A questão negra entre continentes: possibilidades de tradução intercultural a partir das práticas de luta?

The ‘black man’s question across continents: possible intercultural translation from the struggle practices?

Maria Paula Meneses Sobre o autor

Resumo

Este artigo parte do desafio de que não é possível uma justiça social global sem justiça cognitiva. A partir da análise crítica das ondas de violência xenófoba que têm abalado comunidades negras vivendo na África do Sul, este artigo, cuja referência analítica assenta nas propostas teóricas avançadas por Boaventura de Sousa Santos a partir das Epistemologias do Sul, aponta para a urgência de uma leitura mais complexa e cuidada da diversidade e das hierarquias culturais, condição para uma tradução ampla do impacto da violência colonial. Assente numa reflexão sobre as discriminações raciais no Brasil e os conflitos xenófobos na África do Sul, este artigo busca propor pistas que contribuam para descentrar as narrativas eurocêntricas dominantes, apostando numa visão do social enquanto espaço plural, composto de múltiplas narrativas interligadas, frequentemente contraditórias entre si. A construção de um diálogo intercultural constitui, como este artigo defende na sua parte final, um desafio à compreensão ampla das raízes da desigualdade no mundo. Múltiplas experiências cosmopolitas caracterizam os atuais contextos urbanos no Sul global e o não reconhecimento desta vibrante e diversa realidade cultural e epistêmica constitui um compasso reivindicativo pelo ampliar dos sentidos da cidadania e das pertenças.1 1 Este artigo foi elaborado no âmbito do projeto de investigação “ALICE – Espelhos Estranhos, Lições Imprevistas: Definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências do Mundo”, coordenado por Boaventura de Sousa Santos (alice.ces.uc.pt) no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra - Portugal. O projeto é financiado pelo Conselho Europeu para a Investigação, 7º Programa Quadro da União Europeia (FP/2007-2013) /ERC Grant Agreement n. [269807]. O meu agradecimento aos revisores anónimos, cuja crítica atenta permitiu restruturar o texto e fortalecer os argumentos.

Palavras-chave:
África; Cidadania; Diversidade; Justiça cognitiva; Epistemologias do sul

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