A escola da vida

The school of life

Pedro Abrantes Sobre o autor

Resumos

O artigo discute as complexas relações entre educação, identidade e mudança social através da história de vida de Simon Bolívar, Benito Juárez e Ernesto Guevara. Reconstituindo seus percursos biográficos, à luz de teorias sociológicas recentes sobre a constituição dos atores sociais, torna-se possível, a um só tempo, discernir alguns traços fundamentais das identidades dessas três figuras centrais da história da América Latina e repensar o modo como as diferentes experiências socializadoras se combinam na produção da identidade e das disposições dos indivíduos em formas criativas não isentas de tensões. A tese central deste artigo é que essa combinação identitária de referências sociais díspares não só é possível, como é impulsionada por (e representa) transformações sócio-históricas de grandes proporções.

Biografia; Educação; Identidade; Mudança


This paper discusses the complex relations between education, identity and social change, focusing specifically on the life-histories of Simon Bolívar, Benito Juárez and Ernesto Guevara. The reconstitution of their biographical pathways, supported by recent sociological theories on the constitution of social actors, allows us to identify some of the key features of their identities and, simultaneously, to rethink how different socializing experiences are combined in the formation of individual identities and dispositions in creative and tension-provoking ways. The article's main thesis is that this combination of divergent social reference points is not only possible, but is promoted by (and represents) broad sociohistorical transformations.

Biography; Education; Identity; Change


ARTIGOS

A escola da vida

The school of life

Pedro Abrantes* * Agradeço encarecidamente a António Firmino da Costa e João Miguel Teixeira Lopes, assim como a Manuel Abrantes, pela leitura atenta do manuscrito e pelos comentários encorajadores e sugestivos. Agradeço igualmente à Equipe Argumento pela detalhada revisão de estilo, permitindo-me adaptar o texto ao português escrito no Brasil.

Pesquisador doutor do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (Cies-IUL), em Lisboa; atualmente, é pesquisador visitante do Centro de Investigación y Estudios Superiores en Antropología Social (Ciesas), na Cidade do México. E-mail: <pedro.abrantes@iscte.pt>

RESUMO

O artigo discute as complexas relações entre educação, identidade e mudança social através da história de vida de Simon Bolívar, Benito Juárez e Ernesto Guevara. Reconstituindo seus percursos biográficos, à luz de teorias sociológicas recentes sobre a constituição dos atores sociais, torna-se possível, a um só tempo, discernir alguns traços fundamentais das identidades dessas três figuras centrais da história da América Latina e repensar o modo como as diferentes experiências socializadoras se combinam na produção da identidade e das disposições dos indivíduos em formas criativas não isentas de tensões. A tese central deste artigo é que essa combinação identitária de referências sociais díspares não só é possível, como é impulsionada por (e representa) transformações sócio-históricas de grandes proporções.

Palavras-chave: Biografia; Educação; Identidade; Mudança.

ABSTRACT

This paper discusses the complex relations between education, identity and social change, focusing specifically on the life-histories of Simon Bolívar, Benito Juárez and Ernesto Guevara. The reconstitution of their biographical pathways, supported by recent sociological theories on the constitution of social actors, allows us to identify some of the key features of their identities and, simultaneously, to rethink how different socializing experiences are combined in the formation of individual identities and dispositions in creative and tension-provoking ways. The article's main thesis is that this combination of divergent social reference points is not only possible, but is promoted by (and represents) broad sociohistorical transformations.

Keywords: Biography; Education; Identity; Change.

A sociologia tem sido marcada, nas últimas décadas, por um "regresso do ator", utilizando a feliz expressão de Touraine (1986), na medida em que o indivíduo deixa de ser visto como produto de forças externas (a classe social, o gênero, a etnia etc.) e passa a ser considerado um agente que participa do contexto social e desenvolve continuamente percursos, identidades, competências e disposições. Não significa que as estruturas sociais deixem de existir, mas que estas abrem "campos de possibilidades" (desiguais) aos indivíduos e são também reconstruídas no decurso da ação individual e coletiva (cf. Velho, 1994; Giddens, 1997; Dubar, 1997; Lahire, 2002a; Beck e Beck-Gernsheim, 2003).

Essa perspectiva gera novos questionamentos, sobre os quais a pesquisa empírica é ainda insuficiente: por meio de que processos se formam, ao longo da vida, as identidades e as disposições dos indivíduos? Que instâncias sociais promovem e regulam a formação dessas identidades? Será, nas sociedades modernas, a ação pedagógica (em particular, o sistema educativo) que preside a esse processo? Quais os elos mediadores entre a produção de identidades, no nível micro, e os macrofluxos de transformação das sociedades? O conceito de socialização é, sem dúvida, central para responder a essas questões, mas permanece demasiado vago, sendo, portanto, crucial compreender como, na formação das identidades, se articulam (ou não) dinâmicas tão díspares como as relações familiares, a escolarização, os círculos de sociabilidade, a integração profissional, o ativismo político, entre outros. No título do artigo, utiliza-se o conceito "escola da vida" para abranger essas modalidades diversas de educação formal, informal e não formal.

Por um lado, o presente artigo mobiliza alguns avanços recentes da teoria sociológica para compreender a formação de três atores fascinantes e centrais da história da América Latina: Simon Bolívar, Benito Juárez e Che Guevara. Por outro, considerando que os dados empíricos são fundamentais para examinar e desenvolver teorias, a análise comparada dessas três histórias de vida que se desenrolaram em diferentes lugares e tempos - particularmente rica pela existência de um enorme manancial de material biográfico sobre cada um dos atores - não deixa também de alimentar a discussão sobre a utilidade (e os limites) das teorias sociológicas, em particular, em campos que têm sido mais explorados pela história social ou pela geografia política, contribuindo assim para o diálogo entre essas disciplinas e um aperfeiçoamento dos modelos teóricos sobre a formação das identidades.

Não negamos que o fato de se tratarem de três líderes políticos e sociais introduz matizes específicos, limitando as generalizações. Mas defendemos, em primeiro lugar, o interesse das ciências sociais em aprofundar o conhecimento sobre essas três personalidades, em particular, perante a sua apropriação frequente por discursos políticos, mediáticos e do senso comum. Em segundo lugar, reconhecendo que todas as vidas são singulares, o método biográfico dispõe hoje de ferramentas analíticas que permitem contribuir para a compreensão de processos sociais mais amplos.

Socialização e identidade: debates teóricos

Com a superação da visão durkheimiana de socialização como transmissão e reprodução da cultura de uma comunidade, os processos de formação das identidades e das disposições individuais passaram a receber, nas últimas décadas, um interesse redobrado e múltiplas interpretações, ainda que nem sempre suportadas por um trabalho empírico sistemático.

Ao distinguir socialização primária e secundária, a obra clássica de Berger e Luckmann (1978) incluía já alguns elementos importantes para repensar esse processo. Segundo os autores, enquanto a primeira é imediata, naturalizada e pré-reflexiva, tendendo assim para a reprodução social, a segunda é reflexiva e geradora de um saber especializado que se vincula à transformação social. Entre uma e outra, pode haver continuidade ou ruptura, suscitada por fracassos na socialização primária e/ou por mudanças sociais bruscas. Em todo o caso, para gerar uma nova identidade e representação do mundo, essa ruptura tem que ser apoiada em aparatos mediadores que permitam uma "reinterpretação do passado" à luz de novos referentes.

Apesar dos determinismos e das simplificações que encerra, negando os "deslocamentos entre esperanças subjetivas e probabilidades objetivas" (Fabiani, 2002, p. 39), consideramos também útil recuperar o conceito de habitus (cf. Bourdieu e Passeron, 1970; Bourdieu, 1979), na medida em que representa um sistema individual, por um lado, de incorporação das estruturas sociais e, por outro, de produção de práticas e representações. Se, em algumas passagens, sobretudo para efeitos de análise estatística, tende-se a reduzir o habitus a uma expressão de classe (ora de origem social, ora de posição atual), na sua formulação integral ele reflete as diversas experiências socializadoras proporcionadas por uma trajetória específica no espaço social. Bourdieu e Passeron (1970) reconhecem, pois, que um agente social é objeto de múltiplas ações pedagógicas, podendo os seus proponentes entrar em conflito pelo monopólio da legitimidade cultural. Enquanto a socialização familiar (ou de classe) é apresentada como a base de todas as aprendizagens subsequentes, inibindo, aliás, aquelas que se encontram mais distantes do arbitrário cultural enraizado, no nível social, as aprendizagens oriundas das classes populares são desautorizadas pelas instituições dominantes, nomeadamente, os sistemas públicos de ensino.

Essa proposta teórica foi revista recentemente por Bernard Lahire (2002a, 2002b), segundo o qual o habitus dos atores é formado e acionado em diferentes contextos sociais (família, escola, trabalho etc.), não existindo uma necessária coerência ou hierarquia entre eles. Assim, as disposições individuais são produto incorporado da repetição de experiências, mas são variáveis sua durabilidade e "transferibilidade" entre contextos, podendo ser apaixonadas, rotineiras ou renegadas, reforçadas ou diluídas com o tempo, em coerência ou em conflito com as crenças e os valores do indivíduo. As modalidades de socialização apontadas pelo autor são: a prática direta; a organização das situações; e a inculcação ideológica. Entre crises, tensões e desajustes, a organização do "patrimônio de disposições" torna-se, em suma, uma tarefa permanente dos indivíduos, bem como objeto de estudo sociológico, cabendo ao pesquisador desenvolver "retratos sociológicos", uma variante da aplicação do método biográfico.

Entretanto, no universo sociológico, tornou-se proeminente uma linha de estudos sobre identidades, reflexividade e modernidade. Segundo autores como Touraine (1986), Giddens (1997) ou Beck e Beck-Gernsheim (2003), uma vez que o self se tornou menos dependente das normas impostas pelas instituições, ele assumiu-se como matéria de trabalho reflexivo dos sujeitos, dando origem a identidades subjetivas, plurais, flexíveis, plásticas, em constante transformação, por meio de vínculos singulares e temporários estabelecidos com instituições distintas. Ou seja, participando de diversas redes sociais, não apenas o indivíduo vai se representando por meio de diferentes categorias e afiliações, como estas são resultado de negociações e interpretações particulares. Essa erosão dos vínculos tradicionais gera inúmeras tensões sociais e psicológicas (crises identitárias), enquanto liberta os indivíduos para a elaboração de "histórias de vida" singulares e reflexivas. O próprio conhecimento produzido pelas ciências sociais e incorporado nos quadros de uma reflexividade social influi nos modos como os atores se (re)constroem continuamente, dando origem a processos de "dupla hermenêutica".

Embora os autores associem esse processo com o advento da modernidade, é curioso que eles nunca aprofundem a sua relação com as transformações no campo educativo. Partindo de uma pluralidade de referências, a pesquisa em curso sobre learning lives (cf. P. Hodkinson, H. Hodkinson e Hawthorn, 2008) pode ser considerada uma boa aplicação da teoria anterior ao estudo dos processos educativos. Nesse caso, os autores começam por notar como, nas sociedades modernas, modalidades formais e informais de educação vão se sucedendo e se combinando ao longo da vida, sendo por vezes difícil distingui-las. Por meio da análise biográfica, torna-se evidente que, estando os "horizontes de aprendizagem" duplamente limitados pelas condições sociais (passadas e presentes) e pela própria identidade pessoal, os processos educativos, implicando uma dose variável de intencionalidade, não são, em qualquer caso, mera adaptação aos papéis atribuídos pela sociedade, mas se afirmam como centrais na agência dos indivíduos e na construção de seu "projeto identitário", em particular, em "momentos de inflexão" (turning points), pretendidos ou não, na sua existência social. Entre o material empírico recolhido, sucedem-se casos em que o êxito ou fracasso dos processos educativos - formais ou informais, em diferentes fases da vida - adquirem um peso determinante na (re)configuração das identidades, superando as expectativas dos atores.

Ainda assim, nessas teorias apresentadas, o modo como os indivíduos se constituem em "atores sociais" permanece algo vago. O trabalho dos antropólogos Jean Lave e Etienne Wenger (1991) mostra como, em diferentes sociedades, a aprendizagem emerge como parte de um processo de "participação periférica legítima" em "comunidades de práticas". Ao envolver-se nas práticas comunitárias (em particular, durante o movimento de recém-chegado ao de participante pleno), o indivíduo vai adquirindo, dentro do quadro local de relações sociais, um conjunto de competências que o definem, ou seja, estas conferem-lhe uma identidade, transformam-no num certo "tipo de pessoa". Essa perspectiva vai ao encontro de algumas teorias da psicologia que defendem que a aprendizagem depende das prioridades dos indivíduos e do seu sentido de autopreservação, o que conduz a que seja potenciada em alguns contextos e inibida noutros (cf. Claxton, 1984). Cotejando várias escolas psicológicas e sociológicas, também Dubar (2004) constrói uma concepção da socialização como transação entre o indivíduo e o seu entorno através da qual se constrói a sua identidade social. Negando uma visão unidimensional do mundo social, o autor francês distingue: (a) um processo relacional de construção da identidade, associado a uma posição adquirida e reconhecida nos campos sociais nos quais o indivíduo se movimenta; e (b) um processo biográfico, no qual o indivíduo, a partir da sua experiência social, constrói uma "visão de si" por meio da produção de uma narrativa sobre o seu passado, presente e futuro. Ambas as representações podem não coincidir, tanto gerando tensões que impelem o indivíduo à ação transformadora (de si e/ou do mundo), como "protegendo-o" de formas violentas de exploração e de exclusão. Infelizmente, quer Wenger e Lave (1991) quer Dubar (2004) centram a observação empírica em processos de socialização que ocorrem no campo profissional, o que, como eles mesmos reconhecem, não deixa de ser limitador para uma compreensão mais vasta da formação dos atores sociais.

Considerando as "histórias de vida" de Bolívar, Juárez e Guevara, será importante também fazer referência a alguns estudos sobre os movimentos sociais, em particular, aqueles que adotam uma perspectiva biográfica e identitária. A tese de doutorado de Inês Pereira (2009) é um excelente contributo para essa linha de investigações. A autora propõe o conceito de "envolvimento" para referir-se a um modo específico de ação (não apenas no mundo, mas sobre o mundo) através do qual as identidades coletivas são negociadas e partilhadas. Ao reconstituir "histórias de vida" de ativistas, o estudo mostra como os indivíduos atribuem grande importância ao momento de iniciação nos movimentos sociais, justificando sua adesão por meio de cinco processos típicos: a socialização primária, a pertença a grupos juvenis ("incubadoras"), o contexto sócio-histórico, acontecimentos "de inflexão" na vida pessoal e relações afetivas com ativistas. A educação formal parece ter um peso muito incipiente na mobilização social, se comparada com a socialização familiar, comunitária ou entre pares, mas tende a gerar quadros de vida que, pela libertação temporal das responsabilidades familiares e profissionais, parecem proporcionar condições favoráveis para que se desenvolvam modos de participação inaugurais. Posteriormente, a circulação recorrente dos ativistas entre diferentes cidades e entre distintos movimentos sociais não apenas dá origem a biografias singulares de "multiparticipação", mas também traça linhas de contato e de negociação entre os diversos contextos, sobretudo porque os atores não deixam de transportar consigo competências, estratégias (agendas) e redes de interconhecimento. É nesse ponto que a "história de vida" de alguns ativistas se cruza com a história recente dos próprios movimentos sociais. Um estudo atual sobre os movimentos sociais na América Latina chega a conclusões semelhantes, defendendo um diálogo mais efetivo entre sociologia e geografia (cf. Bringel e Falero, 2008). A intensa circulação dos ativistas e a constituição de redes transnacionais não apenas escapa às fronteiras político-administrativas dominantes, mas gera pertenças, identidades e representações socioterritoriais alternativas, contribuindo para uma reconfiguração dos próprios espaços.

Método biográfico e a formação das identidades

O recurso ao método biográfico nas ciências sociais deriva de uma longa e ilustre tradição, mas tem estado envolto em acesas polêmicas. Existem registros da sua utilização por historiadores desde a Grécia Antiga, mas seu frequente estilo literário, de legitimação e mitificação de personagens poderosas - e, por conseguinte, da ordem dominante - suscitou inúmeras críticas, tendo o movimento da história social desenvolvido uma nova abordagem, as "biografias reconstituídas no contexto" (Revel, 2005). Também na antropologia, no século xix, as "histórias de vida" de indígenas conheceram um êxito considerável, trazendo à tona o positivismo e o culturalismo dominantes nos trabalhos fundadores da disciplina, ainda que acusadas de populistas e fantasiosas pelos cânones acadêmicos (cf. Pujadas, 1992). No entanto, a partir do início do século xx, em particular pela mão da influente Escola de Chicago, o método biográfico foi revestido de maior rigor e mobilizado no estudo de fenômenos sociais como a imigração, a modernização e a marginalidade (cf. Becker, 1974).

Depois de um período dominado pelo estrutural-funcionalismo, tal método conhece novos impulsos nas ciências sociais. Bertaux (1981) é um dos protagonistas dessa refundação, ao defender que esse método permite um enfoque nos processos sócio-históricos concretos que moldam a vida dos indivíduos e das sociedades, informando uma sociologia humanista e implicada na denúncia dos sistemas de dominação. Outra referência dessa corrente é Ferrarotti (1990, 2007), autor que concebe os indivíduos como processos (em vez de dados) e necessariamente vinculados à história das sociedades por meio de instâncias mediadoras como os grupos primários. O conceito recente de "biografia coletiva" (Montagner, 2009) também tem sido importante para explorar a relação dialética entre vidas individuais e história social, superando a ideia de que a análise biográfica seria irrelevante (ou ilegítima) para o estudo das sociedades. Assim, o método biográfico vem paulatinamente se estabelecendo no quadro pluriparadigmático das ciências sociais, tanto pela afirmação de uma inteligibilidade sociológica centrada no indivíduo (cf. Denzin, 1989; Conde, 1994; Bolívar, 2002), como pelo desenvolvimento de técnicas específicas de pesquisa (cf. Hoskins, 1998; Demaziére e Dubar, 1999).

Aqui, optamos por não realizar um trabalho direto de reconstituição de histórias de vida, necessariamente documental, mas sim analisar um conjunto de obras biográficas sobre cada um dos indivíduos, realizadas por historiadores reconhecidos e metódicos. Sobre a vida de Simon Bolívar, baseamo-nos nos estudos de Cardona (s.d.), Ludwig (1957), Cuevas (1982), Pividal (1982), Martínez (2003) e Ramos (2004). Sobre Juárez, analisamos as obras de Henestrosa (1972), Galeana (1988), Benítez (2002), Hernández (2007) e Burke (2009). Por fim, relativamente à biografia de Ernesto Guevara, reportamo-nos às investigações de Löwy (1971), Anderson (1997), Costenla (2006) e Taibo ii (2007).

Desse cruzamento do trabalho de inúmeros historiadores, é possível identificar distintas escolas de interpretação do método: umas mais focadas no contexto sociopolítico, outras na formação (psicológica) do ator; umas mais propensas à descrição minuciosa dos fatos, outras à análise das intenções e subjetividades dos atores. Em todo o caso, por meio da triangulação dos dados, são reconhecíveis também amplos espaços de intersecção que privilegiamos para a nossa análise.

Simon Bolívar

Bolívar foi um general corajoso e brilhante, com enorme talento para dirigir e participar das investidas militares, mas também para se mover na diplomacia internacional, interpretando e impulsionando as mudanças sociopolíticas do seu tempo por meio de suas inúmeras cartas poéticas, textos legislativos e discursos empolgantes. Sendo raras na época, cada uma dessas competências era partilhada com alguns dos seus conterrâneos, mas foi a combinação improvável delas que lhe conferiu um lugar singular na história. Enquanto suas tropas incendiavam quartéis e localidades, suas palavras inspiravam populações à libertação do jugo colonial.

É inegável que suas disposições estão vinculadas à sua proveniência de uma família da nobreza de Caracas que havia chegado da Espanha, no século xvi, para colonizar a região, tendo fundado cidades e enriquecido por meio da exploração da agricultura e das minas. Essa herança familiar permitiu-lhe privar com a aristocracia colonial, ser educado desde pequeno nas artes de cavalgar e de usar a espada, ter um tutor particular, liderar milícias locais e, mais tarde, estabelecer-se na Europa por vários anos, integrando-se na vida diletante das elites locais. Durante toda a vida, suas ações ancoraram-se na cultura erudita do "Velho Mundo" e foram marcadas por aqueles que considerava como ícones políticos e filosóficos. Além disso, certo sentido de superioridade "natural" impregnou todo o seu projeto identitário, inclusive nos momentos de maior isolamento e pobreza. Vale ainda sublinhar seu fascínio por Napoleão Bonaparte (cuja ascensão assistiu quando jovem, enquanto vivia em Paris), bem como pelas glórias alcançadas pelos principais generais romanos.

Durante o período revolucionário, quando a sua audácia ainda não era acompanhada da destreza militar que viria a revelar, tanto a riqueza material como as disposições incorporadas o salvaram, por um lado, conferindo-lhe um estatuto de financiador e embaixador dos movimentos insurgentes, e, por outro, possibilitando-lhe uma relação cordial com as autoridades espanholas (e com o clero) que, por duas vezes, lhe pouparam a vida, oferecendo-lhe um exílio privilegiado, durante o qual organizou a revolta subsequente. Nesse período, aliás, a sua (dis)posição frequentemente ambígua permitia-lhe "jogar nos dois tabuleiros". Mais tarde, assumindo-se como libertador, apesar de liderar e participar diretamente em combates contra as forças espanholas, essa ligação sutil foi preservada na sua relação com a aristocracia fiel à coroa e com a Igreja Católica, tendo sido inclusive tomado por conservador quando procurou sanar as constantes guerras civis que assolaram as nações recém-criadas mediante uma aliança entre os vários poderes em confronto. Entretanto, sua apetência literária também se revelou fundamental na produção de documentos fundadores, bem como na profícua correspondência, com os quais selou alianças, ditou sentenças, preservou amizades, traçou rupturas, inspirou movimentos político-militares e legitimou os novos Estados-nação. Esse habitus distintivo, reforçado por uma convicção de filho pródigo da pátria, era gerador de tensões, complexos e maneirismos, instituindo uma distância em relação a seus conterrâneos, sobretudo aqueles originários das culturas populares e indígenas, determinante para a autoridade emanada por seus conhecimentos, mas também para o isolamento que o foi assolando na fase terminal de sua vida. Desse desfasamento resultou a situação singular de Bolívar se consagrar como ditador1 1 . Esta denominação é apontada por vários de seus biógrafos para descrever o poder que assumiu durante alguns anos e, aliás, Ludwig utiliza-a para intitular um dos capítulos da sua biografia de Bolívar. Não devemos esquecer que a figura de ditador, no contexto independentista do século xix, não tem o mesmo significado que no contexto moderno e democrático do século xxi. de um vasto território, o qual corresponde hoje a quatro países latino-americanos, não obstante ter assumido frequentemente o papel de observador distante e desencantado, convicto da sua diletante e orgulhosa falta de paciência para os jogos políticos.

No entanto, sua origem social seria insuficiente per se para gerar seu patrimônio de disposições, caso não se combinasse com outras forças socializadoras. Seu afã libertador é moldado, na juventude, por tragédias familiares: (1) a morte prematura dos pais (e, em seguida, ter sido deixado aos cuidados de um tio negligente) afastou-o de uma socialização mais bem-sucedida nas disposições familiares, deixando em suas mãos uma liberdade precoce e uma herança grandiosa; (2) a jovem espanhola com quem se casa aos 19 anos também falece pouco depois das bodas, eximindo-o para sempre dos compromissos familiares por uma promessa de amor eterno; (3) o desaparecimento do irmão no mar deixa-o numa situação delicada, sem vontade de (e com entraves legais para) assumir os negócios da família. Esses acontecimentos reforçam a mistura de liberdade e revolta interiores que o caracterizaram, impulsionando uma dedicação total às causas revolucionárias.

Mais: entre os 11 e os 15 anos, a sua educação foi entregue pelo tio, por descuido, a um jovem militante (também órfão) de uma família modesta de Caracas, recém-chegado de uma aventura pela Europa, onde assistira à Revolução Francesa, e que, enquanto participava de forma clandestina na gênese dos movimentos independentistas, assumiu o projeto de emancipar Bolívar das crenças aristocráticas, formando-o, segundo os preceitos de Rousseau, no contato com a natureza e nos modernos valores da igualdade, liberdade e fraternidade. Sua influência foi determinante, não apenas orientando as disposições inconformistas do pequeno Bolívar para grandiosos ideais ou formando as suas destrezas físicas, mas também lhe mostrando que provinha de uma família que, apesar da riqueza amealhada, sofria um estigma por ser considerada crioula e, portanto, inferior à raça espanhola que governava as colônias. Anos mais tarde, quando o mestre estava exilado em Viena devido a suas ações subversivas, o discípulo, em sua segunda estadia na Europa, foi visitá-lo, num período em que sofria de problemas de saúde e se mostrava deprimido. Mais uma vez, o ex-preceptor consegue entusiasmar o futuro herói, acompanhando-o num longo passeio pelas ruínas do Império Romano e que culminou no famoso juramento bolivariano de libertar a pátria da opressão colonial.

Por iniciativa do jovem Bolívar, outras duas figuras viriam a desempenhar um papel importante em sua educação. Em Paris, onde viveu por vários anos, mantendo-se à margem dos movimentos clandestinos latino-americanos, aprofundou o conhecimento sobre as riquezas naturais e humanas do seu continente, bem como sobre a legitimidade e o amadurecimento dos grupos independentistas por meio do contato com Humboldt, sábio alemão, autor de um estudo detalhado sobre a América do Sul. Segundo esse humanista, faltava ali um homem capaz de reunir as forças em prol da libertação. Mais tarde, quando Bolívar voltou à Europa, designado pelos insurgentes para convencer o governo inglês a reconhecer a soberania da Venezuela, buscou contra a vontade do seu movimento o mais famoso defensor da autodeterminação das Américas. Francisco Miranda, influenciado por George Washington, com quem tinha lutado pela independência dos Estados Unidos em nome da Espanha, estava exilado em Londres, onde buscava persuadir a coroa inglesa para a sua causa. Impressionado pela coragem, experiência e destreza de Miranda, e perante a urgência de reforçar a frente de batalha em sua pátria, Bolívar consegue trazê-lo de volta à terra natal para liderar as tropas libertadoras, remetendo-se a uma "participação periférica" no movimento armado, enquanto aprendia com o célebre estrategista. Posteriormente, prende-o e ordena seu fuzilamento, por suposta traição, abrindo assim caminho à sua consagração como líder supremo dos independentistas.

Destas várias influências (alianças?) intelectuais e militares, potenciadas também por circunstâncias individuais e históricas particulares, cresceram suas disposições para dedicar a vida à libertação de um continente que, em algumas ocasiões, aclamou como a esperança da humanidade. Pagou essa ambição com a morte prematura, traído por um corpo frágil, cuja origem de classe não havia preparado para a dureza da guerra. Em todo o caso, seu vínculo primordial com a cultura erudita e a glória pessoal foi uma garantia valiosa de que um movimento independentista liderado por Bolívar iria sempre se associar às elites liberais autóctones e às potências europeias, mais do que às rebeliões populares e indígenas que também lutavam contra o poder colonial, o que foi imprescindível para sua legitimação internacional.

Benito Juárez

É forte a tentação para refutar a teoria da reprodução ao conhecermos a incrível história de um índio zapoteco originário de uma pequena comunidade onde não se falava espanhol, não existia escola nem igreja; que desde criança dedicou-se a cuidar do gado, depois fugiu para a cidade, licenciou-se em direito e tornou-se figura marcante da história mexicana como governador, deputado, ministro e, por fim, presidente da República. Fervoroso defensor das leis e das instituições, Benito Juárez resistiu a diversos movimentos absolutistas, estabelecendo os alicerces de um Estado de direito.

No entanto, tomada em sua espantosa diversidade, sua educação, na aurora da República, é fruto das estratégias de quatro forças sociais e culturais que se confrontam violentamente ao longo desses anos: (1) a infância rural e indígena, base de um conhecimento amplo sobre um México desprezado pelas elites, assim como de disposições ascéticas e maduras (inclusive devido à morte prematura dos pais e sua integração nas tarefas produtivas); (2) a influência cultural de uma família da aristocracia, de origem genovesa, para quem trabalhava a irmã e que o acolheu brevemente como criado, quando chegou sozinho à cidade (tal relação se estendeu ao longo da vida, uma vez que se casou com uma das filhas do casal); (3) a formação católica prolongada, inicialmente numa escola de primeiras letras, depois na Escola Real e, por fim, no seminário, apadrinhada por um religioso que lhe deu guarida e trabalho, com a intenção de o tornar sacerdote; (4) os estudos superiores de jurisprudência que frequentou (e lecionou) no Instituto de Ciências e Artes, recém-criado em Oaxaca pelo movimento liberal, como parte de um projeto nacional de formar uma nova geração dirigente, laica e progressista (o tema da dissertação com que Juárez se graduou evidencia bem esse vínculo entre estudos acadêmicos e filiação política).

Sendo notável a sua capacidade de transitar entre esses quatro contextos socializadores, enquanto seus apologistas se degladiavam pelos destinos do México, tal combinação deu origem a um conjunto singular de disposições - um habitus clivado - que tornariam Juárez capaz de representar os desígnios de uma nação emergente e profundamente dividida. Ao longo da vida, não deixando de ser crítico da ignorância supersticiosa dos índios, dos luxos ostensivos da aristocracia, das ambições e do obscurantismo do clero, como viria a ser também de certas precipitações e radicalismos do movimento liberal no qual tomou parte, soube convocar os ensinamentos dessas diferentes cosmovisões para elaborar leis fundamentais, tecer alianças estratégicas, conquistar o respeito popular.

Mas se a infância e adolescência ergueram os pilares do seu patrimônio disposicional, em pelo menos três diferentes contextos e etapas da vida adulta a sua biografia ilustra também a importância da participação (periférica) em redes sociais (ou "comunidades de práticas") na formação dialética de identidades pessoais e de movimentos político-sociais.

Primeiro, tal importância se revela nas relações de amizade e cumplicidade que se estabeleceram entre alunos e professores, no instituto que Juárez frequentou, no enfrentamento das injúrias e ameaças das autoridades conservadoras e, mais tarde, na afirmação do movimento liberal, tanto em Oaxaca como em âmbito nacional, constituindo assim um grupo político. Alimentado por uma imprensa independente recém-criada, ficaram conhecidas as famosas tertúlias desse grupo, em que se destacou, até a sua morte prematura, o brilhante Miguel Méndez, inspirador do então tímido Benito e primeiro defensor de sua ascensão entre os liberais.

Pouco tempo depois, Juárez foi nomeado membro da direção do instituto e deputado na Assembleia Estadual pelo Partido Liberal. Mas é significativo que não tenha cortado relação com alguns membros do clero (ponderou tornar-se sacerdote, após terminar os estudos superiores) e, depois de trabalhar como advogado na defesa das comunidades indígenas, chegou a tomar parte num governo estadual conservador, do qual mais tarde se demitiu. Quando as forças liberais chegam ao poder, com Juárez como governador de Oaxaca, ele adota uma orientação progressista marcada por uma aposta forte na educação laica, que pode ser explicada pelo seu próprio trajeto, sendo seu estilo diplomático: tanto defende os direitos do povo, como se afirma católico, procurando não hostilizar a Igreja e, em alguns casos, buscando o seu apoio.

Numa etapa posterior, quando é eleito deputado da Assembleia Nacional, procura integrar-se em novas redes sociais, o que fica visível com sua entrada na maçonaria, por influência de alguns companheiros do Partido Liberal. Dentro dessa congregação de grande influência política, é significativo que adote o nome de Guilherme Tell, herói helvético de origens populares e que lutou contra a dinastia imperial dos Habsburgo. Durante esse período, como deputado e ministro da Justiça, não deixa de se distinguir pela capacidade de conciliar as alas radicais e moderadas do Partido Liberal.

Por fim, uma nova etapa socializadora viria a marcar uma inflexão na linha política de Juárez. Com o regresso de Antonio de Santa Anna à presidência e a sua proclamação como ditador vitalício, Juárez é deportado e instala-se em New Orleans, na companhia de outros ex-ministros e dissidentes políticos, remetidos ao trabalho operário para sobreviver. Em contato direto com a realidade norte-americana e sendo esta "incubadora" de fortes laços de interconhecimento e solidariedade, esse grupo torna-se um viveiro para a consolidação do projeto liberal mexicano. Quando se forma a resistência armada em Guerrero, Don Benito coloca-se a seu serviço, regressando clandestino à sua pátria. Após o golpe de Estado e a sua nomeação como presidente, convida vários dos seus companheiros no exílio para serem ministros, formando uma equipe coesa, durante algum tempo, capaz de aprovar uma nova constituição e algumas leis fundamentais da República, em oposição aos interesses da aristocracia e do clero. Quando as forças europeias, sob a aprovação do clero e dos absolutistas locais, impõem um descendente dos Habsburgo como Imperador do México, Juárez não hesita em liderar as forças rebeldes, servindo-se da sua experiência anterior de clandestinidade e luta armada para assumir os desígnios de Tell.

Ao contrário de uma tendência dos governantes para a conversão de suas posições ideológicas juvenis em disposições mais diplomáticas e conciliatórias na ânsia de conservar o poder, a "história de vida" de Juárez aponta para uma certa radicalização disposicional a partir de uma interpretação das mudanças no próprio tecido político-social, desde uma etapa mais instável e conservadora após a Independência (anos de 1830 e 1840), passando por outra, já hostil às arbitrariedades e aos abusos dos absolutistas (anos de 1850), até, por fim, sua consagração como herói nacional perante as forças estrangeiras que haviam imposto por alguns anos um regime monárquico (anos de 1860 e 1870). Ainda assim, até ao final da vida, não deixou de sofrer críticas de membros do seu partido (alguns deles, companheiros de exílio e ministros do seu gabinete), às quais respondia pela afirmação contínua das leis e dos princípios constitucionais, sobretudo quanto à separação de poderes, e, na fase final, valendo-se também da sua enorme popularidade. Nesse sentido, tendo prevalecido a orientação liberal, pode-se argumentar que as forças socializadoras restantes nunca deixaram de alargar sua capacidade de negociação, ponderação e representação dos (diversos) interesses nacionais. Ou seja, como filho de um conflito histórico, sua formação plural selou a unificação do Estado.

Che Guevara

Ernesto Guevara é frequentemente apresentado como o revolucionário por excelência, pelo modo como nunca abandonou seus ideais, envolvendo-se em diversas lutas contra as ditaduras militares e as oligarquias capitalistas na América Latina, além de uma incursão pela África. Como se pode compreender que alguém com ataques persistentes de asma, formado no meio rural argentino, no seio de uma família da classe média, sem antepassados políticos, intelectuais ou militares, possa ter desenvolvido tal identidade singular?

Um traço indispensável para compreender esse enigma é o encontro e desencontro de dois universos culturais muito distintos ao longo de sua vida. Apesar das interpretações mais apologéticas tenderem a acentuar a sua coerência absoluta, a análise biográfica mostra como essa dupla socialização foi também geradora de tensões e contradições, o que, aliás, o teria impulsionado à ação na busca sempre inacabada pela definição da sua identidade.

Por um lado, sua origem cosmopolita de classe média, seu contato precoce com a literatura, sua escolaridade longa e o curso de medicina nunca o abandonaram, tornando-o um "cidadão do mundo" que, entre as batalhas, lia (e escrevia) filosofia, economia e poesia, promovia a educação dos guerrilheiros (majoritariamente analfabetos) e curava os campesinos, aconselhava seus filhos a serem sempre bons alunos. Sua "história de vida" é pautada por leituras e reflexões permanentes, enquanto seus abundantes escritos e fotos foram centrais para que ocupasse um lugar único na Revolução Cubana e na cultura mundial.

Temos, por outro lado, sua paixão pelos jogos físicos, suas viagens errantes pela América Latina, seu desapego pela higiene pessoal e pelos bens materiais, seu fascínio pelas tradições e culturas indígenas, sua resistência e presença de espírito à frente da guerrilha na Serra Maestra, sua defesa dos camponeses no contexto da Revolução Cubana, seu entusiasmo pelo trabalho voluntário nos campos e nas fábricas, mesmo quando era ministro da Indústria e presidente do Banco de Cuba, além de seu regresso obstinado às misérias da guerrilha no Congo e na Bolívia.

Percorrer as várias etapas da vida de Guevara coloca-nos, de forma recorrente, diante dessa duplicidade. Durante a infância e a adolescência, seus ataques agudos de asma impunham-lhe frequentes períodos de reclusão, durante os quais se dedicava à literatura ou acompanhava as notícias da Guerra Civil Espanhola, enquanto, nos períodos saudáveis, frequentava a escola pública da pequena vila onde vivia, brincava com os amigos, quase todos de origem popular, além de alguns filhos de exilados espanhóis. O irmão de Guevara confirma: "as relações dos meus pais eram com os ricos e as nossas com os pobres, aqueles que habitavam permanentemente na zona; os nossos amigos foram os filhos dos camponeses e dos caseiros" (Taibo ii, 2007, p. 21).

É possível que a tradição familiar de diáspora, com antepassados em várias regiões do mundo, tenha inspirado seu destino nômade. Aliás, nasceu numa viagem de barco e seus pais viveram em diversas localidades, acabando por se estabelecer na zona rural devido aos problemas de saúde de Ernesto, mas mudando para uma cidade de média dimensão quando seus filhos entraram para o liceu. Guevara frequentou sempre escolas públicas e laicas, correspondendo seu desempenho nas distintas disciplinas a traços de personalidade que o caracterizaram ao longo de toda a vida: muito bom em literatura, filosofia, história; fraco em matemática, inglês e música.

Se as frequentes crises de asma que o acompanharam toda a vida poderiam ter tornado improvável sua conversão em jogador de rugbi, aventureiro e, por fim, guerrilheiro, é verdade, por outro lado, que o expuseram, desde a tenra idade, ao risco de vida, conferindo-lhe maturidade para lidar com os limites do próprio corpo, e o forçaram a certo afastamento do convívio social - fatores decisivos para seu percurso. Mesmo a escolha de estudar medicina, ainda que seja uma área em que ele nunca se reconheceu totalmente, estava associada à sua condição física, bem como à vontade de trabalhar em prol da comunidade. É provável que sua origem rural tenha também contribuído para o permanente distanciamento crítico dos movimentos juvenis e urbanos e para sua preferência pela guerrilha de montanha, associada à ideia de uma revolução liderada pelos trabalhadores agrícolas, o que, aliás, gerou tensões no seio da Revolução Cubana e selou seu isolamento no contexto da resistência boliviana.

Mesmo durante suas viagens pela América Latina e como guerrilheiro na Serra Madre, Guevara consegue livros e lê de forma obsessiva, não apenas durante as crises de asma. Se, na adolescência, os romances de aventura franceses e norte-americanos ocuparam um lugar decisivo em suas prateleiras, mais tarde, não deixarão de o marcar as obras políticas de pensadores latino-americanos e russos. Há relatos de que, em discussão com estudantes colombianos, teria defendido de forma apaixonada um romance de Andreiev sobre um jovem revoltado de classe média que se junta aos "irmãos do bosque", um grupo de camponeses que ataca os grandes latifundiários, espalhando o terror no regime czarista. Nesse percurso, focou-se também na psicologia, na economia e nas biografias políticas, até que, já em Cuba, suas leituras se tornam mais fortemente associadas ao marxismo.

Ainda assim, seus escritos e leituras eram parte de uma dimensão relativamente solitária e desconhecida do jovem Che, pois partilhava com os companheiros, sobretudo, sua faceta aventureira. Nesse período, não se evidencia nos movimentos políticos, nem nos meios intelectuais (e parece mesmo desprezá-los). Até o contato com os militantes cubanos na Cidade do México, suas deambulações transcontinentais constituem, sobretudo, um tipo insólito de turismo socialmente comprometido, financiado por trabalhos fugazes, em geral, na área da saúde. Poderemos supor a importância de sua origem cosmopolita e das leituras juvenis na decisão vital de realizar várias viagens pela América Latina, recusando estabelecer-se como médico em seu país natal. O fascínio pela arqueologia, cultura e política dos diferentes países emerge, então, a par da propensão para o esforço físico e a errância, forjando uma identidade singular de "rebelde latino-americano", indignado contra as alianças entre as oligarquias locais e o imperialismo norte-americano. Nesse ponto, difere claramente do reformismo nacionalista e pequeno-burguês que marcava a esquerda, defendendo que as injustiças sociais só poderiam ser ultrapassadas por meio de uma luta armada que se disseminasse pelos diversos países da região.

Apenas quando vinga a Revolução Cubana, Che se converte em um dos ideólogos do movimento, utilizando seus conhecimentos teóricos para promover e colaborar assiduamente com várias publicações importantes dessa época. A matriz marxista torna-se evidente no pensamento guevariano, mas também alguma crítica ao comunismo soviético (sugerindo um socialismo latino-americano), ora pela defesa dos camponeses contra os excessos da burocracia urbana, ora pela apologia do centralismo democrático e dos "estímulos morais" contra os modelos de "autogestão industrial" e os "estímulos materiais". Nesse período, concilia as tarefas de ministro, presidente do Banco Nacional e embaixador de Cuba com trabalho voluntário nos campos e nas fábricas.

Parece que, por fim, são as funções de governação e representação externa o meio de fundir as duas facetas, mas é então que Guevara decide alargar a revolução à África e a outras regiões da América Latina, em parte pelas dificuldades de conciliar seu purismo revolucionário com os meandros diplomáticos e burocráticos que critica. O mais dramático é que em suas missões subsequentes, tanto no Congo como na Bolívia, não deixa de buscar essa pureza repetindo o método guerrilheiro cubano, sem atender às diferenças no contexto geográfico e cultural, e afastando-se progressivamente tanto das elites revolucionárias urbanas que despreza como das massas camponesas e operárias que louva, mas que, nos novos cenários, acaba por não compreender e envolver. É certo que, diante da desproporção de forças, a ambição mundial do seu projeto estava fadada ao fracasso, sendo impressionante sua capacidade de resistência, mas não deixa de ser significativo que, em ambos os países, montou suas operações em regiões quase desérticas, o que selou seu isolamento em face de ambos os grupos.

Notas conclusivas

A análise das "histórias de vida" de três figuras ímpares da história latino-americana permite, antes de tudo, confirmar como educação, identidade e mudança social se entrelaçam nos percursos biográficos, sendo a sua distinção por vezes um mero artifício analítico. É indiscutível que os processos educativos, tais como as transformações sócio-históricas, são centrais na produção identitária, mas não apenas a educação é produto desses fluxos de mudança como também as identidades, sobretudo a partir da adolescência, vão marcando o espaço desejável (e possível) das aprendizagens. De qualquer maneira, a análise mostra que devemos ceder à vertigem de reduzir as três dimensões a um mesmo processo quando constatamos a existência de dissensões, tensões e contradições entre elas, movendo-se em tempos e espaços nem sempre congruentes. Quando se coloca em causa a tradição e o destino, só a capacidade reflexiva e criativa de agência intrínseca ao sujeito (e extremamente apurada, nos três casos em questão) lhe permite mobilizar e articular aprendizagens pessoais, "imagens de si" e dinâmicas de mudança social que são necessariamente difusas e problemáticas (cf. Giddens, 1997; Beck e Beck-Gernsheim, 2003).

Outro aspecto fundamental é a maneira pela qual os atores geram e combinam no seu patrimônio disposicional universos culturais não apenas díspares, mas conflituais, incorporados a partir de vínculos com múltiplos agentes de socialização. A morte precoce dos pais, nos casos de Bolívar e Juárez, parece ser um catalisador importante, ao mitigar a importância da socialização primária, "libertando-os" para uma integração precoce, sucessiva e mais integral em diferentes meios socioculturais (cf. Berger e Luckmann, 1978). Nesse sentido, o desprendimento de Guevara é mais difícil de interpretar, embora o acesso a distintos territórios e meios sociais lhe fosse facilitado por pertencer, em pleno século xx, a uma família de classe média formada na diáspora. A modernidade trouxe consigo essa capacidade de transitar entre "regiões de significado" (Velho, 1994), em particular, entre os setores sociais que não se situam em qualquer extremo da pirâmide social. Além disso, no século xx, as rápidas mudanças sociais e culturais fizeram com que as identidades se tornassem mais fortemente geracionais (cf. Dubar, 1997), ou seja, constituídas por referência aos grupos e aos conflitos do seu tempo e não tanto a seus antepassados familiares. Ainda assim, é significativo que seja apenas fora da Argentina e após longas viagens pela América Latina que Guevara consolida uma identidade de "revolucionário".

Sem antecedentes familiares, a integração dos três personagens nos movimentos políticos foi possível por meio da pertença a sucessivas "comunidades de práticas", nas quais viveram um período prolongado e parcialmente intencional de "participação periférica" (Lave e Wenger, 1991). Os três entraram em contato, desde uma idade precoce, com grupos e ideias insurgentes, mas só adotaram uma posição de protagonistas após longa e cautelosa socialização, durante a qual viram sucumbir muitos dos companheiros mais comprometidos. Em certos momentos, afastaram-se mesmo do foco dos conflitos, desprezando aparentemente as lutas, formando paulatinamente suas redes, competências e disposições, até estas estarem suficientemente amadurecidas. Nesse caso, o fato de nenhum deles ser proveniente de famílias politicamente implicadas poderá até ter beneficiado esse percurso gradual e silencioso, desde as margens dos movimentos até a sua liderança. Mas é também inegável que a pertença a grupos juvenis, o contexto sócio-histórico em que viveram e "acontecimentos de inflexão" na vida pessoal os precipitaram para a luta política.

Superando as perspectivas clássicas sobre a socialização primária e secundária, esta análise mostrou a importância dos processos educativos (formais) no desenvolvimento de competências e identidades vinculadas à transformação social, resultantes de "políticas emancipatórias" (Giddens, 1997) e geradoras de pontes entre o mundo privado e familiar da infância e os diversos campos da vida pública em que os indivíduos podem participar e especializar-se. Essa mediação ocorre não apenas pelos currículos formais, mas, sobretudo, nas margens das instituições educativas. Assim, ela emerge, por um lado, com a constituição de laços fortes entre professores e alunos provenientes de distintos universos sociais e com orientações ideológicas variadas e, por outro, pela emergência de uma reflexão individual sobre o mundo e sobre si mesmo, muito apoiada em diferentes tipos de literatura, constituindo a gênese de um trabalho identitário que é paulatinamente reforçado ao longo da vida (cf. Duschatzky, 2003).

Sem dúvida a perspectiva de Lahire (2002a) sobre um ator plural - constituído por uma paleta assaz sutil, dinâmica e singular de disposições, formadas em distintos campos de relações - é útil para compreender semelhantes perfis, libertando a sociologia do mito da origem social unívoca dos atores. Vale notar também que a mobilidade por distintos territórios, desde uma idade precoce, favorece a conexão entre atores e entre universos socioculturais divergentes, geradora de um habitus clivado. Mas a presente análise sugere que a mobilização de disposições e competências, em campos diferentes daqueles nos quais se formaram e para propósitos distintos aos que as fundaram, não apenas é possível (princípio da transferência) como pode ser um elemento central na integração, afirmação e distinção dos indivíduos. Ou seja, os discursos eruditos podem ser tão úteis para impor-se em círculos de elite quanto para liderar grupos de camponeses, ao passo que as disposições populares podem ser fundamentais para integrar os movimentos de base e, simultaneamente, inspirar respeito (ou medo) entre os núcleos de poder. Isso porque a integração social depende tanto de um tipo de identificação e solidariedade entre pares, como de uma capacidade potencial de ampliar a experiência coletiva e mobilizar recursos externos em benefício do grupo. Nesse caso, não está ausente uma dimensão estratégica, representacional e propriamente simbólica que transcende o plano das práticas: os atores participam, de forma criativa, na construção (e mistificação) de uma imagem unificada e coerente de si mesmos de acordo com o seu contexto sócio-histórico.

Embora seja possível vislumbrar etapas biográficas cujas vivências nesses vários contextos foram "paralelas", é precisamente a capacidade de circulação e transferência que confere a esses três atores uma identidade tão singular e um peso decisivo nos movimentos políticos de sua época, construindo (e representando), por meio de suas ações e disposições, nexos improváveis entre forças sociais em disputa.

Texto recebido em 17/8/2010 e aprovado em 6/8/2012.

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    Agradeço encarecidamente a António Firmino da Costa e João Miguel Teixeira Lopes, assim como a Manuel Abrantes, pela leitura atenta do manuscrito e pelos comentários encorajadores e sugestivos. Agradeço igualmente à Equipe Argumento pela detalhada revisão de estilo, permitindo-me adaptar o texto ao português escrito no Brasil.
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    . Esta denominação é apontada por vários de seus biógrafos para descrever o poder que assumiu durante alguns anos e, aliás, Ludwig utiliza-a para intitular um dos capítulos da sua biografia de Bolívar. Não devemos esquecer que a figura de ditador, no contexto independentista do século xix, não tem o mesmo significado que no contexto moderno e democrático do século xxi.
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    * Agradeço encarecidamente a António Firmino da Costa e João Miguel Teixeira Lopes, assim como a Manuel Abrantes, pela leitura atenta do manuscrito e pelos comentários encorajadores e sugestivos. Agradeço igualmente à Equipe Argumento pela detalhada revisão de estilo, permitindo-me adaptar o texto ao português escrito no Brasil. 1 . Esta denominação é apontada por vários de seus biógrafos para descrever o poder que assumiu durante alguns anos e, aliás, Ludwig utiliza-a para intitular um dos capítulos da sua biografia de Bolívar. Não devemos esquecer que a figura de ditador, no contexto independentista do século xix, não tem o mesmo significado que no contexto moderno e democrático do século xxi.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      16 Jan 2013
    • Data do Fascículo
      Nov 2012

    Histórico

    • Recebido
      17 Ago 2010
    • Aceito
      06 Ago 2012
    Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Av. Prof. Luciano Gualberto, 315, 05508-010, São Paulo - SP, Brasil - São Paulo - SP - Brazil
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