Regiões culturais: a construção de identidades culturais no Rio Grande do Sul e sua manifestação na paisagem gaúcha

Cultural region: the construction of cultural identities in Rio Grande do Sul and its manifestation in the regional landscape

Resumos

A organização do espaço analisada pelo viés cultural permite visualizar uma gama de aspectos materiais e imateriais que perpassam o tempo e se materializam no espaço, como um legado cultural, que se manifesta através da descendência. Nessa perspectiva, essa pesquisa centra-se na análise da construção de identidades culturais no Rio Grande do Sul e sua manifestação na paisagem gaúcha, salientando as principais regiões culturais existentes no Estado atualmente. Teve-se como meta regionalizar o Estado mediante critérios culturais, ou seja, estabelecer recortes espaciais de acordo com a etnia predominante, tendo como base os limites municipais. Delineados os recortes regionais, fez-se a análise das regiões culturais, de acordo com a expressividade e a manifestação do sistema simbólico que acompanha cada sociedade em sua relação com o espaço e com os seus semelhantes. Salienta-se que, a identificação dos principais códigos culturais que emanam de cada grupo social, subsidiou a análise da contribuição de cada etnia para a construção da cultura gaúcha. Nesse contexto, pode-se considerar a complexidade da composição étno-cultural do território gaúcho, oriunda de fluxos populacionais, que se inseriram mediante processos controlados por políticas específicas de incentivo ao povoamento e a colonização. Tal situação originou porções do espaço dotadas de significados que, por sua vez formam uma pluralidade cultural, ou seja, atualmente, o Estado constitui-se em um mosaico étno-cultural, composto por etnias diversificadas, ao mesmo tempo em que se reconhecem como essencialmente gaúchas.

cultura; identidade; região cultural; códigos culturais; Rio Grande do Sul


The organization of the space analyzed by a cultural view allows us to visualize a range of material and immaterial aspects that go by the time and they materialize in the space, as a cultural legacy, that shows itself through the descent. In that perspective, this research is centered in the analysis of the construction of cultural identities in Rio Grande do Sul and its manifestation in the 'gaúcho' landscape, pointing out the main existent cultural areas now in the State. Our main goal was to regionalize the State by cultural criteria, in other words, to establish space cuttings in agreement with the predominant ethnic group, having as base the municipal limits. Delineated the regional cuttings, it was made the analysis of the cultural areas, in agreement with the expressiveness and the manifestation of the symbolic system that accompanies each society in its relation with the space and people. It is pointed out that, the principal cultural codes identification that emanate of each social group made the analysis of the contribution of each ethnic group for the construction of the 'gaúcho' culture possible. In that context, it can be considered the complexity of the ethnic-cultural composition of the 'gaúcho' territory, originating from the population flows, which were inserted by processes controlled by specific politics of incentive to the settlement and the colonization. Such situation originated portions of the space endowed with meanings that, in turn form a cultural plurality, in other words, nowadays, the State is constituted in a ethnic-cultural mosaic, composed by diversified ethnic groups, at the same time that are recognized as essentially 'gaúchos'.

culture; identity; cultural area; cultural codes; Rio Grande do Sul


Regiões culturais: a construção de identidades culturais no Rio Grande do Sul e sua manifestação na paisagem gaúcha1 1 Dissertação de Mestrado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia/CCNE/UFSM, em outubro de 2007, Recursos CAPES.

Cultural region: the construction of cultural identities in Rio Grande do Sul and its manifestation in the regional landscape

Helena Brum NetoI; Meri Lourdes BezziII

IMestre em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Maria, southelen@yahoo.com.br

IIProfª. Drª. do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Maria, meri@oslo.ccne.ufsm.br

RESUMO

A organização do espaço analisada pelo viés cultural permite visualizar uma gama de aspectos materiais e imateriais que perpassam o tempo e se materializam no espaço, como um legado cultural, que se manifesta através da descendência. Nessa perspectiva, essa pesquisa centra-se na análise da construção de identidades culturais no Rio Grande do Sul e sua manifestação na paisagem gaúcha, salientando as principais regiões culturais existentes no Estado atualmente. Teve-se como meta regionalizar o Estado mediante critérios culturais, ou seja, estabelecer recortes espaciais de acordo com a etnia predominante, tendo como base os limites municipais. Delineados os recortes regionais, fez-se a análise das regiões culturais, de acordo com a expressividade e a manifestação do sistema simbólico que acompanha cada sociedade em sua relação com o espaço e com os seus semelhantes. Salienta-se que, a identificação dos principais códigos culturais que emanam de cada grupo social, subsidiou a análise da contribuição de cada etnia para a construção da cultura gaúcha. Nesse contexto, pode-se considerar a complexidade da composição étno-cultural do território gaúcho, oriunda de fluxos populacionais, que se inseriram mediante processos controlados por políticas específicas de incentivo ao povoamento e a colonização. Tal situação originou porções do espaço dotadas de significados que, por sua vez formam uma pluralidade cultural, ou seja, atualmente, o Estado constitui-se em um mosaico étno-cultural, composto por etnias diversificadas, ao mesmo tempo em que se reconhecem como essencialmente gaúchas.

Palavras-chave: cultura; identidade; região cultural; códigos culturais; Rio Grande do Sul.

ABSTRACT

The organization of the space analyzed by a cultural view allows us to visualize a range of material and immaterial aspects that go by the time and they materialize in the space, as a cultural legacy, that shows itself through the descent. In that perspective, this research is centered in the analysis of the construction of cultural identities in Rio Grande do Sul and its manifestation in the 'gaúcho' landscape, pointing out the main existent cultural areas now in the State. Our main goal was to regionalize the State by cultural criteria, in other words, to establish space cuttings in agreement with the predominant ethnic group, having as base the municipal limits. Delineated the regional cuttings, it was made the analysis of the cultural areas, in agreement with the expressiveness and the manifestation of the symbolic system that accompanies each society in its relation with the space and people. It is pointed out that, the principal cultural codes identification that emanate of each social group made the analysis of the contribution of each ethnic group for the construction of the 'gaúcho' culture possible. In that context, it can be considered the complexity of the ethnic-cultural composition of the 'gaúcho' territory, originating from the population flows, which were inserted by processes controlled by specific politics of incentive to the settlement and the colonization. Such situation originated portions of the space endowed with meanings that, in turn form a cultural plurality, in other words, nowadays, the State is constituted in a ethnic-cultural mosaic, composed by diversified ethnic groups, at the same time that are recognized as essentially 'gaúchos'.

Keywords: culture; identity; cultural area; cultural codes; Rio Grande do Sul

1 INTRODUÇÃO

O homem como agente reorganizador do espaço, transforma a natureza de acordo com suas necessidades, lhe imprimido as características marcantes da sua cultura. Tem-se, então, uma configuração regional, onde um grupo social confere à sua base espacial uma identidade, que irá diferenciá-la das demais.

Na concepção de Bezzi (2002), analisar uma região é entender a dialética do mundo, aceitando o constante conflito entre o velho e o novo, na organização e desorganização do espaço. Pode-se considerar, então, que a região é um foco de identificação ou aproximação simbólica do lugar por determinado grupo, onde o espaço dá a sua identidade.

Desse modo, esse trabalho tem como objetivo central analisar a construção de identidades culturais no Rio Grande do Sul e sua manifestação na paisagem gaúcha, salientando as principais regiões culturais existentes no Estado atualmente. Como objetivos intrínsecos à pesquisa têm-se: (a) analisar o processo de ocupação étnico-cultural ocorrido no Rio Grande do Sul e, sua influência na formação da cultura gaúcha; (b) verificar as transformações ocorridas no espaço geográfico gaúcho, expressas na paisagem, pelas distintas etnias que vieram compor o Estado, mediante a inserção de novos códigos culturais e (c) regionalizar via geração de mapas, as principais regiões culturais existentes no Rio Grande do Sul atualmente.

Ao se considerar o contexto sócio-cultural que configurou o Rio Grande do Sul, pode-se observar que a ação humana que ocupou e organizou o espaço gaúcho, até o século passado, fez deste território uma área tipicamente imigratória. Desta forma, deve-se ater ao se designar que o Rio Grande do Sul é um estado único, uma vez que essa abordagem é apenas força de expressão, uma vez que, culturalmente, este é bastante diversificado.

O gaúcho, como forma de expressividade cultural, em termos regionais, não é o único grupo étnico que o formou, uma vez que, devem-se considerar as variações regionais que o compõem e que contribuíram para sua constituição. Pode-se afirmar, então, que a partir das bases socioculturais que configuraram o espaço riograndense o gaúcho apresenta particularidades intrínsecas ao contexto regional, ou seja, há "vários" gaúchos, diferenciados na forma e no que se refere às peculiaridades, mas que também mantém traços comuns, relativos ao tradicionalismo e ao nativismo. Entretanto, cada etnia se expressa com sua cultura, seus rostos e suas falas. São as diferentes faces que conquistaram e formaram o Estado. Portanto, foi neste mosaico étnico-cultural, fruto de costumes diversos, que neste recorte espacial, vieram somar-se, para originar a sociedade riograndense, embora guardem suas particularidades culturais originais.

Partiu-se, então, da concepção de que a cultura surge como uma forma de interpretar a organização do espaço, através das experiências de cada grupo, suas atitudes e valores, onde as singularidades conferem caráter próprio a uma determinada região, ou seja, um recorte espacial com conotação cultural. Logo, numa região, os laços entre a sociedade e seu espaço, ora ampliam-se, ora estreitam-se, resultando, dessa forma, nas distintas expressões da paisagem.

Neste sentido, fez-se necessário um estudo mais aprofundado sobre a ocupação do Estado, buscando entender o contexto do processo de formação das regiões culturais e, conseqüentemente, da cultura gaúcha. Considerou-se, também, questões referentes a representação cultural no contexto regional, através da figura do gaúcho, como habitante do Rio Grande do Sul

Buscou-se, então, evidenciar as áreas mais expressivas da "paisagem cultural" existentes no Estado atualmente. Estas foram definidas em função da expressividade da "marca" cultural impressa na paisagem, a partir de códigos específicos inerentes a cada grupo sociocultural. Dessa forma, verificaram-se as transformações do espaço geográfico gaúcho, expressas na paisagem, pelas distintas etnias que vieram compor o Estado e, como os seus descendentes mantêm as tradições e as materializam no espaço gaúcho.

Para tanto, resgatou-se a relação homem-meio, ou seja, como os povos que vieram ocupar o Estado modificaram a paisagem de acordo com as suas técnicas e necessidades, identificando as principais transformações espaciais ocorridas ao longo das fases de ocupação e povoamento do Rio Grande do Sul. Tais estudos permitiram entender a interface natureza-sociedade gaúcha e, identificar as principais "marcas culturais" expressas no espaço gaúcho pelas distintas etnias, que possibilitam formar e delimitar as regiões culturais, em virtude das correntes étnicas com maior expressividade do Estado.

A partir deste conhecimento, pode-se regionalizar, via geração de mapas, as regiões culturais que compõem o Rio Grande do Sul atualmente, estabelecendo os recortes espaciais de acordo com as singularidades culturais impostas por um determinado grupo social. Paralelamente, procurou-se comparar, via mapeamento, a evolução espacial da inserção de culturas no Rio Grande do Sul de acordo com os períodos específicos relativos à sua inserção, os quais permitiram identificar as regiões culturais existentes no Estado.

2 METODOLOGIA

O estudo da temática cultural no Rio Grande do Sul estruturou-se em etapas, procurando viabilizar o caminho investigativo que orientou a análise do contexto regional gaúcho, considerando o "todo", pressupondo uma generalização. Paralelamente, procurou-se enfatizar as porções menores do espaço regional, especificando algumas particularidades intrínsecas ao processo de regionalização.

Inicialmente, fêz-se um amplo levantamento bibliográfico para estabelecer o referencial teórico-metodológico do trabalho, através de bibliografias específicas sobre a temática em estudo. Estabeleceram-se, então, os conceitos orientadores, suportes teóricos, que fundamentaram a pesquisa, com ênfase para o resgate da concepção de cultura em sua gênese e evolução na ciência geográfica. Resgataram-se, também, outros conceitos pertinentes à temática cultural, como identidade cultural, códigos culturais e migrações, além das categorias espaciais para a análise da cultura no espaço via paisagem e região cultural.

Resgatadas e definidas as matrizes teóricas, a segunda etapa da pesquisa constituiu-se na coleta de dados relativos à evolução sociocultural do espaço gaúcho, com informações coletadas junto a Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (FEE), relativas à evolução populacional do Estado, dinâmica espacial, criação e limites municipais. No que diz respeito aos dados referentes às etnias responsáveis pela identidade cultural, ou seja, a gênese de cada município, as mesmas foram aferidas junto à FEE e na Fundação de Amparo aos Municípios do Rio Grande do Sul (FAMURS). Buscaram-se, também, informações, para subsidiar a pesquisa, nas Prefeituras Municipais e nas Secretarias de Cultura, através de trabalho de campo. Essa etapa foi realizada somente quando necessário, ou seja, em caso de imprecisão ou dubialidade dos dados.

A terceira fase da pesquisa esteve relacionada ao trabalho de campo, com intuito de observar "in loco" a problemática em estudo, ou seja, verificar a materialidade da cultura no espaço. Neste sentido, elaborou-se um questionário, instrumento de pesquisa, com questões específicas sobre a temática desta investigação, direcionados as Secretarias de Cultura das Prefeituras Municipais a serem visitadas e, também, aos Centros de Pesquisa Culturais e ao Movimento Tradicionalista Gaúcho, que foram à base das entrevistas realizadas.

Para realizar a proposta de regionalização teve-se como critério a cultura, isto é, a presença de um grupo como fundador do município ou grupo majoritário, considerando a composição étnica superior a 50% da população total. A formação das regiões culturais teve como base os limites municipais, uma vez que se consideraram as 496 unidades territoriais que compõe o Rio Grande do Sul para individualizar os recortes espaciais. Entretanto, nem todos os municípios do Rio Grande do Sul compuseram regiões culturais. Tal fato deve-se, basicamente, aos diferentes níveis de relações socioeconômicas estabelecidas nas distintas porções do Estado. Tal situação evidencia-se, principalmente, nas cidades de médio e grande porte, nas quais não é mais possível identificar um grupo cultural específico como principal agente organizador do espaço, em virtude do nível de desenvolvimento socioeconômico das mesmas.

Ressalta-se que, a partir da definição da composição étnico-cultural de cada município que compõe o Rio Grande do Sul, via dados secundários, estruturou-se um banco de dados referente à principal etnia que formou os 496 municípios gaúchos. Esse banco de dados foi operacionalizado através da confecção de uma tabela, previamente elaborada no software Word, a qual permitiu estabelecer a relação entre as unidades territoriais e a principal etnia, considerando-se a descendência, que os compõem. Os dados referentes a essa etapa têm como fontes a FEE (dados referentes à origem e criação dos municípios gaúchos), Fundação de Amparo aos municípios no Rio Grande do Sul (base de dados populacionais e históricos), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE TEEN), bem como através dos dados obtidos no trabalho de campo, em centros de pesquisa culturais, museus e nas Secretarias de Culturas dos municípios visitados.

A operacionalização dos dados permitiu delinear um esboço das regiões culturais através da individualização de quatro recortes espaciais, segundo critérios culturais no Estado gaúcho, originando respectivamente: a região cultural 1 (nativa, portuguesa, espanhola, africana e açoriana), região cultural 2 (alemã), região cultural 3 (italiana) e a região cultural 4 (mista). O trabalho de campo procurou evidenciar em como, quando e onde se localizam as áreas mais expressivas da paisagem, as que contêm a "marca cultural", expressas através dos códigos culturais das etnias que compõe o Estado. As entrevistas foram aplicadas a informantes qualificados (Secretarias de Cultura, Centros de Pesquisa e MTG), procurando, viabilizar a pesquisa em campo e, desta forma, abranger as principais regiões culturais que constituem o Rio Grande do Sul.

Tendo em vista que toda a regionalização pressupõe uma generalização, foram visitados os municípios "pólo" (dentro de cada região), assim denominados as unidades territoriais mais expressivas na paisagem cultural, ou seja, aqueles que contêm a "marca" cultural. Para tanto, selecionou-se: - região cultural 1, os municípios de Júlio de Castilhos, Pelotas, Rio Grande, Rosário do Sul, Bagé, Piratini, São Gabriel, São Borja, Santiago, Santana do Livramento, Formigueiro, São Sepé, Caçapava.; -região cultural 2: Agudo, Candelária, Araricá, Estrela, Feliz, Gramado, Canela, Igrejinha, Nova Petrópolis, Novo Hamburgo, Paraíso do Sul, Santa Cruz do Sul, Santo Ângelo, Sapiranga, Taquara e Três Coroas; - região cultural 3: Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Garibaldi, Ivorá, Jaguari, Nova Palma, São João do Polêsine, Silveira Martins e Veranópolis; - região cultural 4: Entre-Ijuís, Ijuí, Itaara, Mata, Restinga Seca, São Luiz Gonzaga, São Miguel das Missões, São Pedro do Sul e Toropi.

A seleção desses municípios deve-se a sua expressividade mediante o processo de povoamento e colonização e a importância histórica para o Estado. Além disso, consideraram-se os dados coletados, a divisão municipal e o conhecimento empírico para subsidiar as incursões a campo. Justifica-se, também, a seleção desses municípios pelos mesmos deterem melhores condições de infra-estrutura no que se refere à compilação de dados e a expressividade dos mesmos para a região cultural que o compõe.

Para a confecção do mapa final, que resultou na individualização de quatro regiões culturais do Estado, utilizou-se o software Arc View GIS 3.2a. Os dados coletados foram tabulados em planilhas previamente elaboradas no Word as quais serviram de base para a inserção em tabelas existentes no Arc View, nas quais foram arrolados os dados referentes à principal etnia formadora da base municipal. Para tanto, criou-se uma simbologia para representar cada etnia e permitir a regionalização pelo software. Paralelamente, foram sendo gerados os recortes espaciais responsáveis pela formação das quatro regiões culturais, mediante a criação de uma legenda, em que cada região cultural correspondeu a cores específicas, proporcionando a visibilidade da distribuição cultural no espaço riograndense. Ressalta-se que, para realizar a arte final dos mapas utilizou-se o Corel Draw 12.

Como resultado tem-se: - Região Cultural 1: nativos, portugueses, africanos, espanhóis e açorianos; - Região Cultural 2: alemães; - Região Cultural 3: italianos; - Região Cultural 4: misto (alemães, italianos, poloneses e japoneses). E como Ilhas Culturais, individualizou: - Ilhas Culturais Polonesas; - Ilhas Culturais Açorianas; - Ilhas Culturais alemãs; - Ilhas Culturais italianas e - Ilhas Culturais mistas.

Ressalta-se que, a ordem das regiões culturais estabeleceu-se de acordo com a cronologia histórica da inserção étnica no Estado, obtida através do resgate histórico da evolução sócio-cultural do espaço riograndense. Desse modo, se individualizou quatro regiões culturais no espaço gaúcho, considerando a descendência como fator de manutenção das tradições. A geração do mapa que representa as regiões culturais do Rio Grande do Sul agregou e materializou os dados que foram à base para as etapas de análise, interpretação e espacialização dos mesmos.

Nessa perspectiva, aliando os conceitos aos dados coletados e a observação "in loco", pode-se interpretar e analisar a gênese e evolução das regiões culturais gaúchas, bem como regionalizar as mesmas, via geração de um mapa final que representou a atual configuração da cultura em território gaúcho.

3 CULTURA, IDENTIDADE E CÓDIGOS CULTURAIS: A MATERIALIZAÇÃO DA CULTURA NO ESPAÇO

O conceito de cultura, atualmente, tem se evidenciado mediante os debates acerca do processo de globalização, com ênfase para as suas conseqüências quanto à homogeneização dos costumes em detrimento da expressão das singularidades culturais. No entanto, o resgate das bases teóricas que norteiam a concepção de cultura é imprescindível para o entendimento desse conceito, considerado amplo e complexo, uma vez que, transita em uma área fronteiriça entre a Geografia e as Ciências Sociais, sendo abordado também, pela Antropologia e História.

Na concepção de Claval (1999), a cultura é concebida segundo alguns critérios, dentre os quais se destacam: (a) É a mediação entre o homem e a natureza; (b) É a herança, resultado de um jogo de comunicação; (c) Permite aos indivíduos e aos grupos se projetarem no futuro; (d) É feita por palavras, articuladas por discursos e realizada na representação; (e) É um fator essencial de diferenciação social; (f) A paisagem é o objeto de trabalho da Geografia cultural, através da marca cultural.

Assim, infere-se que a cultura permeia a comunidade étnica na qual foi concebida, orientando suas ações e relações com o espaço, materializando neste suas características distintivas. Salienta-se que, estas características pressupõem símbolos comuns, funcionando como mecanismos de reconhecimento entre os membros de um mesmo grupo social, ao mesmo tempo em que os diferenciam dos demais.

Estes símbolos segundo Claval (1999), denominam-se códigos culturais e, englobam desde a linguagem até as convenções mais particulares de cada cultura. De certo modo, permitem a sobrevivência de um grupo cultural e tem como resultado a organização de um espaço o qual se torna característico via materialização dos códigos que compõe esta cultura.

Pode-se dizer, então, que a cultura consiste, basicamente, num conjunto de crenças e valores que orientam as ações de um determinado grupo social, a partir de sistemas simbólicos que o tornam distinto dos demais, conferindo-lhe características singulares. Estas, por sua vez, definem o grupo social através do contraste, originando a identidade cultural.

Para Silva (2000, p. 89), "A identidade é um significado cultural e socialmente atribuído". A identificação pressupõe uma prévia caracterização que se atribui ao que é semelhante, ao mesmo tempo em que permite distinguir o que é diferente.

O vínculo estabelecido entre cultura e identidade cultural permite relacionar estes dois conceitos, partindo do princípio que a cultura consiste na "essência", na "natureza" de um grupo social, enquanto que a identidade cultural pressupõe uma classificação, um sentimento de pertencer ou não a um determinado grupo cultural.

Verifica-se, portanto, que embora estejam relacionados, estes conceitos apresentam distinções, que na concepção de Cuche (2002, p. 176), referem-se ao fato de que

[...] a cultura pode existir sem consciência da identidade, ao passo que as estratégias de identidade podem manipular e até modificar uma cultura que não terá então quase nada em comum com o que ela era anteriormente. A cultura depende em grande parte de processos inconscientes. A identidade remete a uma norma de vinculação, necessariamente consciente, baseada em oposições simbólicas.

Nesse sentido, a identidade existe em função da cultura, como um produto resultante, capaz de exprimir suas características distintivas mais marcantes, atribuindo "valores culturais". A cultura existe, a identidade classifica, pois a partir desta, ocorre à inclusão ou exclusão do grupo social.

Assim, a identidade cultural serve como distinção entre os grupos, baseada na diferença. É o resultado da relação entre um grupo social e sua base espacial, através do estabelecimento de vínculos. Para Cuche (2002), não existe identidade em si, nem para si própria, mas sempre em relação à outra, acompanhando a diferença.

Identidade e diferença não são sinônimos, apenas mantém uma relação de dependência. Mediante essa contextualização a identidade define "o que se é" a partir de características comuns partilhadas por um mesmo grupo, ou seja, "nós somos assim". Enquanto que, a diferença define "o que os outros são" a partir de características totalmente distintas.

No âmbito cultural, a identidade só existe devido a grande diversidade de culturas que compõe o globo, como forma de individualizá-las, isto é, identificar cada uma mediante códigos ou símbolos específicos. De modo geral, a identidade se origina a partir dos códigos que identificam a cultura e, portanto, são determinantes. Estabelecidos os códigos e construída a identidade, esta inicia um processo de consolidação ao longo do tempo, onde seus códigos serão permanentemente testados. Assim, estes podem permanecer, caso sejam "sólidos" o suficiente, ou desaparecer, caso mostrem-se frágeis. Podem também serem substituídos por outros, ou mesmo agregarem novos elementos e/ou sofrerem uma reformulação.

Nessa perspectiva, salienta-se que essência cultural que orienta as atitudes e ações de um grupo social materializa-se no espaço mediada por códigos específicos. Há toda uma simbologia representada nas formas, cada qual com significado próprio.

Observa-se, assim, que os códigos constituem-se na simbologia responsável pela visibilidade da cultura e, também, pela sua transmissão. Encontram-se impressos nas diferentes paisagens, através do estilo das casas, no vestuário típico, nas artes, na gastronomia, na música, na religiosidade e nas festividades. Além desses, existem outros códigos que, embora não sejam visíveis, também são responsáveis pela materialização da cultura no espaço, como aportes culturais, com destaque para os valores, as ideologias e as convenções. Neste processo de codificação cultural, salienta-se a comunicação, oral e escrita, como um dos códigos essenciais para transmissão e projeção da cultura no tempo e no espaço.

Tendo como base os códigos que compõe um grupo cultural, percebe-se que cada aspecto deste está atrelado a uma simbologia, dotada de significados, que se analisados em conjunto representam a cultura como um todo, caracterizando-a e identificando-a.

Partilhar os mesmos códigos pressupõe assumir uma identidade comum, que segundo Claval (1999) orienta procedimentos de regulação social que asseguram a sobrevivência e reprodução do grupo social.

Nesse sentido, os códigos culturais configuram-se como convenções simbólicas partilhadas por uma mesma comunidade social. São responsáveis pela sua identificação, salientando a diferença, uma vez que cada grupo cultural é permeado por um sistema simbólico de representação particular, reconstruído no constante processo evolutivo das sociedades.

Nessa linha de pensamento Woodward (2000, p. 41), assinala que "[...] cultura consiste em um sistema partilhado de significações que permitem a uma comunidade classificar e manter a ordem social".

A cultura, mediada pelos códigos é representada e materializada no espaço, originando formas típicas, passíveis de reconhecimento pelos demais grupos sociais. Decifrar e interpretar os códigos significa entender a dinâmica da cultura em questão, os valores e as crenças que orientam as atitudes e ações. Estas, por sua vez, são repetidas maquinalmente como um padrão orientador comum.

Relativo a este processo Claval (1999, p. 81) diz "[...] cada cultura caracteriza-se por um sistema original de representações e de construções intelectuais onde se recebe de nosso entorno um sistema hierarquizado de preferências e valores".

Embora a percepção seja individual ela mantém ligação com o contexto geral, ou seja, como o comum age em relação às situações. Os códigos são passados de geração em geração como ensinamentos. Porém, estes não são fixos no tempo e no espaço, pois as formas e as funções podem mudar de acordo com a dinâmica cultural.

Qualquer alteração nos códigos demonstra que houve transferências de hábito e/ou comportamento e, por conseguinte, denota a evolução de um complexo sistema cultural composto por inúmeros códigos os quais se transformam para se adequar às novas realidades.

No caso específico das migrações, o novo ambiente requer, do grupo social, algumas adaptações, as quais geram mudanças de hábito. A inovação emerge, geralmente, diante das dificuldades, como medida eficaz para resolução dos problemas. É como se fosse uma imposição natural para o ajuste cultural, para que o grupo social possa adaptar-se ao novo espaço.

Considerando o caráter dinâmico e transformador das culturas, Claval (1999, p. 87) afirma que "As culturas mostram-se freqüentemente com um nível elevado de plasticidade: nada pode frear a incorporação de elementos novos quando são apresentados como substitutos ou complementares dos já existentes". De maneira geral, não há rompimentos bruscos e sim uma substituição de alguns códigos que permitem ao grupo social manter-se unido culturalmente ao longo do tempo e do espaço.

A dinâmica sócio-espacial exerce então, forte influência na construção e manutenção dos códigos culturais, acarretando transformações visando sua readaptação as novas realidades que se configuram.

Nesse contexto, percebe-se que há uma estreita inter-relação entre cultura-identidade-código, uma vez que esta associação permite ao grupo social identificar-se e ser identificado pelos demais, mediante a formação e materialização de características culturais singulares, emanadas por uma cultura.

4 AS REGIÕES CULTURAIS DO RIO GRANDE DO SUL

A cultura como mediadora das relações sociedade-natureza confere heterogeneidade ao espaço, o diferenciado através de sistemas simbólicos que se materializam na paisagem via códigos culturais, tornando-a repleta de significados inerentes a um determinado grupo social. Considerando a herança cultural mediada pela descendência e as relações que se estabelecem entre cultura-códigos-identidade, essa proposta de regionalização recortou o Rio Grande do Sul em quatro regiões culturais de acordo com a principal etnia formadora dos municípios que o compõem:

-Região cultural 1: individualizada em função da presença das etnias nativa, portuguesa, espanhola, africana e açoriana;

-Região cultural 2: estabelecida em virtude da presença étnica alemã;

-Região cultural 3: individualizada pela etnia italiana;

-Região cultural 4: estabelecida pela presença de etnias mistas.

Além das regiões culturais, individualizaram-se, também, ilhas culturais no território gaúcho, em virtude da presença de uma unidade territorial com origem étnica distinta das que se situam no seu entorno. Desse modo, tem-se:

-Ilha cultural alemã;

-Ilha cultural italiana;

-Ilha cultural mista;

-Ilha cultural polonesa.

As regiões e ilhas culturais demonstram a diversidade étnica que compõem o Rio Grande do Sul e as particularidades intrínsecas ao contexto regional. Considera-se cada grupo social em particular e, também, a sua representatividade para a composição da cultura gaúcha, entendida como um mosaico etno-cultural, oriundo da relação entre todas as culturas que se inseriram no espaço riograndense para formar o povo gaúcho. (Figura 1)

A região cultural 1 foi o primeiro recorte espacial estabelecido pelas etnias que se inseriram inicialmente no Rio Grande do Sul. Desse modo, têm-se os nativos, primeiros habitantes do Pampa, até os portugueses, espanhóis, africanos e açorianos, obedecendo à ordem cronológica e a relevância em termos culturais para a formação dessa região, bem como a contribuição para a cultura gaúcha. (Figura 2)

Salienta-se que, a ocupação do sudoeste do território riograndense por portugueses permitiu a consolidação do Rio Grande do Sul como Unidade da Federação, muito próxima, do ponto de vista cultural, dos hermanos. A fronteira e as guerras pela posse da terra não impediram a influência mútua entre as culturas portuguesa e espanhola que, por sua vez, agregaram códigos culturais dos nativos que já habitavam o Pampa. A relação entre essas três culturas originou o gaúcho do Rio Grande do Sul. Esse apresenta um tipo físico característico, que se consolidou via costumes e tradições. Essas se solidificaram, no decorrer do tempo, em virtude da configuração das atividades realizadas no campo, uma vez que, existem versões do gaúcho no Uruguai e na Argentina, apresentando peculiaridades que os tornam distintos.

A atividade econômica baseada na pecuária bovina moldou o tipo regional, através da gênese de costumes que surgiram em função da disponibilidade de materiais, da miscigenação de tradições existentes e da funcionalidade dos códigos para o cotidiano da sociedade, seja rural ou urbana. Desse modo, o gaúcho típico que caracteriza a região cultural 1 apresenta traços particulares, oriundos dos povos que o formou e se distingue dos demais através da apropriação da gastronomia nativa, com o churrasco e a infusão de erva-mate e água quente que originou o chimarrão. Também adquire relevância o costume de fumar palheiro e a habilidade com o cavalo, herdada do nativo. Destacam-se, também, os códigos culturais imateriais representados pela fala com a formação de um vocabulário regional, repleto de expressões típicas, oriundo das línguas portuguesa e espanhola, agregando termos nativos e africanos.

O uso do característico "tu", de origem portuguesa e a ênfase na pronúncia do final das palavras, principalmente do "e"; a culinária, com o arroz de carreteiro, o churrasco e os populares doces de Pelotas, a arquitetura materializada através dos casarões em estilo colonial, identificam-se entre os códigos culturais materializados no espaço da região cultural 1. A religiosidade que se manifesta nas igrejas, capelas e santuários, expressa a fé católica, herdada dos portugueses e espanhóis, que convive com as casas de religião do Batuque africano, solidificando crenças de origens distintas, mas que se sobressaem no âmbito cultural que permeia essa região cultural. Não somente os afrodescendentes cultuam o Batuque, assim, como o catolicismo não se constitui na única forma de culto dos luso-gaúchos, pois a fé ultrapassou a barreira cultural que separa essas duas etnias, para compor uma unidade simbólica que identifica a região cultural 1.

Outro código que se sobressai é a vestimenta típica, que torna a bombacha uma peça de uso comum, e pode ser vista, em virtude da sua popularização, principalmente, nos pequenos municípios que tem sua economia centrada na atividade agropecuária. A mesma é utilizada como uma vestimenta comum que exerce função semelhante a da calça jeans, porém, com um estilo diferente. O uso do chapéu e do pala é freqüente entre os mais velhos e, tornou-se comum em datas comemorativas entre elas a semana farroupilha. Também é utilizado como uma forma de proteção contra o frio.

A visibilidade da cultura ocorre mediante inúmeros códigos, mas deve-se ater a imaterialidade que se manifesta através das crenças e dos valores mais significativos para a região cultural 1. Esses valores e crenças referem-se a questões como respeito ao próximo, a família, o apego a terra, ou na linguagem regional, ao pago e ao tradicionalismo, além do nativismo, como formas de preservar a cultura gaúcha típica.

A música é um dos códigos culturais que expressa de forma mais significativa à identificação do gaúcho com as "coisas do pago". As letras retratam o "Rio Grande", enfatizando os aspectos físico-naturais e sociais no que se referem aos seus principais códigos culturais. Essa forma de expressividade cultural denota uma devoção, muitas vezes considerada como "idolatria" e, divide opiniões, visto que, às vezes é considerada por um lado como bairrismo e, por outro, consiste em uma forma de cultuar as tradições e expressar o sentimento de identificação pela sua terra e pela cultura, ou seja, desenvolve-se um sentimento topofílico.

Ao transpor o tempo, os habitantes da região cultural 1 consolidaram os laços estabelecidos com a figura do gaúcho típico, acarretando mudança nas concepções a respeito do trabalhador rural que se originou nas estâncias para a criação de gado, pois os seus costumes transpuseram a lacuna que separa a vida no campo e na cidade, tornando as tradições gaúchas um "modo de ser" que caracteriza um grupo social, independente do meio em que se vive. Demonstra, principalmente, a valorização dos costumes e tradições que tornam essa porção do espaço riograndense singular.

Neste contexto, pode-se dizer que o gaúcho reconhece as suas origens nessa região, onde se formou a matriz cultural que o originou, atrelada a tradições que se mantiveram ao longo do seu processo evolutivo socioespacial. A identidade cultural dessa porção do território riograndense, delineou-se em virtude da atividade campeira e dos códigos culturais que se desenvolveram mediante a fusão dos costumes das etnias que a compõem.

O segundo recorte espacial estabelecido configurou a região cultural 2, individualizada através da predominância da cultura alemã nos municípios que a compõem. Até 1824, data que marca o início da imigração alemã no Rio Grande do Sul predominava as etnias portuguesa, africana e açoriana, com a presença de nativos ao norte, pois à medida que o povoamento se expandia do sul e oeste em direção ao centro do Estado, as tribos nativas remanescentes recuavam no espaço riograndense na direção norte, praticamente desabitada. (Figura 3)

As colônias alemãs foram implantadas, inicialmente, nas proximidades de Porto Alegre, ocupando as porções mais planas dos vales dos rios Caí e Sinos. Posteriormente, expandindo-se em direção ao centro do Estado, no vale do Rio Pardo e para a Serra Gaúcha. De maneira geral, os alemães concentraram-se em uma faixa que se situa no centro-leste do Rio Grande do Sul, formando uma região contínua da ex-colônia de Santo Ângelo, atual Agudo até a ex-colônia do Mundo Novo, a qual abrange, na atualidade, o município de Taquara e seu entorno. Essa contigüidade espacial permitiu a formação de uma região cultural com características singulares, centradas nos códigos culturais trazidos pelos imigrantes alemães e, perpetuados pelos seus descendentes, abarcando algumas transformações que permitiram sua adaptação no Estado, tornando-a tipicamente teuto-gaúcha.

A distinção entre os códigos culturais estabeleceu as fronteiras que individualizaram a região cultural 2 em relação aos demais recortes espaciais e, ao observar sua localização, percebe-se que, o povoamento do território gaúcho seguiu uma lógica espacial, visto que, a inserção de contingentes populacionais ocorreu do sudoeste (estâncias e charqueadas), para o centro-leste (alemães), a porção do espaço mais próxima da região cultural 1. A colonização alemã estabeleceu a fronteira da atividade pecuarista e, do ponto de vista cultural, da manifestação étnica do grupo cultural que compôs a metade sul do Estado.

Posteriormente, outra fase da imigração, colonizou a Serra Gaúcha, em áreas mais declivosas do Rebordo do Planalto da Bacia do Paraná, com os italianos, que balizaram os limites da região cultural 2 ao norte, pela presença e expressividade da cultura italiana. E, na etapa da imigração, formaram-se colônias no norte gaúcho, caracterizadas pela diversidade étnica, delineando os fluxos migratórios internos no Rio Grande do Sul, mais do que pela inserção de novos contingentes populacionais. Os alemães expandiram-se na direção norte, compondo, além das colônias mistas, juntamente, com italianos, poloneses e outras etnias que vieram em menor número, municípios com predominância ética de germanos, constituindo ilhas culturais alemãs na região cultural 4 (mista), além de alguns núcleos no sul, na região cultural 1, nas proximidades de Pelotas.

A cultura alemã, ao transpor o espaço, via migrações, procurou reterritorializar os seus códigos no intuito de se reconhecer e ser reconhecida pelos demais grupos sociais, reconstruindo sua base espacial por meio de um processo de identificação em que procura se afirmar. Os alemães, ao se instalarem em território gaúcho, imprimiram as suas características norteadoras na paisagem, dotando-a de formas típicas, moldadas de acordo com suas crenças e valores. A região cultura 2 tem como marca a "germanidade", ou seja, a materialização da simbologia que os teuto-gaúchos mantém como um legado, conservando e transformando as formas e funções para se adequar ao tempo, em um processo natural de evolução cultural.

A expressividade germânica está implícita nos códigos culturais, com destaque para a linguagem que se formou da mistura entre o português e o alemão, característico das antigas colônias, além do dialéto que continua sendo praticado, principalmente, no âmbito familiar, como uma forma de preservá-la, não permitindo que a mesma desapareça com o tempo, conservando a herança que se aprende antes mesmo do português. Vem dessa mistura lingüística o sotaque característico falado na região cultural 2, oriundo da necessidade de se aprender duas línguas diferentes, primeiramente, para se comunicar em família e, depois, o português, para se comunicar na sociedade de modo geral.

Além da linguagem, outros códigos como a música e as festividades já se tornaram conhecidas no Rio Grande do Sul, popularizando o vocabulário típico, com expressões como fest, kerb e octoberfest. As comemorações que remetem à origem da colonização germânica promovem a integração entre as distintas etnias que compõem o Estado, via atrativo turístico. Além do viés cultural e econômico, as festividades realizadas direcionam ao conhecimento e a difusão da diversidade étnica que formou o Estado, proporcionando a integração e a descoberta de novos horizontes, delineados por outras crenças e valores.

A terceira região cultural individualizada no Rio Grande do Sul tem os italianos como principal etnia formadora e, apresenta uma descontinuidade espacial, uma vez que, apresenta dois recortes espaciais distintos, separados no espaço pela região cultural 2, de predominância alemã. O maior número de municípios que compõe está região situa-se na Serra Gaúcha, na porção nordeste do território gaúcho, com a paisagem marcada por vales e montanhas. O outro recorte espacial que compõe a região cultural 3 situa-se nas proximidades de Santa Maria, no centro do Estado, denominada de Quarta Colônia de Imigração Italiana do Rio Grande do Sul. (Figura 4)

Assim como ocorreu no processo migratório alemão, os italianos, ao se inserirem em terras gaúchas se dispersaram pelo território, formando alguns núcleos populacionais distantes da região cultural 3, originando as ilhas culturais italianas, que se inserem nas regiões culturais 1 e 4. Essa descontiguidade espacial não impediu a expressividade dos ítalo-gaúchos, visto que, na Serra Gaúcha, na Quarta Colônia ou em ilhas culturais como Jaguari e Nova Esperança do Sul os seus códigos culturais se materializam e identificam a "italianidade" dos seus habitantes.

A simbologia que caracteriza o descendente de italiano em solo riograndense permite salientar alguns códigos importantes na consolidação do seu processo de identificação cultural. Pelo senso comum, a uva está implícita na região cultural italiana, fato que se afirma através da expressiva produção de uvas voltadas a vitivinicultura na região cultural 3, mais especificamente, na Serra Gaúcha, onde já é tradicional e no município de Jaguari, que tem investido nesse segmento econômico, procurando viabilizar o seu desenvolvimento via tradição.

Considerado um povo alegre e festivo, o ítalo-gaúcho também tem nas festividades um código importante no que se refere à expressividade cultural. De modo geral, o descendente de italiano "comemora de tudo um pouco", sejam festas ligadas à imigração, ao município, aos santos ou mesmo a outros códigos culturais que o identificam, como a gastronomia, com o queijo, o vinho e a polenta. As comemorações típicas italianas caracterizam-se pela mesa farta, com produtos característicos da sua culinária, como a cuca, o risoto, sopa de agnoline, salame, queijo, copa, dentre outros produtos que tem o "selo" colonial, muito valorizado atualmente.

Enquanto o alemão é considerado mais comedido nos seus gestos, o italiano popularizou-se pela expansividade dos seus gestos, com linguagem própria, caracterizada pelo tom elevado da voz, principalmente, quando se reúne em família, pois "todos falam ao mesmo tempo". As palavras têm a pronúncia marcada no final da frase, como se a prolongassem como sinal de interjeição, no qual se utiliza constantemente expressões de cunho religioso, como "sacramento" e "Madonna mia".

Além de inúmeras características atreladas aos seus códigos culturais, os italianos incluíram um novo "modo de vida" no Rio Grande do Sul, adequando-se as características do espaço regional na qual estavam inseridos, contribuindo para a formação da sociedade gaúcha e da cultura regional como um todo. Os ítalo-gaúchos compõem uma das porções mais singulares do espaço riograndense, pela expressividade da sua cultura e pelos processos de identificação em nível regional e nacional, que popularizaram esse "pedacinho da Itália no extremo sul do Brasil".

O quarto recorte espacial com ênfase cultural estabelecido no Rio Grande do Sul constituiu a região cultural 4, caracterizada pela inserção de etnias diversas, principalmente, alemães, italianos, poloneses e japoneses, dentre outros grupos minoritários que também integram algumas unidades territoriais do Estado gaúcho. (Figura 5)

Embora o primeiro recorte espacial individualizado no Estado tenha como matriz cultural quatro etnias básicas, do nativo ao açoriano, há certa homogeneidade nas formas e costumes, pois o sistema de codificação que identifica essa região cultural englobou os aspectos mais significativos de cada grupo social para originar o gaúcho típico. Por conseguinte, a região cultural 4, também caracteriza-se pela diversidade étnica, oriunda da implantação de colônias mistas, denominadas de Novas Colônias. Contudo, a individualização de pequenos núcleos culturais coesos, que se formaram em virtude da origem étnica, possibilitou a preservação dos códigos culturais de cada grupo social, tornando esse recorte espacial um verdadeiro mosaico étno-cultural.

De maneira geral, a região cultural 4 compõem-se através da combinação entre as suas principais etnias formadoras, que se organizam em uma mesma unidade territorial, porém, em alguns municípios há o predomínio de uma cultura específica, originando ilhas culturais de origem alemã, italiana e polonesa. Tal configuração do espaço denota os fluxos migratórios internos ocorridos no Rio Grande do Sul no decorrer do processo migratório, onde os descendentes de imigrantes alemães e italianos das Velhas Colônias dirigiram-se para o norte do Estado em busca de terras, formando novos núcleos coloniais majoritários no que se refere a sua cultura de origem. Desse modo, possibilitou a individualização de recortes espaciais com certa homogeneidade étnica, embora também sejam compostos por outras etnias, em menor proporção no total da sua população.

Salienta-se dentre as ilhas culturais que se formaram na região cultural 4, a presença significativa de poloneses, como grupo majoritário na composição cultural desse recorte espacial gaúcho. Além das ilhas culturais, os poloneses compõem vários municípios, onde não formam a maioria étnica, mas "marcam" sua presença através da manutenção e materialização dos seus códigos culturais.

O sistema simbólico que permeia a região cultural 4, essencialmente mista, revela a diversidade de códigos culturais na formação da paisagem, compondo uma unidade na diversidade, pois ao mesmo tempo em que se mantém na unidade cultural dos grupos étnicos que se formaram pela descendência, formam uma diversidade considerando-se o contexto regional.

Embora tenha sua gênese em grupos culturais diversificados, esse recorte espacial gaúcho mantém algumas particularidades intrínsecas ao processo colonizador que o originou, principalmente, nas atividades econômicas, onde o incentivo governamental influenciou significativamente para a configuração do espaço produtivo dessa porção do território riograndense, assentado em produtos como a soja e o trigo, juntamente com a pecuária bovina e a avicultura.

A configuração econômica do espaço está atrelada à questão cultural, pois, respeita as preferências e habilidades que acompanham os grupos étnicos, uma vez que, as colônias, de maneira geral, caracterizam-se pela atividade agrícola diversificada e pelo desenvolvimento de uma pecuária bovina de leite, suína e avícola. Nas áreas fronteiriças, onde o contato com as regiões culturais 1, 2 e 3 é mais significativo ocorre uma espécie de transição, caracterizada pela interelação entre as atividades econômicas e, também, culturais.

A diversidade que caracteriza o norte do Rio Grande do Sul molda paisagens distintas, repletas de significados particulares expressos através do sistema de codificação que orienta cada grupo étnico, ao mesmo tempo em que integra e divulga suas culturas, principalmente, ao se considerar as festividades, a música, as danças típicas e a gastronomia. Esses códigos culturais têm se salientado atualmente, em virtude da valorização da "marca" colonial, que serve como atrativo turístico e, ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento econômico, serve como difusor cultural, tornando a simbologia cultural popular.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A temática dessa pesquisa, tendo como base as regiões culturais, direcionou o entendimento da mesma, entendendo-a como um conceito que expressa movimento em direção a uma realidade. Escolheu-se o caminho da conceituação de região cultural, por entendê-lo como um conceito essencial para a apreensão das relações espaciais. Também se fizeram algumas tentativas de materializá-lo através da regionalização das regiões culturais para o Rio Grande do Sul. No entanto, o trabalho também aponta como primordial fornecer subsídios para estudos que proponham depreender o conceito de região cultural em um quadro espaço-temporal.

Ao se buscar a compreensão do conceito de região, afirmou-se que é indispensável contextualizá-lo histórica e espacialmente. É necessário perceber que a região cultural é resultante de interações dinâmicas que ocorrem no espaço geográfico. Nessa perspectiva, o conceito de região cultural é entendido como um quadro de referência fundamental, da sociedade, respaldada na identidade cultural.

Considerando a identidade cultural como um novo paradigma, a região pode ser definida, representada e diferenciada. Dessa forma, a identidade cultural coloca novamente os seres humanos como atores na produção e reprodução da vida social e dos lugares. Valoriza-se a perspectiva humanística sobre a sociedade, passando essa a ser um conjunto de significados expressos em um determinado recorte espacial.

Entende-se que, a região cultural é uma apropriação simbólica do espaço por um determinado grupo, o qual também é elemento constitutivo da identidade regional. A região, sob o enfoque da identidade cultural, passa novamente a ser entendida como um produto real, é concreta, existe. Ela é apropriada e vivida por seus habitantes, diferenciando-os dos demais, principalmente, pela identidade que lhe confere o grupo social.

Estudar a região sob a perspectiva da identidade cultural é manipular o código de significa-ções nessa representado, ou seja, para compreender uma região cultural, é preciso vivenciá-la.

Nesse contexto, a análise espacial viabilizada pelo viés cultural centra-se na relação sociedade-natureza, entendida como a transformação do meio pelo homem, enquanto membro de um grupo social, que tem suas atitudes guiadas por um sistema de códigos culturais. Para entender a organização do espaço por uma cultura específica, deve-se apreender a concepção de cultura, resgatando as matrizes teórico-metodológicas que guiam os estudos culturais, para que os mesmos não sejam considerados deterministas.

O entendimento do conceito de cultura é complexo, mas essencial para reconstituir um grupo social em todos os aspectos que orientam suas ações em relação ao meio natural e aos seus semelhantes. Para tanto, tem-se a cultura como a "chave" para entender a constante dinâmica social que se materializa no espaço, reconstruindo-o periodicamente, uma vez que a mesma demarca ciclos importantes para a humanidade.

Na atualidade, tem-se a cultura como um fator de diferenciação mediante a iminência da homogeneização imposta pelo processo de globalização. Diante das bases teóricas revisitadas, entende-se a cultura como um conjunto de aspectos materiais e imateriais, identificados através dos códigos culturais, que permeiam um determinado grupo social, que partilham as mesmas crenças e valores. A cultura emana desse grupo e não é simplesmente pré-existente ao mesmo, uma vez que, se origina de hábitos comuns de uma comunidade, de forma inconsciente, ou seja, não se "fabrica" um sistema de codificação intencionalmente. A cultura pressupõe certo tempo de convivência mútua para que se originem e solidifiquem costumes em comum. Portanto, pode-se dizer que a cultura é "produto" de um grupo social e, resulta em diversas obras responsáveis pela materialidade dos seus códigos culturais no espaço.

O sistema simbólico que permeia uma comunidade étnica expressa o seu modo de vida "em partes", ou seja, cada código cultural responde por um aspecto da cultura e se considerados em conjunto, esses códigos definem a cultura. Desse modo, decifrar esse sistema simbólico significa entender "como" se manifesta e se materializa a cultura, permitindo observar o que é mais importante no contexto sociocultural.

A partir da relevância de alguns códigos culturais se estabelece o processo de identificação de um povo, pois o que é mais significativo é cultuado e se exterioriza na materialidade, permitindo a visibilidade da cultura, ao mesmo tempo em que esboça sua identidade. Esse processo de identificação permite dizer "como a cultura é", o que é análogo e o que é diferente, criando um sentimento de pertencimento ou de exclusão, no sentido de se identificar com determinadas crenças e valores.

A relação estabelecida entre código e identidade está implícita na existência do grupo cultural, como fatores que originam a sua "marca", dotada de um poder descritivo, pois "falam" do seu modo de vida e da organização social mediada pelos aspectos imateriais mais significativos. No entanto, ressalta-se que a "marca" cultural não é permanente, pois a cultura como um produto do homem está sujeita as constantes transformações que ocorrem na história evolutiva das sociedades que compõem o globo terrestre.

A dinâmica tempo-espaço-cultura é contínua e integra o cotidiano das sociedades, reconstruindo-os à medida que novas transformações se fazem necessárias para se adequar à realidade proposta. As mudanças ocorrem, num primeiro momento, nos aspectos imateriais, responsáveis pelos comandos mentais que guiam as atitudes e, posteriormente, se materializam no espaço. A aceitação da mudança é pré-existente a sua efetivação no contexto cultural, uma vez que, existem crenças seculares que envolvem estruturas complexas para se transformarem, já que estão arraigadas na cultura. Para que a mudança se efetive, torna-se imprescindível a "necessidade", isto é, a inovação surge mediante uma dificuldade, como instrumento eficaz de ajuste social.

Quando se retrata a cultura de um determinado grupo social deve-se ater a todo seu processo evolutivo, visto que, a atual configuração socioespacial tem explicação nas formas e funções pré-existentes e na dinâmica imposta pela relação sociedade-natureza no decorrer da história evolutiva de uma comunidade étnica.

A partir dessas afirmações podem-se realizar algumas conjecturas a respeito do gaúcho, como habitante do Rio Grande do Sul, considerando questões pertinentes ao processo migratório e sua influência na construção da cultura gaúcha, que acarretou profundas transformações no espaço geográfico do Estado, mediante a inserção de novos códigos culturais. Previamente, salienta-se que o gaúcho não foi avaliado mediante o tipo regional característico que se identifica pelo senso comum, como "grosso", ou seja, de modos rudes, de bota e bombacha, sorvendo chimarrão. Procurou-se evitar o estereotipo, já que o "gaúcho típico" constitui apenas uma das facetas do gaúcho, a mais primitiva, que se manteve via códigos culturais mais tradicionais e, de certa forma, influenciou as outras porções do Estado, compostas pela inserção étnica diversificada, distinta daquela que originou o gaúcho em seu primeiro estágio evolutivo, na Campanha Gaúcha.

Para tanto, considerou-se a contribuição das etnias inseridas no território gaúcho, para estabelecer a regionalização que delineou as quatro regiões culturais do Rio Grande do Sul. Os recortes espaciais constituíram-se com base na origem étnica das unidades territoriais riograndenses, permitindo visualizar os fluxos migratórios internos e traçar o caminho realizado mediante a dispersão dos grupos culturais no espaço gaúcho. A conjuntura de fatores políticos e culturais responsáveis pela formação do povo gaúcho, configurou um mosaico etno-cultural no Estado, dotando-o de características singulares, que originaram as distintas regiões e paisagens culturais gaúchas.

Nesse sentido, recortou-se o espaço gaúcho em quatro regiões culturais, tendo como fio condutor a principal etnia formadora dos municípios. Assim, os recortes espaciais originados apresentam um núcleo central, aglutinador de municípios e, outros pequenos núcleos, considerando-se a composição por mais de um município. Paralelamente, geraram-se as ilhas culturais, que se caracterizam pela inserção em uma região com matriz cultural diferente da sua origem. Tal situação ocorre, principalmente, na região de colonização mista, que compreende várias ilhas culturais, como as alemãs, as italianas e as polonesas. A dispersão cultural nessa porção do espaço riograndense deve-se a fatores históricos que condicionaram a colonização das Novas Colônias no norte gaúcho, através de migrações internas, bem mais do que pela inserção de novos imigrantes. Devem-se considerar também o incentivo à diversidade cultural em detrimento da homogeneidade experimentada nas regiões alemãs e italianas, além da região portuguesa, que se constituiu com significativa coesão sociocultural, baseada em códigos comuns a suas culturas formadoras.

As particularidades da composição étnica do Rio Grande do Sul devem-se a estruturação da ocupação inicial do Estado pelas principais etnias que se instalaram nas terras sulinas, em virtude da atividade pecuarista, assentada nas estâncias e charqueadas e, a posterior inserção de grupos étnicos oriundos da Europa, mas não portugueses. A localização das regiões culturais deve-se as políticas de incentivo a ocupação do território riograndense, inicialmente, nas áreas fronteiriças, com os portugueses e, posteriormente, no centro e nordeste, com alemães e italianos e, por fim, no norte, com culturas diversificadas.

Assinala-se que a Serra Gaúcha não tem sua origem italiana por escolha dos imigrantes que se instalaram no território gaúcho. Essa porção do espaço lhes foi destinada e, coube a cada etnia desenvolver seus núcleos coloniais iniciais e, moldar a paisagem de acordo com suas preferências, expressas pelas crenças e valores que guiam suas ações.

A expressividade observada nas regiões que compõem o Rio Grande do Sul, mediante o critério cultural, deve-se a necessidade de manutenção do sistema de codificação, que serve como um fator de coesão social, pois partilhar as mesmas práticas significa estabelecer vínculos de união social, mediados pela herança simbólica que une um determinado grupo social. Os códigos mais significativos se materializam no espaço e servem como "monumentos" a cultura, uma vez que, possibilitam sua identificação via formas típicas. Desse modo, as regiões culturais, de uma forma geral, apresentam paisagens dotadas de significados particulares a cada cultura, que denotam sua origem étnica. Destaca-se que, decifrar esses significados permite entender o sistema simbólico intrínseco a cada grupo social que partilha uma cultura em comum.

Por conseguinte, pode-se dizer que a simbologia das culturas que compõem o Rio Grande do Sul agregou "valor" ao gaúcho ao longo do seu processo evolutivo sociocultural, pois, não se trata de uma "figura" histórica congelada no tempo, que se originou na Campanha Gaúcha mediada somente pela lida campeira, tendo como principal ícone as lutas pela defesa do território e das causas justas. A Revolução Farroupilha constitui-se em um marco histórico para o gaúcho, dotando-o da característica guerreira e repleto de virtudes, como honra e bravura. Após 1835 já se decorreram quase dois séculos em que a história do Rio Grande do Sul foi reescrita por diversos povos que vieram compor não somente o território, mas também, a cultura gaúcha. Ao mesmo tempo em que preservam as características atreladas a sua origem, os grupos culturais gaúchos, se reconhecem como tais, preservando as tradições atreladas ao tipo regional que se formou no extremo sul do Brasil.

Pode-se dizer que, em cada região cultural do Estado há uma forma de "ser gaúcho", que expressa o nativismo de acordo com a sua concepção, mediada por valores e crenças particulares, que guardam alguma homogeneidade em relação à questão cultural gaúcha, pois partilham códigos comuns. A relação que se estabelece entre o gaúcho, considerado o "todo" e os diversos grupos culturais que mantém suas peculiaridades permite afirmar que o Rio Grande do Sul compõe um mosaico étno-cultural, formado pela inserção de várias etnias que contribuíram de forma significativa para a sua configuração sociocultural e econômica, individualizando regiões específicas repletas de particularidades, mas que guardam certa homogeneidade no que se refere a questão cultural que envolve o gaúcho.

Diante dessas reflexões e conjecturas a respeito da questão cultural que permeia o Rio Grande do Sul, faz-se uma indagação. Mas, afinal, quem é o gaúcho? De maneira geral, principalmente, se considerando o sendo comum, o gaúcho é uma figura regional, que se identifica mediante alguns traços característicos, que permitem traçar um perfil, muitas vezes demonstrado através de um estereótipo, que o veste com trajes típicos, fala "grosseira", vocabulário regional com termos como bah e tchê, além do tradicional chimarrão. Essa é uma visão geral, sobretudo, vinculada a mídia, que procura traçar caricaturas que identifiquem traços regionais marcantes, como o mineiro uai ou trem "bão", ou mesmo o nordestino, com o popular ó xente, so. Constitui-se, também, em uma concepção para quem não conhece o Rio Grande do Sul e a diversidade que o compõe, pois se retrata o gaúcho via características que se popularizaram e o identificam em nível nacional.

Entretanto, com base no conhecimento empírico e teórico, adquiridos no decorrer dessa pesquisa, fazem-se algumas considerações a respeito do gaúcho, como o tipo regional do Rio Grande do Sul, um ícone que representa a cultura gaúcha. As representações simbólicas que caracterizam a cultura gaúcha de forma geral e que são representadas em CTGs e, principalmente, na Semana Farroupilha, são, na verdade, costumes que estão arraigados nas diversas porções do Estado, ou seja, os hábitos típicos considerados como originalmente gaúchos, são cultuados, cotidianamente, em todas as regiões culturais do Rio Grande do Sul.

No momento em que se partilha e cultiva as mesmas tradições, ocorre um processo de identificação com a cultura, tornando-se parte integrante da mesma, pois ao mesmo tempo em que influencia é influenciado pela imaterialidade que a compõe. No entanto, como podem duas concepções culturais coexistir em um mesmo grupo social, ou seja, como ser "alemão" e gaúcho ao mesmo tempo, ou "italiano" e gaúcho e, assim por diante?

O processo de identificação que associa as etnias formadoras do Rio Grande do Sul ao gaúcho deve-se ao fato que, as mesmas também se constituem em partes integrantes da cultura gaúcha, pois os códigos culturais que identificam o tipo regional foram construídos ao longo do tempo e, não estavam simplesmente, prontos quando teve início o processo migratório no Estado. Pelo contrário, havia uma predominância portuguesa e africana, em número, mas somente, na porção sul e oeste, acompanhando a área de fronteira com os espanhóis, obtendo, inclusive, influência desses últimos, além dos nativos e açorianos. Desse modo, há que se considerar a influência alemã, italiana, polonesa e japonesa no sistema de codificação cultural do gaúcho, os tornando parte integrante da cultura gaúcha, devido a expressividade da sua contribuição.

Portanto, o gaúcho é o habitante do Rio Grande do Sul, que cultua traços característicos e, através desses, demonstra as particularidades intrínsecas ao contexto regional, observadas via inserção de códigos culturais diferenciados de acordo com a etnia de origem. No entanto, considera-se que, no contexto geral, forma o povo gaúcho. Esse se reconhece e se identifica mediante simbologias comuns, materializadas via costumes e tradições que originam formas e hábitos particulares, que remetem a um modo de vida singular se comparados a outras porções do País.

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Artigo recebido para publicação em 20/05/08 e aceito para publicação em 01/10/08

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  • 1
    Dissertação de Mestrado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia/CCNE/UFSM, em outubro de 2007, Recursos CAPES.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Abr 2009
  • Data do Fascículo
    Dez 2008

Histórico

  • Recebido
    20 Maio 2008
  • Aceito
    01 Out 2008
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