Open-access As esferas do cuidado na vivência da maternidade de mulheres prostitutas

The spheres of care in the experience of motherhood by prostitute women

Las esferas del cuidado en la experiencia de la maternidad de mujeres prostitutas

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar de que forma a maternidade é vivenciada e explicada por mulheres cis prostitutas, com as particularidades que aparecem por conta do estigma da profissão e, muitas vezes, da maternidade solo, e quais formas de cuidado são mobilizadas por elas. O artigo parte sobretudo de uma metodologia empírica, por meio de entrevistas semiestruturadas, e se organiza a partir de quatro eixos temáticos principais, elencados a partir das respostas das entrevistadas, levando em consideração os desejos depositados sobre os filhos, as relações intergeracionais com as avós, o autocuidado e questões outras relacionadas à saúde reprodutiva e pública.

Palavras-chave:
prostituição; maternidade; cuidado; saúde; vivência

Abstract

This article aims to analyse how motherhood is experienced and explained by cis women prostitutes, with the particularities that arise due to the stigma of the profession and, often, of solo motherhood, as well as the forms of care mobilized by them. The article is based mainly on an empirical methodology, through semi-structured interviews. It is organized around four main thematic axes, derived from the respondents’ answers, which take into account the expectations placed on the children, the intergenerational relationships with the grandmothers, self-care and other issues related to reproductive and public health.

Keywords:
prostitution; motherhood; care; health; experience

Resumen

Este artículo busca analizar de qué forma la maternidad es vivenciada y explicada por mujeres cis trabajadoras sexuales, con las particularidades que emergen en razón del estigma de su profesión y, muchas veces, de la maternidad soltera, y cuáles formas de cuidado son colocadas en acto por ellas. El artículo parte principalmente de una metodología empírica, con entrevistas semi-estructuradas, y se organiza a partir de cuatro ejes temáticos principales, construídos a partir de las respuestas de las entrevistadas, tomando en consideración los deseos previstos para la vida de los y las hijas, las relaciones intergeneracionales con sus propias madres, el autocuidado y otras cuestiones relacionadas a la salud pública (especialmente salud sexual y reproductiva).

Palabras-clave:
prostitución; maternidad; cuidado; salud; vivência

Introdução

Discussões feministas e antropológicas ressaltam que a maternidade é uma construção social. Como tal, passou, e tem passado, por mudanças de enfoque, da posição de negação da maternidade - encarada como desvantagem - para uma mais abrangente, na contemporaneidade, que tanto a coloca enquanto algo positivo, quanto a elogia, a ponto inclusive de romantizá-la. Nas últimas décadas, as técnicas reprodutivas e as profundas transformações práticas e teóricas para lidar com gênero abriram uma plêiade de escolhas, dilemas e novos problemas. Não se trata apenas de ter ou não ter filhos, mas de quem tem, com quem ter, quando, como ter - e como criá-los (Scavone, 2001). Desde a segunda metade do século XVIII, passou-se a ver a mãe de forma separada da figura do pai como responsável pela família. A mãe passa a ser a geradora dos filhos e a responsável pelos cuidados. E nessa esteira da história, foram surgindo diversas formas de se ser mãe e de construir esse amor e esse cuidado pelos filhos. Estudos feministas inclusive apontam a possibilidade de existência de um não-amor pela maternidade (diferente do amor pelos filhos) enquanto algo passível de ser vivenciado (Badinter, 1985). Assim, mesmo sendo possível rastrear continuidades e aspectos gerais sobre a experiência da maternidade em sociedades urbanas contemporâneas, a maternidade não é igualmente elaborada e não afeta igualmente a todas as mulheres (Garcia, 2021). A relação entre maternidade e prostituição, levando em consideração o estigma que pesa em cima desta última, resulta especialmente importante para pensar formas e cuidados contemporâneos da maternidade.

No caso das maternidades experienciadas e construídas por prostitutas/trabalhadoras sexuais, é possível rastrear na literatura algumas questões relacionadas ao estigma histórico deste ofício e da marginalização sofrida por essas mulheres, em sociedades que ainda colocam a prostituição enquanto um desvio (Bacelar, 1982), ou que vinculam sexualidade com prostituição, como forma de opressão ou transgressão sexual (Fonseca, 1996; Olivar, 2010). Para além do estigma próprio enfrentado pela prostituição, existe uma carência grande de políticas no país voltadas para a maternidade como um todo, sobretudo em âmbito público, nos casos de trabalhos informais ou não registrados, dificultando, assim, a possibilidade de estabelecimento de vínculos mais consistentes entre quem deveria cuidar e ser cuidado (Jorge et al., 2022), ou seja, entre mães e filhos, neste caso. Trabalhos deste tipo não costumam ter direitos trabalhistas garantidos e, consequentemente, auxílio maternidade e licença no caso de uma gestação.

Maternidade e prostituição implicam, então, lidar com um estigma anterior à experiência, que se coloca em ato através de múltiplas exclusões, violências, acusações de imoralidade, degradação ou sobrevitimização. No delicado processo de constituição de sujeito de seus filhos, implica lidar com velhos e novos problemas colocados, inclusive, por vertentes feministas, como aquele da assimilação do trabalho sexual com a exploração sexual ou o “estupro consentido”.

A própria definição da palavra “estigma” traz em si a ideia de uma marca de algo considerado indigno, que dialoga e define a visão geral que se tem sobre a prostituição. E sobre sua função, Juliano (2014) aponta com clareza que

a divisão das mulheres entre boas e más beneficia a estabilidade do sistema. O estigma da prostituição nada tem a ver com o que as trabalhadoras sexuais são ou fazem. Ele representa um potente elemento de controle para as mulheres que não atuam na indústria do sexo. O modelo de esposa e mãe abnegada exige muito sacrifício. Ainda que se diga que a mulher é a rainha do lar, sabemos que não é, que é uma pessoa a serviço de todo mundo. É um modelo tão pouco atraente e com tão pouca recompensa e reconhecimento que a única forma de conseguir que as mulheres se adequem a ele é assegurar a elas que a outra possibilidade é pior (Juliano, 2014, s/p).

Bacelar (1982) apresenta, em seu trabalho clássico sobre as famílias das prostitutas, o princípio de liberdade de se constituir família enquanto uma escolha individual de cada mulher. A Constituição de 1988 viria coroar esse direito. Moura e Araújo (2004) retomam essa ideia, de um direito individual de cada mulher, ao apontar as diferenças de mentalidade que passaram a reger a maternidade a partir dos anos 1980 enquanto uma conciliação de realidades. Reforçam a recusa à ideia retrógrada de cuidado integral que se tinha com os filhos. Essa recusa daria espaço a outras mães, algumas delas que se aproximam do contexto europeu, dando espaço para que um certo “amor materno” surja (Moura e Araújo, 2004; Jorge et al., 2022) como possibilidade e cobrança. Essa nova mãe, na ideia da emergência da modernidade urbana nos nossos contextos, tanto exerce a maternidade na esfera do cuidado quanto serve de modelo profissional aos filhos.

Indo além da esfera histórica e legal, Piscitelli (2016) se debruça exclusivamente sobre o caso da prostituição, e pontua que nas relações afetivas de prostitutas não é apenas a economia financeira que dita os interesses, mas também os “investimentos afetivos e eróticos” de cada mulher (França, 2017). A maternidade, embora possa ser desencadeada em ambas as instâncias (a do planejamento e a do acaso; a dos vínculos que tendem mais aos afetos, ao amor e à reciprocidade ou àqueles mediados mais estritamente pelo pagamento), é também atravessada por esse mesmo investimento de desejo e de afetividade, em nome de uma “normalidade” contrária ao estigma.

A área da saúde, especificamente, ainda carece de trabalhos que versem sobre este cruzamento de temas, sendo a contribuição das ciências humanas consideravelmente mais profunda neste aspecto1. A prostituição é tratada, na área da saúde, sobremaneira relacionando prostituição a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) ou suas estratégias de prevenção, sobretudo considerando a atuação histórica das prostitutas nas políticas de HIV/AIDS na década de 1980. Devido ao viés - ainda hegemônico - do saber médico em detrimento de outros saberes, no que tange assuntos relacionados à saúde, pensar a maternidade dentro de grupos específicos da sociedade civil, enquanto uma política de cuidado real e dotada de valores e saberes próprios, mostra-se de extrema importância. Segundo uma das entrevistadas nesta pesquisa, devemos pensar além, uma vez que “puta não é só doença e camisinha”. É isso que se pretende mostrar com esse artigo. Este artigo tem como objetivo compreender de que forma a maternidade é vivenciada e explicada por mulheres cis prostitutas no Brasil contemporâneo, com as particularidades que aparecem por conta do estigma da profissão e, muitas vezes, da maternidade solo, e quais formas de cuidado são por elas mobilizadas.

Metodologia

Esta pesquisa foi realizada a partir de três recursos metodológicos, sendo a primeira fonte conversas pessoais e entrevistas semiestruturadas, com 1 hora a 1 hora e meia de duração, com militantes ativas de coletivos e associações brasileiras, bem como com acompanhantes2 não militantes, mas também mães, entre dezembro de 2022 e abril de 2023 (vide relação no Quadro 2). As entrevistas foram realizadas via Google Meet e, de forma semiestruturada, procuraram responder questões consideradas norteadoras para esta pesquisa, como a conciliação da maternidade com o trabalho, o autocuidado após a maternidade, os projetos futuros e investimentos que despendem sobre os filhos, e a questão do estigma do trabalho sexual nas relações familiares. De forma bastante livre, as entrevistadas foram relatando suas experiências, sem nenhum roteiro estritamente determinado. O contato com essas mulheres foi feito via rede de conhecidas, com outras indicações a partir de uma primeira entrevista ou por mensagem no Instagram (como foi o caso de duas entrevistas com integrantes de uma página da internet). As mulheres militantes vieram por uma via (Coletivo Puta Davida) e as não militantes por outra (site Fatal Model), em efeito “bola de neve”. Os nomes das entrevistadas foram alterados para fins de análise e garantia de anonimato.

A segunda fonte é a análise das falas das lideranças da Rede Brasileira de Prostitutas presentes no evento Transa de Saberes - Lourdes Barreto, Jesus Costa, Edna Maciel e Denise Viana -, realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, em junho de 2022, como parte integrante do Projeto “Cosmopolíticas do Cuidado no fim-do-mundo”.3 O evento teve duração de 3 horas, e mostrou-se relevante enquanto material de pesquisa pelo seu intuito de dialogar com a futura geração de sanitaristas dos cursos de bacharelado em Saúde Pública e Coletiva do país (a relação de materiais pesquisados encontra-se no Quadro 1).

Por fim, a terceira fonte foi a revisão bibliográfica de artigos científicos e ensaios das áreas da saúde e das ciências sociais do período de 1982 a 2022, a partir das palavras-chave “prostituição” e “maternidade” nas bases Scielo e Lilacs, que tratassem dos temas de forma mais ampla. Não foram levadas em consideração as publicações que tratassem de questões específicas de doenças ou prevenção relacionadas a ambos os temas, por entender que não dialogavam com o objetivo da pesquisa. O recorte temporal extenso para a revisão bibliográfica veio da escassez de artigos em geral e da existência de outros livros e outras produções mais antigas, já consagradas. Considerou-se também, como marco temporal inicial da pesquisa bibliográfica, a década de 1980, na qual surgiu o movimento organizado de prostitutas e, consequentemente, uma maior produção acerca do assunto, como é sugerido por Rago (2008).

Quadro 1
Relação de fontes de pesquisa

Quadro 2
Relação das entrevistadas para a pesquisa

Resultados e Discussão

O futuro que se quer para os filhos

Dentro do movimento de prostitutas no Brasil, existe uma vertente - que surge sob a liderança de Gabriela Leite - que reivindica o uso do termo “puta” enquanto estratégia de desestigmatização do trabalho sexual (Olivar, 2010; Murray, 2015; Bonomi, 2019). A reivindicação do uso do termo nasce de uma preocupação não só com o estigma sofrido pelas trabalhadoras sexuais, mas também por aquele que recai sobre os filhos, “filhos da puta”, um dos maiores xingamentos da língua portuguesa, e da preocupação de trabalhadoras sexuais de se apropriarem de algo que é da realidade de suas famílias sem reforçar o discurso histórico de opressão e marginalização da mulher que se prostitui (Leite, 2013). Embora muitos sejam os nomes adotados em busca de romper com o estigma (meretriz, cortesã, garota de programa, profissional do sexo, acompanhante), e embora as formas e práticas do trabalho sexual sejam muitas e cada vez mais diversas, a natureza do estigma sobre esse feixe de relações (Olivar, 2010) se mantém mais ou menos a mesma. E, mesmo com essa tentativa de driblar lexicalmente o preconceito, os filhos sofrem o estigma, sendo em algum momento reduzidos a “filhos da puta”.

A gente quer encarar como um trabalho qualquer, mas ele não é um trabalho qualquer devido a gente trabalhar com a libido, com a questão da sociedade, da religião [...] tem toda que cai em cima, então não adianta falar que é um trabalho como outro qualquer porque não é [...] é claro que a violência se sofre também, mas é a questão do estigma [...] um filho ou uma filha, principalmente as filhas, de uma médica ou de uma professora, ela não vai sofrer, não vai ser explorada sexualmente como a de uma profissional do sexo, é totalmente diferente, porque, sempre existe aquele negócio filho de peixe peixinho é (Joana, 64 anos, Rio Grande do Norte, 2023 - entrevista).

As informações desta pesquisa mostram que a regra acaba sendo a da família monoparental (ou seja, que se estrutura em torno de um dos genitores), regida pela mulher, a partir da “unidade mãe-filhos”, por conta da importante impermanência dos homens nas relações conjugais entre as classes populares, de onde costuma vir o maior contingente de trabalhadoras do sexo (Sganzella, 2011; França, 2017). No entanto, a maternidade solo, por si só, também configura um estigma em muitos contextos, outra marca de algo indigno, que vai contra a regra estabelecida pelo status quo da mentalidade tradicional. Nesse caso, a maternidade das prostitutas passa a operar sob a égide de um estigma multiplamente alimentado e vivenciado, uma vez que grande parte destas é mãe solo. Em alguns casos, além de serem mães solo, essas mulheres criam filhos de pais diferentes, realidade também estigmatizada por caracterizar “promiscuidade” da mulher. No caso das entrevistadas, há relatos que indicam a maternidade de filhos de clientes diferentes, por vezes desconhecidos. É o caso, por exemplo, do terceiro filho de Tainá:

Muitas cada filho é de um pai, muitas engravidam uma em cima da outra, mas muitas criam e muitas não criam [...] o pai do terceiro ele não sabe porque eu nunca mais tive contato com ele (Tainá, 34 anos, Rio Grande do Norte - entrevista).

Nos relatos coletados durante as entrevistas, fica claro que a maior parte das mulheres não tinha conhecimento de quem era o pai dos filhos, acabando por seguir com a gravidez sem grande auxílio. Em um sentido contrário, no qual prevalece a aliança conjugal, Olivar (2013) mostra como a maternidade, em contextos de prostituição urbana dos anos 1980 e 1990, foi subordinada à relação sexual com o marido da prostituta. Isto é, na reelaboração biográfica de prostitutas “mais velhas”, já com filhos crescidos e com histórias longas de conjugalidade, o evento da gravidez (e sua continuação até o nascimento) é explicado como sendo possível apenas como resultado dos encontros sexuais conjugais. Simplesmente, na norma e na memória, não teria sido possível engravidar de outro, ou levar até o parto a gravidez. Filhos e filhas faziam parte de projetos familiares maiores, que englobavam a prostituição.

Em todos os casos, a maternidade passa a ser valorizada sob o estatuto de algo digno e elevado - assim como em outros grupos sociais e camadas econômicas da sociedade, ao mesmo tempo que fonte de desconfiança e vigilância social. Pesa sobre a condição materna dessas mães-prostitutas uma cobrança de “dar conta” da responsabilidade pelos filhos com autonomia e “sacrifício”, característicos de uma “boa mãe”. Tais cobranças não levam em conta em que condições a gravidez se desenvolveu, sendo a realidade da maioria das entrevistadas encontrar-se sozinha, sem o outro progenitor. O maior investimento almejado para os filhos, relatado nas três fontes de pesquisa para este artigo, foi a educação e a formação de caráter, sempre permeada pelo discurso de querer uma vida melhor para a geração seguinte.

É a questão do caráter. O que foi passado pra mim é o que eu passo pra eles. Minha avó costumava dizer que a gente sem educação a gente não é nada. E a gente sem caráter a gente não é nada (Tainá, 34 anos, Rio Grande do Norte - entrevista).

Eu exigi que ela estudasse, ela que não quis terminar. Aí quando o pessoal vinha me perguntar ‘e se sua filha virasse prostituta?’ ela que sabe da vida dela. Eu só peço que elas estudem, pra não virar uma puta burra (Fabíola, 57 anos, Bahia - entrevista).

Aqui, cabe uma reflexão sobre as pautas do movimento, que luta pela regulamentação da profissão4, mas carrega, no discurso, traços do mesmo estigma sofrido historicamente enquanto algo que não se deseja para a prole. O orgulho de se assumir como prostituta não é o mesmo de, eventualmente, apresentar o ofício para uma filha. Isso parece dizer relativamente ao estigma, mas também a um conhecimento prático das dificuldades da vida da profissão. Muitas, nos relatos das entrevistas, contaram que dariam dicas para as filhas se elas escolhessem o caminho da prostituição (no caso de Joana, esta foi a realidade de duas de suas filhas, também entrevistadas para esta pesquisa, Lita e Tainá), mas que o esforço maior está dirigido à busca por outras carreiras, menos expostas aos riscos que a prostituição apresenta, pela necessidade constante de contato com pessoas desconhecidas e pelo alto índice de uso de substâncias no ambiente da zona. De acordo com Jesus Costa,

Eu tenho família, eu tenho meus filhos, todos os meus filhos trabalham, todos os três [...] e por incrível que pareça, geralmente quando a gente conta as nossas histórias, a gente sempre conta que os nossos filhos estão bem empregados, estão formados, né, e isso pra mim, na minha concepção é, isso pra mim tem que ser muito priorizado quando a gente trabalha com as nossas colegas [...] a gente nunca, nunca forma os nossos filhos pra ir pra onde a gente, passar o que a gente passou [...] vocês trabalham com prostituição, mas vocês não querem que as filhas de vocês vai pra um cabaré pra se prostituir? Realmente a gente tem que ter esse cuidado porque realmente a gente não quer, a gente sempre passa a nossa história, mas a história da nossa família, dos nossos filhos, são totalmente diferentes, são outras [...] porque quando a gente vai pro cabaré, quando a gente se prostitui, é pensando na família (Jesus Costa, 2022 - evento Transa de Saberes).5

Como se percebe, trata-se menos de uma ideia de estigma interiorizado, e mais do reconhecimento prático do estigma e do preconceito na produção de riscos e periculosidades, de desarranjos e desafetos - inclusive morais - no exercício do trabalho sexual.

Maternidade e precarização do trabalho

Segundo Beltrame e Donelli (2012), existe uma tendência crescente, desde a década de 1980, de se aliar maternidade e trabalho profissional, rastreando analiticamente diferenças entre carreira e trabalho remunerado e como cada tipo de trabalho opera nessa conciliação. A informalidade é uma das principais características de cerca de 39% dos trabalhos remunerados (IBGE, 2024), inclusive da prostituição, devido ao fato de não contarem com registro em carteira e garantias trabalhistas - e muitas vezes sequer com regulamentação -, caros aos trabalhos de “carreira”. A prostituição se reinventou na forma e na oferta de serviços, não cabendo mais uma classificação por níveis, como discutem Blanchette e Silva (2011), em alto e baixo meretrício, a partir dos locais de trabalho (rua, boate, cabaré).

A maternidade de mulheres prostitutas encontra impasses também pela condição de desproteção jurídica em que o trabalho sexual se encontra enquanto trabalho. Trabalho que pode ser exercido em locais públicos ou privados, com contato direto ou não (como é o caso das camgirls ou de outros sites), ou por meio da venda de conteúdo como fotos e vídeos em plataformas adultas (Privacy e Only Fans). Não existe um plano de carreira e, embora seja reconhecido como um ofício, não existe nenhuma regularização que garanta direitos especificamente à prostituta que deseja constituir laços familiares com seus filhos (Bacelar, 1982; Prada, 2018).

No caso da prostituição, a não regulamentação faz com que a conciliação do trabalho com a maternidade seja ainda mais complicada. A falta de políticas de cuidado, como licença maternidade ou outros auxílios, faz com que a mãe prostituta vá em busca de alternativas mais viáveis para cuidar dos filhos. Sobre isso, Rita discorre sobre a questão do alto custo de se tirar uma mãe de casa. Aqui, tirar a mãe de casa significa dar à mulher o direito de exercer outras atividades além da maternidade, sejam elas pessoais ou de trabalho. Para isso, ela precisa ter a tranquilidade e segurança de que os filhos estejam bem assistidos enquanto ela está fora. Rita, como alternativa mais viável, optou muitas vezes por deixar sua filha aos cuidados do irmão mais velho, ainda menor de idade, sozinhos em casa.

Dá muito trabalho você contratar uma mãe, você trabalhar com uma mãe, você querer trazer uma mãe pra perto de você. Vai ser um investimento financeiro que você precisa pensar que vai ser maior do que todos, né, principalmente quando você lida com uma que tem, que cuida de toda uma estrutura familiar, né, que provém [...] não tem outro caminho, é uma consciência que a gente tá muito longe [...] o quão caro, o quão difícil que é pra essa pessoa [...] não é fácil tirar uma mãe de casa, custa muito caro (Rita, 36 anos, Rio de Janeiro, 2023 - entrevista).

Não é somente com Rita que aconteceu de as crianças serem deixadas sob os cuidados de crianças mais velhas. Essa é uma realidade bastante comum e que atravessa gerações e profissões. Joana, com seus 64 anos, também narra, na entrevista, que auxiliava meninas que encontrava na zona em troca de cuidados com seus filhos, também evitando que elas fossem exploradas sexualmente quando ficavam nas ruas e fugiam do juizado de menores.

A maternidade... ela... foi assim uma questão muito difícil pra conciliar o papel de mãe e o papel da profissional do sexo pelo fato de que eu [...] o momento que eu mais podia trabalhar era à noite, porque aí durante o dia eu podia ficar com eles e descansar, né? Mas sempre não dava certo e eu aproveitava muitas garotas de menores que fugiam do... eu levava pro juizado de menor e fugiam, entendeu, e ficavam no ambiente onde eu tava batalhando [...] então eu negociava com elas pra elas não voltar pro juizado de menor, elas irem lá pra casa ficar tomando conta dos meus meninos e eu dava toda guarita a elas, então era assim que eu negociava [...] evitava delas tarem sendo exploradas, né, porque quando elas ficavam na rua elas eram exploradas sexualmente. (Joana, 64 anos, Rio Grande do Norte, 2023 - entrevista)

Classicamente, a prostituição apresenta-se como a alternativa laboral mais rentável e conveniente, quando comparada com trabalhos tradicionalmente vistos enquanto femininos e disponíveis para classes populares urbanas (Blanchette e Silva, 2011; Olivar, 2012; Juliano, 2014; Prada, 2018). Um exemplo é o trabalho doméstico ou de faxina, e que oferece salários menores, mais desgaste físico e menos tempo livre que a atividade sexual da prostituição. No trabalho sexual, muitas mulheres conseguem maior autonomia em comparação com o trabalho registrado em carteira, além de um retorno financeiro maior com menos esforço, como relata Soila, com quem Olivar (2010) teve contato durante sua pesquisa de doutorado no Rio Grande do Sul: “se eu me puxar, em menos de uma semana consigo o que esses caras iam me pagar em um mês... mas eu não gosto de me puxar tanto assim” (Olivar, 2010: 375). Para algumas, o trabalho e as “ajudas” (Piscitelli, 2016) se combinam para garantir melhores condições. No caso de Rita, em entrevista, o que passou a ditar sua forma de se relacionar e cuidar dos filhos foi a chamada “ajuda”, marco das relações estabelecidas por muitas mulheres - prostitutas e não prostitutas - no Brasil (Piscitelli, 2016). Rita recebeu uma proposta de “financiamento” de vida em troca do fim do trabalho sexual, o que, como mostra Fonseca (1996), acaba sendo uma alternativa para as trabalhadoras e mulheres de outras áreas que encontram clientes ou conhecidos dispostos a estabelecer esse tipo de relação, tornando a conciliação com a maternidade mais flexível em termos de horários e custo.

Por fim, vale mencionar que no evento analisado para este trabalho, Transa de Saberes, a convidada Denise Viana, de Manaus, apresenta uma combinação diferente da “mãe” e da “puta”. No relato de sua trajetória no SUS na ocasião do tratamento do câncer de seu filho, ela (re)coloca a questão da hierarquia entre a prostituta e a mãe à luz da discussão, e conta como performou um “devir” (Olivar, 2013) para se impor sobre a situação. Este “devir” aponta para um outro lado da moeda do trabalho, mostrando-se enquanto uma situação de domínio do mesmo por meio do tornar-se algo para além da funcionalidade do ofício. Aqui, o que se pode observar é que o estatuto da “puta” é usado em aliança com a maternidade, num jogo de soma de poderes, uma vez que ambas as instâncias sofrem estigma, assim como apontam Rago (2008) e Sganzella (2011). Denise Viana “usou o que tinha” a partir de sua reputação para conseguir melhores condições para o tratamento do filho:

E eu como puta, dentro do Amazonas, sendo conhecida, tive de dizer “olha, eu sou a puta Denise, quero tirar meu filho daqui do hospital, pra ter direito o meu filho a uma UTI”. E foi o que eu fiz. Usei... não foi a mãe que tirou o filho não, foi uma puta que tirou o filho dela do hospital pra levar pra outro, pro filho ter direito a uma UTI (Denise Viana, 2022 - evento Transa de Saberes).

Como se vê, no caso de Denise, trata-se de um contraponto à precarização comumente vista do status da mulher prostituta; ela se firmou na (e com a) profissão, a ponto de exercer um ato de autoridade dentro da instituição sanitária.

A avó, a mãe e os filhos

As relações transgeracionais atravessam a maternidade das mães-prostitutas em duas instâncias que dialogam: a expectativa que nutrem sobre a participação das avós para com os netos e as demandas específicas destes, frente à dificuldade das mães de darem conta de sua criação sozinhas.

Essa realidade não é exclusiva das mães-prostitutas, sendo cada vez mais comuns núcleos familiares compostos pela mãe enquanto figura central e pela avó como segunda cuidadora principal, muitas vezes vivendo na mesma casa (Costa, 2006; Weissmann, 2009), algo historicamente bastante comum no Brasil. As relações transgeracionais no cuidado aparecem relatadas já por Gabriela Leite, pioneira do movimento de prostitutas, cuja mãe, atravessada por questões geracionais de noção de responsabilidade e do papel materno na criação dos filhos, acabou por criar a primeira neta quando mandou a filha embora de casa, antes mesmo de Gabriela iniciar sua atividade na prostituição, que exerceu ao longo de muitos anos.

A categoria “mãe” é limitante em muitos casos, nos quais observa-se o que a psicanálise chama de “função materna” (Iaconelli, 2020), que consiste numa adoção do papel de mãe por parte de terceiros, como cuidadores ou mesmo avós, conforme discutido nesta sessão de análise. Nos casos das crianças cuidadas pelas avós, os cuidados tradicionalmente cabíveis à mãe são transferidos para essas que se responsabilizam pela criação, educação e cuidado dos netos, tal qual se fossem seus filhos. A constituição psíquica das crianças, sobretudo as mais novas, depende de quem exerce a função materna sobre seus cuidados, sendo a relação avó-netos uma relação comum não só na constituição de grande parte das famílias brasileiras (Weissmann, 2009), como também do psiquismo das crianças.

Apesar dos problemas de vício em álcool da mãe, Rita ainda a julgava a alternativa mais segura e confiável para deixar seus filhos. Esta se responsabilizou pelos dois netos durante anos, até que Rita conseguiu alguma estabilidade para reassumir a maternidade e o cuidado de ambos novamente, como exerce até hoje.

Natália, em contrapartida, queixa-se de uma aparente falta de compreensão da mãe no que diz respeito a seu esgotamento com o filho. Natália tinha uma expectativa de maternidade calcada na experiência da sua própria mãe, que não se confirmou na prática. Quem deve se responsabilizar pelos filhos? Mesmo que nesse caso não exista a mesma necessidade de Rita de terceirizar o cuidado para a avó das crianças, existe um desejo de rede de apoio para poder priorizar o autocuidado, muitas vezes negligenciado pela falta de tempo para si.

Essa coisa é muito insuportável, você falou da mãe [...] rolam uns impeditivos assim, muito esquisitos, né? Muito naturalizados, até de pessoas maneiras, e pessoas que, mais do que ninguém, querem o nosso bem, o nosso progresso profissional, a nossa paz de espírito, né porra, a nossa mãe, e que sabe exatamente, sabe direitinho qual é a do rolê da maternidade, mas é alguma coisa que passa ali, nos interstícios do comportamento, da fala, do julgamento, da avaliação, das pessoas que estão à nossa volta a respeito do que é certo e do que é errado, se é adequado, se não é adequado [...] eu to morrendo aqui, me deixa ir, sei lá, tirar uma semana longe desse bebezinho [...] a gente tem rede de apoio, né, tem rede familiar, de amigos, e é como se nada disso contasse, é o peso da importância da figura materna, assim, irrevogável, inegociável, é um negócio que é uma prisão (Natália, 35 anos, Rio de Janeiro, 2022 - conversa pessoal).

Rita, em oposição a Natália, relata hoje uma total inaptidão para o autocuidado. Ela relata que, na impossibilidade de cuidar de si sozinha, acaba levando os filhos para atividades - como exposições e filmes - que são, antes, de seu interesse. Algo semelhante aconteceu com Joana, distante quase três décadas de Rita. Quando perguntada sobre rede de apoio e autocuidado, respondeu, um tanto quanto ressentida, que, por conta dos filhos, nunca teve tempo para focar nisso e que assim segue até hoje, com seus 64 anos. Outro caso de ausência de autocuidado foi relatado por Patrícia, que além de ter deixado suas necessidades de lado, conta que se apoiou no filho pequeno enquanto uma possível saída para a situação que se encontrava, de ser mãe muito jovem e estar em um relacionamento abusivo. Na época, Patrícia já havia se prostituído e pensava em voltar a exercer a profissão, algo que faz até hoje, mas que por algum tempo manteve em suspenso por conta da pressão do ex-marido. Hoje, Patrícia voltou a ser trabalhadora sexual, e o filho adolescente mora com o pai em outro país. Foi nesse retorno à prostituição que aprendeu, sozinha, o significado de autocuidado.

Enquanto ele morava comigo eu não conseguia me enxergar como prioridade em momento nenhum, inclusive não foi uma coisa nada saudável, só que pelo fato de eu não ter rede de apoio nenhum, eu praticamente ter zero contato com a minha família, porque hoje minha família pra mim é meio parente [...] a gente não tem uma relação de se falar [...] eu fiquei com aquela sensação de eu não posso fazer com que meu filho sinta isso de mim, então eu preciso me dedicar inteiramente a ele, só que nessa coisa de não querer que ele tivesse o mesmo que eu tive, eu me perdi completamente e esqueci completamente de mim [...] foi bem degradante, assim, a minha vida [...] eu meio que inclusive me agarrei no meu filho, assim, pra tipo, eu vou me agarrar nele porque eu preciso ter na minha cabeça que ele precisa de mim pra viver porque senão eu não vou querer viver mais [...] o que hoje eu enxergo o quanto foi ruim (Patrícia, 32 anos, Rio Grande do Sul, 2023 - entrevista).

Questões de saúde materna, sexual e reprodutiva

Questões relacionadas à saúde sexual e reprodutiva (como aborto, aleitamento e HIV/AIDS) surgiram enquanto uma realidade significativa na maternidade das entrevistadas. A maternidade nem sempre é desejada pelas mulheres. De acordo com parte das entrevistadas, os filhos não foram desejados ou mesmo planejados, com esta maioria considerando o aborto enquanto alternativa. Nas narrativas, os relatos vão desde chás abortivos até uso de substâncias e álcool para forçar uma expulsão do feto. Com o fracasso das tentativas, acabaram por assumir os filhos. Fundamental ressaltar que não houve nenhum relato de tentativa de aborto seguro, em clínicas médicas com ginecologista, ou mesmo com uso de medicamentos próprios (misoprostol) sob observação6, tampouco de sucesso nos procedimentos aos quais recorreram.

No início do movimento feminista europeu, em meados do século XX, começou-se a discutir o direito ao aborto, passível de ser criminalizado no contexto da Segunda Guerra Mundial e ainda uma realidade no Brasil contemporâneo. Simone de Beauvoir, em sua obra “O segundo sexo”, propôs uma maior igualdade entre os gêneros e defendeu a necessidade de homens e mulheres “trabalharem juntos para que a diferença biológica não fosse um obstáculo” (Bessa Machado Lima et al, 2019). Assim, o aborto seria visto enquanto uma alternativa viável e disponível para as mulheres, podendo elas escolherem levar uma gestação em frente ou não, inserir-se no mercado de trabalho ou não; ou seja, ter alternativas sem o risco de serem criminalizadas por isso. Tomando as ideias de Beauvoir emprestadas para os dias atuais e o contexto das entrevistadas, nota-se que o país ainda sofre muito com a falta de políticas públicas para se pensar na maternidade compulsória. Um aspecto importante a ser ressaltado em relação a isso é o do chamado “aborto paterno”, visto com naturalidade pela sociedade, que espera - e aceita sem questionar - que o pai da criança não participe de sua criação se não o desejar, levando à Síndrome da Alienação Parental (Taquary, 2016). Ou seja, cabe à mãe gestar, parir e cuidar sem escolha, enquanto o pai pode ausentar-se do processo sem grandes consequências legais para si.

Quando eu engravidei mesmo, eu não queria, eu não queria de nenhum jeito, eu tentei várias vezes botar pra fora... eu entrei de cabeça no mundo das drogas, tipo, eu entrei de cabeça, porque eu não queria, e ela todo dia ligava e dizia [...] vem pra casa que a gente vai conseguir criar essa criança, e eu não queria porque, tipo assim, era 22 anos, eu era muito nova, pra mim eu era muito nova [...] eu bebia, enchia a cara de cana e depois ia brincar nos parques de diversões porque eu dizia isso vai fazer ele sair de dentro de mim, eu botava alguma coisa na minha cabeça que fazia que ele ia sair, até que eu aceitei a minha gravidez, eu fui cuidar, fui no médico, minha mãe me deu total apoio (Lita, 23 anos, Rio Grande do Norte, 2023 - entrevista).

Em sua atuação no coletivo, Lita reforça a necessidade de trabalhar questões de redução de danos com outras trabalhadoras sexuais, sobretudo após sua experiência com a maternidade e a tentativa de aborto. Segundo ela, sua mãe e sua irmã, também trabalhadoras sexuais e entrevistadas para esta pesquisa, passaram pela mesma situação. Sua articulação com outros coletivos visa uma conscientização sobre o uso de drogas e seus riscos na gestação, além da necessidade de acompanhamento pré-natal, geralmente deixado de lado por conta de muitas descobertas tardias de gestação.

A menina eu tomei até chá pra botar pra fora porque ele (o mais velho) ainda era muito pequeno, tinha um ano e pouco quando eu engravidei dela [...] eu não queria de jeito nenhum, meu menino tinha um ano e pouco, ainda era muito dependente [...] eu ia sofrer com duas crianças pequenas (Tainá, 34, Rio Grande do Norte - entrevista).

Olivar (2010), em sua tese de doutorado, traz à tona o caso de Janete, que realizou um total de dez abortos. Ela explicava pela falta de uso do preservativo e das pílulas ainda em teste na época (décadas de 1970-1980), que exigiam uma disciplina grande por parte das mulheres para usar da forma correta. Ainda nessa distância geracional, Joana, a mais velha das entrevistadas, explica que existiu um movimento, mais frequente no passado, de “doar” os filhos ou de deixar sob a tutela das avós, seja por não desejar cuidar da prole ou mesmo por necessidade. Joana conta que, de seus seis filhos, considera apenas cinco, uma vez que os cuidados de uma foram repassados para uma colega que acabou por tomar a guarda da criança (hoje mulher e com filhos também). Segundo a entrevistada, apesar de a separação ter sido dolorida, a menina sofria de problemas de saúde de que ela não conseguia dar conta, e por isso, pensou em seu bem-estar antes do que chamou de “egoísmo de mãe” na tomada de decisão de doar a filha.

Recuperando o caso de Janete (Olivar, 2013), das quatro gestações que levou em frente, três crianças foram deixadas aos cuidados da avó que, por sua vez, restringia o contato que os pais tentavam ter com as crianças, permitindo visitas com hora para terminar e apenas do lado de fora do portão. A avó das crianças já as esperava na maternidade para levar para casa, junto com uma das tias.

Além de Janete e Joana, Tainá também passou por situação semelhante, deixando seu terceiro filho aos cuidados de uma amiga que sempre quis ser mãe. Esse caso mostra como a prática descrita por Joana não está restrita ao passado.

O mais novo eu não tenho, ele fez um ano agora. Não foi uma coisa que eu planejei, não foi uma coisa que eu queria, foi uma coisa que eu ainda demorei a descobrir, a gravidez dele. Eu engravidei foi num acidente de trabalho, onde eu não recorri à pílula do dia seguinte [...] esse eu dei, na verdade, eu dei [...] no dia que eu engravidasse eu daria a ela o menino [...] não vou pegar uma responsabilidade que não dava pra mim [...] eu dei a ela tudo da maneira correta, ela já entrou com o pedido de guarda provisória dele [...] ela cria ele, mas ela não me deixa de fora de nada, eu fiz um bem aos dois (Tainá, 34, Rio Grande do Norte - entrevista).

Outra questão de saúde pública apresentada foi a da amamentação e sua dificuldade de conciliar com os horários do trabalho. Joana relatou, posteriormente à entrevista (por mensagem pessoal escrita), que queria amamentar, mas não teve a chance. Acabou por ofertar “o leite oferecido pelo governo e massa” (com composição não especificada, sabendo que, a depender da região do país, a massa costuma ser constituída de formas diferentes). As mais novas, em contrapartida, puderam amamentar em livre demanda, sem exercer o trabalho sexual no período e, muitas vezes, contando com o suporte da avó das crianças, enquanto as mais velhas (Joana e Fabíola) optaram por alternativas, por não ter como conciliar as duas atividades e contar com menos rede de apoio emocional e financeiro para não trabalhar. Tainá amamentou os dois primeiros filhos por um ano e meio, e o último, que foi doado para uma amiga, somente durante a estadia na maternidade. Por escolha própria, não queria mais seguir amamentando, tanto porque a criança estaria sob os cuidados de outra pessoa, quanto porque, segundo ela, fazia uso de álcool e canabis, que poderiam ser prejudiciais à criança.

Por fim, Mariana, militante do coletivo Coisa de Puta +, trouxe a questão de viver com o vírus do HIV há alguns anos e a necessidade de conscientizar outras trabalhadoras para o tratamento e cuidados durante a gestação, devido aos riscos de contrair o vírus na profissão, por falta de cuidado ou mesmo pelo mau uso do preservativo. Mariana vai além e enxerga a convivência com o HIV/AIDS de forma nada simplista, expondo o conceito de vulnerabilidade presente na situação (Sontag, 2007; Freitas, 2016), tão necessário para se compreender a manifestação da doença em grupos de mulheres. Sua fala é permeada pela atuação do coletivo e pela necessidade de mostrar o percurso do tratamento.

De mostrar que no início da infecção eu saí da zona pra cuidar da saúde e conhecer meu lugar de fala e de direito, pra depois, 3 anos depois, voltar e dizer pras minhas companheiras que a gente poderia sim estar exercendo trabalho sexual, aderindo adesão ao tratamento, cobrando essas metas que são lindas no papel, e hoje a gente volta com tudo cobrando uma meta que ta esquecida dentro do protocolo de saúde, que é a quarta noventa [...] o protocolo de saúde nacional fala de 90, 90, 90, quarta 90: testar, tratar e zerar a carga viral dentro do HIV, e a quarta 90 são pras pessoas afetadas hoje em tratamento que fala da qualidade de vida em todos os sentidos, porém ele invisibiliza sobretudo as trabalhadoras e os trabalhadores sexuais (Mariana, 45 anos, Pará, 2023 - entrevista).

Considerações Finais

Maternar não é fácil. Muitas são as noites em claro no puerpério, a exaustão da privação de sono, a preocupação constante com o bem-estar da prole quando se decide pelo cuidado, a depressão que muitas vezes vem com a solidão da maternidade. E no caso das prostitutas, esta pesquisa mostra como, a todas as dificuldades, somam-se os múltiplos efeitos do estigma, das moralidades e da sobrecarga. As condições de precariedade trabalhista e sanitária da profissão, além do estigma que pesa sobre ela, têm efeitos concretos nas condições da maternidade e reverbera na vida dos filhos, algo que não acontece em outras áreas de atuação profissional. Mesmo dentre as entrevistadas não militantes de coletivos ou associações, existe uma crítica e uma conscientização em relação ao trabalho sexual e sua necessidade de ser visto como um trabalho igual a outros7, além de uma atuação por parte de todas as entrevistadas (militantes e não militantes) em esforço para que isso seja uma realidade. Existe uma ideia, trazida por mais de uma das entrevistadas, de que não raros são os comentários de clientes e pessoas próximas sobre uma expectativa de que as filhas das prostitutas sigam o mesmo caminho da mãe, algo que não ocorre com filhas de outras profissionais, cujas oportunidades de carreira são muito mais amplas. Uma das entrevistadas mesmo disse que a visão da sociedade é a de que “filho de peixe, peixinho é”.

Existe uma preocupação geral com a educação, o bem-estar, a saúde e a conduta moral dos filhos, sendo sempre a prioridade de atenção e cuidado desempenhado por essas mulheres, a fim de que o estigma do trabalho sexual recaia o menos possível sobre eles, ou que saibam lidar com interferências sobre a vida das mães de maneira respeitosa.

Outro ponto crucial foi o da presença das avós na vida dos netos e como principal rede de apoio das mães prostitutas, desde a gravidez até a criação dos filhos. O modelo de família centrado na figura da mãe, e das suas alianças potenciais com outras mulheres (avós, tias, amigas), é o que tende a prevalecer. A paternidade acaba sendo praticamente inexistente, salvo em raríssimos casos (como é o caso de Nilce, única que relatou uma presença do ex-marido na vida da filha).

Além disso, o tema da saúde e do cuidado apareceu de forma sistemática nas entrevistas, o que mostra que existe uma relação direta entre esses assuntos e o trabalho sexual, sobretudo no cotidiano das trabalhadoras, enquanto uma preocupação fundamental. Dessa forma, torna-se impossível falar de prostituição e não pensar em questões de saúde intimamente relacionadas em todas as suas instâncias de cuidado.

Assim, podemos pensar que a maternidade de prostitutas apresenta formas específicas e limitações para o cuidado não só com os filhos, mas consigo mesmas. A falta de regulamentação da profissão (que, embora reconhecida enquanto um ofício, ainda carece de direitos) apresenta entraves para a segurança financeira dessas mulheres, sobretudo nos primeiros meses, a fim de garantir o estabelecimento necessário de vínculos nos estágios iniciais da maternidade. Mas também a maternidade se reinventa e resiste, com o tempo e com as redes de apoio que surgem, com a organização em coletivos e com a luta por respeito e pela dignidade necessária. Em tempo, vale retomar aqui a experiência de Denise no hospital com o filho como um exemplo de força e mobilização contra as forças hegemônicas que, por meio do estigma, insistem em apagar a figura da prostituta não só da luta por direitos, mas da luta por um maternar digno.

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  • WEISSMANN, Lisette. 2009. Famílias Monoparentais. São Paulo: Editora Casa do Psicólogo. 288p.
  • 1
    A partir de levantamento bibliográfico em repositórios como Scielo e Lilacs, como fruto de trabalho de Iniciação Científica realizada no ano de 2022, e que será melhor explicada no tópico de metodologia deste artigo.
  • 2
    Termo usado por duas entrevistadas, por “definir” melhor a natureza do trabalho realizado, não somente sexual, mas de também acompanhar.
  • 3
    Auxílio Jovem Pesquisador Fase 2, da FAPESP, número 2021/06897-9. https://www.cosmopoliticasdocuidado.net.
  • 4
    A profissão já é reconhecida como um ofício segundo a CBO (Classificação Brasileira de Ocupações), sob o código 5198-05 como “Profissional do sexo”. No entanto, ainda não conta com uma regulamentação que garanta direitos trabalhistas para tal.
  • 5
    Esta e outras citações referentes ao evento Transa de Saberes estão disponíveis em vídeo no canal da Faculdade de Saúde Pública da USP no Youtube, que se encontra referenciado na bibliografia deste artigo (Faculdade de Saúde Pública da USP, 2022).
  • 6
    Lembrando que, apesar de existirem recursos para a realização de um aborto de forma segura, o mesmo ainda é criminalizado no país, salvo casos específicos e determinados judicialmente.
  • 7
    Apesar do reconhecimento pela CBO, citado em nota anterior. Leite (2009), Olivar (2010), Prada (2018) discutem amplamente esta ideia comum no campo, do “trabalho igual a outros”, no marco de uma compreensão de enunciações políticas com efeitos pragmáticos. Nenhum trabalho é igual a outro e o trabalho sexual, como insistimos, é intensivamente diferenciado; contudo, na reivindicação por direitos e por condições dignas de vida, ele “é igual a outros”.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    12 Ago 2024
  • Aceito
    08 Abr 2025
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