A abordagem dos serviços ecossistêmicos tem ganhado destaque no campo da conservação ambiental nas últimas décadas por evidenciar a conexão entre o bem-estar humano e as funções dos ecossistemas. No entanto, críticas têm apontado que a predominância de avaliações utilitaristas e monetárias ignora os valores socioculturais e afetivos atribuídos à natureza por diferentes grupos sociais. Este artigo discute a dimensão relacional na valoração dos serviços ecossistêmicos a partir das experiências dos quilombos Cafundá Astrogilda e Dona Bilina, no Parque Estadual da Pedra Branca (RJ). A pesquisa adotou uma metodologia interpretativista e sentipensante, combinando pesquisa-ação, entrevistas e vivência territorial para compreender as percepções e valores das comunidades quilombolas em relação à natureza. A partir das experiências investigadas, constatamos que a abordagem dos serviços ecossistêmicos deve ultrapassar a métrica utilitarista e monetária. O reconhecimento da centralidade dos valores relacionais - como cuidado, reciprocidade, ancestralidade e espiritualidade - na relação dessas comunidades com a floresta é um imperativo para a conservação. Ao evidenciar as práticas e valores que percebem a natureza como princípio de vida, território de vínculos espirituais e fonte de saberes, esta pesquisa inaugura um terreno para uma abordagem mais integrada e plural no campo. Essa perspectiva não apenas contribui para a adoção de práticas de conservação mais justas e conectadas aos modos de vida tradicionais, mas se estabelece como um ato de subversão ao colonialismo intelectual, capaz de influenciar as políticas sociais e as decisões institucionais relacionadas à resolução de conflitos socioambientais com base no reconhecimento da diversidade cultural e epistêmica.
Palavras-chave:
Serviços ecossistêmicos; Valores relacionais; Sentipensar; Maciço da Pedra Branca