Open-access "Você tem o jeito do seu pai": narrativas sobre paternidade – entre ausências, insultos e vergonhas

"You have your father's ways": narratives about fatherhood – between absences, insults and shame

"Tienes las costumbres de tu padre": relatos sobre la paternidad, entre ausencias, insultos y vergüenzas

Resumo

Este artigo tem por objetivo discutir a perspectiva de filhos que rejeitam ter a “cara” e/ou o “jeito” do pai ausente, com foco no sentimento de vergonha, que emerge em momentos de conflitos. Procuramos entender os impactos da falta do pai nos projetos individuais dos filhos. A metodologia utilizada foi a entrevista em profundidade, realizada com jovens da região sudeste do Brasil. Os resultados sugerem que a vergonha sentida pelos filhos, ao serem negativamente comparados com seus pais, ocasiona um pensar sobre si na tentativa de “melhorar” suas condutas para se afastar da figura paterna, interpretada como repulsiva.

Palavras-chave:
emoção; paternidade; família; vergonha

Abstract

This article aims to discuss the perspective of children who reject having the “face” and/or “way” of their absent father, focusing on the feeling of shame that emerges in moments of conflict. We seek to understand the impacts of the absence of a father on the individual projects of children. The methodology used was an in-depth interview, conducted with young people from the southeast region of Brazil. The results suggest that the shame felt by children, when negatively compared to their fathers, causes them to think about themselves in an attempt to “improve” their behavior in order to distance themselves from the father figure, interpreted as repulsive.

Keywords:
emotion; fatherhood; family; shame

Resumen

Este artículo pretende discutir la perspectiva de los niños que rechazan tener el “rostro” y/o el “modo” de su padre ausente, centrándose en el sentimiento de vergüenza que emerge en los momentos de conflicto. Buscamos comprender los impactos de la ausencia del padre en los proyectos individuales de los niños. La metodología utilizada fue una entrevista en profundidad, realizada con jóvenes de la región sureste de Brasil. Los resultados sugieren que la vergüenza que sienten los hijos, al compararlos negativamente con sus padres, les hace pensar en sí mismos en un intento de “mejorar” su conducta para distanciarse de la figura paterna, interpretada como repulsiva.

Palabras clave:
emoción; paternidad; familia; vergüenza

Introdução

Este artigo aborda o tema das paternidades-ausentes sob a ótica da antropologia das emoções, focando especificamente nos filhos, a posição que ocupam na família e seus projetos individuais com base na falta do pai. A reflexão apresentada foi desenvolvida a partir dos resultados da dissertação de mestrado de autoria de Maria Eduarda Tamate, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sob orientação da Profa. Dr. Claudia Barcellos Rezende.1 As duas autorias trabalharam, igualmente, na sistematização de dados, discussão e elaboração teórica, desenho, redação e revisão deste artigo.

Os depoimentos examinados nesta pesquisa foram coletados com onze pessoas pertencentes a segmentos ascendentes de camadas populares, oito mulheres e três homens jovens com idades entre 20 e 30 anos, das quais três pessoas se autodeclaram pretas, duas pardas e seis brancas. Residem em diferentes regiões do Sudeste, dividindo-se entre Taubaté e São José dos Campos, Vale do Paraíba do estado de São Paulo, e a Zona Norte carioca. Elas aceitaram ser entrevistadas sobre os aspectos da relação conflituosa, de inconstância e ausência com os pais.2 Tais interlocutores não conviveram com os pais, ou conviveram muito pouco na infância, sendo criados por uma figura materna. Todos eles foram sujeitos de direito ao benefício estabelecido pela Lei de Alimentos (5.478/1968).

Para este artigo, cujo objetivo central é discutir histórias de ausência, rejeição e vergonha como pistas para compreender formas de paternar no Brasil, escolhemos três casos: Nina, Júnior e Harper.3 Seleção que se justifica porque o discurso emocional dos entrevistados, na percepção e interpretação da paternidade, dava atenção à noção de “insulto”, que ocasiona a emoção de “vergonha” no interior das relações estabelecidas com suas mães, no seu cotidiano, quando elas procuravam, negativamente, compará-los com seus pais ausentes, em termos de “jeito” e “traços de personalidade”, com a finalidade de reprovar certas atitudes e comportamentos. Além disso, no conjunto mais amplo das entrevistas, entendemos que essas três experiências trouxeram com maior destaque as dinâmicas de conflitos intrafamiliares.

As narrativas de Nina, Júnior e Harper convergem na recusa dos “traços herdados do pai”. A recusa em ter “a cara”, o nome ou o “jeito” paterno revela uma chave de análise que instiga a investigação da vergonha associada a um pai cujas ações impactaram níveis de qualidade na vida do filho. Para nenhum deles o pai representa um modelo a ser seguido. As pessoas assimilam a experiência de serem filhos de alguém moralmente questionável - sobretudo pela transgressão significativa das responsabilidades parentais, sendo os pais entendidos como negligentes e irresponsáveis -, e evitam, por vergonha, qualquer tipo de similaridade e repetição comportamental que possam ser interpretadas como “do pai”. Ou seja, esse movimento informa como os filhos percebem e se relacionam com a figura do pai, frequentemente evitando associações que podem remeter a experiências de negligência ou abandono. Essa atitude pode ser uma estratégia de proteção emocional, distanciando-se de um modelo parental percebido como negativo ou desleixado.

Essas narrativas são fontes valiosas para iluminar experiências particulares e discursos emocionais que estão entrelaçados a processos constantes de reelaboração do self e dos laços familiares. Narrativas sobre si e situações especificamente vividas com pais e mães são vistas por nós como pistas interligadas que indicam processos sociais e maneiras de falar sobre a experiência social. Desse modo, compreendemos que tais narrativas formam “testemunhos” e “fragmentos” dos processos sociais que vivenciam. Nesse caso, evidenciam-se os impactos da falta do pai nos projetos individuais dos filhos.4 O conceito de testemunho é mobilizado aqui como o ato de falar sobre situações culturalmente inscritas e atestadas pelos sujeitos da pesquisa, em que a fala (testemunho) constrói contexto social e expectativa sobre o futuro (Das, 2011).

Além disso, as narrativas revelam o potencial micropolítico dos discursos emocionais (Lutz; Abu-Lughod, 1990). Esses discursos podem aparecer tanto na reafirmação quanto na indagação ou reinvenção de convenções relacionadas à família, que incluem a filiação e o binômio maternidade-paternidade. Quer dizer, os discursos emocionais dessas pessoas podem servir como uma forma micropolítica de afirmação e/ou questionamento de hierarquias, especialmente entre aquelas que procuram estabelecer uma superioridade moral. Essa atitude não implica consolidação, reformulação ou subversão radical de relações, é, na verdade, uma confirmação e/ou contestação de valores mais sutis, que pode ocorrer em situações sociais particulares, como no âmbito doméstico. Apesar de ser uma forma discreta e localizada, não é menos imbuída de poder.

Nesse sentido, perguntamo-nos: estariam as emoções impregnadas de política? Esse questionamento perpassa os trabalhos de Catherine Lutz (1986) e Sara Ahmed (2014), que, preocupadas com a relação entre linguagem e emoção, argumentam que o foco principal para o estudo da emoção pode ser a política da vida social, em vez da psicologia do indivíduo. De acordo com as autoras, as emoções devem ser entendidas como formações culturais e morais atravessadas por relações de poder e pertencimento, construtos que dependem diretamente da cultura para se expressar.

Apoiamo-nos na abordagem segundo a qual as emoções têm caráter situacional: não só constituem e ordenam as relações sociais, como também são significados dessas relações (Rezende; Coelho, 2010). Portanto, podem ser entendidas como uma forma de discurso ou linguagem, um método de conexão entre os indivíduos no mundo que está ligado a características da estrutura social.

“Devido a essa capacidade de dramatizar relações sociais, o discurso sobre as emoções, a expressão de emoções e o discurso emotivo são dotados de um potencial micropolítico para a legitimação ou contestação de hierarquias [...]” (Oliveira, 2019:144).

Assim, privilegiamos em nossa abordagem a dimensão micropolítica das emoções, mais estritamente a “vergonha”, discutindo outros fenômenos correlacionados, como ausência paterna e as noções atribuídas ao “sentir-se insultado pela própria mãe”, entendendo que os discursos emocionais são capazes de “...desempenhar um trabalho de inclusão ou exclusão social, afirmando o pertencimento ou não de uma pessoa a um dado grupo, e reiterando ou desestabilizando convenções culturais e formas de ordenamento social.” (Oliveira, 2019:144).

Temos interesse em relacionar emoções e discurso, propondo uma reflexão sobre os sentimentos envolvidos no contexto da ausência paterna. Por isso, o relato narrativo é crucial. É na experiência contada por intermédio das emoções que os papéis de gênero e os paradigmas da paternidade brasileira são enunciados. Atentarmo-nos à visão do narrador que conta acontecimentos da sua história de vida considerados relevantes é essencial para entender os impactos da “falta do pai” nas composições dos projetos dos sujeitos.

Recontando um evento, a ação seletiva da memória é afetada por preocupações presentes e expectativas futuras. O que foi escolhido para ser dito diz respeito à agência do narrador, à relevância dos acontecimentos e às suas emoções, pensamentos e motivações num tempo e local particulares. Desse modo, a entrevista acaba sendo “...uma situação social que oferece um espaço privilegiado - ainda que não necessariamente o único - para a verbalização de sentimentos/ressentimentos associados a conflitos vivenciados na esfera familiar.” (Oliveira, 2019:168).

De fato, o contexto da entrevista proporciona a enunciação dos discursos emocionais, pelos quais a mãe e o pai são elaborados como pessoas-personagens de grande importância nos depoimentos de nossos interlocutores. Ao falarem deles, tratam também das relações sociais e dos sentimentos envoltos nas dinâmicas de conflito. Quando comentam sobre a ausência paterna, falam da sobrecarga materna, das dinâmicas de gênero presentes na criação dos filhos e do notável descompasso entre a proposta do discurso jurídico e o discurso cultural, que encaram de maneiras tão diferentes a responsabilidade materna e a paterna no contexto brasileiro (Cúnico; Arpini, 2014; Finamori, 2012, 2013; Fonseca, 2004, 2007; Gomes; Resende, 2004).

O texto está estruturado em três partes. A primeira apresenta uma discussão teórica sobre “família” no ocidente e os sentidos atribuídos à maternidade e à paternidade. A seguir, expomos a renúncia às heranças mais ou menos visíveis do pai ausente, explorando como a repulsa a ele se manifesta através da recusa do sobrenome do pai e na preocupação com a semelhança comportamental. Na terceira parte, debatemos a noção de “vergonha” evocada por nossos interlocutores para descrever conflitos com suas mães quando comparados com o “jeito” do pai, apontando para sua relação com outras categorias, como a concepção de “insulto”.

Sobre os sentidos de ™ser pai∫

Durante uma visita a uma amiga, que tem 26 anos e está no puerpério do primeiro filho, nossa veia pesquisadora gritou. Ao longo de algumas horas, enquanto ela se desdobrava para dar conta da criança e da casa, o pai, da mesma idade, passou o tempo todo no rotineiro descanso, deitado no sofá, sem maiores preocupações com as atividades do filho, fumando. A resposta para a pergunta “como está sendo a paternidade?”, escancarou o cerne da discussão: “a paternidade é fácil, mais fácil do que estavam dizendo”. Após alguns segundos de silêncio, ele justificou as facilidades da paternidade: “Mas nem dá para eu fazer muita coisa. Ele (o bebê) fica com ela porque mama. Mãe, né?”.

Mesmo diante de um pai fisicamente presente, a situação traduz o impacto cultural da representação nos discursos de paternidade e a dicotomia entre maternidade-natural e paternidade-social, em que predomina a ideia de menor relevância masculina na criação do filho em nome do caráter “natural” da maternidade, propagada pela própria ciência (Laqueur, 2001) e disseminada no direcionamento dos assuntos sobre a reprodução, cuidado e parentalidade às mães e mulheres (Rezende, 2012).

Desde a publicação da obra Parentesco americano: uma exposição cultural (Schneider, 2016) - publicado pela primeira vez em 1968 -, acompanhamos as críticas à teoria de parentesco predominante até aquele período no qual reprodução biológica, aliança e descendência eram aspectos centrais. Paralelamente, o feminismo e os estudos de gênero, questionando visões naturalizantes do parentesco, trouxeram impactos na reconfiguração dos campos de estudos de família, gênero e sexualidade, sobretudo o chamado feminismo de segunda onda ou da igualdade (dos anos 1960-70). Esses movimentos interpelaram concepções naturalizantes da mulher (ou do “ser feminino”), em especial a ideia da maternidade como locus de afirmação do poder feminino, e da domesticidade a ela associada, como destino privilegiado da mulher, que advém da íntima associação entre mulher e “natureza” (Sorj, 1992; Scavone, 2001).

Esse debate fundamentou o processo de reconfiguração do parentesco na antropologia a partir do final do século XX, marcado pelo questionamento de determinadas perspectivas normativas e biologizantes, vistas então como insuficientes, tanto para se compreender as configurações familiares em sociedades não ocidentais, quanto no contexto euro-americano. Em outros termos, demonstrou-se que a família conjugal, reprodutiva, nuclear, heterossexual e monogâmica não é tão hegemônica nas “sociedades ocidentais” como pensado outrora pela antropologia clássica.

No Brasil, há várias teorias e trabalhos empíricos que evidenciam a transformação das abordagens antropológicas da família como unidade natural, associada a processos biológicos, em produto histórico, político e relacional (Fonseca, 2007). O modelo brasileiro de maternidade, por exemplo, passou a ser pauta na literatura antropológica a partir dos anos 1990, diante das contribuições da teoria feminista, mas também dos avanços em políticas públicas relacionadas aos direitos da mãe e de sua prole, da judicialização da paternidade com os testes de DNA e da inserção das novas biotecnologias que “[...] colocaram em questão a dimensão biológica da definição de parentesco ao apontar para formas de reprodução nas quais seria possível haver uma ‘confusão’ dos lugares tradicionalmente ocupados por pais, mães e filhos na nossa sociedade”. (Aureliano, 2018:371).

Em nosso trabalho, observamos que todos os entrevistados (filhos) foram criados por uma ou mais figuras maternas que assumiram o compromisso de educar e proporcionar bem-estar, acometidas de uma carga que se dividiria por dois. O tom de admiração da trajetória materna é recuperado nas falas que relatam a admiração dos filhos frente à realidade financeira mais tortuosa sem a presença do pai, assim como somos acostumados a ouvir quando se louva a maternidade, a “mãe guerreira” cultivada no imaginário social.

Não pretendemos aqui duvidar da coragem e da garra feminina ao lidar com a carga dobrada, conciliando trabalho e cuidado dos filhos. Porém, propomos a desnaturalização da maternidade e a problematização dos moldes estabelecidos para o exercício da paternidade. As inúmeras dificuldades relatadas em relação à pressão da maternidade e os direitos reprodutivos das mulheres não são fruto de revolta contra o suposto “instinto”, designado naturalmente e naturalizado no corpo, mas da sobrecarga do cuidado definido socialmente pelo gênero (Martin, 2006).

O significado da paternidade para os homens é uma experiência à parte, é mais um dos fatos da vida, não um valor vital de realização pessoal. O início da paternidade ocorre com o nascimento do bebê, já que os pais não se veem como parte da gestação, mesmo que atualmente descrevam maior envolvimento afetivo do que pais de gerações passadas. Por exemplo, no relato de Júnior, o pai aparece na memória durante determinadas tarefas parentais, como brincadeiras e desenvolvimento; enquanto alimentação e infraestrutura, aparecem como de responsabilidade materna. Por isso, adotamos uma postura crítica em relação à paternidade que, para ser suficiente, basta estar presente, já que “poderia ser pior”. A frase é evocada quando os filhos entrevistados citam práticas de cuidado cumpridas, contrariando as expectativas, como o pagamento em dia da pensão alimentícia e uma ida ao médico.

Para esse trabalho, é importante destacar a dimensão biológica do parentesco, sem, contudo, tomá-lo como dado por natureza. Durante muito tempo, a consanguinidade foi considerada como fato natural. Nas últimas décadas, algumas pesquisas trouxeram novos olhares sobre cuidado, maternidade e paternidade na realidade brasileira, tomando a reprodução para além da procriação (Fonseca, 2004; Finamori 2012, 2013; Fernandes, 2021). Nesses estudos, destacam-se transformações recentes no cenário social brasileiro nas relações de gênero, a exemplo do significativo avanço civil nos direitos das mulheres e dos filhos e das críticas às convenções morais inflexíveis que dão lugar a valores recentes centrados na realização pessoal, evidenciando dinâmicas de negociação nas relações matrimoniais.

Segundo Cláudia Fonseca (2004; 2007), à medida em que as convenções morais inflexíveis deram lugar a valores recentes centrados na realização pessoal e emocional, as relações matrimoniais passaram a ser negociáveis. Assim, as concepções sobre a família são alteradas e marcadas pela ênfase crescente na escolha e na afeição no parentesco. Com o afeto no centro dessa nova moldagem familiar, algumas mudanças se destacam, e esse é o caso do status social da adoção. A família composta por filhos adotados, antes estigmatizada como ilegítima por não gozar da consanguinidade, hoje é chamada de “verdadeira família” por se basear exclusivamente no afeto, em filhos escolhidos voluntariamente por seus pais (Fonseca, 2002). A afeição independe do biológico, mas este ainda é altamente valorizado quando falamos de parentesco. Não à toa, o direito filial brasileiro tem como lastro principal o reconhecimento obrigatório da paternidade por DNA. Uma vez determinado o vínculo biológico, o pai é acometido das responsabilidades civis, independentemente de laço afetivo.

No contexto brasileiro, o Código Civil determina que amar o filho é opcional, mas cuidar é dever civil. Na relação entre parentalidade e exame de DNA, Claudia Fonseca (2004) mostra o papel do biológico na definição da paternidade. Com resultado positivo, a obrigação é definida, mas o vínculo afetivo pode ser criado, confirmado ou negado. Em caso de resultado negativo, o suposto pai é absolvido da responsabilidade. Caso tenha registrado a criança, o laço institucional e afetivo pode ser desfeito em nome do “direito à verdade” da criança em saber a identidade do pai biológico. Apesar de voluntário e irrevogável, o Código Civil de 2003 (Brasil, 2003) também assegura o direito da contestação da paternidade dos filhos nascidos da união.5 Em caso de “má-fé”, o pai enganado tem o direito ao uso do exame de DNA para revogar a paternidade, apesar de a atitude ser desencorajada pela justiça.

A relação “pai-marido” está presente tanto na fala dos entrevistados, quanto na prática da “adoção à brasileira”6 e no Código Civil. Até 1992, a legislação determinava que filhos nascidos no período de união conjugal fossem registrados como do marido, a conhecida separação entre os “filhos do casamento” e os “filhos bastardos”. Caso um pai que registrou um filho não biológico, reconsidere a ação, por achar importante que seu filho reivindique seus direitos junto ao pai biológico, só é aceito se colocar os interesses do filho em primeiro lugar, enfatizando a consideração e o cuidado.

Como constata Fonseca (2004), é o caso do “pai de criação”, que renuncia ao filho para que este busque seus direitos em relação ao “pai verdadeiro”. Na “adoção à brasileira”, o pai de criação permanece casado com a mãe, exercendo sua função paterna. Nossos interlocutores também ligaram o laço afetivo e a consideração recebidos do pai ao período de convívio durante a união conjugal. De maneira unânime, relatam que, com o fim do casamento, o pai se afasta dos filhos e o tempo juntos é relembrado não como se “fosse grande coisa”, mas ainda “melhor que nada”. Assim, a paternidade é vista como um vínculo fundamentalmente social que depende da relação com a mãe, isto é, se a relação do casal é abalada ou interrompida, a relação entre pais e filhos é impactada.

De fato, os estudos de paternidade de Sabrina Finamori (2012, 2013) mostram como as práticas de cuidado agem como validadoras de relações de parentesco. São vários os elementos englobados na dinâmica das relações de parentesco que não se baseiam unicamente na realidade biológica: afeto, criação, cuidado e consideração. A família não pode se limitar à partilha de sangue como principal organizador das presenças familiares. As pertenças e os laços são construídos no cotidiano, no esforço mútuo de convivência, pelo qual se observam as negociações situacionais no núcleo familiar (Carsten, 2000).

Nessa lógica, como veremos nos próximos tópicos, os filhos que recusam os traços do pai estão, de certa forma, respondendo a partir da sua identidade ao abandono do pai. A falta de afeto e consideração ecoam no apagamento daquilo que remete à figura paterna. Nas relações não assumidas pelos pais de Nina, Júnior e Harper, por exemplo, a consideração dá lugar ao afastamento, ao desprezo e à vergonha pelo pai.

Heranças

No capítulo CXVI, intitulado “Filho do Homem”, de Dom Casmurro, Machado de Assis descreve com sensibilidade um momento crucial em que Bentinho observa, no filho Ezequiel, gestos que remetem a Escobar: “Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos, como os das mãos e pés de Escobar, ultimamente, até apanhara o modo de voltar a cabeça deste, quando falava, e o de deixá-la cair, quando ria” (Assis, 2019:166). Nesse trecho, o desconforto de Bentinho ao perceber heranças comportamentais - menos visíveis e involuntárias - evidencia a tensão gerada pela presença de marcas que ele preferiria negar. Mesmo sem intenção, o modo de ser do filho revela conexões que desafiavam o desejo de apagar vínculos indesejados.

Essa passagem literária de Machado de Assis encontra eco em contextos contemporâneos, nos quais filhos de pais ausentes ou moralmente reprovados enfrentam o desafio de lidar com heranças que não escolheram, mas que, na ótica de suas mães e familiares mais próximos, os marcam de forma indelével. Esses filhos frequentemente desenvolvem estratégias para recusar essas semelhanças em dois níveis (descritos por eles como mais ou menos visível). No plano das heranças mais visíveis, como a aparência física e o uso do sobrenome paterno, tentam apagar sinais tangíveis da filiação. Já no plano das heranças menos visíveis (ou facilmente visíveis para algumas pessoas, como a mãe) como gestos, comportamentos e modos de falar, o esforço é ainda mais complexo, pois essas marcas são frequentemente reconhecidas e apontadas por outros, de maneira inevitável.

Os relatos de filhos que rejeitam a figura paterna frequentemente incluem expressões de reprovação moral, acompanhadas de dois movimentos principais: a recusa ao uso do nome ou sobrenome paterno e a preocupação com semelhanças comportamentais ou físicas. Neste último caso, através das entrevistas, nossos interlocutores caracterizam verbalmente as semelhanças físicas com seus pais. Em suas narrativas, Nina e Júnior, por exemplo, apontam para presença de heranças mais visíveis e menos visíveis. As mais visíveis incluem semelhanças físicas e o mesmo nome ou sobrenome, enquanto as menos visíveis são as similaridades comportamentais - o “jeito” - percebidas por aqueles que conhecem tanto o pai quanto o filho.

Assim como Bentinho sente o peso das similaridades entre Ezequiel e Escobar, filhos reais enfrentam dilemas identitários ao serem percebidos como herdeiros de pais que rejeitam. A angústia de Bentinho ao reconhecer características de Escobar no filho ilustra como essas heranças podem ser uma fonte de sofrimento e conflito, ainda que as motivações dessa angústia sejam diferentes daquelas apresentadas pelos nossos interlocutores. Nos relatos contemporâneos, filhos expressam desconforto ao serem comparados fisicamente seus pais ausentes, reforçando o papel do corpo como materialização da relação rejeitada. Mais do que isso, a persistência de heranças menos visíveis amplia a tensão, expondo a complexidade das dinâmicas de recusa e aceitação dentro dessas relações.

Júnior, de 30 anos, é o único homem de quatro irmãos. Natural do Ceará, mora com a mãe e a irmã mais velha no subúrbio do Rio de Janeiro desde os dez anos. A mãe se apaixonou pelo pai, também Waldomiro, que tinha ares de “sujeito boa praça”. Permaneceram casados por uma década. O casamento conturbado resultou em uma família “desestruturada”. Apesar disso, o jovem conta que, na infância, o pai “cumpriu um pouco” seu papel; era uma espécie de “mentor”.

Como Waldomiro não possuía trabalho fixo e vivia de bicos, ficava em casa com o filho por mais tempo que a mãe. O tempo que passavam juntos foi marcado pela paixão por filmes, as tardes em vividas em frente à tevê. Entretanto, nesses momentos, também presenciou algumas das infidelidades conjugais: Júnior via o pai saindo com outras mulheres e, mesmo que precisasse esconder da mãe, naturalizou a rotina de traições do seu mentor. Sua mãe veio para o Rio de Janeiro quando soube do abuso sexual de Waldomiro contra a filha adotiva, de 15 anos. Abrigados por uma tia, “veio sem nada, com uma mão atrás, outra na frente”, comentou. O contato com o pai foi praticamente extinto do convívio de todos. O único encontro desde a separação aconteceu em 2013, quando o filho voltou pela primeira vez à cidade natal.

Quando obteve notícias de que o pai teve mais dois filhos, frutos de um casamento posterior, disparou: “Ele faz filho como se fosse algo que não precisava ser cuidado e não é um ser humano no sentido de que você deve ter uma atenção ali”. Depois da viagem, foi juntando as peças sobre o “caráter” do pai e ressaltou: “se existe uma função social de pai e mãe, ou marido e mulher, ele falhou em todas”. O reconhecimento paterno que buscou durante a adolescência foi sufocado pelo desprezo ao pai. Se antes, tinha raiva e associava a paternidade ao merecimento, hoje, o adulto sente desprezo. Júnior considera Waldomiro indigno de compaixão e responsável pelo infortúnio do abandono e do sofrimento causados a ele e sua família.

A resistência ao comportamento do pai se estendia ao trato com as mulheres. Júnior sabia da fama de mulherengo de Waldomiro pelas tias e pela mãe, que diziam que o rapaz caminhava no mesmo ritmo do pai.

E aí que percebi que não quero me tornar meu pai e comecei a trabalhar essa coisa de afastar tudo de mim, tudo que ele representava. Fui pensando sobre e fui tentando me moldar segundo a figura que ele não representava, o que era a antítese. Comecei a perceber a figura da mulher devido à minha mãe e comecei a pensar: “pô, eu não quero fazer uma porrada de filho e abandonar meus filhos, tratar mulher do jeito que ele tratava”.

O impacto desse distanciamento na formação identitária de Júnior expressa um traço contemporâneo da percepção dos homens para com a parentalidade: a resistência ao “antigo” modelo de masculinidade e paternidade (Gomes; Resende, 2004). Eles reivindicam o direito de sentir e de se emocionar, confrontando imposições machistas do papel masculino. Trata-se de um “homem reconciliado”, nascido da revolução paternal, motivado pelo anseio de distanciamento do comportamento de seu genitor (Gomes; Resende, 2004). A figura do homem “encostado”, mas “boa praça” e “mulherengo”, é marcada pela irresponsabilidade. A falta de consideração e de compromisso com a família foi descrita por Júnior como “tudo que não deve ser seguido enquanto postura masculina”.

Foi também durante a adolescência que outra “questão complicada” emergiu: o nome. Compartilhado com o pai, seu nome era motivo de zoação pelos colegas, acostumados com a sonoridade sudestina. Apesar de não ter dito explicitamente à mãe que desejava trocar de nome, no relato assume que as intenções adolescentes eram concretas, representavam “movimento de antítese” ao pai. Recém completados 18 anos, sua mãe questiona se o desejo do filho era mesmo possuir outro nome. Júnior negou:

aí eu falei que não queria. Porque mudando meu nome não seria quem sou, sei lá, acho que nome é uma categoria minha. Queria ser um Waldomiro diferente. Gostei do dilema que isso me trouxe. Acho que, na minha adolescência, era uma parada que pensava bastante. Aí depois, quando ela me perguntou… Acho que, sei lá, mudando meu nome, mudaria quem eu sou. Quem eu sou está em torno desses conflitos que tive. Aí, não quis mudar, encarnei.

O nome é nosso, porém, só na medida em que pertence também aos outros que o identificam conosco (Pina-Cabral, 2008). Se a análise dos nomes de pessoa é a análise das pessoas, atentar aos nomes de filhos de pais ausentes é dar atenção à relação com seus pais. A identidade é construída sobre os vínculos afetivos, logo, o abandono conecta a existência do filho a aspectos particulares do mundo. O impacto da ausência do pai não poderá ser posto de lado, mas sim trabalhado, deslocado, ressignificado e, ainda assim, a história dessa ressignificação será parte central de sua ontogenia.

Nenhum dos filhos relatou intenção de “esquecer” o pai, mas sim deslocar, realocar e ressignificar as experiências negativas da relação. Júnior reivindica sua identidade, mesmo que isso signifique adotar o nome do seu vínculo afetivo mais ausente. “Eu me chamo Waldomiro” e “o meu nome é Waldomiro” é responder a esse nome, ser dono dele. Mais que isso, é um atestado de identidade “eu sou o Waldomiro”.

Nina, de 23 anos, é uma jovem branca, natural da Colômbia, mas mora desde os três anos de idade na Zona Norte do Rio de Janeiro com a mãe e a avó. Quando Nina e sua mãe vieram para o Brasil, o pai ainda vivia com elas. Ele era um “homem preguiçoso, que não fazia nada”. Por isso, sua avó se mudou para a cidade, para auxiliar em seu cuidado. O relacionamento turbulento resultou na separação, pouco tempo depois da vinda ao Brasil. O pai retornou à Colômbia e sua ausência começou a se desenhar: a distância física não resistiu às poucas ligações do pai.

Para Nina, a recusa no uso do sobrenome do pai também é uma confirmação de identidade e pertencimento. Ela explica que não faria sentido usar o nome de alguém que “nunca esteve lá” em detrimento do nome da família que a criou. A reflexão sobre uso do sobrenome materno se intensificou após o último e único contato com o pai, após dez anos, e meses antes de sua morte. Descrita como “a cara do pai”, foi criada junto da comunidade religiosa da mãe, que forneceu suporte financeiro e afetivo durante seu crescimento. Ela assume a ausência do pai em seu nome, reafirmando sua identidade como filha de sua mãe, referida como “melhor amiga, confidente, tudo para mim”.

Nina ficou até os 15 anos sem notícias do pai, até que, pouco antes de morrer, ele decidiu avisar à filha sobre sua condição de saúde. Escolheu uma visita surpresa para anunciar sua morte. Ao falar sobre a vinda do pai ao Brasil, Nina expressa o quanto ficou chateada e inconformada com a atitude paterna. A adolescente de 15 anos, que não sabia da doença, teve uma reação motivada pela revolta de uma visita surpresa em plena madrugada.

Acho que ele foi muito desrespeitoso com a gente. Pela maneira como que ele foi embora, abandonou […]. Nunca ajudou financeiramente também. Eu o via e ficava “cara, quem é essa pessoa? Por que ele quer ficar aqui agora se durante 10 anos ele esteve ausente?” Dos 15 anos da minha vida, 10 eu passei sem ele, então por que agora?

Nina não se recorda do conteúdo da conversa, devido ao choque pela presença do pai, mas se lembra do pedido de desculpas dele pela ausência. Nas duas semanas em que ele esteve perto, Nina chorou todos os dias. Após dois ou três meses de seu retorno à Colômbia, ela recebeu a notícia do seu falecimento. O ressurgimento do pai ausente e sua perda para a morte resultaram em profundo baque emocional. Seus sentimentos se dividiram entre a invasão da súbita presença do pai e o luto pela perda paterna.

Por que ele invadiu a minha vida? Não podia ser eu ir para lá? Ele pedir para minha mãe “Pô, traz ela para cá, para eu ver uma última vez”. Não, ele invadiu a minha vida e depois passou três meses. E eu: “cara, o que foi agora? Nunca tive pai e ele voltou”. Então, o emocional foi abalado, chorava todo dia.

Depois da morte do pai, Nina passou a refletir mais sobre a relação entre os dois. Para ela, o universo paterno foi deixado de lado a ponto de “não fazer sentido” propagar o sobrenome de alguém que só “apareceu do nada, após 15 anos”. Assim, Nina escolheu não usar o sobrenome paterno e adotar o nome de família da mãe, o qual remete às origens judaicas da comunidade em que cresceu, “por questão de pertencimento”.

A similaridade física e comportamental com o pai também foi motivo de angústia. Além de ser “a cara” dele, era chamada de “preguiçosa” e sua avó sempre dizia que ela era “igualzinha ao pai”, o que Nina considera uma “violência gigantesca” para uma criança. Ela se sentia aflita por puxar uma herança paterna, mesmo sem ter convivido com o pai.

Eu sou a cara do meu pai, isso sempre foi pesado para mim. Como que vou me entender como pessoa se não tenho relação com essa pessoa (pai)? E eu olhava para minha mãe e falava: “mãe, eu sou adotada, porque não me reconheço em você”. Quando era criança, era muito pesado porque ficava falando: “eu sou a cara dele, então vou ser ele, só aspectos negativos”.

Nas sociedades ocidentais modernas, laços de parentesco envolvem a ideia de herança de traços físicos e comportamentais como um modo de visualizar conexões (Rezende, 2016). O corpo do bebê é visto como parte da constituição do laço de identidade entre ele e sua família, e a semelhança física colabora para a concepção de pertencimento a uma rede de parentesco. Durante a gravidez, as mães evocam traços físicos familiares que deseja que sejam passados aos filhos. Na preferência pelos olhos do avô ou o queixo da tia, manifestam-se quais relações têm mais significado ou presença que outras.

Nesse aspecto, podemos tomar a negação da similaridade física dos filhos de pais ausentes devido ao peso que os traços físicos possuem. Se a aparência semelhante pode significar um modo de continuidade das relações familiares (Rezende, 2016:235), para alguém que foi abandonado pelo pai, ver em si a imagem do mesmo pode ser sinônimo de confusão e conflito.

Se o pai não é um modelo a ser seguido, eles buscam identificar a experiência de vida que envolve a figura paterna para evitar qualquer tipo de similaridade e repetição comportamental que venha dela. Esse movimento pode ser caracterizado pela recusa da prole a se ver como prisioneiros de traços que não são supostamente autênticos porque emanam sentimentos e situações passadas impostas por terceiros.

Ainda que estabeleça um afastamento claro daquilo que “herdou” do pai, Nina retrata sentimentos contraditórios a respeito da relação com o pai. A jovem conta que, se não fosse pelo falecimento, hoje ela gostaria de reestabelecer a relação e que as desculpas pedidas por ele, pouco antes da morte, foram sinceras e aceitas por ela. Também considera que “erros são erros” e que ele não fez nada que atentasse contra ela, “apenas me tirou da vida dele”.

[...] Ele continua sendo meu pai, mesmo com tudo o que ele fez eu gosto muito dele, sigo amando ele como meu pai, eu acho que tem muita gente que fala “ah, mas ele te abandono e tal, como que você pode amar seu pai?” Não sei, eu sinceramente eu não sei. Eu amo meu pai, tanto que eu sofri o luto dele como filha.

Quando Nina declara em sua narrativa o amor pelos pais, pode-se presumir que há a compaixão e a empatia pelo outro, o que permite que ele seja desculpado pelos seus atos (Rezende; Coelho, 2010). Esse amor mantém o pai como uma figura importante e valorizada, enquanto, para os filhos homens, sentimentos de desprezo rebaixam o pai, colocando-os acima dele e invertendo, assim, uma importante hierarquia familiar e afetiva.

Um forte fator que influencia essa percepção está presente na valorização da intenção da ação (Rezende; Coelho, 2010). Se o filho reconhece no pai a intenção da presença e do afeto, isso já é suficiente, mesmo que não haja a ação efetiva, pois a intenção é interpretada como uma expressão autêntica dos sentimentos. Como no caso de Nina, a intenção foi reconhecida, mas o descontentamento com o pai veio com a frustração da impossibilidade de relação. Nina expressa essa frustração em sua narrativa:

E depois eu fiquei pensando por que que ele veio pra cá? Por que ele me procurou se tava pra morrer? Por que ele quis recomeçar uma parada que não tinha como recomeçar por que ele sabia que tava mal, que a qualquer momento.

Tomamos essa complexidade emocional como reflexo do impacto da ausência paterna e da ambiguidade que ela provoca nos filhos. O caso de Nina ilustra como as heranças mais visíveis e menos visíveis não se limitam a traços físicos ou comportamentais, mas englobam também as intenções atribuídas ao pai e as interpretações dos filhos sobre elas.

O gênero foi se delineando na narrativa das experiências de recusa dos traços paternos. O modo como os interlocutores homens, representados por Junior e Harper, narraram a ausência paterna diferia em muitos aspectos das interlocutoras femininas. Para as mulheres, como Nina, alguns temas eram recorrentes, como a expressão do sentimento de rejeição e a esperança de uma retomada da relação. Por outro lado, as narrativas masculinas foram marcadas por nuances específicas: o reconhecimento de comportamentos tóxicos como forma de afirmação da masculinidade e a vergonha e repulsa em relação à semelhança com o pai enquanto padrão de comportamento masculino.

Na contramão, estão os filhos que, “apesar de tudo”, amam seus pais, mesmo diante do abandono e da negligência, expressando a complexidade presente quando se trata do self de filhos de pais ausentes. Assim, os dois jovens mesclam diferentes trajetórias de vida marcadas pela longa ausência paterna ao receio de se tornar “a cópia do pai”. Como reação, elaboram táticas de afastamento que envolvem o combate ativo a comportamentos semelhantes aos do pai e a recusa de seu nome. Waldomiro passa a ser chamado de Júnior, como é referenciado aqui, enquanto Nina adota o sobrenome materno.

Assim, entendemos a negação da similaridade física dos filhos de pais ausentes como uma reação ao peso exercido pelos traços físicos. Se aparência semelhante pode significar um modo de continuidade das relações familiares, para alguém abandonado pelo pai, ver em si essa imagem é sinônimo de confusão. Para Nina e Júnior, a própria identidade é ameaçada pela significação negativa do pai. O trabalho ativo para não “se tornar” o pai é traduzido não só no afastamento comportamental daquele que consideram moralmente inferior, mas diz respeito à construção da própria identidade. A herança invisível é trabalhada por ambos para afastar as associações entre pai e filho. Já as visíveis ou são recusadas, como no caso de Nina, ou apropriadas e ressignificadas, como na situação de Júnior.

Da ™vergonha∫ em parecer com o pai

Neste tópico, discutiremos, com maior destaque, as experiências narradas por Harper, jovem negro, de 29 anos, morador de uma favela situada na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Pretendemos analisar o modo como esse entrevistado aciona discursos emocionais no exame da ausência paterna e de conflitos que ocorreram com sua mãe, com olhar especial para a noção de “insulto”, que ocasiona o sentimento de “vergonha”. Esse caso dá maior ênfase a esse sentimento, embora todos os entrevistados tocassem no mesmo ponto similarmente.

Oriundo de uma comunidade no município de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, Harper teve uma vida mergulhada na pobreza. Sua casa, de alvenaria, tinha três cômodos pequenos, nos fundos do terreno de sua avó materna, onde viviam ele, sua mãe e seu irmão mais novo. Sua família era composta por sua mãe e seu irmão, embora, em toda sua vida, como ele próprio relata, teve contribuições significativas da avó e de uma tia materna, responsáveis por criá-los na ausência da mãe, que trabalhava como doméstica de segunda a sexta-feira.

Apesar de ter sido criado por três mulheres, Harper afirma ter sido obrigado a se tornar “homem” antes do tempo, no sentido de “deixar de ser um menino”, com apenas 13 anos, quando seus pais se separaram, após 12 anos de casamento. Em suas palavras, “ao separar da nossa mãe, meu pai achou que havia separado também dos filhos”. Ele se desdobrou entre ter que trabalhar para ajudar a mãe e manter os estudos no turno da noite. Enquanto isso, sua vó cuidava de seu irmão mais novo.

Após a separação, seu pai sumiu. Tornou-se um assunto não falado, um fantasma que os rodeava, um detalhe que ele só sabia por meio de sussurros de vizinhos e revelações ocasionais e silenciosas da mãe. A aparição de seu pai foi tão radical quanto o seu desvanecer: num dia, bateu no portão do quintal. A avó de Harper atendeu. De mãos dadas com o menino, abriu o portão. Rapidamente foi questionada: “onde está sua filha?”. Nitidamente alterado, ele havia ido atrás da mãe de Harper, esbravejando o nome dela na rua, perguntando onde ela estava. A avó ficou preocupada com a situação e questionou. O homem, segurando um revólver, sequer olhou para Harper e disse que mataria sua mãe se fosse preso.

Esse episódio me marcou. Demorei para entender do que se tratava. Lembro que naquele mesmo dia meus parentes todos se reuniram, incluindo minha mãe, e eu a ouvi dizendo: “queira ele ou não, ele vai pagar pensão. Ele não é maluco de encostar a mão em mim, a pensão é um direito dos filhos”. Só mais tarde eu compreendi do que se tratava. Meu pai insistia que eu precisava arrumar um trabalho para não ficar dependendo do dinheiro dele, que eu já estava bem grandinho e que, na minha idade, ele já trabalhava, essas coisas, sabe?

Harper relembra que começou a sentir repulsa e raiva do pai, que pôde “encaixar as peças” e entender que ele e o irmão haviam sido efetivamente abandonados, não poderiam mais contar com o pai em termos afetivos e materiais, pois “a miséria de pensão que ele começou a pagar, na época R$120,00, não dava para nada”, salientou. Ele frisou também que não foi somente a ameaça do pai à sua mãe que o fez “acordar”, mas que ele escutou naquele dia sobre “a pessoa dele”, dos seus tios e outros parentes maternos mais chegados, que comentavam sobre ele ser um homem grosso, mentiroso, que “devia a Deus e ao mundo”, principalmente nos bares da região, mas gostava de ostentar o que não tinha, um “homem amostrado”, explicou.

O amor e o desprezo produzem relações diferentes entre pai e filhos. O amor mantém o pai como uma figura importante e valorizada. O desprezo rebaixa o pai, colocando o filho acima dele e invertendo, assim, uma importante hierarquia familiar e afetiva. O desprezo funciona, aqui, como uma demarcação de superioridade capaz de contestar hierarquias. O pai deixa de ser visto como uma figura respeitável e passa a ser desprezado, colocando o filho em um lugar de superioridade hierárquica no plano subjetivo. Esse desprezo é evidente em Harper, que busca continuamente se afastar do “fantasma do pai”, ajustando seus comportamentos e atitudes para se alinhar às expectativas sociais e familiares. Como ele narra: “o fazer de tudo no dia a dia para não parecer com o cara que me abandonou”.

Harper comentou que as coisas ficaram mais difíceis, ele e sua família demoraram um tempo para se adaptar à nova realidade. Segundo avalia, seu irmão não sofreu tanto por ser uma criança ainda pequena no período da separação. Por outro lado, ele conta ter tido muitos “abalos psicológicos”, que se sentiu revoltado com a vida, vendo constantemente pais brincando com filhos na praça da comunidade, levando-os para jogar bola no domingo: “era um ódio, uma tristeza inexplicável. Perdi as memórias positivas dele, essa ausência me tomou e sei que foi uma das razões para me envolver com o tráfico de drogas”, pontuou.

Nesse enredo, Harper contou que nada o deixava mais frustrado que sua mãe o comparar com seu pai, o que começou a acontecer em uma fase conturbada de sua adolescência, entre seus 15 e 16 anos, quando desenvolveu “comportamentos atípicos” aos olhos de seus familiares. Ele nos relata que sua mãe o comparava ao pai, em geral, quanto a três aspectos:

Ou eu era mentiroso como meu pai, que ela esperava mais de mim. Chegou uma fase que eu mentia para tudo, mas principalmente para conseguir sair. Ou ela dizia que eu era amostrado e exibido como meu pai, que eu gostava de aparecer, mas não sabia o meu verdadeiro lugar no mundo. Isso porque eu queria ter roupa de marca também, queria me exibir. E mesmo sem ter, sabia me exibir, pegava roupa emprestada e joias com os outros. Minha mãe ficava se perguntando o que os pais dos meus amigos ficariam pensando sobre ela, se não trabalhava para comprar roupa para o filho. E sobre eu ser revoltado com a vida, que tinha a ver com o fato de ser agressivo, que não passava fome para ficar com cara tão emburrada e com um comportamento violento dentro de casa e na escola.

Desde a primeira vez que sua mãe fez comparações, Harper diz que sentia uma dor que o cortava como uma faca. “Falas como ‘você está mentindo como seu pai costumava mentir. Eu esperava mais de você’, me deixavam mal e aflito”. Mas, como ele próprio demarcou: “ainda assim, parece que nunca aprendia a lição que ela estava querendo ensinar e continuava com os mesmos comportamentos e atitudes”.

Todavia, aqui, percebemos uma virada no trato da mãe de Harper. Se essas palavras o deixavam mal, mas não o faziam “repensar seus comportamentos e suas atitudes”, ela inaugurou um movimento que o “insultava” e o “envergonhava”: recuperava os “erros” dele ou os seus “traços problemáticos” e os explanava na frente de outros familiares maternos que conheciam seu pai, em almoços ou pequenas festas. Quer dizer, em certos momentos, quando falavam de filhos, sua mãe dizia, entristecida e desapontada: “olha, eu não sei mais o que fazer com Harper, ele está cada dia mais parecido com o pai, com tal comportamento e com tal atitude”, narrou. Nessas ocasiões, diferentemente de quando estava a sós com sua mãe, quando ela fazia a comparação e ele ficava somente triste; agora, na frente de outras pessoas, sentia-se insultado e envergonhado.

Ele diz que se sentia diminuído, como se seu valor fosse retirado, pois tinha o valor igualado a um homem que o abandonou. O pai é tratado e visto, seja por ele próprio e sua mãe, seja por outros familiares, como um “vagabundo”, um desviante, alguém problemático que não consegue arcar com o mínimo de responsabilidade: o pagamento de uma pensão. Diante desses elementos, vemos que, ao fazer esse movimento na presença de terceiros, a mãe de Harper acreditava que ele se envergonharia de seus atos e tentaria mudar, tentaria ser alguém melhor, parando, ou ao menos diminuindo, suas mentiras, exibições e agressividade. Mas não só, foi uma forma encontrada por ela para mostrar “quem é que manda”, na demarcação e no reforço de hierarquias entre mãe e filho. “Depois que ela começou a fazer essas falas na frente dos outros, todas as manhãs, quando acordava, todas as noites, quando ia para a cama, prometia a mim mesmo que nunca seria como meu pai. Sentia que precisava mudar e precisava melhorar.”

Dessa forma, a mãe de Harper o levava a desenvolver um sentimento de vergonha com relação às suas atitudes e aos seus comportamentos. O intuito dela era envergonhá-lo, fazendo com que ele percebesse que “estava errado” frente a determinados valores familiares, frente a uma “normalidade” de atitudes e comportamentos esperados para um adolescente de sua idade. “Ela dizia que enquanto eu não mudasse meu comportamento, ela continuaria fazendo eu passar vergonha, que eu merecia”, relatou.

As experiências narradas por Harper integram uma avaliação (micro)política sobre a maneira como ele assimila seu lugar no mundo e na família. Essas narrativas, socialmente localizadas, trazem o enfoque “moral” da vergonha. Os “sentimentos morais” são aqueles que representam a relação estabelecida no íntimo da pessoa com a alteridade (Rezende; Coelho, 2010).

Diversos são os critérios envolvidos nessa regulagem dos sentimentos diante do outro: o sofrimento alheio pode suscitar compaixão, indiferença ou até mesmo regozijo, dependendo das macrorrelações a que uma dada interação se reporte. Em meio a esses critérios, podemos destacar a fronteira nós-outros, ou seja, os sentimentos morais fariam um trabalho de inclusão/exclusão social, sendo suscitados por “mapas de navegação emocional” ao mesmo tempo em que reforçariam os seus traçados. (Rezende; Coelho, 2010:79).

No caso aqui analisado, ao considerarmos o par “insulto” e “vergonha”, vale dizer que o entendemos como um “complexo emocional” que pode ser compreendido como um conjunto de emoções que coincidem reciprocamente e se vinculam umas às outras, não sendo profícuo observá-las separadamente (Rezende; Coelho, 2010). Embora o insulto não seja compreendido propriamente como uma emoção, a sensação de se sentir insultado na presença de outras pessoas, o insulto público, atua como um dispositivo emocional que pode acionar a vergonha (Díaz-Benítez; Gadelha; Rangel, 2021).

Em A vergonha no self e na sociedade: a sociologia e a antropologia das emoções, Thomas Scheff (2016) nos apresenta a sociologia das emoções por meio de vários artigos, oferecendo também uma visão sobre sua trajetória teórica e metodológica no estudo da vergonha. O autor realça o significado social da vergonha, vendo-a como uma emoção central para compreender os processos que moldam condutas e comportamentos sociais contemporâneos. Scheff (2016) a considera como nosso “giroscópio moral”, que alerta sobre ameaças a normas sociais historicamente constituídas e regula nossa consciência sobre outras emoções. Ele a define como um extenso grupo de emoções que inclui muitos cognatos e variantes, em especial o constrangimento, o insulto, a humilhação e a culpa, que se originam em forma de ameaças à coletividade. Essa designação engloba o self (reações emocionais) e a sociedade (o vínculo social). Nessa lógica, a vergonha orienta o comportamento das pessoas na interação social e promove controle moral sobre as ações individuais, levando-as a aderirem aos valores e às instituições do grupo a que pertencem e fazendo-as gerir a expressão de outras emoções.

Nessa mesma linha argumentativa, atentando-se ao contexto brasileiro, Leandro de Oliveira (2019) e Taniele Rui (2021) destacam que a vergonha não é uma condição, mas um sentimento de estar exposto aos olhos do outro, funciona como julgamento moral e como sentimento internalizado. Para os autores, isso diz respeito ao que alguém é, à identidade, é uma emoção que aponta para o self, abrangendo sentimento de frustração, inadequação e rejeição, podendo ser interpretada como uma emoção aflitiva que conduz uma reação a algo em situações particulares. Desta forma, os autores compreendem-na como resultante das conjecturas, sempre realizadas pelos sujeitos, sobre o julgamento do outro-relacional.

Conforme Rui (2021) aponta, a vergonha é resposta a estímulos em relações interpessoais, em que a exposição do self é conduzida e julgada, levando a uma variedade de sentimentos. Muitas vezes, o discurso emocional da vergonha é moldado pela interação do indivíduo com a percepção do outro, interpretada como um julgamento. O indivíduo, então, busca se adaptar ou se conformar a certas normas sociais. A vergonha sinaliza a internalização desse julgamento externo, sendo a “[...] resposta íntima à desaprovação de outros, sentida como o fracasso em aderir a padrões comunitários com os quais se está comprometido” (Rui, 2021:88).

Para Oliveira (2019), a vergonha pode ser vista também como um confronto do indivíduo com conflitos passados estigmatizantes, que, se revividos, podem causar confusão psíquica e social. O sentimento pode neutralizar a subjetividade, permitindo ao indivíduo suportar uma realidade objetiva, dolorosa e angustiante. O autor sugere que o constrangimento decorrente da vergonha influencia o comportamento individual em áreas sociais que constrangimentos formais e institucionalizados não alcançam. A vergonha abarca embaraços, sendo uma exaltação específica, uma espécie de ansiedade que se reproduz na pessoa em certas ocasiões. Pode ser considerada um medo de degradação social que se entrelaça a gestos de superioridades de outras pessoas.

Com efeito, no contexto das histórias de Harper, o insulto “você é igual ao seu pai” não evidencia apenas que suas ações são ofensivas à mãe, mas mostra atos culturalmente associados ao “mau-caratismo” e ao “desrespeito”, sem o mínimo de “bom senso”. Ou seja, apresenta-se mais do que como apenas uma observação ou ação ofensiva, é uma interação social complexa que envolve transgressões percebidas de normas culturais, expectativas ou padrões morais. Sua mãe o insultava, fazendo-o passar vergonha na frente de seus familiares, ocasionando nele uma sensação de aborrecimento, mas, ao mesmo tempo, levava a um pensar sobre si e sobre seus atos. A mãe reagiu negativamente à visibilidade de uma conduta de Harper que não corresponde a certas convenções culturais no meio familiar materno, como mentir, ser “amostrado” e/ou demonstrar agressividade.

Como reação, vemos Harper tentar se afastar do “fantasma do pai”, buscando se inserir nas normas comportamentais exigidas e nas expectativas sobre elas. O insulto afeta sua identidade social e bem-estar emocional, causando sentimento de vergonha, que produziu nele uma autopercepção da avaliação de si pelos olhares de terceiros e o levou a assumir um monitoramento social contínuo do ponto de vista dos outros, como destaca o jovem: “o fazer de tudo no dia a dia para não parecer com o cara que me abandonou”.

O ato da mãe ao recuperar o erro do filho e explaná-lo na frente de outras pessoas objetivava envergonhá-lo por suas atitudes consideradas errôneas e fazê-lo agir como um “filho bem-educado e comportado”. A presença física de outras pessoas desempenha um papel central na eclosão da vergonha (Oliveira, 2019).

Nesse sentido, o insulto deriva não só do significado das palavras, mas de como são ditas e do contexto da enunciação. O “sentir-se insultado” depende da presença de alguém. Portanto, o ato da mãe em si não é insultante, mas o fato de ela forçar Harper a presenciá-lo em meio a outras pessoas. Quando ela fazia o mesmo movimento em casa, a sensação dele era outra, ficava “chateado”, mas não repensava seus comportamentos. “Em essência, para um insulto funcionar enquanto insulto, ele precisa ser público; tais afrontas interpessoais à honra alheia são feitas para envergonhar, e se inscrevem no cerne das convenções culturais sobre a ‘vergonha’” (Oliveira, 2019:149).

Nota-se que as três narrativas escolhidas para esse artigo, apesar de expressarem sentimentos comuns entre os entrevistados da pesquisa, divergem no modo como tratam um possível restabelecimento da relação, seja ele simbolizado pela convivência ou pela relação com suas próprias características herdadas.

Considerações Finais

Na primeira seção deste artigo, questionamos o binômio natureza-maternidade. Comentamos sobre alguns estudos de paternidade, relações de parentesco envolvidas em tramas de DNA, adoção e adoção à brasileira, aspectos que vão além da lógica biológica de família, envolvendo cuidado, afeto e consideração. A influência do DNA e a busca pelo “pai verdadeiro” marcam a base biológica do vínculo da legislação, mas o sangue não substitui a criação, que continua sendo central na concepção de “paternidade” no Brasil.

Na segunda parte, discutimos as “heranças” mais ou menos visíveis, destacando como semelhanças com o pai são entendidas pelos filhos. Por intermédio das narrativas de Nina e Júnior, exploramos como essas heranças estão ligadas a uma problemática identitária em meio à ausência paterna. Investigamos as estratégias de apropriação ou recusa dos traços herdados, que traduzem sentimentos e conflitos envolvidos na relação com um homem que é considerado moralmente inferior e, ao mesmo tempo, pai.

No terceiro tópico, mostramos que a história de Harper é a de uma luta com a identidade e o medo de se tornar o que ele mais despreza: seu pai ausente. Os discursos emocionais trazidos por ele guardam semelhanças com os de outros interlocutores. Eles poderiam ser interpretados como pequenas vinhetas que expressam uma moralidade presente em seu âmbito familiar, fazendo-nos enxergar as emoções como tributárias das relações de poder nos grupos sociais, servindo paralelamente para manifestar e reforçar tais relações. As cenas descritas por Harper, por um lado, inscrevem convenções culturais, presentes nos valores reivindicados por sua mãe e incorporados em sua família; por outro, trazem uma rememoração de atos de fala que o insultaram e o fizeram sentir vergonha, marcando vigorosamente sua subjetividade.

Baseando-nos nos trabalhos de Oliveira (2019) e Rui (2021), entendemos que a entrevista se tornou uma situação profícua para o interlocutor expressar uma “retórica da queixa”: ao deslocar o insulto de seu contexto original, ele orienta seu sentido por meio de narrativas que não apenas anunciam algo, mas denunciam. Trata-se de uma queixa baseada em eventos memoráveis que causaram vergonha e geraram a sensação de ser insultado. É uma percepção de que sua mãe usou a expressão “você tem o jeito do seu pai” e/ ou “você é igual ao seu pai” para agredi-lo diante de uma audiência receptiva: seus familiares.

Isso evidencia como discursos emocionais podem operar micropoliticamente, na demarcação e no reforço de hierarquias, fazendo-nos concluir que, nos episódios relatados, a vergonha aparece na manutenção de convenções e formas de organização coletiva, permitindo que uma pessoa desacreditada, futuramente, possa atender às expectativas inspiradas em impressões de terceiros, fortalecendo os laços sociais. Portanto, sentir vergonha diante de alguém se torna uma forma de afirmar vínculos sociais que envolvem compartilhamento de identidade e valores.

Ao comentarmos a relação entre paternidade e conjugalidade, mencionamos como a paternidade é vista como um vínculo fundamentalmente social que depende da relação com a mãe. É interessante que os relatos de nossos entrevistados sugerem que, mesmo diante do laço conjugal desfeito, é ainda a mãe que introduz a presença do pai ausente no ambiente doméstico e na leitura que faz do filho (física e/ou comportamental), por meio justamente da “comparação”.

O discurso emocional que enfatiza a vergonha e o insulto revela uma notável dinâmica da paternidade ausente. Os jovens interlocutores afirmam uma distância instaurada pelo pai, ao contrário de outras entrevistadas, que reafirmaram seu amor pelo pai mesmo diante da ausência. Esses jovens parecem recusar os pais, mesmo diante da possibilidade de restauração de proximidade e laços afetivos, sugerindo assim uma forma de agência deles, uma reação à situação que lhes foi imposta.

1

Na pesquisa de mestrado, foram investigadas as perspectivas sobre paternidade expressas por meio das narrativas de “filhos de pais ausentes”, uma autodenominação daqueles que, a partir da separação conjugal, deixaram de conviver com o pai. O objetivo foi analisar a relação entre dinheiro, cuidado e pensão alimentícia. Para isso, dinâmicas paterno filiais foram observadas a partir de quatro eixos principais interconectados: a) as responsabilidades civis paternas; b) o gênero do cuidado; c) o conflito e a questão financeira; d) a conexão entre paternidade e afeto.

2

As entrevistas foram realizadas com roteiros semiestruturados, duraram em média uma hora e meia e foram feitas em um único encontro. Devido à pandemia de Covid-19, foi utilizada a ferramenta de videoconferência Google Meet, que permite fazer reuniões e eventos online.

3

Os nomes das pessoas são fictícios, alterados para manter seu anonimato e preservá-las.

4

Adotamos aqui o conceito de “projeto” desenvolvido por Gilberto Velho (1999), que está intrinsecamente relacionado à compreensão das trajetórias individuais e coletivas no âmbito social. Para o autor, o “projeto” refere-se à construção ativa e dinâmica que os indivíduos realizam em suas vidas, orientando-se por objetivos, valores e significados socialmente influenciados. Essa abordagem reconhece a complexidade das escolhas e estratégias adotadas pelos sujeitos ao longo do tempo, considerando o contexto cultural e histórico. O “projeto” não implica uma linearidade previsível, mas sim um processo de negociação contínua com as contingências sociais, as transformações mais amplas e as possibilidades que surgem ao longo da existência.

5

O primeiro artigo da lei 8.560/92, que regula a paternidade dos filhos fora do casamento, reza que “o reconhecimento dos filhos havidos fora do casamento é irrevogável [...]” (Brasil, [2021]:n/p.). Não há prevista nenhuma ressalva que abra para esse tipo de pai declarado a possibilidade de retroceder. Tem status semelhante ao de pai adotivo: escolheu essa condição, vai ter que arcar com as consequências. O Novo Código Civil - lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - (Brasil, 2002) guardou ipsis litteris essa cláusula.

6

No Brasil, a associação direta entre o exercício da paternidade e a condição conjugal pode ser exemplificada na “adoção à brasileira”. A assunção da paternidade substitui a certidão de casamento na validação social da relação: “[...] o homem que seria normalmente conhecido como ‘padrasto’ escolhe conscientemente a identidade de ‘pai’.” (Fonseca, 2004:20).

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    16 Out 2024
  • Aceito
    12 Dez 2024
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