Um nordeste em São Paulo: trabalhadores migrantes em São Miguel Paulista (19451966)

RESENHAS

William Vella Nozaki

Bacharel em Ciências Sociais - USP e mestre em Economia - Unicamp

Paulo Fontes, Um nordeste em São Paulo: trabalhadores migrantes em São Miguel Paulista (19451966). Rio de Janeiro, Editora FGV, 2008, 346 pp.

De um lado, as questões públicas da cidade, de outro, as questões privadas do trabalho, e, atando ambas, as passagens da migração. Ao tecer essa trama, Um nordeste em São Paulo revela algo acerca das sobreposições entre identidade de classe e consciência regional, entre movimentos sindicais e movimentos sociais, nas periferias da periferia do capitalismo.

Do ponto de vista histórico, ao escolher como palco a cidade de São Paulo e o bairro de São Miguel Paulista, e como personagens os trabalhadores que se deslocaram pelo eixo Nordeste-Sudeste, Paulo Fontes monta uma cena sobre a industrialização, a urbanização e a migração entre meados das décadas de 1940 e 1960.

Do ponto de vista teórico, ao optar por abordar a classe trabalhadora tanto em seu deslocamento geográfico como em sua fixação territorial, o autor esclarece a importância das redes e das linguagens sociais que compõem o núcleo do que será o senso de pertença a uma classe e a uma comunidade, tópicos decisivos para a formação da classe operária brasileira.

Essas perspectivas conferem o sentido geral do livro: apresentar e reafirmar o protagonismo dos "de baixo" nas decisões sobre o seu destino cotidiano e político, para além de determinações econômicas, mas não apesar delas, além de explicitar as ligações entre uma história que acontecesse escondida e a história dos macroacontecimentos.

Para tanto, o livro divide-se em cinco capítulos. De saída, o autor afasta os fantasmas de certa teoria da modernização que insistiu em abordar as migrações como transições do rural ao urbano, do regresso ao progresso, sem se perguntar sobre os impactos ou o papel desse fenômeno para os trabalhadores que dele participavam e a partir dele se constituíam. Há também que se afastar os fantasmas de certa teoria do populismo que, de um lado, passou a incorporar a preocupação com a presença dos trabalhadores, de outro fincou as raízes de um modelo interpretativo para o qual a participação dos trabalhadores se dá invariavelmente no marco da cooptação e da manipulação. Por fim, há que se ponderar a substituição do conceito de populismo para a noção de trabalhismo. Pois, enquanto aquele não explica certos aspectos das relações de trabalho, do mundo sindical e das influências do comunismo, este não elucida certas características das relações políticas e do mundo urbano paulistano, como o janismo e o ademarismo.

O primeiro capítulo trata de esclarecer as razões e o significado da migração. A grande migração de trabalhadores saídos das regiões rurais do Nordeste em direção às regiões urbanas no Sudeste é um fenômeno marcante na segunda metade do século XX. Por longo tempo, parte significativa da bibliografia sobre o tema tratou o fenômeno como algo caótico, irracional, causado exclusivamente pela decadência da economia agrícola do Nordeste e pelo avanço da economia industrial de São Paulo.

Ao mergulhar nesse assunto, entretanto, Paulo Fontes traz à tona novos elementos: a busca por direitos trabalhistas e por direitos urbanos foi o móbile principal a empurrar esses trabalhadores, encorajando-os a uma jornada precária através de uma travessia perigosa. Mais ainda, ao contrário do que pensa o senso comum, a vinda desses migrantes não era feita de modo apressado e desordenado: a viagem era meticulosamente arquitetada, preparada pela família no Nordeste e pela comunidade em São Paulo.

A decisão de migrar não raras vezes era precedida pela manutenção de uma pequena propriedade na terra de origem e seguida pela mobilização de uma rede de comunicação entre os que já se encontravam na terra de destino. Além disso, algumas idas e vindas de migrantes, interpretadas comumente como inadaptação ao meio urbano e moderno, eram, na realidade, tramadas como forma de conquistar novos caminhos sem se desfazer dos velhos laços.

Para Paulo Fontes, o principal problema por trás da migração não está na falta de adaptação dos nordestinos, mas na dificuldade de recepção dos paulistas. Assim, é de se compreender que a incorporação no mercado de trabalho tenha sido árdua, cabendo aos recém-chegados a dureza da construção civil antes de qualquer incursão em atividades industriais.

Já o segundo capítulo trata de apresentar o bairro em que aportaram os migrantes. A imagem com que o autor nos apresenta o bairro de São Miguel Paulista é emblemática, um bairro da periferia leste paulistana preparado para se reconstruir, pronto para abrigar e ser disputado por forças e intenções tão díspares quanto a de um pastor evangélico e a do partido comunista. A história moderna do bairro começa ainda na década de 1930, quando ali se instala uma das maiores indústrias químicas do país, transformando a região em um dos principais subúrbios industriais da região metropolitana de São Paulo.

Essa periferização da classe trabalhadora em São Paulo encontra seu auge no período abordado pelo autor. Os processos de especulação imobiliária e loteamento, comandados pela iniciativa privada no centro da cidade e combinados ao sonho do fim do aluguel e da construção da casa própria, atuaram como motores para o deslocamento periférico dos trabalhadores. A construção de moradias por meio de mutirões, financiada pelos parcos recursos poupados e com a ajuda de familiares e amigos em finais de semana e períodos de folga, ia desenhando a arquitetura do bairro.

Nesse ambiente, a vida cotidiana confundia-se com a vida das fábricas ali instaladas. Enquanto o apito da indústria organizava a vida das donas de casa, as relações de parentesco e amizade formavam as redes de indicações dos empregados que se incorporariam à empresa. Sem descuidar da atenção para com os problemas no local de trabalho e dos impactos causados pela empresa no bairro e no meio ambiente, Paulo Fontes segue armando o percurso por onde passam e interagem a identidade trabalhadora e a identidade comunitária.

O terceiro capítulo aborda os padrões de utilização do tempo livre e de lazer conformados entre o trabalho e a comunidade, traçando um panorama da sociabilidade periférica.

Em face de limitadas ofertas de opções culturais e de entretenimento, salta à vista atividades recreativas como nadar ou pescar no rio Tietê, passear pela praça central de São Miguel Paulista, participar do footing e brincar o carnaval de rua. Além dessas formas elementares de ocupação do espaço público para a diversão, a vida de lazer do bairro parece girar ao redor de iniciativas privadas. Em uma região carente de serviços públicos, e de população religiosa, não é de estranhar que as festas da igreja fizessem muito sucesso. Mas era em torno do Clube de Regatas da Nitro Química que o tempo livre dos moradores do bairro parecia ser aplicado com mais intensidade. Atividades esportivas, bailes, apresentação de cantores e artistas famosos, tudo parecia remeter ao patrocínio da grande indústria.

Além de brincadeiras de futebol, dominó, baralho e sinuca, os bares e botequins parecem coroar os espaços de encontro, revelando a importância das redes informais. Mas também é a partir deles que se constitui uma das características de São Miguel Paulista: comportar um dos mais elevados índices de violência da cidade.

Inúmeras explicações atribuíram a culpa dessa violência à natureza bruta e inadaptada do migrante nordestino, estereotipado nas figuras do "cangaceiro" ou do "cabra-macho". É bem verdade que tais caracteres fazem parte do senso de masculinidade do migrante nordestino, mas para Paulo Fontes estão longe de explicar os problemas do bairro. Muito mais plausível é encontrar a causa desses problemas nas carências urbanas em que vivia a região leste de São Paulo.

A ausência de saneamento básico, a falta de pavimentação nas ruas, a precariedade da iluminação pública, a quase inexistência de telefonia, a oferta insuficiente de serviços educacionais, a precariedade do transporte público, tudo somado ao crescimento constante do bairro, seriam fatores decisivos para que os moradores da região internalizassem uma sensação de isolamento e abandono.

Nesse cenário, o autor insiste e reforça: os laços de parentesco e vizinhança e as relações de trabalho e amizade são elementos fundamentais para amenizar a ausência do poder público. Mas isso não justifica tratar esses vínculos como se fossem formados apenas por relações solidárias e comunitárias. As tensões e disputas também estiveram presentes, e são parte integrante dessa sociabilidade. A hierarquia das profissões e ocupações tem seu reflexo na própria geografia urbana do bairro, separado em vilas de administradores e vilas de operários; enquanto a segregação reaparece na relação entre migrantes (nordestinos) e imigrantes (turcos, italianos e japoneses).

O quarto capítulo retrata a vida política e partidária da cidade e de seu subúrbio leste. O final da Segunda Grande Guerra abriu um período de grande participação e mobilização política entre os trabalhadores brasileiros, e os reflexos desse fenômeno foram particularmente intensos em São Miguel Paulista.

A célula do PCB nesse bairro, segundo o autor, tornou-se verdadeiro orgulho do partido, por ser a maior organização de base em São Paulo. Prova disso é o conjunto de visitantes comunistas ilustres recebidos pelo bairro, figuras como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Dorival Caymmi, Luis Carlos Prestes e Carlos Mariguella. O partido arregimentou militantes e conquistou simpatizantes não só entre operários, mas também entre comerciantes e profissionais liberais, de maneira que os idos de 1945-1946 ficariam marcados por uma intensa onda de comícios e atividades públicas organizadas pelos comunistas.

É bem verdade, lembra Paulo Fontes, que no âmbito eleitoral a popularidade e a influência do trabalhismo varguista continuava imperando, mas isso não impediu que, nas eleições para a Assembleia Legislativa de 1947, o bairro de São Miguel desse vitória ao PCB. A partir de então o partido passaria a ser visto ora como ameaça (a ser combatida pela associação entre empresários e órgãos de repressão do Estado), ora como objeto de desejo (a ser disputado para potenciais alianças político-partidárias com agremiações como o PSP). Enquanto permaneceu na legalidade, o PCB atuou como escoadouro das reivindicações trabalhistas e sociais, mas assim que foi posto na clandestinidade abriu caminho para o surgimento de um fenômeno profundamente enraizado nas periferias paulistanas: o populismo ademarista e janista, aquecido ainda, pondera o autor, pelas iniciativas assistencialistas da própria fábrica e pelas iniciativas filantrópicas da igreja local.

A utilização do carisma pessoal e da máquina estatal a fim de empreender uma política que busca flertar, de maneira oportunista, com as necessidades dos trabalhadores foi prática comum entre figuras como Adhemar de Barros e Jânio Quadros. Paulo Fontes aborda tais figuras - complexas e ambíguas - em seus matizes, apontando diferenças, mas sobretudo ressaltando a via de mão dupla que liga a política do bairro à política do Estado. Ao mesmo tempo em que traziam certo clientelismo do jogo partidário ao território da periferia, esses políticos levavam para a arena política certas reivindicações e linguagens da periferia.

Desse modo, a adesão ao ademarismo e ao janismo em São Miguel não pode ser simplesmente enquadrada nos modelos de cooptação das massas, é preciso lê-la no registro da busca por representação política (para além do espectro esquerda-direita). Disso não resulta, entretanto, uma leitura "chapa branca" do processo histórico. Paulo Fontes reconstrói o cenário das disputas eleitorais e a composição das coligações partidárias, chamando a atenção para uma espécie de reedição da aliança entre potentados com raízes locais e lideranças com projeção estadual/ nacional, expressa nas relações entre os vereadores locais, o prefeito e o governador.

A penetração desses vereadores no bairro e sua visibilidade na política da cidade se dá a partir de redes informais, de compadrio e compromissos pessoais. Entretanto, o que chama a atenção do autor - e essa é a mensagem a ser guardada - não é tanto a maneira como os "poderosos" se relacionam em uma teia de favores, mas como a própria existência dessa trama traduz um processo de construção de demandas "populares" que refletem a exigência de melhores condições de trabalho e, sobretudo, de serviços urbanos. Pleiteando melhoramentos para suas vilas e para seu bairro é que os moradores de São Miguel seguiam construindo sua identidade política, num crescente que culmina na criação de comissões de moradores e entidades de bairros, analisadas no quinto e último capítulo do livro.

A estruturação das Sociedades Amigos de Bairro no início dos anos de 1950, a criação dos Conselhos Distritais em meados da década e a fundação da Federação das Sociedades Amigos de Bairros e Vilas de São Paulo, no final da mesma década, são exemplos da organização dos cidadãos paulistanos em busca de melhorias na infraestrutura urbana e na oferta de serviços públicos. O aumento nas tarifas dos serviços públicos, além da diminuição do poder aquisitivo dos salários, levou a cidade à "greve dos 400 mil", marcando o estreitamento dos laços entre entidades de bairro e movimento sindical. Os protestos contra a carestia e a inflação marcavam portanto uma articulação política entre o mundo do trabalho e as questões urbanas, anota Paulo Fontes.

A manifestação dessa ligação, em São Miguel Paulista, se deu pela atuação do Centro Amigos de São Miguel e do Sindicato dos Químicos; sua expressão encontrou voz, primeiro, na organização de paralisações e, em seguida, na criação de um movimento autonomista que buscava alçar o bairro à condição de município. Embora o movimento não tenha logrado êxito, teve o mérito de reforçar uma identidade local e comunitária forjada a partir da insatisfação com a condição de vida precária, além de ter motivado os moradores da região a pensar em alternativas de desenvolvimento.

Narrando, por assim dizer, a história de uma identidade que emerge da migração, de uma consciência que se faz no trabalho e de uma ação que se concretiza na cidade, Paulo Fontes lança luz sobre as conquistas e os desafios envolvidos na construção do protagonismo das camadas populares.

Ao final da leitura fica a mensagem: a luta por direitos trabalhistas e sindicais confunde-se com a luta por direitos urbanos e sociais, e se assim transcorre a história é porque a conquista da cidadania ocorre no palco da cidade e por intermédio do trabalho.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2010
  • Data do Fascículo
    2009
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