Resumo
A partir de Verdade e Método, este artigo analisa a historicidade da atitude epistêmica e do método científico, explorando alguns aspectos envolvidos no estatuto prudencial do conhecimento histórico tal como estabeleceu a obra de Gadamer.
Hermenêutica; historicidade; método histórico; ciência e phronesis
Abstract
Drawing on Truth and Method, this article examines the historicity of the epistemic position and of the scientific method, and explores some aspects of the prudential statute of historical knowledge as established in Gadamer's work.
Hermeneutics; historicity; historical method; science and phronesis
DOSSIÊ: HISTÓRIA DA HISTÓRIA
Descaminhos do método: notas sobre história e tradição em Hans-Georg Gadamer
Wayless methods: notes about history and tradition in Hans Georg Gadamer
Norma Côrtes
Professora Adjunta de Teoria e Metodologia da HistóriaIFCS/UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro Largo de São Francisco, 1, Centro, Rio de Janeiro, 20051-070. ncortes@ifcs.ufrj.br
RESUMO
A partir de Verdade e Método, este artigo analisa a historicidade da atitude epistêmica e do método científico, explorando alguns aspectos envolvidos no estatuto prudencial do conhecimento histórico tal como estabeleceu a obra de Gadamer.
Palavras-chave: Hermenêutica, historicidade, método histórico, ciência e phronesis
ABSTRACT
Drawing on Truth and Method, this article examines the historicity of the epistemic position and of the scientific method, and explores some aspects of the prudential statute of historical knowledge as established in Gadamer's work.
Key words: Hermeneutics, historicity, historical method, science and phronesis
a alma mais forte' do precedente maior, a proximidade da versão rival, a existência, a um só tempo opressiva e libertadora, de uma tradição comum, liberta o escritor da armadilha do solipsismo. Um pensador ou artista verdadeiramente original é simplesmente o que excede ao pagar suas dívidas.
George Steiner1
1.
Verdade e Método. Fundamentos de uma hermenêutica filosófica2 é a mais importante obra de Hans-Georg Gadamer (1900-2002). Publicada primeiramente em 1960, ela se inscreve nos debates sobre a crise das idéias de consciência e de representação mental do mundo, sendo herdeira da mesma tradição filosófica que ultrapassou os impasses do solipsismo cartesiano para além do transcendentalismo de Kant e fixou os termos dessa virada intelectual que marcou o século XX.3 Obra de maturidade, foi escrita após Gadamer ter lecionado por mais de dez anos na Universidade de Heidelberg várias disciplinas filosóficas sobre os clássicos e a história das chamadas ciências do espírito4 reconstituindo uma senda que, remotamente, foi inaugurada no dualismo racionalista de Immanuel Kant (1724-1804); atravessou a hermenêutica de Friedrich Schleiermacher (1768-1834); e, a partir daí, percorreu os caminhos da filosofia do espírito de G.W.F. Hegel (1770-1831); do historicismo de Wilhelm Dilthey (1833- 1911); das meditações neocartesianas de Edmund Husserl (1859-1938); da fenomenologia do saber de Max Scheler (1874-1928); assumiu a tônica weberiana do existencialismo de Karl Jaspers (1883-1969); e por fim chegou até a investida ontológica de Martin Heidegger (1889-1976).5 Verdade e Método nasceu, portanto, com o caráter de obra síntese.6 Ela encerra o processo histórico de composição de uma longa e consistente tradição filosófica que se notabilizou tanto por sua atitude teorética crítica e reflexiva; quanto pelo acento temporal que paulatinamente conferiu à singularidade do mundo histórico e à historicidade da razão; e consequentemente (em decorrência de ambos esses aspectos) em virtude também da crescente autoconsciência histórica acerca do desenrolar de toda essa mesmíssima trajetória de alteração cognitiva e intelectual.
Herdeira e intérprete dessa tradição, a obra de Gadamer é uma peça filosófica que contém múltiplas atitudes autorais, sendo analítica e teorética - histórica e tética.7 Essa abordagem mista permitiu que o autor, em um só fôlego, resgatasse a trajetória histórica dessa linhagem de pensadores, narrando seus debates desde a chamada "virada epistemológica" até o giro hermenêutico de inspiração heideggeriana; recuperasse analiticamente tal tradição de pensar rendendo-lhe todas as homenagens; e concreta e efetivamente se instalasse em uma situação cognitiva caracterizada por filial reconhecimento histórico e atualização filosófica (eis a situação hermenêutica). Todos esses procedimentos teóricos não apenas desafiaram os cânones argumentativos da história das idéias8 e dos enfadonhos tratados metodológicos, como, principalmente, evidenciavam um zeloso esforço9 para investigar o problema da compreensão hermenêutica10 e estabelecer o estatuto epistêmico dessa forma de inteligência além dos limites das ciências ou do método. Gadamer rejeitou a pretensão de indubitabilidade da metodologia científica11 e explorou os domínios da arte, das ciências do espírito e da linguagem, identificando outros territórios onde tradicionalmente se encerram modos de expressão não-representacionais12 da verdade. No núcleo de Verdade e Método pulsa uma especulação filosófica: qual a morada da verdade?
Tributária de Ser e Tempo (1927),13 essa questão ganhou novo alcance e tratamento através da hermenêutica gadameriana. E antes de consistir em um problema de adequação entre as palavras e as coisas, a verdade em Gadamer aparece como aletheia. Entretanto, ao contrário de Heidegger, para quem aletheia é clareira e des-velamento (expressões cercadas por um halo impreciso14), em Verdade e Método, a verdade traduz-se literalmente como "des-esquecimento".
Explico-me.
Palavra grega composta pelo prefixo de negação "a" agregado ao substantivo léthe (esquecimento), aletheia é a negação do esquecimento. Ela sugere a habilidade de avançar na contra mão da correnteza do rio dos mortos, o Lethes, desfazendo os caminhos do apagamento da memória. Seu sentido, portanto, não é o de ser subitamente assaltado por uma lembrança. Mas envolve o lento e trabalhoso esforço de "des-esquecer", isto é, o esforço de contrariar o fluxo temporal para resgatar do reino dos esquecidos todos os que merecem e devem ser recordados (entendido aqui também na acepção de acordados, despertados). Para Gadamer, a aletheia descreve a trajetória em que a anamnese se desfia. Porém, longe de ser uma faculdade anímica ou metafísica (tal como em Platão15), esse percurso realiza-se efetivamente em um continuum histórico como linguagem transmitida temporalmente que validou, confirmando ou rejeitando, os diversos esforços compartilhados pelos homens para viver-compreender a realidade do mundo. Quer dizer, ela se expressa como história, tempo, tradição. E exatamente por isso é senhora de várias moradas, pois conheceu no tempo as múltiplas formas do seu ser.
2.
Embora recusasse atribuir estatuto científico metódico à compreensão hermenêutica, Gadamer não se aproximou de qualquer forma de anarquismo metodológico.16 Antes, o fundamento dessa recusa repousa sobre um postulado de matriz historicista e fenomenológica que inscreve o fenômeno da compreensão no mundo da vida e nas experiências ordinárias que os homens normalmente travam entre si.17 Para o autor, a compreensão não envolve nenhuma forma de crítica à razão pura, prática ou histórica e, nesse sentido, também não exige uma teoria do conhecer (uma epistemologia) simplesmente porque consiste em um fenômeno existencial. Ou melhor, nossos esforços compreensivos não se estabelecem ou são fundados pela contemplação teorética, mas estão já e sempre dados como gestos mundanos (entenda-se: ordinários, comuns, cotidianos) do ser-no-mundo. Para Gadamer trata-se de visão comum à sua linhagem de pensadores , viver e compreender são uma e a mesma coisa. O que significa que o chamado mundo (ou a realidade) não consiste em um princípio envolvente, tal qual um continente inclusivo repleto de conteúdos animados ou inertes. Pois, a despeito da tangibilidade dos seus seres e haveres, a realidade do mundo é constituída dialógica e temporalmente. Em outras palavras, antes de ser um pólo objetal anteposto a sujeitos contemplativos, o mundo resulta dos esforços compartilhados, interativos e auto-interpretativos (hermenêuticos) dos seus agentes constituintes. Ele não se exibe simplesmente como um agregado caótico de entes substantivos, mas revela-se e é laboriosamente construído em uma espécie de contrato ontológico perenemente negociado18 que, ao predicar suas propriedades através de um acordo conflituoso que distingue o certo e o errado, o falso e o verdadeiro, o meu e o teu, o bem e o mal, a obediência e o mando, o sujo e o limpo etc. , define e estabelece tudo aquilo que é.
Ainda que tenha sido Heidegger quem fixou os aspectos existenciais desse entendimento,19 os ecos da indissociabilidade entre ser e pensar já se encontravam na radical historicidade do espírito da filosofia de Hegel (a rigor, residem em Parmênides, mas agora não é necessário ir tão longe) e permanecem nas noções de mundo da vida formuladas por Dilthey20 e Husserl21 também. Embora esses dois últimos estivessem às voltas com os problemas da objetividade científica; e cada um a seu modo tentasse estabelecer as possibilidades de os homens emitirem juízos objetivos e verdadeiros quer numa crítica da razão histórica quer através da intencionalidade da consciência. Entretanto, mesmo que Gadamer, seguindo os passos da ontologia de Heidegger, marcasse a distância entre a sua hermenêutica filosófica e o problema da compreensão tal como apareceu no historicismo ou na fenomenologia, convém não subestimar a forte continuidade existente entre todos eles.22 Afinal, essa marcação de distância teórica não era unilateral, pois tanto revelava familiaridade quanto (exatamente por isso23) retraçava os vínculos históricos da tradição intelectual a qual Gadamer pertencia.24
Tais vínculos são observáveis no próprio título de sua obra. A princípio intitulada apenas de Linhas fundamentais de uma hermenêutica filosófica, Verdade e Método ganhou seu nome final por sugestão do editor que tentava conciliar uma alusão à Poesia e Verdade (1811), a última publicação de Johann Wolfgang Von Goethe, com a tradição hermenêutica. Gadamer chegou a ventilar a possibilidade de Entender e Acontecer,25 mas desistiu em favor de claramente inscrever seu livro numa tradição consagrada embora aí, insisto, também houvesse ruptura e estranheza. Sua opção agregou ao título uma série de efeitos sutis, porém notáveis. Primeiro, a dualidade e a sonoridade dos nomes confirmavam a sugestão contida na publicação de Goethe. Poesia encerra uma expressão da verdade26 e consiste numa manifestação do espírito que reúne, condensando, os territórios da arte e da linguagem (ambos respectivamente explorados na primeira e na ultima parte de Verdade e Método). Depois, mesmo tendo sido deixada no subtítulo, a expressão "fundamentos de uma hermenêutica" resgatava, ou como prefere Grondin, provocava,27 o antigo legado de exegese bíblica, jurídica ou filológica uma tradição de sabedoria compreensiva para qual o autor pretendia retornar. E por fim, desconcertantemente, a palavra "método" se de um lado era alusiva aos domínios da ciência (território contemplado na segunda parte do livro), de outro, também remetia diretamente aos escritos de Schleiermacher que tentaram converter a antiga tradição hermenêutica em um sistema universal e abstrato de regras para a correta compreensão.28 E esse era justamente o pomo da discórdia.
Se isso fez a alegria de grande parte dos seus comentadores, também resultou numa fortuna crítica marcada pela reiterada exigência de ajustes e esclarecimentos. E Gadamer não fugiu às admoestações dos seus leitores. (A bem da verdade, o público só saiu ganhando, pois ele nos brindou com uma coleção de pequenos e densos ensaios explicativos de sua hermenêutica filosófica). Mas, a despeito da produtividade desses debates, o nome Verdade e Método mantém um atrito surdo face aos seus próprios postulados teóricos.29 Se o compararmos com Ser e Tempo, neste caso, a discrepância é inexistente. Afinal, a tese fundamental desta obra sustenta firmemente a cópula enunciada pelo título. Quer dizer: em Heidegger, ser é tempo. Raciocínio cuja analogia não se aplicaria ao entendimento da hermenêutica gadameriana. Porque, a rigor, nem o método é caminho, fundamento ou morada da verdade; nem verdade consiste num substantivo feminino singular que guarda clara e inequívoca unidade de sentido.
3.
Breve e resumidamente, o argumento central de Verdade e Método postula que o problema da compreensão hermenêutica radica na faticidade do dasein30 isto é, reside no mundo da vida e, portanto, precede ao solilóquio de uma consciência pura ensimesmada. Nesse sentido, ao contrário do que disseram todas as modernas filosofias da consciência (leia-se: Descartes, Kant, Hegel, Dilthey, Husserl), os esforços cognitivos que fundamentam a inteligência compreensiva dispensam a exigência de uma incursão teorética de natureza epistemológica para repousar na própria experiência mundana, ou se o leitor preferir: na realidade histórica, na experiência, no tempo, na tradição.
Em outras palavras, a hermenêutica gadameriana rejeita a pretensão de verdade contida no método científico porque entende que a consciência subjetiva não é o fiat inaugural da empresa cognoscente.31 Quer dizer, não existe um cogito absoluto ou uma razão transcendental que, instalados como princípios primeiros da inteligibilidade do mundo, ou declara "penso, logo existo";32 ou estabelece a crítica aos limites da razão para, a priori da experiência, definir todas as condições de possibilidade do conhecer, do juízo estético ou do agir moralmente orientado. Para Gadamer, essas atitudes teóricas são insuficientes como fundamentos da inteligência compreensiva, pois, na medida em que desconhecem a historicidade da consciência e (pior ainda) ignoram o caráter histórico das suas próprias incursões epistêmicas, acabam promovendo uma fuga metafísica que imagina ser capaz de se despojar dos apelos da realidade e da tradição, desenraizando a consciência do mundo.
Expressão do vínculo (mas guardião da distância) entre sujeito e objeto do conhecimento, o método científico não foi somente uma fórmula eficaz que a modernidade encontrou para enfrentar o ceticismo assegurando indubitabilidade aos nossos juízos. No limite, sua assertividade repousa sobre um insulamento da consciência que, ao encapsular a subjetividade num suposto reino de pureza e controle procedimental, também promoveu um divórcio da realidade. Para os teóricos das ciências do espírito que pretenderam aplicar este modelo de método e objetividade na observação do mundo da mobilidade histórica mundo que, desde a Ciência Nova (1744) de Vico, passou a ser positivamente considerado como reino da transitoriedade temporal habitado por sujeitos inteligentes e livres e, portanto, ontologicamente idênticos aos seus observadores33 , tal ensimesmamento cognitivo resultou em fecundos, mas inconclusos debates epistemológicos.34 Perplexos, neokantianos e historicistas não apenas se enredaram numa aporia que indagava sobre as condições de possibilidade da compreensão da alteridade temporal Como compreender a singularidade do passado, considerando que sua dessemelhança pode tornar-se um interdito a tal pretensão de conhecimento? como também acentuaram o insulamento solipsista. E isso porque sugeriram que o conhecimento da história consistia em um encontro entre dois sujeitos singulares, isto é, um diálogo compreensivo entre duas consciências ímpares, separadas por um abismo temporal e igualmente prisioneiras dos seus respectivos e distintos mundos históricos. (As biografias de indivíduos extraordinários expressam a produção historiográfica desta concepção de História).
Concorrendo com o ideal científico metódico, que exigia um sujeito cognoscente capaz de contrição moral-intelectual visando despojar-se dos apelos mundanos, a moderna concepção de tempo como linearidade ordenada causalmente através de unidades temporais sucessivas e discretas espécie de fila indiana que organiza sequencialmente passado, presente, futuro conduziu a uma crescente percepção (e autoconsciência) da finitude dos períodos históricos e converteu o diálogo entre as épocas numa façanha quase inexeqüível. É importante observar, contudo, que tais alterações cognitivas não foram apenas e meramente coincidentes. Apesar de impremeditadas, elas convergiram para formar o imaginário e a constelação intelectual da modernidade35 tanto porque configuraram como uma nova percepção da experiência temporal (Koselleck vai falar em crise da história magistra vitae e "inversão do horizonte das expectativas temporais"36) quanto porque, reagindo a essa novidade histórica, formularam uma teoria do conhecimento que se adequava e correspondia às propriedades ônticas dessa realidade temporalmente fragmentada, confirmando-lhe a visão de mundo.
Convém esclarecer, porém, que nem de longe pretendo sugerir qualquer dialética entre pensamento filosófico "em seu" contexto histórico. Repito: Verdade e Método rejeita o dualismo consciência e realidade que alimenta a oposição entre pensar e ser.37 E não obstante possa ser aproximada da sociologia do conhecimento tal como concebida por Karl Mannheim (1893- 1947) de resto, autor que compartilha das mesmas matrizes teóricas que Gadamer38 , aquilo que a démarche gadameriana analisa teoricamente, narra historicamente e expressa teticamente é o jogo39 através do qual uma "tradição de experiência pensante" 40constituiu a realidade do mundo dos homens.
Nesse registro, as visões do triunfalismo iluminista e do saudosismo romântico foram similares. Invertidamente, eram sócios da mesma filosofia da História41 que, ora por progresso ora por decadência, confirmava o aprofundamento da distância temporal. E uma vez que esse fosso passou a ser valorizado como diversidade e singularidade histórica "todas as épocas estão próximas de Deus", para lembrar a máxima de Ranke também foi alargado a despeito e por causa da "docilidade compreensiva" do histori- cismo.42 Em outras palavras, as teorizações sobre os esforços simpáticos, filológicos ou psicológicos necessários para que o intérprete ultrapassasse sua própria historicidade e compreendesse o passado não passavam de elucubrações metódicas que repousavam justamente sobre a suposição da incomensurabilidade dos tempos, sancionando-a irremediavelmente.
No que diz respeito às ciências do espírito, os passos de Gadamer em Verdade e Método expressam uma reação crítica que dá seqüência histórica, mas dissolve e ultrapassa tais aporias do historicismo. Nesse sentido, ele escreveu:
El tiempo ya no es primariamente un abismo que hubiera de ser salvado porque por sí mismo sería causa de división y lejanía, sino que es en realidad el fundamento que sustenta el acontecer en el que tiene sus raíces el presente. La distancia en el tiempo no es consecuencia algo que tenga que ser superado. Este era más bien el presuposto ingenuo del historicismo: que había que desplazarse al espíritu de la época, pensar en sus conceptos y representaciones en vez de en las propias, y que sólo así podría avanzarse en el sentido de una objetividad histórica. Por el contrario de lo que se trata es de reconocer la distancia en el tiempo como una posibilidad positiva y productiva del comprender. No es un abismo devorador, sino que está cubierto por la continuidad de la procedencia y de la tradición, a cuya luz se nos muestra todo lo transmitido.43
Para além do historicismo com seus problemas metodológicos,44 a consciência hermenêutica entende-se exatamente como aquela que se sabe enraizada na mobilidade da realidade temporal.45 E, no entanto, ao invés de converter tal autoconsciência da sua transitoriedade e do seu próprio engajamento em empecilhos que interditam o reconhecimento da realidade histórica, percebe que é exatamente aí onde se encontram todas as condições de possibilidade para a compreensão do passado.46 Seus pré-conceitos, portanto, são intelectualmente produtivos.47 Eles instalam, constituem e lançam a consciência no mundo. "Uma hermenêutica filosófica, escreveu o autor, haverá de concluir que o compreender só é possível quando aquele que compreende coloca em jogo seus próprios preconceitos. A contribuição produtiva do interprete é parte inalienável do próprio sentido do compreender."48 Nesse sentido, ao invés de macularem a objetividade ou contaminarem a clareza das suas intenções cognoscentes, efetivamente oferecem topoi cognitivos (nos termos de Thomas Kuhn: paradigmas49) e horizontes temporais a partir dos quais se pode visar o passado.50 Em outras palavras, os pré-conceitos são aberturas da realidade histórica51 que inauguram os descaminhos do método hermenêutico52 oferecendo ocasião para o desfiar de uma senda temporal.
4.
Para os historiadores homens e mulheres cujo dever profissional é narrar a verdade dos fatos passados , há importantes impactos envolvidos na hermenêutica gadameriana. Muito antes de resumir uma querela acerca dos protocolos procedimentais daquilo que, ironicamente, se poderia chamar de "regras do método histórico", ela repeliu a pretensão de cientificidade da compreensão e, alterando o atual estatuto epistemológico do conhecimento histórico,53 comparou a História à filosofia prática. Quer dizer, Gadamer aproximou o conhecimento do passado da prhonesis (prudência) juízo prático que reúne as virtudes do homem ponderado, experiente, cauteloso, sensato etc. saber usualmente é necessário para o equilíbrio e a boa condução da vida em comum. Em 1980, refinando as suas já consagradas ambições filosóficas, ele reafirmou: "Tentarei mostrar que a filosofia prática de Aristóteles e não o conceito moderno de método e de ciência representa o único modelo viável para formarmos uma idéia adequada das ciências do espírito."54
Com isso, concedeu ao conhecimento histórico a mesma dignidade humanista que foi paulatinamente esquecida e degradada pelas controvérsias cientificistas e metodológicas. E, insistindo na diferença de ideais cognitivos entre as ciências da natureza e as do espírito, afirmou que "o essencial das 'ciências do espírito' não é a objetividade, mas a relação prévia com o objeto".55 Esse argumento ultrapassa as questões em torno da polarização objetividade versus subjetividade, pois seu principal aspecto, incidindo sobre historicidade da inteligência compreensiva e enfatizando o engajamento mundano do pensar, converte tal pertencimento numa exigência epistêmica, isto é, no ponto zero do conhecimento histórico. Em outras palavras, o fundamento da compreensão reside no pertencimento do intérprete a uma dada tradição, pois, nas ciências do espírito, a participação precede a teoria.56
A História, nesse diapasão, deixa de ser concebida como ciência quiçá como arte ou filosofia e passa a ser aproximada de um tipo de sabedoria mundana que, ao arrepio da contemplação teorética, traduz-se como experiência (ouso dizer, maturidade) e encontra a fonte da sua primazia intelectual na opinião comum (doxa). Gadamer estava às voltas, portanto, com as indagações da tradição filosófica que Aristóteles deslindou na Ética a Nicomaco57 e que, grosso modo, se cingiam a definir a natureza dessa disposição prática. Então, todo o problema consistia em qualificar essa inteligência que: a) não se pretende desinteressada ou axiologicamente neutra, pois embora tenda à universalidade do bem comum, se sabe parte envolvida; b) não é uma ciência (episteme), pois não repousa seus princípios sobre regras abstratas universais necessárias; c) nem é manifestação artística, uma vez que visa a ação. Virtude intelectual,58 a prhonesis é a habilidade que permite julgar, discernir, calcular e escolher os justos meios para a realização da ação correta. Ela é o traço que distingue e valoriza o homem que, na premência da decisão, é capaz de identificar e fazer a coisa certa.
Muito bem. Quando Gadamer evocou a Aristóteles, aproximando o conhecimento histórico dessa forma de inteligência prática, tanto apontava para uma revalorização do caráter civilizacional dos saberes da História quanto aquilatava a importância da responsabilidade intelectual e social do historiador.59 Todavia, também deixava escapar alguns problemas metodológicos bastante embaraçosos.
Considerando que traduz em sabedoria o acervo das experiências de uma vida, a prudência é um tipo de conhecimento incomunicável e intransferível. Singular, ela pertence somente àquele que individualmente e por si mesmo, através de um laborioso e paciente processo de amadurecimento, soube, pôde e quis conquistá-la. Seu conhecimento não é passível de ser transferido e apreendido através de protocolos institucionalizados. Antes, o processo de sua transmissão exige tempo (em todos os sentidos). "É preciso tempo para aceder à prudência: tempo que não permite precipitação, nem mesmo previsão". 60 Quer dizer, não se trata apenas de transferir um cabedal conceitual ou doutrinário a ser assimilado através de exercícios de fixação (tal como na Matemática). Prudência não se ensina; sua transmissão, porém, envolve a repetição da experimentação da vivencia em um processo de aprendizagem intransferível de formação (bildung) do costume entenda-se: hábito, estilo, caráter.
A metodologia científica não conhece esses embaraços. Sistematizada num conjunto de regras protocolares, ela é formal e facilmente transmitida. Isso a torna cognitivamente democrática embora esta grandeza seja também a sua miséria (fato que não passou despercebido por Dilthey61).
Em Verdade e Método, Gadamer não pretende insinuar qualquer apreço esnobe ou aristocrático pelo saber da História. Ao contrário. Afinal, ao confundir o conhecimento do passado com a sabedoria prudencial, nos fez pensar que ambos (ao invés de exigirem cálculo procedimental) consistem em, demandam por, transmitem-se através e finalmente expressam o processo dialógico e temporal que conforma a cultura de uma tradição. Como a prudência, a História não requer método. Ambas descrevem os descaminhos do tempo que cada nova geração deve aprender a "des-esquecer".
Referências bibliográficas
a) Hans-Georg GADAMER
b) Demais autores
c) Imagens de Gadamer:
Disponíveis em: http://www.wenzel-orf.de/html/gadamer.html (último acesso: jan / 2006)
Artigo recebido em 04/08/2005. Autor convidado.
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