“Yo solo soy”: Os processos de transições corporais de estudantes trans no Bachillerato Popular Trans Mocha Celis

“Yo solo soy”: The processes of corporal transitions of trans students in the Bachillerato Popular Trans Mocha Celis

“Yo solo soy”: Procesos de transiciones corporales de estudiantes en el Bachillerato Popular Trans Mocha Celis

Luana P.P. Molina Sobre o autor

Resumo

Este artigo surgiu como parte de uma pesquisa que investiga o surgimento de uma escola para a população trans - travestis, transexuais e transgêneros - na cidade de Buenos Aires, Argentina: o Bachillerato Popular Trans Mocha Celis. Os pressupostos deste texto revelam-se a partir de depoimentos de discentes que vivenciaram seus processos de transições identitárias e corporais, como travestis e transexuais, e nos apontam os olhares sobre seus corpos, suas masculinidades/feminilidades e a respeito do acolhimento, ou não, de seus fa-miliares e amigos/as. Utilizando a metodologia etnográfica, de convivência diária e entrevis-tas semiestruturadas, esta pesquisa qualitativa com cinco discentes apresenta suas histórias, que nos permitem compreender como é viver em um mundo sexualmente binário (feminino--masculino), machista, heterossexual e compulsoriamente cisgênero. Ademais, esta pesquisa visa contribuir para reflexões sobre a vigilância dos corpos que acompanham as vivências das pessoas trans, demonstrada na rejeição social da feminilidade expressa por um corpo ainda visto como biologicamente masculino.

Palavras-Chave:
Transgeneridade; Bachillerato Popular; Masculinidade; Corpo

Abstract

This article appeared as part of a research that investigates the emergence of a school for trans - transvestites, transsexuals and transgender -people in the city of Buenos Aires, Argentina: the Bachillerato Popular Trans Mocha Celis. The assumptions of this text are revealed from the testimonies of students who have experienced their processes of identity and body transitions, such as transvestites and transsexuals, and show us their looks on their bodies, their masculinities / femininities and about the reception or not, family and friends. Using the ethnographic methodology, daily living and semi-structured interviews, this quali-tative research with five students presents their stories, which allow us to understand how it is to live in a sexually binary (female-male), sexist, heterosexual and compulsorily cisgender. In addition, this research aims to contribute to reflections on the surveillance of bodies that accompany the experiences of trans people, demonstrated in the social rejection of femininity expressed by a body still seen as biologically masculine.

Keywords:
Transgenerality; Bachillerato Popular; Masculinity; Body

Resumen

Este artículo apareció como parte de una investigación que analiza el surgimiento de una escuela para la población trans - travestis, transexuales y transgéneros - en la ciudad de Buenos Aires, Argentina: el Bachillerato Popular Trans Mocha Celis. Los supuestos de este texto se revelan a partir de los testimonios de estudiantes que experimentaron sus procesos de transiciones identitarias y corporales, como travestis y transexuales, y señalan sus puntos de vista sobre sus cuerpos, sus masculinidades / feminidades y sobre la recepción, o no, de sus familiares y amigos/as. A partir de una metodología etnográfica, por la convivencia diaria y entrevistas semiestructuradas, esta investigación cualitativa con cinco estudiantes presenta sus historias, que nos permiten comprender cómo es vivir en un mundo sexualmente bina-rio (femenino-masculino), sexista, heterosexual y compulsivamente cisgénero. Además, esta investigación tiene como objetivo contribuir a reflexionar sobre la vigilancia de los cuerpos que acompañan las experiencias de las personas trans, demostradas en el rechazo social de la feminidad expresada por un cuerpo aún visto como biológicamente masculino.

Palabras-Clave:
Transgeneridad; Bachillerato Popular; Masculinidad; Cuerpo

Introdução

La niñez trans existe. Yo en esas cosas encuentro mi niñez trans, en esta anécdota. O, por ejemplo, pienso en la niñez trans, en mi niñez trans, y digo:

“Las cosas que hice cuando era niño y no me di cuenta”, porque hubo en su construcción de género, en su identidad, se tiene un proceso en lo que quiere tapar todo, que nadie se dé cuenta, que nadie lo descubra… Y lo que va a ser siempre, se va a descubrir, aunque lo tapes, siempre va ser porque esa es tu esencia.

Alma Fernandez - estudante trans de Mocha Celis

A vivência das pessoas trans1 1 Neste artigo utilizaremos o termo trans para nos referirmos às identidades de gênero travestis, transexuais e transgêneros/as que vivenciam um gênero que não corresponde ao seu corpo anatômico, podendo ou não incluir modificações corporais, hormonais e cirúrgicas. Este termo engloba as diversas expressões identitárias como forma de explicitar os diferentes sujeitos políticos do movimento trans e como forma de sintetizar tais sujeitos (Carvalho, 2018). Especificamente, há dois termos muito utilizados relacionados às construções das identidades de gênero: cisgênero/a e transgênero/a. A teórica Jaqueline Gomes de Jesus (2012:10) conceitualiza os/as cisgêneros/as como pessoas que identificam seu gênero com o sexo biológico que lhes foi atribuído ao nascer. Ainda para melhor compreensão sobre transexualidade, entende-se que são pessoas que se identificam psíquica e socialmente com o sexo oposto ao de seu registro civil; tendo interesse, ou não, pela mudança de sexo (Couto, 1999). Já a travestilidade diria respeito a pessoas que anatomicamente possuem um pênis, porém identificam-se pelo gênero feminino. As travestis são pessoas que vivenciam papéis do gênero feminino, porém na fronteira entre a masculinidade e feminidade (Jesus, 2012:17). é marcada em muitos momentos pela discri-minação, rejeição e incansável luta pela afirmação da sua identidade e pelo en-frentamento das violências institucionais. Esse processo faz o empoderar-se tão complexo, tão intenso, tão único para cada um/uma delas na formação de suas identidades e suas transições corporais. Essas pessoas sofrem com as mais diversas discriminações e violências, fora e dentro do seio familiar (de onde na maioria das vezes são expulsas), além de expressarem outra característica: a de também se tor-narem membros das comunidades migrantes, ou seja, deslocando-se entre cidades em busca de melhores oportunidades de vida e trabalho. O presente artigo foca-se no discurso de cinco discentes do Bachillerato Popular Trans Mocha Celis que se identificam como travestis e transexuais.

Problematizamos nesta pesquisa os conceitos de gênero e as noções de mas-culinidades e feminilidades, uma vez que isto também se expressa na forma como socialmente se constroem referências não só no corpo, mas na linguagem, na for-ma como nos relacionamos, na saúde física e mental, em todo comportamento hu-mano. Note-se que tratamos ambos os termos - masculinidades/feminilidades - no plural, por entender que não há somente uma forma ou um entendimento do que ser social ou culturalmente homem ou mulher. Podemos ser diversos, homens e mulheres, com diferentes vivências.

O discurso social referente ao gênero e à sexualidade está definido desde que nascemos, por meio do nome escolhido pelos/as responsáveis, das cores das roupi-nhas compradas, da decoração do quarto da/o recém-nascida/o, do preenchimento da certidão de nascimento, em que um único ‘X’ determina se uma pessoa será homem ou mulher pelo resto da vida (Butler, 2009BUTLER, Judith. Desdiagnosticando o gênero. Physis Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 19, n. 1, pp. 95-126, 2009.). Determinação que inclui os estigmas e expectativas desse gênero e que estará presente em todos os seus docu-mentos, certificados, comportamentos e, principalmente, na sua própria identidade. Procede-se, assim, a uma naturalização da relação entre o sexo biológico, a sexua-lidade e a identidade individual e social. A partir dessa naturalização, os discursos e saberes médicos reforçaram cada vez mais a ideia de que há somente dois gêneros - masculino e feminino - e, consequentemente, só existiriam dois tipos de “sexo”. Este posicionamento levou a uma classificação binária dos sistemas genitais e da diversidade corporal. Para Berenice Bento (2008BENTO, Berenice. O que é transexualidade. São Paulo: Brasiliense, 2008.), aquilo que evocamos como um dado natural, o corpo sexuado, é resultado dessas normas de gênero. Portanto,

[...] como afirmar que existe um referente natural, original, para se viven-ciar o gênero, se ao nascermos já encontramos as estruturas funcionando e determinando o certo e o errado, o normal e o patológico? O original já nasce “contaminado” pela cultura. Antes de nascer, o corpo já está inscrito em um campo discursivo. O gênero, portanto, é o resultado de tecnologias sofisticadas que produzem corpos-sexuais (Bento, 2008BENTO, Berenice. O que é transexualidade. São Paulo: Brasiliense, 2008., p.55)

E quando se rompem as barreiras dicotômicas do que a sociedade entende como moral e culturalmente certo e esperado? No caso, a transexualidade, a tra-vestilidade, outras identidades2 2 Inclui-se aqui uma gama possível de vivências, particulares dentro da sexualidade. Para Leandro Colling (2011), há uma amplitude de diversidades nos aspectos da sexualidade humana. Por isso, tratando-se das sexualidades e gêneros, entende-se que há diversas formas de “ser” e “vivenciar” as heterossexualidades, homossexualidades, bissexualidades, transexualidades, travestilidades, transgeneridades, intersexualidades. e, também, as diversas orientações sexuais que fogem da heterossexualidade cisgênera tem sido motivos de punições, de vergonha, segregações e violências. Bento (2014BENTO, Berenice. Nome social para pessoas trans: cidadania precária e gambiarra legal.:Contemporânea, v. 4, n. 1, pp. 165-182, 2014.:52) acredita que quando problematizamos essas relações dicotômicas e tão deterministas, homem/mulher, masculino/femini-no, corpo/gênero, outros níveis constitutivos da identidade se liberam e compõem arranjos múltiplos fora desse binarismo. As/os transexuais e as travestis são exem-plos de pessoas que ultrapassam as barreiras que os discursos médicos e sociais impõem sobre o sexo e o gênero:

As experiências de trânsito entre os gêneros demonstram que não somos predestinados a cumprir os desejos de nossas estruturas corpóreas. O siste-ma não consegue a unidade desejada. Há corpos que escapam ao processo de produção dos gêneros inteligíveis e, ao fazê-lo, se põem em risco porque desobedeceram às normas de gênero, ao mesmo tempo revelam as possi-bilidades de transformação dessas mesmas normas. Esse processo de fuga do cárcere dos corpos-sexuados é marcado por dores, conflitos e medos. As dúvidas “por que eu não gosto dessas roupas? Por que odeio tudo que é de menina? Por que tenho esse corpo?” levam os sujeitos que vivem em conflito com as normas de gênero a localizar em si a explicação para suas dores, a sentir-se uma aberração, uma coisa impossível de existir (Bento, 2008BENTO, Berenice. O que é transexualidade. São Paulo: Brasiliense, 2008., p.51)

Este artigo trabalha diretamente com pessoas travestis e mulheres transexu-ais, destacando-as como agentes que transpassam barreiras das masculinidades e ressurgem em identidades femininas, borrando e superando o binarismo de gênero no âmbito da saúde, da educação e do social.

O Bachillerato Popular Trans Mocha Celis e o Coletivo Trans

A Argentina, desde o início do século XXI, tornou-se uma referência quanto aos avanços sociais e jurídicos para a população LGBTTTI - Lésbicas, Gays, Bis-sexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros, Intersexos3 3 O acrônimo LGBTTTI é utilizado nesse artigo pois abarca as diferentes orientações sexuais e identidades de gênero, respeitando as características de cada uma e às necessidades específicas no âmbito das políticas públicas. -, devido à integração e organização dos seus movimentos sociais, alicerçados nos debates em torno dos direitos humanos, juntamente com as políticas públicas nesta área.

Por meio de um discurso voltado aos direitos humanos e de reconhecimento às necessidades das minorias sociais do país, o movimento feminista aliou-se aos movimentos gay, lésbico e de direitos humanos para alcançarem possíveis avanços no exercício da cidadania, liberdade sexual e democracia, denunciando a falta de representações positivas e seus impactos sobre as condições das existências de pes-soas LGBTTTI (Barrancos, 2004).

Já na década de 1990, surgiu um grupo ativista, a Asociación de Lucha por la Identidad Travesti y Transexual (ALITT), para a busca de direitos das traves-tis e denúncia das violências sofridas, inclusive denunciando a migração para a capital do país, fugindo de áreas interioranas e conservadoras com forte influên-cia da Igreja Católica (Berkins y Fernández, 2005BERKINS, Lohana; FERNÁNDEZ, Josefina (coords.). La gesta del nombre propio: in-forme sobre la situación de la comunidad travesti en la Argentina. Buenos Aire: Edi-ciones Madres la Plaza de Mayo, 2005.). A organização das travestis e transexuais começou a manifestar-se e suas principais denúncias e argumentações voltaram-se para a visibilidade4 4 Pós ditadura militar, com a abertura política e a redemocratização no país, os avanços sociais referentes à comunidade LGBTTTI apresentaram-se por meio de uma proliferação de grupos sociais e organizações, como o Grupo de Lesbianas feministas Las Lunas y las otras (1990); Grupo Autogestivo de Lesbianas (GAL); Transexuales por el Derecho a la Vida y la Identidad - Transdevia (1991); Grupo de Investigación em Sexualidad e Interracción Social - Isis (1992); Colectivo Eros (1993); Travestis Unidas (1993); Asociación de Travestis, Transexuales y Transgéneros de Argentina - ATTTA (1996); Federación Argentina de Lésbianas, Gays, Bisexuales y Trans - FLGBT (2005). das suas condições e dificuldade ao acesso à saúde e educação (Bazan, 2010: 458BAZÁN, Osvaldo. Historia de la homosexualidad en la Argentina. De la conquista de América al siglo XXI. Buenos Aires: Marea, 2004.). Nesse contexto, desde 2003, paulatinamente, as discussões sobre gênero e sexualidade alcançaram as mídias, as escolas e outras instituições sociais, com a aprovação de legislação referente à união civil (2003), à educação sexual integral nos currículos escolares (2006), ao chamado casamento igualitário (2010ARGENTINA. Frente Nacional por la Ley de Identidad de Género (FNLIG). Projeto n. 8.126_D-2010. 2010.Disponível em: Disponível em: http://frentenacionaleydeidentidad.blogspot.com.ar Acesso em: 7 mai. 2019.
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), à identidade de gênero (2012) e a cotas para travestis, transexu-ais e transgêneros em concursos públicos (2015).

No contexto de grandes avanços legislativos, apoiados por novas pesquisas acadêmicas sobre a sexualidade e a ascensão dos movimentos de travestis e transe-xuais, a Argentina aprovou a chamada Lei de Identidade de Gênero (Lei 26.743), que representou o reconhecimento do Estado diante das reivindicações dos coleti-vos trans. Estas reivindicações perpassaram por questões relativas à denúncia de perseguições e prisões compulsórias, falta de acesso à saúde e educação, assassi-natos, judicialização nos processos referentes às cirurgias para mudança de sexo, humilhações quanto ao uso do nome social e prostituição. Ao reconhecer essas problemáticas e consequentemente suas vulnerabilidades, tornando-as uma ques-tão pública, o Estado legalmente possibilitou ações educacionais, de inserção ao mercado de trabalho e de assistência à saúde.

Entre os ativistas, a Lei de Identidade de Gênero argentina é considerada modelar, pois teria dado um passo essencial no sentido do respeito à dignidade trans: o do reconhecimento de que a identidade gênero deve se basear exclusiva-mente na autodeterminação dos sujeitos. Tornou-se pioneira em todo o mundo ao deslocar o discurso médico e transferi-lo unicamente para o discurso dos Di-reitos Humanos. Apesar de a cidade de Buenos Aires já ter a Lei nº 3062/2009, que estabelecia a obrigação, em todo âmbito administrativo, de que fosse res-peitada a identidade de gênero de travestis e transexuais, ela era muito restrita, primeiramente por referir-se somente à capital do país e, segundo, por aplicar-se somente ao setor administrativo, o que não resultava em grande impacto e alcan-ce (Barrancos, 2014BARRANCOS, Dora. Historia, histografía y género. Notas para la memoria de sus vín-culos en la Argentina. La Aljaba, v. IX, 2014.:39).

Apoiados na força política crescente dos movimentos sociais, a partir do iní-cio do século XXI, a Argentina tornou-se referência internacional no reconheci-mento legal da diversidade sexual e de gênero. O país, marcado pela grave crise econômica no início dos anos de 1990, reconstruiu uma nova imagem social vin-culada aos inúmeros avanços jurídicos e legais extensivos a toda a comunidade LGBTTTI. Um desses avanços ocorreu no final do ano de 2011, na cidade de Buenos Aires, quando dois militantes e estudiosos da temática da diversidade sexual organizaram-se e fundaram um espaço educacional voltado para a po-pulação de travestis, transexuais e transgêneros/as, de maneira a garantir-lhes o acesso a uma educação gratuita e livre de discriminação pela orientação sexual e/ ou identidade de gênero. Assim, os ativistas e pesquisadores Francisco Quiñones e Agustín Fuchs criaram o Bachillerato Popular Trans Mocha Celis. A inspira-ção para a fundação da escola teria partido de sua leitura e análise do livro La gesta del nombre próprio, de Josefina Fernandez e Lohana Berkins (2005BERKINS, Lohana; FERNÁNDEZ, Josefina (coords.). La gesta del nombre propio: in-forme sobre la situación de la comunidad travesti en la Argentina. Buenos Aire: Edi-ciones Madres la Plaza de Mayo, 2005.). Nele, apresenta-se um informe nacional sobre a situação da comunidade travesti na Argentina, com apontamentos de que a média de vida das pessoas trans era de 35 anos e que as principais causas de morte eram a violência policial, as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e o precário acesso deste coletivo ao sistema de saúde público. Com relação à educação, este mesmo informe apontava que o nível de evasão escolar da comunidade travesti duplicava quando comparado ao da população geral (maiores de 15 anos) que não havia terminado seus estudos. Tanto Quiñones quanto Fuchs estavam cientes de que o alto índice de evasão escolar ocorria pela ação de preconceitos e despreparo dos profissionais da área da educação, além do bullying e perseguição que muitas/os sofriam no dia-a-dia, não só da parte de seus colegas de classe, mas de toda a comunidade escolar. Ou seja, para eles, havia que ser levado em consideração todo o histórico de violência educacional que produziria o sentimento de falta de pertencimento e acolhimen-to no ambiente educacional tradicional. Portanto, o Bachillerato Popular Trans Mocha Celis representa a tentativa de romper com o ciclo de vulnerabilidades e violências - simbólicas e físicas - que condicionam as identidades trans à evasão escolar e, portanto, para muitas/os, ao exercício da prostituição.

O nome Mocha Celis surgiu em homenagem a uma travesti de Tucumán que exercia o trabalho do sexual no bairro de Flores. Após ameaças, ela apareceu morta no Hospital Penna na década de 1990. A ideia central dessa homenagem adveio do fato de que Mocha não sabia ler nem escrever e, toda vez que era detida pela polícia, suas companheiras de cela procuravam alfabetizá-la, mas infelizmen-te morreu sem terminar os estudos.

Em Buenos Aires, o Bachillerato Popular Mocha Celis está localizado no prédio da Associação Mutual Sentimiento5 5 La Associação Mutual Sentimiento foi fundada em 1999 por um grupo de ex-presos e exilados políticos e agrega diferentes cursos de formação profissional, oficinas, farmácia popular, entre outras iniciativas (http://mutualsentimiento.org.ar/acerca-de/). , bem ao lado da estação ferroviária Federico Lacroze, no bairro de Chacarita. Seu horário de funcionamento é no período vespertino, entre meio-dia e seis horas da tarde. O antigo prédio que sedia a escola pertence a uma associação cuja finalidade é agregar núcleos de formação profissional e serviços populares. O fato de a escola estar ao lado do metrô facilita à sua comunidade escolar o acesso ao ambiente educativo. Ade-mais, recebe estudantes de vários bairros da província de Buenos Aires e de ou-tras províncias ao redor. Mocha Celis é descrito no seu Projeto Político Pedagó-gico - PPP (2015) como um espaço socioeducativo coletivo para jovens e adultos terminarem os estudos secundários - equivalente ao ensino médio no Brasil - em três anos, com um posicionamento crítico às desigualdades de gênero. A escola, no seu primeiro ano, iniciou com 15 estudantes inscritas/os. Nos anos seguin-tes, o número de matrículas foi crescendo, chegando, em 2015, a 100 inscritas/ os divididas/os nos três anos de curso, com diferentes construções identitárias e distintas orientações sexuais.

A única restrição para estudar no Mocha Celis é a de ser maior de 16 anos, uma vez que é um ensino supletivo, voltado para jovens e adultos. Para realizar a matrícula é só apresentar seu DNI (equivalente ao RG no Brasil) e o histórico/ certificado de conclusão da primária (equivalente ao Fundamental I e II). Porém, se não tiver concluído a primária, existe a possibilidade de terminá-la enquanto cursa o 1º ano da secundária no Mocha.

Seu corpo docente possui 23 professoras/es de diferentes faixas etárias, identi-dades de gênero e orientação sexual. Estas/es docentes, em sua maioria, chegaram até a escola devido a sua participação e vínculo com os movimentos LGBTTTI da província de Buenos Aires. A primeira constituição do corpo docente, em 2012, foi composta por diferentes profissionais, alguns com formação específica em li cenciatura, outros que exerciam outros ofícios, mas que estavam dispostos/as a participar desta construção.

O impacto do Mocha Celis na comunidade trans foi bastante positivo, inclu-sive entre organizações nacionais e internacionais. No ano de 2012, houve grande repercussão midiática em torno da fundação da escola. Alguns dos prêmios recebi-dos foram: Declaración de interés en la promoción de los Derechos Humanos por la Legislatura de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires; Subsidios del Ministerio de Educación de la Nación - Auspicio del INADI6 6 O INADI - Instituto Nacional contra la Discriminación, la Xenofobia y el Racismo,vinculasse ao Ministerio de Justicia y Derechos Humanos. ; Reconocimiento oficial del Ministerio de Educación de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires.

O ambiente escolar é caracterizado por fomentar a autonomia e o espírito crítico, não somente de seus/suas estudantes, mas de todas as pessoas que giram em torno dele. Dessa maneira, procura promover a equidade de gênero/sexualidade no espaço escolar. É esse o modelo de instituição educacional que Mocha Celis se propõe a ser.

Memórias e relatos: vozes e corpos trans

As memórias aqui trabalhadas são de cinco discentes do Mocha Celis que fre-quentam a escola entre o segundo e o terceiro ano. Identificando-se como travestis e mulheres trans, relatam seu processo de transitar entre as fronteiras das mascu-linidades para as feminilidades principalmente em suas memórias do período da infância e adolescência e suas relações familiares. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas e posteriormente transcritas, no âmbito de uma experiência etnográfica através da qual, enquanto observadora, vivenciei ao longo de 11 meses a rotina do Mocha Celis, entre junho de 2015 e abril de 2016. A etnografia tem como finalidade analisar e objetivar o comportamento social do su-jeito inserido em seu cenário cotidiano, obtendo dados qualitativos por meio de uma série de observações (Rockwell, 2015ROCKWELL, Elsie. La experiencia etnográfica: historia y cultura en los procesos educativos. 1. ed. Buenos Aires: Paidós, 2015.:19). Ainda de acordo com Rockwell (2015), outras características da observação etnográfica são: trabalho analítico descritivo, a centralidade do etnógrafo como um sujeito social, sua experiência prolongada e direta na localidade estudada e, por fim, a construção de conhecimento e interpre-tação dos significados da diversidade cultural. Esta experiência prolongada e direta que possibilita o trabalho descritivo, denomina-se observação participante. Para La-passade (2001:72LAPASSADE, George. L’ observation participante. Revista Europeia de Etnografia da Educação, n. 1, pp. 9-26, 2001.), a execução do método se inicia com a chegada do/a pesquisador/a ao campo da investigação e as negociações que lhe permitirão ter acesso ao espaço investigativo, aos desdobramentos da pesquisa, até, por fim, ao término do estudo. Nessa A esse respeito, nesta pesquisa, a observação participante aplicou-se desde o primeiro contato por e-mail, e se estendeu à minha chegada à cidade e aos contatos iniciais, ao início da participação no Mocha Celis, ao reconhecimento do espaço nas primeiras visitas e a todo o processo que aos poucos possibilitou-me construir uma rede de relações naquele ambiente. Dessa forma, ao analisar o contexto esco-lar em que as travestis e as/os transexuais estão inseridas/os e, como é o caso deste aquiartigo artigo, em uma escola que foi especificamente criada sob a perspectiva dos estudos de gênero e sexualidade, buscamos compreender suas vivências a partir de seus relatos e das observações e interpretações feitas por meio da observação das interações humanas sociaisque sociais que ali ocorrem e partir de seus relatos.

As histórias relatadas trouxeram à tona a relação emocional entre o processo de estar e escrever. Estar na escola, no dia a dia dessas/desses estudantes e docentes, suas lutas, dores e conquistas, e o de fazer-se presente em seus universos, refletem assim o conceito de experiência etnográfica e a identificação com minhas interlocutoras. O processo de seleção dessas/es discentes foi baseado no critério daquelas/es que frequentavam com maior regularidade a escola e participavam constantemente das atividades. Não trabalhei com nomes fictícios, pois nenhuma/ um estudante optou por permanecer anônima/o; contrário, uma das estudantes disse-me: “Quero ser nomeada, o que não é nomeado não existe, e eu existo! ”. Porém, importante ressaltar que todas entrevistas foram realizadas com uso de termo de consentimento, permitindo inclusive o uso de imagens e nomes. Os locais das entrevistas foram selecionados pelas próprias interlocutoras, na maioria das vezes, na própria instituição de ensino.

Resultados e Discussões

O foco de minha pesquisa foi a compreensão dos processos de transições cor-porais de estudantes trans que frequentam o Bachillerato Popular Trans Mocha Celis e, desta forma, nossas entrevistas se iniciam questionando seus olhares sobre seus corpos e experiências durante a infância. As infâncias trans ainda se apre-sentam cercadas de interdições, por isso pessoas trans, durante seu processo de afirmação identitária buscam meios de existir, (re) inventar-se, sobreviver e res-significar sua história. Aceitar e respeitar as infâncias em suas diversidades é um enorme passo e uma grande luta para a população trans, incluindo a ruptura com preconceitos, visões patologizantes, opressões e, consequentemente, com a exclusão imposta pela sociedade.

Na Argentina, após a implantação da Lei de Identidade de Gênero, foi criada em 2013 a Asociación Civil Infancias Libres. Mãe de uma criança transexual, sua fundadora, Grabiela Mansilla, foi a primeira pessoa a utilizar a nova lei para mu-dar a documentação de sua filha trans de seis anos de idade em cartório. Recebeu o DNI (equivalente ao documento RG no Brasil) da filha diretamente das mãos da presidente Cristina Kirchner. Uma das demandas da organização está voltada para ações nas escolas e nas práticas pedagógicas dos/das docentes, para que possam estar capacitados/as a orientar-se por duas leis básicas: a da Educación sexual in-tegral e a da Identidade de gênero.

Desta forma, em um primeiro momento, perguntei para as/os entrevistadas/os como foram suas infâncias e seus sentimentos quanto à sua sexualidade e gênero. Alma Fernandez, travesti do norte da Argentina, relata que, apesar das dificulda-des com sua família, seus avôs tentavam entendê-la e não a forçavam a reproduzir certos padrões masculinos:

[…] yo tenía ocho años y yo no quería que me regalen una pelota o un botín, no quería. Tenía un abuelo que les regalaba a todos los nietos el con-junto del cuadro de fútbol favorito; botines, medias, short y remera, y la pelota. Y a mí, mi abuelo, me daba la plata, me daba 200 pesos y me decía: “Toma cómprate lo que quieras, porque tus gustos son muy raros”. (Alma Fernandez. Buenos Aires/Argentina. Março de 2016)

Com visibilidade nacional e internacional, Alma é hoje uma das principais ativistas do movimento trans na Argentina e fala do tabu que cerca as infâncias trans e da necessidade de compreender e debater este tema:

La niñez trans existe. Yo en esas cosas encuentro mi niñez trans […] pienso en la niñez trans, en mi niñez trans, y digo; “Las cosas que hice cuando era niño y no me di cuenta” Está dentro de vos. Y esto es una verdad, y ahí está la cosa que la sociedad tiene que entender o que las personas, los seres humanos tenemos que entender, cuando estamos frente a esas explosiones de expresiones, entender y no taparlos, no maltratarlos, no apagar esa lla-ma que está creciendo en una persona por sólo… por solo ser diferente. Si decide ser diferente se nota, aunque vos no te des cuenta después te vas a acordar. Yo, a mí, eso me llega, por ejemplo, yo tenía ocho, nueve años y yo me cortaba jeanes, los shorts, hacia shorts cortito de jeanes y lo usaba apretadísimo, y me subía medias hasta las rodillas y andaba así por la calle. (Alma Fernandez. Buenos Aires/Argentina. Março de 2016)

Mulher transexual brasileira, a psicanalista Letícia Lanz, em O Corpo da Roupa (2014LANZ, Letícia. O corpo da roupa: a pessoa transgênera entre a transgressão e a conformidade com as normas de gênero. Curitiba: Transgente, 2014.:233), afirma no mesmo sentido que deveríamos pensar nas crianças trans, colocando-as não mais sob o domínio do medo, da vergonha, da culpa ou da necessidade de constante aprovação familiar e social. As cinco entrevistadas afirmam terem se reconhecido no gênero oposto antes dos 10 anos de idade.

Para o estudioso argentino Adrian Helien (2015HELIEN, Adrián. Transgénero: el punto ciego de la ciencia. Lo que no vimos (o no qui-simos ver). Voces en el Fenix, n. 45, jun. 2015. Disponível em: <Disponível em: http://www.voce-senelfenix.com/content/transg%C3%A9nero%E2%80%9Celpunto-ciego-de-la--ciencia%E2%80%9D-lo-que-no-vimos-o-no-quisimos-ver >. Acesso em: 27 jun. 2017.
http://www.voce-senelfenix.com/content/t...
), referência no processo de redesignação sexual, frente à forte repressão dos pais nesse período da infância:

[...] muchos chicos/as optaron por no manifestarse, se lo guardaron. Esto repercute en la construcción de su identidad y afecta su destino como per-sona. Por eso es tan importante aceptar al hijo/a tal cual es, acompañarla/o con amor, saber que todos somos diversos y normales, que no hay una pa-tología sobre la identidad de género (Helien, 2015, p.52).

A comunidade trans transita por ambientes sociais onde a discriminação, no caso a transfobia, é registro permanente de suas vulnerabilidades. Para Berkins e Fernández (2013:79BERKINS, Lohana. Los existenciarios trans. FERNÁNDEZ, Ana Maria; PERES, William Siqueira. La diferencia desquiciada: géneros y diversidades sexuales. Buenos Aires: Biblos, 2013.), uma forte característica deste grupo é que, na maioria das vezes, não encontram apoio familiar, já que muitos pais são os primeiros a não respeitarem a suas identificações, como aparece em alguns relatos apresentados. Flavia Flores, de 50 anos, travesti da cidade de Buenos Aires, relata com grande emoção o processo de violência e desgaste emocional que sofreu para estabelecer--se em sua identidade feminina, incluindo prisões, internações e choques elétricos.

Vos imagínate que mi mamá chocha porque quería tener un hijo varón, pero después al ir creciendo, digamos a los tres años, para serte precisa, la que se da cuenta es mi abuela […] que yo era rara y le dijo a mi mamá. Mi mamá le decía; “No. Yo tenía en mi cuarto tenía todas cosas de hom-bre; pelota de futbol, cochecitos, trencitos, pero yo no le daba bola, yo me iba el cuarto de ella a jugar con las muñecas y los vestidos, los zapatos. Después a mía adolescencia, a los 10 años, bueno, ella me interno en un colegio porque yo ya me empezó a rescatar, hacer mi mundo, o sea, yo quería estar vestida de mujer, ya a los 10 años me escapaba de mi casa y bueno hasta que me llevó a la policía y me llevo a un reformatorio, y ahí empecé a conocer otra gente, a conocer gente de travestis […] La clínica psiquiátrica era mi mundo, porque me hice amiga de una chica y yo vivía pintada, vivía maquillada, vivía vestida, vivía drogada. Me entiendes, por-que te drogaban, te hacían electroshock y todo por el estilo porque tenías que cambiar, sí o sí, tu manera de pensar. (Flavia Flores, Buenos Aires/ Argentina. Março de 2016)

Um dos métodos terapêuticos utilizados a partir da década de 1930 nos hos-pitais psiquiátricos que recebiam homossexuais foi o tratamento de choque, que surgiu nos Estados Unidos. Green (2000GREEN, James Naylor. Além do carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: Ed. Unesp, 2000.:193) esclarece que além desta intervenção, existiam outras “terapias” como a convulsoterapia, que consistia em injetar o medicamento cardiazol em altas dosagens para provocar ataques epiléticos e a in-sulinoterapia que, por sua vez, causava choque hipoglicêmico. Para Wilian Siqueira Peres (2013:156), tais referências estão presentes nos processos de subjetivação normatizador, de modo a produzir pessoas contidas e disciplinadas, reprodutoras de modelos e ordens previamente dados, fixando identidades cristalizadas, concei-tos binários e crenças universais. Tayra Tolaba, de 41 anos, da cidade de Salta, no norte da Argentina, também é uma das que relata grande dificuldade familiar e sofrimentos devido à transfobia em suas relações familiares. Em seus relatos, cons-tantemente enfatiza sua relação com a mãe:

[...] no fue fácil porque yo tuve que dejar a mi familia, porque ellos no me aceptaban. Entonces era como que estaba huyendo también un de eso y a la vez yo ya estaba cansada de ser como, quién diría, se dice digamos, vulgarmente dicha la palabra una “mariquita de barrio”. Yo quería hacer el proceso que tengo, de convertirme en una trans, tener mi lola, mi cola y todo lo demás, es lo que más anhelaba en la vida. Mi madre me veía en la calle y ella para yo…creo era peor que un perro porque no se daba vuelta ni a mirarme, ¿me entiendes? Hasta llego a gritarme delante de gente que se arrepentía de haberme parido, fue un rechazo muy fuerte que hasta el día de hoy me duele. (Tayra Tolaba, Buenos Aires/Argentina. Março de 2016)

Ser a “bichinha do bairro” marcou profundamente Tayra, a ponto de fazê--la sair de sua cidade e romper relações com sua mãe. Vê-se aí a força coercitiva desses padrões de masculinidade, dessas performances que, como aponta ButlerBUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. (2009BUTLER, Judith. Desdiagnosticando o gênero. Physis Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 19, n. 1, pp. 95-126, 2009.), para alguns como Tayra, impedem, aprisionam e machucam. Os teóricos Santos e Dinis (2013SANTOS, Welson; DINIS, Nilson. Adolescência heteronormativa masculina: entre a cons-trução “obrigatória” e desconstrução necessária. Revista Opsis. Catalão, v. 13, n. 2, p. 129-149, jul./dez. 2013.) dissertam a respeito das masculinidades e, nesse processo de construção, enfatizam a importância de elas serem consideradas históricas e perpassadas pelo gênero, pela sexualidade e pela cultura regional. De forma que os sujeitos tornam-se

[...] projetos de gênero masculino com os quais se envolvem e pelo perten-cimento a determinados grupos, nos quais há regras e maneiras complexas para se construírem e se fazerem pertencer ao modelo de masculinidade hegemônica existente (Santos, Dinis, 2013SANTOS, Welson; DINIS, Nilson. Adolescência heteronormativa masculina: entre a cons-trução “obrigatória” e desconstrução necessária. Revista Opsis. Catalão, v. 13, n. 2, p. 129-149, jul./dez. 2013., p. 131)

Romper com esses projetos e estereótipos de masculinidade na sociedade oci-dental simboliza para a população trans patologizar-se ou vestir-se de outro dis-curso identitário. E qual? Muitas/muitos escondem-se durante anos, com dor e sofrimento psíquico, em uma identidade social masculina. Outras, como nossas entrevistadas, desde novas tiveram a coragem do enfrentamento familiar e social para questionar as formas de coerções masculinas, por exemplo, as dos brinque-dos, roupas, nome. Como relata Ophelia Pagliari,

Cuando me identificaba como homosexual mi familia me fue aceptando de poco a poco, no había muchos problemas e igual yo siempre fui una per-sona reservada con respecto a mi vida privada. Pero al decir que soy trans-género, no me han rechazado, y en cierto modo me aceptan. No lo hacen todos. Incluso hay familiares con los que charle me siguen tratando con el nombre y el género masculino. (Ophelia Pagliari. Buenos Aires/ Argentina. Março 2016)

Mesmo que atualmente alguns processos têm sido marcados por mudanças sociais positivas, como vimos anteriormente no contexto argentino, ainda há mui-tas normas relativamente impositivas a serem rompidas, sendo que a própria mas-culinidade ou masculinidades precisam ser questionadas ou repensadas. Nesse sen-tido, afirma Alma:

[...]me visibilice para todo el mundo, es decir, visibilizaron para todo el mundo a los 12 años. Y me acuerdo… Una cuando uno quiere hacer eso busca a sus pares mayores para ir a su casa a vestirse y que nadie lo vea y salir. Y cuando yo fui y hice eso mi amiga grande, amiga de mi familia, todo, me llevo a su casa, me cambie, me vestí de mujer, me pinte, todo, y cuando salimos a tomar el taxi para ir a bailar, atrás de los carteles, de los carteles que había y de yuyos, estaba toda mi familia escondida. (Alma Fernandez, Buenos Aires/ Argentina. Março, 2016).

Para Tayra, a experiencia da infancia permanece dolorosa:

Me duele, son palabras que me retumban en la cabeza por más que pasarán años, me entiendes. Me crie en un hogar para chicos y, bueno, mi mama ja-más se acordó de mi cumpleaños, ella jamás se acordó de ir para una fiesta, ir a buscarme para que yo pasara una navidad en familia, un año nuevo, un rey, nada. Yo la pasaba en el instituto de menores, cuando yo tenía una madre, cuando ella tenía todos mis hermanos los tenía con ella y la única que estaba lejos de ella era yo. O sea… y todo eso hasta el día de hoy me sigue pareciendo, me entiendes, me sigue persiguiendo, son cosas que me duelen. Yo hay veces estoy bien, pero yo hay veces que me acuerdo de todo eso y lloro sola en mi casa, porque todavía me duele. (Tayra Tolaba, Buenos Aires/ Argentina. Março, 2016).

O processo de transição, de revelar-se, como visto na fala de Alma e de Tayra, tem consequências sociais - afastamento familiar, migração de suas cidades - por negar a masculinidade que emanaria de uma suposta natureza biológica; por ques-tionar as normas de gênero e o binarismo masculino/feminismo.

Por fim, questionei sobre suas experiências na escola Mocha Celis e o que para elas este espaço representa. Para Tayra:

[...] para mi tiene una importancia, pero buenísima. Porque imagínate para nosotras ir hacia una escuela normal, entre comilla, no es fácil […]. Porque está la típica miradita, la burla y un montón de cosas más. Eso va a ser para que una más vaya y se haga mala sangre que estudiar. Entonces el Mocha Celis yo creo que tenemos que agradecer que hay gente que peleo para que haya un lugar como el Mocha Celis para que nosotras podamos concurrir a estudiar, hacer amistades y a enriquecerse un poco más en los conocimientos, me entiendes. Me encanta, me encanta la institución, me encanta el trato de los profesores y el respeto que hay, me encanta todo. Yo no sabía que era un lugar así, yo hace mucho había sentido hablar, pero no sabía cómo era el ma-nejo en sí. Pero desde que concurrí acá la verdad es que me quedé fascinada, me encanta. (Tayra Tolaba, Buenos Aires/ Argentina. Março, 2016).

Para Ophelia,

“Mocha vino para cambiar nuestras vidas. Yo puedo ser yo. Simple así (Ophelia Pagliari. Buenos Aires/ Argentina. Março 2016).

Para Alma

“[…] la educación a mí me volvió un sujeto de derecho. Que a mí la edu-cación me devolvió eso, cómo que me empoderó. Esa cosa… ¿entendes?” (Alma Fernandez. Buenos Aires/Argentina, novembro de 2015)

Os motivos para o retorno aos estudos estão atrelados a busca de melhorias em suas condições econômicas e sociais, além de reparar um tempo já passado, cheio de frustrações. Percebe-se também que o retorno à escola, em específico ao Mocha Celis, constrói um tipo de voz, traço muito característico das estudantes que estiveram presentes desde a fundação da escola: a voz do ativismo e militância. O empoderamento acontece junto com a articulação das ideias, de conceitos, do posicionar-se sobre quem se é, quem se quer ser e o que se quer fazer.

Conclusão

Nota-se que se encontra nos diversos relatos de nossas entrevistadas o con-fronto com a masculinidade social promovida historicamente no âmbito da cultura ocidental: menino viril, heterossexual, cisgênero e másculo. Sem levar em conta outros possíveis atributos atrelados a este estereótipo, como, por exemplo, ser cristão e da raça branca. E desse confronto, do espaço do não pertencimento, do não se encontrar nesse ser, nesse grupo, nesse corpo e nesse nome, surgem re-latos repletos de violências físicas e psíquicas, experimentadas desde criança. Na busca por transpor essa masculinidade e assumirem suas identidades, borram essa fronteira de gênero binário e trazem à tona novas possibilidades de identidades. Ainda são poucas as pesquisas que abordam a transexualidade na infância. Desta maneira, o se procurou fazer nesse artigo, foi dar voz a essas experiências e a essas personagens, contribuindo para problematizar estigmas e estereótipos quanto às identidades de gênero trans e para visibilizar experiências sociais marcadas por in-tensos sofrimentos, exclusões e interdições de direitos e de reconhecimento social.

Referências

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  • 1
    Neste artigo utilizaremos o termo trans para nos referirmos às identidades de gênero travestis, transexuais e transgêneros/as que vivenciam um gênero que não corresponde ao seu corpo anatômico, podendo ou não incluir modificações corporais, hormonais e cirúrgicas. Este termo engloba as diversas expressões identitárias como forma de explicitar os diferentes sujeitos políticos do movimento trans e como forma de sintetizar tais sujeitos (CarvalhoCARVALHO, Mario; CARRARA, Sérgio. Em direção a um futuro trans? Contribuição para a história do movimento de travestis e transexuais no Brasil. Sexualidad, Salud y Sociedad Revista Latinoamericana, n.14, pp. 319-351, 2013., 2018CARVALHO, Mario. “Travesti”, “mulher transexual”, “homem trans” e “não binário”: interseccionalidades de classe e geração na produção de identidades políticas. Cadernos Pagu, n 52, 2018.). Especificamente, há dois termos muito utilizados relacionados às construções das identidades de gênero: cisgênero/a e transgênero/a. A teórica Jaqueline Gomes de Jesus (2012:10) conceitualiza os/as cisgêneros/as como pessoas que identificam seu gênero com o sexo biológico que lhes foi atribuído ao nascer. Ainda para melhor compreensão sobre transexualidade, entende-se que são pessoas que se identificam psíquica e socialmente com o sexo oposto ao de seu registro civil; tendo interesse, ou não, pela mudança de sexo (Couto, 1999COUTO, Edvaldo Souza. Transexualidade - O corpo em mutação. Salvador: Grupo Gay da Bahia, 1999.). Já a travestilidade diria respeito a pessoas que anatomicamente possuem um pênis, porém identificam-se pelo gênero feminino. As travestis são pessoas que vivenciam papéis do gênero feminino, porém na fronteira entre a masculinidade e feminidade (Jesus, 2012:17JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. Brasília: [s.n.], 2012.).
  • 2
    Inclui-se aqui uma gama possível de vivências, particulares dentro da sexualidade. Para Leandro Colling (2011COLLING, Leandro. (Org.). Stonewall 40+ o que no Brasil?. 1ªed.Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia, 2011.), há uma amplitude de diversidades nos aspectos da sexualidade humana. Por isso, tratando-se das sexualidades e gêneros, entende-se que há diversas formas de “ser” e “vivenciar” as heterossexualidades, homossexualidades, bissexualidades, transexualidades, travestilidades, transgeneridades, intersexualidades.
  • 3
    O acrônimo LGBTTTI é utilizado nesse artigo pois abarca as diferentes orientações sexuais e identidades de gênero, respeitando as características de cada uma e às necessidades específicas no âmbito das políticas públicas.
  • 4
    Pós ditadura militar, com a abertura política e a redemocratização no país, os avanços sociais referentes à comunidade LGBTTTI apresentaram-se por meio de uma proliferação de grupos sociais e organizações, como o Grupo de Lesbianas feministas Las Lunas y las otras (1990); Grupo Autogestivo de Lesbianas (GAL); Transexuales por el Derecho a la Vida y la Identidad - Transdevia (1991); Grupo de Investigación em Sexualidad e Interracción Social - Isis (1992); Colectivo Eros (1993); Travestis Unidas (1993); Asociación de Travestis, Transexuales y Transgéneros de Argentina - ATTTA (1996); Federación Argentina de Lésbianas, Gays, Bisexuales y Trans - FLGBT (2005).
  • 5
    La Associação Mutual Sentimiento foi fundada em 1999 por um grupo de ex-presos e exilados políticos e agrega diferentes cursos de formação profissional, oficinas, farmácia popular, entre outras iniciativas (http://mutualsentimiento.org.ar/acerca-de/).
  • 6
    O INADI - Instituto Nacional contra la Discriminación, la Xenofobia y el Racismo,vinculasse ao Ministerio de Justicia y Derechos Humanos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Maio 2020
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2020

Histórico

  • Recebido
    24 Jun 2019
  • Aceito
    03 Abr 2020
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