RESUMO
Poeta de vanguarda que se tornou historiador e teórico da arte, mediador cultural entre França e Alemanha, Carl Einstein colaborou com diversas publicações (entre as quais Die weißen Blätter, Die Aktion, Das Kunstblatt e Transition). Foi coeditor, com Georg Grosz, de Der blutige Ernst (1919) e, com Paul Westheim, de Europa-Almanach (1925), além de cofundador da revista Documents (1929) junto com Georges Bataille, Michel Leiris, Georges Wildenstein e Georges-Henri Rivière. Pertenceu ao círculo de Daniel-Henry Kahnweiler; conheceu Pablo Picasso, Georges Braque, Juan Gris e Fernand Léger. Este artigo se propõe a apresentar algumas das particularidades da escrita e do pensamento de Carl Einstein, sua coerência intelectual, assim como familiarizar o leitor com um âmbito intelectual excepcional, através da rede de diálogos, brechas e aberturas que seus escritos apresentam.
Palavras-chave:
cubismo; linguagem; arte; teoria; liberdade.
ABSTRACT
Vanguard poet who later became a historian and art theorist, cultural mediator between France and Germany, Carl Einstein contributed to several publications, such as Die weißen Blätter, Die Aktion, Das Kunstblatt, and Transition. He was co-editor, together with Georg Grosz, of Der blutige Ernst (1919) and, with Paul Westheim, of Europa-Almanach (1925); along with Georges Bataille, Michel Leiris, Georges Wildenstein, and Georges-Henri Rivière, he was also co-founder of the magazine Documents (1929). He belonged to Daniel-Henry Kahnweiler's circle; he befriended Pablo Picasso, Georges Braque, Juan Gris, and Fernand Léger. This paper presents some of Carl Einstein's writings, the peculiarities of his intellectual coherence and way of thinking, and aims at acquainting the reader with an exceptional intellectual milieu through the network of dialogues, gaps, and openings introduced by his writings.
Keywords:
Cubism; language; art; theory; liberty.
Poeta, historiador e teórico da arte, editor e tradutor, representante e intérprete das vanguardas artísticas, literárias e políticas do começo do século XX, Carl Einstein1 (1885-1940) foi também um mediador cultural entre França e Alemanha, contribuindo à divulgação, reconhecimento e valorização da arte moderna. Contudo, Carl Einstein continua, em larga medida, um autor esquecido.2 Talvez pela complexidade e estranheza de sua escrita ou pelas múltiplas referências teóricas com as quais dialoga e debate; pela perda de textos e documentos decorrente de seus contínuos deslocamentos, devidos tanto à conjuntura europeia da época na qual atuou, assim como às consequências das duas Guerras Mundiais; ou ainda pelo simples fato de ele não ter escrito no âmbito da Academia. Além disso, estudar Carl Einstein exige recuperar textos e autores quase abandonados na história da arte atual e revisar preconceitos arraigados.
Entre suas obras teóricas mais importantes encontramos Negerplastik (1915).3 Apesar de ter sido publicada durante a Primeira Guerra Mundial, capturou a atenção tanto de especialistas como de amadores na Alemanha, se bem que na França eram poucos os que estavam familiarizados com as noções por ele discutidas. A publicação, breve, densa desde o ponto de vista teórico e inovadora pela abordagem de objetos até esse momento considerados como etnográficos nos museus da França, Bélgica e Alemanha, se destaca por tratar de uma arte que provocou e interessou a artistas como André Derain, Henri Matisse, Maurice de Vlaminck, Pablo Picasso e Georges Braque. Em grandes linhas, no plano teórico, Einstein discute as categorias de "pictórico" e "escultórico", e, independentemente do meio artístico empregado, ressalta as características da arte negra, as soluções espaciais na escultura encontradas pelos artistas africanos e sua similitude com as invenções dos artistas cubistas na pintura. Os cubistas captaram que a figuração dos objetos mediante signos produziam diversos sentidos, assim como perceberam a combinação, transformação e reformulação de signos e de grupos de signos na escultura africana. Por outra parte, as esculturas da África nos mostram aquilo que os artistas sabem, não apenas o que eles olham. As esculturas são objetos reais inseridos no mundo, não precisam de uma base, um muro ou uma arquitetura preexistente; as máscaras, associadas a um suporte humano, funcionam como esculturas em movimento. Muros, bases e arquiteturas foram "apoios" frequentes na escultura europeia, definida por Carl Einstein como "baixo-relevo", que talvez tenha tido sua origem na proibição judaica de criar ídolos. Tais tendências iconoclastas atravessaram a arte cristã e fizeram da escultura um ornamento da arquitetura, com o qual se perdeu qualquer existência da escultura no espaço. Além dos múltiplos sentidos que a manipulação das esculturas negras admitia (por exemplo, a integração a outros conjuntos), as dimensões, a monocromia, assim como seu caráter de signo, distinguia essas esculturas dos seres vivos com os quais compartiam o espaço.4
Com um olhar livre de preconceitos ou eurocentrismos, Carl Einstein confere à escultura negra o estatuto de arte de primeiro nível. Aproximando as invenções cubistas à escultura negra, analisando a arte africana a partir de categorias não africanas, o autor aspira a uma reestrutura da visão sem referência a um repertório prévio de imagens, próprias de uma obra ou gênero de arte, de um artista ou de um período artístico. Critica o conceito de "primitivismo", no sentido utilizado à época - estado arcaico de um desenvolvimento artístico ou cultural progressivo. Para ele, a noção de primitivismo ultrapassa o preconceito eurocêntrico do termo, destacando o aspecto plástico dos objetos, resultado de uma experiência dinâmica não mediada por convenções e preconceitos. Trata-se do processo visual enquanto experiência original e constitutiva do real: a imagem resultante desse processo não é, para ele, apenas um resíduo inerte da sensação ou da percepção.
Apesar de algumas questões etnográficas do livro poderem ser questionadas, o que interessa é o descobrimento europeu da arte negra desde o ponto de vista plástico e a formulação teórica de uma visão plástica do espaço. Uma primeira tentativa de assimilar o pensamento teórico de Einstein em Negerplastik aponta para uma abordagem enraizada na Kunstwissenschaft germânica: entre outros, na autonomia da obra de arte defendida por Konrad Fiedler, na Kunstwollen de Alois Riegl, no pensamento teórico sobre o espaço no fim do século XIX e começos do século XX. Mas Negerplastik também ecoa o pensamento de Georg Simmel.5 Apenas para citar alguns pontos dessa ressonância: a compreensão de cultura artística - não como uma somatória de obras particulares e sim como aquilo que modela os valores da vida segundo normas de valor estético - ; a capacidade de compreender a união entre o sensível e o inteligível e a vida como confluência de pensamento e sensibilidade; um entendimento da arte, da filosofia e da religião para além da divisão tripartite estabelecida por Hegel.6 Incluir Simmel no horizonte abre ante nós a possibilidade de uma leitura da obra de Einstein em sintonia com o devir do mundo e o desenvolvimento, desdobramento e novas formulações no campo das artes. Desse modo, dialogando com a obra de Einstein e nela encontrado o pensador, evitaríamos reduzir seu pensamento - e sua obra - a uma soma de mudanças e causas dessas mudanças; uma abordagem que permite vislumbrar um pensamento original e que ultrapassa os limites frequentemente atribuídos à teoria e história da arte.
A escrita de Einstein não se encaixa nem se estrutura numa análise do contexto histórico social. Ao contrário, ela diz respeito à existência enquanto esforço por ultrapassar os limites da linguagem, que ele considerava como limites do mundo. Einstein adjudicou à arte e à linguagem a tarefa de libertar o homem de imagens ossificadas e modos de pensar rígidos.7 Em Einstein, a realidade se constrói e se transforma sem cessar: ele defende uma arte na qual o artista modifica a realidade e não está preso a um excesso de racionalização, normatização ou a uma linguagem aprendida; acredita numa arte engajada na transformação social, na qual a forma reconfigura a subjetividade.8 Ao reformular os limites do mundo na procura de novas fronteiras do real, as novas formas artísticas redimensionam o real e o transformam na soma de todos os processos vitais. Apenas como amostra: aos novos meios descobertos pelos pintores cubistas para libertar o espaço das travas da perspectiva que a ciência impusera à arte desde o Renascimento, Einstein respondeu reformulando as categorias de análise crítica para dar conta dessas invenções artísticas. Uma operação que vai além da dualidade entre forma e conteúdo ao incluir ativamente as duas partes sem fixar uma delas para poder enxergar o desenvolvimento da outra. Considerando que a discussão sobre forma era tão densa e intensa no começo do século XX, é de se perguntar por que hoje em dia a questão da forma ativa vem sendo inviabilizada por leituras estéreis que reduzem a forma à morfologia e à composição?9
Dialogar com sua obra demanda uma leitura ativa que, junto à função por ele atribuída à linguagem literária e artística, nos leva a pensar na convivência e coexistência de processos criativos com formas de violência e destruição, na possibilidade de recuperar contradições e incongruências da vida, dos sonhos e dos pesadelos; qualidades que, a meu ver, são possíveis só desde uma liberdade total. Por exemplo, sua autobiografia, conscientemente parcial, escrita depois de 1928 e publicada em 1930, na qual ele narra a sua experiência em uma sociedade estratificada e hierarquizada; a falta de charme de sua cidade natal; as lembranças dos prédios lúgubres da escola que, no passado, eram a prisão do castelo; a sensação duradoura da ignorância de professores que não acreditavam na lei de gravidade em virtude de sua religiosidade. Curiosamente, o texto finaliza com a sua ida para Berlim (1905), a entrada na universidade na época na qual escrevia seu romance Bebuquin:10 "Blei o imprimiu nos Opale e, desse modo, com vinte anos entrei na literatura."11
Redigido entre 1906 e 1908, dedicado a André Gide, Bebuquin é um texto de menos de cinquenta páginas. Peça literária crucial da literatura alemã e fonte de inspiração para dadaístas, Daniel-Henry Kahnweiler qualifica o livro como romance cubista e a Einstein como "poeta alemão cubista",12 distinguindo-o assim dos expressionistas. Publicado pela editora Die Aktion em 1912 e como Aktionsbücher der Aeternisten em 1917, o editor Franz Blei expressou seu desejo de que o livro permanecesse trinta anos nas prateleiras da editora, porque esse seria o tempo necessário "para ocupar-se dos livros que formaram a literatura de nossa época".13
Contrariando a literatura de formação da Bildung, o livro não se baseia no desenvolvimento intelectual ou espiritual do personagem principal; também não admite narrador, intriga ou história. O protagonista/anti-herói é uma hipótese implausível de ser comprovada: Bebuquin não é um personagem de carne e osso. O "romance" consta de vários episódios, complementares e díspares, sem origem nem fim precisos, atravessados por reflexões sobre a morte, a ideia platônica, Deus e outros conceitos. Personagens grotescos, extravagantes e absurdos agem em um espaço imaterial, sem perspectiva, em constante metamorfose. Relato que combina o real e o fantástico e apaga as fronteiras entre ambos, contra a representação e a descrição realista que caracterizam o século XIX, Bebuquin exige a participação ativa do leitor. A presença do autor, sugerida pelo emprego constante de espelhos e reflexos que veiculam funções e disfunções do psiquismo vivenciadas pelo protagonista, atua como uma sombra que se gruda ao leitor. As imagens fraturadas ou deformadas pela ação da luz remetem à problemática cubista: ultrapassam a realidade imediata e alcançam realidade plástica própria. Contrário a uma cultura da subjetividade, da metáfora e da interioridade, o romance desafia as leis da escrita na busca de renovação do signo. Carl Einstein participa do acontecimento vivenciado pelo protagonista com sua preocupação de encontrar um modo de escrever sobre sensações e experiências vividas, sem reduzi-las a uma descrição convencional. Inquietação que, junto com a questão - concreta e teórica - da possibilidade de criação artística absoluta e o empenho em teorizar uma experiência visual imediata, atravessa seus escritos sobre arte.
O nome do personagem principal, Bebuquin, aparece no título do livro e leva a pensar a respeito do hábito de catalogar um livro que inclui o nome de uma figura relevante como monografia ou biografia. Contudo, a inclusão de um nome próprio no título surge também na sua última obra publicada em vida, Georges Braque, de 1934. Contrariamente ao que suporíamos, o livro não é uma monografia sobre o pintor; é um estudo do cubismo e suas transformações no contexto histórico e cultural de 1930. Logo no início, Einstein explicita sua compreensão da história da arte e a necessidade de ultrapassar "uma normatização democrática aburguesada que serve a uma historiografia segundo a qual se falsifica e se deforma o devir numa perspectiva idealista".14 A crítica à monografia, que para Einstein "frequentemente afirma a apoteose do eu pequeno-burguês na qual o burguês se enxerga com um deleite voluptuoso {...} a monografia é o perigo de separar categoricamente o homem de sua obra e de arrancá-los das relações significativas",15 se corresponde com uma concepção de homem que inclui também tudo o que ele produz.
Mas, precisamente, um artigo de Einstein publicado na revista transition, de Eugène Jolas, com motivo do centenário da morte de Goethe e intitulado "Obituary 1832-1932", desenvolve esta questão e levanta outros pontos relevantes. O texto, uma crítica violenta ao poeta, considerado o protótipo da Bildung e contra a qual Einstein arremete ao longo de sua obra, exige entender o que significa Goethe na tradição alemã e torna necessária a distinção entre Bildung como processo e Bildung como resultado. Muitas vezes identificada com a noção de cultura, a Bildung não é um problema menor, já que diz respeito à influência de uma tradição intelectual sobre a sociedade, atingindo a literatura e a estética.16 Autor representativo da literatura alemã, o exemplo de Goethe como poeta é de humildade e persistência na procura do objeto supremo, do núcleo vital do mundo, da força natural pulsante que toma as formas mais diversas, do qual apenas se faz alusão e impossível de capturar ou conquistar. Muito sucintamente, e no contexto alemão de 1914, o ideal da Bildung defende, por um lado, a sobrevivência da comunidade com uma tendência a obediência e submissão às autoridades políticas e sociais e, por outro, um desenvolvimento interior zelosamente cultivado. O alemão vive em uma comunidade com a qual se identifica, uma comunidade antes de tudo cultural: é homem enquanto é alemão. O intelectual alemão se desvia da sociedade civil, formada por indivíduos, ao mesmo tempo que, no seu interior, pensa como indivíduo e se dedica a cultivar-se e desenvolver-se.17 Porém, foi Georg Simmel quem percebeu a dupla significação do termo "individualismo" ao distinguir entre individualismo formal (da semelhança) e individualismo qualitativo (da singularidade).18 Foi ele quem compreendeu o desvio de Goethe em Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1796), considerado exemplo de romance da Bildung, de transformar a passagem da formação de si em uma recomendação de abertura à comunidade, que no final do romance é considerada pelo poeta como a verdadeira conquista de Wilhelm Meister.19 Questões que se entrelaçam com a arremetida por parte de Einstein contra a Bildung e o eu hipertrofiado, contra o eu como retrospectiva, tanto quanto com a luta pela liberdade, e sua preocupação com a linguagem.
No ensaio de Einstein citado anteriormente, publicado na revista transition em 1932, que segundo Jolas arrasa com a lenda de Goethe no momento em que as editoras publicaram uma avalanche de coletâneas em comemoração do centenário da sua morte, duas passagens deixam entrever o seu posicionamento:
É realmente repulsivo ver, também, como Goethe considera cada momento de sua vida como importante, e, temendo à morte, prepara seu monumento biográfico.
Muito elogio tem sido dado ao sereno olho olímpico deste virtuoso do indireto e da metáfora, do qual o humanista deduz sua vaidade e megalomania. {...}
A este homem, possuído de uma mania egocêntrica (noutras palavras, a este homem não extático), o "eu", essa personalidade que ele tentou conservar em autobiografias, é um assunto muito importante. Possuído por ele mesmo, ignora o fato de que o "eu" fica submerso no ato e é esquecido, e de que só podemos atuar na medida em que o "eu" é destruído. Porque o "eu" não é mais do que um suplemento de uma perspectiva em retrospectiva; cada ato é extático e só pode acontecer por meio da destruição do "eu".20
Em vez de Goethe, com suas figuras que parecem fragmentos acabados do autor e funcionam como organismos metafísicos, com seu ponto de vista sempre ao alcance da mão e colocando-se a si mesmo como modelo,21 Einstein, como autor, se dissolve na experiência. Não é ele que projeta suas visões do mundo nos objetos sobre os quais teoriza; pelo contrário, são as obras de arte as que contêm a verdade - se é que podemos falar de verdade -, são elas que mobilizam o pensamento. O que nos leva a concluir que os textos de Einstein não devem ser avaliados como a descrição de uma experiência e sim como um esforço por dar conta de uma realidade apreendida na experiência. À ideologia da Bildung enquanto preservação de uma imortalidade individual que levou à própria superestimação, à valorização do acessório e ao desprezo pelo "outro", Einstein responde eliminando as barreiras entre objeto e sujeito. Sua escrita era indissociável de um posicionamento frente ao clima político e à ideologia dominante; resultava da combinação de uma liberdade criativa, do processamento da situação objetiva e da conjuntura histórico-social.
Porém, os escritos de Carl Einstein requerem um olhar amplo: para ele, como para tantos outros intelectuais daquela época, uma das tarefas impostergáveis da classe em ascensão - o proletariado - era deixar de lado as concepções burguesas de cultura, de moral, de ética e de estética. Entender seu pensamento exige colocar lado a lado vanguarda artística e vanguarda política e pensar a respeito do que ele chama da "responsabilidade política dos intelectuais".22 Por trás dessa palavra de ordem estaria a questão dos privilégios dos professores universitários que, entre 1890 e 1933, enxergavam o conflito social como a marca da sociedade industrial.23 Embora essa tensão tenha tido aspectos destrutivos e levado à transformação da Bildung em quase um título nobiliárquico, também produziu resultados criativos.
O engajamento de Einstein com uma escrita que desse conta da experiência vivenciada, no plano teórico, ecoa a Ernst Mach, outro dos pensadores com os quais ele dialoga e considera uma de suas referências.24 Filósofo e cientista, escrevendo em um alemão desprovido de jargão técnico, Mach se posiciona contra uma filosofia que tenta responder a questões profundas mediante a razão especulativa. Ele sugere desenvolver criticamente a experiência, visando a ultrapassar a barreira entre o psíquico e o físico. Crítico da relação causal entre eventos, defensor da conexão indissolúvel entre sujeito e objeto, Mach conclui que os conceitos, assim como as representações, surgem das sensações e da combinação delas. A matéria-prima da construção dos conceitos, que pertencem tanto ao senso comum quanto à ciência, seriam os dados da experiência sensorial imediata; dado que a experiência precede a distinção entre o físico e o psíquico, a abordagem crítica da experiência seria o modo de evitar tanto os idealismos como os materialismos.
Em vez de uma relação de causalidade, Mach propõe uma dependência funcional - no sentido matemático - dos dados da experiência, que denomina "complexos de elementos" ou sensações. Agrupados segundo três tipos de elementos - objetos externos, meu corpo e o ego -, nenhum deles é estável. Tal instabilidade admite que "consciência" e "matéria" não sejam duas realidades diferentes, inalteráveis, e sim duas modalidades de organizar os dados da experiência. Como resultado dessa instabilidade, aquilo que mais tememos, a aniquilação da permanência pela morte, de fato acontece inúmeras vezes durante a vida. Esses mesmos elementos dos "complexos de sensações" também constituem o "eu"; seus diferentes graus de permanência fazem do "eu" uma unidade indefinida, flexível, imprecisa. Sua intuição do "eu" como função, não como substância metafísica, diz também respeito a uma ênfase nas sensações, uma vez que
O Eu não pode, em nenhum caso, ser salvo. De algum modo esta intuição, e o medo que ela suscita, conduz aos absurdos mais extravagantes, pessimistas ou otimistas, religiosos, ascéticos e filosóficos {...} Renunciamos de bom grado, neste caso, à imortalidade individual.25
Em Mach, a continuidade é o meio pelo qual se assegura o conteúdo do eu, que é preservado nos outros depois da morte dos indivíduos: conteúdos de consciência de alcance universal transgridem os limites do indivíduo e cobram existência impessoal e supraindividual, ainda que permaneçam ligados aos indivíduos. A contribuição dos artistas e sábios seria a continuidade entendida como função, preservada nos outros. Sem dúvida, uma compreensão de continuidade que diz respeito à ambiguidade da noção de individualismo no pensamento alemão e que atravessa a crítica de Einstein a Goethe.
Há outras características da obra de Einstein que gostaria de ressaltar. Por exemplo, o diálogo que o autor estabelece com o leitor para além dos limites do texto. A meu ver, esse diálogo se organiza não só pelo tema tratado no texto e sim pelo exercício de pensar que esses textos demandam. Em Einstein o pensar não é uma atividade suprema, privilegiada; em Einstein o pensar é, sim, uma engrenagem entre fenômenos, uma vez que seus textos nos colocam frente à obrigação de pensar sobre o modo em que pensamos. Exemplo disso seriam seus artigos sobre cubismo e escultura negra. Neles, Einstein defende um outro modo de representar o espaço, uma alternativa à perspectiva renascentista, baseada no observador ciclope e imóvel. Como leitores, somos levados a tomar consciência de nosso modo de pensar cartesiano, linear, segundo um ponto de fuga que vai do simples ao complexo e no qual as questões estão mortas, imobilizadas, fixadas; seus artigos, pela sua originalidade na abordagem e na escrita, mostram quantas vezes aceitamos teses de outros sem examiná-las exaustivamente. Frequentemente sua escrita nos confronta com a tendência a fazer uma explicação genealógica dos objetos em vez de desenvolver um raciocínio teórico, como quando ele relaciona fatos plásticos para além dos fatos históricos; outras vezes, nos força a pensar sobre o modo em que atribuímos importância a uma obra dentro de um contexto cultural ao perceber, como leitores, seu esforço por não reconhecer valores determinados a priori; ou ainda, seu empenho em superar as dicotomias clássicas estruturadoras do pensamento decorrentes da divulgação do platonismo na virada do século XIX. A experiência fenomênica dos textos se torna assim tão intensa quanto a das obras de arte, desvendando um Carl Einstein que não precisava negar a tradição nem aderir a qualquer ortodoxia, com uma liberdade invejável em qualquer artista ou intelectual.
Outra qualidade é o papel que Einstein escolhe enquanto escritor: não é o do erudito e sim o de um especialista que se entrega à mobilização da visão, à experiência do espaço, à transformação dos conceitos e da vida. Sua insistência em chamar pintores como Masson e Miró de românticos, em alusão ao romantismo alemão, e não de surrealistas, oferece um claro exemplo disso. Mas deter-nos na leitura de seus trabalhos sobre arte também admite que, como leitores, duvidemos. Essas questões pertencem de fato aos artistas ou à leitura que Einstein faz dessas "escritas"? Tal ambiguidade nos aproxima a um modo particular de ver a arte como deflagradora de experiências e não como receptáculo de convenções. Em vez de ver cumpridas nossas expectativas em relação ao contexto ou condições de produção das obras, Einstein nos coloca frente ao sentido dessas obras e nos desafia com uma realidade inegável: por um lado, o fato de que a obra existe está presente e exerce um efeito direto no observador. Por outro, essa experiência, ao permanecer intata, deflagra uma etapa posterior de reflexão na qual tanto as intenções do artista como os fatos de sua vida se tornam irrelevantes e, portanto, são retirados da obra. Percorrendo o caminho inverso, podemos concluir que, em Einstein, as barreiras entre sujeito e objeto se dissolvem. Por construir uma relação tensa entre o par, inaceitável, sensível/inteligível sem retirar o desconforto intelectual que essa tensão provoca, e simultaneamente envolver e colocar o leitor num papel central, a experiência da leitura de seus textos se assemelha ao labirinto enquanto estrutura espacial completamente ambígua, a um espaço constituído exclusivamente por aberturas.
À busca de novos modos de representar o espaço do cubismo e de uma nova linguagem plástica, Einstein responde com uma busca por uma linguagem escrita - e um uso da linguagem - que permita outro modo de relacionar-se com o mundo. Questões que ganham outra dimensão à luz do que ele diz a seu amigo Daniel-Henry Kahnweiler, na carta datada de junho de 1923. Depois de expor suas ideias sobre a incapacidade da linguagem para dar conta de algumas experiências vivenciadas, da diferença entre o acontecimento literário e o acontecimento da realidade (que ele qualifica como sendo da ordem do verossímil ou do possível), da realidade da literatura como sucessão das palavras, da insuficiência de ornamentar poeticamente essa sucessão naturalista de palavras ou de recobri-la de metáforas, ele diz: "Não acredito que o cubismo seja apenas uma especialidade óptica; se assim fosse, seria falso, não fundamentado."26 Einstein aspira a uma abertura para o futuro como alternativa a um passado reconstruído como continuidade, busca ampliar os limites do mundo pela linguagem como opção ao confinamento criado pelos limites do mundo, estabelecidos pelo próprio limite da linguagem. Ou, nas palavras de seu amigo Georges Braque: "Escrever não é descrever, pintar não é evocar, a verossimilhança não é mais que ilusão de ótica."27
Também é possível descobrir seu pensamento na arte que lhe interessava: Einstein defendeu a superioridade plástica do homem frente às convenções e acompanhou a busca incessante de questões colocadas pelos pintores cubistas, para eles, mais valiosa do que "fazer" um quadro. Por volta de 1911, Picasso e Braque provaram que materiais diferentes podiam entrar no quadro ao introduzir as colagens e os papiers collés - eles incentivaram a tensão entre planaridade e profundidade e geraram uma multiplicidade de planos que simultaneamente avançam e recuam; Picasso não estilhaçou os objetos simplesmente, ele reagrupou predicados cuidadosamente selecionados. Eles alcançaram a força do quadro por meio de ritmos e contrastes na tela e não pela via da semelhança. Aboliram o espaço euclidiano e o espaço perspectivado como referência. Eliminaram a noção dominante de objeto como motivo do quadro para dar lugar ao novo conceito de forma, a partir da condensação das experiências do espaço e da totalidade dos movimentos oculares descontínuos; passaram da imitação e do plano imitativo à construção plástica. Foi esse ordenamento livre, realizado com valores plásticos e sustentado pela visão que afastou o cubismo da imitação e abriu a possibilidade da criação autônoma. Cubismo que foi o ponto de partida e a justificativa da análise da forma, da visão e do espaço que Carl Einstein faz em 1915 em Negerplastik.
Defendendo essa apreensão direta do espaço, na pintura cubista e na escultura negra, Einstein vai mais longe e define a história da arte como "a luta de todas as representações ópticas, dos espaços inventados e das figurações".28 Uma concepção da história da arte que abre possibilidades para a disciplina, se a enxergamos não mais segundo um modelo positivista, evolucionista e teleológico, e sim como conflito entre fatos plásticos. Quiçá, pela dificuldade enfrentada ao tentar definir o termo e os debates que o enigma do espaço suscitou na época e suscita ainda, a palavra "espaço" seja uma síntese bastante significativa do pensamento de Einstein. Apenas como exemplo: os limites impostos pelas ciências, especificamente a física e a geometria; o pensamento que considera o espaço vinculado à consciência, um índice do desenvolvimento espiritual de um indivíduo ou de uma época; as indagações de Husserl sobre a relação entre espaço e objeto nos primeiros anos do século XX; a intensidade com a qual artistas como Cézanne e os cubistas se dedicaram à tarefa de sua representação - ou, talvez, apresentação. Os problemas que encontramos para circunscrever a noção de espaço - talvez aí esteja toda a sua potência -, tanto quanto o problema filosófico que a noção apresenta, sugerem que mais do que um conceito de espaço, em Einstein a questão é a experiência do espaço.
Aproximando as invenções cubistas à escultura negra, analisando a arte africana a partir de categorias não africanas, Einstein aspira a uma reestrutura da visão sem referência a um repertório prévio de imagens, próprias de uma obra ou gênero de arte, de um artista ou de um período artístico. Destaca o aspecto plástico dos objetos, resultado de uma experiência não mediada por convenções e preconceitos. Trata-se do processo visual enquanto experiência original e constitutiva do real: a imagem resultante desse processo não é um resíduo inerte da sensação ou da percepção. Ele se depara com o espaço como instância inseparável da representação do volume na obra de arte. Seu modo de observar a escultura negra e o cubismo diz respeito a um objeto que, em vez de ocupar um espaço, se apropria dele; as bordas e os limites do objeto, suas penetrações e vazios, seja na pintura ou na escultura, criam espaço.
Mas a definição de História da Arte de Einstein revela um posicionamento crítico formulado pouco depois de que, em 1924, o governo recém-eleito (conservador e de direita) da Turíngia declare a Bauhaus inviável, reduza os subsídios e pressione para que a escola seja fechada, com o translado da escola para Dessau em 1925. Ainda, a indulgência diante da emergência de Adolf Hitler e a publicação de Mein Kampf (1924), em Weimar, e que, junto com o "retorno à ordem", a consigna de servir à pátria, de cuidar a família e dos negócios e a incapacidade de julgar esteticamente uma obra, esboçam o clima político e a hipocrisia da época. Tensão política que também se evidenciou no processo de blasfêmia contra Einstein, em 1922, pela publicação, em Berlim, de sua peça de teatro Die schlimme Botschaft (O mau Evangelho, 1921), uma crítica à situação sociocultural daquela época que inclui os atores da sociedade de Weimar: escritores, jornalistas, filósofos, críticos, artistas, colecionadores, comerciantes, burgueses, industriais, o povo, verdugos, mercenários e espiões desfilam frente ao Cristo crucificado em uma Alemanha de pós-guerra. Fatos que tornam a definição de História da Arte de Einstein ainda mais contundente no momento em que a frase "a história de toda sociedade existente até agora é a história da luta de classes"29do Manifesto Comunista foi transformada em "luta de raças" pelo nazismo.
Pensar essas questões sob a luz de suas preocupações em relação à escrita e à linguagem que ele expressa a Kahnweiler na carta já citada permite concluir que o valor de seus textos não decorre apenas de qualidades estéticas que ele enxerga nas obras e sim da potência da figura enraizada no psiquismo e sua capacidade e eficácia de mobilizar o pensamento. Na arte que interessa a Einstein, seja nas modificações da espacialidade, seja nas forças psíquicas transformadas e reagrupadas em grafismos, o que está em jogo é o fim da concepção positivista do real. Na sua escrita, na verdade uma transcrição da experiência, o que está em jogo é o fim da descrição de estados psicológicos e um entendimento da linguagem não mais como substantivo e sim como verbo.
Einstein não atribui valor estético a um objeto ou a um personagem simplesmente por ter pertencido a um momento histórico e sim pelo modo em que o presente cria sua sombra histórica. Ele busca trazer nossa atenção do geral para o objeto, e por meio dele, indagar a respeito da formação dos elementos constitutivos da forma artística e compreender as vicissitudes culturais, materiais e espirituais de sua época. Sua escrita atuante, pouco compreendida por seus contemporâneos, em um espírito de revolta permanente contra estruturas esclerosadas e fixadas no passado, se sintetiza em frases tais como "o valor da visão reside sobretudo na revolta metamorfótica contra o que é dado".30
O corpo a corpo com sua obra é, sem dúvida, uma experiência transformadora, uma vez que rejeita fórmulas fechadas e imutáveis assim como qualquer tentativa simplista de historicizar sua teoria. O seu campo de atuação fora da Academia, o embate constante com a linguagem e um temperamento incompatível com posições rígidas ou ortodoxas o levaram a uma obra de difícil classificação. Seus textos nos permitem encontrar um homem em pleno exercício do ato de pensar livremente. Mas o compromisso de Einstein com a arte, a história da arte - e sua escrita - e a linguagem é inseparável de seu engajamento político. Seu particular modo de pensar que se evidencia no seu interesse tanto nas formas mais transformadoras da arte moderna, o cubismo, como nas formas arcaicas ainda presentes na atualidade, a arte negra; sua partida para a Espanha em agosto de 1936; seu alistamento junto a Buenaventura Durruti; a carta a Picasso dizendo que "em Espanha eu defendia meu trabalho, a possibilidade de pensar e sentir livremente como indivíduo";31 questões que exigem pensar a complexidade e diferenças entre "liberdade" no sentido político e "liberdade" na especulação filosófica, tanto quanto a tendência das sociedades ocidentais a enxergar a liberdade a partir da dicotomia escravidão/autoritarismo, e não da ausência de liberdade. A linguagem se torna uma ferramenta política. Porque a linguagem "não é só verbo e escrita, é também um método, uma táctica de pensamento, um projeto de compreensão".32
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