Open-access Correlação Entre Segundas Residências e os Esportes à Vela no Litoral do Ceará, Brasil

Resumo

A reprodução das estações balneárias marítimas no Nordeste do Brasil ocorre segundo um padrão de urbanização associado à difusão das segundas residências. Observam-se, no presente, mudanças nos processos indutores desse crescimento, destacando-se o desenvolvimento das práticas esportivas à vela no mar. Este artigo analisa o aumento das segundas residências no litoral cearense e sua possível correlação com esses esportes. Metodologicamente, utiliza dados censitários do IBGE, identificação de empreendimentos por trabalhos de campo e plataformas de mapeamento, além da sistematização de informações da mídia especializada. Em termos técnicos, para a organização, categorização das fontes de dados qualitativos e montagem dos quadros interpretativos, utilizou-se a Plataforma de IA GPT-5 da empresa OpenAI. Ao final, os resultados foram conferidos pontualmente conforme os registros da base de dados. Em relação às segundas residências, no período entre 2010 e 2022 identificou-se aumento expressivo no número de imóveis destinados às estadas temporárias, que, na prática, mais que duplicou. Essa situação configura um quadro urbano marcado por elevado grau de especialização funcional, uma vez que se constatam municípios em que domicílios dessa natureza representam até 25% do total municipal. Os resultados indicam correlação espacial e temporal entre a difusão do kitesurfe e a expansão do imobiliário sazonal, evidenciando a formação de uma rede de lugares turístico-esportivos articulada nas escalas local, regional e internacional.

Palavras-chave:
Kitesurfe; Imobiliário-Turístico; Urbanização

Abstract

The proliferation of seaside resorts in Northeastern Brazil has followed a pattern of urbanization closely linked to the expansion of second homes. However, recent shifts in the processes driving this growth have been observed, most notably the growing prominence of sailing-related sea sports. This article examines the increase in second homes along the coast of the state of Ceará and assesses their potential correlation with these activities. Methodologically, the study draws on census data from the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE); the identification of real-estate developments through fieldwork and digital mapping platforms; and the systematization of information from specialized media sources. The GPT-5 AI platform developed by OpenAI was used to organize and categorize qualitative data sources and to assist in constructing interpretive frameworks. The results were subsequently cross-checked against the database records. Between 2010 and 2022, the number of second homes increased significantly, more than doubling over the period. This trend reflects an urban configuration characterized by a high degree of functional specialization, with some municipalities recording up to 25% of their housing stock in dwellings intended for temporary use. The findings indicate a clear spatio-temporal correlation between the spread of kitesurfing and the growth of seasonal real estate, highlighting the emergence of a network of tourist-sport destinations articulated across local, regional, and international scales.

Keywords:
Kitesurfing; Tourist Real Estate; Urbanization

INTRODUÇÃO

O delineamento das práticas marítimas modernas assume conformação diferenciada na abertura do presente século, constituindo quadro que já não se funda hegemonicamente em práticas de caráter terapêutico-curativo a justificar a emergência das estações balneárias animadas pelos usuários dos banhos de mar. Tal processo converge, atualmente, para a proliferação de usuários afeitos às práticas esportivas (náuticas e aquáticas), enquanto prática de lazer (Natural England, 2017; Global Kitesports Association, 2017; Andrieu et al., 2024) ou serviço turístico-esportivo, cujo grau de satisfação deve ser avaliado (Soares et al., 2023).

Por sua vez, tais práticas impactam a tônica de ordenamento territorial dos espaços litorâneos e assimilam o fenômeno de crescimento do número de segundas residências, atualmente especializadas no receptivo de esportistas amadores.

Dito posto, evidencia-se, no Brasil, forte correlação entre os esportes de vela no mar e o crescimento do volume de segundas residências no litoral (Pereira; Dantas, 2019), com maior expressão na região Nordeste, dado que motivou uma revisão da literatura por parte do grupo de estudos no qual atuamos.

Revisões sistemáticas têm sido realizadas mundialmente, com abordagens, escalas e interpretações variadas (Hall, 2014; Alonso Pérez et al., 2022). O avanço científico se deu tanto por meio de estudos de caso quanto de pesquisas teóricas e generalizadoras (Coppock, 1977; Hall; Muller, 2004; Hoogendoorn; Visser, 2011), associadas à residência secundária em si. No Brasil, as pesquisas acerca das segundas residências invariavelmente remetem à dissertação de Odete Seabra (Seabra, 1979) e à tese de livre-docência de Olga Tulik (Tulik, 1995) como estudos pioneiros, com proposta de compreensão da natureza dessa prática e de interpretação do padrão espacial de distribuição das segundas residências no território estadual.

A partir dos anos 2000, diferentes núcleos de pesquisa consolidaram-se como equipes a contribuir para esse debate, seja por influências derivadas da Espanha (Fonseca, 2012), seja por meio do diálogo com pesquisas em língua francesa (Dantas, 2002; Pereira, 2014; Dantas, 2016; Pereira, 2020). Fato relevante é o fortalecimento de abordagens das segundas residências que correlacionam maritimidade (Dantas, 2014), metropolização (Pereira, 2017) e imobiliário-turístico (Dantas et al., 2010).

Na costura do processo de difusão das segundas residências, a tríade maritimidade-metropolização-imobiliário/turístico mantém-se com potencial explicativo da urbanização litorânea no Brasil (Pereira et al., 2024). Ademais, pesquisas recentes evidenciam novas práticas e agentes sociais capazes de esclarecer a continuidade da expansão desse tipo de alojamento não hoteleiro, a exemplo dos sports de nature (Guibert, 2006, 2011) e das práticas esportivas na praia e no mar (Pereira et al., 2023).

A bibliografia especializada tem comprovado os diferentes desdobramentos dos esportes na organização dos espaços litorâneos turísticos, associando-os a distintas dimensões. Robert e Plouvier (2017), em relação aos mergulhos esportivos, demonstram o impacto dessa prática na atratividade turística regional e no desenvolvimento de serviços específicos a ela associados no litoral de Marselha. Por sua vez, em Biarritz, o surfe apresentou-se como vetor de inovação e de atração de praticantes com elevado poder de consumo, os tontons surfeurs, inclusive com a abertura de clubes esportivos voltados ao apoio ao desenvolvimento da modalidade (Guilbert, 2007).

Quanto às bases naturais que sustentam as práticas esportivas no mar, Guilbert (2014, 2021), ao examinar situações na França, Ilhas Canárias, Maldivas, Havaí e Fiji, apresenta os desdobramentos sociais associados à patrimonialização (das ondas), à privatização (estrutura econômica voltada à elevação dos ganhos com o desenvolvimento da prática) e à monopolização (exclusividade) dos esportes, em detrimento de outros usos. Outrossim, autores discutem o impacto das atividades esportivas, em associação com o turismo, na geração de negócios e empregos, ainda que sazonais, relacionados ao surfe, à vela e até à equitação (Audinet et al., 2012).

Para o caso brasileiro, os registros da Associação Brasileira de Vela, especificamente em seu calendário oficial, demonstram o quantitativo e a distribuição de eventos dedicados aos chamados esportes de vela no mar, sobretudo o kitesurfe. Em complementação, estudo com foco no litoral nordestino apontou a difusão das práticas esportivas no mar como um dos mais recentes indutores da visitação às zonas de praia onde as condições naturais são propícias a tais esportes, fato que constitui uma rede de lugares turístico-esportivos (Pereira; Dantas, 2019).

A partir desse contexto, este artigo pretende verificar se há correlação entre o lançamento de empreendimentos imobiliário-turísticos (segundas residências) e a difusão do kitesurfe (e esportes derivados) no litoral. Para tanto, utiliza-se o caso do litoral do estado do Ceará, no Nordeste do Brasil, por sediar grandes eventos (etapa do Campeonato Mundial de Kitesurf em 2024) e, simultaneamente, por ser apontado por organizações internacionais especializadas como um dos sítios mais propícios à prática dos esportes de vela no mar.

METODOLOGIA

O conjunto de bases teóricas e de procedimentos constitui a metodologia deste escrito. No primeiro nível, das bases teóricas, destaca-se a relação entre segundas residências e práticas esportivas como indicativo da urbanização da sociedade e do território (Santos; Silveira, 2001), da reprodução do espaço urbano (Lefebvre, 2000) e da ressignificação das práticas marítimas esportivas, entendidas como práticas socioespaciais (Dantas, 2014; Pereira, 2012).

No segundo nível, faz-se uso de diferentes bancos de dados:

  1. IBGE: referente aos domicílios recenseados em 2000, 2010 e 2022. Essas informações são utilizadas para identificar as quantidades absolutas de segundas residências em cada município (domicílios particulares permanentes de uso sazonal) e estabelecer proporções a partir do total de domicílios particulares permanentes. Dessa maneira, na escala municipal, avalia-se o impacto desse imobiliário de uso sazonal sobre a função residencial, conforme já empregado em estudos anteriores (Pereira et al., 2024);

  2. Identificação dos empreendimentos turístico-residenciais: atinente à caracterização dos condomínios e resorts de praia lançados nos últimos dez anos em zonas de praia do litoral cearense, construída a partir de consulta direta aos sítios eletrônicos das incorporadoras;

  3. Hemeroteca Digital: baseada na ferramenta Alertas do Google, capaz de filtrar diariamente, nos últimos cinco anos, notícias cujos temas estão relacionados aos termos “kitesurf”, “segundas residências” e “práticas náuticas”;

  4. Trabalho de campo, realizado nas zonas de praia por ocasião da realização de eventos profissionais e amadores dos esportes de vela no mar, com captação de imagens fotográficas e produção de observações acerca dos usos da praia e das dinâmicas locais associadas aos fluxos de visitantes e praticantes, complementadas por entrevistas com organizadores, moradores e praticantes. Essa última etapa metodológica possibilitou a identificação e correlação entre as estratégias de difusão dos esportes à vela no mar (eventos e campanhas promocionais) e a produção de empreendimentos imobiliário-turísticos especializados nessas atividades esportivas.

Ainda em relação à etapa final, cabe detalhar o processo de identificação dos empreendimentos. Esse processo ocorreu inicialmente por meio de consulta ao Google Maps, selecionando estabelecimentos localizados na orla dos municípios do litoral cearense. A partir dessa primeira triagem espacial, procedeu-se à busca sistemática nas redes sociais e/ou nos sites oficiais de cada empreendimento, com o objetivo de compreender seu posicionamento no mercado e verificar o grau de associação explícita ou implícita ao kitesurf. A análise considerou elementos como o uso do esporte em estratégias promocionais, a presença de imagens ou textos relacionados ao kitesurf, a oferta de aulas, o aluguel de equipamentos, a existência de escolas ou parcerias, bem como a segmentação do estabelecimento para o público praticante. Esse procedimento permitiu mapear o conjunto de empreendimentos alinhados aos critérios definidos.

Em termos técnicos, para a organização, categorização das fontes de dados qualitativos e montagem dos quadros interpretativos, utilizou-se a Plataforma de IA GPT-5 da empresa OpenAI (2026). Ao final, os resultados foram conferidos pontualmente conforme os registros da base de dados.

CRESCIMENTO DO NÚMERO DE SEGUNDAS RESIDÊNCIAS

Nos últimos 20 anos, conforme dados do IBGE (2000, 2010 e 2022), o número de segundas residências cresceu significativamente no estado do Ceará. O Censo de 2000 registrou aproximadamente 64 mil domicílios de uso ocasional (DOU) no Ceará. Em 2010, a nova contagem verificou crescimento de 75% em relação à anterior, alcançando o quantitativo de 113 mil DOUs. Na pesquisa nacional mais recente (2022), o número desses domicílios quase duplicou, uma vez que houve incremento de 85%, o que, em termos absolutos, corresponde a 213 mil DOU.

Por sua vez, a Figura 1 permite interpretar as quantidades registradas em 2022 a partir do padrão espacial de distribuição das segundas residências nos 184 municípios cearenses. Em termos de agrupamentos, 133 municípios apresentam menos de 1.000 segundas residências em seus territórios; outros 31 inserem-se na faixa entre 1.000 e 2.000 segundas residências; 17 contabilizam entre 2.001 e 5.638; e três destacam-se por registrar mais de 10.000 segundas residências (Aquiraz, Caucaia e Fortaleza). Nessa perspectiva, há registros de imóveis de uso sazonal em todas as municipalidades, com maior concentração absoluta e impacto proporcional nos municípios litorâneos e/ou inseridos na área de maior integração da Região Metropolitana de Fortaleza.

Figura 1
Distribuição dos domicílios particulares permanentes de uso ocasional no Ceará, 2022

A situação geográfica litorâneo-marítima, tal como verificado em outras regiões e países, mostra-se a mais atrativa às estadas temporárias e, em consequência, à construção de imobiliário residencial sazonal (Beier et al., 2021; Boyer, 2008; Colás; Cabrerizo, 2004). No Ceará, essa lógica socioespacial se confirma. O estado conta com 184 municípios; destes, 10,8% são litorâneos e, por sua vez, respondem por 43,34% de todas as segundas residências do estado, ou seja, 92.469 domicílios de uso ocasional (Figura 2). Em média, nos municípios litorâneos observa-se a relação de 4,6 mil residências secundárias por município, enquanto, para a totalidade do estado, essa relação é de 1,1 mil residências secundárias por município, padrão já verificado em décadas anteriores (Panizza; Pereira, 2009).

Figura 2
Domicílios de uso ocasional em municípios defrontantes com o mar, 2022

A relação entre segundas residências e a situação litorânea também se evidencia ao se verificar o ranking dos dez municípios, tanto em termos absolutos quanto relativos (Tabela 1). Em termos absolutos, entre os dez primeiros, apenas dois municípios do Ceará não se localizam à beira-mar, Sobral e Crato, ambas sedes de cidades médias. Por outro lado, seis são simultaneamente litorâneos e metropolitanos.

Tabela 1
Relação dos dez municípios com os maiores quantitativos absoluto e relativo de segundas residências no Ceará, 2022

No interstício entre 2000 e 2022, observou-se crescimento no número de segundas residências em todos os municípios litorâneos, considerando-se, sobretudo, os dados do último censo (Tabela 2). Em termos absolutos, pode-se subdividir os municípios em quatro conjuntos: o primeiro, formado por Fortaleza, Caucaia e Aquiraz, representa a maior e mais antiga concentração de domicílios ocasionais do estado; o segundo, composto por Beberibe, São Gonçalo do Amarante, Cascavel, Itapipoca, Paracuru, Aracati, Trairi e Icapuí, reúne, em dois eixos - um a leste e outro a oeste -, zonas de praia com nível intermediário de aglomeração dos imóveis de uso sazonal; o terceiro agrega Paraipaba, Acaraú, Camocim, Cruz, Fortim e Amontada, no qual se verifica adensamento mais recente das segundas residências; o quarto, envolvendo Jijoca de Jericoacoara, Itarema e Barroquinha, corresponde ao extremo oeste do litoral cearense.

Tabela 2
Evolução das segundas residências no litoral do Ceará, 2000, 2010 e 2022. Dados absolutos e relativos

De modo geral, as taxas de crescimento intercensitário foram superiores a 20%, com registros máximos acima de 200%. Todos localizados no litoral oeste de Fortaleza, na chamada Costa do Sol Poente, são exemplares os casos de Jijoca de Jericoacoara, Cruz, Itarema, Itapipoca, Acaraú, Paraipaba, Trairi e Amontada. Em tese, três fatores explicam a elevação das segundas residências nesses espaços: i) a melhoria das infraestruturas de transporte, sobretudo a duplicação da rodovia CE-085 e a construção do Aeroporto de Jeri (localizado em Cruz); ii) a implantação de empreendimentos de hospedagem e o aumento do fluxo turístico, especialmente em Jericoacoara, Cruz, Amontada e Trairi; e iii) a crescente difusão das práticas esportivas à vela no mar, com ênfase no kitesurfe (Figura 3).

Figura 3
Dados absolutos e relativos das segundas residências, por município litorâneo no Ceará

Ao considerar a relação entre o total de domicílios particulares situados nos municípios e o número de domicílios ocasionais, observa-se avanço no peso proporcional das segundas residências no parque imobiliário litorâneo. Em comparação aos dados analisados por Panizza e Pereira (2009), referentes aos censos de 1991 e 2000, o contexto de 2022 expressa a intensificação da importância das segundas residências nos espaços costeiros. Os domicílios usados sazonalmente representam 25,3% do total em Aquiraz e 20,5% em Icapuí, evidenciando um modelo de urbanização do território induzido pelos lazeres e pelo turismo. Com valores ligeiramente inferiores, apresentam-se Beberibe (19,9%), Paracuru (19,1%) e São Gonçalo do Amarante (15,6%), demonstrando a manutenção dos padrões verificados nos censos anteriores (Panizza; Pereira, 2009). Em um terceiro patamar, somam-se Cascavel (12,1%), que exibe crescimento proporcional na última década, Aracati (10,1%), Trairi (12,3%) e Fortim (12,2%). Os demais municípios litorâneos apresentam indicadores inferiores a 10%.

Em síntese, de acordo com os dados censitários, é possível regionalizar a distribuição e a concentração das segundas residências no litoral cearense: i) conjunto mais dinâmico de municípios situados entre Trairi (oeste) e Icapuí (leste), consistindo em espacialidade receptora de fluxos turísticos e de vilegiaturistas, polarizada por Fortaleza, como resultado do processo de metropolização pautado nas atividades imobiliárias e turísticas; ii) conjunto descontínuo, marcado pela lógica da urbanização extensiva e promovido por investimentos públicos em infraestruturas de transporte (duplicação de rodovias e aeroporto regional) e por investimentos turístico-imobiliários. Nesse segundo conjunto, forma-se uma rede de lugares conectados a diferentes escalas (local, nacional e internacional), incluindo zonas de praia de Jijoca de Jericoacoara, Cruz e Amontada.

Consequentemente, o padrão de localização das segundas residências no litoral do Ceará aponta para processos simultâneos e complementares: concentração da função imobiliário-turística no litoral metropolitano e criação de novas destinações turísticas onde se constata crescimento do número de segundas residências, motivado por inovações nas práticas marítimas modernas, a exemplo dos esportes à vela no mar.

ESPORTES À VELA NO MAR NO CEARÁ

Apresentadas as mudanças qualiquantitativas em relação às segundas residências no litoral do Ceará, cabe investigar os níveis de correlação entre a difusão dos esportes à vela no mar (como o kitesurf) e o incremento de domicílios de uso ocasional nas zonas de praia desse estado.

No século XXI, à clássica característica do sistema turístico - a mobilidade turística sazonal (Guibert; Guillemot, 2018) - associam-se outras três condições do presente, capazes de interferir no desenvolvimento de práticas de esportes em escala mundial: i. a consolidação de um ideário baseado no “retorno à natureza” por meio da construção de meios de hospedagem e segundas residências a centenas de quilômetros das grandes aglomerações urbanas (Vargas Del Rio, 2015); ii. a realização de atividades laborais no modelo “teleworking” (teletrabalho), em contraposição à divisão tradicional entre espaço-tempo de trabalho e espaço-tempo de lazer (Oliveira, 2020); e iii. os modelos flexíveis, mais econômicos, compartilhados e intercambiáveis de acesso às segundas residências, como ocorre com a multipropriedade (Maia et al., 2024).

Ao considerar as condições mencionadas, verifica-se o crescente papel dos esportes à vela no mar no processo de diversificação turístico-imobiliária dos balneários litorâneos cearenses, a partir de quatro indicadores: a) reconhecimento internacional; b) criação de imagens turísticas relativas aos esportes; c) realização de eventos esportivos; e d) empreendimentos turístico-imobiliários especializados.

a) Reconhecimento nacional e internacional

O litoral cearense é reconhecido como zona de elevada qualidade para o desenvolvimento de práticas esportivas à vela no mar. De acordo com o site francês especializado Spots d’Évasion, a costa cearense apresenta condições naturais - sobretudo ventos constantes - favoráveis ao kitesurfe e ao windsurfe (Figura 4). Na escala nacional, entidades como a Confederação Brasileira de Vela e a Associação Brasileira de Kitesurfe constituem-se como responsáveis pela difusão dessas práticas, colocando em relevo o litoral nordestino e o estado do Ceará, inclusive com a indicação de especialistas voltados à introdução dos esportes para iniciantes.

Figura 4
Localização dos lugares adequados dos esportes de natureza

Esses sítios eletrônicos constituem as principais fontes consultadas por praticantes profissionais e amadores, o que invariavelmente resulta na indução à visitação das destinações indicadas. Tal reconhecimento impacta os fluxos turísticos segmentados, no que os autores denominam turismo esportivo (Pigeassou, 2004). Nesse sentido, dados da Secretaria Estadual de Turismo do Ceará apontam crescimento de 17,5% no total de turistas em 2025 em relação a 2024, bem como aumento de 21,2% na receita turística gerada. Em termos absolutos, em 2025, os dados oficiais contabilizaram 350 mil turistas esportivos e R$ 1,387 bilhão em receita turística direta.

Longe de produzir homogeneamente os balneários cearenses, o reconhecimento nacional e internacional das zonas de praia aptas aos esportes à vela no mar gera níveis diferenciados de especialização do território. Ao longo do tempo, praias como Jericoacoara (Jijoca de Jericoacoara), Preá (Cruz) e Cumbuco (Caucaia) adquirem maior notoriedade e exposição nas mídias dedicadas aos praticantes, a ponto de haver registros de estudos específicos sobre tais transformações (Silva; Paula, 2022; Mesquita et al., 2024).

b) Elaboração de imagens turísticas relativas aos esportes à vela no mar

A elaboração das imagens turísticas do Ceará e de Fortaleza está diretamente relacionada à propaganda da elite política local e às ações de marketing turístico (Dantas, 2002). Iniciado no final dos anos 1980, o processo de construção sociopolítico-midiática renova-se ao longo do tempo, incorporando aspectos recentes ao rol das chamadas vocações turísticas do litoral cearense.

Ao analisar e sistematizar o conjunto de anúncios veiculados entre 2024 e 2025 em diferentes plataformas digitais (identificadas por meio do sistema Google Alertas), constatam-se dois padrões básicos (Quadro 1).

No primeiro, referente aos lugares, observa-se destaque para Praia do Preá (Cruz), Fortim, Icaraizinho de Amontada (Amontada), Jijoca de Jericoacoara (Jericoacoara), Canoa Quebrada (Aracati), Cumbuco (Caucaia), Camocim e Praia da Marambaia (Aquiraz). Ao avaliar a lista de lugares evidenciados, percebe-se o fortalecimento de espaços onde os esportes já se mostram turisticamente relevantes e com elevado número de segundas residências, como nos casos de Caucaia e Aquiraz; e, por outro lado, daqueles em que as práticas esportivas se tornaram os principais vetores de um processo relativamente recente de turistificação e urbanização do território por meio das segundas residências, como em Fortim, Amontada e Cruz.

No segundo, relativo aos elementos de propaganda, identifica-se a exaltação dos ventos e da natureza, o enaltecimento da infraestrutura turística e de luxo, a associação entre esporte e potencialidades econômicas e, por fim, o apelo a públicos específicos (turistas e investidores). Dado o caráter publicitário das notícias, destaca-se o tom emocional, baseado na adjetivação positiva dos lugares e, em consequência, a ausência de menções às contradições, problemáticas ou conflitos em suas diferentes dimensões.

Quadro 1
Publicidades registradas em mídias digitais em relação ao kitesurfe no Ceará (2024-2025)

Na fase atual do marketing turístico-esportivo, cumprem papel fundamental os agentes sociais públicos e privados. O Estado, em nível estadual e municipal, sobretudo, compõe campanhas publicitárias que apresentam os esportes no mar como parte indissociável da paisagem turística litorânea. Ao slogan “Ceará, Terra do Sol”, comumente defendido na publicidade turística e nas propagandas políticas dos anos 1990 (Aragão; Dantas, 2006), somam-se novos elementos: “Ceará, Terra do Sol, do Vento e das Velas”. Nos mapas turísticos atuais, as velas aparecem em praticamente toda a zona de praia dos municípios cearenses, seja na chamada costa do sol poente, seja na costa do sol nascente (Figura 5).

Figura 5
A representação dos esportes à vela no mar nos mapas turísticos

Em complementação, atuam as empresas turísticas e imobiliárias, sobretudo por meio da organização e do patrocínio de eventos das modalidades esportivas, bem como pela adaptação de seus empreendimentos à recepção de praticantes profissionais e, majoritariamente, amadores. Ressalte-se o caso do projeto Leste Wind, lançado em 2024, conduzido pelos empreendimentos Beach Park (Aquiraz), Dom Pedro Laguna (Aquiraz), Varandas Beach Hotel (Cascavel), Zebra Beach Hotel Boutique (Beberibe) e Jaguaríndia Village (Fortim). Considerando o quadro menos consolidado em relação ao evidenciado na Costa Oeste, o conjunto de empreendimentos situados na Costa do Sol Nascente articulou-se com o objetivo de elevar a demanda turística por meio de ações promocionais e do estabelecimento de um calendário de eventos ao longo do segundo semestre, durante a chamada temporada dos ventos no Ceará.

Além disso, os próprios usuários das praias - praticantes dos esportes -, por meio de seus perfis em plataformas de interação digital (redes sociais), constituem-se como vetores de difusão das imagens das zonas de praia. Tal processo carece de maior aprofundamento e de investigações específicas, haja vista pesquisas que comprovam o impacto do marketing digital na promoção turística (Barbosa et al., 2020).

c) Eventos esportivos à vela

A realização de eventos esportivos à vela no mar configura-se como estratégia fundante no processo de consolidação das praias do Ceará enquanto espaços propícios a tais práticas. De acordo com dados da Confederação Brasileira de Vela, entre os anos de 2021 e 2024, 17 eventos dessa natureza foram sediados no Ceará. Para o ano de 2025, estão previstos 12 eventos (Quadro 2).

Até 2023, havia exclusividade de Fortaleza como zona de realização desses eventos; contudo, a partir de 2024, outras praias passaram a ganhar notoriedade, sobretudo Jericoacoara, Cumbuco e as praias de Trairi. Entre as modalidades recorrentes, destacam-se o kitesurfe e o wingfoil. Quanto à abrangência, predominam os eventos de caráter nacional, com realização mais frequente no segundo semestre, em função da temporada de ventos intensos.

Quadro 2
Relação dos eventos sediados no Ceará entre 2021 e 2025

Certos eventos das modalidades à vela apresentam-se sob a forma de rali. Esses são subdivididos em etapas e, em consequência, incluem várias zonas de praia ao longo de centenas de quilômetros de litoral. Nesse caso, enquadra-se o “Sertões Sol de Kitesurfe”, de abrangência internacional. Em sua edição de 2025, o evento incluiu cinco praias em cinco municípios distintos (com início em Fortim e finalização em Cruz), com percurso estimado em aproximadamente 400 quilômetros.

Realizados em circuito e, majoritariamente, ao longo de quatro dias, os eventos dos esportes em destaque possibilitam a formação de roteiros esportivos que se transfiguram em roteiros turísticos. Aos lugares inscritos na rede de praias turistificadas acrescentam-se novas destinações, inicialmente baseadas na prática esportiva, mas que, em sequência, passam a se reorganizar a partir da construção de meios de hospedagem, de empreendimentos imobiliários do tipo condomínio para uso sazonal e da criação de empresas capazes de fornecer serviços de apoio aos esportistas e aos demais visitantes.

d) Empreendimentos turístico-imobiliários especializados;

A realização dos eventos, a propagação das imagens e o reconhecimento nacional e internacional refletem e condicionam a disseminação das práticas esportivas à vela nas zonas de praia do Ceará e, do mesmo modo, apontam para desdobramentos socioeconômicos e imobiliários derivados desses processos.

No que se refere ao setor de serviços no Ceará, a Associação Brasileira de Kitesurfe registra 18 escolas, 7 entidades associativas e 113 instrutores. Quanto aos serviços de hospedagem, estudo realizado em 2022 demonstrou que, em Cumbuco - principal destinação dos praticantes de esportes à vela no mar -, 15 empreendimentos hoteleiros tinham os esportistas como principal clientela, sendo 6 pousadas, 5 hotéis e 4 hostels (Mesquita, 2023).

Além disso, é na produção e/ou adaptação de empreendimentos imobiliário-turísticos que se verifica relação direta entre as práticas esportivas à vela e o uso sazonal dos imóveis. A realização de pesquisa direta, com o objetivo de identificar empreendimentos ao longo de todo o litoral cearense, evidenciou diferentes graus de integração do kitesurfe às estratégias turísticas, de forma direta ou indireta. No primeiro caso, localizam-se hospedagens totalmente segmentadas para o esporte náutico, com escolas próprias, serviços especializados e uso intensivo de imagens promocionais. Na segunda categoria, encontram-se estabelecimentos que apenas mencionam ou utilizam o kitesurfe como apelo mercadológico.

A distribuição dos empreendimentos ao longo do litoral cearense foi correlacionada com a quantidade de segundas residências. Dessa correlação, identificaram-se três padrões: a) Caucaia, município com número significativo de segundas residências e forte incidência do kitesurfe; b) Aquiraz, Aracati, São Gonçalo do Amarante e Beberibe, municípios com número significativo de segundas residências e incidência média do kitesurfe; e c) Jijoca de Jericoacoara, Cruz, Itarema e Fortim, frente de expansão simultânea das segundas residências e da prática do kitesurfe.

Não foram identificados, contudo, empreendimentos que atendessem aos critérios metodológicos nos municípios de Barroquinha e Fortaleza (Figura 6).

Figura 6
Mapa dos empreendimentos imobiliários, hoteleiros ou de serviços associados ao kitesurfe no litoral do Ceará

Nesse contexto, destacam-se os investimentos do Grupo Carnaúba no município de Cruz, especificamente na Praia do Preá. Os R$ 4 bilhões a serem investidos entre 2024 e 2034 apontam para a construção de um complexo turístico, composto por condomínio, hotéis e residências associadas a serviços hoteleiros. Na composição do negócio, há tratativas com redes hoteleiras internacionais e nacionais, como Accor, Club Med, Habitas e Carmel (Quadro 3). Ademais, em sua propaganda, o complexo anuncia como um de seus atrativos-âncora o “Carnaúba Wind House”, correspondente a um beach club e hospedagem voltados a praticantes de kitesurfe, com operação do “Rancho do Kite”.

Quadro 3
Investimentos imobiliários e hoteleiros voltados aos praticantes de kitesurfe no Ceará

Situação semelhante à observada em Preá registra-se em Fortim. Nesse município, o complexo Praia Canoé constitui o principal exemplo de incorporação imobiliário-turística, com produtos hoteleiros e segundas residências destinados, majoritariamente, aos praticantes de esportes à vela no mar. Os empreendimentos Jaguaribe Villas, Jaguaribe Lodge, Hotel Jaguaríndia Village, Fortim Eco Village e Fortim Villas compõem o complexo. Os três primeiros estão associados à hospedagem e aos serviços turísticos clássicos, enquanto os dois últimos destinam-se ao mercado imobiliário, sobretudo para uso sazonal. Paralelamente à promoção imobiliária, o conjunto de empreendimentos atua ao vincular sua imagem ao kitesurfe, tanto na organização do projeto Leste Wind quanto ao sediar o evento Sertões Sol Kitesurfe.

No que se refere à adaptação dos empreendimentos, dois casos constatados são os complexos Aquiraz Riviera (Aquiraz) e Cumbuco Village (Caucaia). Ambos, inaugurados há mais de uma década e com participação de capital português (grupos Vila Galé e Dom Pedro), alteraram seus planejamentos com vistas à inclusão de produtos imobiliário-turísticos diretamente relacionados aos esportistas náuticos (Figura 7). Esse processo se materializa na construção do Vila Galé Collection Sunset Cumbuco e na renovação (retrofit) do Dom Pedro Laguna, orçadas em R$ 70 milhões e R$ 40 milhões, respectivamente.

Figura 7
Empreendimentos imobiliários e o kitesurfe no litoral do Ceará

Os quatro exemplos apresentam-se em dois contextos distintos, referentes ao adensamento das segundas residências em escala municipal, à densidade de empreendimentos e à temporalidade dos processos. No primeiro grupo estão os localizados em Caucaia e Aquiraz, com número de empreendimentos e segundas residências superior a 10 mil unidades e inseridos em contexto metropolitano. Nesses casos, os complexos são anteriores à difusão dos esportes, porém tendem a se inovar por meio da agregação de novos atrativos, conforme observado no processo de modernização dos balneários turísticos litorâneos do Nordeste (Pereira et al., 2025).

No segundo grupo, no qual se enquadram Cruz e Fortim, percebe-se uma frente de expansão do imobiliário-turístico, marcada por pequeno número absoluto de segundas residências, porém com elevadas taxas de crescimento relativo na última contagem censitária. Diferentemente do primeiro grupo, neste caso a elevação do número de segundas residências vincula-se diretamente ao momento de difusão dos esportes à vela no mar, sobretudo do kitesurfe.

CONCLUSÕES

Este artigo propôs uma compreensão atualizada dos processos de urbanização do litoral cearense, sobretudo daqueles relacionados às práticas de lazer e ao turismo náutico. Nesse sentido, com base nos dados censitários e nas pesquisas de campo, o estudo confirmou a correlação espacial e temporal entre o crescimento das segundas residências e a difusão da prática náutica do kitesurfe e de seus derivados na costa cearense. Especificamente, a cartografia demonstrou a existência de uma frente de expansão do imobiliário-turístico na Costa do Sol Poente do Ceará.

Em relação às segundas residências, no período entre 2010 e 2022 identificou-se aumento expressivo no número de imóveis destinados às estadas temporárias, que, na prática, mais que duplicou. Essa situação configura um quadro urbano marcado por elevado grau de especialização funcional, uma vez que se constatam municípios em que domicílios dessa natureza representam até 25% do total municipal. Em consequência, reafirma-se um processo de urbanização baseado no fluxo sazonal de turistas e desportistas, proprietários ou não de imóveis.

Conforme especificado, em municípios como Cruz, Fortim, Jijoca de Jericoacoara, Itarema e Amontada, a prática do kitesurfe promove a turistificação, assim como processos imobiliários de produção de empreendimentos de segundas residências e a consequente valorização fundiária.

A relação entre kitesurfe e zonas turísticas produz padrões heterogêneos de concentração. Além da frente de expansão anteriormente mencionada, a localização metropolitana manteve-se estratégica na atração de fluxos, na construção de empreendimentos e na organização de eventos. O caso exemplar é o litoral de Caucaia, particularmente a praia do Cumbuco.

Ao compreender a produção de empreendimentos turísticos especializados nas práticas náuticas, evidenciou-se também o papel estratégico do marketing esportivo e dos eventos. No momento atual, as segundas residências são produzidas majoritariamente sob a forma de condomínios e complexos imobiliários à beira-mar. Essa especialização reafirma-se nas peças de marketing, na propaganda estatal e também na funcionalidade dos imóveis adaptados aos esportes náuticos.

Por fim, cabe destacar a multiescalaridade dos processos de turistificação e urbanização litorânea. A prática do kitesurfe contribui para a formação de uma rede de lugares turístico-esportivos, articulada nas escalas local (as praias), regional (os circuitos competitivos) e internacional (marketing, origem dos praticantes e investidores).

AGRADECIMENTOS

Este estudo foi desenvolvido no Laboratório de Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Ceará e contou com recursos do CNPq, por meio de Bolsa de Produtividade; do INCT Observatório das Metrópoles; do CAPES PROEX; e do Programa FUNCAP - Apoio às Estratégias de Cooperação Científica do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFC.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados que fundamentam os resultados deste estudo poderão ser disponibilizados pelo autor correspondente, mediante solicitação devidamente justificada. [Alexandre Queiroz Pereira].

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Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Set 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 2026

Histórico

  • Recebido
    12 Fev 2026
  • Aceito
    18 Mar 2026
  • Publicado
    14 Abr 2026
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