Open-access “SEJA INDETECTÁVEL”: A PALAVRA DE ORDEM DA INDETECTABILIDADE NO ATIVISMO DIGITAL DO HIV/AIDS

“BE UNDETECTABLE”: THE WATCHWORD OF UNDETECTABILITY IN DIGITAL HIV/AIDS ACTIVISM

RESUMO

Desde a segunda metade da década de 2010, a ciência biomédica alcançou a indetectabilidade, que significa a supressão da carga viral do HIV no sangue, por meio da terapia antirretroviral (TARV), e a intransmissibilidade (I=I) desse vírus por contato sexual. Tal acontecimento tem suscitado impactos no ativismo do HIV/Aids, que, em grande medida por conta da indetectabilidade, tem extravasado sua atuação para além das redes e ONGs/Aids e povoado, na forma de “enxames digitais”, redes sociais como o Instagram. Nesse artigo, analisamos duas publicações do ativista digital Lucian Ambrós (@posithividades) nessa rede social, nas quais se dá ênfase ao “indetectável” como nova categoria subjetiva vinculada à epidemia de HIV/Aids. Por meio de uma cartografia, analisamos seus enunciados como atos de fala e como palavras de ordem que buscam efetivar uma nova subjetividade num “grito de fuga” contra a sentença de morte do estigma. Noutro momento, sublinhamos, por meio da análise de um ato de fala da ativista Vanessa Campos (@soroposidhiva), um ponto de tensão relativo ao uso dessa categoria biomédica como categoria subjetiva e demarcamos o vínculo desse “ativismo digital indetectável” com uma razão neoliberal, que, a pretexto de criar mecanismos de sobrevivência, tem transformado o ativismo do HIV/Aids num tipo de empreendimento.

Palavras-chave:
HIV/Aids; ativismo; atos de fala; palavra de ordem; razão neoliberal

ABSTRACT

Since the second half of the 2010s, biomedical science has achieved undetectability, which means the suppression of the viral load of HIV in the blood, through antiretroviral therapy (ART), and the untransmissibility (U=U) of this virus through sexual contact. This event has begotten impacts on HIV/AIDS activism, which, largely due to undetectability, has extend its activities beyond networks and NGOs/Aids and occupied, in the form of “digital swarms”, social networks such as Instagram. In this article, we analyze two publications by digital activist Lucian Ambrós (@posithividades) on this social network, in which “undetectable” is emphasized as a new subjective category linked to the HIV/Aids epidemic. Through cartography, we analyzed his statements as speech acts and watchwords that seek to effect a new subjectivity in a “cry for escape” against the “death sentence” of stigma. At another point, we highlight, through the analysis of a speech act by the activist Vanessa Campos, a point of tension regarding the use of this biomedical category as subjective category. We demarcate the link of this “undetectable digital activism” with a neoliberal reason which, under the pretext of creating survival mechanisms, has transformed HIV/Aids activism into a type of enterprise.

Keywords:
HIV/AIDS; activism; speech acts; watchwords; neoliberal reason

INTRODUÇÃO

No dia 30 de outubro de 2022, Lucian Ambrós, ativista digital do HIV/Aids, publicou o seguinte post em seu perfil @posithividades no Instagram:

Figura 1
Post “Seja indetectável” (@posithividades)

Fotografado num ângulo “de baixo para cima”, nessa arte, Lucian aparenta ser bem alto; ele veste calça e camiseta azuis e faz uma pose com as palmas das mãos abertas e o corpo levemente inclinado para baixo, como se estivesse surfando ou escalando uma montanha. Há um leve sorriso em seu rosto. No fundo, destaca-se o vermelho, muito associado à história semiótica do HIV/Aids, remetendo primordialmente ao sangue. Sobre sua imagem, uma legenda em caixa alta enuncia: “Você é maior que o HIV, controle ele! Seja Indetectável”.

Desde a segunda metade da década de 2010, por meio de estudos como o Partner 1 (Rodger et al., 2016) envolvendo casais sorodiferentes, ou seja, casais em que umas das pessoas têm o vírus HIV e a outra não, a ciência biomédica proferiu um ato de fala (Austin, 1990) que acarretou efeitos de verdade transformadores no agenciamento coletivo de enunciação3 (Deleuze; Guattari, 1995b) do HIV/Aids: Indetectável = Intransmissível (I=I). Ou seja, se uma pessoa que vive com HIV tem “boa” adesão à terapia antirretroviral (TARV), após aproximadamente 6 meses de tratamento, sua carga viral é reduzida a tal ponto que se torna indetectável pelos testes laboratoriais padrões; no patamar indetectável, essa pessoa é também intransmissível, isto é, não transmite o HIV via relações sexuais.

Apesar de ter frustrado as expectativas de uma cura biomédica definitiva, a notícia foi celebrada pela maioria das pessoas vivendo com HIV/Aids. Paralelamente à emergência de novas biotecnologias como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), a indetectabilidade foi um dos acontecimentos que redesenharam o modelo preventivo do HIV/Aids por parte do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids, 2018). Desde a década passada, a prevenção é pensada sob uma nova palavra de ordem (Deleuze; Guattari, 1995b), a “prevenção combinada”, que ganha expressão por meio de uma “mandala4” na qual constam todas as possibilidades de prevenção não só ao HIV, mas também a outras Infecções Sexualmente Transmissíveis5 (ISTs).

Mudanças no plano das biotecnologias incitam mudanças no plano das práticas discursivas - sobretudo em se tratando de HIV/Aids, uma epidemia que, desde a sua emergência nos anos 1980, foi percebida como, para além de um problema sanitário, também uma “epidemia de significações” (Treichler, 1987). Pensando nisso, é inevitável conectar o “aparecimento” desse novo discurso preventivo com a emergência de novos ativismos do HIV/Aids, de que Lucian Ambrós é um exemplo vivo. Na condição de uma doença atravessada por um estigma (Goffman, 2008; Parker; Aggleton, 2001), que, a despeito das muitas mudanças por que a epidemia passou ao longo de mais de 40 anos, perdura até os dias de hoje, o HIV ainda é vivido por muitos como uma “doença segredo” (Inácio, 2016). Em contrapartida, temos testemunhado, ao longo da última década, uma crescente quebra do silêncio por parte de algumas pessoas vivendo com HIV/Aids6. O pano de fundo dessa ruptura são sites e redes sociais como o YouTube e o Instagram. Rompendo com o sigilo sorológico garantido por lei7, essas pessoas, frequentemente, passam a se engajar numa “função ativista do HIV/Aids”, outrora exercida exclusivamente pelas redes e ONGs/Aids (Ferreira; Castelo-Branco, 2019; 2021; Valle, 2002), com as quais muitos desses sujeitos, a exemplo do próprio Lucian, não têm vínculos. Trata-se de um ativismo que, em grande medida, encontra na palavra de ordem da indetectabilidade um sustentáculo micropolítico (Guattari; Rolnik, 1995) tático de luta contra o estigma. Não é um movimento social à maneira daquelas instituições, mas um enxame digital (Han, 2018) - descentralizado e desierarquizado - que passa a se engajar em práticas, como a divulgação científica e a “ajuda mútua”, tradicionalmente relacionadas ao ativismo das organizações não governamentais do HIV/Aids (ONGs/Aids) (Pelúcio, 2007).

Nesse artigo, nos debruçamos sobre a performance ativista “indetectável” de Lucian Ambrós em seu perfil @posithividades. Aliando-nos a uma perspectiva indisciplinar (Moita Lopes, 2006) da Linguística Aplicada (LA), embora essa pesquisa não se vincule diretamente ao escopo dos estudos queer, aproxima-se de uma mirada pós-identitária contemplada por uma linguística queer (Borba, 2015; Hall; Levon; Milani, 2019) e, mais especialmente, dialoga com estudos sobre HIV/Aids realizados em LA (Lima, 2014; Butturi Junior, 2019; Ferreira; Castelo-Branco, 2019, 2021). A partir desse paradigma, na primeira seção, fazemos uma discussão sobre os conceitos de performatividade (Austin, 1990) e palavra de ordem (Deleuze; Guattari, 1995b); este último conceito é uma crítica da linguagem que a aborda sob uma ambivalência: sentença de morte e grito de fuga. Relacionamos a sentença de morte da palavra de ordem à sentença de morte com que a Aids foi nomeada quando de sua emergência na esfera da saúde pública (Sontag, 2007). Assimilamos a renitência do estigma (Melo, 2024) à renitência da sentença, todavia, o “agenciamento ativista” (Castelo-Branco, 2016), em seu trabalho de retirar o HIV/Aids da “política de silêncio” (Orlandi, 2007), é perspectivado por nós como um grito de fuga deleuze-guattariano. Na segunda seção, narramos o processo de cartografia (Deleuze; Guattari, 1995a) dos ativismos digitais do HIV/Aids no Instagram, relacionando essa prática à pesquisa em uma LA “transfronteiras” (Fabrício, 2006) e à pesquisa sobre HIV/Aids. Na última seção, analisamos dois posts de Lucian Ambrós, assinalando seus atos de fala (Austin, 1990) enquanto palavras de ordem (Deleuze; Guattari, 1995b) relacionados a um agenciamento ativista “indetectável”. Em seguida, por meio da análise de um ato de fala da ativista Vanessa Campos (@soroposidhiva), liderança da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+/CE) e ativista digital, demarcamos um ponto de tensão relativo ao uso desta categoria biomédica como categoria subjetiva em ativistas como Lucian Ambrós. Na sequência, relacionamos sua “função ativista” a uma razão neoliberal (Dardot; Laval, 2016) sobre o campo do ativismo HIV/Aids, que tem transformado uma função política - como já pontuado, antes da alçada exclusiva das ONGs/Aids - numa forma de empreendimento. Com esse ativismo “profissional”, além de combater o estigma por meio da divulgação científica dos métodos da prevenção combinada, a pretexto de criar táticas de sobrevivência (Lopes; Facina; Silva, 2019), são produzidos modos diversos de capitalização da vida (Pelbart, 2011) a partir da vivência com o vírus.

PERFORMATIVIDADE E PALAVRA DE ORDEM

Austin e uma visão performativa da linguagem

John Langshaw Austin (1990) é um acontecimento não só na filosofia da linguagem, mas na filosofia do século XX. Fazemos essa afirmação inspirados em uma citação de Deleuze e Guattari (2010) a propósito da relação entre filosofia, criação de conceitos e acontecimentos:

A grandeza de uma filosofia avalia-se pela natureza dos acontecimentos aos quais seus conceitos nos convocam, ou que ela nos torna capazes de depurar em conceitos. Portanto, é necessário experimentar em seus mínimos detalhes o vínculo único, exclusivo, dos conceitos com a filosofia como disciplina criadora. O conceito pertence à filosofia e só a ela pertence. (p. 43)

Se o pensamento austiniano é um acontecimento, isso diz respeito, sobretudo, à inclinação disruptiva do conceito de ato performativo (Austin, 1990) criado por esse filósofo. A partir desse “personagem conceitual”, como diriam Deleuze e Guattari (2010), Austin abre um caminho revolucionário para se pensar a linguagem para além da representação, chave hegemônica a partir da qual ela foi abordada pelo establishment filosófico, desde a tradição socrático-platônica até a virada linguística fregeana (Oliveira, 1996). A partir do ato ilocucionário - “realização de um ato ao dizer algo, em oposição à realização de um ato de dizer algo” (Austin, 1990, p. 89 - grifos do autor) -, este filósofo da linguagem ordinária nos possibilita pensar a linguagem não mais como um decalque de um mundo supostamente já dado, mas como uma dimensão inseparável da práxis, ou seja, da prática e da ação linguística.

Na XI conferência de How to do things with words, Austin questiona o binômio constativo/performativo com o qual introduzira sua discussão na primeira conferência. Com o ato constativo, como o próprio nome indica, constatam-se, reconhecem-se estados de coisas no mundo; com o performativo, realizam-se ações. Tal dicotomia é desfeita por sua retórica ziguezagueante, na medida em que ele passa a entender que “declarar algo é realizar um ato ilocucionário” (p. 112) do mesmo tipo de prometer, julgar ou apostar. Um proferimento como “Faz um dia ensolarado” pode estar sujeito ao crivo do verdadeiro/falso, mas também ao crivo da felicidade/infelicidade, pois, para que seja bem-sucedido, precisa atender a critérios como crença na asserção, convencionalidade, circunstâncias adequadas etc. Conquanto não satisfaça tais exigências, a declaração é considerada nula ou infeliz. No entanto, alerta-nos Austin, a fim de situar a declaração (ou “ato constativo”) na esfera de uma actancialidade, é preciso examinar não a sentença, “mas o ato de emitir um proferimento numa situação linguística” (p. 115). E mais:

A verdade ou falsidade de uma declaração não depende unicamente do significado das palavras, mas também do tipo de atos que, ao proferi-las, estamos realizando e das circunstâncias em que os realizamos (p. 119).

Ao fim e ao cabo, resta o “ato performativo”, que, a esta altura da discussão, já não deve ser compreendido em oposição ao “ato constativo”, mas como o lugar desde qual toda a linguagem deve ser mirada. Tal insight de Austin é o que dá ensejo para que Ottoni (1998) encontre nesta filosofia uma “visão performativa da linguagem”. A partir dessa torção, todo dizer passa a ser um fazer. Todavia, como denuncia Rajagopalan (2010), com o falecimento prematuro de Austin, tal compreensão radicalmente pragmática da linguagem foi recalcada por apropriações formalistas e cientificistas da performatividade. O caso mais notável é o do filósofo estadunidense John Searle, que, tendo se colocado como um “sucessor natural” do mestre de Oxford, operacionalizou este pensamento em torno de uma “teoria dos atos de fala”, rótulo através do qual ele se tornou mais popularizado. O combate a esse sequestro da performatividade austiniana é um dos fatores que justificam, por parte de Rajagopalan, a criação de uma nova “escola”, a Nova Pragmática, que visa resgatar o potencial rebelde dessa filosofia, também intuído por diversos filósofos definitivamente mais preocupados com outros assuntos que não a linguagem, mas que reconhecem em Austin o irromper de um acontecimento que faz extrapolar a filosofia da linguagem para outros campos, como, por exemplo, a vida.

Palavra de ordem: sentença de morte e grito de fuga

Entre os filósofos que, como Austin, se interessam por esse resgate do potencial rebelde da filosofia, estão os já aludidos pós-estruturalistas Deleuze e Guattari (1995b). Em texto intitulado “20 de novembro de 1923 - Postulados da Linguística”, do livro Mil Platôs, os autores empreendem um diálogo com a performatividade austiniana, relacionando-a à questão linguagem e vida8. Para estes pensadores, “a linguagem não é a vida, ela dá ordens à vida; a vida não fala, ela escuta e aguarda” (p. 13). Com essa frase de tom aforístico, demarcamos, então, o ponto de vista crítico que Deleuze e Guattari têm relativamente à linguagem. Isso se explica diante da oposição que eles fazem ao “megaparadigma” estruturalista (Peters, 2000) e à virada linguística na filosofia (Oliveira, 1996), epistemologias responsáveis por alçarem a linguagem à condição de cavaleiro de todos os modos de expressão. Se recorrem a Austin, portanto, é porque, embora sabendo que se trata de um filósofo da linguagem, pressentem neste autor uma espécie de “saída de emergência” em relação à clausura com que as referidas epistemologias encerraram a vida, tomando por chave (de prisão) a linguagem. Com os atos de fala - ou “pressupostos implícitos não discursivos”, como se referem Deleuze e Guattari (1995b) -, segundo estes autores, Austin põe em jogo três consequências irreversíveis:

  • i) A impossibilidade de conceber a linguagem como um código e a fala como a comunicação de uma informação, visto que “ordenar, interrogar, prometer, afirmar, não é informar um comando, uma dúvida, um compromisso, uma asserção, mas efetuar esses atos específicos imanentes” (p. 15);

  • ii) “A impossibilidade de definir uma semântica, uma sintaxe ou mesmo uma fonemática, como zonas científicas que seriam independentes da pragmática” (p. 15); despojando esta da condição de mero “apêndice” da linguística, como foi tratada por muitas décadas, ao situá-la como pressuposto de todas as outras dimensões;

  • iii) A impossibilidade de sustentação da dicotomia saussureana língua/fala, “visto que a fala não pode mais ser definida pela simples utilização individual e extrínseca de uma significação primeira, ou pela aplicação variável de uma sintaxe prévia” (p. 15).

Depois de Austin, tornou-se insustentável definir a linguagem como código e, portanto, o caminho a se seguir é o de uma pragmática que suspenda a soberania do regime significante (Foucault, 2012) e abranja uma miríade de modos de expressão e de produção de subjetividade(s) (Guattari; Rolnik, 1995) hoje mais facilmente identificáveis no regime de “servidão maquínica” (Lazzarato, 2014) em que vivemos. Em outras palavras, o que está atualmente em jogo com a onipresença da máquina na chamada “internet das coisas” (Santaella et. al., 2013) não é mais exclusivamente da ordem do significante saussureano, mas diz respeito também a expressividades pré, pós e assignificantes (Lazzarato, 2014) que, em linguística9 (aplicada) e em filosofia, só podem ser contempladas através de uma pragmática radical ou uma “pragmática menor” (Almeida, 2003) interessada não em interpretar, mas em cartografar (Deleuze; Guattari, 1995a) os (des)caminhos da relação entre a linguagem e a vida.

E como Austin (1990) ressoa nessa discussão? Através do ato performativo, Deleuze e Guattari (1995b) chegam até a palavra de ordem, conceito criado por eles, em primeiro lugar, como tática crítica em relação à tirania que o linguístico exerce sobre a vida. Essa “faculdade abominável” (p. 12), uma função coextensiva à linguagem, pois indispensável ao seu funcionamento, diz respeito à

[...] relação de qualquer palavra ou qualquer enunciado com pressupostos implícitos, ou seja, com atos de fala que se realizam no enunciado, e que podem se realizar apenas nele. As palavras de ordem não remetem, então, somente aos comandos, mas a todos os atos que estão ligados aos enunciados por uma “obrigação social”. Não existe enunciado que não apresente esse vínculo, direta ou indiretamente. Uma pergunta, uma promessa, são palavras de ordem. A linguagem só pode ser definida pelo conjunto das palavras de ordem, pressupostos implícitos ou atos de fala que percorrem uma língua em um dado momento (p. 17).

Ora, se, a partir de Austin, a linguagem não só representa, mas age, é sobre a vida que ela age. E, na maioria das vezes, de acordo com estes filósofos, ela é uma “sentença de morte”. Sob essa valência, a palavra de ordem designaria “as transformações incorpóreas pelas quais os corpos limitam-se, separam-se, interditam-se, formam figuras, ganham contornos claros e estáveis” (Almeida, 2003, p. 82). Essa sentença de morte intrínseca a toda palavra é inspirada na literatura de Kafka, autor que, talvez como nenhum outro, se embrenhou no universo jurídico e mostrou, segundo Deleuze e Guattari (2014), como este campo exponencia o processo injuntivo que a linguagem encerra sobre a vida, despachando-nos significações violentas que moldam nossas experiências enquanto “sujeitos10”. A “forma-homem”, como argumenta Foucault (2014a), é talhada por dispositivos de saberes-poderes diversos que intervieram para majorar as forças da vida, processo que este autor chama de biopolítica; a rigor, tais dispositivos da modernidade ditam aquilo que somos, a tal ponto que nos definimos através do vocabulário que eles nos ofertam: medicina, biologia, geografia, linguística etc. Deleuze e Guattari (1995b) preferem chamar tais dispositivos de “agenciamentos”, os quais possuem duas dimensões em pressuposição recíproca: os agenciamentos maquínicos do desejo e os agenciamentos coletivos de enunciação. As palavras de ordem estão vinculadas a estes últimos, sendo suas “variáveis”; cartografá-las é remetê-las a agenciamentos e, portanto, a produções de significados e subjetividades.

Mas, apesar da hegemônica sentença de morte, a palavra, enquanto palavra de ordem, também contém poros por onde é possível escapar. Trata-se dos gritos de fuga, um modo menor onde a palavra já não dá ordens à vida, mas segue um continuum de variação com potencial para transformar substâncias, dissolver formas, imprimir outros sentidos. Uma expressão agramatical (Almeida, 2003) que realiza um devir-minoritário (Deleuze; Guattari, 1995b) da/na língua, em que esta, furtando-se à identidade das constantes e abrindo-se à diferenciação, dilata-se para a deriva dos processos criativos. Certamente, a literatura é um campo privilegiado de emissão desses gritos de fuga; entretanto, a linguagem ordinária, linguagem que falamos no dia a dia, é também fonte de devires-minoritários expressos por meio de variações, gírias, desvios e prosódias que resistem à imposição da língua enquanto sistema e enquanto sentença de morte. Estar atento a sentenças e gritos é, em partes, uma tarefa comum de linguistas aplicados, pragmaticistas e cartógrafos.

Aids e sentença de morte

Se trazemos esse debate sobre performatividade e palavra de ordem à baila, é porque, na história das epidemias, poucos acontecimentos sanitários receberam tão explicitamente o rótulo de “sentença de morte” do que a Aids quando de seu surgimento nos anos 1980. Tendo sido associada à metáfora da “peste” e sido referida mais especificamente como uma “peste gay”, como aponta Sontag (2007), à Aids foram associadas imagens de condenação e castigo por comportamentos “desviantes” em relação à moral cis-hétero-branca-patriarcal. A rapidez com que o corpo orgânico definhava em virtude da síndrome e da então falta de tratamentos disponíveis não justificava o carimbo; se há sentença, é porque há uma “entidade” - no caso, um agenciamento coletivo de enunciação (Deleuze; Guattari, 1995b) - que sentencia.

Durante a primeira década, foram inúmeras as sentenças em forma de palavras. Não só os discursos religiosos, mas também os próprios discursos da ciência médica exalavam preconceitos contra a comunidade “homossexual” (Pollak, 1990), então a mais infectada pelo HIV. No Brasil, tal sentenciamento só começou a ser subvertido a partir da criação das primeiras ONGs/Aids brasileiras. A primeira delas foi o Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (GAPA/SP), em 1985; em 1987, foi fundada, por Herbert de Souza, o Betinho, a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA); e, em 1989, foi fundado, por Herbert Daniel, o Grupo pela Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids (Grupo Pela Vidda/RJ) (Galvão, 2002). Porque tais organizações lutavam contra o que Herbert Daniel chamava de “morte civil” (Daniel; Parker, 1991) causada pelo estigma, nós as entendemos como os primeiros gritos de fuga da história da Aids no Brasil. A partir de seu surgimento, elas passam a reivindicar um lugar no agenciamento coletivo de enunciação do HIV/Aids e a produzir novas palavras de ordem como micropolíticas (Guattari; Rolnik, 1995) de solidariedade em oposição ao estigma e ao preconceito.

Quase 40 anos após a criação da primeira ONG/Aids brasileira, a despeito dos progressos biomédicos por que o tratamento das pessoas vivendo com HIV/Aids passou ao longo do tempo11, o HIV e a Aids ainda persistem como realidades preocupantes. Se, segundo a lei, a TARV é universal e gratuita para todos os brasileiros vivendo com HIV, ela, no entanto, por diversas razões, não é acessível e “exequível” a todos, visto que, no Brasil, morrem, em média, de 10.000 a 13.000 pessoas por ano por complicações relacionadas à Aids12. Além disso, o estigma persiste como “epidemia cultural” (Parker; Aggleton, 2001), porém, fatores como a indetectabilidade; a ampliação dos métodos de prevenção; a transformação da sorofobia em crime no Brasil em 2014 (Brasil, 2014); e as oportunidades ensejadas pelas redes sociais têm exercido influência cada vez maior na quebra do silêncio em relação à vivência com o vírus. Como veremos na seção 3, o ativismo de Lucian Ambrós, que aqui analisamos e apresentamos como parte de uma pesquisa de doutorado em andamento intitulada Cartografias Posit(h)ivas: ativismos digitais do HIV/Aids, é exemplo dessa tendência recente da epidemia. Analisaremos como as palavras de ordem mobilizadas por esse influenciador digital buscam efetuar um novo ativismo do HIV/Aids, demarcando a ambivalência sentença/grito que as contornam.

LINGUÍSTICA APLICADA, CARTOGRAFIA E HIV/AIDS: UM AGENCIAMENTO TRANSFRONTEIRAS

Fabrício (2006), ao reivindicar uma Linguística Aplicada (LA) como espaço de “desaprendizagem”, descreve essa área como

[...] uma forma de vida que, em lugar de investir na delimitação de um perfil disciplinar claramente contornado, passa a apostar no diálogo transfronteiras (envolvendo diversas áreas e diferentes modos de produção de conhecimento) e a assimilar a metáfora da trama como modo de conhecer - entendendo que o conhecimento produzido e as “verdades” a ele atribuídas são deste mundo, fabricados pela própria sociedade que neles se apoia. (p. 52 - grifo nosso)

Em aliança com essa visão sobre a LA, a discussão que aqui apresentamos, recorte da pesquisa de doutorado já referida acima, aposta na cartografia de Deleuze e Guattari (1995a) - dois pensadores que, ainda que escrevam na perspectiva da filosofia, são altamente “transfronteiras” - como inspiração metodológica para investigar o recente fenômeno dos ativismos digitais do HIV/Aids nas redes sociais. No entanto, a cartografia não é um método, mas um paradigma, ou, para ser mais específico, um (anti)princípio que emerge no rastro do conceito de rizoma, de Deleuze e Guattari. Para Passos, Kastrup e Escóssia (2010), a cartografia seria rigorosamente até um “antimétodo”, uma vez que se constitui na reversão da ideia contida na etimologia da palavra “metodologia”, metá-hódos, em que metá significa “meta” e hódos, “caminho”: ou seja, uma perspectiva em que o caminho é traçado pelas metas dadas de partida. Inversamente, na atitude cartográfica, é mais coerente se falar em um hódos-metá, em que o caminho é quem tem primazia sobre as metas, orientando a construção do campo a partir das forças e intensidades que despontam na “aventura” de uma pesquisa cartográfica.

Partimos com um único objetivo a tiracolo: “cartografar agenciamentos ativistas do HIV/Aids no Instagram”. Os conceitos de atos de fala e de palavra de ordem estavam no bojo dos agenciamentos e, não de modo sistemático, mas, sempre que necessário, os usaríamos como “ferramentas” (Deleuze; Guattari, 2010) que nos orientassem na produção de narrativas sobre um campo que não estava dado, mas que se insinuava através de uma miríade de forças e intensidades - textos, posts, imagens, reels, memes, hashtags etc - convocando nossos corpos a pensar com elas. O ano era 2021 e ainda estávamos em isolamento social devido à pandemia de covid-19; fazer pesquisa on-line, portanto, se mostrou o caminho mais viável para sobreviver àquele tempo tenebroso e construir conhecimento a partir de um campo que, devido à pandemia, estava ganhando maior visibilidade. Poderíamos ter escolhido outras redes sociais, como o TikTok ou o Twitter, mas, como já tínhamos contas no Instagram, optamos por essa rede social e, já de cara, à medida que começávamos a seguir novas contas de “influenciadores digitais do HIV/Aids”, como então chamávamos, íamos nos deparando com outras. A discussão de Byung-Chul Han (2018) sobre o digital nos tempos atuais nos fez entender que estávamos diante não de um “movimento social”, como por exemplo uma rede ou ONG/Aids, mas de um “enxame digital”, que passamos a chamar de “enxame digital do HIV/Aids”. Mas justamente por essa proliferação “rizomática” (Deleuze; Guattari, 1995a), ou seja, a-centrada e assistemática, de perfis, nos pareceu mais potencialmente enriquecedor criar uma conta para a própria pesquisa; e assim o fizemos, abrindo o perfil @cartografiasposithivas, a partir do qual observávamos a movimentação dos ativistas, salvando seus posts, fazendo printscreens, armazenando-os em pastas no computador e escrevendo relatos e análises pontuais em nosso “diário de bordo”.

Porém, à medida que íamos criando maior intimidade com aqueles perfis, fomos nos sentindo convocados a habitá-los por maior tempo, a fim de estabelecer uma temporalidade diferente para a pesquisa. Anteriormente, sem nos determos especialmente em nenhum ativista, estávamos submetidos ao vaivém de publicações a esmo, altamente voláteis e, às vezes de tão apelativas para chamar nossa atenção num contexto em que estávamos intensamente expostos às telas dos nossos gadgets por causa da pandemia, com um potencial de afecção - ou seja, de afectar e ser afectado (Pelbart, 2008) - diminuído. Tínhamos à disposição muitos nomes, mas optamos por habitar primeiramente o perfil de Lucian Ambrós (@posithividades) por captarmos nele um componente gritante de “profissionalismo” que fazia, a nossos olhos, o seu ativismo digital destacar-se dos outros perfis. Para se ter uma ideia, naquele momento, além de uma quantidade impressionante de seguidores, ele tinha uma loja on-line onde comercializava produtos como camisetas e porta-remédios - que ele chamava de “jujubex”, objeto no qual se colocam as “jujubas”, codinome para os ARVs (antirretrovirais) - alusivos à vivência com HIV. Além disso, e talvez até mais importante para nós naquele momento, de todos os ativistas digitais do HIV/Aids, Lucian era o que dava maior ênfase ao “indetectável”, utilizando-o como categoria subjetiva ou como “identidade clínica” (Valle, 2002), em contraponto a outros ativistas, que, embora fizessem alusão ao “I=I”, preferiam e preferem se autodenominar como pessoas vivendo com HIV (PVHIV) ou pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA)13.

Visto que nosso interesse estava voltado à cartografia de agenciamentos ativistas, depois do @posithividades de Lucian Ambrós, ainda habitamos outros perfis, por exemplo, o de Evandro Manchini (@evandromanchini), Vanessa Campos (@soroposidhiva), Sabrina Luz (@sabrinaluz_pessoa), Djair Gomes (@soudjair), entre outros. Todavia, em determinado momento, a tática da habitação foi dando sinais de esgotamento, na medida em que os discursos dos ativistas começavam a se repetir, mostrando semelhanças recorrentes no tom e na escolha das palavras de ordem. Obviamente, captamos alguns pontos de divergência entre os discursos desses influenciadores digitais, contudo, intuímos que estes poderiam ser mais bem dimensionados em conversas “tela-a-tela”. Foi aí que começamos a entrar em contato com eles, no que, na maioria das vezes, fomos bem-sucedidos. Como sinalizam Tedesco, Sade e Caliman (2014, p. 97):

[...] a entrevista na cartografia não visa exclusivamente à informação, isto é, ao conteúdo do dito, e sim ao acesso à experiência em suas duas dimensões, de formas e de forças, de modo que a fala seja acompanhada como emergência na/da experiência, e não como representação.

Entendida sob uma ótica performativa (Austin, 1990), a entrevista14 é uma ferramenta de construção da cartografia e possibilita acessar outros vetores de força que não estão visíveis no feed onde até então estávamos fazendo pesquisa. A partir delas, pudemos delinear um entendimento mais concreto acerca do enxame digital do HIV/Aids: seus agenciamentos, atos de fala e palavras de ordem.

Por último, mas não menos importante: falávamos anteriormente sobre uma miríade de forças e intensidades que convocavam nossos corpos a pensar com elas e a construir um campo a partir do caminhar (ético) de uma cartografia. É preciso que se acrescente, no entanto, que nossos corpos não são corpos diagnosticados com o vírus HIV. Ao enunciarmos isso, um efeito perlocucionário (Austin, 1990) costuma ser suscitado na forma de uma interrogação suspeita: “por que então pesquisar esse tema?”; no que costumamos responder: HIV/Aids é um assunto que nos atravessa em nossas experiências como seres vivos humanos que amam, gozam, sofrem, sentem dores, tristezas e alegrias. O mecanismo renitente que faz com que esta seja uma “doença do outro” (Sontag, 2007), frequentemente chamado de estigma (Melo, 2024), é algo que essa cartografia, ao produzir discursos com os ativistas participantes da pesquisa, busca a seu modo combater. Aqui, o estigma é pensado na chave de uma “sentença de morte” (Deleuze; Guattari, 1995b) imposta com a palavra de ordem do HIV/Aids, contra a qual os ativismos que acompanhamos se insurgem e, nesses insurgires singulares, emitem seus “gritos de fuga”. Retirar o HIV/Aids da “política do silêncio” (Orlandi, 2007) a que o estigma-sentença lhe impõe é, de algum modo gritar; e isso é o que acreditamos fazer em confluência com os ativistas que povoam essa cartografia.

Se, para retomar Fabrício (2006), a Linguística Aplicada é uma “forma de vida” transfronteiras, a cartografia, como prática de pesquisa crítica e transversal (Passos; Kastrup; Escóssia, 2010), e o HIV/Aids, como assunto de todos, todas e todes, são dimensões transbordantes que se interseccionam nessa pesquisa - ela mesma um agenciamento. A seguir, através dos atos de fala e das palavras de ordem de Lucian Ambrós, desenhamos o relevo “indetectável” desta pesquisa-agenciamento.

“VOCÊ JÁ É I = I?”: A SUBJETIVIDADE “INDETECTÁVEL” NO ATIVISMO DE LUCIAN AMBRÓS E SUAS TENSÕES

Ao longo dessa cartografia do enxame digital (Han, 2018) do HIV/Aids no Instagram, talvez nenhuma outra palavra de ordem esteja em posição tão destacada quanto a palavra do indetectável. A comprovação científica da indetectabilidade pela biomedicina (Rodger et al., 2016) foi um acontecimento importante em relação à estratégia de prevenção ao HIV/Aids, que, desde a década passada, é pensada em termos de “prevenção combinada”. Em um esquema do tipo “mandala15”, que contempla métodos como uso de preservativo, testagem rápida, Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e Profilaxia Pós-Exposição (PEP), a indetectabilidade é incorporada como tática preventiva pelo Ministério da Saúde (MS). Como explica o Unaids (2018, n.p.)

O acesso à terapia antirretroviral é transformador para pessoas vivendo com HIV. Ela permite que as pessoas recuperem sua qualidade de vida, retornem ao trabalho e desfrutem de um futuro com esperança. Para muitas pessoas vivendo com HIV, a notícia de que não podem mais transmitir o HIV sexualmente é uma mudança de vida. Além de poder optar por ter relações sem preservativo, muitas pessoas vivendo com carga viral indetectável se sentem livres do estigma associado à vivência com o vírus. A consciência de que eles não podem mais transmitir o HIV sexualmente pode dar às pessoas vivendo com o HIV um forte senso de serem agentes de prevenção em sua abordagem perante relacionamentos novos ou já existentes.

Na medida em que ser indetectável é ser intransmissível, no âmbito da prevenção, alcançar a indetectabilidade é ser um “agente de prevenção” a frear a cadeia de infecção pelo vírus. Todavia, ser um “agente de prevenção”, para usar expressão do fragmento anterior, extrapola o campo da epidemiologia e se alastra cada vez mais pelo campo discursivo desta epidemia, que, como ainda nos anos 1980 pontuou Treichler (1987), é também uma “epidemia de significações”. Se, a princípio, tais significações foram impostas por segmentos hegemônicos da sociedade, como a mídia mainstream (Soares, 1998; Spink et. al., 2001; Lima, 2014), a medicina e certas alas reacionárias da igreja católica, com o surgimento do ativismo, ainda nos anos 1980, o agenciamento coletivo de enunciação (Deleuze; Guattari, 1995b) do HIV/Aids passa a ser disputado pelas ONGs/Aids, que articulam novas terminologias e “identidades clínicas” (Valle, 2002) forjadas na resistência ao estigma.

É o caso da categoria “soropositivo”, oriunda da discursividade biomédica e posteriormente incorporada pelo movimento social do HIV/Aids como contraponto à subjetividade ultraestigmatizada do “aidético”. Hoje, no entanto, como temos pontuado nessa cartografia, mesmo o soropositivo tem sido questionado pela maioria dos ativistas, estejam eles ligados ou não a redes ou ONGs/Aids. Como enfatizou a ativista Vanessa Campos em nossa conversa no dia 1º de fevereiro de 2024, “soropositivo é o resultado do exame, não se chama uma pessoa assim”. É no âmbito dessa produção de subjetividade (Guattari; Rolnik, 1995) que não cessa de se atualizar - em face do estigma (Goffman, 2008; Parker; Aggleton, 2001) e das inovações biotecnológicas que configuram novas “bioidentidades” (Ortega, 2003) - que o indetectável é incorporado como nova categoria na economia subjetiva da epidemia de HIV/Aids, como podemos identificar na publicação a seguir de Lucian Ambrós, feita no ano de 2022 no seu perfil @posithividades no Instagram:

Como aponta Lazzarato (2014, p. 137 - tradução nossa): “A imagem não somente representa, ela age pragmaticamente no real e na subjetividade; pois ela nos faz ver, intervém, age no que o “homem” e a subjetividade “humana” não conseguem ver e fazer”. Articulamos essa citação com a performatividade austiniana (Austin, 1990), entendendo que não só as palavras têm força ilocucionária, mas o (i)locucionário recobre também o não verbal, como Austin assinala em uma das conferências de How to do things with words:

Mesmo nos casos de persuadir, convencer, fazer-se obedecer e fazer-se acreditar, a resposta pode ser obtida de maneira não verbal. Contudo, só isso não basta para distinguir os atos ilocucionários, uma vez que podemos, por exemplo, prevenir, ordenar, designar, dar, protestar ou pedir desculpas por meios não verbais e estes são atos ilocucionários. (p. 101)

Nesse sentido, para analisar a figura 2 em termos de uma visão performativa da linguagem (Ottoni, 1998), gostaríamos de assinalar primeiramente o sorriso onipresente nos 4 quadrados que compõem a publicação de Lucian Ambrós. Antes da mensagem verbal sobre a indetectabilidade, é o sorriso quem desponta e age. Ao longo da história semiótica da epidemia, houve predomínio de um ethos (Maingueneau, 2001) tecnicista e injuntivo para abordar os significantes HIV e Aids; nos anos 1980, essa tendência foi ainda mais veemente, pois o despontar do vírus e da síndrome na esfera sanitária suscitou um pânico que foi alarmado pela imprensa (Lima, 2014) como parte da estratégia biopolítica que Perlongher (1987) chamou de “dispositivo da Aids”: um mecanismo complexo de controle sobre as sexualidades dissidentes. Mas, além disso, a própria imagem debilitada do “aidético”, de que no Brasil, Cazuza é o exemplo mais emblemático, constitui, a despeito dos avanços biomédicos, importante memória ainda associada à história do HIV/Aids; a renitência do estigma (Melo, 2024) é prova sobeja da renitência dessa imagem no imaginário coletivo. Diante disso, quando Lucian sorri, ele está performando; seu rosto “saudável” responde dialogicamente (Bakhtin, 2012) à “rostidade” (Deleuze; Guattari, 2012) mórbida da Aids. Para os mais esclarecidos em relação à atualidade da epidemia, essa imagem não causa estranheza; todavia, a julgar por alguns comentários de certos interactantes dos perfis dos ativistas digitais do HIV/Aids no Instagram, para certa parcela da população, é chocante a ideia de que uma pessoa vivendo com HIV/Aids não só possa ser saudável, como, além disso, possa esbanjar sorriso16.

Figura 2
Post “Você já é I=I?” (@posithividades)

Figura 3
Post “Me chamo Lucian” (@posithividades)

Nas imagens, Lucian veste uma camiseta azul com a estampa I=I. Na primeira delas, ele aponta para a estampa; uma legenda de fundo vermelho esclarece: “Indetectável = Intransmissível”. Na segunda imagem, posando em frente a um muro colorido, ele insere uma legenda que contém a seguinte informação: “Pessoas que vivem com HIV e têm carga viral no organismo abaixo de 200 cópias (OMS) são consideradas indetectáveis”. Na imagem seguinte, há outra legenda sobre uma imagem sua posando de perfil: “Pessoas vivendo com HIV indetectáveis há mais de 6 meses são consideradas intransmissíveis”. Na última imagem, posando sorridente e fazendo o símbolo da paz com os dedos, uma legenda interroga: “Você já é I=I?”. Ao compartilhar essa informação, atribuindo como fonte a Organização Mundial da Saúde (OMS), Lucian também realiza uma ação ilocucionária (Austin, 1990), a divulgação científica, função fortemente ligada à história do ativismo das ONGs/Aids (Biehl, 2007), mas que, como temos pontuado nessa cartografia, hoje tem se deslocado para o ativismo de “enxame” (Han, 2018) de ativistas digitais do HIV/Aids, como Lucian Ambrós. Divulgar o slogan I=I faz parte de uma estratégia, propulsionada por instituições como o Unaids, de redução do estigma do HIV/Aids. O estigma associado à Aids carreia consigo a crença de que pessoas com o vírus são “vetores infecciosos”, o que faz com que essa população seja colocada num lugar inconsciente de “vilania”; uma das ressonâncias contemporâneas desse discurso é a polêmica dos “carimbadores17”, frequentemente resgatada por certa mídia sensacionalista, na qual supostas pessoas que vivem com HIV/Aids infectam propositalmente outras pessoas, sem que estas percebam, em lugares e/ou eventos públicos. Dessa forma, retirado do lugar de “agente de infecção”, o indetectável é colocado na função de “agente de prevenção” (Unaids, 2018), na medida em que, conforme evidenciam infectologistas e ativistas, no que se refere à infecção pelo HIV, atualmente é mais seguro ter relações sexuais sem preservativo com pessoas que vivem com o vírus e estão indetectáveis do que com aquelas que, supostamente, não vivem com o vírus, pois não têm o hábito de fazer testes.

Feitas essas considerações, é possível afirmar que o indetectável está conectado a um agenciamento coletivo de enunciação (Deleuze; Guattari, 1995b) que contempla saberes-poderes como a biomedicina e a medicina, agências como o Unaids e ativistas digitais. Trata-se de uma palavra de ordem no sentido deleuze-guattariano, pois se vincula a um agenciamento e, portanto, a uma produção de subjetividade (Guattari; Rolnik, 1995) indetectável. Algo que fica muito nítido na performance de Lucian, ativista digital que mais mobiliza essa palavra de ordem, chegando ao ponto de comercializar produtos com o slogan “I=I”, como a camiseta com que posa nas imagens da figura 2. Em conversa conosco no dia 29 de janeiro de 2024, Lucian afirmou que um dos interesses de Posit(h)ividades, nome do projeto que mantém junto a pessoas que vivem com HIV, é fomentar o uso do indetectável como categoria identitária. Em suas palavras: “Eu tento implantar o indetectável, queria que todos os meus seguidores dissessem ‘sou indetectável’”. Esse desejo mostra-se muito nítido em sua postagem do dia 13 de outubro de 2022, um vídeo curto editado a partir de duas imagens (ou dois takes); vejamos:

Nesse vídeo, Lucian apresenta duas imagens. Na primeira, ele surge com a camiseta azul-marinho “I=I” disponível na sua loja virtual, aparecendo a seu lado um texto onde se lê: “Me chamo Lucian”. Na segunda, ele surge com um sorriso largo e apontando o dedo para a estampa da camiseta, aparecendo a seu lado o texto “Mas amo quando me chamam de Indetectável”, com esta última palavra destacada em uma sombra azul. Acompanha o post uma música que, pesquisando no Google, descobrimos pertencer ao app TikTok, ou seja, foi produzida para figurar em vídeos de curta duração e para gerar engajamento nos conteúdos em que é indexada.

Apesar do uso da conjunção adversativa “mas”, as duas imagens não chegam a criar uma oposição completa entre si, na medida em que Lucian afirma gostar de ser chamado pelo seu próprio nome. No entanto, ser chamado de “indetectável” o agrada mais, como se depreende no uso do verbo “amar” nesse contexto. Ocorre que é pouco crível que alguém o chame de “indetectável” no cotidiano. Esse segundo enunciado, portanto, é mais possível de ser ouvido no contexto de uma consulta médica, mas só entendemos isso se lemos a legenda do post, onde Lucian escreveu: “Quem aí adora quando o médico te chama (diz que está) de indetectável?”.

Porém, se suprimirmos a legenda, também podemos pensar num contexto em que, em vez do nome próprio, Lucian seja chamado de “indetectável” no cotidiano - outra leitura a que o vídeo em análise pode nos induzir. E aí é possível identificar uma estratégia hiperbólica de escancaramento da condição de supressão viral, equiparando-a ao lugar do nome próprio, como forma de neutralizar o estigma. É como se o ativista dissesse, em outras palavras, que, de tão pacificado que se encontra em relação ao seu status sorológico, o qual já não o envergonha mais, ele aceita ser chamado de “indetectável”. Uma renúncia ao nome próprio assim como uma renúncia ao sigilo sorológico. O fato de Lucian apontar o dedo para a fórmula “I=I” presente na camiseta favorece essa outra leitura do texto.

Diante disso, o “mas” tem mais um sentido de ênfase que de oposição, sendo empregado com o fim argumentativo de afirmar uma vida indetectável com o HIV. Logo, o segundo enunciado é um ato de fala que visa produzir e sustentar uma nova subjetividade no campo onomástico do HIV, livre do estigma que impregnou todas as outras subjetividades atreladas a essa epidemia.

“Sou um contracultura do ativismo”: ativismo digital do HIV/Aids e razão neoliberal

Até aqui chamamos Lucian Ambrós de ativista. Porém, é preciso neste momento fazer uma pontuação: este gaúcho de Santa Maria (RS) radicado há 4 anos na cidade de São Paulo (SP) não se identifica com o rótulo. Em nossa entrevista, quando perguntado sobre se considera um ativista, ele nos deu a seguinte resposta:

Eu acho que não. Não me vejo, apesar de as pessoas me caracterizarem como um ativista. Não me vejo como ativista, não. Acho que a minha forma de trabalho até confronta um pouco o que se vê como ativismo.

Como assim? Pode explicar melhor isso?

É que eu vejo o ativismo... ele é muito... paliativo. Como se fosse para dar suporte. E dentro do Posithividades, eu não quero dar suporte. Na verdade, eu quero que as pessoas desenvolvam conhecimento e elas mesmas, por si só, consigam também mudar o ambiente e os lugares onde estão. Eu vejo a questão do ativismo um pouco do “goela abaixo”, e eu não gosto do “goela abaixo”. Eu gosto de ir, tipo, pelas beiradas, diferente, bem ilustrativo, bem uma coisa tipo flow, uma coisa mais levezinha. Não me vejo como ativista. Na verdade, acho que me vejo mais talvez hoje como um empreendedor na área do HIV do que um ativista em si. Eu sei os impactos sociais, eu reconheço todos os trabalhos que eu desenvolvo, mas eu acho que sou mais do empreendedorismo, da inovação, de fazer coisas fora do quadrado, sabe? Enquanto todo mundo tá indo pra um lado, eu tô indo pra um outro, porque eu vejo de uma outra forma a mesma coisa que todo mundo vê. (Entrevista com Lucian Ambrós no dia 29 de janeiro de 2024)

Com formações em áreas como administração e marketing18, Lucian alia sua vivência com o vírus a uma visão empreendedora. Justamente por isso, ele evita o rótulo de ativista, pois, uma vez que cobra pelo acolhimento que presta junto a pessoas diagnosticadas com HIV/Aids, teme identificar sua atividade como uma atividade política. Entretanto, embora não se classifique como ativista, entende que as funções que exerce no projeto Posit(h)ividades estão no radar do ativismo HIV/Aids desde que este se constituiu como tal nos anos 1980. Além disso, como podemos depreender nesse fragmento de conversa, Lucian opõe-se ao que chama de modo “goela abaixo” com que, segundo ele, o ativismo das ONGs/Aids costuma atuar; o que podemos ler como uma crítica tanto ao ethos de denúncia (Castelo-Branco, 2016), quanto a uma certa tendência hierárquica e centralizadora que estas organizações coletivas podem assumir, apresentando certa rigidez que pode bloquear o florescimento de novos agenciamentos ativistas com suas palavras de ordem correlatas.

O indetectável, por exemplo, é uma dessas palavras de ordem que não encontram solo fértil no ativismo do movimento social do HIV/Aids, aqui identificado com as redes e ONGs/Aids. Vanessa Campos, ativista da Rede de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+/Brasil) que também alimenta um perfil no Instagram chamado @soroposidhiva, em conversa conosco, relatou um incômodo quanto à sustentação dessa categoria subjetiva como palavra de ordem, tal como faz Lucian em seu “empreendedorismo ativista” ou em seu “ativismo empreendedor”. Segundo esta manauara que vive com HIV/Aids há 35 anos,

Pra quem não olha pelo lado da coletividade, não olha pelo lado do zero estigma, zero discriminação, zero vetorização, essa pessoa vai olhar e dizer “eu vou poder transar sem camisinha e não vou transmitir pra ninguém”, e é isso, eu vou ter saúde, mas o problema é que a pessoa ali tem um autoestigma tão mal elaborado dentro dela, que ela ainda se via como vetor, pra ela o importante é não transmitir. Então sempre dentro da Rede a gente tenta colocar essa consciência. Porque senão a gente vai colocar essa divisão dentro das pessoas vivendo com HIV/Aids, que só presta pra se relacionar, pra transar, pra namorar, pra casar, quem tá indetectável; quem não tá, não serve. Não é isso, gente. Porque a gente vai estar separando as pessoas e discriminando quem inclusive não consegue ficar indetectável por diversos motivos. É uma nova exclusão dentro da Aids. Tem muitas pessoas que mesmo tomando o remédio não conseguem ficar indetectáveis. Por n motivos. Essas pessoas vão ser discriminadas por causa disso? A gente que sempre lutou contra estigma, discriminação e preconceito, a gente vai formatar isso? Esse é o perigo da gente cair nisso. Estigmatizar quem não fica indetectável. (Entrevista com Vanessa Campos no dia 1º de fevereiro de 2024)

Como podemos ler, para Vanessa e a Rede de que faz parte, não há pertinência em se sustentar politicamente a categoria indetectável por duas razões: 1) sua vinculação inconsciente com uma ideia de “vetorização” e com um “autoestigma”; e 2) sua capacidade de segregação dentro da comunidade de pessoas vivendo com HIV/Aids, uma vez que, por razões como multirresistência às terapias antirretrovirais, muitas pessoas não conseguem alcançar o patamar viral da indetectabilidade. Por tais motivos, ela entende que reivindicar essa categoria como palavra de ordem não é tático no sentido de escapar ao estigma. Sob esse prisma, não há, com o indetectável, um grito de fuga, mas o reforço tácito de uma “sentença de morte”, no sentido deleuze-guattariano (Deleuze; Guattari, 1995b). Buscando negar o estigma, acaba-se enredado nele e reproduzindo-o no seio da própria comunidade.

Esses argumentos, no entanto, não são levados em conta por Lucian, que não possui vínculos com nenhuma rede ou ONG/Aids. Na perspectiva dele, trata-se justamente do contrário: o indetectável é, sim, um modo de escapar ao sentenciamento que se impôs sobre as categorias subjetivas forjadas ao longo de mais de 40 anos da epidemia, como o aidético, o portador e o soropositivo. Esse produtor de conteúdo digital não faz parte do “movimento social do HIV/Aids”, mas considera Posit(h)ividades um movimento, entretanto um movimento que carrega o seu CPF e que comercializa ações - ainda hoje realizadas gratuitamente pelas ONGs/Aids - como “serviços”. Porém, como ele mencionou no fragmento de nossa conversa, à diferença do modo “goela abaixo” que caracterizaria o ativismo das ONGs/Aids, “eu quero que as pessoas desenvolvam conhecimento e elas mesmas, por si só, consigam também mudar o ambiente e os lugares onde estão”.

Antes desse enunciado, já seria possível demarcá-la, mas, com ele, torna-se ainda mais patente o atravessamento da “razão neoliberal” (Dardot; Laval, 2016) sobre a “função ativista” de Lucian Ambrós. Os autores que desenvolvem esse conceito partem do diagnóstico de que o neoliberalismo,

[...] antes de ser uma ideologia ou uma política econômica, é em primeiro lugar e fundamentalmente uma racionalidade e, como tal, tende a estruturar e organizar não apenas a ação dos governantes, mas até a própria conduta dos governados. A racionalidade neoliberal tem como característica principal a generalização da concorrência como norma de conduta e da empresa como modelo de subjetivação. (p. 17 - grifo dos autores)

Se a solidariedade coletiva se articulou como um dos pilares da fundação das ONGs/Aids no Brasil (Daniel; Parker, 1991), hoje, ela é comercializada através de uma racionalidade capaz de capitalizar até mesmo vivências marcadas pelo estigma. Essa capitalização de uma vida estigmatizada pode, inclusive, ser lida como um “vetor de autovalorização” (Pelbart, 2011, p. 22), uma tática capitalística de transformação do estigma em capital, na proporção em que o HIV/Aids passa cada vez mais a ser encarado como um “comércio”, como o próprio Lucian mencionou em nossa entrevista:

Volto a dizer: o HIV é um grande comércio, estando em São Paulo fica muito mais claro isso pra mim [...] por isso que prefiro dizer que [n]o Posit(h)ividades eu sou empreendedor, porque eu tenho a voz e eu não dependo de outros locais pra dizer o tom da minha voz ou como que eu devo falar e o que eu devo falar, entendeu? (Entrevista com Lucian Ambrós no dia 29 de janeiro de 2024)

Longe de ter origem em Lucian, esse caso expressa, de modo impressionante, o investimento do capitalismo não só sobre o corpo19, mas sobre a psique humana, num processo que Han (2020) tem chamado de psicopolítica. Próximo deste autor na discussão, observa Safatle (2022) que a razão neoliberal atualmente tem atuado por meio de um “design psicológico”, que diz respeito à

[...] internalização de predisposições psicológicas visando à produção de um tipo de relação a si, aos outros e ao mundo guiada através da generalização de princípios empresariais de performance, de investimento, de rentabilidade, de posicionamento, para todos os meandros da vida. Dessa forma, a empresa poderia nascer no coração e na mente dos indivíduos. (p. 30)

Relacionando essa psicopolítica neoliberal ao ativismo digital do HIV/Aids no Instagram, é possível assinalar que, a pretexto de criar táticas de sobrevivência (Lopes; Facina; Silva, 2019) e de resistência ao estigma, pessoas vivendo com HIV renunciam ao sigilo sorológico nas redes sociais, transformam-se em influenciadoras digitais e se tornam peças de um agenciamento ativista outrora restrito ao campo do movimento social do HIV/Aids. Ainda que não se nomeiem como ativistas, caso de Lucian, o que exercem é uma “função ativista”; seus atos de fala (Austin, 1990) como palavras de ordem (Deleuze; Guattari, 1995b) são índices desse processo. Reconhecendo esse fato, ao fim de nossa entrevista, Lucian titubeou: “eu talvez não seja um ativista, sou um contracultura do ativismo”. Pondo esse seu ato de fala sob análise, demarcamos um desejo nele no sentido de afirmar que, com seu trabalho, potencializa que outras pessoas consigam romper o silêncio, colocar o HIV/Aids no discurso e exigir seus direitos de forma autônoma - o que, segundo ele, “nunca o ativismo ia conseguir”.

“Contracultura do ativismo”. Além da incidência da razão neoliberal que atua na direção da desregulação da “vida associativa” (Safatle, 2022, p. 26), esse ato de fala busca efetivar um novo território político no ativismo do HIV/Aids: um ativismo digital que não se deseja confundir com o ativismo coletivo das redes e ONGs/Aids. Além disso, o termo “contracultura” expressa um desejo de impregnar a esse ativismo empreendedor uma ressonância hype, cool, “moderna”. Tais signos são respaldados pelo “engajamento”, pelos likes e pela grande quantidade de seguidores que Lucian acumula hoje: no Instagram, atualmente, 100.000 perfis seguem a sua conta. Se o estigma não é “indetectável”, tais números são bastante detectáveis e, para utilizar a linguagem de Bourdieu (2013), são um “capital simbólico” que associam a imagem de uma pessoa vivendo com HIV/Aids a ideias como “performance” e “desempenho” - o que tem efeitos sobre a discursividade ou o conjunto de novas crenças sobre o HIV/Aids que se deseja construir contemporaneamente. De certa forma, essa coleção de atos de fala e palavras de ordem subverte o que é socialmente lido como “atributo depreciativo” (Goffman, 2008) em um atributo apreciativo. É na/pela capitalização da vida que o estigma, se não se desmancha, ao menos esmaece. Com esses atos de fala, novas subjetividades se efetuam no rastro de novas palavras de ordem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se, com Austin (1990), a palavra encontra, na filosofia, o caminho do ato, da ação e da performance, Deleuze e Guattari (1995b) interceptam o “ato performativo” daquele autor para pensá-lo a partir da relação entre linguagem e vida. Críticos que são em relação à primazia do “regime significante” alçado a um pedestal epistemológico pela virada linguística e pelo estruturalismo de matriz saussureana, os autores pós-estruturalistas pensam a ação linguística, primordialmente, como ordem sobre a vida e, com isso, fazem uma denúncia da linguagem. Que não se entenda esse gesto, no entanto, como negação da linguagem, mas, para usar o nome de uma das obras de Deleuze, como um tipo de “crítica e clínica”. Prova disso é que, se para eles, a linguagem é sentença de morte, ela não deixa de ser também lugar de gritos de fuga.

Como argumentado ao longo deste artigo, entendemos o estigma do HIV/Aids como um resíduo da sentença de morte a partir da qual esse fenômeno sanitário que acometeu sobretudo, no princípio, a comunidade homossexual (Pollak, 1990), foi nomeado. Se, passados 40 anos, a Aids, embora ainda exista, é cada vez mais evitável mediante a biomedicalização dos corpos “posithivos” através da ingestão da TARV, aquela sentença ainda persiste e tem como sintoma o que Melo (2024) chama de “renitência do estigma”. Todavia, foi num gesto de insurgência a esse estigma provocador de “morte civil” (Daniel; Parker, 1991) que os primeiros ativistas do HIV/Aids fundaram as primeiras ONGs/Aids e é o mesmo gesto que está na base dos ativismos digitais contemporâneos: um grito de fuga que se forja na quebra do silenciamento imposto pelo estigma e do sigilo sorológico garantido por lei no Brasil.

Atualmente, como vimos, o ativismo do HIV/Aids não tem se exercido somente no campo das ONGs/Aids. Fatores como o aprimoramento e a ampliação das biotecnologias de prevenção, a indetectabilidade, a transformação da sorofobia em lei no Brasil no ano de 2014 e as oportunidades de expressão e lucro ensejadas por aplicativos e redes sociais incitam uma maior quebra do sigilo sorológico e uma consequente inserção do HIV no discurso. Ao longo de 2016 para cá, ainda que o silêncio seja a regra para muitas pessoas, ele tem sido subvertido por tantas outras, como o gaúcho Lucian Ambrós sobre quem nos debruçamos neste artigo, em favor de um grito que se encontra cada vez mais individualizado em perfis de redes sociais como o Instagram, e profissionalizado conforme a gramática de uma psicopolítica (Han, 2020) neoliberal (Dardot; Laval, 2016). Trata-se, no caso de Lucian, de um ativismo-empreendimento que não mantém vínculos com o “movimento social do HIV/Aids”, representado pelas redes e ONGs/Aids. No caso desse ativista - que, como pontuamos, recusa estrategicamente o rótulo, uma vez que comercializa o apoio mútuo, gratuitamente ofertado por redes e ONGs/Aids, como um serviço -, este grito ampara-se, sobretudo, na palavra de ordem (Deleuze; Guattari, 1995b) da indetectabilidade, manipulada discursivamente como uma nova subjetividade situada no agenciamento coletivo de enunciação do HIV/Aids para fazer frente ao estigma que impregnou todas as outras “identidades clínicas” (Valle, 2002). Entretanto, o emprego desse “discurso indetectável” por ativistas do “enxame digital” (Han, 2018) provoca como efeito uma tensão entre os ativistas do movimento social, como expressa o depoimento de Vanessa Campos, da RNP+/Brasil. Como ela argumentou, a indetectabilidade não é plenamente alcançável por todas as pessoas vivendo com HIV/Aids; além disso, sua mobilização discursiva pode contribuir para a perpetuação do estigma e para fomentar divisionismo dentro dessa comunidade.

Invocando Austin (1990), a partir do enunciado de Vanessa, é de se indagar se o “grito indetectável” de Lucian é um ato performativo “feliz” em relação à quebra do estigma. Tal grito se pronuncia com base na linguagem biomédica imposta pelo dispositivo da Aids (Perlongher, 1987), ora atualizado sob um novo paradigma de cronicidade (Butturi Junior, 2019) que só confere a garantia de “sujeito” a quem se submete à medicalização e à “ascese biomédica”. Cartograficamente, há um grito indiscutível no gesto de ruptura do sigilo sorológico: fazê-lo é insurgir-se contra uma “política do silêncio” (Orlandi, 2007). No entanto, o que o comentário de Vanessa nos põe é a questão de se esse grito efetivamente foge ao estigma. Não pretendemos responder essa provocação, pois nosso intuito é o de justamente demarcar um ponto de tensão contemporâneo nesse agenciamento coletivo de enunciação. De todo modo, esperamos que o recorte feito por este artigo tenha possibilitado um vislumbre sobre como a capitalização da vivência (Pelbart, 2011) com o HIV enquanto tática de sobrevivência incitada pela razão neoliberal (Dardot; Laval, 2016) pode implicar também uma capitalização dos potenciais gritos (de fuga). E, no bojo disso, que ele suscite uma escuta sobre como estes gritos podem se metamorfosear rapidamente em sentenças quando desconectados da “ancestralidade posithiva” (Fontes, 2023), povoada por vozes de pessoas vivendo com HIV/Aids habitantes de muitas temporalidades; vozes que, mesmo não sendo mais tão ouvidas, no entanto ainda gritam e ecoam.

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    Tomamos, aqui, o conceito de agenciamento coletivo de enunciação, de Deleuze e Guattari (1995b), como sinônimo de “discurso”, na medida em que os autores pensam o linguístico em conexão com outros regimes de expressão que não se reduzem ao regime “significante” de Saussure. Quando falamos em “agenciamento coletivo de enunciação do HIV/Aids”, referimo-nos ao conjunto de instituições e saberes-poderes que compõem o que Valle (2002) chama de “mundo social da Aids”: medicina, biomedicina, hospitais, centros de testagem, clínicas, imprensa, ONGs/Aids, ativistas digitais etc., todos com incidência na confecção da “palavra de ordem” (Deleuze; Guattari, 1995b) do HIV/Aids (conceito debatido no segmento 1 deste artigo), enquanto dimensão “variável” intrínseca a esse agenciamento coletivo de enunciação.
  • 4
    Disponível em: https://antigo.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/previna-se. Acesso em: 25 jun. 2024.
  • 5
    Desde a segunda metade da década de 2010, o termo Doenças Sexualmente Transmissíveis foi substituído pelo termo Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). A justificativa é a de que nem todas as infecções, por exemplo, a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), causam doenças, se tratadas precocemente via medicalização.
  • 6
    Em sua maioria, como nossa cartografia tem demarcado, as pessoas que, no Brasil, rompem o sigilo sorológico em redes sociais são homens, cis, gays, brancos e sudestinos. Há, porém, exceções a essa tendência, por exemplo, os perfis de Vanessa Campos (@soroposidhiva) e de Sabrina Luz (@sabrinaluz_pessoa).
  • 7
    Em 3 de janeiro de 2022, foi promulgada a Lei Nº 142289, que torna obrigatória a preservação do sigilo sobre a condição da pessoa que vive com HIV, hepatites crônicas (HBV e HCV) e pessoas com hanseníase e tuberculose (Brasil, 2022).
  • 8
    A relação entre linguagem e vida fora anteriormente elaborada por Wittgenstein (1999) a partir do seu conceito de “forma de vida”. Deleuze e Guattari (1995b), no entanto, nutrem severas críticas ao pensador austríaco e, na composição do conceito de palavra de ordem, estabelecem os termos dessa relação por meio da performatividade austiniana, ignorando aquele filósofo.
  • 9
    Em artigo publicado nesse periódico, Martins e Viana (2019) tocam nessa discussão, criticando as bases antropocêntricas da linguística moderna e debatendo a personagem conceitual “ciborgue”, de Donna Haraway, como um caminho possível para se pensar a produção de subjetividade contemporânea.
  • 10
    Ao falarmos em “sujeito”, adotamos a posição de Rolnik (2018), para quem o sujeito seria apenas uma das funções atreladas à subjetividade. Segundo esta autora, essa função conecta-se a uma capacidade “pessoal-sensorial-sentimental-cognitiva” (p. 52) e é “intrínseca à nossa condição sociocultural” (p. 52). É a ela que a linguagem, entendida enquanto “regime significante” (Deleuze; Guattari, 1995b), se vincula, talhando-nos com binarismos - por exemplo, homem/mulher, branco/preto, heterossexual/homossexual - impostos através da palavra como palavra de ordem. A argumentação de Rolnik (2018) vai na direção de que, se essa função alcança posição hegemônica nas sociedades ocidentais e ocidentalizadas, isso ocorre por conta do poder do que ela chama de regime “colonial-capitalístico”, contra o qual ela nos convida a uma insurgência a partir do inconsciente.
  • 11
    Butturi Junior (2019), em artigo publicado neste periódico, analisa o processo de “cronificação” do HIV à luz do conceito de dispositivo da Aids elaborado por Perlongher (1987) e depois retomado por Pelúcio e Miskolci (2009). Sob o olhar daquele autor, a cronicidade atualiza esse dispositivo “biopolítico” de controle sobre as sexualidades dissidentes; desse modo, ainda que os antirretrovirais (ARVs) possibilitem condições de vida “saudáveis” às PVHIV, eles são agentes da “biomedicalização” dessas existências.
  • 12
  • 13
    A expressão utilizada pelo Ministério da Saúde do Brasil e pelo movimento social do HIV/Aids, no qual se incluem ONGs, redes e coletivos, é Pessoa Vivendo com HIV/Aids (PVHA); para o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), o termo a se adotar é “Pessoa Vivendo com HIV” (PVHIV).
  • 14
    Essa pesquisa conta com o aval do comitê de ética para pesquisas com seres humanos garantido pelo projeto “Por uma pragmática cultural: cartografias descoloniais e gramáticas culturais em jogos de linguagem do cotidiano” (PRAGMACULT) e está vinculada ao projeto “Mídia, política e luta social na história recente do Brasil: linguagem, violência e hegemonia”, coordenado por um dos autores deste artigo, o professor Dr. Ruberval Ferreira, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada (PosLA) da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
  • 15
    Disponível em: https://antigo.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/previna-se. Acesso em: 31 out. 2024.
  • 16
    Muitas chegam a demonstrar inconformidade com essa atualização do discurso em torno do HIV/Aids e acusam os ativistas contemporâneos de “romantização”, efeito perlocucionário (Austin, 1990) do ativismo digital do HIV/Aids que analisamos em Cartografias Posit(h)ivas.
  • 17
  • 18
    Em nossa entrevista, Lucian afirmou já ter feito uma formação em psicanálise e atualmente cursar uma formação em psicologia. Isso, segundo ele, visa a que não seja intimado por realizar um serviço, junto a pessoas vivendo com HIV/Aids, que se aproxima da psicoterapia realizada por psicólogos e psicanalistas.
  • 19
    O biopoder de Foucault (2014b), com sua feição disciplinar (somatopolítica) e biológica, é, segundo este autor, “elemento indispensável ao desenvolvimento do capitalismo, que só pôde ser garantido à custa da inserção controlada dos corpos no aparelho de produção e por meio de um ajustamento dos fenômenos de população aos processos econômicos.” (p. 151-152).

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA

Parte dos dados dessa pesquisa encontra-se disponível no perfil do Instagram de Lucian Ambrós, https://www.instagram.com/posithividades/. As entrevistas com Lucian Ambrós e Vanessa Campos não se encontram disponíveis ao público, uma vez que contêm trechos sensíveis que podem vir a comprometer a privacidade dos participantes.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    01 Ago 2024
  • Aceito
    20 Jan 2025
  • Recebido
    28 Jan 2025
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