O conhecimento sobre o HPV entre adolescentes estudantes de graduação em enfermagem

Marislei Sanches Panobianco Aline Daiane Faim de Lima Iácara Santos Barbosa Oliveira Thais de Oliveira Gozzo Sobre os autores

Resumos

The objectives of this descriptive and quantitative study were to identify and assess the level of knowledge of undergraduate nursing students concerning factors related to the sexually transmitted disease, Human Papillomavirus (HPV). A questionnaire was administered to 58 undergraduate nursing students at the University of Sao Paulo at Ribeirão Preto, College of Nursing. Data were analyzed using descriptive statistics through the Epi Info software. Results revealed that 46.6% of the participants are sexually active; 96.3% reported safe sex with the use of condoms, though 29.6% of them do not use one regularly. Regarding the forms of transmission, 69% reported knowing them, while only 20.7% reported knowledge of HPV's signs and symptoms. Additionally, 54.3% of the adolescents reported not knowing what HPV can cause. Greater investment in health education directed to young individuals is required to promote health and prevent diseases, particularly those caused by the Human Papillomavirus.

Knowledge; HPV; Adolescents; Nursing


Estudio descriptivo y cuantitativo que identificó y evaluó el conocimiento de los estudiantes de pregrado en enfermería sobre los factores relacionados a la enfermedad de transmisión sexual: Virus del Papiloma Humano. Se administró un cuestionario a 58 estudiantes de la Escuela de Enfermería de Ribeirão Preto-Universidad de São Paulo. Los datos fueron analizados por medio de estadística descriptiva y el software Epi Info. Los resultados mostraron que 46,6% de los encuestados son sexualmente activos, 96,3% informaron practicar sexo seguro con uso del condón, sin embargo, 29,6% de ellos no lo utilizan con regularidad. El 69% relataron conocer las formas de transmisión y sólo el 20,7% afirmaron saber señales y síntomas del virus. El 54,3% refiere no saber lo que el virus puede causar. Debe haber mayor inversión en la educación de los jóvenes para promoción de la salud y prevención de enfermedades, especialmente las causadas por Virus del Papiloma Humano.

Conocimiento; HPV; Adolescentes; Enfermería


Este estudo objetivou identificar o nível de conhecimento entre adolescentes, estudantes de graduação em enfermagem, sobre os fatores relacionados à doença sexualmente transmissível - Papilomavírus Humano. Estudo descritivo, quantitativo, onde foi aplicado um questionário para 58 adolescentes, alunos da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Os dados da amostra foram analisados por meio da estatística descritiva, utilizando o programa Epi Info. Os resultados mostraram que 46,6% dos participantes têm vida sexual ativa, 96,3% relataram praticar sexo seguro usando preservativo, no entanto, 29,6% destes não fazem o uso regularmente. Entre as formas de transmissão, 69% relataram conhecê-las, e apenas 20,7% disseram saber alguns dos sinais e sintomas do vírus. Ainda, 54,3% dos adolescentes disseram não saber o que o vírus pode causar. Deve haver um maior investimento na educação dos jovens para promoção à sua saúde e prevenção de doenças, em particular, aquelas causadas pelo Papilomavírus Humano.

Conhecimento; HPV; Adolescentes; Enfermagem


ARTIGO ORIGINAL

O conhecimento sobre o HPV entre adolescentes estudantes de graduação em enfermagem

  • 1
    Conocimiento sobre HPV entre jóvenes estudiantes de pregrado en enfermería
  • Marislei Sanches PanobiancoI; Aline Daiane Faim de LimaII; Iácara Santos Barbosa OliveiraIII; Thais de Oliveira GozzoIV

    IDoutora em Enfermagem em Saúde Pública. Professora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e de Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, Brasil. E-mail: marislei@eerp.usp.br

    IIEnfermeira residente em Enfermagem em Oncologia pela Universidade Federal de São Paulo. São Paulo. Brasil. E-mail: alinedfaim@bol.com.br

    IIIMestre em Enfermagem em Saúde Pública. Enfermeira do Pronto-Atendimento Municipal em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, Brasil. E-mail: iacara.oliveira@yahoo.com.br

    IVDoutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e de Saúde Pública da EERP/USP. São Paulo. Brasil. E-mail: thaisog@eerp.usp.br

    Endereço para correspondência

    RESUMO

    Este estudo objetivou identificar o nível de conhecimento entre adolescentes, estudantes de graduação em enfermagem, sobre os fatores relacionados à doença sexualmente transmissível – Papilomavírus Humano. Estudo descritivo, quantitativo, onde foi aplicado um questionário para 58 adolescentes, alunos da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Os dados da amostra foram analisados por meio da estatística descritiva, utilizando o programa Epi Info. Os resultados mostraram que 46,6% dos participantes têm vida sexual ativa, 96,3% relataram praticar sexo seguro usando preservativo, no entanto, 29,6% destes não fazem o uso regularmente. Entre as formas de transmissão, 69% relataram conhecê-las, e apenas 20,7% disseram saber alguns dos sinais e sintomas do vírus. Ainda, 54,3% dos adolescentes disseram não saber o que o vírus pode causar. Deve haver um maior investimento na educação dos jovens para promoção à sua saúde e prevenção de doenças, em particular, aquelas causadas pelo Papilomavírus Humano.

    Descritores: Conhecimento. HPV. Adolescentes. Enfermagem.

    RESUMEN

    Estudio descriptivo y cuantitativo que identificó y evaluó el conocimiento de los estudiantes de pregrado en enfermería sobre los factores relacionados a la enfermedad de transmisión sexual: Virus del Papiloma Humano. Se administró un cuestionario a 58 estudiantes de la Escuela de Enfermería de Ribeirão Preto-Universidad de São Paulo. Los datos fueron analizados por medio de estadística descriptiva y el software Epi Info. Los resultados mostraron que 46,6% de los encuestados son sexualmente activos, 96,3% informaron practicar sexo seguro con uso del condón, sin embargo, 29,6% de ellos no lo utilizan con regularidad. El 69% relataron conocer las formas de transmisión y sólo el 20,7% afirmaron saber señales y síntomas del virus. El 54,3% refiere no saber lo que el virus puede causar. Debe haber mayor inversión en la educación de los jóvenes para promoción de la salud y prevención de enfermedades, especialmente las causadas por Virus del Papiloma Humano.

    Descriptores: Conocimiento. HPV. Adolescentes. Enfermería.

    INTRODUÇÃO

    O Papilomavírus humano (HPV) pertence à família dos Papovavírus ou Papovaviridae e é responsável por uma infecção de transmissão sexual, conhecida como condiloma acuminado, verruga genital ou também crista de galo. Há cerca de 120 tipos, sendo que 36 deles podem infectar o trato genital.1

    A transmissão do HPV acontece por contato direto com a pele infectada e dos HPVs genitais, por meio das relações sexuais, podendo causar lesões na vagina, no colo do útero, no pênis e ânus. Também existem estudos que demonstram a presença rara dos vírus na pele, na laringe (cordas vocais) e no esôfago.2

    Por seu papel na etiologia do câncer, e observando os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a incidência e a mortalidade dos tumores mais malignos, estima-se que o vírus possa estar ligado ao desenvolvimento de, no mínimo, 10 a 15% das neoplasias que acometem o homem.3

    O diagnóstico do HPV é feito pela identificação da presença de verrugas que, caso estejam presentes, devem ser retiradas. Nos casos em que as verrugas não são visíveis a olho nu, é feito o diagnóstico pelos exames de peniscopia no homem, e colposcopia na mulher; esses exames são considerados os melhores testes para o diagnóstico, já que a maioria das lesões (80%) é descoberta por meio deles. Em ambos os exames, é colhido material para análise biológica.4

    Já o diagnóstico subclínico das lesões precursoras do câncer do colo do útero, produzidas pelos Papilomavírus, é feito através do exame preventivo de Papanicolaou e é confirmado por meio de exames laboratoriais de diagnóstico molecular, como o teste de captura híbrida.2

    Esses dados deixam clara a importância da prevenção da contaminação pelo HPV que se dá, principalmente, pela interrupção da cadeia de transmissão, ou seja, pela prevenção da infecção propriamente dita e pela eliminação das lesões causadas pelo vírus. A informação da população sobre os fatores de risco associados ao comportamento sexual, por meio de atividades educativas, é importante para o controle da transmissão. O uso do preservativo nas relações sexuais é uma das principais formas de reduzir, porém não elimina o risco de contaminação pelo HPV.5

    As vacinas são também muito eficazes na prevenção da infecção por este vírus, principalmente quando administradas no início da vida sexual, pois os adolescentes e pré-adolescentes são sexualmente imaturos e adquirem boa resposta imune.6 Estas vacinas não alteram o curso da doença preexistente, porém protegem a mulher das cepas às quais não foi exposta. Como a infecção é adquirida após o início da atividade sexual, a vacina é recomendada para mulheres que ainda não iniciaram essa atividade, sendo a idade recomendada os 12 anos, podendo ter início a partir dos nove anos.7

    Identificou-se que o início da atividade sexual tem acontecido mais cedo nas últimas décadas, fato que sugere uma importante causa para o aumento da prevalência de HPV e as lesões causadas por sua infecção. Adolescentes que são sexualmente ativas apresentam as taxas mais altas de infecções incidentes e prevalentes por HPV, variando entre 50 e 80% de infecção, a partir de dois a três anos do início da atividade sexual.8

    Na adolescência, as relações acontecem com um maior número de parceiros, o que contribui para o aumento da ocorrência das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). Assim, sem a busca pela prevenção, a patologia pode ser disseminada de um adolescente para o outro, aumentando o número de pessoas contaminadas, sendo esta situação um problema de saúde pública.9

    Junto com a grandeza do problema da infecção por HPV, está o desconhecimento sobre o próprio vírus, os sinais e sintomas da infecção, sua relação com o câncer cervical e as formas de transmissão.

    A falta de informações adequadas a respeito do HPV pode influenciar na formação de concepções errôneas que podem interferir de forma negativa no comportamento daquele que é portador do vírus, e das pessoas que fazem parte do seu contexto social. Muitas vezes o indivíduo só vem saber do que se trata o HPV, quando já está contaminado e procura tratamento.10

    Pesquisa com adolescentes mostra que eles possuem conceitos errôneos sobre o HPV, como os de que o HPV é uma doença que pode ser adquirida por transfusão sanguínea, por compartilhamento de agulhas e seringas injetáveis ou por convivência com pacientes infectados.11 Outras concepções equivocadas também são desenvolvidas, como a crença de que o HPV só pode ser transmitido do homem para a mulher e o mito de que o HPV é uma doença de mulheres promíscuas.10 Informar e conscientizar os adolescentes sobre o HPV e os riscos associados, assim como sobre as formas de prevenção, possivelmente contribuirá para reduzir a contaminação por esse vírus.12

    Apesar de não haver evidências de que os preservativos são eficazes na prevenção do contágio pelo HPV,13 seu uso diminui a chance de contaminação pelo vírus, além de o sexo seguro, junto com a mudança do comportamento sexual ser importante estratégia para o controle da cadeia de transmissão de outras DSTs e do HIV.1

    O objetivo deste estudo foi identificar o nível de conhecimento entre adolescentes, estudantes de graduação em enfermagem, sobre os fatores relacionados às DST-HPVs, como sintomas, transmissão, prevenção e a fonte de aquisição desses conhecimentos, além de investigar entre esses adolescentes, se aqueles que mantêm relações sexuais praticam sexo seguro.

    Em pesquisa realizada com estudantes de enfermagem, os autores observaram a importância da orientação sobre sexualidade, pois esta contribuiu para a formação profissional e também pessoal de cada estudante, minimizando tabus e esclarecendo dúvidas, uma vez que mesmo profissionais da saúde podem estar sujeitos a se contaminar e a transmitir DSTs.14

    Nesse sentido, a enfermagem é uma classe profissional que se preocupa com as ações de educação em saúde, e que pode trabalhar com jovens em diferentes setores e segmentos sociais, com o objetivo de prevenir a exposição ao risco.15

    Além de todas essas considerações, estudar e trabalhar em uma escola de enfermagem, que é o caso das autoras deste estudo, estimula a conhecer a realidade dos alunos em relação ao conhecimento sobre o HPV e as formas de prevenção de que se utilizam. Os resultados desta investigação científica poderão suscitar novas formas de instrumentalizá-los para isso e orientá-los no atendimento à população de risco para adquirir o HPV.

    METODOLOGIA

    Neste estudo considerou-se adolescente aquele que tem idade entre 10 e 19 anos, conforme definição da Organização Mundial da Saúde.16

    Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, sendo o Protocolo n. 1224/2010.

    Foi realizado estudo descritivo com graduandos da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, e foram critérios de inclusão: ser aluno com idade até 19 anos, do sexo feminino, e estar devidamente matriculado nos cursos de Bacharelado ou Licenciatura em Enfermagem; estar presente no ato da entrega do questionário.

    Os dados foram coletados por meio de questionário elaborado pelas autoras, com base na literatura científica pertinente ao tema, e que, antes de ser aplicado, foi avaliado por três profissionais da área da saúde que trabalham com adolescentes e HPV. As perguntas eram objetivas, de múltipla escolha, referentes ao nível de conhecimento sobre o HPV e com dados pessoais do adolescente, não constando seu nome. Os temas abordados no questionário incluíram definições, modos de transmissão e de prevenção do contágio pelo vírus. A aplicação dos questionários, por uma das pesquisadoras, se deu em período que antecedia o início das aulas. Os questionários respondidos eram entregues dentro de envelopes e devolvidos da mesma forma, sendo que os envelopes eram devolvidos lacrados para evitar a identificação do aluno; com o questionário foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, com as informações relativas à pesquisa, que deveria ser assinado pelo participante.

    Os dados da amostra foram organizados em planilhas eletrônicas no Excel 2007 for Windows, transportados para o programa Epi Info e analisados por meio da estatística descritiva.

    RESULTADOS

    Participaram do estudo 58 adolescentes, todas do sexo feminino e, na distribuição etária das participantes, verificou-se que a maioria (20,7%) tinha 18 anos, e a maior concentração foi do curso de Bacharelado em Enfermagem (72,4%). Dentre as entrevistadas, 87,9% estavam cursando o primeiro ano de graduação. Verificou-se, ainda, que 98,3% das adolescentes eram solteiras, e a religião que predominou entre elas foi a católica (56,9%) (Tabela 1).

    Em relação à atividade sexual das adolescentes participantes, pode-se observar que, das 58 entrevistadas, 27 relataram vida sexual ativa; entre essas, 59,2% mantinham relações sexuais há mais de um ano, e 55,5% as praticavam regularmente. Quanto à prática do sexo seguro, 96,3% destas 27 entrevistadas relataram praticá-lo por meio do uso de preservativo, no entanto, 29,6% responderam fazer uso deste ocasionalmente (Tabela 2).

    Quanto ao conhecimento sobre o que significa a sigla HPV, 35 (60,3%) adolescentes relataram saber seu significado. Quando questionadas sobre as formas de transmissão do HPV, 69% relataram conhecê-las, e apenas 20,7% disseram saber alguns dos sinais e sintomas do HPV (Tabela 3).

    As 23 adolescentes que referiram não saber o significado da sigla HPV também não sabiam o que o vírus pode causar. Já entre as 35 adolescentes que informaram saber o significado do HPV, 42,9% revelaram ter obtido esse conhecimento através de informações fornecidas por médicos ginecologistas e em palestras sobre o tema, e 20% referiram ter aprendido na faculdade. Ainda, 54,3% dos adolescentes disseram não saber o que o HPV pode causar (Tabela 3).

    DISCUSSÃO

    Os resultados do presente estudo corroboram os de outros autores, quando estes apontam para o início mais tardio da atividade sexual, como uma consequência do projeto de vida diferenciado dos adolescentes que têm por meta o estudo universitário. Assim, provavelmente o objetivo do ingresso em uma universidade pública, a priorização dos estudos, a maior preocupação com o futuro e a aquisição de responsabilidade do universitário tenham favorecido tal situação.4,17

    É importante, no entanto, observar que o número de adolescentes que iniciam atividade sexual, ainda nesta fase de suas vidas, é superior ao de algumas décadas passadas. Além disso, há o estímulo que a mídia oferece para que este início seja precoce, e nem sempre é reforçada a importância do sexo seguro, o que favorece a contaminação pelo HPV, a ocorrência das mais variadas DSTs e, posteriormente, o câncer de colo de útero. O Ministério da Saúde afirma que a atividade sexual iniciada ainda na adolescência contribui para gestações precoces e ainda repetidas nesta fase do ciclo vital. Consequentemente, a contaminação pelo HPV e suas consequências também se encontram entre essas "contribuições".18

    As adolescentes entrevistadas para esta pesquisa mostraram que têm o conhecimento de que o uso do preservativo é sinônimo de sexo seguro, e a maior parte delas relata seu uso na atividade sexual. Entretanto, uma parcela significativa revela que não o faz frequentemente, levando a entender que muitas relações sexuais acontecem sem proteção. Adicionando essas informações às características da amostra, de adolescentes solteiras, com vida sexual e parceiros eventuais, pode-se considerar que estão expostos a um fator de risco importante para o contágio do HPV e de outras DSTs, além da possibilidade de ocorrência de gestações indesejadas.

    Nesse sentido, estudos demonstram que os adolescentes, em geral, sabem que o preservativo evita doenças e gravidez, entretanto não o utilizam, fato que demonstra a existência de uma enorme falha entre o nível de conhecimento e o uso efetivo da camisinha.19-20

    Pesquisa realizada em dez escolas do Rio de Janeiro, com 945 estudantes de 13 a 21 anos de idade, mostrou que, embora 94% deles reconheçam a proteção que o uso do preservativo confere, apenas 34% declaram usá-lo sempre, associando a este comportamento de risco o baixo grau de conhecimento sobre DSTs.21

    Os adolescentes apontaram desvantagens do uso do preservativo, apresentando-se entre as principais, o desconforto e a diminuição da sensibilidade. Também foi evidenciado que estes utilizam o preservativo, somente como método anticoncepcional, não atentando para a prevenção de DST.22

    Essas afirmativas levam a identificar o déficit que existe entre conhecimento e informação transmitida, o que acaba produzindo uma lacuna no processo educacional de prevenção de DST entre os adolescentes. Esses dados ficam aparentes quando os participantes foram questionados quanto ao conhecimento que possuíam sobre o HPV, sua transmissão, sinais e sintomas e suas consequências. Percebeu-se que eles reconhecem o HPV como uma DST, porém mais da metade não conhece seus sinais e sintomas e o que pode causar, como o câncer de colo de útero.

    Resultados de outros estudos semelhantes corroboram essas afirmações, como o que foi realizado com um grupo de adolescentes, indagados sobre as principais DSTs. Os autores constataram que a Aids foi muito citada, porém as outras DSTs e a problemática da contaminação pelo HPV foram pouco referidas pelos adolescentes.23

    Quanto ao câncer de colo de útero, estudos demonstraram que a zona de transformação da cérvix, na qual as células colunares podem sofrer metaplasia escamosa, está mais exposta durante a adolescência do que na vida adulta. Esta área é mais suscetível à infecção por agentes patogênicos de transmissão sexual, inclusive pelo HPV, sendo a área a partir da qual se origina a maior parte das lesões precursoras e carcinomas cervicais. A menor produção de muco cervical, que pode atuar como uma barreira protetora contra agentes infecciosos, associada à maior área de ectopia cervical em adolescentes, é fator biológico de risco para a infecção pelos agentes patogênicos, inclusive o HPV.24

    O que é de grande importância e deve ser levado em consideração é que as lesões precursoras do câncer do colo uterino, na população de adolescentes, envolvem fatores não apenas biológicos, mas também culturais e sociais. Em estudo realizado com adolescentes, os autores relataram que ainda se evidenciam muitos mitos, preconceitos e fantasias envolvendo a sexualidade. O baixo acesso ao conhecimento sobre as prevenções do câncer de colo uterino e sexualidade, no convívio familiar, deve ser compensado pela informação na sala de aula e em campanhas de educação em saúde.20

    No presente estudo, as adolescentes que referiram possuir conhecimento sobre o HPV revelaram que obtiveram esse conhecimento, na sua maioria, em consultas ao ginecologista e durante a graduação. Outro estudo, realizado também com universitários, mostrou que pequena porcentagem da amostra referiu ter recebido influência de familiares para a escolha do método contraceptivo. Isso reforça a afirmação de que ainda hoje existem barreiras para o diálogo entre pais e filhos, no que diz respeito às questões de sexualidade.4

    A desinformação das adolescentes vai ao encontro da omissão do papel da família na construção de uma sexualidade saudável. A falta de diálogo em família, até mesmo por falta de preparo dos pais para uma conversa aberta e de orientação para com os filhos, é uma situação que acaba influenciando as atitudes dos adolescentes que, muitas vezes, buscam nos amigos e em outras fontes informações que podem não ser fidedignas, baseadas em crenças e falta de conhecimento, que confundem e não ajudam no processo de prevenção e educação desses adolescentes em relação ao HPV e a outras DSTs.9

    Apesar de se observar entre estudantes universitários um início mais tardio da atividade sexual, o Ministério da Saúde brasileiro afirma que o número de adolescentes que iniciam atividade sexual, ainda nesta fase de suas vidas, é superior ao das últimas décadas, que a mídia estimula que este início seja precoce e que nem sempre é reforçada a importância do sexo seguro, o que favorece a contaminação pelo HPV e suas consequências.2

    Família, escola e governo têm papéis complementares e fundamentais na formação dos adolescentes, no sentido de educá-los para atitudes responsáveis no exercício de sua sexualidade, protegendo-os contra danos à sua saúde física e mental e, neste caso, em especial, evitando que se contaminem com o HPV, outras DSTs e que se vejam diante de gestações não planejadas.

    CONCLUSÃO

    As adolescentes participantes deste estudo estavam inseridas em um curso de graduação da área da saúde, portanto esperava-se que a maioria estivesse adequadamente informada quanto aos sinais e sintomas e sobre a relação do HPV com o câncer de colo de útero, e o estudo mostra que parte delas não sabe, ao menos, o significado da sigla HPV ou o que ele pode causar e não conhece as formas de transmissão do vírus. E ainda, menos da metade das entrevistadas conhece os sinais e sintomas provocados pelo HPV. Evidencia-se, dessa forma, que deve haver um maior investimento na educação dos jovens para promoção à sua saúde e prevenção de doenças, em particular, as DSTs, com destaque para o HPV.

    Este estudo implica em encontrar novas formas de instrumentalizar os adolescentes para que conheçam melhor as consequências da contaminação pelo HPV e de orientá-los no atendimento à população de risco para adquirir o vírus.

    Como limitações do estudo podem ser citadas duas questões que podem ter interferido nos resultados, sendo elas: 1) o estudo foi realizado com alunas da área da saúde que têm maior acesso a informações sobre a temática investigada; 2) as adolescentes entrevistadas ainda não haviam cursado disciplina que abordasse a temática de saúde da mulher, na qual essas questões são abordadas de forma detalhada.

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    1Conocimiento sobre HPV entre jóvenes estudiantes de pregrado en enfermería

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      02 Abr 2013
    • Data do Fascículo
      Mar 2013

    Histórico

    • Recebido
      17 Maio 2011
    • Aceito
      15 Jun 2012
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