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ATUAÇÃO DA ENFERMAGEM NO SERVIÇO DE SAÚDE DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA

RESUMO

Objetivos:

descrever as circunstâncias de criação do Hospital Central da Aeronáutica e discutir as alianças formadas entre a Força Aérea Brasileira e a Escola de Enfermagem Anna Nery, em favor do Serviço de Saúde da Aeronáutica.

Método:

estudo histórico-social, cujas fontes históricas são documentos localizados no Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica, no Museu Aeroespacial, no acervo do Hospital Central da Aeronáutica e no Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery. A análise considerou a unidade do contexto, isto é, considerou o “universo” que influenciou a produção do discurso contido na fonte, e os conceitos de poder e capital simbólico de Pierre Boudieu, foram aplicados na análise e discussão.

Resultados:

o Hospital Itapagipe, ao ser arrestado pelo governo brasileiro, em 1942, teve sua denominação mudada para Hospital Central da Aeronáutica. Nesse mesmo ano, o diretor do hospital, com a aquiescência do Ministro da Aeronáutica convidou a Escola de Enfermagem Anna Nery para organizar o Serviço de Enfermagem do hospital.

Conclusão:

as enfermeiras egressas da Escola de Enfermagem Anna Nery acumularam capital simbólico, uma vez que tiveram seu trabalho reconhecido no campo militar, em função da atuação no referido hospital, que funcionou como referência na indicação das mesmas para assumirem os demais serviços de saúde da nova força armada, além de dar destaque à qualidade da formação dessas enfermeiras, de modo que foram selecionadas para atuarem na guerra com patente de 2º Tenente (Oficiais), assistindo, exclusivamente, aos militares do Grupo de Aviação de Caça, grupo de elite da aviação.

DESCRITORES:
Enfermagem; História da Enfermagem; Serviços de saúde; Enfermagem Militar; Segunda Guerra Mundial

ABSTRACT

Objectives:

to describe the circumstances related to the creation of the Aeronautics Central Hospital and to discuss the alliances formalized between the Brazilian Air Force and the Anna Nery Nursing School, in favor of the Aeronautics Health Service.

Method:

a historical-social study, whose historical sources are documents located at the Aeronautics Historical-Cultural Institute, the Aerospace Museum, the Central Aeronautics Hospital collection and the Anna Nery Nursing School Documentation Center. The analysis considered unity of the context, that is, it considered the “universe” that influenced the production of the discourse contained in the source, and Pierre Boudieu's concepts of power and symbolic capital were applied in the analysis and discussion.

Results:

when taken over by the Brazilian government in 1942, the School Hospital had its name changed to Hospital Central da Aeronáutica (Aeronautics Central Hospital). That same year, the hospital director, with the Minister of Aeronautics acquiescence, invited the Anna Nery Nursing School to organize the hospital's Nursing Service.

Conclusion:

the nurses who graduated from the Anna Nery Nursing School accumulated symbolic capital, as they had their work recognized in the Military field due to their performance in the aforementioned hospital, which served as a reference in their appointment to assume the other health services of the new Armed Force, in addition to highlighting the quality of the training of these nurses, so that they were selected to fight in the war with the rank of 2nd Lieutenants (Officers), exclusively assisting, the military of the elite Fighter Aviation Group.

DESCRIPTORS:
Nursing; Nursing History; Health services; Military Nursing World War II

RESUMEN

Objetivos:

describir las circunstancias al momento de crearse el Hospital Central de la Aeronáutica y debatir las alianzas formalizadas entre la Fuerza Aérea de Brasil y la Escuela de Enfermería Anna Nery, en beneficio del Servicio de Salud de la Aeronáutica.

Método:

estudio histórico-social, cuyas fuentes históricas son documentos que se encuentran en el Instituto Histórico-Cultural de la Aeronáutica, en el Museo Aeroespacial, en la colección del Hospital Central de la Aeronáutica y en el Centro de Documentación de la Escuela de Enfermería Anna Nery. En el análisis se consideró la unidad del contexto, es decir, el “universo” que influenció la producción del discurso contenido en la fuente, además de aplicarse los conceptos de poder y capital simbólico de Pierre Boudieu en el análisis y la discusión.

Resultados:

cuando su control fue adoptado por el gobierno de Brasil en 1942, el Hospital Itapagipe pasó a llamarse Hospital Central de la Aeronáutica. Ese mismo año, el Director del hospital, con la anuencia del Ministro de Aeronáutica, invitó a la Escuela de Enfermería Anna Nery para organizar el Servicio de Enfermería del hospital.

Conclusión:

las enfermeras egresadas de la Escuela de Enfermería Anna Nery acumularon capital simbólico, ya que su trabajo fue reconocido en el ámbito militar debido a su desempeño en el antes citado hospital, que actuó como referencia para sugerir a dichas enfermeras para asumir el control de los demás servicios de salud de la nueva Fuerza Armada, además de destacar la calidad de su formación académica, a fin de elegirlas para trabajar en la guerra con el rango de Teniente Segundo (Oficiales), asistiendo exclusivamente a los militares del Grupo de Aviación de Caza, grupo de élite de la Fuerza Aérea.

DESCRIPTORES:
Enfermería; Historia de la Enfermería; Servicios de salud; Enfermería Militar; Segunda Guerra Mundial

INTRODUÇÃO

O estudo tem como objeto as relações profissionais entre a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN), em favor do Serviço de Saúde da Aeronáutica, na década de 1940. A FAB foi criada em 1941, no bojo da Segunda Guerra Mundial, e desde então houve a necessidade de criação de um serviço de saúde e de um hospital para atender aos militares e seus familiares desta nova Força Armada.

Nesse mister, em 1942, o governo brasileiro arrestou o Hospital Itapagipe, que havia sido inaugurado em 1934, com a denominação de Hospital Alemão. Esse pertencia a uma instituição filantrópica alemã e era localizado no Rio de Janeiro. Ao ser incorporado pela Força Aérea Brasileira, em 1942, sua denominação foi mudada para Hospital Central da Aeronáutica (HCA).

Para a composição do quadro efetivo, o hospital contou com os médicos militares e civis especializados em medicina de aviação. Assim, a composição médica do hospital inicialmente foi constituída por 34 médicos do Exército, 10 da Marinha, e 05 do meio civil, com a referida especialidade11. Hospital Central da Aeronáutica. Histórico [Internet]. Brasil: Força Aérea Brasileira; c2014-2022 [cited 2022 Jan 12]. Available from: https://www2.fab.mil.br/hca/index.php/historico
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-22. Pereira EGC. Entre saberes e cultura, a arte de curar na Força Aérea Brasileira [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Histórico Cultural da Aeronáutica; 2019 [cited 2020 Jul 18]. Available from: https://www2.fab.mil.br/incaer/images/eventgallery/instituto/Opusculos/Textos/opusculo_saude.pdf
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. No que se refere à constituição do quadro de enfermeiros, ainda em 1942, o Major Médico Edgar Tostes, então diretor do Hospital Central da Aeronáutica, com apoio do Ministro da Aeronáutica, solicitou à Laís Netto dos Reys, diretora da Escola de Enfermagem Anna Nery (1938-1950), a criação de um serviço de enfermagem no hospital recentemente arrestado. Além dessa solicitação, em 1943, o Diretor de Saúde da Aeronáutica, Coronel Ângelo Godinho, apoiado pela primeira-dama, Darcy Vargas, solicitou a ampliação da participação da escola, abarcando não somente o HCA, mas todos os serviços de saúde da FAB.

Vale ressaltar que, a Escola de Enfermagem Anna Nery era a escola oficial padrão, conforme Artigo 2° do Decreto N.º 20.109, de 15 de junho de 1931, que regulava o exercício da enfermagem no Brasil e fixava as condições para a equiparação das escolas de enfermagem. Além disso, desde 1937, pela Lei N.º 452, de 5 de julho, a escola passou a integrar a Universidade do Brasil, hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro como instituição complementar33. Santos FBO, Carregal FAS, Schreck RSC, Peres MAA. Padrão Anna Nery e perfis profissionais de enfermagem possíveis para enfermeiras e enfermeiros no Brasil. Hist Enferm Rev Eletron [Internet]. 2020 [cited 2023 Jan 10];11(1):1-12. Available from: https://publicacoes.abennacional.org.br/ojs/index.php/here/article/view/70
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-44. Peters AA, Peres MAA, Padilha MICS, D’Antonio P, Aperibense PGGS, Santos TCF, et al. Ethel Parsons’ biographical characteristics: leadership in American and Brazilian nursing. Rev Esc Enferm USP [Internet]. 2022 [cited 2023 Aug 02];56:e20220320. Available from: https://doi.org/10.1590/1980-220x-REEUSP-2022-0320en
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. E viria a ser incluída entre os estabelecimentos de Ensino Superior da Universidade pela Lei N.º 8.393 de 17 de dezembro de 194555. Kondorfer AP. A Fundação Rockefeller e a formação de quadros para a enfermagem (Brasil: 1917-1951). Nuevo Mundo-Mundos Nuevos [Internet]. 2019 [cited 2023 Aug 02];(19):1-15. Available from: https://doi.org/10.4000/nuevomundo.76226
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-66. Peters AA, Peres MAA, D’Antonio P. Influences of the Anglo-American Teaching System in Brazil: contributions by the Parsons Mission (1921-1925). Online J Issues Nurs [Internet]. 2020 [cited 2023 Jan 23];25(2):3-11. Available from: http://doi.org/10.3912/OJIN.Vol25No02Man06
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.

Essa posição no campo da educação em enfermagem conferia capital simbólico, ou seja, reputação e prestígio à Escola de Enfermagem Anna Nery, o qual era visibilizado por meio de sua liderança na formação de enfermeiras, concedendo-lhe o status de referência e excelência no campo da educação em enfermagem. Certamente, esse capital simbólico, constituído pelos capitais sociais e profissionais angariados pelas dirigentes da escola, operou como chancela para a inserção das docentes, enfermeiras e estudantes, em espaços inéditos e tradicionalmente consagrados aos homens.

Ademais, a Escola de Enfermagem Anna Nery, desde a sua implantação, em 1923, tinha atuação destacada em momentos de crises no país, tais como no movimento revolucionário de 1930, quando alunas e professoras prestaram assistência aos feridos, no Hospital São Francisco de Assis, no Rio de Janeiro; na Revolução Constitucionalista de 1932, através do atendimento aos feridos na “Frente de Operações de Guerra”; na Segunda Guerra Mundial, por meio do envio de seis egressas que atuaram junto ao 1º Grupo de Aviação de Caça (considerada a elite da aviação),propiciando às seis enfermeiras a atualização de seus capitais profissionais e sociais77. Cezario KML, Santos RM, Costa LMC. A formação em Enfermagem para mulheres brasileiras no pós-1930: uma revisão histórica. Temperamentvm [Internet]. 2022 [cited 2023 Jan 10];18:e18046od. Available from: https://doi.org/10.58807/tmptvm20224848
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. Assim, questiona-se como o capital simbólico adquirido pela Escola de Enfermagem Anna Nery, no cenário da educação em enfermagem, influenciou no estabelecimento de acordos profissionais com a Força Aérea Brasileira.

O capital simbólico refere-se ao prestígio, fama, boa reputação e até mesmo credenciais de um agente (indivíduo, grupo ou instituição). O volume e o peso desse capital determinam a distribuição dos agentes nos diferentes espaços sociais88. Bourdieu P. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense; 2015.. A ocupação de posições importantes confere poder simbólico, o qual é representado como um crédito social, ou seja, como o poder atribuído àqueles que obtiveram reconhecimento suficiente para ter condição de impor o reconhecimento88. Bourdieu P. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense; 2015..

O estudo se justifica pela necessidade de aprofundar a compreensão sobre a atuação de enfermeiras em espaços militares, especialmente, em contextos de instauração de regimes ditatoriais, agravados pela ocorrência de um grande conflito, qual seja, a Segunda Guerra Mundial99. Bittencourt RC, Santos TCF, Abreu MSA, Almeida Filho AJ, Peres MAA, Aperibense PGGS. Historical evolution of configuration of the nursing team in a military hospital. Rev Rene [Internet]. 2019 [cited 2023 Jan 12];20:e41557. Available from: https://doi.org/10.15253/2175-6783.20192041557
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-1010. Peres MAA, Aperibense PGGS, Bellaguarda MLR, Almeida DB, Santos FBO, Luchesi LB. Recognition to Anna Justina Ferreira Nery: Woman and personality in the history of nursing. Esc Anna Nery [Internet]. 2021 [cited 2022 Jul 13];25(2):e20200207. Available from: https://doi.org/10.1590/2177-9465-EAN-2020-0207
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. Isso porque o reconhecimento, o desenvolvimento e a ascensão da enfermagem estão vinculados aos momentos históricos de guerra, quando interesses sociopolíticos são evidenciados e discutidos. Além disso, trazem para o tempo presente uma história envolta por fatores positivos de inserção das enfermeiras neste espaço social relacionados à prática e visibilidade da enfermagem em situações de crise1111. Padilha MI. From Florence Nightingale to the COVID-19 pandemic: The legacy we want. Texto Contexto Enferm [Internet]. 2020 [cited 2023 Jan 12]:29:e20200327. Available from: https://doi.org/10.1590/1980-265X-TCE-2020-0327
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-1212. Thorne S. Nursing now or never. Nurs Inq [Internet]. 2019 [cited 2023 Jan 12]:26(4):e12326. Available from: https://doi.org/10.1111/nin.12326
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.

Para direcionar o estudo, foram elaborados os seguintes objetivos: descrever as circunstâncias de criação do Hospital Central da Aeronáutica, e discutir as alianças formadas entre a Força Aérea Brasileira e a Escola de Enfermagem Anna Nery, em favor do Serviço de Saúde da Aeronáutica.

MÉTODO

Trata-se de estudo histórico-social, do tipo documental, por se configurar como uma pesquisa que, ao se deparar com fato histórico, prioriza como foco de interesse, as relações humanas em um dado contexto1313. Barros JD. Fontes Históricas: Introdução aos seus usos historiográficos. Petrópolis: Vozes; 2019..O recorte temporal compreende os anos de 1941 a 1943. O ano de 1941 está relacionado à criação da Força Aérea Brasileira. O ano de 1943 refere-se à solicitação do Coronel Godinho à Laís Netto dos Reys, para que a escola assumisse os serviços de enfermagem em todas as unidades de saúde da FAB existentes à época. Cabe dizer que tais unidades estavam localizadas no Rio de Janeiro, então capital federal. Eram elas: Centro Médico de Aeronáutica do Galeão, Centro Médico de Aeronáutica dos Afonsos e o Hospital Central da Aeronáutica.

Os achados do estudo são procedentes de fontes históricas diretas representadas por documentos escritos, os quais foram coletados no acervo do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER), no Museu Aerospacial (MUSAL), no acervo do Hospital Central da Aeronáutica (HCA) e no Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery (CDOC). Nesses acervos foram selecionados editais, portarias, leis, matérias jornalísticas e uma fotografia, conforme constam dos Quadros 1 e 2. Os critérios de inclusão foram documentos pertencentes ao recorte temporal e ao tema em estudo. A localização do universo documental e a constituição do corpus do estudo abrangeram o período de março a agosto de 2022.

Quadro 1 -
Documentos encontrados nos acervos da Força Aérea Brasileira. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022.

Quadro 2 -
Documentos originais encontrados no Centro de Documentação da Escola Anna Nery. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022.

Na constituição do corpus documental adequado, foi levado em consideração a pertinência, suficiência, exaustividade, representatividade, homogeneidade e organização dos documentos conforme a natureza. A confiabilidade dos resultados se deu por meio das denominadas críticas externa e interna, as quais analisam a procedência do documento e qualidade das informações nelas contidas1313. Barros JD. Fontes Históricas: Introdução aos seus usos historiográficos. Petrópolis: Vozes; 2019..

Para o cumprimento da fase de ordenação de dados, cada documento foi separado de acordo com a temática ao qual estava vinculado, sendo estas:o “contexto político e social”, “Hospital Central da Aeronáutica”, “Escola de Enfermagem Anna Nery”, sendo, posteriormente, organizados cronologicamente, para análise dos mesmos.

A análise dos dados, de acordo com o método histórico e com ênfase em estudos sobre a história da enfermagem, levou em consideração a unidade do contexto. Buscou-se no processo de análise apreender o discurso contido nos textos das fontes utilizadas, ou seja, levou-se em conta o “universo” a sua volta, o qual é composto por estruturas sociais e simbólicas que influenciaram na produção do discurso contido na fonte. Nessa análise, os conceitos de poder e capital simbólico do sociólogo francês Pierre Bourdieu, foram empregados na discussão das estratégias de aproximação e alianças estabelecidas entre a FAB e a EEAN. Tal análise viabilizou a identificação da categoria “A participação da Escola Anna Nery no Serviço de Saúde da Força Aérea Brasileira”, sendo esta, a categoria de análise eleita para o estudo.

RESULTADOS

O Ministério da Aeronáutica, criado em 20 de janeiro de 1941, através do Decreto-Lei N.º 2961(1), contou com a colaboração da Aviação Militar (aviadores do Exército) e da Aviação Naval (aviadores da Marinha). O primeiro ministro nomeado foi Joaquim Pedro Salgado Filho, formado em Direito, ex-ministro do Trabalho (1932/1935), ex-deputado federal (1937) e ex-ministro do Superior Tribunal Militar (1938 a 1941). Antes da criação do Ministério da Aeronáutica, as instituições pertencentes à aviação nacional tinham a seguinte subordinação: aviadores do Exército ao Ministério da Guerra; aviadores navais ao Ministério da Marinha; e aviadores civis ao Ministério da Viação e Obras Públicas1414. Lavenére-Wanderley NF. História da Força Aérea Brasileira. 2nd ed. Rio de Janeiro: Gráfica Brasileira; 1975..

Sendo assim, todo pessoal militar da aviação do Exército e aviação Naval, inclusive os militares da reserva, passaram a constituir uma corporação única, então denominada “Forças Aéreas Nacionais” e subordinada ao Ministério da Aeronáutica. Quatro meses após, em 22 de maio de 1941, por meio do Decreto-Lei N.º 3.302(2), essa passou a ser chamada “Força Aérea Brasileira”1414. Lavenére-Wanderley NF. História da Força Aérea Brasileira. 2nd ed. Rio de Janeiro: Gráfica Brasileira; 1975..

Vale ressaltar que a criação da FAB se deu em um período ditatorial no Brasil, qual seja a Ditadura do Estado Novo (1937-1945) e no bojo da Segunda Guerra Mundial, tendo o Brasil declarado guerra, em 1942, ao lado dos países aliados, sendo Estados Unidos, Inglaterra, União Soviética e as resistências civis-militares de países como a França. O inimigo eram as chamadas “Potências do Eixo Roma-Berlim-Tóquio”.

Com a criação da FAB, no que diz respeito à saúde, no dia 02 de dezembro de 1941, através do Decreto-Lei N.º 3.872 (3), foi criado o Quadro de Saúde da Aeronáutica (QSAER). Esse quadro, destinado aos oficiais médicos necessários aos serviços de saúde, previu como efetivo inicial: 02- Coronel Médico de Aeronáutica, 06- Tenente-coronel Médico de Aeronáutica, 12- Major Médico de Aeronáutica, 30- Capitão Médico de Aeronáutica, 30- 1º Tenente Médico de Aeronáutica e 2º Tenente Médico de Aeronáutica com número variável. No que se refere ao efetivo de segundo tenente, o Decreto-Lei N.º 3.872/1941 (4) definiu que este seria estabelecido anualmente, pela Lei de Fixação da Força Aérea Brasileira, a depender do número de vagas de primeiro tenente.

A chefia do Serviço de Saúde da Aeronáutica coube ao, então, Tenente Coronel Ângelo Godinho, médico do Exército, especialista em Medicina de Aviação, que com a criação do Ministério, foi transferido para a FAB22. Pereira EGC. Entre saberes e cultura, a arte de curar na Força Aérea Brasileira [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Histórico Cultural da Aeronáutica; 2019 [cited 2020 Jul 18]. Available from: https://www2.fab.mil.br/incaer/images/eventgallery/instituto/Opusculos/Textos/opusculo_saude.pdf
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. A questão da saúde dentro da FAB mostra a necessidade de assistência em todo território nacional, visto que esta Força Armada estava responsável pela segurança de todo o espaço aéreo e, portanto, seus militares estavam distribuídos em Organizações Militares (OM) em todas as regiões do país. Para tanto, fazia-se imperiosa a existência de unidades de saúde, dos mais diversos níveis de atenção, para atender às demandas de todo o efetivo.

Além de abarcar unidades de saúde das outras Forças Armadas, quais sejam Exército e Marinha, a FAB necessitava de um hospital para realizar atendimentos aos militares e familiares. Sendo assim, foi criada uma comissão integrada pelos Brigadeiros do Ar Heitor Varady e Ajalmar Vieira Mascarenhas e o Tenente Coronel Médico Ângelo Godinho dos Santos. Essa comissão encaminhou ao ministro Salgado Filho a requisição do Hospital Itapagipe11. Hospital Central da Aeronáutica. Histórico [Internet]. Brasil: Força Aérea Brasileira; c2014-2022 [cited 2022 Jan 12]. Available from: https://www2.fab.mil.br/hca/index.php/historico
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. Esta requisição, publicada no Boletim do Ministério da Aeronáutica, em 31 de agosto de 1942 (Portaria N.º 100, de 27 de agosto de 1942 (5)), ocorreu dois dias após a promoção de Ângelo Godinho ao posto de Coronel22. Pereira EGC. Entre saberes e cultura, a arte de curar na Força Aérea Brasileira [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Histórico Cultural da Aeronáutica; 2019 [cited 2020 Jul 18]. Available from: https://www2.fab.mil.br/incaer/images/eventgallery/instituto/Opusculos/Textos/opusculo_saude.pdf
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. Além da Chefia do Serviço de Saúde, o coronel Godinho acumularia a chefia do referido hospital.

Tais fatos foram notícia no Jornal do Brasil de 28 de agosto de 1942, em sua edição 202, com a seguinte publicação, intitulada: “O Hospital Alemão foi requisitado para a FAB”. O texto dizia que, de acordo com o Decreto-Lei N.º 4008 de 12 de janeiro de 1942, o Ministro da Aeronáutica resolveu requisitar o Hospital Itapagipe, que pertencia à Associação Hospital Itapagipe Sociedade Beneficente. O hospital seria avaliado por uma comissão de militares e caberia a então direção do hospital, facilitar o alcance das ações de tais autoridades, sob pena da lei ou de outras medidas que se tornassem necessárias à sua execução.

Sobre a mudança da denominação de Hospital Alemão para Hospital Itapagibe, chama à atenção a justificativa da mudança com base no entendimento da necessidade de se evidenciar a nacionalidade alemã, oito anos após a sua inauguração e, seis meses antes de o Brasil declarar guerra à Alemanha nazista.

No que se refere à infraestrutura, o Hospital Central da Aeronáutica era composto de um bloco central com cinco andares. O 5º andar foi construído para comportar o centro cirúrgico, com janelas voltadas para o Sul, onde recebiam luz solar direta. No 4º andar funcionava a maternidade. No andar térreo era a policlínica, onde os pacientes eram encaminhados aos ambulatórios ou para internação. O perfeito aparelhamento do antigo Hospital Alemão, aliado à sua administração fizeram deste hospital um marco na história dos hospitais no Brasil. Menos de um mês depois de ser arrestado pelo governo brasileiro e passar a pertencer à FAB, o HCA recebeu seu primeiro paciente cirúrgico, o 1º Tenente Aviador Oscar de Souza Spínola Júnior, do 1º Grupo de Caça, que fora submetido a uma apendicectomia11. Hospital Central da Aeronáutica. Histórico [Internet]. Brasil: Força Aérea Brasileira; c2014-2022 [cited 2022 Jan 12]. Available from: https://www2.fab.mil.br/hca/index.php/historico
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Em novembro de 1942, o coronel Godinho passa a direção do HCA para outro médico pertencente à nova Força Armada. Essa mudança foi publicada no Jornal do Brasil, em 27 de novembro de 1942: “O Coronel médico Godinho dos Santos, chefe do Serviço de Saúde, passou ontem, por motivo de estar exercendo essas novas funções, a direção do Hospital Central da Aeronáutica ao Major médico Edgar Tostes”.

Em relação à composição do quadro de saúde, no período do recorte temporal do estudo, os documentos destacam o corpo médico, contudo sobre a inserção de outros profissionais da saúde no referido hospital, fazia-se necessária a presença de outras especialidades, como farmacêuticos e enfermeiras. Era imperioso compor os setores com um corpo clínico-assistencial em número e qualidade condizentes com a realidade daquela organização hospitalar, considerando que a mesma contava com 100 leitos de internação11. Hospital Central da Aeronáutica. Histórico [Internet]. Brasil: Força Aérea Brasileira; c2014-2022 [cited 2022 Jan 12]. Available from: https://www2.fab.mil.br/hca/index.php/historico
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Ao mesmo tempo em que havia o movimento de criação do Ministério da Aeronáutica e, consequentemente, a criação da FAB, no campo da enfermagem, a Escola de Enfermagem Anna Nery, por ser considerada Escola Oficial Padrão, ocupava posição privilegiada perante o governo e a sociedade da época, portanto, angariando mais capital simbólico.

Apesar de a Segunda Guerra Mundial estar em curso desde 1939, o Brasil só declara guerra aos países do Eixo em setembro de 1942, entrando efetivamente na guerra em 30 de junho de 1944, enviando cerca de 25 mil homens da Força Expedicionária Brasileira (FEB), 42 pilotos e 400 homens de apoio da FAB. Nesse contexto, a Escola de Enfermagem Anna Nery, já inserida no sistema universitário desde 1937, oferece ajuda ao governo brasileiro, por meio de ofício enviado por Laís Netto dos Reys, em 19 de janeiro de 1942, ao reitor da Universidade do Brasil, solicitando que este comunicasse ao Ministro da Educação e Saúde que a Escola estava à disposição do país. No documento, Laís destaca que as instituições, como a Escola de Enfermagem Anna Nery, devem estar na primeira linha a serviço da pátria. Afirma que a Escola é solidária ao governo e que estaria à disposição para o que fosse preciso. Acrescenta que era uma honra servir à pátria e que, em momentos como o presente, a mulher enfermeira deveria estar em posição de vanguarda, e que o dever da enfermagem é um dever sagrado, principalmente, o da enfermeira da Escola Oficial Padrão (6).

Em continuidade, dois meses depois, precisamente em 12 de março, em conjunto com a Cruz Vermelha Brasileira, sob as orientações do Corpo de Saúde do Exército, a Escola de Enfermagem Anna Nery promoveu um curso de especialização em socorro de guerra às enfermeiras e alunas. A argumentação sobre a realização do curso está contida no texto do Ofício N.º 186 de 1942, enviado ao reitor da Universidade do Brasil, o qual destaca mais uma vez o ideal de Serviço à Pátria como missão da enfermeira (7).

Em julho de 1942, a Escola recebeu o convite para participar das demonstrações da organização do Serviço de Saúde em Campanha do Exército. As evidências dessa importante participação podem ser verificadas no ofício de agradecimento enviado por Laís Netto dos Reys ao General Souza Ferreira, diretor de Saúde da Guerra, no qual cumprimenta o mesmo pela brilhante demonstração de organização por parte do Serviço de Saúde em Campanha, que fôra apreciada pelas alunas e enfermeiras da Escola, e agradece a gentileza de ter sido oferecido um almoço às mesmas.

Nessa guerra destaca-se a presença pioneira de oficiais enfermeiras. Sendo assim, Laís Netto dos Reys foi incumbida pelo Ministro da Aeronáutica de selecionar seis enfermeiras para atuarem nesse conflito, exclusivamente, junto ao 1º Grupo de Aviação de Caça, com a patente de segundo tenente. Ao todo foram sessenta e sete enfermeiras compondo o corpo da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e da FAB, sendo sessenta e uma enfermeiras hospitalares e seis especializadas em transporte aéreo1515. Bernardes MMR, Lopes GT. Enfermeiras do Exército Brasileiro no transporte aéreo de feridos: um desafio enfrentado na 2a. Guerra Mundial. Rev Bras Enferm [Internet]. 2007 [cited 2020 Jul 22];60(16):68-72. Available from: https://doi.org/10.1590/S0034-71672007000100012
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. Seis enfermeiras pertenciam à Escola de Enfermagem Anna Nery, sendo duas delas instrutoras de alunas no HCA.

No tocante ao recém-inaugurado Hospital Central da Aeronáutica, em 16 de novembro de 1942, o major médico Edgar Tostes foi nomeado diretor deste hospital. Em 11 de dezembro do mesmo ano, com a anuência do Ministro da Aeronáutica, foi encaminhado ofício à direção da Escola de Enfermagem Anna Nery para organização do Serviço de Enfermagem do Hospital da Aeronáutica. Quatro dias depois, em 15 de dezembro, Laís Neto dos Reys responde ao Chefe do Serviço de Saúde da Aeronáutica, Cel. Méd. Ângelo Godinho dos Santos, e ao Major Médico Edgar Tostes, por meio do Ofício de Nº 918, afirmando ser uma satisfação a colaboração da Escola na organização do Serviço da Enfermagem do Hospital Central da Aeronáutica, e anuncia a indicação de Aurora Gypsophila de Affonso Costa como responsável pelo mesmo. Laís destaca que Aurora é uma das melhores instrutoras chefes do corpo técnico da escola (8).

Logo após a criação do Ministério, sentiu-se a necessidade de intensificar a formação de pessoal, visto que a guerra já havia iniciado, e o Brasil estava prestes a participar dela. Um programa foi criado para acelerar a formação de aeronavegantes e especialistas. “Um dos colunistas que escreviam no jornal “Correio da Manhã”, Pierre Henry Closterman (assinando como P. Henry C.), defendia a ideia da formação de uma cultura aérea brasileira, ou seja, muito mais do que apenas desenvolver a indústria aérea (...), era crucial que se criasse uma cultura da aviação nacional, cultivando em todos os brasileiros um sentimento de zelo e identificação com o assunto, visto que na América Latina, vários países possuíam aeroclubes, e instituições privadas ou não, angariavam recursos para a aviação”1616. Ferreira RFS. Uma História da Campanha Nacional da Aviação (1940 - 1949): O Brasil em busca do seu ‘Brevêt’. Cantareira [Internet]. 2012 [cited 2020 Jul 22];13(17):75-86. Available from: https://www.historia.uff.br/cantareira/v3/wp-content/uploads/2013/05/e17a5.pdf
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A partir do cenário descrito, inicia-se um movimento para a integração aérea no Brasil. A ideia surge segundo uma conversa entre Assis Chateaubriand - jornalista renomado que escrevia para o “Correio da Manhã” e que fundou “O Jornal”- e Salgado Filho, então Ministro da Aeronáutica. “Acreditava-se que a aviação nacional poderia contar com o apoio de patrocinadores para auxiliar na solução de alguns problemas como a falta de aviação civil abrangente, treinamento de pilotos e monitoramento efetivo da costa brasileira. Surge então, a campanha que teve denominações como: ‘Campanha Nacional para Doar Aviões’, ‘Campanha Nacional para dar Asas à Mocidade do Brasil’ e ‘Campanha Nacional da Aviação Civil’, dentre outras, até chegar ao nome atualmente conhecido de ‘Campanha Nacional da Aviação’, ou CNA. O primeiro avião da CNA foi doado ao aeroclube de Pesqueira-PE, em primeiro de novembro de 1940”1616. Ferreira RFS. Uma História da Campanha Nacional da Aviação (1940 - 1949): O Brasil em busca do seu ‘Brevêt’. Cantareira [Internet]. 2012 [cited 2020 Jul 22];13(17):75-86. Available from: https://www.historia.uff.br/cantareira/v3/wp-content/uploads/2013/05/e17a5.pdf
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:78.

A participação da Escola de Enfermagem Anna Nery na Campanha se deu sob a forma de duas doações de importância para a aquisição de um avião, conforme descrito nos ofícios enviados por Laís Netto dos Reys, ao responsável pela mesma, nos quais Laís cita o valor doado pela Escola para a aquisição do avião ambulância que receberia o nome de “Ana Néri”, e faz votos de sucesso à Campanha de Aviação Civil (9).

O avião foi comprado com recursos também do Rotary Club do Brasil, sendo batizado em 26 de outubro de 1943, como o primeiro avião-ambulância da FAB. O avião recebeu o nome de Anna Nery e Laís Netto dos Reys foi madrinha1919. Almeida Filho AJ. A Escola Anna Nery (EAN) no “front” do campo da educação em enfermagem e o (re)alinhamento de posições de poder (1931 - 1949). [Tese]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2004. Available from: http://objdi.ufrj.br/51/teses/EEAN_D_AntonioJoseDeAlmeidaFilho.pdf
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. A Figura 1 evidencia essa afirmação.

Figura 1 -
Cerimônia de batismo do avião-ambulância Anna Nery.

Na foto, ao centro, encontra-se Laís Netto dos Reys, ladeada pelas alunas, professoras e enfermeiras da Escola de Enfermagem Anna Nery, com o avião ao fundo. A posição de Laís na foto mostra seu destaque, não só em função de seu cargo na escola, mas por ter sido escolhida como madrinha, para o batismo do referido avião.

Os vínculos entre a Escola de Enfermagem Anna Nery e o Ministério da Aeronáutica foram sendo construídos desde a participação da EEAN na Campanha de aviação, firmando-se com solicitação da organização do serviço de enfermagem no Hospital Central da Aeronáutica, feita por Edgar Tostes e por Salgado Filho para Laís Netto dos Reys, em novembro de 1942, consolidando-se com a solicitação do Diretor de Saúde da Aeronáutica para a EEAN atuar em todas as três unidades do Serviço de Saúde da Aeronáutica em 1943. Cabe destacar a intercessão de Darcy Vargas (1ª dama) junto à diretora da escola, para as negociações desta atuação.

De acordo com os termos então solicitados pela Escola, o Ministro da Aeronáutica e o da Educação e Saúde, firmam o contrato e, em 15 de janeiro de 1944, Laís encaminha um ofício ao diretor do Hospital Miguel Couto comunicando que a Escola deixaria o referido hospital, em virtude da necessidade de servir à Força Aérea Brasileira, e que a saída das alunas e instrutoras ocorreria de forma gradual, para que não houvesse nenhum prejuízo aos serviços do hospital, e agradecendo a todo o corpo médico e direção do mesmo, pela cooperação e apoio dos mesmos. No ofício, Laís cita a transferência das enfermeiras Judith Areas e Regina Bordalo para o HCA a partir de 17 de fevereiro de 1944 (10).

DISCUSSÃO

A participação da Escola de Enfermagem Anna Nery no campo militar é evidenciada neste estudo através das relações de proximidade estabelecidas entre a FAB e a EEAN, uma vez que o diretor de saúde da aeronáutica solicita que a escola assuma o serviço de enfermagem nas unidades de saúde da FAB. Tal convite à Escola demonstra o reconhecimento da FAB acerca da posição de destaque da EEAN no campo da enfermagem nacional.

Deste modo, as coalizões são estabelecidas baseando-se em fatores associados à participação da escola em momentos de crise no país, como, por exemplo, na Segunda Guerra Mundial, contribuindo positivamente com o maior conflito da história da sociedade. Portanto, as qualidades femininas eram destacadas retratando a presença da figura da mulher na condição de enfermeira nestes espaços militarizados1717. Bernardes MMR, Kaminitz SHC, Maciel LR, Almeida ABS, Oliveira AB, Porto FR. Uma enfermeira da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial: Fundo Virgínia Portocarrero da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. Hist Ciênc Saúde - Manguinhos [Internet]. 2022 [cited 2022 Jul 24];29(2):531-50. Available from: https://doi.org/10.1590/S0104-59702022000200013
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Nesse sentido, há a oportunidade de discutir a ocupação da enfermagem nestes espaços sociais em momentos de crise ou caos e, nesta perspectiva, evidenciar o papel da mulher e enfermeira na sociedade, posto que este geralmente seja pormenorizado ou simbolicamente silenciado em certos contextos políticos e sociais.

Nessa lógica, a EEAN ratifica seu capital simbólico ao oferecer auxílio ao governo, através da promoção do curso de especialização em socorro de guerra às enfermeiras e alunas com argumentos de serviço à pátria, enfatizando a imagem pública da enfermeira associada a causas patrióticas e demonstrando apoio ao governo. Em contrapartida, a Escola é reconhecida ao receber o convite, em julho de 1942, para participar das demonstrações da organização do Serviço de Saúde em Campanha do Exército.

Nessa perspectiva, a Escola fez doações para a “Campanha Nacional da Aviação”, participando como umas das patrocinadoras para auxiliar na solução de falta de aviação civil ampliada, reforçando os laços políticos e sociais que culminaram na ocupação deste espaço social pela EEAN. Destaca-se ainda, a compra do primeiro avião-ambulância, do qual Laís recebera o título de madrinha, e cujo nome de batismo do mesmo, deu-se em homenagem à enfermeira voluntária e heroína de guerra, que também dava nome à principal Escola de Enfermagem do país.

Na perspectiva de Bourdieu1818. Grenfell M. Pierre Bourdieu: conceitos fundamentais. Petrópolis: Vozes; 2018., um ato institucional, como o batismo do avião, é validado em função de a pessoa que o realizou ser habilitada para tal, e ser possuidora de um capital simbólico, reconhecido pelos agentes sociais presentes ao ato em questão, que torna o mesmo legítimo. Sendo assim, esse ato institucional conferiu poder simbólico à enfermagem brasileira em uma época de poderes militares e políticos rígidos que negavam a presença feminina.

A figura de Laís Netto dos Reys foi de suma importância, pois era detentora de capital simbólico no campo da educação em enfermagem, sendo reconhecida como uma mulher que tinha um ótimo relacionamento com Vargas e a Igreja Católica. Transmitia todo o capital social e cultural que havia acumulado, o que a tornava indispensável no campo da enfermagem, como um elo entre a Igreja e o Estado. Seu papel foi fundamental, tanto como diretora da EEAN quanto como presidente do Conselho de Enfermagem; cargos estratégicos que possibilitavam várias ações de interesse da Igreja e do Estado1919. Almeida Filho AJ. A Escola Anna Nery (EAN) no “front” do campo da educação em enfermagem e o (re)alinhamento de posições de poder (1931 - 1949). [Tese]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2004. Available from: http://objdi.ufrj.br/51/teses/EEAN_D_AntonioJoseDeAlmeidaFilho.pdf
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Pode-se inferir que Laís Netto dos Reys contribuiu para a capitalização de lucros simbólicos, ao estabelecer estas relações profissionais e facilitar a inserção das enfermeiras no campo da FAB, assegurando-lhes poder e prestígio no espaço militar. Isto pode ser evidenciado pelo nome de Anna Nery no primeiro avião ambulância da FAB e, deste modo, ter sido a diretora da Escola escolhida para ser madrinha de batismo da aeronave naquela ocasião. O fato de a cerimônia ter sido publicada em um jornal de grande circulação à época, ocupando um espaço na coluna sobre o Ministério da Viação, evidencia os vínculos estabelecidos.

Essa participação demonstra o engajamento da escola e a proximidade com o recém-criado ministério como resultado do reconhecimento do protagonismo da Escola de Enfermagem Anna Nery no campo da educação em enfermagem, o qual é produto do capital simbólico angariado pela escola e suas dirigentes no e pelo campo. Ademais, essas estratégias para se fazer ver e se fazer reconhecer, principalmente, pela mobilização em adquirir um avião para ser batizado com o nome da patrona, heroína de guerra que empresta seu nome à escola, conferem visibilidade à instituição e à enfermagem para a sociedade da época. Essa visibilidade certamente contribuiu para que a escola fosse convidada a enviar enfermeiras para a FEB para atuarem junto aos militares da FAB.

O capital profissional das egressas durante a implantação do serviço de enfermagem no HCA foi ampliado, à medida que deu visibilidade à profissão tanto no meio civil, quanto militar, evidenciado pela presença de uma comitiva de professoras e alunas da EEAN, liderada por Laís, na solenidade de batismo do avião ambulância “Anna Nery”, da Força Aérea Brasileira, no dia 26 de novembro de 1943, no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e em dezembro do mesmo ano, o chefe do Serviço de Saúde da Aeronáutica, Coronel Ângelo Godinho, envia um ofício manifestando o desejo de contar com a EEAN naquele serviço militar. Sendo assim, Laís foi recebida no gabinete do chefe de Serviço de Saúde da Aeronáutica, e nesta ocasião, definiram os aspectos formais para um acordo envolvendo as duas instituições1919. Almeida Filho AJ. A Escola Anna Nery (EAN) no “front” do campo da educação em enfermagem e o (re)alinhamento de posições de poder (1931 - 1949). [Tese]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2004. Available from: http://objdi.ufrj.br/51/teses/EEAN_D_AntonioJoseDeAlmeidaFilho.pdf
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;22. Pereira EGC. Entre saberes e cultura, a arte de curar na Força Aérea Brasileira [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Histórico Cultural da Aeronáutica; 2019 [cited 2020 Jul 18]. Available from: https://www2.fab.mil.br/incaer/images/eventgallery/instituto/Opusculos/Textos/opusculo_saude.pdf
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Neste tocante, as enfermeiras egressas da EEAN acumularam capital e poder simbólico, uma vez que tiveram seu trabalho reconhecido no campo militar, em função da atuação no Hospital Central da Aeronáutica, que funcionou como referência para a indicação das mesmas a assumirem os demais serviços de saúde da nova força armada, além de dar destaque à qualidade da formação dessas enfermeiras, de modo que foram selecionadas a atuarem na guerra com patente de 2º Tenente (Oficiais), assistindo, exclusivamente, aos militares do Grupo de Aviação de Caça.

É fato que os ganhos simbólicos se davam por ambos os lados, considerando-se que a EEAN buscava a difusão do seu nome em todas as esferas do campo assistencial, inclusive no campo militar, onde a mulher enfermeira ganha notoriedade num espaço exclusivamente masculino. Ao mesmo tempo, a FAB ganhava em qualidade de assistência aos seus militares e familiares, uma vez que os cuidados seriam ministrados por enfermeiras formadas pela escola de referência no país à época.

CONCLUSÃO

A aproximação da Escola de Enfermagem Anna Nery junto ao governo brasileiro, não só pela proximidade de sua diretora com o presidente e sua família, mas pelo título que a referenciava no campo da enfermagem nacional, enquanto Escola Oficial Padrão, favoreceu a união da mesma com a Força Aérea Brasileira, na figura de seu maior representante, qual seja o Ministro Salgado Filho, tendo como maior representatividade deste feito, a participação da Escola na Campanha Nacional de Aviação, com a colaboração para aquisição de um avião, que recebeu o nome da mesma figura emblemática de referência da enfermagem no espaço militar, e que também dava nome à Escola.

Tal aproximação também garantiu à escola e seus agentes o acúmulo de capital simbólico, ao posicionar suas alunas, professoras e enfermeiras no espaço militar, através de sua atuação no campo da saúde, especificamente, no Hospital Central da Aeronáutica, a convite do seu diretor e, do chefe do serviço de saúde da nova força armada, que funcionou como credencial para a ocupação de todas as unidades do Serviço de Saúde da Aeronáutica existentes à época, e na linha de frente da atuação na Segunda Grande Guerra, junto a um pelotão de elite.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO

    Extraído da tese intitulada Lutas Simbólicas pela visibilidade da atuação da enfermeira na Força Aérea Brasileira (1942-1966), apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2023.
  • CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA

    Concepção do estudo: Batalha MC, Santos TCF. Coleta de dados: Batalha MC. Análise e interpretação dos dados: Batalha MC, Santos TCF, Queirós PJP Discussão dos resultados: Batalha MC, Silva CPG, Almeida-Filho AJ, Santos TCF, Queirós PJP. Redação e/ou revisão crítica do conteúdo: Batalha MC, Silva CPG, Cavalcanti HCN, Almeida-Filho AJ, Santos TCF, Queirós PJP. Revisão e aprovação final da versão final: Batalha MC, Silva CPG, Cavalcanti HCN, Almeida-Filho AJ, Santos TCF, Queirós PJP.
  • FINANCIAMENTO

    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código do Financiamento 001. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior, Processo 8881.690104/2022-01. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Bolsa de Produtividade em Pesquisa. Processo 311632/2021-1.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA

    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery e Hospital Escola São Francisco de Assis, parecer n. 4.308.458/2020, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 37092720.0.0000.5238.

Editado por

EDITORES

Editores Associados José Luís Guedes dos Santos, Maria Lígia Bellaguarda. Editor-chefe: Elisiane Lorenzini.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Nov 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    18 Maio 2023
  • Aceito
    10 Ago 2023
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