RESUMO
Objetivo: avaliar o efeito da moxabustão como terapia adjuvante no controle de linfedema em mulheres mastectomizadas.
Método: estudo experimental, randomizado, realizado entre agosto de 2021 e julho de 2022. Os critérios de inclusão foram: mulheres com 30 anos ou mais, diagnosticadas com câncer de mama e que realizaram mastectomia unilateral há pelo menos seis meses; realização de radioterapia e quimioterapia; comprovação de linfedema por perimetria, com diferença ≥ 3 cm entre a circunferência do braço afetado e a do braço contralateral. As participantes foram randomizadas por turnos e alocadas em dois grupos distintos. No grupo-intervenção, elas receberam (além do tratamento-padrão) oito sessões de moxabustão durante quatro semanas, enquanto o grupo-controle seguiu apenas com o tratamento-padrão da instituição. Para avaliar a regressão do linfedema, utilizou-se o Índice de Eficácia para Linfedema de Membro Superior.
Resultados: O estudo contou com 28 participantes, apresentando uma taxa de adesão de 87,5% no grupo-intervenção e 89,3% no grupo-controle. O grupo-intervenção demonstrou melhora de 23,0% após o tratamento com moxabustão, o que se configurou um resultado positivo. Em contrapartida, o grupo-controle apresentou evolução de apenas 5,3% (p=0,016), indicando uma resposta terapêutica limitada.
Conclusões: a moxabustão apresentou resultados promissores para a redução do linfedema em mulheres mastectomizadas; entretanto, a amostra reduzida e a randomização por turno são limitações que devem ser consideradas. São necessários mais estudos com populações diversas, para ampliar a generalização dos resultados.
DESCRITORES:
Linfedema relacionado ao câncer de mama; Neoplasias da mama; Mastectomia; Linfedema; Medicina tradicional chinesa; Enfermagem
ABSTRACT
Objective: To evaluate the effect of moxibustion as an adjuvant therapy in the control of lymphedema in mastectomized women.
Method: A randomized, experimental study conducted between August 2021 and July 2022. The inclusion criteria were: women aged 30 or older, diagnosed with breast cancer and who underwent unilateral mastectomy at least six months prior and radiotherapy and chemotherapy; confirmation of lymphedema by perimetry, with a difference ≥ 3 cm between the circumference of the affected arm and that of the contralateral arm. The participants were randomly assigned to shifts and allocated to two distinct groups. In the intervention group, they received (in addition to standard treatment) eight moxibustion sessions over four weeks, while the control group continued only with the institution's standard treatment. To assess lymphedema regression, the Upper Limb Lymphedema Efficacy Index was used.
Results: The study included 28 participants, showing an adherence rate of 87.5% in the intervention group and 89.3% in the control group. The intervention group demonstrated a 23.0% improvement after treatment with moxibustion, which constituted a positive result. In contrast, the control group showed improvement of only 5.3% (p=0.016), indicating a limited therapeutic response.
Conclusions: Moxibustion has shown promising results for reducing lymphedema in mastectomized women; however, the small sample size and randomization in shifts are limitations that should be considered. Further studies with diverse populations are needed to broaden the generalizability of the results.
DESCRIPTORS:
Breast cancer-related Lymphedema; Breast neoplasms; Mastectomy; Lymphedema; Traditional Chinese medicine; Nursing
RESUMEN
Objetivo: Evaluar el efecto de la moxibustión como terapia coadyuvante en el control del linfedema en mujeres mastectomizadas.
Método: Un estudio experimental aleatorizado realizado entre agosto de 2021 y julio de 2022. Los criterios de inclusión fueron: mujeres de 30 años o más, diagnosticadas con cáncer de mama y que se habían sometido a una mastectomía unilateral al menos seis meses antes; que estuvieran recibiendo radioterapia y quimioterapia; y que presentaran linfedema confirmado mediante perimetría, con una diferencia ≥ 3 cm entre la circunferencia del brazo afectado y la del brazo contralateral. Las participantes fueron asignadas aleatoriamente a diferentes turnos y distribuidas en dos grupos distintos. En el grupo de intervención, recibieron (además del tratamiento estándar) ocho sesiones de moxibustión a lo largo de cuatro semanas, mientras que el grupo de control continuó únicamente con el tratamiento estándar de la institución. Para evaluar la regresión del linfedema, se utilizó el Índice de Eficacia del Linfedema de las Extremidades Superiores.
Resultados: El estudio incluyó a 28 participantes, mostrando una tasa de adherencia del 87,5% en el grupo de intervención y del 89,3% en el grupo de control. El grupo de intervención demostró una mejoría del 23,0% tras el tratamiento con moxibustión, lo que constituyó un resultado positivo. En cambio, el grupo de control mostró una mejoría de tan solo el 5,3% (p=0,016), lo que indica una respuesta terapéutica limitada.
Conclusiones: La moxibustión ha mostrado resultados prometedores para reducir el linfedema en mujeres mastectomizadas; sin embargo, el pequeño tamaño de la muestra y la aleatorización rotacional son limitaciones que deben tenerse en cuenta. Se necesitan más estudios con poblaciones diversas para ampliar la generalización de los resultados.
DESCRIPTORES:
Linfedema relacionado con el cáncer de mama; Neoplasias mamarias; Mastectomía; Linfedema; Medicina tradicional china; Enfermería
INTRODUÇÃO
O linfedema de membros superiores é uma das complicações mais comuns relacionadas à mastectomia por câncer de mama. Sua incidência varia de acordo com fatores clínicos e socioeconômicos, podendo chegar a 66,2% em mulheres mais vulneráveis. Essa iatrogenia ainda não tem cura e pode acarretar limitações que perduram ao longo da vida, como dificuldade na mobilidade, dor persistente e impacto na autoimagem1,2.
Nesse contexto, práticas integrativas surgem como terapias adjuvantes por serem bem toleradas, de baixo custo e com poucos efeitos colaterais, contribuindo para a melhora da qualidade de vida, controle da dor e suporte emocional em pacientes oncológicos3. Dentre essas práticas, destacamos a moxabustão: técnica milenar originária da China, que busca aquecer os pontos de acupuntura com a chama de bastões produzidos com folhas de Artemisia vulgaris. Esse aquecimento estimula termicamente receptores sensoriais, permitindo regular a energia vital (qi) e o sangue (xue), bem como sua circulação por canais energéticos chamados de “meridianos”4.
Além dos efeitos supracitados, a moxabustão possui resposta fisiológica comprovada, pois ativa a via inflamatória, promove a dilatação dos vasos periféricos, aumenta sua porosidade e facilita a circulação sanguínea e linfática4,5.
Com o aprimoramento da técnica de produção dos bastões de moxa, surgiram outras formulações, nas quais ervas medicinais e/ou substâncias fitoterápicas foram misturadas à artemísia para mascarar seu odor forte. Recentemente, foi desenvolvida a moxa sem fumaça, que consiste em um pequeno bastão de carvão impregnado com óleo de artemísia, mantendo propriedades semelhantes à versão in natura6.
Embora estudos indiquem possível redução do linfedema com a moxabustão, as evidências ainda são limitadas e carecem de padronização metodológica; logo, mais pesquisas são necessárias para validar sua eficácia7-13. Considerando a lacuna de evidências e a perspectiva de implantar uma intervenção de enfermagem voltada à promoção da saúde da mulher e à construção de novos paradigmas de cuidado, o presente estudo teve por objetivo avaliar o efeito da moxabustão como terapia adjuvante no controle de linfedema em mulheres mastectomizadas.
MÉTODO
Estudo experimental, randomizado e com grupos paralelos, realizado conforme as recomendações do CONSORT. De caráter monocêntrico, o estudo ocorreu entre agosto de 2021 e julho de 2022, em um hospital oncológico da cidade de Recife, no estado de Pernambuco (PE), Brasil.
A população (escolhida por conveniência) foi composta por mulheres com linfedema relacionado ao tratamento cirúrgico do câncer de mama unilateral9,11. A unilateralidade foi uma característica importante para o estudo, pois permitiu comparar a perimetria do braço afetado com a do braço contralateral.
Os critérios de inclusão foram: 1) mulheres com 30 anos ou mais, diagnosticadas com câncer de mama e que realizaram mastectomia unilateral há pelo menos seis meses (período necessário para se diagnosticar o linfedema); 2) realização de radioterapia e quimioterapia neoadjuvante e/ou adjuvante, o que pode aumentar os riscos de se desenvolver o linfedema; e 3) comprovação de linfedema por meio da perimetria, com diferença ≥ 3 cm entre a circunferência do braço afetado e a do braço contralateral.
Já os critérios de exclusão foram: 1) apresentar doenças relacionadas ao sistema vascular, coagulopatias, infecções de pele ou qualquer condição que contraindicasse a realização da moxabustão; 2) apresentar trauma cutâneo no membro, ulceração ou doença de pele, pois tais condições podem dificultar o retorno venoso e linfático; 3) ter problemas respiratórios (p.ex., alergia a odores), uma vez que podem se agravar com a técnica; 4) estar recebendo outros tratamentos para linfedema que não o estabelecido pelo serviço, visando garantir homogeneidade no protocolo terapêutico e permitir comparações; 5) ter tido contato anterior com qualquer modalidade de moxabustão; e 6) estar grávida, visto que há controvérsias quanto à segurança da moxa no início da gestação.
Além disso, foram adotados os seguintes critérios de descontinuidade: 1) retirada do consentimento de participação, que poderia ocorrer em qualquer etapa da pesquisa; 2) mudança no protocolo terapêutico de rotina durante o período de intervenção, pois isso interferiria diretamente nos resultados; 3) ocorrência de enjoos relacionados ao odor da moxa ou quaisquer outros desconfortos relatados pelas pacientes; 4) óbito, instabilidade clínica e/ou recidiva da doença; e 5) ausência em mais de 20% das intervenções.
Tendo em vista que o desfecho principal do presente estudo foi a regressão do linfedema (mensurado por meio do Effective Index for Upper-limb Lymphedema - EIUL), adotou-se um poder de 80% e um nível de significância de 5% no cálculo amostral. Definiu-se como “resposta positiva” um valor de EIUL ≥20%, estimando-se incidência de 55% na amostra exposta14. Assim, foi selecionada uma amostra consecutiva de mulheres que compareceram ao ambulatório para realização de fisioterapia após recomendação médica. Utilizando-se a fórmula do tamanho da amostra elaborada por Kelsey et al., seriam necessárias 28 participantes (KELSEY et al., 1996)15. Para compensar possíveis perdas, houve um acréscimo de 10%, o que resultou em uma amostra final de 30 mulheres, com pareamento de 1:1 (15 em cada grupo). Todos os cálculos foram realizados no programa Open Source Epidemiologic Statistics for Public Health (OpenEpi 3.02).
A determinação de qual grupo receberia a intervenção e qual seguiria apenas o tratamento-padrão foi feita por meio de randomização estratificada por conglomerados de acordo com os dias da semana (segundas, terças, quartas e quintas-feiras) e os turnos em que frequentavam o ambulatório (manhã ou tarde). O Programa Randomizer foi utilizado para selecionar as unidades participantes.
Assim, as pacientes em fisioterapia às segundas e quartas-feiras pela manhã eram convidadas a compor o grupo-intervenção; e as atendidas às terças e quintas-feiras pela tarde, ao grupo-controle. Essa estratégia buscou evitar contato entre mulheres dos dois grupos, sem mudança de turnos durante a intervenção. Sempre que uma possível participante começava a frequentar o ambulatório, a fisioterapeuta da equipe informava a responsável pela intervenção, que então realizava o convite para participação no estudo.
As participantes de ambos os grupos (intervenção e controle) seguiram com o tratamento convencional preconizado pela instituição: enfaixamento compressivo e drenagem linfática manual duas vezes por semana. Essas técnicas eram realizadas por profissionais de fisioterapia atuantes no ambulatório e que foram devidamente treinadas pela instituição. As pacientes eram orientadas a manter o enfaixamento compressivo por pelo menos dois dias, só removendo as faixas horas antes de se encaminharem ao ambulatório. O grupo-intervenção também passou por oito sessões de moxaterapia no decorrer de quatro semanas, com duração de até 20 minutos cada.
A intervenção foi realizada de forma individual por uma enfermeira devidamente habilitada em moxaterapia e especialista em práticas integrativas e complementares. Todas as sessões ocorreram no ambulatório, em um local confortável (com temperatura regulável e boa circulação de ar) e privativo. Utilizou-se a moxa carvão da marca Dong Yang, cujos bastões mediam 13cm e não liberavam substâncias tóxicas, fumaça nem odores ao serem queimados.
A escolha dos acupontos buscou contemplar queixas álgicas e favorecer o fluxo linfático e sanguíneo. Assim, os pontos selecionados foram Jianzhen (ID 9), cuja função é desobstruir o canal, beneficiar o ombro e tratar distúrbios dessa região, além de dor escapular; Binao (IG 14), que também desobstrui o canal e é indicado para algias em ombro e braço, rigidez no pescoço, afecções articulares do ombro e paralisia do membro superior; Shouwuli (IG 13), indicado para dor no braço e no cotovelo; e Waiguan (TA 5), empregado no manejo de tensões musculares e problemas de mobilidade na lateral do corpo, além de exercer importante função energética ao facilitar a circulação do qi em bloqueios dos canais de energia.
Para melhor padronização da intervenção, a técnica foi executada sempre da seguinte forma:
1. A participante era orientada a expor totalmente o membro afetado pelo linfedema, podendo ser necessária a remoção de peças de seu vestuário para melhor acesso. Após a correta exposição do membro, a participante foi orientada a sentar-se em uma cadeira e a apoiar o braço afetado sobre uma superfície em posição supina, para garantir seu conforto e uma fácil localização dos acupontos;
2. Com a participante devidamente posicionada, a pesquisadora acendia o bastão de moxa com o auxílio de um maçarico, certificando-se de que a brasa estava bem alimentada, com queima constante e de coloração alaranjada;
3. Segurando o bastão em sua mão dominante, a pesquisadora localizava os acupontos a serem estimulados com o auxílio de sua mão contradominante, repousando a palma sobre o membro da participante, de modo que os dedos indicador e polegar ficavam um de cada lado da região a ser aquecida. Essa técnica era fundamental para que a pesquisadora tivesse uma boa percepção da intensidade do calor e, assim, evitasse exposição térmica excessiva sobre a pele da participante;
4. Após a correta localização do primeiro acuponto (ID 9), a pesquisadora aproximava a brasa do bastão a uma distância de 2 a 3cm da pele da participante, realizando movimentos circulares. No decorrer da aplicação, caso a participante relatasse muito calor no acuponto, a pesquisadora elevava o bastão e cobria a região com sua mão esquerda, aguardando até que a participante estivesse novamente confortável para retomar a aplicação. Cada acuponto era estimulado por até cinco minutos, a depender da sensibilidade de cada participante;
5. Repetia-se a técnica descrita acima nos demais acupontos, respectivamente: IG 14; IG 13, TA 5;
6. Ao término do procedimento, a pesquisadora apagava a brasa do bastão com um abafador e ajudava a participante a vestir novamente suas roupas, para então se dirigir ao ambulatório de fisioterapia e dar continuidade à terapia fisioterápica padrão de linfedema.
O presente estudo teve como principal desfecho a progressão ou regressão do linfedema, cuja avaliação foi realizada com base na perimetria dos membros superiores (MMSS) pré-intervenção e pós-intervenção para determinar o EIUL. Os pesquisadores responsáveis por aferir esses dados não sabiam quais participantes pertenciam ao grupo-intervenção e quais pertenciam ao grupo-controle, garantindo o cegamento dos avaliadores e evitando possíveis vieses.
Assim, a avaliação da perimetria foi realizada com o auxílio de fita métrica corporal (150cm) da marca Sanny. Utilizou-se a mesma fita em todas as participantes durante a coleta dos dados. As medições foram realizadas com o membro apoiado, relaxado e na posição de supinação, nos seguintes pontos: 1) 7cm acima da linha do cotovelo, em direção à linha da axila; 2) 14cm acima da linha do cotovelo, em direção à linha da axila; 3) 7cm abaixo da linha do cotovelo, em direção à linha do punho; 4) 14cm abaixo da linha do cotovelo, em direção à linha do punho; e 5) 21cm abaixo da linha do cotovelo, em direção à linha do punho.
O EIUL foi calculado e utilizado para fundamentar as conclusões do estudo. O EIUL é uma medida que possibilita determinar a resposta do tratamento aplicado, fornecendo um percentual de eficácia e ajustando os resultados às diferenças da perimetria. Para tanto, a seguinte fórmula foi aplicada14:
Como a área edemaciada varia em cada sujeito, o local com a maior diferença entre o braço afetado e o não afetado foi utilizado para determinar a linha de base e a avaliação do resultado para cada paciente. Esse índice foi desenvolvido por Cassileth et al.15, com o intuito de avaliara progressão do linfedema em pacientes submetidos à acupuntura. Adotou-se como resultado positivo ao tratamento uma taxa de resposta de ≥ 20%; e como resultado negativo, ≤5%14,16,17.
Os dados foram digitados com dupla entrada no programa EpiData 3.1, e a análise estatística foi feita no software estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS, versão 22.0). O pesquisador responsável pela análise não sabia quais participantes pertenciam ao grupo-intervenção e quais eram do grupo-controle.
Inicialmente, a normalidade e homogeneidade de variância dos dados foram analisadas por meio dos testes de Shapiro-Wilk e Levene, respectivamente. Para as análises descritivas, os dados contínuos foram apresentados como média e desvio-padrão (quando paramétricos) ou mediana e amplitude interquartil (quando não paramétricos), enquanto os dados categóricos foram apresentados como frequência absoluta e relativa.
Para comparar as perimetrias de acordo com o número de linfonodos, foram empregados os testes t independente para dados paramétricos e o teste U de Mann-Whitney. A comparação das proporções (variáveis categóricas) de acordo com o número de linfonodos foi feita por meio do teste do qui-quadrado de Pearson ou teste exato de Fisher. Modelos de equações de estimativas generalizadas (do inglês, Generalized Estimating Equations - GEE) foram utilizados considerando como fatores o tempo (pré vs. pós) e o grupo (intervenção vs. controle), sendo ajustados pela idade, tempo de cirurgia e método cirúrgico empregado. Quando a interação grupo*tempo apresentou significância estatística, aplicou-se o post hoc de Bonferroni para identificar onde ocorreram as diferenças.
Todos os testes foram realizados utilizando o SPSS (versão 20.0); e o p<0,05 foi adotado como estatisticamente significante em todas as análises.
O estudo foi realizado em conformidade coma Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde do Brasil, que dispõe sobre pesquisas envolvendo seres humanos e resguarda os princípios éticos da justiça, da beneficência e da não maleficência. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) sob o Parecer n. 4.849.199. As voluntárias tiveram seu sigilo e anonimato assegurados.
O projeto foi cadastrado na Plataforma de Registro Brasileiro de Ensaios (RBR) clínicos (www.ensaiosclinicos.gov.br/), sob o protocolo RBR-9wkgdxp. Nenhuma recompensa ou remuneração foi oferecida às participantes da pesquisa, e o setor onde o estudo foi realizado recebeu posteriormente um relatório com os principais resultados da intervenção.
As participantes de todas as etapas do estudo (grupo-intervenção e grupo-controle) foram esclarecidas sobre o objetivo da pesquisa bem como seus riscos e benefícios e foram convidadas a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Elas também tinham o direito de desistir da pesquisa a qualquer momento.
RESULTADOS
A coleta dos dados durou um ano, sendo abordadas 33 mulheres (16 no grupo-intervenção e 17 no grupo-controle). Houve descontinuidade de 2 participantes no grupo-intervenção, pois elas faltaram a mais de 20% das intervenções. No grupo-controle, houve descontinuidade de 3 participantes, das quais 2 faltaram a mais de 20% das sessões de fisioterapia e 1 teve seu protocolo terapêutico alterado. Assim, 28 mulheres concluíram o estudo (Figura 1), com taxa de adesão de 87,5% no grupo-intervenção e 89,3% no grupo-controle.
Fluxo de alocação das participantes da pesquisa, segundo o turno em que frequentavam o ambulatório.
A média de idade foi de 58,9 anos, sendo a maioria não branca, com baixo nível de escolaridade formal. Quanto aos dados clínicos, uma expressiva parcela estava acima do peso e tinha sido submetida à mastectomia total ou modificada. Todas haviam passado por radioterapia e por quimioterapia. Os demais dados sociodemográficos são apresentados na Tabela 1.
No tocante ao efeito da intervenção sobre a perimetria, apenas a área correspondente a 7cm abaixo da linha do cotovelo obteve significância estatística, com p < 0,05. Nessa região, o grupo-intervenção chegou a perder quase 1cm de circunferência no membro afetado, enquanto o grupo-controle só reduziu 0,1cm. Os demais dados encontram-se na Tabela 2.
Por fim, calculou-se o EIUL das regiões centrais à linha do cotovelo e das regiões que obtiveram maior diferença entre as perimetrias para avaliar os possíveis efeitos terapêuticos. Novamente, obteve-se significância na região localizada a 7cm abaixo da linha do cotovelo e nas áreas com maior diferença perimétrica, como exposto na Tabela 3. Além disso, apenas o grupo-intervenção apresentou resultados positivos (≥20%), enquanto o grupo-controle apresentou resultado próximo ao limiar de resposta negativa (≤5%).
DISCUSSÃO
No presente estudo, investigou-se a moxaterapia como um tratamento adjuvante no manejo do linfedema relacionado ao câncer de mama. Na amostra analisada, observou-se uma taxa de adesão ao tratamento de 87,5%, o que sugere elevada aceitação e viabilidade do protocolo entre as participantes. No que se refere às características clínicas, o grupo-intervenção era relativamente mais jovem e apresentou menor tempo desde a realização da cirurgia em comparação ao grupo-controle. Entretanto, evidências da literatura permanecem inconclusivas quanto à associação dessas variáveis com a incidência ou gravidade do linfedema, não havendo consenso estabelecido18,19.
Por outro lado, o sobrepeso e a obesidade são fatores de risco bem estabelecidos para o desenvolvimento de linfedema, assim como a realização de radioterapia e o esvaziamento axilar. Na nossa amostra, não foi possível avaliar a extensão das linfadenectomias devido à ausência de dados nos prontuários; entretanto, observa-se uma elevada prevalência de sobrepeso/obesidade entre as participantes de ambos os grupos. Essa condição pode comprometer a densidade linfática do tecido subcutâneo, a proliferação de células endoteliais linfáticas, a permeabilidade dos vasos linfáticos, a capacidade de bombeamento dos vasos coletores e a depuração de macromoléculas19,20.
Com relação à perimetria, houve redução significativa no grupo-intervenção, com resultados positivos do EIUL (23%), enquanto no grupo-controle esse número ficou pouco acima de 5%, apresentando um valor de p de 0,016. Esses achados parecem estar de acordo com a literatura especializada, mesmo que métodos e materiais levemente diferentes tenham sido empregados para alcançar tais resultados12,21,22,23.
De acordo com a MTC, o calor produzido pela moxa é capaz de drenar fluidos, auxiliando na circulação corpórea e modulando fatores inflamatórios23,24. Essa racionalidade médica sustenta que tanto o câncer de mama quanto o procedimento cirúrgico para remoção do tumor podem obstruir os meridianos, causando estagnação do qi e estase do sangue. Assim, o corpo fica fraco e não consegue promover a circulação adequada de água e outros fluidos corretamente, culminando no bloqueio do fluxo natural e acúmulo da umidade na forma de edema25. O calor da moxa é eficaz na tonificação do qi e melhora a microcirculação, eliminando o frio e a estase23,24,26.
Já do ponto de vista da medicina ocidental, a temperatura de combustão da moxa carvão é próxima à da moxa in natura, e ambas apresentam picos de radiação infravermelha bastante similares6,27. Assim, observa-se uma melhora na circulação sanguínea e linfática por meio de vasodilatação e relaxamento muscular, o que facilita a eliminação da inflamação e do edema. A função imunológica também pode melhorar, pois existe maior atividade dos macrófagos e outros leucócitos8,26. Tais fatos ajudam a sustentar os achados aqui encontrados, já que a fisiopatologia complexa do linfedema envolve, dentre outros fatores, acúmulo de líquidos, deficiências imunológicas e inflamação crônica28.
Esses achados sugerem que a moxa pode ser um recurso relevante no manejo do linfedema, independentemente de sua modalidade. Tanto a moxabustão associada a agulhas quanto a moxabustão isolada, e até mesmo a moxa elétrica, obtiveram resultados positivos nos estudos existentes. Assim, o presente trabalho soma-se às evidências disponíveis ao apontar a moxa carvão, ainda pouco explorada para essa finalidade, como uma alternativa viável e com eficácia satisfatória7-12.
Entretanto, é necessário definir outros fatores importantes para a prática segura e padronização da moxa. Não há consenso acerca do tempo de exposição, número de sessões necessárias e período de acompanhamento. Também é preciso definir melhor quais acupontos devem ser estimulados, embora isso seja dificultado pelo fato de a MTC considerar a individualidade de cada paciente. Inclusive, há necessidade de estudos que explorem os chamados pontos de ashi, que não fazem parte do sistema de meridianos tradicional, mas que são dolorosos em algumas pessoas por características próprias. A investigação dos pontos de ashi pode contribuir para o aprimoramento da técnica, potencializando sua eficácia e adaptando-a de acordo com as necessidades de cada paciente7-12.
Devido ao tamanho reduzido da amostra, o presente estudo adotou uma randomização por turnos, o que pode introduzir vieses de seleção. Além disso, o cegamento das participantes não foi possível em razão do caráter ativo da intervenção. Vale lembrar que o linfedema relacionado ao tratamento do câncer de mama é um quadro multifatorial. Assim, por mais que se tente selecionar uma amostra homogênea e controlar as inúmeras variáveis pertinentes, ainda não se pode averiguar todas as nuances dessa condição. Em pesquisas futuras, seria importante incluir uma amostra maior e mais diversificada.
CONCLUSÃO
Conclui-se que a moxabustão apresentou resultados promissores na redução do edema, com melhora significativa após oito sessões. Embora a moxa carvão não seja a forma mais pura de artemísia, ela mantém efeitos terapêuticos satisfatórios. Além disso, por não produzir fumaça nem odor forte, é mais adequada para ambientes hospitalares, com maior aceitação e menos desconforto, especialmente entre mulheres.
Sobretudo na atenção primária, a integração entre medicina moderna e medicina tradicional pode fortalecer a enfermagem por meio da adoção de uma abordagem mais holística no cuidado de condições crônicas. Mesmo realizada em ambiente hospitalar, essa intervenção pode ser aplicada na atenção básica, ampliando as possibilidades de cuidado considerando os determinantes de saúde.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da tese - Moxabustão como terapia adjuvante no controle de linfedema em mulheres mastectomizadas por câncer de mama: um estudo randomizado, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em enfermagem, da Universidade de Pernambuco, em 2023.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa do Hospitalo do Câncer de Pernambuco, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 4.849.199.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados que fundamentam os resultados deste estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.
Editado por
Os dados que fundamentam os resultados deste estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.


