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Editorial

Dirce Koga Mariangela Belfiore Wanderley Rosangela Dias Oliveira da Paz Sobre os autores

As sociedades latino-americanas são barrocas. Há um "barroquismo" latino-americano. E ele foi trazido pelos conquistadores. As nossas sociedades são sociedades de fachada; por trás não há nada ou, às vezes, um apêndice de pau a pique, um tosco conjunto construído de paus e barro, ou de taipa socada, de adobe, mas a fachada é barroca, é uma obra de arte, muitas vezes de pedra. (Martins, 1991, p. 22)

A cada novo processo de definição dos artigos a compor um número da Revista Serviço Social & Sociedade costuma ocorrer um dilema em torno do fio condutor a alinhar a variedade de textos e autores, ainda que haja uma chamada temática. Tal dilema se explica pelo fato de, além da qualidade dos artigos, que já passaram pelo crivo de avaliadores, se faz necessário abarcar a diversidade regional, institucional e a presença internacional. Para além destes indicadores inerentes ao processo de conformação editorial da revista, nos deparamos com um contexto econômico, sociopolítico e cultural latino-americano e mundial, que atinge diretamente o conjunto de trabalhadores e estudantes de Serviço Social, inclusive em suas condições objetivas para a construção coletiva do conhecimento neste campo.

Uma pequena introdução apenas para dizer que neste número (129) a tarefa do comitê não fugiu à regra, e novamente nos vimos neste dilema, em que os desafios postos para a profissão e os descompassos e contradições presentes no cotidiano em relação ao avançado projeto ético-político construído ao longo da trajetória do Serviço Social brasileiro e latino-americano persistem e se expressam nos artigos escolhidos para esta edição.

Diante destas questões, consideramos pertinente a escolha do "olho de capa", nosso fio condutor para o número 129 intitulado "Serviço Social: marcas e desafios".

Este cenário, por sua vez, nos reporta ao trabalho fundamental desenvolvido pela Profa. Dra. Marilda Iamamoto publicado há exatos 10 anos, e que se mantém atual: Serviço Social em tempo de fetiche - capital financeiro, trabalho e questão social (Cortez Editora, 2007). Já em sua introdução, a autora revela que se trata de um "projeto intelectual em construção", cujo marco inicial se deu com o livro Relações sociais e Serviço Social no Brasil, em coautoria com Raul de Carvalho, publicado em 1982, e que ultrapassa hoje a casa de vinte edições.

Chama a atenção nesta obra não somente o fato de representar essa continuidade a uma trajetória intelectual em plena maturidade em torno do Serviço Social, mas especialmente o que é ressaltado por José Paulo Netto: trata-se de um "salto qualitativo", em que o Serviço Social se torna ator coadjuvante, em que o personagem principal é o "capital em seu movimento contemporâneo":

O essencial deste livro, todavia, transcende largamente as fronteiras do Serviço Social: é uma ambiciosa tentativa de atualizar a crítica marxiana da economia política, com uma interpretação de Marx que assenta numa perspectivação ontológica da tradição teórica por ele iniciada (Netto, apud Iamamoto, 2007IAMAMOTO, Marilda. Serviço Social em tempo de fetiche - capital financeiro, trabalho e questão social". São Paulo: Cortez, 2007., p. 16).

Os dilemas e contradições vivenciados pelo conjunto dos sujeitos políticos do Serviço Social e que, em parte, se evidenciam por meio dos artigos escolhidos para esta 129ª edição da Revista Serviço Social & Sociedade, nos convidam a pensar sobre as linhas de força traçadas por Iamamoto, e que seguem na direção de romper com as fronteiras do Serviço Social. Tarefa, sem dúvida, que exige o "diálogo crítico no campo dos fundamentos históricos e teórico-metodológicos necessários ao Serviço Social", e que a própria autora irá declarar como transversal a esta obra, e que se coloca como "expressão da autonomia intelectual, que se requer de um pesquisador em sua maturidade acadêmica e profissional" (Iamamoto, 2007IAMAMOTO, Marilda. Serviço Social em tempo de fetiche - capital financeiro, trabalho e questão social". São Paulo: Cortez, 2007., p. 29).

Extrapolar os limites impostos pelas exigências burocráticas, institucionais (inclusive judiciais) e sedentárias (o cidadão vale pelos comprovantes que apresenta, sendo o endereço fixo o mais valioso passaporte para sua inclusão nas políticas sociais), em contraponto às dinâmicas das realidades em que se encontram fincadas as práticas socioprofissionais dos trabalhadores tem se tornado uma constante nesse cotidiano. Trata-se de romper barreiras que se encontram enraizadas nos processos de formação sócio-histórica das nossas sociedades, e que se expressam na forma do que Marilena Chaui denomina de "mito fundador":

O mito fundador oferece um repertório inicial de representações da realidade e, em cada momento da formação histórica, esses elementos são reorganizados ... Assim, as ideologias, que necessariamente acompanham o movimento histórico da formação, alimentam-se das representações produzidas pela fundação, atualizando-as para adequá-las à nova quadra histórica. É exatamente por isso que, sob novas roupagens, o mito pode repetir-se indefinidamente (Chaui, 2000CHAUI, Marilena. Brasil - mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000., p. 10).

Trata-se das marcas que permanecem ainda que sob "novas roupagens", como o caso do "barroquismo latino-americano" traçado por José de Souza Martins (1993)MARTINS, José de Souza. A chegada do estranho. São Paulo: Hucitec, 1993. ao referir-se à valorização das aparências, das "fachadas" em nossas sociedades. Ou ainda de "A Ideia de Brasil Moderno" (1992), tão bem decifrada por Octavio Ianni.

É aqui que o artigo "Sentido da colonização e revolução brasileira: crítica de caracterizações do modo de produção colonial" se torna muito bem vindo nesta revista, na perspectiva de contribuir para a compreensão dessa marca tão presente nas relações sociais brasileiras.

Conservando as marcas da sociedade colonial escravista, ou aquilo que alguns estudiosos designam como "cultura senhorial", a sociedade brasileira é marcada fortemente pela estrutura hierárquica do espaço social que determina a forma de uma sociedade marcadamente verticalizada em todos os seus aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece (Chaui, 2000CHAUI, Marilena. Brasil - mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000., p. 89).

Nessa direção, o conjunto de artigos deste número da Revista abordam e problematizam as marcas e desafios presentes no cotidiano profissional nos diversos espaços sócio-ocupacionais, assim como na formação acadêmica, para o enfrentamento das expressões da questão social, em um contexto de crise estrutural do capital, de neoliberalismo, de mudanças e precarização das relações de trabalho e nas condições de vida.

Destaca-se nessas reflexões o papel da universidade na formação, assistência estudantil e extensão universitária, no seu compromisso social com as transformações societárias, "que a universidade se pinte de povo", como bem se intitula um dos artigos, lembrando a expressão de Ernesto Che Guevara, (Universidade de Las Villas, em Cuba, 1959).

A conjuntura política brasileira desde 2016 está profundamente marcada pelo golpe institucional-parlamentar desferido com o apoio de setores do Poder Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e dos meios de comunicação e do empresariado. Trata-se de uma ofensiva contra a democracia determinada pelos interesses do capitalismo nacional e internacional nas riquezas do país, que tem levado a um desmonte das políticas sociais e dos direitos sociais, historicamente conquistados. Nesse contexto, a classe trabalhadora está desafiada a retomar as lutas, a defender direitos e a construir uma ampla frente de resistência.

E o Serviço Social, mais uma vez, é desafiado e convocado a se posicionar contra o golpe institucional parlamentar, as medidas de desregulamentação das relações de trabalho, contra as propostas de reformas previdenciária, trabalhista, da educação e em defesa dos direitos sociais.

Referências

  • CHAUI, Marilena. Brasil - mito fundador e sociedade autoritária São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000.
  • IAMAMOTO, Marilda. Serviço Social em tempo de fetiche - capital financeiro, trabalho e questão social". São Paulo: Cortez, 2007.
  • IANNI, Octavio. A idéia de Brasil moderno São Paulo: Brasiliense, 1992.
  • MARTINS, José de Souza. A chegada do estranho São Paulo: Hucitec, 1993.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    May-Aug 2017
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