Trabalhadores da indústria de transformação do município de Caxias do Sul (RS): trajetórias pós-desligamento em um contexto de reestruturação industrial

Workers from the manufacturing industry in the city of Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brazil: trajectories after dismissal within a context of industrial restructuring

Resumos

Este artigo analisa a relação entre trajetórias profissionais pós-deligamento e atributos profissionais acumulados pelo exercício profissional. Trata-se de uma pesquisa realizada em 2003, com 20 trabalhadores desligados dos ramos industriais mecânico e material de transporte do Município de Caxias do Sul (RS). Parte-se da hipótese de que a introdução de inovações tecnológicas nos processos de trabalho da indústria coloca novas exigências em termos de atributos profissionais dos trabalhadores, expressas na contratação, repercutindo, portanto, nas possibilidades de reinserção profissional. Ao mesmo tempo, dadas as especificidades da reestruturação industrial em curso no Brasil, supõe-se que as novas demandas não se estendam a todos os postos de trabalho, atenuando as dificuldades de reinserção profissional. Com a reconstituição das trajetórias dos trabalhadores investigados, verificou-se que, em sua maioria, estes retornaram à indústria de transformação, o que foi constatado, igualmente, entre aqueles que não apresentavam atributos referentes ao trabalho com equipamentos de base microeletrônica ou, ainda, níveis de escolaridade requeridos pelo mercado de trabalho. As informações coletadas revelaram também que outros elementos interferiram na reinserção profissional, como a existência de vagas no mercado de trabalho e o estabelecimento de vínculos pessoais.

Trajetórias profissionais pós-desligamento; atributos profissionais; reinserção profissional; reestruturação industrial


This article examines the relationship between professional trajectories after dismissal and professional attributes accumulated during professional activity. It is a research study conducted in 2003 with 20 workers dismissed from the industrial areas of mechanic and transport material in the city of Caxias do Sul. The working hypothesis is that technological innovations in the industry's labor processes place new demands in terms of professional attributes to workers, expressed in contracts, thus impacting on the possibilities for professional repositioning. At the same time, given specificities of industrial restructuring now ongoing in Brazil, it is assumed that the new demands do not extend to all work positions, thus alleviating difficulties for professional repositioning. By rebuilding the trajectories of the workers investigated, it was seen that most of them returned to the manufacturing industry, as well as those that did not have distinct attributes regarding the work with microelectronic equipment or the educational levels required by the job market. Information collected also revealed that other elements interfered in professional repositioning, such as the existence of open positions in the job market and the establishment of personal bonds.

Professional trajectories after dismissal; Professional attributes; Professional repositioning; Industrial restructuring


ARTIGO

Trabalhadores da indústria de transformação do município de Caxias do Sul (RS): trajetórias pós-desligamento em um contexto de reestruturação industrial1 1 Este artigo é produto da Dissertação de Mestrado Trajetórias Profissionais Pós-Desligamento de Trabalhadores no Contexto da Reestruturação da Indústria de Transformação do Município de Caxias do Sul (RS), de autoria de Cidriana Teresa Parenza, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2003, sob a orientação da Professora Doutora Naira Lima Lapis.

Workers from the manufacturing industry in the city of Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brazil: trajectories after dismissal within a context of industrial restructuring

Cidriana Teresa ParenzaI; Naira Lima LápisII

IMestre em Sociologia pelo PPGS da UFRGS e Assistente Social da Prefeitura Municipal de Porto Alegre (RS). Brasil

IIDoutora em Sociologia pela Universidade de Paris VIII e Professora do Departamento de Sociologia e do PPGS da UFRGS. Brasil

RESUMO

Este artigo analisa a relação entre trajetórias profissionais pós-deligamento e atributos profissionais acumulados pelo exercício profissional. Trata-se de uma pesquisa realizada em 2003, com 20 trabalhadores desligados dos ramos industriais mecânico e material de transporte do Município de Caxias do Sul (RS). Parte-se da hipótese de que a introdução de inovações tecnológicas nos processos de trabalho da indústria coloca novas exigências em termos de atributos profissionais dos trabalhadores, expressas na contratação, repercutindo, portanto, nas possibilidades de reinserção profissional. Ao mesmo tempo, dadas as especificidades da reestruturação industrial em curso no Brasil, supõe-se que as novas demandas não se estendam a todos os postos de trabalho, atenuando as dificuldades de reinserção profissional. Com a reconstituição das trajetórias dos trabalhadores investigados, verificou-se que, em sua maioria, estes retornaram à indústria de transformação, o que foi constatado, igualmente, entre aqueles que não apresentavam atributos referentes ao trabalho com equipamentos de base microeletrônica ou, ainda, níveis de escolaridade requeridos pelo mercado de trabalho. As informações coletadas revelaram também que outros elementos interferiram na reinserção profissional, como a existência de vagas no mercado de trabalho e o estabelecimento de vínculos pessoais.

Palavras-chave: Trajetórias profissionais pós-desligamento, atributos profissionais, reinserção profissional, reestruturação industrial.

ABSTRACT

This article examines the relationship between professional trajectories after dismissal and professional attributes accumulated during professional activity. It is a research study conducted in 2003 with 20 workers dismissed from the industrial areas of mechanic and transport material in the city of Caxias do Sul. The working hypothesis is that technological innovations in the industry's labor processes place new demands in terms of professional attributes to workers, expressed in contracts, thus impacting on the possibilities for professional repositioning. At the same time, given specificities of industrial restructuring now ongoing in Brazil, it is assumed that the new demands do not extend to all work positions, thus alleviating difficulties for professional repositioning. By rebuilding the trajectories of the workers investigated, it was seen that most of them returned to the manufacturing industry, as well as those that did not have distinct attributes regarding the work with microelectronic equipment or the educational levels required by the job market. Information collected also revealed that other elements interfered in professional repositioning, such as the existence of open positions in the job market and the establishment of personal bonds.

Key words: Professional trajectories after dismissal, Professional attributes, Professional repositioning, Industrial restructuring.

Depois que eu saí da [Empresa A], resolvi trabalhar por conta, botei um comércio, fiquei com o comércio de março de 97 até setembro de 97, nem registrei em meu nome esse comércio. Depois disto, eu entrei na [Empresa S], que é indústria metalúrgica. Entrei em 1º de setembro de 97 e fiquei até agosto de 98. Eles assinaram minha carteira, mas acabei tendo de baixar meu salário pela metade, senão eu não ia arrumar emprego. Depois, em janeiro de 99, fui trabalhar na [Empresa G], também indústria, fiquei até abril de 99. No intervalo entre a saída da [Empresa S] e a entrada na [Empresa G], eu fiz uns biscates, trabalhei meio por conta, como autônomo, informal, fazia mais a parte de organização, implantei o Kanban numa firma que é terceirizada da [Empresa A]. Depois, eu saí da [Empresa G] e retornei pra a [Empresa S], isto em abril de 99, fiquei lá até 31 de março de 2000. Em abril de 2000, eu retornei pra a [Empresa A]. (Programador de Exportação, 2001).

A fala acima, fragmento de entrevista realizada com trabalhador,2 2 A identificação dos entrevistados foi feita pela ocupação profissional do trabalhador na indústria, em 1997. Cabe agradecer-lhes a disposição de relembrarem e a paciência de relatarem suas trajetórias profissionais. Agradecemos, também, as contribuições dos pareceristas anônimos. remete às trajetórias profissionais, cujo estudo consiste em uma ferramenta valiosa para o entendimento das possibilidades efetivas do exercício profissional no mercado de trabalho.

Tal perspectiva originou a pesquisa que ora é apresentada e que teve como objetivo analisar a relação entre trajetórias profissionais e atributos profissionais. Assim, investigaram-se as trajetórias de um conjunto de trabalhadores desligados, no ano de 1997,3 3 A opção pelo ano de 1997 considerou o expressivo crescimento da produtividade, na indústria, observado naquele ano, o que pode interferir nos processos de desligamento e admissão de trabalhadores. Além disso, o período de 1997 (ano do desligamento) a 2001 (ano em que foram realizadas as entrevistas) representa um intervalo de tempo satisfatório para a reinserção dos trabalhadores no mercado de trabalho, dando conteúdo às trajetórias pós-desligamento. da indústria de transformação do Município de Caxias do Sul,4 4 Dos ramos que compõem a indústria de transformação, optou-se por trabalhadores desligados de empresas pertencentes aos de material de transporte e mecânico, tendo em vista seu destaque em relação ao volume de emprego formal gerado. no intervalo 1997-01, reconstituindo-as após o desligamento, bem como identificando seus atributos profissionais.

Os atributos profissionais em um contexto de reestruturação industrial: novos requisitos?

No estudo desenvolvido, pressupôs-se que os atributos profissionais5 5 Foram compreendidos como conhecimentos e habilidades intelectuais e manuais de caráter técnico dos trabalhadores, construídos e acumulados ao longo de toda a sua trajetória no trabalho. A definição utilizada não abarca as atitudes de caráter comportamental. concorriam de forma não exclusiva para a reinserção profissional dos trabalhadores, influenciando as suas trajetórias profissionais pós-desligamento.6 6 O reconhecimento da interferência dos atributos profissionais dos trabalhadores em suas trajetórias profissionais pós-desligamento não encerra o entendimento da reinserção profissional como uma questão fundamentalmente individual (POCHMANN, 1999), pois não se desconhece o fato de que também trabalhadores detentores de atributos requeridos pelos empregadores perdem seus postos de trabalho e, por vezes, não conseguem reinserir-se no mercado formal. Tem-se presente que os atributos profissionais dos trabalhadores consistem em uma dimensão, pois, para as trajetórias no mercado de trabalho, concorrem não apenas aspectos individuais do trabalhador (CARDOSO, 2000b; CASTRO; CARDOSO; CARUSO, 1997), mas também o contexto no qual esse trabalhador se insere, ao que corresponde, por exemplo, a disponibilidade objetiva de vagas no mercado de trabalho (CARDOSO, 2000b).

Tal influência ocorre na medida em que determinados atributos podem, ou não, responder às exigências para o preenchimento de postos de trabalho. Essas exigências englobam, dentre outros, a necessidade de certos conhecimentos e habilidades de caráter técnico, atributos profissionais que tornam o trabalhador capacitado a desenvolver suas atividades laborais.

A partir desse pressuposto, a hipótese que norteou o estudo consistiu no argumento de que a introdução de inovações nos processos de trabalho da indústria de transformação desencadeia a necessidade de novos atributos profissionais. Tal necessidade, dentre outros fatores, altera as exigências para o preenchimento dos postos de trabalho, o que, por sua vez, concorre para as possibilidades de reinserção profissional colocadas aos trabalhadores desligados desse setor, podendo dificultar o retorno destes à ocupação profissional e ao setor de atividade produtiva nos quais exerciam suas atividades no período anterior ao desligamento. Essa possível dificuldade reflete-se no delineamento de suas trajetórias profissionais pós-desligamento.

Esse pressuposto e essa hipótese tornam necessária a abordagem sobre a reestruturação industrial e os atributos profissionais, a qual é desenvolvida nesta primeira seção.

Notas sobre a reestruturação industrial

Pesquisas realizadas no Brasil identificaram a introdução de novos equipamentos de base microeletrônica e de novas formas de organização e de gestão do trabalho na indústria de transformação, ainda nos anos 70 e, principalmente, a partir dos 80. Tal constatação veio acompanhada de ressalvas: as novas tecnologias estariam sendo adaptadas, em alguns casos, aos padrões preexistentes.

Em conseqüência, na literatura sobre o tema, podem-se encontrar interpretações de que, no Brasil, não se teria efetivado uma verdadeira reestruturação industrial, pelo menos durante a década de 80. Tais interpretações baseiam-se nas seguintes evidências: manutenção da estrutura produtiva industrial, com alterações7 7 As expressões alterações, inovações, mudanças e modificações, utilizadas em relação aos processos de trabalho, referem-se à incorporação de equipamentos de base microeletrônica e de novas formas de gestão e organização do trabalho nesses processos. em apenas alguns segmentos; baixo nível de substituição das operações manuais e de envolvimento dos trabalhadores; ênfase em novas e determinadas formas de organizar e gerir o trabalho e maior incidência destas em detrimento da introdução de equipamentos de base microeletrônica.8 8 A esse respeito, ver Mattoso (1995), Carvalho e Schmitz (1990), Mourthé (1999), Paese (1997), Franzói (1997), Humphrey (1989), Fleury e Humphrey (1993), Hirata (1995), Gitahy e Rabelo (1993), Liedke (1992) e Salerno (1990).

Já em relação à década de 90, no Brasil, ocorreu o aumento do número de empresas onde novos equipamentos e novos métodos organizacionais e de gestão do trabalho passaram a ser utilizados, bem como a maior diversidade e articulação dos métodos adotados. Isso desencadeou novos posicionamentos quanto à introdução de inovações nas empresas. Assim, estudos como os de Leite (1994), Leite (1995), Alves (2000) e Cardoso (2000a), com gradações diferenciadas, passaram a veicular a possibilidade de reestruturação industrial sistêmica.9 9 Fundamentando-se em Leite (1994), Leite (1995), Alves (2000) e Cardoso (2000a), entende-se por reestruturação industrial sistêmica a implementação de inovações de cunho técnico, organizacional e gerencial, articuladas entre si, que se generalizam, homogeneizando o modo de organizar e gerir os processos de trabalho no interior de uma mesma planta industrial, bem como na cadeia produtiva.

As evidências destacadas em nível de Brasil também foram percebidas na indústria de Caxias do Sul.10 10 A escolha do Município de Caxias do Sul deu-se pela presença expressiva de atividade industrial e pela forma com que inovações tecnológicas vêm sendo nela implementadas, fatores estes que interferem diretamente nas trajetórias profissionais. Salienta-se que Caxias do Sul foi apontada como uma das principais aglomerações industriais do País (9º lugar), dado o volume de emprego gerado pela indústria de transformação (SABÓIA, 2000). Estudos desenvolvidos no âmbito desse município identificaram a introdução de modificações nos processos de trabalho, ainda na década de 80, ocorrendo um maior investimento nos anos 90. Estimulando tais investimentos estava a busca, por parte das empresas, de aumentos de produtividade e diminuição nos custos de produção, tendo em vista o acirramento da competitividade, principalmente na década de 90 (BREITBACH, 2002). Além disso, havia a preocupação da indústria local com a sua adequação às normas internacionais, pois, diante das exigências dos clientes nacionais e internacionais e na condição de fornecedoras de produtos, as empresas viam-se obrigadas a operar modificações nas suas plantas industriais (CALANDRO, CAMPOS; 2002).

No entanto, constatou-se, igualmente, o direcionamento das mudanças a determinados setores das empresas, sem alterações substanciais na cultura destas; a coexistência, numa mesma indústria, de trabalho manual e de equipamentos de base tanto eletromecânica como microeletrônica e a adaptação das inovações à tecnologia preexistente, com mudanças nos antigos equipamentos de trabalho, preservando a estrutura original e ajustando-a aos sistemas computadorizados (CALANDRO, CAMPOS, 2002; FERRARI, 1999; HERÉDIA, PERUZZO, 1998).

Em face dessas considerações, no estudo realizado, a reestruturação industrial foi conceituada como um processo de implementação de novas formas de organização e gerenciamento do trabalho, bem como de equipamentos de base microeletrônica, e, ainda, no caso brasileiro, como um processo que pode ocorrer de forma seletiva, adaptativa e heterogênea, desenvolvendo-se em momentos e com intensidades diferentes no interior de uma mesma planta industrial, ou no conjunto de empresas que compõem o parque fabril, podendo haver a adaptação e o convívio entre novos e antigos equipamentos e formas de gestão e de organização do trabalho.11 11 Definição alicerçada em Leite (1994), Leite (1995), Gitahy e Rabelo (1993), Ramalho (1999), Castro, Cardoso e Caruso (1997) e Castro (1998). Tais características relacionam-se com fatores internos e externos às firmas, os quais condicionam a adoção de inovações, criando diferentes necessidades e possibilidades às empresas e, desse modo, refletindo na definição de particularidades.

Comentários acerca dos atributos profissionais dos trabalhadores

A reflexão teórica, bem como as pesquisas empíricas acerca das inovações nos processos de trabalho têm demonstrado que elas podem ser motivo para a ocorrência de modificações nas atividades dos trabalhadores, entre as quais se encontram a crescente importância da inspeção visual das peças e dos materiais que chegam ao posto de trabalho; a progressiva atribuição de normas e procedimentos de controle de qualidade; a responsabilização pela detecção e pela solução de problemas; o rodízio de atividades e a ampliação das tarefas a serem desenvolvidas por um mesmo trabalhador; a preparação e o ajuste de equipamentos; a exigência, aos trabalhadores diretos, de atividades de manutenção rotineiras; e a introdução das representações gráficas (FLEURY, HUMPHREY, 1993; PAESE, 1997).

Por sua vez, as alterações nas atividades dos trabalhadores aparecem como desencadeadoras da necessidade de novos conhecimentos, habilidades e comportamentos por parte dos mesmos, como conhecimentos técnicos referentes à programação, à informática, ao desenho e à manutenção eletrônica, noções de matemática e estatística e a capacidade de desenvolver raciocínios abstratos, bem como de operar mais de um equipamento, de controlar a qualidade e de preparar as máquinas (FLEURY, HUMPHREY, 1993; PAESE, 1997; MOURTHÉ, 1999). 12 12 Cabe destacar que a exigência de novos conhecimentos, habilidades e atitudes não pode ser atribuída exclusivamente às alterações ocorridas nas plantas industriais, vinculando-se também a outros fatores, dentre eles, a possível influência de empresas de maior porte sobre as de menor porte (PAESE, 1997) e a menor oferta de emprego versus a maior oferta de mão-de-obra, o que possibilita uma seletividade mais rigorosa por parte dos empregadores, independentemente de alterações no conteúdo dos postos de trabalho (LIEDKE, 1997; FRANZÓI, 1997; SORJ, 2000; STERNBERG; JORNADA; XAVIER SOBRINHO, 2000a).

Além de conhecimentos e habilidades técnicas, são destacadas as estratégias empresariais de valorização das habilidades sociais e comportamentais dos trabalhadores. Tal valorização é justificada por diferentes razões como os custos das novas tecnologias e a difusão de novos conceitos produtivos, exigindo maior atenção e responsabilidade para com a qualidade também por parte dos trabalhadores de chão-de-fábrica. Igualmente, existe a adoção de técnicas que podem viabilizar a identificação dos trabalhadores com os objetivos da empresa, o que coloca a importância de comportamentos, como a cooperação, a iniciativa, a adaptação às mudanças e o manejo de situações imprevistas. Atrelada a isso, encontra-se a crescente relevância dada à idade e à escolaridade.13 13 A esse respeito, consultar Liedke (1997), Leite (1995), Leite (1997), Bressolin (1998), Paese (1997), Franzói (1997), Leite e Posthuma (1995), Fleury e Humphrey (1993).

Assim, a introdução de inovações tecnológicas nos processos de trabalho associa-se à possível demissão14 14 Conforme já referido, a demissão pode estar associada a diferentes motivos, dentre eles, as inovações tecnológicas. de trabalhadores – podendo ocorrer a substituição daqueles que não acompanhem tais inovações –, bem como ao maior grau de seletividade nos processos de recrutamento, o que remete à ampliação dos níveis de desemprego da força de trabalho (ANTUNES, 1999; FRANZÓI, 1997; LEITE, 1994; MOURTHÉ, 1999; CASTRO, 1998).

Um destaque aos atributos profissionais de trabalhadores da indústria do Município de Caxias do Sul

De modo semelhante ao dos estudos abordados anteriormente, pesquisas realizadas no âmbito de Caxias do Sul constataram o aumento de horas destinadas ao treinamento dos funcionários e a ampliação do conteúdo desse treinamento.15 15 Cabe também destacar a criação, no Município, do Centro Tecnológico de Mecatrônica, que tem como objetivo viabilizar a formulação e a difusão de novos conceitos de produção, principalmente através da qualificação dos trabalhadores (BREITBACH, 1997). Esta valorização da qualificação profissional foi percebida como indicativo de uma possível modificação na postura tradicional do empresariado local (HERÉDIA, PERUZZO, 1998). O maior investimento nas políticas de qualificação, por parte do empresariado local, vinculava-se à necessidade de "novas posturas profissionais", oriundas das inovações tecnológicas (FERRARI, 1999; BRESSOLIN, 1998; HERÉDIA, PERUZZO, 1998).

Assim, verificou-se que, com a introdução de novas tecnologias gerenciais e organizacionais, as ações direcionadas à qualificação dos trabalhadores passaram a contemplar não apenas o conteúdo específico para cada posto de trabalho, mas também aspectos comportamentais, visando sensibilizá-los para a questão de seu envolvimento, [...] criando, assim, um clima de pertencimento e 'engajamento' a uma 'causa comum' (FERRARI, 1999, p. 61). Além disso, essas ações passaram a considerar os conteúdos relacionados às relações interpessoais e às normas de qualidade, utilizando-se conceitos como integração interpessoal e qualidade total.

Corroborando esses estudos, em alguns depoimentos dos trabalhadores entrevistados, é possível identificar referências ao aumento do nível de exigência em termos de qualificação profissional, como pode ser percebido no relato que segue:

A exigência tá cada vez maior. Não só pra conseguir emprego, mas até pra tu te manter no emprego. Quem não estiver estudando, quem não estiver se aperfeiçoando em cursos, não vai muito longe, vai pra fora do mercado de trabalho. Eu voltei a estudar. A idade também pesa bastante, passou dos 30 anos, tu já é taxado como velho pra tua função. Então, tá difícil, o cara tem que tentar se manter. Na [Empresa A], a partir de 98, quem não tem primeiro grau completo não adianta nem fazer ficha que não entra. Também exigem um curso de computação, no mínimo o básico, pra entrar hoje numa firma. Hoje tá tudo sendo feito com o computador (Inspetor de Qualidade, 2001).

Neste depoimento, encontram-se os aspectos relativos à formação contínua e à idade. Em relação à última, entre os entrevistados houve aqueles que atribuíram à idade mais avançada o motivo tanto para sua demissão da empresa, em 1997, como para sua dificuldade em retornar ao mercado de trabalho formal.

Quanto à formação, vários entrevistados, ao serem indagados acerca dos requisitos exigidos nos processos de seleção e recrutamento, elencaram a crescente importância dada à escolaridade, à experiência de trabalho e ao conhecimento técnico, conforme pode ser depreendido da fala que segue:

O grau de escolaridade e a experiência na função são os dois requisitos principais que hoje eles exigem. Os outros são noções de informática e, dependendo da função, eles já exigem outras noções. A idade também é um requisito. Os cursos técnicos também são importantes; a informática é superimportante, isto é variado pra cada função, mas, de um modo geral, a informática, hoje, é a base. O estudo é essencial, porque hoje, principalmente hoje, empresa nenhuma admite mais quem não tem o primeiro grau. Até pra mais simples função, tu tem que ter o primeiro grau completo, e, dependendo da função, é segundo grau (Encarregada do Departamento de Pessoal, 2001).

Além disso, a preocupação das empresas com a elevação da escolaridade dos trabalhadores foi apresentada como algo novo. Segundo o depoimento que segue, em anos anteriores, não havia incentivo à escolaridade por parte da empresa, mas essa postura estaria modificando-se. Nas palavras do entrevistado:

O estudo é fundamental, tanto é que estou voltando a estudar. Eu parei em 91, eu trabalhava de dia, tinha passado no vestibular pra Administração de Empresas. Eu recém tinha começado no controle de qualidade. Meu chefe me chamou e disse que eu teria de trabalhar à noite, e eu respondi que não podia, que tava começando a faculdade e tinha aula à noite. E ele respondeu: 'tu escolhe, a faculdade ou a empresa. Amanhã tu já tem que estar de noite.' Tive que deixar o estudo de lado pra trabalhar. Nisto, a [Empresa B] mudou bastante em relação ao que era antigamente. Hoje eles pagam o estudo, querem que tu estude (Inspetor de Qualidade, 2001).

Tendo em vista a ênfase dada à escolaridade, buscou-se conhecer a dos trabalhadores formais empregados na indústria de transformação do Município. A partir dos dados coletados,16 16 Os dados foram obtidos na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE). Dentre os limites dessa base de dados, destacam-se: (a) restringe-se ao mercado formal de trabalho, (b) impossibilita caracterizar o perfil dos demitidos e (c) a origem das informações pode ocasionar distorções. Face aos limites, é preciso ter cautela na interpretação dos dados. Porém essa base é identificada como preciosa para o conhecimento do mercado de trabalho pela riqueza de informações contidas e pela possibilidade de se obterem dados municipalizados (STERNBERG; JORNADA; XAVIER SOBINHO, 2000a; 2000b; XAVIER SOBINHO, 2000; CARDOSO, 2000a; SABOIA, 2000; UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL, 1996). apresentados no Gráfico 1, percebe-se uma diminuição no volume do emprego formal relativo aos trabalhadores com ensino fundamental incompleto (EFI). Ao mesmo tempo, há aumento na participação de trabalhadores formais com ensino fundamental completo (EFC) e com ensino médio completo (EMC). Este movimento acentuou-se na segunda metade dos anos 90, apresentando-se de forma bastante significativa no ano 2000, quando o montante referente ao total do emprego formal da indústria de transformação do Município (49.546) se aproximou daquele existente em 1986 (48.618). Porém o número, em termos relativos, de vínculos formais de trabalho estabelecidos entre trabalhadores que possuíam EFI passou de 67% (1986) para 41% (2000). Paralelamente, os vínculos formais de trabalho referentes aos níveis de EFC e EMC passaram, respectivamente, de 21% e 8% em 1986 para 34% e 21% em 2000.

Tomando-se as informações apresentadas, pode-se argumentar que, de modo semelhante ao dos estudos sobre a indústria nacional e a do mercado de trabalho formal do RS,17 17 A esse respeito, ver Bastos (2001) e Sternberg, Jornada e Xavier Sobrinho (2000b). no município em questão se estava delineando uma tendência de elevação da escolaridade dos trabalhadores formais empregados na indústria de transformação. Isso indicava uma maior ênfase desse atributo profissional igualmente na indústria de Caxias do Sul.

Esta possível tendência pode estar associada tanto a investimentos feitos pelas empresas em prol da elevação da escolaridade de seus trabalhadores como aos processos de admissão e de demissão dos mesmos. De outro modo, ela não se vinculava, obrigatoriamente, a uma necessidade posta pela introdução de inovações tecnológicas nos processos de trabalho (PAESE, 1997; STERNBERG; JORNADA; XAVIER SOBRINHO, 2000b). Aqui insere-se o relato de um dos trabalhadores entrevistados:

Pra entrar lá na empresa, até pra varrer o chão, tu tem que ter o primeiro grau. De repente, não pega um trabalhador que precisa de emprego, por causa do estudo. [...] Não precisa ter o primeiro grau de estudo pra trabalhar de faxineira. A pessoa, às vezes, não tem condição de estudo. Mas isto aí já é uma política. Eles exigem (Líder Operacional, 2001).

Além de não estarem necessariamente associadas a um requisito do posto de trabalho, as exigências em termos de escolaridade não se estendiam a todas as empresas. Neste sentido, é ilustrativo o depoimento que segue:

Em várias firmas, eu deixei de arrumar emprego, porque eu não tinha o primeiro grau completo. (...) Uma vez fui na [Empresa A], fiz o teste, passei no teste e tudo, mas apareceu um mais qualificado do que eu, no caso, com estudo. (...) A empresa que arrumei emprego em 99 não exigia o primeiro grau completo; na época, a empresa pedia dois anos de experiência, que eu já tinha (Operador de guilhotina, 2001).

O trabalhador atribui à não-conclusão do ensino fundamental o fato de não ter sido selecionado para a vaga de emprego em uma das empresas procuradas, no entanto, em outro estabelecimento, esse quesito não era considerado critério de seleção, a exigência era a experiência na ocupação profissional.

Identificando atributos profissionais de um conjunto de trabalhadores desligados da indústria do Município de Caxias do Sul

Para identificar os atributos profissionais dos trabalhadores entrevistados, coletaram-se informações sobre escolaridade, cursos e experiência profissional.

No que diz respeito à escolaridade, os 20 trabalhadores entrevistados18 18 O universo de pesquisa constituiu-se de 50 trabalhadores que solicitaram o benefício de seguro-desemprego (meio utilizado para localizar os entrevistados) e que trabalharam nos ramos industriais material de transporte e mecânico, no mínimo, durante o período de 10 anos, tendo sido desligados em 1997. Nesse conjunto, realizou-se uma seleção intencional de 20 trabalhadores, com os quais foram feitas entrevistas. Para a seleção, tomou-se como referência o grau de escolaridade. dividiam-se em três grupos: oito com EFI, quatro com EFC e oito com EMC. Esse atributo foi destacado, pela maioria deles, como requisito básico para se inserirem no emprego e para se manterem nele.

Quanto aos cursos dos quais os trabalhadores participaram ao longo de suas trajetórias de trabalho, dentre os mencionados, destacaram-se: Desenho Mecânico, Metrologia, Informática, Norma ISO 9000, Qualidade Total e Kanban.

No que concerne à experiência profissional, buscaram-se informações acerca das ocupações profissionais exercidas, dos equipamentos de trabalho utilizados e da experiência com formas de organização do trabalho. Os entrevistados, ao mesmo tempo em que tinham em comum o trabalho na indústria de transformação, desempenhavam, neste setor econômico, ocupações profissionais diversas: algumas estavam associadas ao trabalho na área produtiva, como a do torneiro mecânico e a do ajustador ferramenteiro; outras se vinculavam à área administrativa, como no caso da encarregada do departamento de pessoal. Além disso, mesmo entre as ocupações relacionadas à esfera produtiva ou à administrativa, havia aquelas cujo conteúdo se diferenciava. Conseqüentemente, o conjunto dos trabalhadores entrevistados caracterizava-se como um grupo heterogêneo.

Em relação aos equipamentos de trabalho, considerando-se os mais citados, constatou-se a predominância daqueles de base eletromecânica, como furadeira, fresadora e torno mecânico. Foi também referido, por vários trabalhadores, o uso de instrumentos de medição. Paralelamente, muitos entrevistados apontaram a utilização de computadores, associada à necessidade de conhecimento para a execução do trabalho. Assim, declarou um dos entrevistados: [...] também tem a computação; é que, às vezes, precisa de alguma coisa, uma ferramenta, uma peça, é tudo pelo computador, tem que olhar no computador (Torneiro Mecânico, 2001). No entanto, no que diz respeito aos equipamentos de base microeletrônica, apenas um trabalhador mencionou experiência com o Computer Aided Design (CAD).

No que tange às novas formas de organizar o trabalho, observou-se certa familiaridade dos trabalhadores entrevistados com essas técnicas, especialmente por meio da participação em Grupos de Melhorias e em Grupos de Solução de Problemas.

Essas constatações são reveladoras. Vários entrevistados eram portadores de atributos profissionais típicos do trabalho com equipamentos de base eletromecânica. Isso se tornou visível ao se examinarem a formação profissional – obtida por intermédio de cursos –, as ocupações profissionais e a experiência com os equipamentos de trabalho. No entanto, no que se refere às novas formas de organização do trabalho, percebeu-se uma maior difusão de conhecimentos acerca delas.

Esta caracterização dos atributos profissionais dos trabalhadores entrevistados pode estar relacionada à forma como o processo de reestruturação industrial se desenvolveu em Caxias do Sul. Herédia e Peruzzo (1998) identificaram, em suas pesquisas, a convivência e a articulação entre novas e antigas tecnologias. Ferrari (1999) constatou o caráter seletivo da reestruturação industrial, ocorrendo maiores investimentos em inovações na gestão e na organização do trabalho do que na aquisição de equipamentos de base microeletrônica.

Trajetórias profissionais pós-deligamento de trabalhadores no mercado de trabalho

Fundamentando-se nas análises de Castro, Cardoso e Caruso (1997), Castro (1998) e Cardoso (2000a), que utilizam como abordagem metodológica a análise longitudinal retrospectiva de trajetórias individuais no mercado de trabalho, a pesquisa desenvolvida sobre trajetórias profissionais enfocou a relação entre os eventos que compuseram as trajetórias profissionais pós-desligamento de um conjunto de trabalhadores da indústria de transformação de Caxias do Sul e seus atributos profissionais.

Nesta mesma perspectiva metodológica, diferentes estudos apontam a ocorrência de uma reduzida taxa de retorno ao emprego formal, especialmente no mesmo setor econômico, de aumento no intervalo de tempo em que os trabalhadores permaneceram desempregados, de exercício de atividades eventuais informais, em geral, biscates, e de inserção dos trabalhadores no trabalho autônomo, como prestadores de serviços.

Ao mesmo tempo, são identificados como fatores relevantes que concorrem para a definição dos movimentos dos trabalhadores no mercado de trabalho não apenas os seus atributos – formação e tempo de experiência profissional, número de vínculos de trabalho, escolaridade, idade, sexo e condições de saúde –, mas também as diferenças referentes às regiões e à configuração do mercado de trabalho, através da maior ou menor diversificação ou especialização, do volume de emprego ofertado, da maior ou menor presença de emprego formal ou, ainda, da rotatividade (CARDOSO, 2000a; PAESE, 1997; HIRATA, HUMPHREY, 1989; TITTONI, 1999).

Reconstituindo trajetórias profissionais pós-desligamento19 19 Para uma descrição detalhada da classificação apresentada nesta seção, consultar Parenza (2003).

Para a sua reconstituição, as trajetórias profissionais pós-desligamento, no estudo realizado, foram definidas como compostas por eventos seqüenciais no tempo, um após o outro. Estes limitavam-se a eventos de não exercício de atividade (E1) e eventos de exercício de atividade laboral (E2).

Para caracterizar os E2, consideraram-se o setor econômico, o porte dos estabelecimentos, a posição do trabalhador na ocupação e a ocupação profissional exercida por ele. Quanto aos setores, estes foram divididos em indústria de transformação (IT), construção civil (CC), comércio (C) e serviços (S).

O porte dos estabelecimentos nos quais aconteceram os eventos de exercício de atividade seguiram a seguinte classificação: pequeno porte (PP), estabelecimentos com até 99 empregados; médio porte (MP), estabelecimentos de 100 a 499 empregados; grande porte (GP), estabelecimentos com mais de 500 empregados.

A posição do trabalhador na ocupação foi classificada, de acordo com os vínculos de trabalho estabelecidos, em: (a) empregado com carteira de trabalho assinada (CTA); (b) empregado sem carteira de trabalho assinada (SCTA); (c) conta-própria formal (CPF); (d) conta-própria informal (CPI).20 20 As posições de empregado referiam-se às atividades laborais remuneradas exercidas para um empregador, com ou sem registro em carteira de trabalho; as de conta-própria diziam respeito às atividades laborais desenvolvidas em empreendimento próprio, com pagamento de impostos (formal) ou sem esse pagamento (informal).

No concernente às ocupações profissionais exercidas pelos trabalhadores, foram coletadas aquelas mencionadas nos requerimentos de seguro-desemprego, na carteira profissional ou, ainda, a informada pelo próprio trabalhador.

Trajetórias profissionais de um conjunto de trabalhadores desligados da indústria de transformação do Município de Caxias do Sul

A reconstituição21 21 Para uma reconstituição pormenorizada, ver anexos (PARENZA, 2003). das trajetórias profissionais pós-desligamento do conjunto de trabalhadores entrevistados revelou o seu retorno à indústria de transformação. Apenas quatro deles apresentaram trajetórias caracterizadas pela transferência setorial (Quadro 1), encontrando-se ocupados ao final do período investigado (1997-01).

Ao se analisarem as demais trajetórias caracterizadas pelo retorno ao setor de atividade, observaram-se diferenças entre elas: enquanto alguns trabalhadores permaneceram exercendo atividades na indústria de transformação (Quadro 2), outros passaram por diferentes setores de atividade econômica antes do retorno à indústria (Quadro 3).

Após o desligamento, os oito trabalhadores referidos no Quadro 2 retornaram à indústria em breve período de tempo – no máximo seis meses –, bem como permaneceram, ao longo do período analisado, exercendo suas atividades laborais nesse setor de atividade, com exceção do ajustador ferramenteiro. Esse trabalhador retornou à indústria mas, ao final do período analisado, encontrava-se inativo.

Já as trajetórias pós-desligamento reconstituídas no Quadro 3 caracterizaram-se pela passagem de oito dos trabalhadores entrevistados por setores econômicos como a construção civil, os serviços e o comércio, com posterior retorno à indústria de transformação. Apesar do reingresso na indústria, dois entrevistados (o montador de acabamento e o operador de guilhotina) encontravam-se inativos ao final do período enfocado.

Quanto ao tempo de permanência dos entrevistados na situação de E1, identificaram-se intervalos de um a seis meses, salvo três trabalhadores que se aposentaram no e após o desligamento, cujo tempo variou de oito a dois anos.

Simultaneamente ao regresso à indústria, verificou-se, em várias trajetórias posteriores ao desligamento, o retorno a ocupações profissionais já exercidas em algum momento anterior ao desligamento, seja na indústria, seja em outro setor econômico, o que remete ao aproveitamento de conhecimentos e habilidades profissionais. Ilustrando estas situações, encontram-se, dentre outras, as trajetórias do ajustador ferramenteiro e da cronometrista.

No que se refere ao primeiro, após seu desligamento, retornou a ocupações já exercidas na empresa da qual fora desligado em 1997. Esse trabalhador permaneceu nessa empresa durante 11 anos e oito meses, desempenhando, ali, as ocupações de auxiliar geral, matrizeiro e ajustador ferramenteiro. Ao sair dela, ele voltou ao mercado de trabalho como matrizeiro, auxiliar no acabamento de peças, auxiliar geral e, novamente, matrizeiro. A cronometrista, ao sair da indústria de transformação, reinseriu-se no mercado de trabalho, ocupando-se, concomitantemente, com o ensino de informática e a recreação infantil; posteriormente, retornou à indústria como auxiliar de engenharia.22 22 A trajetória dessa trabalhadora é interessante no sentido de ilustrar que, em alguns casos, há o exercício de diversas ocupações paralelas, o que, por vezes, também gera diferentes posições na ocupação. Além disso, a transferência ocupacional e de posição na ocupação nem sempre foi intermediada por E1, tendo em vista as mudanças ocupacionais no interior de um mesmo estabelecimento ou, ainda, a imediata ocupação pós-desligamento. Em sua trajetória anterior à indústria, ela já havia atuado como recreacionista infantil.

Mais do que o retorno às antigas ocupações profissionais, a pesquisa revelou a inserção do trabalhador, no pós-desligamento, em ocupações cujos conhecimentos e habilidades necessários se aproximavam daqueles requeridos pelas ocupações profissionais anteriores ao desligamento. Assim, a cronometrista aproveitou seus conhecimentos e habilidades referentes ao uso do computador, obtidos por meio do trabalho na indústria, ao ministrar, em sua trajetória pós-desligamento, curso de informática em sua residência.

De modo semelhante, situa-se a trajetória de um dos líderes operacionais. Na indústria da qual fora desligado em 1997, esse trabalhador exerceu ocupações no setor de pintura. No período posterior ao desligamento, após trabalhar como comerciante, retornou à atividade com pintura, na condição de representante comercial e, posteriormente, como auxiliar de processo de pintura. Nesta última ocupação, estabeleceu vínculos com uma empresa que fornecia tintas automotivas para aquela em que se encontrava empregado e da qual fora desligado em 1997. Assim, seu último vínculo de trabalho concretizou-se no espaço físico da firma em que trabalhou até 1997.

Além dos aspectos referidos acima, observou-se, em várias trajetórias, a presença do trabalho informal. Isso foi identificado tanto em eventos ocorridos na indústria de transformação, em menor número, como naqueles que aconteceram em outros setores da atividade econômica. Dentre esses, destacaram-se a construção civil, o comércio e os serviços. Na indústria, em algumas situações, a informalidade esteve associada a firmas de pequeno porte, tipo fundo de quintal, que prestavam serviços para mais de uma empresa, de médio e grande portes, da indústria de transformação de Caxias do Sul.

Em algumas trajetórias, o trabalho informal não representou uma novidade, tendo ocorrido, inclusive, no período anterior ao desligamento, como no caso de um dos líderes operacionais, que, ao sair da indústria em 1997, retornou a ela como líder operacional e, após, se inseriu na construção civil, atuando como auxiliar de pedreiro, sem registro em carteira de trabalho. Em sua trajetória anterior à indústria, esse trabalhador já havia exercido essa mesma ocupação, inclusive com vínculos informais de trabalho.

Também houve situações em que a passagem pela informalidade ocorreu de forma transitória, ou seja, a trajetória pós-desligamento abrangeu eventos de exercício de atividade no trabalho informal, seguidos por aqueles caracterizados pelo trabalho formal. Porém outros permaneceram trabalhando no âmbito da informalidade, como explicita a trajetória do ajustador ferramenteiro, que, no pós-desligamento, continuou trabalhando na indústria de transformação, estabelecendo somente vínculos informais de trabalho.

Cabe destacar – mesmo não sendo objeto do estudo realizado – que a informalidade implica perdas de direitos trabalhistas e, na maioria dos casos, reduções salariais, mesmo que temporárias, o que remete ao debate acerca da precarização do trabalho. No entanto, perdas também foram relatadas pelos trabalhadores que seguiram no trabalho formal. O deslocamento para empresas de menor porte e para o trabalho por conta própria foi acompanhado, em alguns casos, por redução salarial, descontinuidade na qualificação profissional e perdas de segurança no exercício do trabalho e de benefícios sociais.

Estabelecendo relações entre trajetórias profissionais pós-desligamento e atributos profissionais: considerações finais

No estudo desenvolvido, a escolaridade foi um dos atributos profissionais que se sobressaiu enquanto requisito básico para a reinserção no e a manutenção do emprego. No entanto, as informações obtidas por meio da pesquisa empírica não permitiram afirmar que, entre os trabalhadores entrevistados, o baixo nível de escolaridade tenha impossibilitado a volta à indústria e à ocupação profissional, o que não diminui a importância desse atributo no reingresso do trabalhador desligado. Ou seja, se, por um lado, o ensino fundamental incompleto não foi identificado como elemento que impossibilitou o retorno do trabalhador à indústria e à ocupação, por outro, foi apontado como fator que pode dificultar esse retorno.

Tal constatação vincula-se à diversificação dos procedimentos adotados pelas diferentes empresas para seleção e recrutamento.23 23 Esses procedimentos são identificados por Castro, Cardoso e Caruso (1997) como estratégias colocadas em ação pelos empregadores para o preenchimento de postos de trabalho, as quais concorrem para o delineamento das trajetórias profissionais dos trabalhadores. Essa diversificação permitiu questionar a exigência de um nível mais elevado de escolaridade como uma necessidade, extensiva a todas as empresas, para o desempenho profissional.

Além da escolaridade, outro aspecto se destacou: as trajetórias de trabalhadores cuja atividade se fundamentava na utilização de equipamentos de base eletromecânica. Entre os entrevistados, distinguiu-se a presença de trabalhadores com atributos profissionais típicos do trabalho com equipamentos de base eletromecânica. A partir da hipótese que norteou o estudo, depreendia-se, então, que, ante a introdução de inovações tecnológicas nos processos de trabalho, na indústria de Caxias do Sul, esses trabalhadores enfrentariam dificuldades para a reinserção na ocupação profissional exercida em 1997 e na indústria de transformação. No entanto, as inovações tecnológicas não representaram um impedimento significativo ao retorno à indústria e não foram consideradas, pela maioria dos entrevistados, como geradoras de dificuldades profissionais. Isso pôde ser verificado pelo regresso deles à indústria de transformação. Neste sentido, a trajetória do torneiro mecânico é esclarecedora. Este saiu da empresa em 1997, comprou um torno mecânico, continuou prestando serviços à firma em que trabalhava em 1997 e, em 1999, voltou a trabalhar nessa mesma empresa, com o mesmo equipamento:

E agora estou na firma de novo. Tava me faltando serviço, então, eles me convidaram pra voltar lá, o chefe me ligou pedindo se eu queria voltar, sabendo que eu não tinha muito serviço e que eu tava precisando. Hoje, eu trabalho ainda com o mesmo torno. Ainda é o mesmo torno que eu trabalhava. Eu peguei ele novo em 95. Eu saí aqueles dois anos e voltei pra mesma máquina. Por isso, eles me convidaram pra voltar e também porque o outro ia sair. Daí tinha vaga. Eles compraram máquinas mais automáticas, mas ainda tem aquele em que eu trabalho, que é mecânico. Eles têm aqueles tornos CNC, uns três, mas é pra peças menores. Este que eu trabalho é uma máquina mais grande, as peças que eu faço não dá pra fazer naqueles tornos automáticos, porque as peças que eu faço são peças muito compridas, com haste, cilindro, pra os hidráulicos (Torneiro mecânico, 2001).

A trajetória desse trabalhador reforça a concepção de que o caráter processual, seletivo, adaptativo e heterogêneo da reestruturação industrial permite que trabalhadores não adequados às exigências das novas tecnologias possam voltar à ocupação profissional e ao setor de atividade. Assim, requer-se cautela quanto à generalização da necessidade de competências técnicas e de habilidades sociais e comportamentais, tendo em vista esse caráter da reestruturação industrial, bem como a diversificação em termos de conteúdo dos postos de trabalho. A exigência de novos atributos, associada a inovações nos processos de trabalho, conforme argumentado na hipótese que norteou o estudo ora apresentado, pode ocorrer de forma processual, seletiva e heterogênea, não se estendendo a todas ocupações, postos de trabalho, seções da empresa e firmas de um mesmo ramo e setor de atividade econômica, minimizando a dificuldade de retorno à ocupação e ao setor.

Entretanto, dificuldades não necessariamente vinculadas à reinserção profissional foram identificadas, como atesta o depoimento do ajustador ferramenteiro:

Antes de eu sair da [Empresa P], estes instrumentos que eu te falei já eram máquinas ultrapassadas. A firma adquiriu duas fresas programadas, dois tornos programados e uma mandrilhadora programada. Então, tudo aquilo que eu fazia com as minhas mãos, não só eu, meus amigos também, as máquinas passaram a fazer. Então, como eu sou um cara debilitado no estudo, tenho a 7ª série, eu não conseguia fazer frente ao pessoal que era mais capacitado. A gente foi ficando pra trás, e eles evoluíram. Este pessoal mais capacitado tinha mais estudo. Por exemplo, numa noite, eu fiquei trabalhando sozinho, o [colega] me disse: 'Tu só cuida aqui o X e o Y, quando chegar lá, tu desliga.' Só que pra ele que conhece é fácil, mas, pra mim, foi difícil. Eu fiquei com medo, porque quebrou uma pastilha de vídia, e pensei que ela fosse corroer o material, começou a sair umas faíscas, pensei: 'Daqui a pouco quebra um cabeçote ou estraga a máquina'. Eu tive que puxar da tomada, desligar toda a máquina, caiu todo o programa. O [colega] tinha me explicado direito, mas tu vê, se ele estivesse lá, com certeza ele ia resolver. Eu não, se eu apertasse um dos botões da máquina, eu não sabia pra onde poderia ir, então desliguei (Ajustador ferramenteiro, 2001).

Essa fala é reveladora das dificuldades que o trabalhador não apto para o manejo de equipamentos de base microeletrônica pode encontrar diante da adoção de novas tecnologias nos processos de trabalho, dificuldades estas referentes à execução do trabalho e às perspectivas de crescimento profissional.

Afora isso, o retorno dos trabalhadores à indústria destacou outros elementos que contribuem para a reinserção no mercado de trabalho, como a existência de postos de trabalho, ou seja, oportunidades de emprego24 24 Neste sentido, deve-se considerar que, no município analisado, a atividade industrial se caracterizava, então, pelo alto grau de diversificação, o que pode viabilizar maiores oportunidades de emprego (SABÓIA, 2000; CARDOSO, 2000a). e a interferência dos vínculos pessoais.25 25 Apesar de não consistir em objetivo do estudo, este aspecto deve ser referido, pois foi mencionado por vários trabalhadores, compondo-se em mais um elemento que interfere na reinserção dos mesmos. Esses vínculos remetem à questão da confiança, a qual pode ser associada ao capital social do trabalhador, bem como ao estabelecimento de redes de sociabilidade entre eles no âmbito de suas relações laborais (SORJ, 2000). Essas redes constituem-se em uma espécie de diferencial no acesso à informação sobre os postos de trabalho e ao próprio posto vago, facilitando a inserção e a reinserção dos trabalhadores no mercado de trabalho.

Considerando-se o retorno de alguns trabalhadores às ocupações profissionais exercidas em algum momento das suas trajetórias, utilizando conhecimentos e habilidades adquiridos e acumulados ao longo delas, infere-se que a diversificação de experiências profissionais pode facilitar a reinserção no mercado de trabalho, mesmo que esta não ocorra na indústria e que não possa garantir a preservação das condições e das relações de trabalho. A experiência profissional apareceu nas falas dos entrevistados como importante requisito de recrutamento por parte dos empregadores , sobrepondo-se, em algumas situações, ao quesito escolaridade. O relato a seguir revela a valorização dada à experiência profissional.

Pra voltar a trabalhar, de mim eles não exigiram nada, porque eu já tinha experiência, era um cara que eles sabiam, já conheciam meu serviço, eles disseram: 'você é o melhor funcionário lá em cima, você já é experiente, você sabe trabalhar, você sabe cuidar do serviço, se tu quiser, é só ir lá e já ir trabalhando'. (...) Eu consegui o emprego porque eu era acostumado na lida. Eu fazia este serviço. Eles gostavam do meu serviço, eles sabiam que eu era um cara trabalhador. (Polidor, 2001).

Um outro registro faz-se necessário: entre os trabalhadores que permaneceram, em suas trajetórias pós-desligamento, na indústria de transformação, distinguiram-se aqueles com ocupações profissionais específicas da indústria, como mecânico, ajustador ferramenteiro, torneiro mecânico e matrizeiro. Possivelmente, a explicação para essa permanência resida nas preferências desses trabalhadores por determinados tipos de atividade (HIRATA, HUMPHREY, 1989), na existência de recursos financeiros e nas possibilidades de emprego. A declaração de um deles ilustra a preferência pelo trabalho industrial: Eu quis voltar pra indústria, onde tenho uma profissão mais valorizada (Mecânico, 2001). No caso, percebeu-se que a busca pelo trabalho fabril se associa à valorização por este tipo de ocupação, o que aparece, também, em outros relatos, como o do programador de exportação, que mencionou as chances de crescimento profissional na indústria. Porém, entre os entrevistados, verificou-se igualmente que a preferência pela indústria e pela ocupação profissional pode estar vinculada aos conhecimentos e às habilidades profissionais adquiridos ao longo de suas trajetórias. Isso se manifesta no caso do polidor, que justifica sua permanência na ocupação pelo conhecimento adquirido. Em suas palavras, [...] eu já conheço aquele serviço, já faz anos que estou naquele serviço, então tenho que ficar ali, não tem outra saída, se eu sair dali pra procurar outro emprego eu não entro, eu fico desempregado (Polidor, 2001). Nessa perspectiva, a posse de determinados atributos profissionais pode interferir no tipo de ocupação em que o trabalhador pretende inserir-se.

Do mesmo modo, a possibilidade de priorizar determinado tipo de ocupação depende das oportunidades de emprego e da existência de recursos financeiros. Ilustrando, alguns entrevistados referiram o benefício do seguro-desemprego. Portanto, não seria de todo equivocado argumentar que este pode ter sido o meio que lhes permitiu aguardar pelo retorno ao emprego na indústria de transformação.

Cabe também evidenciar as trajetórias de outros trabalhadores, como a cronometrista, o operador de guilhotina e um dos líderes operacionais. Eles manifestaram, igualmente, a preferência pelo trabalho na indústria; porém, diante das dificuldades encontradas para seu retorno, reinseriram-se no trabalho por conta própria informal e no trabalho sem registro em carteira, no serviços e na construção civil.

Entre os entrevistados, encontravam-se aqueles que declararam dar prioridade, mesmo que temporária, a atividades laborais diversas às industriais. Neste grupo, situam-se os que exprimiram a vontade de instalar seu próprio empreendimento, como é o caso do programador de exportação. Em suas palavras:

Logo que eu saí da [Empresa A], fui trabalhar como autônomo, abri um comércio. Eu queria a liberdade de trabalhar por conta, ter um rendimento melhor. Coloquei com a indenização que recebi, FGTS de 13 anos. A minha mãe tinha uma papelaria, ela e minha esposa me ajudavam. Eu coloquei a parte de mantimentos. Fiquei por pouco tempo. [...] Foi a maior burrada que eu fiz na minha vida, coloquei fora, praticamente, um trabalho de 13 anos na empresa. Eu pensava que era fácil lidar com o comércio. É difícil ter comércio se tu não tens capital de giro, tu não consegue manter [...] Tinha que ter conhecimento. A verdura é um troço que tu não pode comprar em exagero, faltou experiência. [...] Era bom trabalhar por conta, tu mesmo é que faz o horário, mas, às vezes, se torna chato, ficar até tarde. A melhor coisa que eu fiz foi ter voltado pra indústria, por causa da possibilidade de evolução, tudo o que tenho, consegui através do trabalho na indústria. No comércio tu não tem muita alternativa: ou tu é balconista, gerente, vendedor, não tem muito como crescer (Programador de Exportação, 2001).

A carência de determinados conhecimentos e habilidades para exercer uma outra ocupação parece interferir na permanência do trabalhador em atividades não relacionadas à indústria. A declaração acima transcrita não apenas aponta a necessidade de conhecimentos e habilidades compatíveis com a atividade em que o trabalhador pode inserir-se em sua trajetória profissional pós-desligamento, como também refere outros fatores que influenciam no delineamento de suas trajetórias profissionais. Dentre esses, destacaram-se a ajuda de familiares que possuíam conhecimentos e habilidades relativas ao tipo de empreendimento instalado pelo trabalhador e, sobretudo, a existência de recursos financeiros para a abertura desses estabelecimentos.

A reconstituição das trajetórias de um conjunto de trabalhadores da indústria de transformação do Município de Caxias do Sul reforçou o entendimento de que os atributos profissionais representam um dos fatores que interferem na reinserção no mercado de trabalho. As vagas de emprego, a informação sobre as mesmas, o tipo de emprego oferecido, a existência de recursos financeiros, os vínculos pessoais e a preferência de determinada atividade são, também, relevantes para a reinserção, tanto no mercado de trabalho como na ocupação profissional pretendida. Esta constatação conduz a uma outra dimensão não contemplada neste estudo, mas importante de ser investigada: em que medida o crescimento ou a retração da atividade econômica em geral e da industrial em particular podem influenciar nos processos de desligamento e de admissão dos trabalhadores e, assim, no delineamento das suas trajetórias profissionais?

Por sua vez, a análise da relação entre trajetórias e atributos profissionais, objetivo do estudo ora apresentado, revelou, por meio da pesquisa empírica, que a maioria dos entrevistados retornou à indústria e, alguns, às ocupações exercidas anteriormente ao desligamento. Este movimento dos trabalhadores investigados, no que concerne aos atributos profissionais, remete ao aproveitamento de seus conhecimentos e habilidades.

Ainda no que diz respeito aos atributos profissionais, observou-se, entre os entrevistados, maior conhecimento sobre as formas de organização do trabalho em detrimento daquele relativo aos equipamentos de base microeletrônica, o que, provavelmente, se associa ao caráter seletivo da implementação de inovações tecnológicas nos processos de trabalho da indústria local.

Concomitantemente o estudo mostrou que mesmo aqueles trabalhadores não detentores de conhecimentos e habilidades para o manejo de equipamentos de base microeletrônica ou, ainda, de níveis de escolaridade requeridos pelo mercado de trabalho, retornaram à indústria de transformação, o que não significa que eles não tenham encontrado dificuldades no desempenho de suas atividades laborais, dificuldades essas observadas em seus depoimentos. Esse retorno relaciona-se, dentre outros, ao caráter da reestruturação industrial implementada no município analisado.

Esta consideração alude à reflexão: diante das alterações que se estão processando no âmbito do trabalho no Brasil e, em especial, no município investigado – com investimentos cada vez mais significativos em inovações tecnológicas, poupadoras de mão-de-obra –, até quando trabalhadores com um perfil incompatível para o trabalho com equipamentos de base microeletrônica – como o torneiro mecânico e o ajustador ferramenteiro, que não se requalificaram – permanecerão reinserindo-se na indústria de transformação? Em face a tal indagação, entendem-se como pertinentes, ações que visem à inserção, à reinserção e à permanência de trabalhadores no emprego, ações essas incentivadas por políticas públicas, organizações de classe e empresas.

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Recebido: 27/10/05

Aceite final: 06/06/06

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  • XAVIER SOBRINHO, Guilherme G. de F. Um "instantâneo do mercado de trabalho gaúcho ao final dos anos 90. Indicadores Econômicos FEE: as contas regionais e o desempenho da economia gaúcha em 1999. Porto Alegre: Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel, v. 27, n. 4, p. 249-263, 2000.

  • 1
    Este artigo é produto da Dissertação de Mestrado
    Trajetórias Profissionais Pós-Desligamento de Trabalhadores no Contexto da Reestruturação da Indústria de Transformação do Município de Caxias do Sul (RS), de autoria de Cidriana Teresa Parenza, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2003, sob a orientação da Professora Doutora Naira Lima Lapis.
  • 2
    A identificação dos entrevistados foi feita pela ocupação profissional do trabalhador na indústria, em 1997. Cabe agradecer-lhes a disposição de relembrarem e a paciência de relatarem suas trajetórias profissionais. Agradecemos, também, as contribuições dos pareceristas anônimos.
  • 3
    A opção pelo ano de 1997 considerou o expressivo crescimento da produtividade, na indústria, observado naquele ano, o que pode interferir nos processos de desligamento e admissão de trabalhadores. Além disso, o período de 1997 (ano do desligamento) a 2001 (ano em que foram realizadas as entrevistas) representa um intervalo de tempo satisfatório para a reinserção dos trabalhadores no mercado de trabalho, dando conteúdo às trajetórias pós-desligamento.
  • 4
    Dos ramos que compõem a indústria de transformação, optou-se por trabalhadores desligados de empresas pertencentes aos de material de transporte e mecânico, tendo em vista seu destaque em relação ao volume de emprego formal gerado.
  • 5
    Foram compreendidos como conhecimentos e habilidades intelectuais e manuais de caráter técnico dos trabalhadores, construídos e acumulados ao longo de toda a sua trajetória no trabalho. A definição utilizada não abarca as atitudes de caráter comportamental.
  • 6
    O reconhecimento da interferência dos atributos profissionais dos trabalhadores em suas trajetórias profissionais pós-desligamento não encerra o entendimento da reinserção profissional como uma questão fundamentalmente individual (POCHMANN, 1999), pois não se desconhece o fato de que também trabalhadores detentores de atributos requeridos pelos empregadores perdem seus postos de trabalho e, por vezes, não conseguem reinserir-se no mercado formal. Tem-se presente que os atributos profissionais dos trabalhadores consistem em uma dimensão, pois, para as trajetórias no mercado de trabalho, concorrem não apenas aspectos individuais do trabalhador (CARDOSO, 2000b; CASTRO; CARDOSO; CARUSO, 1997), mas também o contexto no qual esse trabalhador se insere, ao que corresponde, por exemplo, a disponibilidade objetiva de vagas no mercado de trabalho (CARDOSO, 2000b).
  • 7
    As expressões alterações, inovações, mudanças e modificações, utilizadas em relação aos processos de trabalho, referem-se à incorporação de equipamentos de base microeletrônica e de novas formas de gestão e organização do trabalho nesses processos.
  • 8
    A esse respeito, ver Mattoso (1995), Carvalho e Schmitz (1990), Mourthé (1999), Paese (1997), Franzói (1997), Humphrey (1989), Fleury e Humphrey (1993), Hirata (1995), Gitahy e Rabelo (1993), Liedke (1992) e Salerno (1990).
  • 9
    Fundamentando-se em Leite (1994), Leite (1995), Alves (2000) e Cardoso (2000a), entende-se por reestruturação industrial sistêmica a implementação de inovações de cunho técnico, organizacional e gerencial, articuladas entre si, que se generalizam, homogeneizando o modo de organizar e gerir os processos de trabalho no interior de uma mesma planta industrial, bem como na cadeia produtiva.
  • 10
    A escolha do Município de Caxias do Sul deu-se pela presença expressiva de atividade industrial e pela forma com que inovações tecnológicas vêm sendo nela implementadas, fatores estes que interferem diretamente nas trajetórias profissionais. Salienta-se que Caxias do Sul foi apontada como uma das principais aglomerações industriais do País (9º lugar), dado o volume de emprego gerado pela indústria de transformação (SABÓIA, 2000).
  • 11
    Definição alicerçada em Leite (1994), Leite (1995), Gitahy e Rabelo (1993), Ramalho (1999), Castro, Cardoso e Caruso (1997) e Castro (1998).
  • 12
    Cabe destacar que a exigência de novos conhecimentos, habilidades e atitudes não pode ser atribuída exclusivamente às alterações ocorridas nas plantas industriais, vinculando-se também a outros fatores, dentre eles, a possível influência de empresas de maior porte sobre as de menor porte (PAESE, 1997) e a menor oferta de emprego
    versus a maior oferta de mão-de-obra, o que possibilita uma seletividade mais rigorosa por parte dos empregadores, independentemente de alterações no conteúdo dos postos de trabalho (LIEDKE, 1997; FRANZÓI, 1997; SORJ, 2000; STERNBERG; JORNADA; XAVIER SOBRINHO, 2000a).
  • 13
    A esse respeito, consultar Liedke (1997), Leite (1995), Leite (1997), Bressolin (1998), Paese (1997), Franzói (1997), Leite e Posthuma (1995), Fleury e Humphrey (1993).
  • 14
    Conforme já referido, a demissão pode estar associada a diferentes motivos, dentre eles, as inovações tecnológicas.
  • 15
    Cabe também destacar a criação, no Município, do Centro Tecnológico de Mecatrônica, que tem como objetivo viabilizar a formulação e a difusão de novos conceitos de produção, principalmente através da qualificação dos trabalhadores (BREITBACH, 1997). Esta valorização da qualificação profissional foi percebida como indicativo de uma possível modificação na postura tradicional do empresariado local (HERÉDIA, PERUZZO, 1998).
  • 16
    Os dados foram obtidos na
    Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE). Dentre os limites dessa base de dados, destacam-se: (a) restringe-se ao mercado formal de trabalho, (b) impossibilita caracterizar o perfil dos demitidos e (c) a origem das informações pode ocasionar distorções. Face aos limites, é preciso ter cautela na interpretação dos dados. Porém essa base é identificada como preciosa para o conhecimento do mercado de trabalho pela riqueza de informações contidas e pela possibilidade de se obterem dados municipalizados (STERNBERG; JORNADA; XAVIER SOBINHO, 2000a; 2000b; XAVIER SOBINHO, 2000; CARDOSO, 2000a; SABOIA, 2000; UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL, 1996).
  • 17
    A esse respeito, ver Bastos (2001) e Sternberg, Jornada e Xavier Sobrinho (2000b).
  • 18
    O universo de pesquisa constituiu-se de 50 trabalhadores que solicitaram o benefício de seguro-desemprego (meio utilizado para localizar os entrevistados) e que trabalharam nos ramos industriais material de transporte e mecânico, no mínimo, durante o período de 10 anos, tendo sido desligados em 1997. Nesse conjunto, realizou-se uma seleção intencional de 20 trabalhadores, com os quais foram feitas entrevistas. Para a seleção, tomou-se como referência o grau de escolaridade.
  • 19
    Para uma descrição detalhada da classificação apresentada nesta seção, consultar Parenza (2003).
  • 20
    As posições de empregado referiam-se às atividades laborais remuneradas exercidas para um empregador, com ou sem registro em carteira de trabalho; as de conta-própria diziam respeito às atividades laborais desenvolvidas em empreendimento próprio, com pagamento de impostos (formal) ou sem esse pagamento (informal).
  • 21
    Para uma reconstituição pormenorizada, ver anexos (PARENZA, 2003).
  • 22
    A trajetória dessa trabalhadora é interessante no sentido de ilustrar que, em alguns casos, há o exercício de diversas ocupações paralelas, o que, por vezes, também gera diferentes posições na ocupação. Além disso, a transferência ocupacional e de posição na ocupação nem sempre foi intermediada por E1, tendo em vista as mudanças ocupacionais no interior de um mesmo estabelecimento ou, ainda, a imediata ocupação pós-desligamento.
  • 23
    Esses procedimentos são identificados por Castro, Cardoso e Caruso (1997) como estratégias colocadas em ação pelos empregadores para o preenchimento de postos de trabalho, as quais concorrem para o delineamento das trajetórias profissionais dos trabalhadores.
  • 24
    Neste sentido, deve-se considerar que, no município analisado, a atividade industrial se caracterizava, então, pelo alto grau de diversificação, o que pode viabilizar maiores oportunidades de emprego (SABÓIA, 2000; CARDOSO, 2000a).
  • 25
    Apesar de não consistir em objetivo do estudo, este aspecto deve ser referido, pois foi mencionado por vários trabalhadores, compondo-se em mais um elemento que interfere na reinserção dos mesmos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jul 2007
  • Data do Fascículo
    Jun 2007

Histórico

  • Aceito
    06 Jun 2006
  • Recebido
    27 Out 2005
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