caráter de "confissão", quase no sentido religioso do termo, em que uma atitude considerada como digna de sanção é exposta a uma "autoridade superior" (no caso, a família) para que ela possa apresentar suas considerações, na expectativa de que tal ação ocorra de uma maneira considerada positiva, ou mesmo à espera de um perdão pela "falta" cometida.

Entretanto, esse "contar aos pais" pode, em prática, não vir acompanhado das expectativas positivas esperadas por esses jovens, contribuindo, aliás, para um aumento das tensões que são vivenciadas no cotidiano familiar.

  • Minha mãe sabe, né? E na época ela... Enfim, chorou, chegou a me agredir, né? Ela falou: "você é uma vergonha pra família, né?". "Ah, que se você for isso mesmo, eu vou te botar pra fora, né? De casa, enfim, né?". Todas aquelas ameaças. E eu ficava muito constrangido com aquilo (C., 21anos).

A "revelação" pode também ocorrer por meio de um "ritual familiar" - uma tradicional reunião de família - convocada pelos pais para conversar sobre o assunto. Foi o que ocorreu com W. (22 anos) que, chegando em casa depois da faculdade, se viu cercado pelos familiares decididos a interrogá-lo. W. descreve esse momento da seguinte maneira: "Me puxaram pelo cabresto. Cheguei de um dia de trabalho comum, fui lá não sei por quê, sentamos a uma mesa, parecia uma reunião kardecista, todo mundo de mãos dadas, eu 'o que é isso', sério, horripilante!" (W., 22 anos).

Muito frequentemente essa "revelação" pode ser antecipada pela mediação de um outro grupo, a vizinhança, que se concentra entre a "casa" e a "rua" (Ferreira dos Santos, Voguel & Mello, 1985FERREIRA DOS SANTOS, Carlos Nelson; VOGEL, Arno & MELLO, Marco Antônio (orgs.). 1985. Quando a rua vira casa: apropriação de espaços de uso coletivo em um centro de bairro. Rio de Janeiro: Ibam/ Finep, Projeto. 149 p.; DaMatta, 1979DAMATTA, Roberto. 1979. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores.), grupo este que supostamente deveria oferecer um espaço de sociabilidade primária, porque seria uma espécie de apêndice das relações domésticas, mas se apresenta como um território marcado pelo conflito, onde esses jovens não encontram um ambiente tão acolhedor.

É na vizinhança que são animadas ações caracterizadas por um conteúdo altamente preconceituoso, muitas das quais motivadas pela fofoca. A fofoca é, nesses contextos, a forma como os vizinhos se relacionam com a informação da homossexualidade desses jovens. Geralmente, as fofocas precedem a afirmação do fato, estando somente baseadas na suposição de que aquele rapaz não é como os outros rapazes do grupo, não se comporta como os outros garotos do bairro. Em algumas situações, a fofoca chega mesmo a desencadear uma exposição descontrolada - outing - que motiva os pais a pressionarem os filhos em busca de um esclarecimento acerca dos comentários ocorridos na rua (Saggese, 2009SAGGESE, Gustavo Santa Roza. 2009. Quando o armário é aberto: visibilidade e estratégias no coming out de homens homossexuais. Dissertação de Mestrado, IMSUERJ.). Foi o que aconteceu com C. (24 anos), que teve sua orientação sexual revelada por uma vizinha que contou para a sua mãe sobre um suposto namorado com quem vinha se relacionando às portas de casa.

  • O garoto tinha brigado com a M. [amiga dele] e eu estava conversando com ele, né? Aí ele estava chorando, acabei abraçando ele pra confortá-lo, não sei o que, aí ela [a mãe dele], "não, por que me falaram que você beijou". Aí aumentaram também a história, né? "Que você beijou, que não sei o que e pa pa pa", e ela começou a me agredir, né? Me bater mesmo, né? Aí foi [quando] me deu um tapa na cara, né? E ela nunca tinha feito isso na vida dela (C., 24 anos).

Em outros casos, os dados nos mostraram que a ruptura dos projetos que foram laboriosamente construídos para serem encabeçados pelo filho considerado transgressor é respondida com muita violência. A intensidade dessas violências, bem como as suas consequências, é o que procuramos elaborar de forma mais detida nas linhas que se seguem. Essa violência pode ser de natureza física e/ou psicológica. Percebe-se que dentro desse quadro estão inseridas as agressões físicas e suas expressões mais marcantes, nas quais o corpo da vítima é o locus de ação do perpetrador.

Esse tipo de violência é recorrente entre os jovens homossexuais, como pode ser percebido nos levantamentos produzidos por Carrara e colaboradores (2003CARRARA, Sérgio; CAETANO, Márcio & RAMOS, Silvia. 2004. Política, Direitos, Violência e Homossexualidade: Pesquisa 8º Parada do Orgulho GLBT - Rio de Janeiro, 2003. Rio de Janeiro: Pallas. 118 p., 2005CARRARA, Sérgio; FACCHINI, Regina; SIMÕES, Júlio & RAMOS, Silvia. 2006. Política, Direitos, Violência e Homossexualidade: Pesquisa 9º Parada do Orgulho GLBT - São Paulo, 2005. Rio de Janeiro: Cepesc. 79 p., 2006)CARRARA, Sérgio & VIANNA, Adriana R. B. 2006. "'Tá lá o corpo estendido no chão...': a violência letal contra travestis no município do Rio de Janeiro" [online]. Physis, Rio de Janeiro. Vol. 16, nº 2, p. 233-249. em algumas capitais brasileiras. De acordo com os autores, a agressão física aparece nos relatos de violência em cerca de 20% das respostas dos participantes. Ouvindo os jovens, observamos que essa forma de violência esteve presente na experiência de vida de quase todos os informantes, corroborando os dados levantados por Mott e Cerqueira (2003)MOTT, Luiz & CERQUEIRA, Marcelo. 2003. Matei porque odeio gay. Salvador: Editora Grupo Gay da Bahia. 179 p., que mostram que as principais vítimas das ações violentas, em especial as agressões físicas, são os jovens homossexuais.

Partindo desses dados, percebemos que são comuns as ocasiões nas quais os familiares, de posse da informação da homossexualidade dos filhos, protagonizam cenas de violência física.

  • Meu pai, acho que foi só nesse momento em que ele me bateu mesmo. Foi só por conta da homossexualidade, na hora do processo que tinha acontecido antes não tinha havido violência, mas esse mal-entendido, em que ele descobriu que eu estava saindo com um menino, que tinha mentido pra ele e tal, aí foi quando ele me deu um soco nas costas e tal (V., 21 anos).

Essas situações são geralmente motivadas pela certeza incontornável da homossexualidade dos filhos, colocada em função da afirmação de que o jovem anda se relacionando com outro igual sexual. O engajamento em relações afetivo-sexuais mais estáveis tende a ser um fator que cria condições para o ato de assumir, como já havia apontado Oliveira (2013)OLIVEIRA, Leandro de. 2013. Os sentidos da aceitação: família e orientação sexual no Brasil contemporâneo. Tese de Doutorado, PPGAS-MN-UFRJ. em sua pesquisa sobre as experiências de gays e lésbicas e suas famílias. Esse momento-chave é capaz de causar danos emocionais que se arrastarão por toda uma vida, marcando profundamente sua subjetividade, bem como suas formas de inserção social.

Notamos que essas agressões são acompanhadas de fortes temores compartilhados pelos pais e demais familiares em relação à descoberta de uma sexualidade não heterossexual em seus filhos. Em regra, tal descoberta deflagra os sentimentos mais diversos, que se concentram nos aspectos negativos que essa sexualidade considerada "suja" (Douglas, 1976DOUGLAS, Mary. 1976. Pureza e perigo. Série Debates. São Paulo: Ed. Perspectiva. 232 p.) pode encerrar. O malogro da homossexualidade desperta sentimentos de difícil compreensão para a família, os quais misturam medos e culpas em um esforço premente de recuperação daqueles que transgridem. Tapas, socos, xingamentos, recriminações e ameaças fazem parte dessa terapêutica que visa única e exclusivamente trazer esse sujeito às raias da normalidade supostamente rompida.

A violência psicológica também é empregada como parte do esforço de recuperação empreendido pelos pais. Sua eficácia está fortemente atrelada à qualidade das relações domésticas, ou seja, das relações mais íntimas. Esse tipo de violência é vivida de forma silenciosa, causando danos catastróficos às suas vítimas. Grande parte dos relatos revelou que os entrevistados associaram a violência sofrida a uma série de problemas que passaram a enfrentar: problemas de saúde, isolamento social, baixo desempenho escolar etc., que estão intimamente relacionados à baixa autoestima desenvolvida por esses jovens, capaz de torná-los vulneráveis a situações potencialmente "perigosas", tais como uso de drogas, relações sexuais sem uso de preservativos, tentativas de suicídio etc.

Entre os nossos entrevistados, a violência psicológica foi recorrente e se manifestou de diferentes formas. L. (23 anos) nos relatou vários medos que teriam sido inculcados nele pelos seus pais. Segundo esse jovem, seus pais agiam "colocando medo em relação à aids, à agressão física dos vizinhos e outros amigos, então criando todos esses sistemas de freios, entendeu, para que eu não desenvolvesse minha sexualidade de forma natural" (L., 23 anos).

De acordo com os relatos, o receio de contaminação pelo vírus HIV (como se essa possibilidade, em nossa opinião, fosse uma realidade exclusiva para os homossexuais) é uma constante entre os pais. Esse medo encontra apoio na ideia corrente de que os homossexuais possuem um comportamento sexual ancorado em uma dimensão fortemente hedonista, liberada das preocupações com práticas sexuais protegidas. O conjunto das entrevistas mostra que a percepção dos pais desses jovens está baseada na noção de que o comportamento sexual dos homossexuais, em geral, é caracterizado pelo excesso, seja em relação ao tipo de prática sexual, seja em função da quantidade de parcerias sexuais, como se todos os homens homossexuais estivessem avidamente à procura de sexo "perigoso" e com vários homens. Esses temores são expressos em ações concretas, como podemos observar no depoimento abaixo:

  • Minha mãe, o máximo de contato é assim, ela vai numa farmácia e compra camisinha, até hoje ela tem esse hábito, vai na farmácia e compra meia dúzia de camisinhas e coloca na minha gaveta de cuecas, é o máximo de discussão que a gente tem (T., 24 anos).

Outra consequência desses temores é aquela que existe entre os próprios jovens, que passam a conceber todas as relações sexuais (mesmo aquelas protegidas) como riscos possíveis de contrair doenças sexualmente transmissíveis. Esse medo está relacionado à experiência do "armário", que pode gerar entre os próprios jovens gays sensações de "confusão" ou mesmo de aceitação de certas noções correntes que afirmam estar a homossexualidade associada ao risco e ao desvio.

Os medos funcionam como entraves para qualquer possibilidade que possam vir a ter de se engajarem em uma relação amorosa, ou mesmo de obterem prazer. A negação da atividade sexual, até as não penetrativas, é um traço característico desse medo. Esta questão aparece de forma bem emblemática na entrevista de P. (23 anos), que nos revelou nunca ter transado por medo de pegar aids. Ainda que saiba das formas de contágio, bem como das estratégias de proteção, esse rapaz não consegue concretizar nenhuma experiência sexual. Perguntado sobre isso, ele nos revelou que a rejeição do sexo tem origem em medos, como os "de doenças e eu acho que isso me trava muito, sabe, eu tenho vontade, mas na hora eu fico, assim, não, não vou fazer" (P., 23 anos).

As agressões verbais e as ameaças de agressão (pelas quais se realiza a violência psicológica) também são frequentes nesse cardápio de violências. Uma característica marcante deste tipo de violência é a capacidade que ela possui de, pelo uso da palavra, difundir visões de mundo, representações e sentimentos negativos em relação à homossexualidade que visam gerar humilhação e constrangimentos (Castro, 2004CASTRO, Mary. 2004. "Ressignificando sexualidade, por violências, preconceitos e discriminações". In. CASTRO; Mary, ABRAMOVAY, Mirian & SILVA, Lorena Bernadete. Juventudes e sexualidade. Brasília: Unesco Brasil. 426 p.). Os poucos estudos disponíveis com grandes amostras de homossexuais evidenciam que este é outro tipo de violência comum entre eles: 62,8% dos homossexuais que foram à Parada Gay de São Paulo em 2005 reportaram já terem sido vitimizados desta forma (Carrara et al., 2006CARRARA, Sérgio & VIANNA, Adriana R. B. 2006. "'Tá lá o corpo estendido no chão...': a violência letal contra travestis no município do Rio de Janeiro" [online]. Physis, Rio de Janeiro. Vol. 16, nº 2, p. 233-249.). Os levantamentos de Gustavo Venturi (2009)VENTURI, G. et al. (org.). 2009. Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil - Intolerância e Respeito às Diferenças Sexuais. São Paulo: Fundação Perseu Abramo/ Fundação Rosa Luxemburg Stiffung. sobre intolerância e respeito às diferenças na sociedade brasileira revelam um quadro não menos sombrio. De acordo com o autor, o preconceito contra pessoas LGBT é bem mais admitido entre os brasileiros se comparado a outras formas de preconceito praticadas contra outros grupos sociais, como idosos e negros. Muitos jovens que entrevistamos disseram ter sido vítima em algum momento de suas vidas desse tipo de violência:

  • E ele estava conversando, acho que com a namorada dele, né, e... aí ele cismou comigo e falou assim: "o que foi viadinho", "o que você tá (sic)... tá (sic) escutando o quê?" E eu não estava nem aí, não estava nem prestando atenção na conversa dele nem nada (C., 23 anos).

Em ambas as modalidades de violência observadas o que ficou evidente foi o caráter normatizador e prescritivo que tendem a reproduzir. As punições (socos, pontapés, ameaças etc.) são respostas-limite comumente empregadas quando se trata de "resgatar" esse jovem do "mal em si" que a homossexualidade representa. Não suficiente para dar conta dessa empresa, a violência é muitas vezes acompanhada por interdições das mais distintas ordens.

As interdições de ordem econômica são componentes indispensáveis com os quais os pais mantêm o controle social sobre a identidade sexual de seus filhos após o seu conhecimento, sobretudo pelo fato de esses jovens não exercerem nenhum tipo de atividade remunerada com vínculo mais estável. A suspensão do suporte financeiro oferecido para as despesas pessoais, ou mesmo para outros gastos decorrentes da manutenção dos estudos, nos sugere formas de fazer valer a autoridade familiar em face da informação da homossexualidade do filho. O caso de V. (20 anos) se encaixa nesse modelo de interdição. V. sempre quis fazer medicina, curso que requer um alto investimento financeiro e intelectual, sobretudo pela frequência a boas escolas, muitas das quais particulares. Este rapaz estudava em uma escola particular quando foi surpreendido pelos pais, que descobriram seu namoro com outro homem mais velho. Seus pais passaram então a ameaçá-lo, fazendo crer que o tirariam da escola, eliminando, assim, a possibilidade de conseguir bons resultados no exame vestibular.

  • Eu sempre soube muito cedo que eu queria fazer medicina, tinha essa ideia na cabeça e, tipo, o medo que eu tinha é de que falavam... me ameaçavam de tirar da escola, então eu tinha medo de sair do pré-vestibular e não conseguir passar pra aquilo que eu queria (V., 20 anos).

O controle cotidiano sobre as ações dos filhos é outro dado de fundamental importância na tentativa de eliminar essa sexualidade transgressora. Uma possível forma de exercer esse controle é infligir limites ao acesso de amigos (principalmente amigos gays) a casa, os quais podem se estender às relações mais amplas.

  • Aí ela comentando esse descontentamento, aí eu fui perguntar, ela falou que de um tempo pra cá eu só estava andando com gente fresca. Minha mãe, que tem um irmão gay, que ela não tem grandes problemas com a coisa, usa termos como gay, homossexual, não termos pejorativos. Aí, eu virei pra ela e falei: "ah, mãe, eu ando com essas pessoas porque eu tenho assunto com elas, sabe", aí eu continuei: Ah, mãe, eu sou como elas, sabe, não tenho problema nenhum em andar com essas pessoas". Aí ela ficou inconformada, ficou naquela fase do "que foi que eu fiz de errado?" (E., 22 anos).

Conhecer as redes de sociabilidade desses jovens é um dos principais meios pelos quais esse processo pode vir a se consumar. Conversas telefônicas interceptadas, acesso não consentido a computadores, leitura não autorizada de cartas pessoais, dentre outros episódios, dão início a todo um processo de investigação e consequente correção que ambiciona conduzi-los a uma determinada normalidade.

Quanto às justificativas adotadas pelos pais, os relatos evidenciam um sem- -número de explicações que vão desde a autoexpiação até a manifestação de medos que se relacionam à ideia de um estilo de vida homossexual baseado no descontrole e no excesso. Interessante notar que em uma suposta busca para livrar os filhos das possíveis situações de violência que eles possam vir a estar expostos no espaço da rua, ou seja, fora do domínio da proteção familiar, os pais acabam por antecipar tais violências. Isto, na maioria dos casos, conforme já foi exposto aqui, provoca danos ainda maiores do que quando perpetradas por outros indivíduos. Em outros termos, em função da justificativa de não quererem ver os filhos expostos a situações de violência, esses pais infligem contra eles um rico repertório de violências. Os medos encontram eco em representações historicamente atribuídas à homossexualidade. O conteúdo dessas representações geralmente é estruturado por concepções religiosas e médicas arraigadas no imaginário social.

A percepção da homossexualidade como pecado (Trevisan, 2000TREVISAN, João Silvério. 2000. Devassos no paraíso. São Paulo: Record. 585 p.) ainda se mantém presente na forma com que os pais lidam com essa prática, um entendimento que está fortemente amarrado à noção corrente de que a homossexualidade viola as leis divinas por não ter por projeto primordial a procriação, ou seja, a manutenção da família. Prática hedonista, portanto exortada do convívio dos homens, a sodomia (homossexualidade), representada nos escritos sagrados como uma prática nefanda, digna das mais severas penalidades dos homens que administram a lei de Deus, vem sendo permanentemente acionada quando os pais tomam conhecimento de que o filho é homossexual. Esse discurso foi identificado em algumas situações, como na história de E. (22 anos), que nos revelou ser sua mãe fortemente influenciada por essa formação religiosa: "ela tem uma formação religiosa e tal, assim, como eu tenho que entender isso, eu tenho que notar um esforço dela pra me compreender, né?" (E., 22 anos). P. (23 anos), aluno do curso de Letras, também chamou a atenção para essa influência religiosa na sua vida:

  • Eu venho de uma família muito tradicional, católica. Então, assim, toda vez que esse assunto surgia na minha casa, sempre era tratado de uma forma muito pejorativa, muito negativa, né? Então, assim, por amar muito os meus pais, tinha aquele medo de decepcionar muito grande, né? (P., 23 anos).

Essas percepções religiosas são adotadas como tentativas de encontrar respaldo para as angústias que se produzem em face da sexualidade do filho. Elas são reforçadas pelos medos de possíveis reações que a homossexualidade possa acarretar a ele mesmo e à sua família. Dessa maneira, é como se o grupo doméstico buscasse amparo em algo tido como maior, de maior credibilidade, como a Bíblia, para revigorar a necessidade de o filho homossexual "retornar" ao caminho tido como certo, no caso aqui, o caminho da heterossexualidade.

Igualmente atuais são as representações da homossexualidade como doença. Essas imagens estão fortemente associadas às concepções higienistas que circularam entre os médicos do século XIX, principalmente pela psiquiatria e a medicina oitocentistas, as quais entendiam a homossexualidade como uma patologia passível de cura (TrevisanTREVISAN, João Silvério. 2000. Devassos no paraíso. São Paulo: Record. 585 p., 1986; Fry & MacRae, 1991FRY, Peter & MACRAE, Eduard. 1991. O que é homossexualidade? Rio de Janeiro: Ed. Brasiliense. 125 p.; Green, 2000GREEN, James N. 2000. Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: Ed. Unesp. 541 p.).

Ao lado dessas concepções, encontramos ainda uma noção de homossexualidade como um conjunto de práticas sexuais conscientemente (mal) escolhidas por um dado indivíduo a partir de um cardápio de alternativas que inclui aquelas vistas como normais e moralmente corretas. Disto deriva a ideia de que a homossexualidade é "uma safadeza", "putaria" ou mesmo, apenas, uma "opção", podendo ser vaidosamente manipulada pelos indivíduos que a praticam. Como podemos ver abaixo, alguns entrevistados são agredidos pela ação simultânea dessas percepções equivocadas.

  • Meu pai achava que aquilo era doença, [está] convicto de que é doença, acho, meu pai achava que era doença, minha mãe achava que era safadeza, era a divergência, até discutiram se era doença ou era safadeza (N., 19 anos).

  • Foi o seguinte, tipo assim, você sempre chega em casa, eu pelo menos, dou um beijo na minha tia, dou um beijo no meu tio e tal, entendeu, minha prima também que tem 10 anos e é a filha deles, e...de repente, eu chegava, minha tia chegava e não falava comigo; eu chegava e meu tio se distanciava, aí minha tia não queria mais lavar minhas roupas (V., 22 anos).

Embora tenhamos observado sensíveis mudanças no tratamento dispensado à homossexualidade, sobretudo em função dos avanços do Movimento LGBT, ainda encontramos equívocos em relação ao seu entendimento, principalmente quando considerada por diferentes gerações. É patente, ainda em nossos dias, como a homossexualidade é vista como algo passível de correção, porque associada a noções de desvios e perversões que supostamente implicam riscos à normalidade social. A manutenção dessas concepções está intimamente vinculada à apropriação de uma dada tradição psicológica pelos pais. A ideia de que o que está "errado" teria origem em uma trajetória psicossocial acidentada, principalmente em função de eventos que teriam ocorrido ainda na infância, é uma explicação comums elaborada pelos familiares. De acordo com essas convenções culturais, a "origem da homossexualidade" resultaria de um histórico de má relação com os pais, sobretudo o pai; acompanhar brigas constantes em casa; ser socializado em um lar com muitas mulheres, como podemos inferir do relato que se segue.

  • Ele [o pai] resolveu realmente fazer que isso fosse normal pra ele, porque nunca foi. Sempre foi totalmente anormal, bizarro até, entendeu? E aí a gente começou com uma coisa de: "ah, porque sempre tive muitos problemas na infância e tal, com meu pai e minha mãe". Então, ele falou: "eu quero que você faça, eu acho legal que você faça uma terapia, você irá a um analista, pra ela resolver o que te... porque eu acho que está mal resolvido na sua cabeça, e aí você pode decidir com segurança o que você quer" (V., 19 anos).

Simultaneamente, vários pais se sentem responsabilizados pela "escolha" que os filhos fazem da sua sexualidade. Essa responsabilidade se reflete na "culpa" que muitos sentem quando descobrem que o filho não atende às expectativas de gênero esperadas para o seu sexo biológico. Segundo os jovens entrevistados, também é persistente entre seus pais a ideia de que poderiam ter feito tudo de forma diferente, que deveriam ter reparado isso antes.

Mesmo quando parecem "aceitar", os pais ainda mantêm um intransigente esforço de controle em relação aos jovens que se assumem em casa. Nessas situações, a vergonha aparece como um componente que modela sua reação. Muitos exigiram que seus filhos tivessem um comportamento considerado adequado após tomarem consciência do fato, principalmente quando eles entrassem em contato com o restante do grupo doméstico. Essa exigência, que a família tende a chamar de "cuidado", pôde ser observada na fala de W. (22 anos), que recebeu esse pedido dos pais.

  • Pra que eu me comportasse perante a família, que ele não queria ver meu nome na rodinha de chacotas, porque junta parentes, essa coisa toda, e vêm as piadinhas de salão, um sacaneando o outro, e o medo dele era esse, de eu estar dentro disso, aí ele usava a justificativa de que não saberia como me defender, ele iria brigar pra me defender (W., 22 anos).

Saggese (2009)SAGGESE, Gustavo Santa Roza. 2009. Quando o armário é aberto: visibilidade e estratégias no coming out de homens homossexuais. Dissertação de Mestrado, IMSUERJ. lança mão da noção de covering presente em Yoshino (2006) para explicar as estratégias de encobrimento que pairam sobre os homens homossexuais pesquisados por ele depois do processo de coming out. Essas estratégias estão fortemente vinculadas à noção de "respeito", que muito se aproxima da ideia de "cuidado", através das quais esses pais buscam controlar a informação sobre a homossexualidade dos seus filhos. Procurar não "dar na vista", como sugere Yoshino (apud Saggese, 2009SAGGESE, Gustavo Santa Roza. 2009. Quando o armário é aberto: visibilidade e estratégias no coming out de homens homossexuais. Dissertação de Mestrado, IMSUERJ.), se constitui em uma nova possibilidade de relacionamento com a família, sendo a orientação sexual conhecida, mas nunca divulgada, o que promove novos repertórios de contato com o grupo familiar, agora baseados na evitação, sobretudo de demonstração de afetos par com parceiros na frente da família. A noção de respeito que passa a estruturar essas novas relações se relaciona a uma ideia de defesa da honra familiar e de evitação de situações que possam trazer vergonha ao grupo doméstico. Nesses termos, a homossexualidade passa a se constituir como um "segredo íntimo familiar", coisa de que a família procura não falar e que somente costuma ser mencionado em situações de conflito.

Conquanto abundem os episódios de violência e intolerância protagonizados por familiares, alguns relatos nos revelaram que na família ainda podemos encontrar relações baseadas na solidariedade e na reciprocidade. Em algumas trajetórias, outros membros da família protagonizaram episódios em que esses jovens puderam encontrar conforto e segurança depois de terem "saído do armário". Nessas relações, os irmãos figuram como importantes elementos responsáveis pela manutenção dos vínculos de respeito e auxílio mútuo entre eles e a família.

  • Olha, eu tinha uma imagem dele antes disso tudo, e eu via minha vida lá antes disso tudo, de ninguém saber, e eu vi meu irmão depois que ele soube, e é a mesma pessoa, continua a mesma coisa, só que agora ele é mais calmo, ele se abre muito mais do que se abria antes, mas o carinho, o respeito, o carisma, o orgulho, o amor são os mesmos, ele foi a pessoa com quem eu mais me deslumbrei, que mais me...meio que me emocionei, me tocou, de ver que eu tinha um ser humano... gigantesco dentro de casa, e não sabia. Eu precisei contar pra ele, me revelar também, ele tinha tudo dentro dele já, de uma forma quietinha e, quando eu contei, ele se mostrou (W., 22 anos).

  • Eu achei que iria ganhar um pé e ganhei um ombro do meu pai. A gente cria um mito gigantesco dessa relação e eu fiquei muito feliz com isso, e a nossa relação foi reconstruída a partir daquele momento, tanto da minha mãe, do meu pai e do meu irmão continua a mesma coisa que era: muito boa! (W.).

Nesses casos, a relação pôde recriar uma rede de proteção capaz de inserir por completo os jovens numa nova dinâmica familiar. Em geral, os irmãos aparecem como os principais protagonistas dessa nova realidade que começa a se esboçar. As trajetórias talvez apontem para transformações significativas pelas quais estão passando as juventudes urbanas, entre as quais, poderíamos arriscar, a de maior sensibilidade em relação ao tratamento dispensado às pessoas homossexuais.

Considerações finais

Esta pesquisa tratou das diferentes formas de violência sofridas por jovens homossexuais masculinos quando diante da "descoberta" da homossexualidade por seus familiares. Vimos que as relações familiares são marcadas por tensões que são acentuadas quando do reconhecimento de um filho homossexual. O reconhecimento da homossexualidade pelos familiares e, sobretudo, entre eles mesmos, movimenta entre os jovens todo um conjunto de medos que se expressam em formas concretas de violência, sofrimento psíquico e incertezas.

A casa, ou seja, o espaço onde são estabelecidas as relações mais íntimas entre os jovens e seus familiares, apresenta-se como um cenário privilegiado para a realização desses conflitos. Tentamos compreender como os jovens lidam com as agressões e os sofrimentos que cotidianamente recaem sobre suas vidas, indo de encontro a um esforço coercitivo de seus familiares para os adequarem à norma sexual hegemônica.

Várias são as estratégias empregadas pelos pais para contornarem esse "problema". As violências físicas e psicológicas aparecem como modalidades constantemente adotadas para este fim. Simultaneamente, tais estratégias convivem com os sofrimentos dos jovens que se situam entre a publicização ou o ocultamento da sua orientação sexual. Estas questões colocam a "casa" como espaço marcado por contradições, desconstruindo a noção corrente de que ela seria um lugar da segurança e refúgio.

Por fim, esperamos ter contribuído para o entendimento dessa violência que, como vimos no início deste artigo, vem despertando cada vez mais a atenção dos pesquisadores do campo de estudos de gênero e sexualidade no Brasil. Diante dessa realidade tão multifacetada, nossas análises oferecem apenas pistas para uma compreensão ainda em construção dos processos sociais que trazem com eles os sentidos da família e a sua influência no desenvolvimento da construção de si e da relação com o mundo dos jovens que se identificam como homossexuais.

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  • 1
    Este trabalho foi feito a partir de dados da pesquisa "Violência antigay na universidade", coordenada pelo professor Dr. João Bosco Hora Góis, no âmbito do Programa de Estudos Pós-graduandos em Política Social, sob os auspícios do CNPq.
  • 2
    Nesta parte sobre as dimensões metodológicas deste trabalho, o uso da primeira pessoa diz respeito à participação de um dos pesquisadores - Thiago Barcelos Soliva - no processo de construção das entrevistas. Agradeço, mais uma vez, a generosidade do professor Dr. João Bosco Hora Góis na orientação do trabalho. Minha entrada na universidade, quando tinha 21 anos, me proporcionou acesso não somente a novas informações, mas também a pessoas que conviviam com a homossexualidade de uma forma que até então eu, morador de um município pouco populoso da Baixada Fluminense (estado do Rio de Janeiro), não conhecia. Meu interesse científico pela homossexualidade surgiu nesse momento e comecei a pesquisar textos que discutiam, sobretudo antropologicamente, esta questão. Foi a partir deste interesse que busquei professores dentro da universidade com quem pudesse estabelecer uma relação de pesquisa. Conheci o professor João Bosco através de um artigo seu que havia lido na Revista Gênero. Tomei coragem e me apresentei a ele. Agendei uma reunião em sua sala, expus meus interesses de pesquisa e, prontamente, ele me disse que estava iniciando uma investigação sobre violência e homossexualidade. Disse ainda que de imediato eu não contaria com uma bolsa, mas perguntou se eu aceitaria participar. Aceitei sem pestanejar e no prazo de um ano participei como voluntário, captando informantes para a pesquisa e tomando parte no processo das entrevistas. Logo consegui uma bolsa, podendo me dedicar de forma exclusiva às atividades de pesquisa. Como bolsista de Iniciação Científica, dei continuidade às entrevistas e às discussões sobre os resultados do estudo. Simultaneamente a esse processo, com mais tempo em função da bolsa, envolvi-me ainda mais na vida universitária, participando de festas e reuniões de grupos de militância acadêmica e LGBT.
  • 3
    A UFF foi criada em 18 de dezembro de 1960 pela Lei nº 3.958. Hoje, esta universidade é a segunda maior instituição de ensino superior do estado do Rio de Janeiro. Ela está dividida em escolas, faculdades e institutos espalhados pela cidade de Niterói. Possui ainda cursos em municípios como Campos, Rio das Ostras, Angra dos Reis etc. Os cursos oferecidos na cidade de Niterói estão dispostos majoritariamente em três campi, onde está concentrada a maior parte de sua estrutura docente - Campus do Gragoatá, Campus da Praia Vermelha e Campus do Valonguinho.
  • 4
    A exiguidade de interlocutores de cor preta pode ser um indicador da diferença de acesso entre brancos e negros ao ensino superior brasileiro.
  • 5
    Quase todos esses jovens tinham no momento da pesquisa bolsas de iniciação científica, monitoria ou de outra natureza relacionadas às rotinas acadêmicas. Nenhum deles possuía vínculo empregatício com empresas ou demais instituições.
  • 6
    Traço aqui uma aproximação com a obra de Gilberto Velho (1994)VELHO, Gilberto. 1994. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 149 p. a propósito dos projetos. Para este autor, os projetos correspondem à margem de manobra existente nas sociedades para alternativas e opções individuais.
  • 7
    Como mostra Elizabeth Badinter (1993)SAGGESE, Gustavo Santa Roza. 2009. Quando o armário é aberto: visibilidade e estratégias no coming out de homens homossexuais. Dissertação de Mestrado, IMSUERJ., esses estereótipos são construídos a partir do exame ultrassom. Em outros termos, quando os pais tomam conhecimento do sexo biológico dos filhos, eles não poupam esforços para construção de técnicas de diferenciação (roupas, brinquedos etc.) incentivadores desses projetos de vida para a criança que ainda está para nascer.
  • 8
    As noções de homofobia, violência homofóbica e homofobia latente vêm sendo objeto da preocupação de pesquisadores que buscam considerar estes termos em suas implicações sociológicas e culturais. Para Gail Mason (2002 apud Saggese, 2009SAGGESE, Gustavo Santa Roza. 2009. Quando o armário é aberto: visibilidade e estratégias no coming out de homens homossexuais. Dissertação de Mestrado, IMSUERJ.), a homofobia não pode ser considerada uma questão particular ou individual, sem se levarem em conta outras especificidades e a produção de diferenças, como cor, gênero e classe, que incidem sobre a construção da violência. Para esta autora, seria melhor falar em uma "violência relacionada à homofobia" do que em "violência homofóbica", uma vez que a sua experiência nunca está somente relacionada à homossexualidade, mas também a outros marcadores que incidem sobre ela.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2014

Histórico

  • Recebido
    28 Abr 2013
  • Aceito
    10 Jul 2014
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