Under three flags: anarchism and the anti-colonial imagination

RESENHAS

Under three flags: anarchism and the anti-colonial imagination

Fabio Nogueira; Iacy Maia Mata

Professores da Uneb

Benedict Anderson. Under three flags: anarchism and the anti-colonial imagination. Londres/Nova York, Verso, 2007. 255 pp.

Benedict Anderson tornou-se muito conhecido no Brasil a partir da tradução e publicação de Comunidades imaginadas. Em Under three flags, ainda não traduzido no país, o autor dá continuidade aos estudos sobre a formação dos nacionalismos, desta vez para enfatizar os vínculos entre globalização e movimentos sociais e políticos. Segundo Anderson, as duas últimas décadas do século xix e a desagregação do império espanhol, com as lutas de independência em Cuba (1895-1898) e Filipinas (1896), coincidem com o estágio inicial da globalização, quando houve incremento no fluxo de informações (via troca de correspondências ou publicação jornais e revistas) e de pessoas (por meio das ferrovias e do transporte marítimo). Essa globalização teria permitido a "coordenação transnacional" entre o nacionalismo anticolonialista de Cuba e Filipinas e o anarquismo, que tinha na violência e no terror seu principal instrumento de propaganda política.

Os percursos intelectuais e políticos de três líderes nacionalistas filipinos - José Rizal (1861-1896), Isabelo de los Reyes (1864-1938) e Mariano Ponce (18631918) - são reconstituídos em um estilo entre, nas palavras do próprio Anderson, "a montagem histórica à la Eisenstein e o estilo folhetinesco de Dickens e Eugene Sue" (p. 5). A longa experiência europeia de Rizal, que, entre 1882 e 1892, viveu na Espanha, na França, na Alemanha e na Bélgica; o intenso intercâmbio político da correspondência de Mariano Ponce com intelectuais parisienses, antilhanos "diaspóricos", japoneses e chineses; o contato de Isabelo de los Reyes com líderes anarquistas no presídio de Montjuich1 1 . Localizada em Barcelona, segundo Anderson, essa prisão tornou-se espaço em que presos políticos anarquistas e nacionalistas radicais compartilhavam experiências de luta. (onde cumpriu pena até 1901), do qual saiu para se tornar uma das principais expressões do movimento sindical filipino - são trajetórias que alinhavam a tese central do livro: o nacionalismo anticolonialista de Filipinas e Cuba e o anarquismo terrorista são movimentos "globais" e "cosmopolitas" que se constroem por meio de "coordenações transnacionais" que unem líderes políticos e intelectuais "nativos"/"locais" (Filipinas e Cuba) e aqueles que o autor chama de representantes (representatives) - jornais e revistas políticas e/ou literárias, líderes políticos e intelectuais - espécie de agentes globais sediados em cidades cosmopolitas como Paris, Hong Kong, Londres e Nova York.

Anderson inicia Under three flags com a análise de dois livros: o Folk-lore filipino (publicado em 1887), escrito por Isabelo de los Reyes, e El filibusterismo (de 1891), de José Rizal. Aqui, ressurgem elementos importantes do pensamento de Anderson, a exemplo do significado da produção literária para a formação dos novos nacionalismos, agora, na Ásia. Para ele, o romance de Rizal é resultado das relações intricadas entre três mundos: o primeiro, o sistema mundi-interestatal das décadas de 1860 e 1890, dominado pela política imperialista de Bismarck; o segundo, o da esquerda global, vinculado, essencialmente, ao anarquismo; o terceiro, o do decadente império espanhol (marcado por movimentos anticoloniais do Norte da África até o Caribe e por fortes divisões internas na sociedade espanhola).

A estratégia exitosa de José Martí (1853-1895) - que organizou o Partido Revolucionário de Cuba, do exílio, em Nova York - e o avanço das tropas cubanas lideradas por Antônio Maceo, por sua vez, prenunciam o colapso do império espanhol, o que serviu de estímulo à luta anticolonial nas Filipinas. Antigos líderes da Liga Filipina, idealizada por Rizal, fundaram uma organização chamada Katipunan, liderada por Andrés Bonifácio, o qual, a partir de 1895, dirigiu a luta pela descolonização das Filipinas. Além das vitórias dos revolucionários nos campos de batalha em Cuba, os membros do Katipunan passaram a se beneficiar da sensível geopolítica do continente asiático e dos conflitos de interesses entre China, Japão e Espanha.

Esses acontecimentos influenciaram e foram simultaneamente afetados pela instabilidade política da metrópole espanhola, cuja causa imediata, por sua vez, foi um atentado terrorista em Barcelona. Esse atentado à bomba endureceu as restrições políticas e motivou a prisão de centenas de líderes nacionalistas, republicanos radicais, anticlericais, anarquistas e socialistas na prisão de Montjuich. O cenário político da metrópole criou condições para que as lutas de independência filipina e cubana estabelecessem alianças com anarquistas terroristas radicados dentro e fora dos limites espanhóis, tanto na Europa, como no Caribe e na Ásia. Em 1897, o assassinato de Cánovas, mandatário do governo espanhol, pelo anarquista italiano Michele Angiollio, desvelou as redes e as articulações entre nacionalistas e anarquistas. Entram em cena as conexões entre líderes nacionalistas (Fernando Tájida del Mármol e Dr. Ramon Betances), intelectuais (Georges Clemenceau e Félix Feneon), partidos de esquerda (Partido Operário Belga) e anarquistas (Angiolillo). Os efeitos políticos desse assassinato para a luta de independência das Filipinas são entendidos a partir da trajetória de Mariano Ponce, líder independentista e representante internacional do Katipunan.

A sociologia histórica de Anderson, aplicada ao estudo dos movimentos sociais, é uma inovação em relação às teorias sociológicas que possuem como categorias-chave para explicar as condições de mobilização locais a estrutura dos movimentos, os "laços fortes" entre líderes e liderados e, ainda, suas diferentes ideologias, bandeiras de luta e repertórios de mobilização. Ancorado no método comparativo, Anderson envereda por uma história cruzada em que a circulação e o deslocamento de indivíduos, jornais e revistas levam ao entendimento das conexões entre nacionalismo e anarquismo, movimentos políticos aparentemente excludentes. Vale-se, para isso, de vasta documentação que envolve obras literárias, cartas, revistas e jornais, passeando pela crítica literária, estudo de histórias de vida e análise de bibliotecas pessoais.

Não obstante as evidências que demonstram a articulação entre esses movimentos, as relações entre Katipunan e o mundo eurasiático são menos evidentes no livro de Anderson do que entre os líderes cubanos e seus pares europeus e norte-americanos (algo que poderia ser mais bem explorado na obra). Além disso, a ênfase na descrição da forma como atuavam os anarquistas terroristas (as liberdade pessoal e autonomia, a recusa de estruturas hierárquicas e burocráticas, a relação com o ambiente intelectual e literário e o terror como propaganda) contrasta com as esparsas informações sobre a estrutura e a organização do Katipunam e do Exército Libertador de Cuba.

Under three flags é uma obra que apresenta um novo paradigma nos estudos sobre movimentos sociais e nacionalismos. É radical à medida que abole fronteiras políticas, teóricas e metodológicas e antigas hierarquias e distinções que parecem mais não fazer sentido (se já fizeram um dia) em um mundo essencialmente global.

Nota

  • 1
    . Localizada em Barcelona, segundo Anderson, essa prisão tornou-se espaço em que presos políticos anarquistas e nacionalistas radicais compartilhavam experiências de luta.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Jan 2013
  • Data do Fascículo
    Nov 2012
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