Resumo:
Este estudo analisa como a memória, as narrativas e a pedagogia crítica reforçam a identidade e o protagonismo comunitário num território rural. Fundamentado no projeto Vozes da Folgosa e utilizando metodologias participativas, identificaram-se três eixos: reapropriação identitária, problematização estrutural e ações coletivas. Verificou-se que a construção dialógica da memória promove consciência crítica como uma possível estratégia para territórios que se encontrem numa situação de vulnerabilidade.
Palavras-chave:
Serviço Social; Memória coletiva; Paulo Freire; Conscientização crítica; Desenvolvimento comunitário
Abstract:
This study analyzes how memory, narratives, and critical pedagogy reinforce identity and community protagonism in a rural area. Based on the Vozes da Folgosa project and utilizing participatory methodologies, three axes were identified: identity reappropriation, structural problematization, and collective actions. It was found that the dialogical construction of memory promotes critical awareness as a possible strategy for areas in vulnerable situations.
Keywords:
Social Work; Collective memory; Paulo Freire; Critical consciousness; Community development
Introdução
Com maior expressão nas últimas décadas, o despovoamento das áreas rurais em Portugal expõe fragilidades sociais, culturais e econômicas que se manifestam negativamente no quotidiano das populações (Barreto, 2018). Em Portugal, localidades como Folgosa do Douro1 apresentam não apenas perdas demográficas significativas, mas também o risco de erosão da memória coletiva e da identidade comunitária, elementos fundamentais para a coesão social e para processos de emancipação (Carmo, 2007; Schallenberger, 2003).
Ao convocarmos o Serviço Social para encabeçar os destinos de intervenção dessas localidades, será necessário que se operem novas práticas que possam combinar intervenção profissional e processos educativos emancipatórios. Essa perspetiva é dialogante com o pensamento de Paulo Freire (1987), para quem os processos comunicativos horizontais constituem uma condição fundamental para a superação das opressões estruturais e para a construção de sujeitos capazes de intervir sobre e na realidade.
A presente análise parte da experiência do projeto Vozes da Folgosa,2 existente desde 2014 em Folgosa do Douro, centrado no resgate de uma história dessa comunidade, promovendo a construção do patrimônio imaterial e o fortalecimento de laços comunitários. Essa prática, para além do caráter documental, também se assumiu como espaço que permitiu o diálogo, rompendo assim com a lógica da pedagogia bancária, reconhecendo os sujeitos como protagonistas da sua ação e do seu saber (Freire, 1974; Oliveira; Carvalho, 2007).
O objetivo deste artigo é analisar de que forma a valorização do patrimônio imaterial, mediada por práticas dialógicas e inspirada nos postulados de Paulo Freire, pode funcionar como dispositivo para o aumento da conscientização crítica e da emancipação de sujeitos em contextos rurais. Para isso, discute-se a articulação entre memória, identidade e ação social no quadro de um Serviço Social crítico orientado para o desenvolvimento das comunidades.
1. Memória, consciência crítica e emancipação: fundamentos para um Serviço Social transformador
1.1 Paulo Freire e a conscientização crítica como ação emancipatória
Paulo Freire entende a educação como uma prática libertadora, com especial enfoque no rompimento de todas as estruturas que podem fragilizar e oprimir os sujeitos. Entende os indivíduos como sujeitos da sua história, capazes de intervir no mundo que os rodeia (Freire, 1974; 1987). Nessa perspetiva, a pedagogia que privilegia o diálogo é contrária à educação bancária, centrada na transmissão vertical do conhecimento, e promove a problematização do dia a dia, facilitando a construção coletiva de conhecimento. Essa possibilidade dialogante pode ter expressão em três movimentos a que Freire chama de imersão (vivência acrítica do quotidiano), emersão (distanciamento reflexivo) e inserção (ação que transforma) (Oliveira; Carvalho, 2007).
No caso do projeto Vozes da Folgosa, a consciência crítica é entendida como a capacidade dos sujeitos de perceber as causalidades que estruturam a sua realidade, permitindo-lhes questionar relações de poder e posicionar-se como agentes de mudança (Freire, 2001). Essa consciência não se reduz à reflexão individual, mas se traduz em práticas coletivas, dialógicas e solidárias. Para alcançá-la, os participantes assumem uma postura ativa: narram, escutam, interpretam e dão significado às suas experiências, reconhecendo-se como produtores de saber e não apenas receptores (Jemal, 2018; Arpita; Ninad, 2015).
Nesta realidade, a consciência crítica é também um ato político e cultural: politiza a experiência do quotidiano, inscreve-a num horizonte histórico e desafia os determinismos naturalizados (Škorić; Škorić, 2020). Ao mesmo tempo, promove transformações subjetivas e coletivas, ampliando as capacidades de análise e de intervenção na vida comunitária dos sujeitos que participam coletivamente.
1.2 Memória, narrativas e histórias de vida: dispositivos para desbravar o quotidiano
A memória social, longe de ser um repositório neutro de acontecimentos, constitui um campo de disputa simbólica e identitária (Halbwachs, 2006; Bosi, 1994). Quando ativada de forma coletiva e crítica, transforma-se em instrumento de resistência contra processos que invisibilizam e uniformizam a cultura (Pollak, 1989).
As histórias de vida, por exemplo, como método e prática social, oferecem uma via privilegiada para esse exercício. Ao narrar a própria trajetória de vida, o sujeito reorganiza experiências, atribui sentido ao vivido e projeta futuros possíveis (Bertaux, 2010; Ferrarotti, 2013). A narrativa não apenas descreve a realidade, mas também atua sobre ela, pois cria pontes entre passado e presente, entre individual e coletivo (Goodson, 2013; Bolívar, 2002).
Em contextos rurais marcados pelo isolamento e pelo despovoamento, essas práticas assumem um caráter transformador. Elas põem a descoberto dimensões do quotidiano invisibilizadas por estatísticas e discursos hegemônicos, revelando saberes locais, vínculos afetivos e até estratégias de sobrevivência (Chamberlayne; Bornat; Wengraf, 2000). No projeto Vozes da Folgosa, as histórias recolhidas não são meros testemunhos, mas atos de memória que fortalecem identidades, estimulam a participação e criam sentidos para a ruralidade (Cardoso, 2024).
Na perspetiva de Paulo Freire, narrar e ouvir histórias podem converter-se numa prática dialógica, transformando a experiência de vida numa fonte legítima de conhecimento e ação (Freire, 2001). As narrativas funcionam como mediadoras da consciência crítica, pois evidenciam contradições estruturais (despovoamento, desigualdade, precarização) e convocam os sujeitos à ação coletiva.
1.3 Serviço Social crítico e desenvolvimento comunitário: complementaridades na ação emancipatória
O Serviço Social crítico emerge no século XX como resposta às limitações das abordagens funcionalistas e assistencialistas, incorporando ideais marxistas, da teoria crítica e de pedagogias emancipatórias (Iamamoto, 2012; Netto, 2005). Essa matriz apreende as expressões da questão social como resultantes das contradições estruturais do capitalismo, recusando explicações moralizantes ou individualizantes. Ao mesmo tempo, afirma o compromisso ético-político com a emancipação humana, a justiça social e a radicalização democrática (Yazbek, 2009).
O desenvolvimento comunitário, historicamente associado a estratégias de modernização e integração social, assume, na perspetiva crítica, um novo sentido: deixa de ser mera técnica de ajuste para se converter em processo político, dialógico e participativo (Ander-Egg, 2005; Ife, 2016). Essa reconceptualização aproxima-o das propostas freirianas, ao enfatizar a centralidade da participação, da consciência crítica e da organização coletiva.
A união de forças entre Serviço Social crítico e desenvolvimento comunitário manifesta-se, neste estudo, na articulação entre a intervenção e o protagonismo dos sujeitos. O projeto analisado materializa essa síntese: parte de um diagnóstico participativo, utiliza metodologias de investigação-ação e promove espaços de diálogo onde se constroem tanto identidades quanto estratégias coletivas para enfrentar desafios locais. Como afirma Ife (2016), o desenvolvimento comunitário não é apenas um “meio” para atingir metas econômicas, mas também um fim em si mesmo, na medida em que fortalece capacidades locais e fomenta cidadania ativa.
Assim, a proposta aqui analisada do Serviço Social não se limita à gestão da pobreza, mas aposta na transformação das condições sociais e simbólicas que estruturam as desigualdades (Banks, 2016; Ferguson, 2018).
1.4 Síntese integrativa: memória, consciência crítica e emancipação
A articulação entre memória coletiva, narrativas, histórias de vida e conscientização crítica revela-se estratégica para o fortalecimento da autonomia comunitária e para a construção de práticas emancipatórias no Serviço Social. Esses elementos não operam isoladamente; bem pelo contrário, formam um círculo virtuoso: narrar a própria história ativa a memória, a memória mobiliza reflexão crítica e esta, por sua vez, potencializa a ação transformadora.
Do ponto de vista epistemológico, tal articulação rompe com paradigmas positivistas e funcionalistas, inscrevendo-se numa matriz sociocrítica que concebe a ciência como prática social, situada e comprometida com a emancipação (Santos, 1987; Wagner, 2003). Nesse sentido, a valorização das experiências locais, traduzidas em narrativas, tensiona a hegemonia dos discursos técnicos e normativos, reivindicando outros modos de conhecer (Goodson, 2013).
Freire (2001) já advertia que não existe intervenção social neutra: toda a prática educativa é política, assim como toda ação política é educativa. O projeto Vozes da Folgosa materializa de alguma forma essa indissociabilidade ao conjugar metodologias de investigação-ação com dinâmicas de educação popular, construindo espaços de diálogo horizontal em que emergem novas leituras do mundo e novas possibilidades de atuação. Esses espaços configuram-se como “territórios de resistência” (Santos, 2002), onde se disputam significados, memórias e futuros.
A emancipação, portanto, não se reduz à superação de carências materiais, mas envolve a ampliação da capacidade de interpretar criticamente a realidade e agir sobre ela de maneira coletiva (Iamamoto, 2012; Ferguson, 2018). Esse horizonte exige um Serviço Social capaz de articular dimensões técnicas, ético-políticas e pedagógicas, tensionando tanto as estruturas macro quanto as práticas micro do dia a dia (Banks, 2016).
Sob essa ótica, práticas como as analisadas desafiam lógicas neoliberais que tendem a individualizar problemas sociais e reduzir políticas públicas à focalização e ao controle (Netto, 2005; Yazbek, 2009). Ao promover a participação democrática e a consciência crítica, essas práticas inscrevem-se num projeto social mais amplo, orientado para a radicalização da cidadania e para a justiça social.
1.5 Desdobramentos para o Serviço Social contemporâneo
A análise realizada indica que a integração entre memória, pedagogias críticas e desenvolvimento comunitário não é apenas uma estratégia metodológica, mas também um imperativo ético-político para o Serviço Social na contemporaneidade. Num cenário marcado pelo avanço das desigualdades, pela intensificação das migrações internas e pela fragilização das redes de solidariedade, torna-se urgente resgatar práticas que valorizem os saberes locais, promovam vínculos e ampliem capacidades de resistência coletiva (Ife, 2016; Banks, 2016).
Autores como Ferguson (2018) e Lavalette (2011) defendem que a renovação do Serviço Social crítico passa pela recomposição de sua dimensão comunitária, frequentemente eclipsada pelas exigências burocráticas. Essa recomposição implica recuperar a centralidade da participação e da dialogicidade, princípios que encontram na pedagogia de Paulo Freire e na abordagem biográfica potentes referenciais teóricos e metodológicos.
Por fim, a experiência analisada reforça a pertinência de uma prática profissional que vá além da prestação de serviços e da aplicação de protocolos, afirmando-se como práxis transformadora, capaz de articular dimensões simbólicas (memória, identidade), políticas (participação, cidadania) e estruturais (condições socioeconômicas). Essa perspetiva desafia os profissionais do Serviço Social a assumirem não só o papel de técnicos especializados, mas também o de intelectuais orgânicos, comprometidos com a construção coletiva de alternativas à ordem social vigente (Gramsci, 1971; Netto, 2005).
2. A metodologia de investigação-ação no desbravar do quotidiano. Que resultados?
Este estudo adotou a metodologia da investigação-ação (I-A), reconhecida pela sua orientação dialógica e participativa, adequada a processos que visam simultaneamente compreender e transformar a realidade (Thiollent, 2011; Coutinho, 2013). A escolha pela I-A alinha-se à perspetiva freiriana, na medida em que envolve os sujeitos como protagonistas na produção de conhecimento e na definição de estratégias de ação.
A pesquisa assumiu um caráter qualitativo, fundamentado no paradigma sociocrítico, combinando técnicas narrativas, observação participante e análise documental. A investigação integrou dimensões diagnóstica, formativa e transformadora, articuladas num ciclo contínuo: planejamento → ação → observação → reflexão → replanejamento.
O estudo foi desenvolvido na comunidade rural de Folgosa do Douro (Portugal), caracterizada por acentuado despovoamento, envelhecimento demográfico e fragilização das redes sociais e de sociabilidade. Participaram 32 residentes, com idades entre 21 e 84 anos, distribuídos em diferentes perfis: agricultores, trabalhadores do setor vitivinícola, donas de casa e emigrantes retornados. Este estudo partiu de outro mais amplo que se realizou entre 2020 e 2024: uma investigação doutoral em Serviço Social, que teve como principal foco o aumento da consciência crítica e da emancipação dos sujeitos participantes (Cardoso, 2024).
O estudo que aqui se apresenta foi realizado no primeiro semestre de 2024, partindo de dados já coletados pelo projeto de investigação mais amplo, mas teve como intenção uma compreensão mais específica de como a reconstrução comunitária poderá apropriar-se da memória e de projetos de educação popular, a fim de impulsionar os sujeitos participantes para o reconhecimento da comunidade onde estão inseridos, como espaços de construção dinâmica no e para o seu desenvolvimento.
A seleção foi intencional, privilegiando sujeitos com disposição para participar em atividades coletivas e partilhar narrativas pessoais. Foram mobilizados diferentes dispositivos metodológicos:
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• Entrevistas narrativas e histórias de vida (n = 18), baseadas no modelo de Bertaux (2010), permitindo reconstruir trajetórias e significados atribuídos à experiência rural.
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• Grupos de discussão (n = 6), organizados em torno de temas emergentes das entrevistas, funcionando como espaços dialógicos de reflexão coletiva.
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• Produção do jornal comunitário Vozes da Folgosa, envolvendo oficinas de escrita e fotografia participativa, com publicação periódica (2014-2024).
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• Registros de campo e diário reflexivo, documentando interações, conflitos e aprendizagens durante todo o processo.
A dimensão ética deste trabalho constituiu um eixo central em todas as etapas desta investigação, orientando a relação entre investigador e participantes segundo princípios de respeito, autonomia e corresponsabilidade. Inspirado na ética dialógica proposta por Paulo Freire (1987; 2001) e nos referenciais deontológicos do Serviço Social (Banks, 2016; Yazbek, 2009), o processo investigativo valorizou o consentimento informado, a confidencialidade e a legitimidade dos saberes locais. A opção pela investigação-ação implicou reconhecer os sujeitos não como objetos de estudo, mas como coprodutores do conhecimento, assegurando que a recolha e a divulgação das narrativas não implicassem qualquer forma de exploração simbólica (Thiollent, 2011; Iamamoto, 2012). Assim, a ética foi entendida não apenas como um requisito metodológico, mas também como um compromisso político e pedagógico de construção coletiva, fundado no diálogo e na valorização das vozes históricas e culturais da comunidade (Freire, 1974; Ife, 2016).
Os resultados revelam que o entrelaçamento entre reconstrução simbólica do passado e pedagogia emancipatória não somente gerou mudanças comportamentais, mas também produziu um movimento de interações participativas no sentido freiriano - um deslocamento ontológico e epistemológico que transforma o modo como os sujeitos percebem e atuam sobre a realidade. A reapropriação da identidade local pode ser lida como o primeiro momento desse processo: o que Freire (1987) denomina de imersão - a tomada de contato com o vivido, agora reinterpretado à luz da reflexão coletiva. Nessa etapa, o patrimônio imaterial deixa de ser uma herança passiva para se converter num instrumento de leitura do mundo, reafirmando que “a cultura é também um ato político” (Freire, 1974).
O segundo eixo, a problematização das condições estruturais, traduz o movimento de emersão, em que a experiência quotidiana é posta em diálogo com as determinações históricas e econômicas que a sustentam. Tal processo reflete a passagem do “sentido comum” à “consciência crítica” (Jemal, 2018), possibilitando aos participantes identificar as causas sistêmicas do despovoamento e das desigualdades territoriais - um exercício de leitura crítica da realidade que aproxima o Serviço Social da pedagogia emancipatória.
Por fim, o eixo da ação coletiva corresponde à inserção, momento em que a reflexão se converte em práxis transformadora. Aqui, a memória cumpre uma função política e performativa (Pollak, 1989; Goodson, 2013): ao narrar o passado, a comunidade reinscreve-se no presente e projeta futuros possíveis. Essa ação dialógica confirma a ideia de Ife (2016) de que o desenvolvimento comunitário é, antes de tudo, um processo ético-político de reconstrução de vínculos e de democratização das relações de poder.
Assim, o projeto não apenas valida a atualidade da pedagogia freiriana em contextos rurais, mas também evidencia que a emancipação emerge da interseção entre memória, diálogo e ação, articulando dimensões culturais, políticas e econômicas (Ferguson, 2018; Iamamoto, 2012). A interdisciplinaridade entre Serviço Social, pedagogia social e estudos da memória não se limita a uma opção metodológica: ela expressa uma epistemologia contra-hegemônica que reconhece os sujeitos como produtores de conhecimento e agentes históricos da sua própria libertação (Freire, 2001; Santos, 2002).
Considerações finais
A análise desta experiência indica-nos que a articulação entre práticas narrativas e processos educativos críticos constitui uma estratégia robusta para potenciar processos emancipatórios em contextos rurais marcados pelo despovoamento e por outros problemas. A experiência revelou que a valorização da história local, mediada por práticas dialógicas e pela metodologia participativa já descrita, não só resgata identidades fragilizadas, mas também fomenta as trocas intersubjetivas e a mobilização coletiva.
Em termos teóricos, o estudo reafirma a atualidade do pensamento de Paulo Freire e a sua pertinência para o Serviço Social contemporâneo, especialmente quando se trata de enfrentar desafios estruturais que vão para além da dimensão material, alcançando a esfera simbólica e cultural. Como demonstrado, a conscientização não é um ato pontual, mas um processo contínuo, que reclama espaços de diálogo, reconhecimento mútuo e construção coletiva de significados que são atribuídos pelos sujeitos participantes neste projeto. Ao articular memória e ação, os sujeitos ampliam sua capacidade de interpretar criticamente a realidade.
Do ponto de vista metodológico, a experiência reforça a relevância das abordagens participativas no Serviço Social, mostrando que técnicas narrativas, grupos de discussão e dispositivos culturais podem desempenhar um papel central em processos de desenvolvimento comunitário. A utilização das histórias de vida, neste caso, transcendeu o caráter meramente descritivo, convertendo-se em ato político, capaz de tensionar relações de poder e desnaturalizar desigualdades. Tal abordagem confirma proposições de Goodson (2013) e Bertaux (2010) sobre a dimensão transformadora da narrativa, sobretudo quando articulada a uma perspetiva crítica.
No plano prático, os resultados sugerem que iniciativas semelhantes podem constituir estratégias inovadoras de intervenção social, tanto em contextos rurais quanto em contextos urbanos, sempre que se pretenda enfrentar processos de desagregação comunitária e invisibilização cultural. Para isso, torna-se indispensável que profissionais de Serviço Social, e não só, assumam uma postura que combine competência técnica com compromisso ético-político, reconhecendo os sujeitos como coprodutores do conhecimento e protagonistas da sua própria mudança.
A experiência analisada aponta para a necessidade de repensar as políticas públicas para territórios rurais, tradicionalmente centradas em lógicas economicistas e pouco sensíveis à dimensão sociocultural. A promoção da participação cidadã e da valorização da memória deve ser incorporada como eixo estruturante das políticas de desenvolvimento local, articulando-se com práticas educativas emancipadoras e com o fortalecimento das redes comunitárias.
Assim, a interseção entre Serviço Social crítico, desenvolvimento comunitário e pedagogias libertadoras não constitui apenas um recurso metodológico, mas também uma alternativa contra-hegemônica para a construção de sociedades mais justas, democráticas e solidárias. Como ensina Paulo Freire (1987, p. 52), “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”. É precisamente nesse espírito que experiências como a aqui apresentada se inscrevem - como atos de esperança e resistência, que, mesmo em territórios esquecidos, fazem ecoar vozes e renovar horizontes.
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1
Folgosa do Douro é uma freguesia situada no Norte interior de Portugal continental. Pertence ao concelho de Armamar, distrito de Viseu.
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2
O projeto Vozes da Folgosa surgiu em 2014, e tem como objetivo recolher e partilhar narrativas e histórias de vida sobre as pessoas pertencentes à comunidade de Folgosa do Douro. Disponível em: www.vozesdafolgosa.pt. Acesso em: 6 ago. 2025.
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Neste artigo, nenhum dado de pesquisa foi gerado ou utilizado.
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