Resumo:
O estudo teve como objetivo analisar a organização e a atividade exportadora da firma inglesa Edward Johnston & Co. no Brasil no período 1842 a 1852. Chegando ao Rio de Janeiro em 1821, Edward Johnston trabalhou na firma inglesa F. Le Breton & Co. Em 1827, gerente da firma, casou-se com Henrietta, filha de Charles Alexander Moke, proprietário da fazenda Nassau, produtora de café na floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Depois de retornar da viagem para Londres e para a Holanda, Edward Johnston desligou-se da firma e virou corretor. O crescimento das exportações brasileiras, o conhecimento da Praça do Rio de Janeiro e os contatos comerciais com a Inglaterra possibilitaram a Edward Johnston organizar a firma Edward Johnston & Co. em 1842, tendo como sócios os negociantes William Joseph Havers e João Ignácio Tavares. Edward Johnston deixou a firma com seus sócios no Rio de Janeiro e retornou para Liverpool. A saída de João Ignácio Tavares da firma, o falecimento de Havers em 1847 e a crise comercial em Liverpool de 1847 fizeram com que Johnston reorganizasse a sociedade no Brasil. A melhora dos negócios e a crescente especialização da firma na exportação do café possibilitaram uma maior presença dos filhos de Johnston. Tal participação originou a Edward Johnston, Son & Co. em 1854. Essa é outra história.
Palavras-chave:
Império do Brasil; comércio; firma inglesa.
Abstract:
This study aimed at analyzing the organization and the exporting activity of the British trade firm, Edward Johnston & Co. in Brazil, from 1842 to 1852. When arriving in Rio de Janeiro, in 1821, Edward Johnston worked at the British trade firm, F. Le Breton & Co. In 1827, as the manager of the trade firm, he married Henrietta, daughter of Charles Alexander Moke, owner of the Massau farm, coffee producer in the Tijuca forest, Rio de Janeiro. After returning from London and Holland, Edward Johnston quit the trade firm and became a broker. The growth in Brazilian exports, the knowledge about Rio de Janeiro, and the commercial contacts with England allowed Edward Johnston to organize the trade firm Edward Johnston & Co. in 1842. His partners were the traders William Joseph Havers and João Ignácio Tavares. Edward Johnston left the trade firm with his partners and returned to Liverpool. With João Ignácio Tavares leaving the trade firm and the death of Havers, in 1847, besides the commercial crisis in Liverpool in the same year, Johnston reorganized the society in Brazil. The improvement in business and the increasing expertise of the trade firm in coffee export allowed Johnston’s children to be more present. This participation led to the creation of Edward Johnston, Son & Co. in 1854. But that is another story.
Keywords:
Brazilian Empire; commerce; British trade firm.
Resumen:
El estudio tuvo como objetivo analizar la organización y la actividad de exportación de la empresa inglesa Edward Johnston & Co., en Brasil, durante el período del 1842 hasta 1852. Al llegar al Río de Janeiro, en 1821, Edward Johnston trabajó en una compañía inglesa llamada F. Le Breton & Co. En el año del 1827, como gerente de la empresa, él se casó con Henrietta, hija de Charles Alexander Moke, lo propietario de la hacienda Nassau, una productora de café en la floresta de Tijuca, en Río de Janeiro. Después del regreso de viaje a Londres y Holanda, Edward Johnston se desligó de la empresa y se tornó un corrector. El crecimiento de las exportaciones brasileñas, el conocimiento de la Plaza del Río de Janeiro y los contactos comerciales con Inglaterra posibilitaron para Edward Johnston la organización de la empresa Edward Johnston & Co., en 1842, incluyendo como socios los negociantes William Joseph Havers y João Ignácio Tavares. Edward Johnston salió de la empresa con sus socios en Río de Janeiro y regresó a Liverpool. La salida de João Ignácio Tavares de la compañía, el fallecimiento de Havers en 1847, y la crisis comercial en Liverpool del 1847 hicieron con que Johnston organizase nuevamente la sociedad en Brasil. La mejoría de los negocios y la creciente especialización de la empresa en la exportación de café posibilitaron una mayor presencia de los hijos de Johnston. Esa participación originó Edward Johnston, Son & Co., en 1854. Pero eso es otra historia.
Palabras clave:
Imperio del Brasil; comercio; compañía inglesa.
Résumé:
L’étude visait à analyser l’organisation et l’activité d’exportation de l’entreprise anglais Edward Johnston & Co. au Brésil dans la période 1842 à 1852. En arrivant à Rio de Janeiro en 1821, Edward Johnston a travaillé au sein du cabinet britannique F. Le Breton & Co. En 1827, il était directeur de l’entreprise, a marié Henriette, fille de Charles Alexander Moke, propriétaire de la ferme Nassau, producteur de café dans la forêt de Tijuca, à Rio de Janeiro. Après son retour de voyage à Londres et en Hollande, Edward Johnston a démissionné de l’entreprise et se tourna courtier. La croissance des exportations brésiliennes, la connaissance de Rio de Janeiro place et des contacts commerciaux avec l’Angleterre a permis à la Edward Johnston organiser Edward Johnston & Co. cabinet en 1842, ayant comme partenaires concessionnaires William Joseph Havers et John Tavares Ignacio. Edward Johnston a quitté l’entreprise avec ses partenaires à Rio de Janeiro et est retourné à Liverpool. John Tavares des Ignacio La production de l’entreprise, la mort de Havers en 1847 et la crise commerciale en 1847 Liverpool ont fait Johnston réorganiser la société au Brésil. L’amélioration de l’activité et la spécialisation croissante de l’entreprise dans l’exportation du café a permis une plus grande présence des fils de Johnston. Cette participation origine Edward Johnston, Son & Co. en 1854. Ce est une autre histoire.
Mots-clés:
l’Empire du Brésil; le commerce; Firme anglaise.
Nascido em Londres, em 1804, Edward Johnston chegou ao Rio de Janeiro em 1821 e, com 17 anos, foi trabalhar na firma inglesa F. Le Breton & Co., importante no comércio importador e exportador. Alcançou o cargo de gerente em 1827 e, no mesmo, casou-se com Henrietta, filha do médico holandês radicado no Rio de Janeiro, Charles Alexander Moke, proprietário da fazenda Nassau, produtora de café na floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Segundo os livros comemorativos da firma Edward Johnston & Co., o casamento e a viagem de lua de mel, quando visitou Londres e a Holanda, foram importantes para que Edward Johnston se desligasse da firma F. Le Breton e passasse a atuar como corretor no comércio importador-exportador na Praça do Rio de Janeiro.
O crescimento das exportações do café e de outros produtos pelo porto do Rio de Janeiro, o conhecimento adquirido na Praça Comercial e Financeira do Rio de Janeiro e os contatos comerciais com a Inglaterra, principalmente com Liverpool, possibilitaram a Edward Johnston organizar a firma Edward Johnston & Co. em 1842, tendo como sócios o negociante inglês William Joseph Havers e o negociante brasileiro João Ignácio Tavares.
Em 1844, Edward Johnston deixou a firma com seus sócios no Rio de Janeiro e retornou para Liverpool, onde se associou com o negociante inglês Charles Ironside na firma Charles Ironside & Co. Com negócios em Portugal e no Brasil, sendo neste último mais precisamente com o negociante inglês Joseph Napier na cidade de Salvador, Bahia, Charles Ironside teve um papel importante nos negócios de Edward Johnston a partir de então. A saída João Ignácio Tavares da firma do Brasil em 1845, o falecimento de Havers em 1847 e a crise comercial em Liverpool em 1847-1848 fizeram com que Johnston e Ironside reorganizassem a sociedade no Brasil, e Joseph Napier passou a dirigir a firma no Rio de Janeiro. A melhora dos negócios, com a firma se especializando nas exportações de café, possibilitou a participação dos filhos de Edward Johnston na administração da firma, sendo deslocados para o Brasil e para uma nova sociedade nos Estados Unidos, a Johnston, Moke & Co., em Nova Orleans. Essa crescente participação dos filhos de Johnston nos negócios fez com que a firma Charles Ironside & Co. fosse liquidada em 1853, e uma nova firma foi criada em Liverpool, a Edward Johnston, Son & Co., em 1854. Essa é uma outra história.
A expansão do café nas décadas de 1830 e 1840 no Vale do Paraíba fluminense e no Rio de Janeiro
A vitória do projeto político conservador do Estado Imperial escravista,1 tendo a frente a Trindade Saquarema do Partido Conservador, composta por Joaquim José Rodrigues Torres (Visconde de Itaboraí), Paulino Soares de Souza (Visconde do Uruguai) e Eusébio de Queiroz Coutinho Matoso da Câmara,2 possibilitou não só o crescimento e a conservação do comércio negreiro, mesmo ilegal após a lei de 1831,3 mas também a legitimação de uma política da escravidão, como ressaltou Tamis Parron.4 Tal política foi fundamental para a expansão da produção cafeeira no Vale do Paraíba fluminense e paulista5 e possibilitou que o café suplantasse o açúcar como principal produto de exportação brasileiro pós-1830 (Tabela 1). Entretanto, na visão de Steve Topic, essa crescente exportação foi resultado da elasticidade-renda e elasticidade-preço da demanda por café nos Estados Unidos e na Europa Ocidental desde 1820, e não somente pelo lado da oferta (produção) e de seus custos decrescentes no Brasil em virtude da disponibilidade de terra e mão de obra escrava.6 Com isso, na década de 1830, “o Brasil já era o principal produtor, com cerca de 650 mil sacas, seguido por Cuba, Java (Ásia/Holanda) e Haiti, cada um com níveis de produção variando entre 350 mil e 450 mil sacas”.7
Importante ressaltar que, para os historiadores Dale Tomich, Rafael Marquese e Ricardo Salles, a expansão cafeeira do período estava relacionada com o desenvolvimento do sistema capitalista do século XIX.8 Tal relação possibilitou o surgimento de uma nova estrutura escravista denominada de 2ª escravidão,9 a qual preponderou na região Atlântica que abarcava o Sul dos Estados Unidos, Cuba e Brasil.10
O crescimento das exportações de café continuou nos anos 1840 e, somente no final desse período, face à crise de 1847 que afetou a Europa e com desdobramentos nos Estados Unidos,11 houve uma queda acentuada das exportações do café brasileiro (Gráfico 1), com reflexos sobre a economia do período.12 Um dado interessante sobre a década de 1840 foi que as exportações de açúcar e couros cresceram, interrompendo uma tendência de queda das exportações desses produtos (Tabela 1). Entre as possíveis explicações para tal melhoria, tivemos o fim do protecionismo inglês com a Lei de 1846,13 a industrialização na Europa e nos Estados Unidos e a demanda pelo couro seco e salgado. Ainda com relação às exportações de couro, Manuel Llorca-Jaña destacou que o Brasil14 era o segundo maior exportador de couro não curtido (untanned hide) para a Grã-Bretanha, depois da região do Rio da Prata (Argentina e Uruguai).15 O couro, principalmente salgado, e outros produtos da pecuária, como o charque16 e o sebo, foram os principais produtos de exportação da Argentina até meados do século XIX, quando foram suplantados pela exportação da lã, e com grande participação de firmas exportadoras inglesas, assim como ocorreu no Brasil.17Interessante constar que a Edward Johnston & Co. exportou para Gotemburgo, na Suécia, em 1842, uma carregação de 1.818 couros de Buenos Aires.18
Analisando as províncias produtoras de café, na década de 1840, “o Rio de Janeiro respondia por quase 80% da exportação total, com 16% correspondendo a São Paulo e cerca de 6% a Minas”.19 Essas regiões, de colonizações históricas diferentes e que, internamente, apresentavam variações no tocante à concentração de terra e dos plantéis de escravos no século XIX, tinham um ponto em comum: eram banhadas direta ou indiretamente pelo Rio Paraíba do Sul. Portanto, eram regiões pertencentes ao Vale do Paraíba (Mapa 1).
Municípios do Vale do Paraíba fluminense, do Paraíba paulista e da Zona da Mata mineira por data de fundação (1801-1890).
Devido à produção de café se concentrar na referida região do Vale do Paraíba e os caminhos do café - sejam do Oeste Velho paulista, sejam do Paraíba fluminense e da Zona da Mata mineira -20 estarem ligados direta ou indiretamente ao porto do Rio de Janeiro, foi principalmente por esse entrepôt city21 que as exportações foram escoadas no período analisado.22 Embora já exportasse café junto com outros produtos desde o final do século XVIII,23 o porto de Santos cresceu como exportador desse produto nas décadas de 1840 e, principalmente, na década de 1850 (Tabela 2 e Gráfico 2). Após 1870, as exportações de café santistas aproximaram-se das do porto do Rio de Janeiro, suplantando-o nos anos 1890.24
Comércio exportador de café. Exportação por porto: Rio de Janeiro e Santos (1830-1856). Sacas de 60 kg.
Portanto, dentro desse contexto nacional e internacional, foi organizada na cidade do Rio de Janeiro - o Município Neutro da Corte desde 1834 - a firma inglesa Edward Johnston & Co., em 1842. Tratamos da sua organização na seção seguinte.
A organização da firma Edward Johnston & Co. no Brasil
No dia 14 de setembro de 1942, na cidade de Santos, São Paulo, foi comemorado o 100º aniversário da firma inglesa Edward Johsnton & Cia. Limited, uma das maiores firmas exportadoras de café do Brasil.25 Contando com a presença do embaixador britânico Sir Noel Charles e de inúmeras autoridades políticas e do “alto comércio”, ou seja, do comércio exportador-importador de Santos,26 tal evento tinha um significado político e econômico, como constou no título da publicação “Um século de atividade no estreitamento das relações anglo-brasileiras”.
A dita efeméride, celebrada pelo jornal, que historicamente estava vinculado ao complexo cafeeiro paulista,27 visava a uma celebração não só política, mas também econômica, face à conjuntura da época.28
Entretanto, a firma Edward Johnston & Co. só abriu a filial em Santos no ano de 1881, período esse de crescimento da produção e exportação do café paulista, principalmente do Oeste Novo. Antes de Santos se tornar a sede da firma, esta teve como centro dos seus negócios a cidade do Rio de Janeiro, onde foi fundada em 14 de setembro de 1842, na Rua do Sabão, nº 10.29
Organizada pelo negociante inglês Edward Johnston, em sociedade com o negociante inglês William Joseph Havers30 e com o negociante brasileiro João Ignácio Tavares,31a firma inglesa se destacou no início das suas atividades como uma firma importadora e exportadora, e não especializada num só produto.32 Com relação ao negociante Edward Johnston, ele chegou ao Rio de Janeiro em 1821 com 17 anos e foi trabalhar como clerk (caixeiro) na firma inglesa importadora e exportadora F. Le Breton & Co.33 Nesse ínterim, Edward Johnston tornou-se gerente da firma e casou-se em 1827 com Henrietta Marie, filha de Charles Alexander Moke, médico e fazendeiro de café na Tijuca, Rio de Janeiro.34
Após 1870, as exportações de café santistas aproximaram-se das do porto do Rio de Janeiro, suplantando-o nos anos 1890
O consórcio celebrado entre Edward Johnston e a filha do fazendeiro de café foi importante para a sua guinada comercial.35 Após um período na Inglaterra e na Holanda, esta última, terra natal do seu sogro, e retornando ao Rio de Janeiro em 1830, Edward Johnston deixou a gerência da firma F. Le Breton e abriu seu próprio “negócio de corretagem” em 1832.36 Conforme destacou Johnston numa correspondência a seu irmão James, devido ao pouco capital que tinha na época, “eventualmente, eu me estabelecerei como corretor, pois é nisto que provavelmente terei êxito, não precisando de muito capital”.37 Segundo Greenhill, Johnston “comprava produtos primários ou trabalhava na base de comissão, o que exigia pouco capital e minimizava o risco”.38
Em 1838, Edward Johnston fez uma nova viagem para Liverpool, outrora principal porto negreiro inglês39 e importante centro exportador dos fios e tecidos (fazendas secas) das fábricas têxteis de Manchester e importador dos “produtos coloniais”, como café, açúcar, algodão e outros na década de 1830.40 No Diário do Rio de Janeiro de 04 de julho de 1838, foi publicado um anúncio de leilão dos móveis e outros utensílios pertencentes a Eduardo (Edward) Johnston, que se “retirava para Europa”. Dizia o anúncio:
Baker Campbell & Greenwood fazem leilão hoje as 10 horas e meia, na casa residência do Sr. Eduardo Johnston, rua Bella da Princeza, n. 5, dos ricos moveis, prata, casquinha, cristaes, porcelana, quadro, etc., pertencentes ao mesmo senhor que se retira para Europa, constando mesa de jantar para 30 pessoas, apparador de mogmo, cadeiras de dito, e jacarandá, ricos espelhos, {...}, gravuras, cavalos, bestas, etz.
Importante destacar que, na cidade de Liverpool, havia a Brazilian Association of Liverpool (Associação Brasileira de Liverpool), a qual defendia os interesses dos negociantes ingleses que importavam os produtos brasileiros, como café e açúcar, e exportavam fios e tecidos de algodão das fábricas de Manchester.42 Essa Associação encaminhou petições ao Parlamento inglês (House of Commons), como a de 1833, “The Petition of undersigned Merchants and Ship owners of Liverpool Trading to Brazil, and Members of the Association”, em que solicitava a redução das tarifas cobradas sobre os produtos importados do Brasil, particularmente o açúcar.43 Em 1839, a Associação, juntamente com a Manchester Chamber of Commerce (Câmara de Comércio de Manchester), pressionou a Câmara dos Comuns para a revisão das tarifas sobre os produtos açúcar e café. Em 1840, surgiu uma petição em Manchester, “que ressaltava a urgência da questão”44 e que somente foi resolvida com a Lei de 1846 e seus desdobramentos. Em 15 de maio de 1841, Charles Saunders, presidente da dita Associação, publicou no jornal The Tablet um artigo intitulado “The reasons why Brazil produce should be at once admitted into this country for consumption on more reasonable terms”, em que defendia, novamente, a diminuição das taxas sobre os produtos brasileiros, reforçando a importância do Brasil para o comércio da Grã-Bretanha.45
Retornando a Edward Johnston, não se sabe da data de seu retorno para o Brasil; porém, o Diário do Rio de Janeiro de 11 de janeiro de 1840 anunciava uma sessão do “Banco Commercial do Rio de Janeiro”,46na qual Edward Johnston, acionista do banco, participou da Comissão de Exame e Contas deste. Dizia a nota:
Banco Commercial do Rio de Janeiro, sessão do dia 10 de janeiro de 1840
Abriou-se ás 11 horas a sessão tomando a cadeira da presidência o Sr. Ignacio Ratton, o qual apresentou á assemblea o relatório dos trabalhos da direcção durante o anno de 1839. Procedeo-se a eleicção da mesa, e sendo 180 os votantes pouco mais ou menos sahirão leitos {...}.
Passou-se á nomeação da Comissão de exame e contas, e sahirão eleitos os Srs. Drs. Pereira da Silva com 155 votos; Santos Jr. com 143 votos; Barbosa Guimarães com 120 votos; Eduardo Johnston com 96 votos; {...} (grifo nosso).
No tocante ao comércio efetuado pelo corretor Edward Johnston, destacamos dois despachos de exportação de couros para Nova York e Malta (protetorado inglês), nos anos de 1841 e 1842.48 Porém, nesse retorno de Edward Johnston ao Rio de Janeiro, destacamos a sua presença num abaixo-assinado de importantes comerciantes e firmas inglesas, além de outros negociantes estrangeiros (como americanos e suecos) e nacionais, referendando e legitimando o nome do negociante e um dos maiores traficantes de escravos do comércio ilegal pós-1831, o português Manoel Pinto da Fonseca, como assinante da Alfândega do Rio de Janeiro.49Esse documento, assim como outros abaixo-assinados de negociantes, reforçou a tese da participação dos comerciantes ingleses no tráfico negreiro, mesmo com a proibição de 1831.50
Edward Johnston chegou ao Rio de Janeiro em 1821 com 17 anos e foi trabalhar como clerk (caixeiro)
Como já ressaltado, a firma Edward Johnston & Co. foi fundada em 14 de setembro de 1842, na Rua do Sabão, nº 10, com um capital de 30 contos de réis.51 No entanto, se não tivemos muitas informações sobre William Joseph Havers,52 com relação ao negociante João Ignácio Tavares, outros documentos permitiram informações sobre a presença desse negociante e capitalista nacional. No Diário do Rio de Janeiro de 09 de agosto de 1834, João Ignácio Tavares apareceu como acionista da Caixa Econômica do Rio de Janeiro, fundada em 1834,53 juntamente com outros negociantes importantes da Praça do Rio de Janeiro, como João Pereira Darrigue Faro (segundo barão e primeiro visconde do Rio Bonito).54 Em 1838, João Ignácio Tavares foi citado como um dos capitalistas que compraram os títulos da dívida pública na Caixa de Amortização (criada em 1827),55 numa situação de conflito entre a Praça do Comércio do Rio de Janeiro e a decisão do ministro da fazenda, Miguel Calmon Du Pin e Almeida (Marquês de Abrantes), de suspender o leilão da dívida pública em 1838.56 Em suma, o negociante e capitalista João Ignácio Tavares era um indivíduo com atuação destacada na Praça do Rio de Janeiro nos anos 1830 e 1840, com um conhecimento e informação importantes para a sociedade comercial organizada por Edward Johnston.57
Em 1844, Edward Johnston retornou para Liverpool,58 deixando seus sócios à frente da firma no Rio de Janeiro, numa conjuntura de mudanças da relação do Brasil com a Grã-Bretanha devido à Tarifa Alves Branco de 1844 (Decreto nº 376, de 12 de agosto de 1944), que aumentou o imposto de importação sobre determinados produtos estrangeiros e outros.59 No seu retorno definitivo para a Inglaterra, comparando o leilão de móveis e utensílios da casa de Johnston em 1844 com os de 1838, fica bastante nítida a riqueza acumulada pelo negociante inglês nos últimos quatro anos. No jornal Diário do Rio de Janeiro de 17 de abril de 1844, saiu a seguinte notícia:
Campbelle & Greenwood fazem leilão hoje, quarta-feira, 17 do corrente, ás 10.horas e meia em ponto, na casa da residência do Sr. Eduardo Johnston, rua da Princesa n. 5 (no Catete) de toda a sua mui elegante mobília de mogmo maciço, mandada fazer de encomenda na Inglaterra, havendo entre ella um magnifico apparador de sala de jantar, mesa de jantar para 18 pessoas, mesas redondas e de jogo, cadeiras, espelhos grandes, toucadores, sofás, divans, commodas, guarda-roupas, com espelho grande de vestir (psyche), um superior piano forte do autor Broadood de Londres, um soberbo chiffonier, camas entre ellas uma de casados, de armação com cortinados, relógio com corda para 3 dias, um telescópio grande, um rico serviço de porcelana de mesa e outro de chá,um dito de dita branco, um plateaux de bronze, um riquíssimo lustre de 18 luzes, ricos candelabros, etc. todos pertencentes ao dito Sr. (grifo nosso).
Na cidade inglesa, Edward Johnston associou-se ao negociante Charles Ironside na firma Charles Ironside & Co., em 1845. A respeito de Charles Ironside, no período de 1820 a 1830, constituiu-se num importante comerciante inglês na Praça Comercial de Lisboa, realizando comércio com o Brasil e a Inglaterra, principalmente com Liverpool.61 Esse negociante teve um navio “aprisionado” no porto brasileiro de São Luís no período conturbado do pós-independência do Brasil. Dizia o documento:
Henry Chamberlain, Squire, Consul Geral de S. M.
{...}
Tradução nº 2: A Escuna Americana Ghest mestre Josuah Folger chegou de Lisboa em 28/02/1825, trazendo à consignação dos Srs. Edward T Eyton & C., negociante britânico desta Praça, mercadorias como se vê do conhecimento junto, carregadas por C. Ironside & C. de Lisboa, sendo o todo propriedade britânica, como mostra o certificado consular anexo.
{...}
Esta propriedade foi detida com pretexto de ter vindo do porto inimigo. R.H. Nota da carga embarcada por Charles Ironside & C. de Lisboa na Escuna americana Guest, mestre Josuah Folger, por sua conta e risco, como se vê no certificado consular.
Não sabemos quando Charles Ironside retornou para Liverpool.63 No entanto, ele também comercializou com o negociante inglês na Bahia, James Napier, na firma Ironside, Napier & Co.,64 cujo destrate aconteceu em 04 de março de 1845.65
A saída de João Ignácio Tavares da sociedade no Rio de Janeiro em 1845, “para desenvolver o trabalho de corretagem que Johnston considerava incompatível da firma, ou seja, concentrar no café”,66 as dificuldades na administração da firma no Rio de Janeiro após a morte de William Joseph Havers em 1847 e com o gerente Andrew Steele,67 assim como a crise de 1847, que afetou a praça de Liverpool,68 fizeram com que a associação de Edward Johnston com Ironside e Napier se consolidasse, e uma nova firma com os três sócios apareceu na Bahia, com o nome de Johnston, Napier & Co., com um capital de 12 mil libras esterlinas. Portanto, Edward Johnston tinha participação em três firmas, a saber: Edward Johnston & Co. (Rio de Janeiro), Charles Ironside & Co. (Liverpool) e Johnston, Napier & Co. (Salvador).69 A respeito dos negócios da Charles Ironside & Co., Marcus Guedes Vaz Sampaio destacou que essa firma construiu navios a vapor para a Companhia Santa Cruz, organizada na Bahia, e para o comércio da cabotagem.70
A fusão das firmas do Rio de Janeiro e da Bahia no início da década de 1850 fez com que Joseph Napier fosse para o Rio de Janeiro, onde passou a dirigir a Edward Johnston & Co. Com a crescente demanda por café, sobretudo nos Estados Unidos, principal importador do produto brasileiro,71 Edward Johnston e seus sócios abriram duas firmas nas cidades de Nova York e Nova Orleans, a Napier, Johnston & Co. e a Johnston, Moke & Co., respectivamente.72 Essas duas cidades/portos eram os principais centros importadores de café nos Estados Unidos, e, no caso de Nova Orleans, essa era a “porta de entrada” do café para o Vale do Mississipi.73
A crescente especialização da firma inglesa nas exportações do café bem como fatores relativos aos sócios promoveram mudanças na sociedade com Edward Johnston, privilegiando os filhos na direção das firmas no Brasil e em Nova Orleans.74 O desligamento de Charles Ironside da firma de Liverpool em 185375 fez com que Edward Johnston concedesse sociedade ao seu terceiro filho, Francis Johnston, na referida firma, que mudou sua razão social para Edward Johnston, Son & Co. em 1854.76
A firma Edward Johnston & Co. no comércio de exportação, 1842-1852
Analisando as exportações efetuadas pela firma Edward Johnston & Co. no período de 1842 a 1852, de um total de 324 despachos, somente oito não foram identificados.77 Desse total (Gráfico 3), verificamos que os produtos da pecuária, principalmente o couro do Rio Grande e algumas exportações do Rio da Prata, predominaram nos anos de 1842, 1843, 1844 e 1845.78 Embora aparecesse nas exportações desde 1842, somente em 1846 o café se tornou o principal produto e, mesmo assim, com um movimento bastante irregular nos anos seguintes, face aos problemas já analisados no período. Em 1851, houve um crescimento expressivo e, em 1852, um novo declínio.
As exportações feitas pela Edward Johnston & Co. foram muito semelhantes às de outras firmas estrangeiras, como a anglo-americana Maxwell Wright & Co. e as inglesas Carruthers & Co. e Samuel Phillips & Co.,79 demonstrando que, num primeiro momento, não se especializaram num só produto, e sim numa diversificação, o que veio ao encontro das análises de Graeme Milne sobre a diversificação do comércio das firmas de Liverpool em meados do século XIX.80
No tocante aos principais portos/cidades recebedores das exportações da firma Edward Johnston & Co. (Gráfico 4), destacaram-se em número de viagens os portos norte-americanos de Baltimore, com 55; Nova York, com 46; Nova Orleans, com 24; da Europa, os portos de Antuérpia, na Bélgica, com 20; Cowes, uma cidade portuária da Ilha de Wright, na Inglaterra,81 com 19; e Copenhague, Dinamarca, com 16. Os portos de Liverpool e Londres tiveram 14 e 12, respectivamente, e não estavam entre os seis principais portos importadores da firma no período. A firma exportou também para portos na Ásia, como os de Goa, com uma viagem,82 e Constantinopla, atual Istambul, com duas viagens.83
Cruzando as informações dos portos e produtos, tivemos informações bem interessantes. Os portos norte-americanos de Baltimore e Nova York receberam carregações de couro em 184484 e, somente em 1846 e 1849, respectivamente, passaram a receber café.85 Já Nova Orleans teve a sua primeira importação em 1845 e só recebeu café.86
Essa relação da firma com os portos norte-americanos de Baltimore, Nova York e Nova Orleans esclareceu ainda mais a leitura acerca do Sistema Atlântico de Mercadorias e da Segunda Escravidão.87 Richmond, capital da Virgínia, e Nova Orleans, capital da Louisiana até 1849,88 eram cidades/portos de dois importantes estados escravistas norte-americanos.89 Carlos Eduardo Valencia Villa chamou atenção para a conexão do Rio de Janeiro com o Sul Escravista dos Estados Unidos, através do comércio do café com pão, ou seja, o café do Brasil exportado do Rio de Janeiro para Richmond e a farinha de trigo produzida em Richmond, no Sul dos Estados Unidos, e exportada por Baltimore, Maryland, para o Rio de Janeiro. Era por meio do porto de Baltimore, que não estava localizado no Sul, e sim no Norte, que Richmond exportava farinha de trigo e importava café. Essa dependência de Richmond em relação ao Norte ficou ainda mais evidente com a não concretização da expansão do James River and Kanawha Canal, que possibilitaria a expansão do porto de Richmond ao Atlântico, e constituiu-se num dos “elementos que gerou tensões entre Richmond e o Norte” nos anos 1850, antes da Guerra Civil.90
Analisando-se os portos e os produtos exportados pela firma para a Europa, Antuérpia recebeu a primeira carregação em 1842, que foi de mil couros do Rio da Prata.91 Somente a partir de 1846, Antuérpia recebeu café, sendo a primeira carregação de 300 sacas,92 e esse produto tornou-se dominante desde então. Com relação aos portos de Cowes e Copenhague, o primeiro recebeu mil couros salgados e 15.444 chifres em 1844,93 produtos esses que continuaram sendo exportados para lá até 1847, quando, pela primeira vez, recebeu café, com 1.400 sacas.94 Com relação a Copenhague, a primeira carregação da firma chegou somente em 1849 e com 2 mil sacas de café.95 Esse porto só recebeu café.
No tocante aos portos de Londres e Liverpool, as primeiras exportações da firma ocorreram nos anos de 1842 e 1844, respectivamente, sendo o couro o único produto exportado.96 No período de 1844 a 1847, Liverpool recebeu, além do couro, chifres, couçoeiros, pranchões de cedro e táboas de construção. Esses últimos produtos, oriundos da exploração extensiva da Mata Atlântica,97 constituíram-se nos materiais não só para as construções das casas e sobrados, mas também para a indústria naval inglesa.98 O café no porto de Liverpool só apareceu em 1847, após a Lei de 1846 e, mesmo assim, não foi exclusivo, pois carregações de couros e chifres continuaram para o dito porto.99 Com relação a Londres, as exportações de couro e chifres predominaram de 1842 a 1844,100 e somente em 1847 verificou-se a primeira exportação de café para a capital da Grã-Bretanha.101 Até 1852, a firma só fez mais uma carregação de café para Londres.102
Considerações finais
A presença inglesa e sua relação com o Brasil já foi bastante debatida na historiografia. Contudo, importante ressaltar que a questão envolvendo os negócios dos comerciantes ingleses no Brasil e em outras regiões da economia internacional de meados do século XIX vem sendo revista e ampliada. Os estudos das firmas, das mudanças institucionais e das redes de negócios têm possibilitado uma análise mais aprofundada sobre a interação entre a firma/negociante (agente) e o mercado de atuação do mesmo. Numa perspectiva mais micro, porém não negando sua relação com o macro, historiadores e economistas criticaram uma leitura generalista sobre a atuação das firmas comerciais inglesas.
Essa relação da firma com os portos norte-americanos de Baltimore, Nova York e Nova Orleans esclareceu ainda mais a leitura acerca do Sistema Atlântico de Mercadorias e da Segunda Escravidão
Organizadas muitas vezes sob a forma de “propriedade familiar, inseridas em uma densa rede de intercâmbio comercial”,103 lembrando muito mais as sociedades comerciais descentralizadas do que a moderna empresa integralizada verticalmente, conforme destacou Alfred Chandler para o caso americano,104 as firmas inglesas, como a de Edward Johnston, cresceram e competiram no mercado mundial em expansão em meados do século XIX. Isso significou a adoção de estratégias e ações que permitiram a sua sobrevivência e expansão, em vez da derrocada e liquidação.
Os primeiros dez anos da firma de Edward Johnston não foram fáceis. Mesmo atuando no mercado “carioca” desde os anos de 1820, ao organizar a firma Edward Johnston & Co., ele precisou se associar com o negociante inglês William Joseph Havers e com o negociante nacional João Ignácio Tavares, este último com um bom trânsito na Praça. No seu retorno em definitivo para a Inglaterra, em 1844, Edward Johnston viu o seu negócio passar por problemas de organização em virtude da saída de um sócio e falecimento do outro, bem como da crise de 1847, que afetou Liverpool. As soluções encontradas foram manter a firma no Brasil, expandir as atividades mercantis em sociedade com negociantes estabelecidos na Praça de Liverpool, como Charles Ironside, com a firma Charles Ironside & Co., e privilegiar cada vez mais a especialização da firma nas exportações do café.
No tocante às exportações da firma, a diversificação das exportações de couro, chifres, café e outros, constituiu-se numa estratégia importante nos primeiros anos da firma, diferentemente do que afirmou Greenhill: “às vezes carregamentos de couros e charques do Rio da Prata e do Sul do Brasil eram embarcados, desde que não contaminassem os de café”.105 O principal mercado consumidor foi os Estados Unidos e, na Europa, destacaram-se os portos de Antuérpia e Copenhague. A Grã-Bretanha, “terra natal” de Edward Johnston, não se constituiu no principal mercado consumidor nos primeiros dez anos da firma, mesmo contabilizando as importações de Cowes, Liverpool e Londres. No caso específico do café, ficou explícita a importância da Lei de 1846 para as exportações do produto para Londres e Liverpool, e o Sul Escravista dos Estados Unidos constituiu-se no principal mercado consumidor desse produto. Como destacou Edward Johnston em carta para James Napier, em 1847, “o comércio norte-americano {...} provavelmente será um emprego mais lucrativo para o nosso capital”.106






Fonte: Edmar Bacha, “Política brasileira do café. Uma avaliação centenária”, In: Edmar Bacha; Robert Greenhill, Marcelino Martins & E. Johsnton: 150 anos de café, 2. ed. rev., São Paulo, Salamandra Cons. Editorial, 1992,p. 324-325 (apêndice estatístico, tabela 1.6).
Fonte: Luiz Fernando Saraiva, O império das Gerais: café e poder na Zona da Mata mineira, 1853-1893, Tese de doutorado, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2008, p. 223.
Fonte:
Fonte: “Commercio”, Jornal do Commercio, 1842-1852. Café: sacas de 60 kg; couro e chifres: em unidades; outros: em unidades. Outros: mercadorias como couçoeiros de jacarandá (couçoeira: madeira grossa para ser desdobrada ou aparelhada), pranchões de cedro e barricas de tapioca.
Fonte: Gráfico 3