CICLOTURISMO COMO PROMOTOR DO DESENVOLVIMENTO DE ÁREAS RURAIS: POSSIBILIDADES NA REGIÃO DO BAIXO PARNAÍBA MARANHENSE

CYCLOTOURISM AS A PROMOTER OF DEVELOPMENT OF RURAL AREAS: POSSIBILITIES IN THE BAIXO PARNAÍBA MARANHENSE REGION

CICLOTURISMO COMO PROMOTOR DEL DESARROLLO DE LAS ZONAS RURALES: POSIBILIDADES EN LA COMARCA DEL BAIXO PARNAÍBA MARANHENSE

RODRIGO OLAVO COSTA SOUSA KAROLINY DINIZ CARVALHO Sobre os autores

RESUMO:

Uma das modalidades inseridas no âmbito do turismo no espaço rural consiste nos passeios de bicicleta, segmento que permite aos visitantes um modo mais estreito e particular de vivenciar o espaço e que alia recreação, lazer e educação ambiental, gerando práticas de hospitalidade ao longo dos percursos. O presente artigo aborda o cicloturismo como elemento da oferta de turismo rural no território do Baixo Parnaíba Maranhense. Como objetivos específicos, a pesquisa volta-se para compreender a dinâmica do turismo rural, identificar os sentidos e significados do cicloturismo, e verificar como ocorre a prática do cicloturismo no Baixo Parnaíba, seus aspectos favoráveis e limitantes, com vistas a problematizar a viabilidade ou não desta prática como produto turístico potencial. Trata-se de uma pesquisa orientada pelos condicionantes da investigação qualitativa, possuindo um caráter exploratório e descritivo. Na construção do referencial teórico, valeu-se das contribuições de Tulik (2003), Rodrigues (2001) e Kageyama (2008) sobre a dinâmica do turismo rural; as análises acerca do cicloturismo foram realizadas a partir dos estudos de Han et al. (2017), Cavallari (2012) Lima (2015), Carvalho et al. (2013Carvalho, T. J. L., Ramos, J. L. & Sydow, E. (2013). O cicloturismo como fator de desenvolvimento da atividade turística nas cidades de Araguaína e Nova Olinda (TO). Anais do IX Congresso Nacional de Ecoturismo e do V Encontro Interdisciplinar de Turismo em Unidades de Conservação. Revista Brasileira de Ecoturismo, São Paulo, 6(4), pp. 63-82. ); a relação entre cicloturismo e desenvolvimento local foi tecida a partir dos estudos de Buarque (2002), Vázquez Barquero (2001) e Duarte (2008). Na pesquisa de campo, fez-se uso da técnica de observação direta e sistemática (Cervo, 2007Cervo, A. L. (2007). Metodologia científica. São Paulo: Pearson Prentice Hall. ), realizada por meio do acompanhamento de grupos de ciclistas nos roteiros de cicloturismo local. Evidenciou-se práticas de hospitalidade e de acolhimento e a abertura de pequenos negócios de alimentação ao longo das rotas desenvolvidas, sinalizando para o empreendedorismo comunitário, no entanto, a pesquisa aponta para algumas fragilidades, como a ausência de políticas públicas sistemáticas, a fim de organizar e estruturar a oferta de turismo rural, consoante às expectativas e demandas comunitárias.

PALAVRAS-CHAVE:
Turismo Rural; Cicloturismo; Desenvolvimento Local; Território do Baixo Parnaíba Maranhense

ABSTRACT:

One of the modalities in the field of tourism in rural areas is cycling, a segment that gives visitors a more narrow and particular way of experiencing the space, while combining recreation, leisure and environmental education, generating practices of hospitality along the cycling routes. This article focuses on cycling as an element of the rural tourism offer in the Baixo Parnaíba Maranhense region. The specific objectives of this research are to understand the dynamics of rural tourism, to identify the senses and meanings of cycling tourism, and to examine how cycling occurs in the Baixo Parnaiba and the factors that favor or limit this practice, in order to question the viability of this practice as a potential tourist product. This study uses qualitative research, having an exploratory and descriptive character. In the construction of the theoretical framework, reference was made to the authors Tulik (2003), Rodrigues (2001) and Kageyama (2008) in relation to the dynamics of rural tourism; the studies of Han et al. (2017), Cavallari (2012) Lima (2015), Carvalho et al. (2013) on the analyses of cycling tourism; the studies of Buarque (2002), Vázquez Barquero (2001) and Duarte (2008) on the relationship between cycling and local development. In the field research, the technique of direct and systematic observation was used (Cervo, 2007). This involved monitoring groups of cyclists on the local cycling tours. The were signs of hospitality and practices of welcoming, and the opening of small food businesses along the developed routes, signaling community entrepreneurship. However, the research points to some weaknesses, such as the absence of systematic public policies, that hinder the organization and structuring of the offer of rural tourism in the region, according to the community’s expectations and demands.

KEYWORDS:
Rural Tourism; Cycling tourism; Local Development; Territory of Baixo Parnaíba Maranhense

RESUMEN:

Una de las modalidades insertadas en el campo del turismo en el medio rural consiste en los paseos en bicicleta, segmento que permite al visitante una forma más estrecha y particular de vivir el espacio y que combina recreación, ocio y educación ambiental, generando prácticas de hospitalidad a lo largo de las rutas. Este artículo aborda la bicicleta como elemento de la oferta turística rural en el territorio del Baixo Parnaíba Maranhense. Como objetivos específicos, la investigación tiene como objetivo comprender la dinámica del turismo rural, identificar los significados y significados del cicloturismo, y verificar cómo se da la práctica de la bicicleta en el Baixo Parnaiba, sus aspectos favorables y limitantes, con el fin de cuestionar la viabilidad o no de esta práctica como producto turístico potencial. Es una investigación guiada por las condiciones de la investigación cualitativa, que tiene un carácter exploratorio y descriptivo. En la construcción del marco teórico, Tulik (2003), Rodrigues (2001) y Kageyama (2008) contribuyeron sobre la dinámica del turismo rural; los análisis sobre cicloturismo se realizaron a partir de los estudios de Han et al. (2017), Cavallari (2012) Lima (2015), Carvalho et al. (2013); la relación entre la bicicleta y el desarrollo local se tejió a partir de los estudios de Buarque (2002), Vázquez Barquero (2001) y Duarte (2008). En la investigación de campo se utilizó la técnica de observación directa y sistemática (Cervo, 2007), realizada a través del seguimiento de grupos de ciclistas en los recorridos ciclistas locales. Se evidenciaron prácticas de hospitalidad y acogida y apertura de pequeños negocios alimentarios a lo largo de las rutas desarrolladas, señalando el emprendimiento comunitario, sin embargo, la investigación apunta a algunas debilidades, como la ausencia de políticas públicas sistemáticas, con el fin de organizar y estructurar la oferta de turismo rural de acuerdo con las expectativas y demandas de la comunidad.

PALABRAS CLAVE:
Turismo Rural; Cicloturismo; Desarrollo local; Territorio del Baixo Parnaíba Maranhense

INTRODUÇÃO

O turismo é um fenômeno complexo que se transforma devido às modificações históricas, socioculturais e às mudanças científicas e tecnológicas, tais como a evolução dos meios de transporte e comunicação e a própria globalização que vem impactando a atividade. É formado por elementos materiais e imateriais, os quais sofrem um processo de agregação econômica, e promove a articulação dos públicos e privados, com o fim de proporcionar aos visitantes/turistas uma experiência de viagem ao mesmo tempo espacial, cultural, educativa e ambiental. A importância adquirida pelo turismo na atualidade reforça a sua aproximação com as áreas rurais, onde os visitantes podem interagir com os elementos dos ecossistemas e com o cotidiano das comunidades, suas diferentes formas de expressão cultural e formas de relacionamento com o meio ambiente, seguindo a perspectiva de sustentabilidade e desenvolvimento local. A associação entre atividades agrícolas e não agrícolas é sinalizada como estratégia de diversificação das atividades locais, fortalecimento e valorizando o patrimônio local.

O turismo no meio rural abrange diversas modalidades de consumo de experiências, tais como o turismo rural, o agroturismo, sendo compreendido como uma das alternativas voltadas ao aproveitamento econômico das áreas rurais que agregam valor à produção e ao cotidiano local ao organizar atividades de lazer e hospitalidade relacionadas às vivências rurais (Zimmermann, 2000; Tulik, 2003Tulik, O. (2003). Turismo Rural. São Paulo: Aleph (Coleção ABC do Turismo). ).

Uma das atividades inseridas no âmbito do turismo no espaço rural consiste nos passeios de bicicleta, segmento que permite aos visitantes um modo mais estreito e particular de vivenciar o espaço e que alia recreação, lazer e educação ambiental, gerando práticas de hospitalidade ao longo dos percursos. Os roteiros e trilhas de cicloturismo podem se configurar num modo sustentável de se praticar o turismo no espaço rural, dando visibilidade aos atores sociais, suas histórias e tradições (Soares, 2010Soares, A. (Org.). (2010) Circuitos de Cicloturismo: manual de incentivo e orientação para os municípios brasileiros. Recuperado em: Recuperado em: http://www.clubedecicloturismo.com.br/arquivos/Manual-Circuitos-Cicloturismo.pdf Acesso em 29 de abril de 2020.
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; Lima, 2015Lima, B. L. (2015). Estrada Geral do Sertão: potenciais turísticos de um caminho quase esquecido. [Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília]. ; Han et al.,2017Han, H., Meng, B. & Kim, W. (2017). Bike-traveling as a growing phenomenon: Role of attributes, value, satisfaction, desire, and gender in developing loyalty. Tourism Management, 59, pp. 91-103.).

Estas são as reflexões que propiciaram a realização deste estudo, delimitando o recorte espacial para os municípios que abrangem a microrregião do Baixo Parnaíba Maranhense. A escolha desses municípios como objeto de estudo deve-se à existência de um diversificado patrimônio ambiental e cultural, e pelo fato das comunidades locais estarem sofrendo um processo de marginalização com o estabelecimento de projetos agroexportadores de soja e eucalipto, os quais produzem impactos negativos nos modos de vida e nas práticas de reprodução material e simbólica local (Costa, 2016Costa, S. B. da. (2016) Chapadas e lutas: resistência camponesa no Baixo Parnaíba Maranhense na rota do agronegócio silvicultor - conflitos territoriais e “usos” da natureza. [Tese de Doutorado, Universidade Federal de Pernambuco]. ). Nesse cenário de conflitos, a atividade turística é projetada como fator de promoção cultural, manutenção das famílias nas zonas rurais, dinamização da renda familiar e aproveitamento sustentável dos recursos naturais e dos bens simbólicos representativos do patrimônio destas comunidades. Assim, busca-se neste artigo, tecer algumas considerações sobre o cicloturismo como elemento da oferta de turismo rural no território do Baixo Parnaíba Maranhense, passível de articular os atores sociais locais (comunidade, gestores públicos e privados) em torno de práticas solidárias de organização do espaço rural com vistas à estruturação de produtos turísticos sustentáveis. Como objetivos específicos, a pesquisa volta-se para compreender a dinâmica do turismo rural, identificar os sentidos e significados do cicloturismo, e verificar como ocorre a prática do cicloturismo no Baixo Parnaíba, seus aspectos favoráveis e limitantes, com o intuito de problematizar a viabilidade, ou não, desta prática como produto turístico potencial.

TURISMO RURAL E CICLOTURISMO: DIÁLOGOS CONCEITUAIS

O turismo rural é uma atividade que vem se desenvolvendo desde o século XX (Brasil, 2010Brasil. Ministério do Turismo. (2010). Turismo rural: orientações básicas. Brasília: Ministério do Turismo. ) e pode ser entendido como o segmento que valoriza os aspectos naturais e culturais de localidades rurais. Embora o conceito de turismo rural não seja consensual, posto que apresenta diferentes contornos teóricos, como o Turismo no Espaço Rural, Agroturismo e o Turismo Rural na Agricultura Familiar (TRAF), de um modo geral, e segundo o Ministério do Turismo (Brasil, 2010Brasil. Ministério do Turismo. (2010). Turismo rural: orientações básicas. Brasília: Ministério do Turismo. ), o turismo rural abrange as atividades turísticas que são desenvolvidas no meio rural com o objetivo de agregar valor aos produtos e serviços, à produção agropecuária e promover o patrimônio cultural e natural das comunidades. Trata-se de um conceito amplo e que leva em consideração aspectos relacionados aos territórios, aos recursos naturais e culturais e às formas de aproveitamento das áreas rurais pelo e para o turismo.

Tal imprecisão conceitual é analisada por Tulik (2010), ao indicar a existência de nuances diferenciadoras entre o turismo em áreas rurais e o turismo rural. Enquanto aquele se refere ao conjunto de atividades desenvolvidas no espaço rural, este pressupõe o ambiente rural como motivo principal da atratividade turística, ou seja, as especificidades do rural são fatores determinantes na caracterização deste segmento de mercado. Rodrigues (2001Rodrigues, A. B. (Org.). (2001). Turismo Rural: práticas e perspectivas. São Paulo: Contexto (Coleção Turismo Contexto). ) aborda essa questão de modo semelhante, entendendo que o turismo rural estaria relacionado aos elementos que conferem à paisagem a sua fisionomia nitidamente rural: as produções agrárias, a paisagem e os ecossistemas ricos em biodiversidade. Outros autores que auxiliam na compreensão do turismo rural são Matias e Sardinha (2002Matias, A., Sardinha, R. Avanços em Economia e Gestão do Turismo. Lisboa: Colecção Sociedade e Organizações/48, 2002. ), os quais identificam características inerentes a esta modalidade de turismo, com destaque para as vivências dos turistas no cotidiano e no modo de vida rural, para o contato direto e a interação com a natureza. Compartilham ainda a visão de que o referido segmento é praticado em escala reduzida, com baixo impacto ambiental. Assim como os demais segmentos de turismo dito alternativos, o turismo rural propicia um contato mais próximo dos visitantes com o cotidiano do meio rural: paisagens campestres, produções agrícolas, práticas de sociabilidade, patrimônio material e simbólico (Schetino, 2006Schetino, A. M. (2006). Cicloturismo como vivência crítica e criativa de lazer. [Monografia, Universidade Federal de Minas Gerais]. ; Oliveira, 2018Oliveira, R. R. de. (2018). Devagar quase parando: o uso da bicicleta como ferramenta para o estudo da paisagem. In: Oliveira, R. R. de, Ruiz, A. E. (Orgs.) Geografia histórica do café [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, pp. 37-60. ).

O turismo pode se converter num fator de ressignificação das paisagens e das comunidades rurais, fortalecendo suas particularidades e ampliando as opções de práticas econômicas e de convivência intercultural, com o estreitamento das relações entre o rural e o urbano. Kageyama (2008Kageyama, A. A. (2008) Desenvolvimento rural: conceitos e aplicação ao caso brasileiro. Porto Alegre: Editora da UFRGS. ) expressa bem essas mudanças, apontando a hibridez do espaço rural com a diversidade de ocupações, serviços, atividades produtivas, em estreita associação com as iniciativas ligadas ao ócio, ao lazer e ao turismo. Tal como estas reflexões teóricas permitem compreender, o espaço rural deixa de ser percebido como local de produção, de abastecimento das cidades e passa a ser visto como espaço polissêmico e agregador de múltiplos setores econômicos. Nesse contexto, o turismo intensifica o processo de novas ruralidades ao propiciar a revalorização do rural por meio de produtos, equipamentos e serviços.

A atividade turística ressignifica o rural, torna funcional os espaços cotidianos e de trabalho, transformando-os em espaços de lazer e de consumo cultural. As paisagens, tradições, visões de mundo, religiosidade e demais expressões culturais, e subjetividades, são alçadas a elementos diferenciadores do cotidiano. Busca-se uma associação entre atividades agrícolas e não agrícolas que estabelecem novas relações e dinâmicas, por meio de ações de turistificação do espaço rural: trilhas ecológicas, contato dos agricultores rurais com turistas nacionais e internacionais, visitas às propriedades rurais, roteiros gastronômicos, são algumas das possibilidades que o turismo acena para as zonas rurais, contribuindo para a multifuncionalidade e pluriatividade do meio rural.

No processo turístico de valorização das paisagens, destaca-se também os seus componentes culturais. O patrimônio material e simbólico das comunidades rurais são fatores que atraem os visitantes na perspectiva de intercâmbio e interpretação cultural. Dessa forma, o turismo rural também se caracteriza pelo interesse na valorização do patrimônio cultural e natural como elementos da oferta turística. Os empreendedores locais tendem a conferir originalidade aos seus produtos e serviços, contemplando manifestações socioculturais e práticas tradicionais - artesanato, música, arquitetura - além de primar pela conservação do ambiente natural, da paisagem e da cultura (Carvalho & Moesch, 2013Carvalho, M.S. & Moesch, M.M. (2013). Turismo como fenômeno social e suas implicações no espaço rural. Revista Brasileira de Ecoturismo . São Paulo, 6 (2), pp. 442-457. ). Dentre os impactos positivos do turismo rural podemos destacar: as vivências socioeducativas e uma maior interação entre turistas e comunidades locais, conservação do patrimônio ambiental, valorização da herança cultural, dos simbolismos e dos saberes e fazeres tradicionais, aumento da autoestima dos moradores, agregação de valor às atividades econômicas, mediante a organização de bens, produtos e serviços ligados aos setores de turismo e hospitalidade. A dinâmica do turismo no meio rural ocasiona processos de transformação, induzindo o desenvolvimento em bases comunitárias (Figura 1).

Figura 1
Exemplos de oferta do Turismo Rural

No cenário de novas ruralidades e de novos paradigmas em torno da mobilidade sustentável (Maneze, 2018Maneze, C. A.L. (2018) A transformação humana nas viagens: encontro de si e busca de ser. [Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília]. ), o cicloturismo apresenta-se como uma prática turística que possibilita vivenciar os espaços urbanos/naturais de modo sustentável, na qual o contato com a dinâmica sociocultural ocorre num tempo e no espaço particulares. Caracteriza-se pelo deslocamento motivado pela busca do contato com o diferente, com as paisagens e modos de vida específicos, num percurso pela memória, patrimônio e imaginário dos lugares (Lima, 2015Lima, B. L. (2015). Estrada Geral do Sertão: potenciais turísticos de um caminho quase esquecido. [Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília]. ); aliado ao movimento físico, os ciclistas promovem a circulação de bens culturais, ideias e representações dos locais visitados. Na visão de Schetino (2006Schetino, A. M. (2006). Cicloturismo como vivência crítica e criativa de lazer. [Monografia, Universidade Federal de Minas Gerais]. , p. 192) o cicloturismo compreende:

[…] Qualquer viagem ou passeio turístico no qual se utilize a bicicleta como meio de transporte. Essa definição contempla não só as grandes viagens solitárias ou em grupos contidas em livros e relatos como também a nova e crescente demanda do mercado, da utilização de bicicletas em pequenos passeios e roteiros turísticos.

No cicloturismo os turistas/visitantes podem deslocar-se por períodos inferiores a 24 horas, caracterizando o ciclolazer, ou realizar longos percursos fora do seu local de moradia com vistas ao consumo de diversas experiências - contemplação, lazer, recreação, contato cultural, aventura -, sendo a bicicleta elemento indispensável nas cicloviagens. Han et al. (2017Han, H., Meng, B. & Kim, W. (2017). Bike-traveling as a growing phenomenon: Role of attributes, value, satisfaction, desire, and gender in developing loyalty. Tourism Management, 59, pp. 91-103.) pontuam seis variáveis que caracterizam o cicloturismo: 1) É um deslocamento distante do local de residência; 2) A duração pode variar de um a vários dias; 3) É uma prática não competitiva; 4) A viagem é a principal motivação; 5) É desenvolvido dentro de um contexto ativo e desportivo e 6) Representa uma forma de lazer e entretenimento.

A partir desse entendimento, o cicloturismo pressupõe um contato mais estreito entre visitantes/turistas e comunidades, por meio do intercâmbio de saberes e práticas de hospitalidade presentes ao longo dos percursos e no aumento da percepção ambiental, uma vez que a bicicleta, como modal de transporte, aguça os sentidos: audição, tato, visão, paladar, olfato são potencializados para desvelar a complexidade do meio ambiente, propiciando novas maneiras de perceber, estranhar e experienciar a paisagem, mesmo aquelas consideradas familiares (Oliveira, 2018Oliveira, R. R. de. (2018). Devagar quase parando: o uso da bicicleta como ferramenta para o estudo da paisagem. In: Oliveira, R. R. de, Ruiz, A. E. (Orgs.) Geografia histórica do café [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, pp. 37-60. ).

Embora haja uma aproximação com as atividades de lazer, o cicloturismo não equivale necessariamente a uma prática esportiva e não deve ser apreendido meramente como uma atividade física realizada ao ar livre. Nesse patamar, Olinto e Asprino (2014Olinto, A., Asprino, R. (2014). Cicloturismo no Brasil. Recuperado em: Recuperado em: http://www.olinto.com.br/index.php/guia-livro-dvd-viagem-bicicleta/mantiqueira/ . Acesso em 23 de fevereiro de 2020.
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, s/p) esclarecem que no cicloturismo a busca pela quebra de recordes ou grandes velocidades é substituída pelo desafio, pela recreação e pelo conhecimento. Roldan (2000Roldan, T. R. R. (2000). Cicloturismo: planejamento e treinamento. [ Monografia, Universidade Estadual de Campinas]. , p. 22) segue em sentido semelhante, argumentando que o prazer do cicloturista está na experiência, no significado emocional do viajar, independentemente da duração do percurso ou do destino escolhido.

Pedrini, Flores e Cavalcante (2012Pedrini, L., Flores, L. C. da S. & Cavalcante, L. de S. (2012). Cicloturistas no circuito do Vale Europeu: perfil e percepção ambiental. Anais do IX Seminário da Associação Nacional Pesquisa e Pós- Graduação em Turismo. Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo. ) abordam a segmentação de mercado no turismo, observando que o cicloturismo aproxima-se dos segmentos de turismo de aventura e do ecoturismo. Eles entendem o cicloturismo como uma prática responsável e capaz de ocasionar benefícios sociais e movimentar setores importantes da economia rural. Para tanto, os autores analisaram o perfil dos cicloturistas do Circuito Vale Europeu, localizado no Estado de Santa Catarina, trazendo para o debate contribuições importantes ao desvelar as motivações dos visitantes, destacando-se a busca pela aventura, emoção e por experiências diferenciadoras.

De modo complementar, Pedrini (2013Pedrini, L. (2013). Cicloturismo no Circuito do Vale Europeu Catarinense: Um estudo do comportamento do cliente. [Dissertação de Mestrado, Universidade do Vale do Itajaí ]. , p. 32) aponta as motivações que direcionam o comportamento dos cicloturistas: aventura (percorrem caminhos que não conhecem), competição (estão em busca de superação, de quebrar marcas pessoais), vertigem (estão correndo riscos ao atingir altas velocidades nas descidas, muitas vezes em lugares que o celular não pega e sem socorro por perto) e fantasia (ao conviver com habitantes locais, ao incorporar o simples, pois tudo que carregam é peso extra).

Com base nesses estudos, observa-se que a estruturação de roteiros, rotas e circuitos cicloturísticos no meio rural pode se constituir em fator de valorização dos espaços onde estão inseridos, conferindo visibilidade aos patrimônios ambientais e urbanos, fortalecendo as comunidades em prol de um desenvolvimento econômico balizado nas expectativas locais. Ruschel (2008Ruschel, D. (2008). A bicicleta como meio de transporte sustentável no turismo. [Monografia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul]. , p. 70) ressalta também que o uso da bicicleta possibilita a inclusão social no âmbito do turismo, posto que permite ao ciclista desenvolver a sociabilidade, conhecer aspectos diferentes dos seu cotidiano e inserir-se em atividades culturais na busca por conhecimento e educação.

Nessa direção, Lima (2015Lima, B. L. (2015). Estrada Geral do Sertão: potenciais turísticos de um caminho quase esquecido. [Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília]. ) frisa que os cicloturistas, ao percorrerem os caminhos rurais, produzem também sentidos e significados aos locais; fragmentos da memória e das narrativas orais, as paisagens adquirem significância à medida que os cicloturistas abrem caminhos para a valorização do espaço material e simbólico dos espaços visitados. Maneze (2018Maneze, C. A.L. (2018) A transformação humana nas viagens: encontro de si e busca de ser. [Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília]. ) acrescenta ainda que os passeios de bicicleta conferem autonomia e protagonismo aos viajantes, provocando transformações nas subjetividades, favorecendo laços afetivos com o meio ambiente.

Assim, ao reforçar os laços sociais, o sentido do lugar (Pires, 2001Pires, P. dos S. (2001) Caracterização e análise visual da paisagem rural com enfoque turístico: uma contribuição metodológica. Turismo-Visão e Ação, 4 (8), pp. 83-98.; Yazigi, 2002Yazigi, E. (Org). (2002). Turismo e Paisagem. São Paulo: Contexto .), a atividade e o turismo, de um modo geral, possibilitam ações de mobilização, sinergia, autonomia e articulação dos atores locais em prol de novas perspectivas de desenvolvimento local. Nesse norte, Duarte (2008Duarte, J. C. de R. D. (2008). Cicloturistas e suas percepções ambientais: um estudo na Estrada Real. Director Dr. Nelson Antônio Quadros Vieira Filho. (Tesina degrado inédita). Centro universitário UNA. , p. 25) assinala que o cicloturismo figura como elemento indutor do desenvolvimento socioeconômico, em virtude de mobilizar os atores sociais em iniciativas sustentáveis. Segundo o autor, este processo pode ocorrer de maneiras distintas em cada país, seja por meio do Estado, seja pelo envolvimento e participação de instituições que detêm um forte compromisso com a sustentabilidade e de empresas que atuam de forma participativa e corresponsável no planejamento e gestão dos seus produtos e serviços.

A diversificação das atividades produtivas é um dos fatores que justificam a mobilização do poder público, iniciativa privada e comunidades locais em torno de projetos de turismo local, em que a atividade detém vínculos com as identidades culturais e os aspectos simbólicos das populações que residem nos locais onde os passeios de bicicleta são promovidos. Os roteiros de cicloturismo tendem a contribuir, portanto, na diversificação das economias regionais, valorização da herança cultural, conservação do patrimônio, além de incentivar fluxos turísticos no período de baixa temporada (Carvalho et al., 2013Carvalho, M.S. & Moesch, M.M. (2013). Turismo como fenômeno social e suas implicações no espaço rural. Revista Brasileira de Ecoturismo . São Paulo, 6 (2), pp. 442-457. ).

Apesar das possibilidades que os segmentos de turismo em áreas rurais têm em favorecer novas perspectivas de desenvolvimento social e econômico, não podemos desconsiderar os efeitos negativos que podem surgir das relações entre turismo, meio ambiente e comunidades, tais como a degradação ambiental, a mercantilização do patrimônio cultural, alteração nos valores e estilos de vida local, prostituição e aumento da violência. A atividade turística, quando não acompanhada de um planejamento sistemático, pode ocasionar impactos negativos de diversas ordens, como, por exemplo, conflitos sociais, degradação da natureza, perda da demanda, dentre outros, inviabilizando, dessa forma, o ciclo de vida do destino (Dreher, 2003Dreher, M.T. (2003) Planejamento do turismo em áreas não urbanas: envolvendo a comunidade. Anais do Congresso Internacional sobre Turismo Rural e desenvolvimento sustentável. Joinville. pp. 241- 249. Recuperado em: Recuperado em: http://www.ufrgs.br/pgdr/arquivos/623.pdf . Acesso em 29/03/2020.
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).

A implantação de determinado segmento turístico implica ações de avaliação e monitoramento constante das atividades desenvolvidas, mediante instrumentos de planejamento e gestão. A relação contraditória entre turismo e áreas rurais enseja a adoção de instrumentos de planejamento e gestão - participação da comunidade por meio de fóruns, instâncias de governança e demais espaços de diálogo, zoneamento ambiental, elaboração de planos de manejo, determinação da capacidade de carga ecológica - com vistas a minimizar os impactos negativos desta atividade.

Ressalta-se a necessidade de ordenamento territorial e planejamento dos espaços rurais, com vista a minimizar os impactos negativos, acompanhar a dinâmica da atividade e ampliar os seus benefícios para as comunidades. A gestão e organização das ofertas de turismo no meio rural devem levar em consideração as energias e sinergias comunitárias, as quais podem se articular em vínculos solidários, a fim de ofertar atrações turísticas baseadas nas especificidades locais, em termos de história, oralidade, religiosidade, gastronomia, e nas práticas de lazer e trabalho cotidianos. Desse modo, o turismo ressignifica as culturas na perspectiva de viabilização de projetos de transformação local (Vázquez-Barquero, 2001Vázquez Barquero, A. (2001) Desenvolvimento endógeno em tempos de globalização. Porto Alegre: Editora UFRGS, 278 p. ).

Considera-se na presente discussão o conceito de desenvolvimento local de Buarque (2002Buarque, S. C. (2002). Construindo o desenvolvimento local sustentável. Metodologia de planejamento. Rio de Janeiro: Garamond. ), entendido como um processo endógeno que possui o objetivo de promover o dinamismo econômico e a melhoria da qualidade de vida da população. Dialogando com este pensamento, na visão de Martins (2002Martins, S. R. O. (2002). Desenvolvimento Local: questões conceituais e metodológicas. Interações, Campo Grande, 3(5}, pp. 13-20. ), o desenvolvimento local deve ser entendido como aquele que satisfaz as necessidades humanas, sendo que um de seus maiores desafios consiste em criar as condições para o pleno exercício do protagonismo comunitário, tendo em vista que o cenário contemporâneo se caracteriza por algumas fragilidades, como a ausência da cidadania, da identificação sociocultural e territorial e do sentido de vizinhança.

Diante da argumentação desenvolvida, o enquadramento teórico proposto adequa-se à realidade cicloturística dos municípios do Baixo Parnaíba Maranhense, onde a bicicleta é utilizada para a realização de percursos cotidianos, idas ao trabalho ou ao comércio, para a atividade de lazer ou desportiva ou como elemento de suporte para a visitação de locais de interesse turístico, sendo categorizado por Segovia (2017Segovia, Y. N. S. (2017). O desenvolvimento do cicloturismo na perspectiva da gestão urbana. [Dissertação de Mestrado, Universidade Católica do Paraná]. ) como ciclolazer.

Diante do exposto, as reflexões enunciadas voltam-se para este território, aqui entendido como espaço físico e simbólico, com práticas tradicionais convivendo dialeticamente com atividades globalizadas de produção e consumo dos espaços. Atualmente, o Baixo Parnaíba Maranhense vem passando por desafios decorrentes da implantação de atividades agrícolas que comprometem o meio ambiente local, tais como a plantação de soja e eucalipto. Estas contribuem para um processo de exclusão das populações locais e disputas pela legitimação de terras. Por meio do cicloturismo, assistem-se às transformações recentes nos povoados rurais, cujos resultados podem ocasionar, em longo prazo, novas (re)configurações no referido território, na busca de novas oportunidades econômicas e sociais para as comunidades.

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa orientada pelos condicionantes da investigação qualitativa, possuindo um caráter exploratório e descritivo, uma vez que se propôs a compreender as características do fenômeno cicloturismo no contexto de sua produção. A pesquisa qualitativa possui como foco a apreensão dos significados do objeto de estudo por meio de técnicas variadas de interpretação, tais como entrevistas e observação participante, valendo-se em grande medida do método indutivo em suas abordagens. De acordo com Silva e Menezes (2001Silva, E. L., Menezes, E. M. (2001) Metodologia da Pesquisa e Elaboração de Dissertação. Florianópolis: UFSC. , p. 20), na pesquisa qualitativa:

[...] Há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números. A interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são básicas no processo de pesquisa qualitativa. Não requer o uso de métodos e técnicas estatísticas. O ambiente natural é a fonte direta para coleta de dados e o pesquisador é o instrumento-chave. É descritiva. Os pesquisadores tendem a analisar seus dados indutivamente. O processo e seu significado são os focos principais de abordagem.

Nas pesquisas qualitativas, a ênfase ocorre nos significados das práticas sociais, valores, percepções e visões de mundo dos diferentes atores, não se detendo, portanto, nos aspectos quantificáveis ou numéricos. Diversas técnicas de coletas de dados podem e devem ser utilizadas no desenvolvimento das pesquisas qualitativas, em especial, as entrevistas, o grupo focal, a observação participante. Assim, o pesquisador pode utilizar instrumentos que se complementam e possibilitam maior aprofundamento do objeto de estudo; nesse sentido, a triangulação metodológica torna-se uma proposta apropriada nos estudos descritivos e exploratórios, uma vez que torna possível uma compreensão holística acerca do fenômeno analisado (Lakatos & Marconi, 2006Lakatos, E. M., Marconi, M. A. (2006). Técnicas de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas. ).

Em face dos objetivos propostos, a pesquisa foi realizada em dois momentos: a pesquisa bibliográfica e a pesquisa de campo. Na pesquisa bibliográfica, inicialmente foi realizado o levantamento sistemático das publicações sobre a temática cicloturismo nos principais bancos de dados - Scielo, portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Biblioteca Digital de Teses e Dissertações - e nos periódicos internacionais, a fim de compor um quadro teórico-conceitual sobre as relações entre cicloturismo e turismo rural.

Desse modo, alcançou-se o entendimento sobre cicloturismo e turismo rural por meio das contribuições de Tulik (2003Tulik, O. (2003). Turismo Rural. São Paulo: Aleph (Coleção ABC do Turismo). ), Rodrigues (2001Rodrigues, A. B. (Org.). (2001). Turismo Rural: práticas e perspectivas. São Paulo: Contexto (Coleção Turismo Contexto). ) e Kageyama (2008Kageyama, A. A. (2008) Desenvolvimento rural: conceitos e aplicação ao caso brasileiro. Porto Alegre: Editora da UFRGS. ); as análises acerca do cicloturismo foram realizadas a partir dos estudos de Han et al. (2017Han, H., Meng, B. & Kim, W. (2017). Bike-traveling as a growing phenomenon: Role of attributes, value, satisfaction, desire, and gender in developing loyalty. Tourism Management, 59, pp. 91-103.), Cavallari (2012Cavallari, G. (2012). Manual de mountain bike & cicloturismo. 1ª ed. São Paulo: Ed. Kalapalo. ) Lima (2015Lima, B. L. (2015). Estrada Geral do Sertão: potenciais turísticos de um caminho quase esquecido. [Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília]. ), Carvalho et al. (2013Carvalho, M.S. & Moesch, M.M. (2013). Turismo como fenômeno social e suas implicações no espaço rural. Revista Brasileira de Ecoturismo . São Paulo, 6 (2), pp. 442-457. ) e Pedrini, Flores e Cavalcante (2012Pedrini, L., Flores, L. C. da S. & Cavalcante, L. de S. (2012). Cicloturistas no circuito do Vale Europeu: perfil e percepção ambiental. Anais do IX Seminário da Associação Nacional Pesquisa e Pós- Graduação em Turismo. Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo. ). A relação entre cicloturismo e desenvolvimento local foi tecida a partir dos estudos de Buarque (2002Buarque, S. C. (2002). Construindo o desenvolvimento local sustentável. Metodologia de planejamento. Rio de Janeiro: Garamond. ), Vázquez Barquero (2001Vázquez Barquero, A. (2001) Desenvolvimento endógeno em tempos de globalização. Porto Alegre: Editora UFRGS, 278 p. ) e Duarte (2008Duarte, J. C. de R. D. (2008). Cicloturistas e suas percepções ambientais: um estudo na Estrada Real. Director Dr. Nelson Antônio Quadros Vieira Filho. (Tesina degrado inédita). Centro universitário UNA. ).

Na pesquisa de campo, fez-se uso da técnica de observação direta e sistemática, ou seja, uma “observação estruturada, planejada ou controlada, tendo como característica básica o planejamento prévio e a utilização de anotações e de controle tempo” (Cervo, 2007Cervo, A. L. (2007). Metodologia científica. São Paulo: Pearson Prentice Hall. , p. 31), realizada por meio do acompanhamento de grupos de ciclistas nos roteiros de cicloturismo. Ressalta-se que um dos pesquisadores faz parte do grupo Pedal Livre, um coletivo de ciclistas do município de São Bernardo que promove rotas de cicloturismo pela região do Baixo Parnaíba, além de eventos competitivos e beneficentes em parceria com o poder público local. A participação neste grupo facilitou a entrada no campo, com o estabelecimento de contatos prévios com outros grupos de ciclismo existentes e, consequentemente, a coleta de informações sobre a relação entre os cicloturistas e o patrimônio rural ao longo das rotas desenvolvidas.

O acompanhamento dos grupos ocorreu nos meses de agosto a novembro de 2019, aos finais de semana, nos turnos matutino e vespertino, períodos em que os roteiros de cicloturismo são realizados com maior frequência. Realizou-se também a observação participante de grupos de ciclistas amadores e profissionais ao longo dos eventos beneficentes e competitivos nas zonas rurais dos municípios de São Bernardo, Magalhães de Almeida, Tutóia e Santana do Maranhão. Nesses momentos, utilizaram-se roteiros de observação e anotações de campo, a fim de identificar as relações entre cicloturistas, meio ambiente e comunidades locais, a dinâmica do cicloturismo nas modalidades recreativa e competitiva, e as possíveis contribuições do cicloturismo para o desenvolvimento social e econômico das localidades abrangidas pelos roteiros.

A matriz de observação (Quadro 1) sintetiza as principais categorias e os aspectos que orientaram as anotações de campo, entendendo que o observador participante é consciente da sua influência nos resultados e no significado do fenômeno observado. Buscou-se integrar a experiência vivenciada pelos atores sociais - os cicloturistas - dando ênfase ao significado, ao agenciamento e à reflexão (Alcântara, 2008Alcântara, D. De (2008). Abordagem experiencial e revitalização dos centros históricos: os casos do Corredor Cultural no Rio de Janeiro e do Gaslamp Quarter em San Diego. Rio de Janeiro: UFRJ/ FAU, 2008. ).

Quadro 1
Matriz de observação do fenômeno cicloturístico.

Posteriormente, as etapas de organização, análise e tratamento das informações coletadas no campo seguiram as orientações de Minayo, Deslandes e Gomes (2007Minayo, M. C.S., Deslandes, S.F. & Gomes, R. (2007). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes. ), interpretando-as com base no referencial teórico adotado pela pesquisa. A arregimentação de fontes primárias e secundárias possibilitou a compreensão dos aspectos físicos e simbólicos do território do Baixo Parnaíba Maranhense, bem como da dinâmica do cicloturismo nos povoados ali existentes, tendo em vista que esta modalidade de turismo rural pode se converter em estratégia de manutenção das famílias, valorização da paisagem local e de dinamização econômica.

A PRÁTICA DO CICLOTURISMO E A VALORIZAÇÃO DO TERRITÓRIO DO BAIXO PARNAÍBA MARANHENSE

O território denominado Baixo Parnaíba Maranhense (Figura 2) consiste numa “[...] ampla extensão de terras, com cobertura florestal característica do Cerrado ou integrando também áreas de transição entre Cerrado e Caatinga, envolvendo distintos municípios [...], objeto de distintas classificações, obedecendo a diferentes nomenclaturas” (Oliveira, 2015Oliveira, D. M. V. (2015). Das varedas das encostas aos variantes da firma no Baixo Parnaíba Maranhense: as (re) organizações territoriais como forma de manutenção camponesa diante da ação de uma grande empresa - Suzano celulose. Rio de janeiro: Niterói. , p. 66, grifo do autor). Atualmente, o território do Baixo Parnaíba Maranhense é formado por 13 municípios: Araióses, Tutóia, Santana do Maranhão, Água Doce do Maranhão, Santa Quitéria do Maranhão, São Bernardo, Magalhães de Almeida, Anapurus, Mata Roma, Chapadinha, São Benedito do Rio Preto, Urbano Santos e Belágua.

Figura 2
Mapa de localização do Território do Baixo Parnaíba Maranhense

Nesse território, predominam feições eminentemente rurais, com a presença de povoados que possuem características materiais e simbólicas que expressam elementos de ruralidade. O termo povoado é assumido na pesquisa como a unidade territorial, delimitada por fronteiras consensualmente acatadas por seus moradores e reconhecida pelos vizinhos, onde estão situadas as moradias e demais edificações (casas de forno, casas de festa, igrejas, escolas, estabelecimentos comerciais, postos de saúde, quando existentes, e outros) e as áreas de trabalho. Em algumas situações, as áreas de trabalho das famílias de um povoado podem se encontrar em outras localidades (Paula Andrade, 2008Paula Andrade, M. de. (2008). Os gaúchos descobrem o Brasil: projetos agropecuários contra a agricultura camponesa. São Luís: EDUFMA. ).

De acordo com o Ministério do Turismo (Brasil, 2010Brasil. Ministério do Turismo. (2010). Turismo rural: orientações básicas. Brasília: Ministério do Turismo. , p. 17) “a ruralidade contempla as características mais gerais do meio rural: a produção territorializada de qualidade, a paisagem, a biodiversidade, a cultura e certo modo de vida, identificados pela atividade agrícola, a lógica familiar, a cultura comunitária, a identificação com os ciclos da natureza”.

Paisagens naturais conservadas, relações sociais marcadas por laços de coesão e solidariedade comunitária, as vivências cotidianas entre os moradores e os espaços naturais, a organização das suas práticas econômicas, com destaque para os saberes e fazeres artesanais, como a produção de farinha e cachaça artesanal (Figura 3) são elementos que significam este território, entendido como espaço de vivência, trabalho, conflitos e lazer “[...] um lugar de vida, isto é, lugar onde se vive (particularidades do modo de vida e referência “identitária”) e lugar de onde se vê e se vive o mundo [...]”(Wanderley, 2001Wanderley, M. N. B. (2001 A ruralidade no Brasil moderno: por um pacto social pelo desenvolvimento rural. Giarraca, N. (Comp.) ¿Una nueva ruralidade en América Latina? Buenos Aires: CLACSO/ ASDI, pp. 31-44. Disponível em: Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/rural/wanderley.pdf . Recuperado em 27 de janeiro de 2020.
http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/a...
, p. 32).

Figura 3
Paisagens rurais do Baixo Parnaíba Maranhense

Na contemporaneidade, a dicotomia entre os meios rural e urbano é suplantada por uma visão dinâmica que os entende não como entes separados, mas como espaços de confluência e constantes diálogos, enfatizando o sentido de novo rural ou novas ruralidades. Tal característica é evidenciada no território do Baixo Parnaíba Maranhense, uma vez que o meio rural apresenta um diálogo permanente com a área urbana, seja no sentido econômico, por meio do comércio de bens e produtos oriundos da zona rural, seja no sentido da população rural utilizar serviços, estar empregada ou ainda estudar nas sedes municipais, revelando as inter-relações entre o rural e o urbano.

Mesmo nas sedes municipais que apresentam feições mais urbanizadas, as relações cotidianas são marcadas por elementos rurais, como as relações de compadrio, confiança e solidariedade comunitária. No município de São Bernardo, por exemplo, evidenciam-se práticas de agricultura urbana nos quintais de alguns moradores que trouxeram esse hábito da zona rural e cultivam frutas como banana, acerola, alface, manga, mamão; hortaliças como pimentão, pimenta-de-cheiro e criam pequenos animais (galinha, pato, porco), revelando, assim, a continuidade de práticas do meio rural no perímetro urbano (Oliveira & Leal, 2013Oliveira, L. R., Leal, M. N. (2013). Quintais produtivos (Home Garden) no município de São Bernardo/ MA. Anais do 14º. Encontro de Geógrafos da América Latina- Lima, pp. 1-18. ).

Nas festas em homenagem aos santos padroeiros, as trocas materiais e simbólicas entre os devotos, romeiros, e demais atores que transitam nos espaços festivos tradicionais contribuem para reforçar esse intercâmbio; a dinâmica dos festejos religiosos “[...] produzem e dão corpo a um repertório simbólico e cultural que conforma as experiências populares do sagrado, proporcionando trocas e sociabilidades importantes à constituição das identidades locais e da memória coletiva no Baixo Parnaíba Maranhense” (Sousa, Pinto & Júnior, 2018Sousa, R., Pinto, E. R. & Júnior, C. C. de M. (2018) “Agosto em festa se enfeita”: religiosidade, práticas devocionais e representações simbólicas no Festejo de São Bernardo - MA. In: Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade (RICS). São Luís, 4, pp. 495-516. , p. 510).

Guardadas as especificidades da dinâmica socioeconômica e cultural dos municípios que integram o Baixo Parnaíba Maranhense, atualmente, o território é cenário de tensões e conflitos agrários, bem como de estratégias de resistência do campesinato local, face ao avanço de um modelo agroexportador de soja e eucalipto que se estabeleceu nos municípios a partir da década de 1980, que tem promovido reconfigurações e impactado as relações entre os atores locais e os seus espaços socioambientais, “[...] essas comunidades continuam na busca do desenvolvimento do bem viver dos povos em meio ao enfrentamento político, aos conflitos e às relações com a natureza” (Costa, 2016Costa, S. B. da. (2016) Chapadas e lutas: resistência camponesa no Baixo Parnaíba Maranhense na rota do agronegócio silvicultor - conflitos territoriais e “usos” da natureza. [Tese de Doutorado, Universidade Federal de Pernambuco]. , p. 29, grifo do autor).

A atividade turística e excursionista vem sendo utilizada como estratégia de valorização do território por meio de políticas públicas endereçadas à organização de ofertas e serviços de hospitalidade, dotação de infraestrutura e promoção dos municípios como destinos nos segmentos de turismo ecológico, sol e praia e turismo de aventura. No mapa de regionalização do turismo do Estado do Maranhão, os municípios de Água Doce do Maranhão, Araióses, Paulino Neves e Tutóia compõem o polo turístico Delta das Américas, e já figuram como destinos turísticos em expansão.

Nesse norte, assiste-se também ao movimento de grupos de ciclistas que percorrem o território do Baixo Parnaíba na busca por experiências de lazer, aventura, e contato com as paisagens e comunidades. Esses grupos se organizam de forma solidária, promovendo passeios e eventos esportivos e atividades beneficentes, em parceria com os gestores públicos municipais. Ao mesmo tempo, incentivam o uso da bicicleta como forma sustentável do consumo turísticos dos lugares e promoção do bem-estar e qualidade de vida.

Dentre os motivos que levam à prática de cicloturismo destacam-se as características geomorfológicas e às condições climáticas e hidrográficas que permeiam o Baixo Parnaíba Maranhense, somadas ao diversificado patrimônio cultural existente no meio rural. No que concerne às características geomorfológicas, e pelo fato do Estado do Maranhão estar situado numa área de transição, encontramos diversos tipos de vegetação, como o cerrado, a caatinga, e a floresta estacional perenifólia; já os ecossistemas de manguezais, dunas, praias, ilhas e ilhotas são encontrados nos municípios de Tutóia e Araióses. Nessa área predominam solos do tipo Latossolo Amarelo e Podzólico Vermelho Amarelo Concrecionário (Bandeira, 2013Bandeira, I. C. N. (2013). Geodiversidade do Estado do Maranhão. Teresina: CPRM. ).

Em relação aos aspectos climáticos, o clima característico dos municípios do Baixo Parnaíba é o subúmido, com exceção dos municípios de São Bernardo, Magalhães de Almeida e parte de Araióses, Santana do Maranhão e Santa Quitéria do Maranhão, nos quais ocorre o clima subúmido seco (Brasil, 2005). Ao reunir tais condições, os municípios do Baixo Parnaíba tornam-se áreas propícias para o desenvolvimento de roteiros cicloturísticos. Os roteiros e eventos de cicloturismo direcionam-se às áreas rurais, em especial aos povoados, onde as características dos ecossistemas e o ritmo cadenciado de vida dos moradores compõem uma atmosfera compatível com as atividades de lazer e aventura ao ar livre. Nesses locais, é comum a organização de eventos que atraem um público significativo de visitantes, dentre ciclistas amadores, profissionais, além de espectadores, os quais movimentam e promovem o meio rural como oferta turística do Baixo Parnaíba Maranhense (Figura 4).

Figura
Roteiros de Cicloturismo nas zonas rurais

Os cicloturistas normalmente realizam percursos de um dia, caracterizando a modalidade de ciclolazer, ou percorrem longos percursos, abrangendo rotas intermunicipais. Ao longo dos roteiros e das rotas cicloturísticas, os visitantes percorrem estradas de terra, envoltas por dunas e/ou manguezais, e entram em contato com paisagens campestres, plantações, festejos tradicionais, produção artesanal, gastronomia, remanescentes dos antigos engenhos de cana-de-açúcar, e demais elementos do patrimônio histórico e cultural (Figuras 5 e 6).

Figura 5
Paisagem Rural do município de São Bernardo, Maranhão

Figura 6
Produção de farinha artesanal no povoado Cajueiro em São Bernardo

Os eventos esportivos tendem a fomentar ações de/para o cicloturismo, dinamizando também a economia local por meio da venda de acessórios, equipamentos, alimentos e bebidas, além de material de apoio ao desenvolvimento desta atividade. Rotas cicloturísticas, como a Rota Caldo de Cana, Trilha Racha Coco e Rally do Sol impulsionam a valorização dos povoados do Baixo Parnaíba Maranhense, ao tempo em que atraem um público significativo de participantes e espectadores.

Além da proximidade com o patrimônio geológico, ambiental e cultural dos municípios, os cicloturistas interagem com os moradores, sendo comuns as atividades de acolhimento dos moradores das áreas rurais nas suas residências, oferta de serviços de apoio, como reparos das bicicletas e dos equipamentos utilizados, ou de informações sobre os atrativos existentes na região. Tal como mostrou Schetino (2006Schetino, A. M. (2006). Cicloturismo como vivência crítica e criativa de lazer. [Monografia, Universidade Federal de Minas Gerais]. ), as situações de intercâmbio e de trocas culturais entre os cicloturistas e os moradores do Baixo Parnaíba caracterizam o cicloturismo como oportunidade para a vivência crítica e criativa do lazer. De acordo com o autor, o locais de percurso ganham novos usos e semânticas com a presença destes visitantes, os quais recebem em troca generosidade e hospitalidade.

De modo complementar, não raro, observa-se a abertura de pequenos negócios de alimentação ao longo das rotas desenvolvidas. Em algumas, como a rota Caldo de Cana, localizada no povoado São Raimundo, são vendidos gêneros alimentícios como sucos, vitaminas, caldo de cana, sinalizando para o empreendedorismo comunitário. Em alguns municípios pode-se encontrar uma cadeia produtiva da bicicleta em formação, com lojas especializadas na venda de acessórios e equipamentos para bicicletas, o que estimula a economia local (Figura 7).

Figura 7
Práticas de hospitalidade no meio rural

No contexto da multifuncionalidade e pluriatividade do meio rural, destacamos a importância de valorização de atividades que concorram para elevar a qualidade de vida dos moradores, facilitando o acesso a serviços de infraestrutura básica e de serviços. Como demonstra Souza (2019Souza, F. H. P. de. (2019) O ciclismo como incremento do turismo em Fortaleza: propostas de cicloturismo. [Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual do Ceará). ), o cicloturismo traduz oportunidades de enriquecimento da vida cultural de áreas urbanas e rurais, uma vez que os cicloturistas aproveitam a infraestrutura disponível ao longo das rotas, impulsionam negócios comunitários, distribuindo a renda de modo mais uniforme se comparado ao outros perfis de turistas.

Soares (2010Soares, A. (Org.). (2010) Circuitos de Cicloturismo: manual de incentivo e orientação para os municípios brasileiros. Recuperado em: Recuperado em: http://www.clubedecicloturismo.com.br/arquivos/Manual-Circuitos-Cicloturismo.pdf Acesso em 29 de abril de 2020.
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) complementa essa afirmação, quando observa que os passeios de bicicleta valorizam também as especificidades gastronômicas das regiões, face a necessidade dos cicloturistas em consumir a culinária tradicional dos destinos, estimulando, portanto, o turismo gastronômico e a produção associada ao turismo. Os roteiros de cicloturismo ampliam a permanência dos visitantes nas comunidades, estimulando o protagonismo comunitário no âmbito da atividade turística, além disso, associado a um planejamento responsável, pode se configurar numa fonte de renda complementar para as famílias e incentivar o desenvolvimento territorial (Gonçalves, 2018Gonçalves, M. L. R. (2018) O cicloturismo como uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento territorial de Nova Veneza - SC. [Dissertação de Mestrado, Universidade do Estado de Santa Catarina]. ). No entanto, algumas ameaças à consolidação deste cenário favorável ao turismo precisam ser consideradas: inicialmente, ressaltamos as condições de acesso à região do Baixo Parnaíba Maranhense, o que dificulta a mobilidade dos turistas e, consequentemente, o acesso aos atrativos.

Especificamente no segmento cicloturismo, constata-se a ausência de políticas públicas voltadas à mobilidade sustentável, ao incentivo ao uso da bicicleta, a articulação institucional com vistas a incentivar o turismo/excursionismo em áreas rurais, bem como a ausência de roteiros oficiais de cicloturismo de forma integrada. Nesse horizonte, Souza (2019Souza, F. H. P. de. (2019) O ciclismo como incremento do turismo em Fortaleza: propostas de cicloturismo. [Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual do Ceará). ) pontua que as iniciativas de cicloturismo no contexto brasileiro são gestadas, em sua maioria, pela iniciativa privada, não ocorrendo um envolvimento mais contundente da gestão pública estadual e federal no estímulo à atividade mediante a inserção de planos de desenvolvimento de rotas e circuitos, como acontece em outros países.

Além destes entraves, destacam-se as fragilidades no planejamento turístico municipal, com a ausência de ações estratégicas de diversificação da oferta turística, ações de marketing, estruturação de um calendário de eventos, instrumentos necessários para a organização e gestão da atividade turística. Outro entrave diz respeito à baixa qualidade na prestação de serviços nos setores de turismo e hospitalidade, o que pode comprometer a qualidade da experiência turística na região e, consequentemente, a imagem e o posicionamento mercadológico dos destinos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O turismo figura na contemporaneidade como um fenômeno social complexo e heterogêneo que articula as especificidades dos locais na estruturação de produtos e serviços para satisfazer as necessidades de lazer, evasão, cultura e busca por conhecimentos, por parte de diferentes atores sociais. Ao mesmo tempo, a atividade é pensada como estratégia de valorização dos aspetos naturais e dos bens simbólicos das comunidades, as quais percebem o turismo como fator de promoção cultural e do desenvolvimento econômico e social.

Essa realidade é percebida nas zonas rurais, onde o turismo ressignifica o meio rural e intensifica os diálogos entre as esferas local e global, posto que o patrimônio rural passa a ser entendido como locus de atração de visitantes, especificamente no âmbito do Turismo Rural. Caracterizado como um segmento sustentável, o turismo rural vem sendo incentivado em inúmeras localidades, cujas repercussões materizalizam-se não somente na dinamização econômica dos espaços rurais, mas em situações de intercâmbio e de circulação de saberes entre visitantes e visitados.

Dentre as possbilidades da oferta de turismo rural, os passeios de bicicleta, caracterizados como ciclolazer e cicloturismo aproximam os visitantes dos locais visitados, ampliam a percepção ambiental ao dar ênfase às paisagens e as relações sociais que são gestadas durante os percursos. O cicloturismo desenvolvido em áreas rurais é pensado como uma mobilidade turística sustentável e também como alternativa de consumo dos espaços rurais de modo a aproximar os turistas e as comunidades, suas memórias, histórias e tradições.

O cicloturismo no meio rural promove os patrimônios ambientais e das identidades culturais, ao mesmo tempo em que dinamiza as atividades não agrícolas com o estímulo à construção de novas ruralidades. Já ao movimento de vivenciar as localidades, o cicloturismo propicia o estreitamento dos laços de afetividade entre os moradores e seus locais de vivência e convivência. Desse modo, o cicloturismo reforça o turismo como fator de desenvolvimento socioeconômico no meio rural.

Estes foram os fios condutores da pesquisa ora realizada, tendo como objeto privilegiado de estudo os municípios que integram a região do Baixo Parnaíba Maranhense. A expansão das atividades turísticas locais vem possibilitando novas formas de vivenciar os povoados, antes distantes dos lugares centralizados da práxis turística. Por meio de atividades espontâneas de grupos de ciclistas, ocorrem processos de apropriação e valorização turística dos povoados rurais; roteiros e trilhas de cicloturismo revigoram os patrimônios desses locais, e geram focos de empreendedorismo comunitário, realização de eventos, os quais movimentam a economia e produzem novos sentidos ao meio rural do Baixo Parnaíba.

A expansão das atividades cicloturísticas fomenta novas formas de vivenciar os povoados, antes distantes dos lugares centralizados da dinâmica do turismo no Baixo Parnaíba. Dentre os benefícios verificados, destacam-se os processos de apropriação e valorização turística dos povoados rurais.

Os roteiros cicloturísticos incentivam não apenas o fluxo de visitantes, mas promovem novos sentidos ao meio rural, enriquecendo a vida cotidiana dos moradores e o estreitamento dos seus laços com o patrimônio local. Os passeios favorecem comportamentos pró-ambientais, maior conexão e apego emocional em relação às localidades percorridas, traduzindo situações de aprendizado, afeto e experiências.

Ao longo da pesquisa realizada, constatou-se a viabilidade de desenvolver o cicloturismo como oferta do turismo rural nos municípios do Baixo Parnaíba Maranhense, face às condições geomorfológicas e climáticas, patrimônio ambiental conservado, e aos elementos do patrimônio cultural - paisagens campestres, plantações, festejos tradicionais, produção artesanal, gastronomia, remanescentes dos antigos engenhos de cana-de-açúcar, dentre outros bens simbólicos.

Enquanto estratégia de desenvolvimento, o reconhecimento das potencialidades locais pelos cicloturistas impulsiona novas dinâmicas que vêm promovendo uma re-localização dos lugares de vida e de suas funções, explicitando uma valorização das zonas rurais pelo turismo. Sinaliza, em longo prazo, para a promoção do turismo rural na região. No entanto, a pesquisa ressaltou também a necessidade de se estabelecer políticas públicas direcionadas ao turismo rural e ao cicloturismo, tendo em vista que a maioria dos municípios carecem de estruturas básicas e de serviços, além de ações sistemáticas de formatação e comercialização de produtos rurais, a fim de inserir os municípios na dinâmica turística.

O processo de elaboração de roteiros cicloturísticos pressupõe a alocação de infraestrutura, em especial a sinalização indicativa, turística e interpretativa, pontos de apoio ao cicloturismo e serviços específicos, como o aluguel de bicicleta. Para tanto, o envolvimento dos gestores públicos, empresariado e comunidade local, constitui fator primordial para que a região desenvolva a prática do cicloturismo em atenção às normativas deste segmento.

Ressalva-se que os interesses e demandas locais, bem como a dinâmica das relações e os laços de afetividade estabelecidos com o meio rural devem ser considerados no planejamento da atividade turística, de forma a gerar benefícios para as comunidades e novas perspectivas de desenvolvimento includente e qualidade de vida.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Jun 2021
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2021

Histórico

  • Recebido
    24 Abr 2020
  • Aceito
    03 Mar 2021
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