Open-access Que História Pública fazemos? Reflexões teóricas, metodologias de pesquisa e institucionalização da História Pública brasileira no Programa de Pós-Graduação em História Pública da Universidade Estadual do Paraná, campus de Campo Mourão (UNESPAR)

What Kind of Public History Do We Do? Theoretical Reflections, Research Methodologies and Institutionalization of Brazilian Public History in the Postgraduate Program in Public History at the State University of Paraná, Campo Mourão (UNESPAR)

RESUMO

O artigo examina criticamente o processo de ascensão da História Pública no Brasil, especialmente, na sua forma acadêmica e institucionalizada, a partir das publicações da Rede Brasileira de História Pública, cujos pesquisadores assumiram certo protagonismo na constituição do campo, ao dialogarem com autores estrangeiros e promover publicações que acabaram se constituindo em reflexões teóricas e metodológicas importantes para uma operação historiográfica em História Pública no país. Em seguida, apresenta o Programa de Pós-graduação em História Pública da Universidade Estadual do Paraná (PPGHP/UNESPAR), único dedicado exclusivamente ao tema, com aprofundamento da análise por meio de um mapeamento teórico e metodológico de 14 dissertações defendidas no programa entre 2021 e 2024, nas quais a articulação entre História Pública e História Oral ocupa lugar central. Parte-se do pressuposto de que as obras RBHP exerceram papel importante na formulação de referenciais teóricos e metodológicos que orientaram a prática historiográfica institucionalizada no programa, especialmente, nas pesquisas que articulam História Pública e História Oral. Conclui-se que, apesar do avanço em termos de práticas, institucionalização e visibilidade social, a História Pública brasileira ainda apresenta limites teóricos e metodológicos, o que torna necessário o aprofundamento conceitual para consolidar o campo como prática historiográfica no Brasil.

PALAVRAS-CHAVE:
teoria; história pública; história oral

ABSTRACT

The article critically examines the rise of Public History in Brazil, especially in its academic and institutionalized form, based on publications by the Brazilian Public History Network, whose researchers played a leading role in establishing the field by engaging in dialogue with foreign authors and promoting publications that ultimately became important theoretical and methodological reflections for historiographical work in Public History in the country. It then presents the Graduate Program in Public History at the State University of Paraná (PPGHP/UNESPAR), the only one dedicated exclusively to the theme, with an in-depth analysis through a theoretical and methodological mapping of 14 dissertations defended in the program between 2021 and 2024, in which the articulation between Public History and Oral History occupies a central place. The starting point is the assumption that RBHP works played an important role in the formulation of theoretical and methodological references that guided institutionalized historiographical practice in the program, especially in research that articulates Public History and Oral History. It concludes that, despite advances in terms of practices, institutionalization, and social visibility, Brazilian Public History still has theoretical and methodological limitations, which makes it necessary to deepen the conceptual framework in order to consolidate the field as a historiographical practice in Brazil.

KEYWORDS:
theory; public history; oral history

Que História Pública fazemos? é título provocativo com o qual iniciamos, neste texto, as discussões em torno das relações entre História, público e academia, notabilizadas pela existência de inúmeras manifestações públicas da História. Temos observado, no Brasil das últimas duas décadas, aumento significativo das relações entre essas três esferas. Se, até a primeira década do século XXI, os historiadores estiveram trabalhando tranquilamente em seus gabinetes, nas suas “torres de marfim”, como afirma Johnson (Cauvin, 2019, p. 10), é necessário reconhecermos que um movimento de múltiplas dimensões redimensionou tais relações, a partir do início da segunda década deste século.

Por um lado, observamos forte incremento do interesse da sociedade por História, evidenciado por meio de programas de TV, documentários, séries, filmes e portais virtuais com temática histórica, e, por outro lado, a criação da Comissão Nacional da Verdade, que funcionou entre 2012 a 2014, e a ascensão da extrema direita no país que chegou ao poder, em 2019, veio acompanhada de debates em torno do passado, bem como de práticas de revisionismos e negacionismos históricos antes raramente observáveis na esfera pública brasileira (Oliveira, 2023). A manipulação do passado histórico brasileiro com objetivos políticos é sintomática na atuação do site Brasil Paralelo (Santos; Miranda, 2020). Temas como a escravidão e a ditadura militar foram de especial interesse, fosse para a negação da violência do sistema escravista e de seus desdobramentos ainda vigentes no tempo presente, fosse para o enaltecimento do período ditatorial com o objetivo de fortalecer práticas antidemocráticas que culminaram na frustrada tentativa de golpe de Estado no final de 2022 e início de 2023.

E, ainda, a regulamentação da profissão do historiador, em 2020, por meio da lei nº 14.114/2020, depois de anos de luta e anseio da comunidade historiadora do país, foi um passo importante para que esse profissional se aproximasse das demandas da sociedade pelo conhecimento histórico, por meio das principais atribuições dessa profissão no país, entre elas, o ensino, a pesquisa histórica, os serviços de documentação e informação histórica e o trabalho de elaboração de pareceres, relatórios, planos e projetos de temas históricos (Brasil, 2020). Diante desse cenário complexo, é inegável, portanto, que a História se tornou relevante ao debate público brasileiro, seja por entretenimento, seja por fins políticos ou profissionais.

Na esfera acadêmica, coincidentemente, é também nesse contexto que observamos a ascensão de um novo campo historiográfico (Santhiago, 2018) no cenário acadêmico brasileiro, marcada pela relação da História com os diferentes agentes da sociedade, com forte ênfase no espírito público, na divulgação do conhecimento histórico, na dialogicidade e no caráter participativo do público nas questões históricas. A História Pública (doravante HP) brasileira, que emerge nesse período, é entendida como um amplo movimento e um espaço de experimentação e de debate, ultrapassando a noção de campo. Nesse sentido, a HP, no Brasil, tem sido conceituada como um movimento acadêmico de autorreflexividade, pautado no caráter polissêmico do termo que compreende o fazer, o pensar e o próprio campo da HP no país (Santhiago, 2018).

Apesar de recente no Brasil, as questões que envolvem a HP, dentro e fora da academia, têm manifestações no plano internacional bem mais longínquas; quando se considera a função pública dos historiadores, esse início pode ser colocado nos humanistas italianos do século XV, sendo a profissionalização do historiador e o advento da História Ciência, no século XIX, as responsáveis pelo afastamento dos historiadores da sociedade (Cauvin, 2019). A reaproximação se dará, entretanto, a partir dos anos 1970, de início, nos Estados Unidos, e mais tarde, nas décadas seguintes, em países da Europa, Austrália, entre outros, com o processo de institucionalização da HP dentro e fora das universidades, originando, desde então, debates teóricos acerca de como pode ocorrer a cooperação entre historiadores acadêmicos e públicos, com autores do campo defendendo que a investigação histórica acadêmica é parte imprescindível da HP (Cauvin, 2019, p. 22).

A nível internacional, as discussões conceituais, teóricas e metodológicas acerca da HP estão bastante desenvolvidas, em que pesem, ainda, debates ou mesmo dificuldades de definição de o que seja HP e de como se realiza esse tipo de pesquisa historiográfica (Cauvin, 2020; Fagundes, 2019). No caso brasileiro, observa-se que o processo de constituição dessas reflexões vem fortemente amparado por esses debates internacionais, com os pesquisadores brasileiros participando de interlocuções com pesquisadores internacionais, mas também, pode-se observar um processo em que reflexões conceituais, teóricas e metodológicas são apropriadas e disseminadas por esses pesquisadores por meio de publicações e eventos acadêmicos.

Nesse sentido, apontamos que os marcos iniciais da HP como um campo de pesquisas acadêmicas de forma institucionalizada nas universidades brasileiras estão situados na segunda década do século XXI, paralelamente aos fatos descritos acima e com fortes conexões com eles, com um claro auto protagonismo de um conjunto específico de pesquisadores que assumem postura proativa na área. Com efeito, o ano de 2011 foi um momento determinante, com a realização do Curso de Introdução à História Pública, na Universidade de São Paulo (USP), primeiro do gênero no Brasil. No ano seguinte, realizou-se, na mesma universidade, o primeiro Simpósio Internacional de História Pública, e, como resultado direto, observa-se a criação da Rede Brasileira de História Pública (doravante RBHP), ainda em 2012. Desde então, foram organizados simpósios, cursos, eventos e publicações de livros e artigos que ajudaram a desenvolver e substanciar as discussões teóricas e metodológicas em torno do fazer historiográfico em HP no país, ultrapassando o caráter de divulgação histórica, normalmente associado a essa modalidade. O processo de fomento da HP brasileira ganha corpo e se torna prática historiográfica institucionalizada com a criação do Programa de Pós-graduação em História Pública, nível mestrado, ligado ao Colegiado de História da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), campus de Campo Mourão (doravante PPGHP), no ano de 2019, único curso de mestrado acadêmico do país nessa modalidade.

Contudo, cabe destacar que essas iniciativas, apesar de seu ineditismo e de certo auto protagonismo das mesmas por parte da RBHP, não são as únicas e outras ações de institucionalização da HP ocorreram nos últimos anos, entre elas, destaca-se o Laboratório de História Pública e Patrimônio Cultural (LABHPAC) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), laboratório que nasceu em torno de questões em torno da História do Tempo Presente e do Patrimônio Cultural, mas que, desde 2017, voltou suas atenções à HP, tendo sua denominação e seu escopo alterado em 2023, para incluir, de forma definitiva, a HP, passando a explorar e problematizar os vínculos entre patrimônio cultural e HP.1 A Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL) é outra instituição a manter um Programa de Extensão Laboratório de História Pública, criado em 2019, e voltado a fomentar uma formação acadêmica em HP por meio de ações de ensino, pesquisa e extensão.2 Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o Laboratório de Pesquisa em Imagem e Som, existente desde 2007, voltou suas atenções para a HP, a partir de 2017, com a intenção de quebrar barreiras entre a academia e a sociedade em torno do saber histórico.3

Importa ressaltar que, em âmbito nacional, práticas e reflexões associadas à História Pública, como a divulgação e a ampliação do público, existiam muito antes da consolidação do campo no Brasil, durante a década de 2010. Por exemplo, no século XIX, antes da existência de cursos de História no país, a imprensa funcionava como espaço de atuação para historiadores, que escreviam colunas, memoriais, obituários, análises políticas, relatos de viagens e publicação de fascículos. Paralelamente, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) também se destacou em iniciativas de divulgação histórica, como concursos, publicações na imprensa, revistas e reuniões.

De acordo com Carvalho e Teixeira (2019), no século XX, a divulgação histórica ganhou força com a modernização do mercado editorial. Em 1925, Monteiro Lobato e Marcondes Ferreira fundaram a Companhia Editora Nacional, que, em 1931, lançou a coleção Brasiliana, responsável por mais de 400 obras publicadas até 1993. A coleção reuniu autores da História e da Ciências Sociais do Brasil, como Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, mas seu impacto foi além do conteúdo: a editora inovou no mercado ao investir em qualidade gráfica, capas coloridas e ilustrações renomadas, tornando os livros mais atraentes ao público.

Até a década de 1990, surgiram várias outras coleções nas quais os historiadores estiveram presentes, difundindo suas ideias e formando leitores. Além do mercado editorial, não podemos desconsiderar o papel que tiveram os museus históricos neste século, com destaque para o Museu Imperial e para o Museu Histórico Nacional. No período de 1920 a 1960, eles refletiram as grandes transformações da historiografia e da museologia, oferecendo ao público uma representação da história que ia da exaltação dos heróis e de mitos fundadores da nação, até uma visão mais crítica e questionadora quanto ao passado nacional, em sintonia com as mudanças no campo historiográfico internacional.

Mais recentemente, podemos destacar o sucesso da Revista de História da Biblioteca Nacional, entre 2003 a 2015. Distribuída em escolas, vendida em bancas de jornal em todo o país, coordenada por um historiador e com um conselho editorial que reunia os grandes nomes da historiografia nacional, a revista foi o principal meio de divulgação de História para o grande público. Inspirou outras publicações segmentadas na área de História e abriu caminho para que os historiadores estivessem mais presentes em jornais e revistas não especializadas. Como nos lembra Cauvin (2019), a ascensão da História Pública deriva, em parte, de práticas já consolidadas há muito tempo (divulgação e ampliação dos públicos). Um campo teórico novo com práticas antigas: esse é o paradoxo sobre o qual se sustenta esse campo.

No que diz respeito ao foco desse trabalho, concentrado nos trabalhos da RBHP e no PPGHP da UNESPAR, embora possamos perceber certa desarticulação política entre o surgimento e o posterior desenvolvimento da RBHP e o PPGHP, denotada pela quase completa ausência de participação dos docentes do Mestrado em HP nas atividades da Rede e nas publicações a ela ligadas, o fato é que existe forte correlação entre as reflexões teóricas promovidas pelos historiadores ligados à RBHP, por meio das interlocuções com autores estrangeiros, e as pesquisas em HP realizadas no PPGHP, pois tais reflexões formam as bases que dão sustentação teórica e metodológica à maior parte das dissertações defendidas no programa, sobretudo, quando consideramos os trabalhos ligados à confluência entre HP e História Oral (doravante HO).

Antes de seguirmos, uma diferenciação entre a HO e a HP se faz necessária. Compreendemos que a HO é uma metodologia de pesquisa que se dedica a produzir e analisar fontes orais, registrando memórias e experiências de indivíduos e grupos, muitas vezes ausentes nos documentos escritos, com regras próprias de coleta, transcrição e interpretação (Meihy; Holanda, 2015). A História Pública, por sua vez, pode ser entendida como um campo de atuação e reflexão que busca ampliar a circulação social da história, promovendo o diálogo entre historiadores e diferentes públicos, seja em museus, mídias, arquivos, produções culturais ou projetos comunitários (Liddington, 2011). Enquanto a primeira se configura como um método específico de investigação, a segunda envolve práticas mais amplas, voltadas ao uso social do conhecimento histórico. Ainda assim, ambas podem se articular, pois projetos de HO frequentemente se inserem em iniciativas de HP quando priorizam a participação das comunidades e a devolução dos resultados à sociedade, enquanto que a metodologia da HO também é frequentemente empregada na HP, como se verá adiante.

O artigo que ora apresentamos objetiva esmiuçar, em linhas gerais, algumas das reflexões teóricas e metodológicas promovidas pela RBHP, por meio de suas publicações, e analisar os desdobramentos de tais reflexões na produção historiográfica do PPGHP, em específico, por meio da análise das dissertações defendidas no programa, tendo como tema central a confluência entre HP e HO. Procuramos mostrar, por meio desta análise, que tais reflexões fornecem as bases teóricas e metodológicas da produção institucionalizada em HP no PPGHP da UNESPAR.

Para tanto, o artigo está dividido em três seções. Na primeira, analisaremos alguns dos livros publicados pela RBHP, entre 2011 a 2024, no intuito de demonstrar os caminhos teóricos e metodológicos que essas obras estabeleceram para a HP brasileira, destacando seus avanços e seus limites. Na segunda seção, realizaremos um histórico e caracterização do PPGHP, suas linhas de pesquisa, seus principais campos de atuação, suas metodologias e temas investigados no âmbito do programa, com análises quantitativas. Na terceira e última seção, o artigo volta-se a um exame das práticas historiográficas na confluência entre HP e HO, por meio da investigação em torno de 14 dissertações defendidas no Programa, entre 2021 e 2024.

REFLEXÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS DA HISTÓRIA PÚBLICA NO BRASIL

O processo de constituição de um campo de reflexões em torno da HP no Brasil teve, na publicação de livros ligados aos pesquisadores da RBHP, caracteres, a nosso ver, políticos e teóricos. Politicamente, a publicação de 11 livros em sequência, entre 2011 a 2024, organizados, em sua maioria, por esses pesquisadores acadêmicos associados à Rede e publicados pela mesma editora, a Letra e Voz, pode ser vista como um movimento de tomada de posição no campo acadêmico brasileiro no sentido de demarcação e estabelecimento de espaços para a HP no país (Bourdieu, 2004). Se, antes de 2011, praticamente não havia publicações dessa natureza no Brasil, nessa década, podemos afirmar que se constituiu um corpo de publicações que estabeleceram a HP brasileira como um movimento historiográfico fortemente enraizado na academia (Almeida; Rodrigues, 2021).

O processo de constituição de um espaço de reflexões em torno da HP no Brasil, levado a cabo por historiadores profissionais com posições acadêmicas, faz com que tais reflexões assumam uma conotação teórica e metodológica, isto é, relativa às questões em torno desse conhecimento histórico específico. Diante disso, entendemos que as publicações da RBHP contribuíram para a configuração de uma operação historiográfica em História Pública. Com efeito, Michel de Certeau conceitua o processo de escrita da História como uma operação historiográfica que congrega três aspectos centrais, o lugar, as práticas e o texto historiográfico. Assim, o lugar refere-se ao espaço acadêmico onde a operação é realizada, notadamente, nas universidades, sendo que o lugar determina as práticas de pesquisa empregadas nessa operação, nos seus aspectos teóricos e metodológicos, tendo, por fim, como resultado, o texto historiográfico (Certeau, 2002).

Essa observação é amparada no fato de que as publicações da Rede, algumas das quais analisaremos a seguir, não só demarcam esse processo político dentro da academia, da historiografia e da sociedade brasileira, como também vão configurando discussões teóricas e metodológicas fundamentais para fazer da HP uma operação historiográfica. Assim, na análise a seguir, chamaremos a atenção para esse processo, focalizando as questões teóricas e metodológicas que estão se configurando dentro do processo político da constituição acadêmica da HP brasileira. Esse objetivo é fundamental para que possamos analisar os caminhos teóricos e metodológicos da produção do PPGHP da Unespar como um lugar de produção, que têm, nas publicações da Rede, algumas de suas principais referências, permitindo, por fim, que analisemos os textos historiográficos produzidos nesse processo, discutidos na última seção desse artigo.

O primeiro volume dessa série, publicado em 2011, organizado por Juniele Rabêlo de Almeida e Marta Gouveia de Oliveira Rovai, ambas participantes do primeiro Curso de Introdução à História Pública, realizado em 2011, e fundadoras da RBHP, fundada no ano seguinte, tem como título Introdução à História Pública. A obra, talvez a primeira publicação do gênero no país, reúne textos de natureza teórica com autores estrangeiros tais como Jill Liddington, Gerald Zahavi e James Reap, que buscam apresentar definições para a HP em debates globais em torno das relações entre HP, ensino de História e Patrimônio, mas também traz textos que estabelecem forte vinculação da HP com a HO, bem como se dedica a tornar públicas experiências de pesquisa em HP tratando de história empresarial, arquivos, divulgação, cinema e educação, entre outros (Almeida; Rovai, 2011).

Logo nas primeiras linhas da apresentação do livro, as autoras indicam ser a HP não apenas uma possibilidade de conservação e divulgação, mas, sobretudo, de “construção de um conhecimento pluridisciplinar atentos aos processos de mudanças e tensões” e que, em um esforço colaborativo, “pode valorizar o passado para além da academia”, democratizando o saber histórico sem perder a “seriedade ou poder de análise”, propondo, ao fim, que a HP pode ser um ato de “abrir portas e não de construir muros” (Almeida; Rovai, 2011, p. 7). Nesse sentido, a abertura de portas aludida pelas autoras indica o papel que a História acadêmica pode exercer na manutenção da seriedade e no poder de análise da HP, pois as autoras entendem, após relatos das experiências estrangeiras na área, que a HP pode ser um novo caminho de “conhecimento e prática, de como se fazer história” na colaboração com a sociedade em torno da reflexão sobre sua própria História, fazendo “o passado útil ao presente” (Almeida; Rovai, 2011, p. 8).

O segundo livro publicado em torno da HP no Brasil veio à tona no ano de 2016, com o título História Pública no Brasil: sentidos e itinerários, de organização de Ana Maria Mauad, Juniele Rabêlo de Almeida e Ricardo Santhiago. Nesse hiato temporal entre a publicação do primeiro e do segundo livro, ocorrera o 1º Simpósio Internacional de História Pública, evento realizado na USP e organizado pelos organizadores do livro, juntamente com a participação de Márcia Regina Bastos da Silva. Foi nesse evento que se observou a criação da RBHP, em 2012. Em 2014, foram realizados o 2º Simpósio Internacional e, em 2016, o terceiro desses eventos, hoje na sua quinta edição, realizada em 2024. A realização dos eventos, juntamente com a criação da Rede e a publicação desses volumes pelos mesmos atores, indica clara articulação para o estabelecimento da HP no campo acadêmico brasileiro (Mauad; Almeida; Santhiago, 2016).

Esse volume, em especial, é visto, por nós, como uma efetiva tomada de posição, não apenas política, mas teórica e metodológica. Além do fato de trazer 23 capítulos em variadas temáticas, indo desde discussões sobre HP e criação artística, incluindo HP e comunicações, educação e ensino de História, políticas públicas e culturais, debates em torno do espaço público e a construção de histórias, discutindo, por exemplo, a construção de arquivos, exposições e atuação de intelectuais no mundo político, é a primeira parte do volume, intitulada como questões gerais, a mais significativa no que diz respeito às questões teóricas da HP, pois são publicados cinco capítulos que se tornarão referência constante na produção de dissertações do PPGHP na confluência entre HP e HO.

O primeiro desses textos, assinado por Ricardo Santhiago, apresenta uma tipologia de formas assumidas pela HP, que é uma apresentação da redefinição da HP norte-americana, proposta inicialmente por Knevel (Cauvin, 2019, p. 21) e articulada em três tipos de HP, com acréscimo de um quarto tipo por Santhiago. Segundo o autor, essa tipologia por ele disseminada no Brasil parte de reflexões em torno das literaturas nacional e internacional sobre o tema e de reflexões propiciadas pela institucionalização da HP brasileira. Entendendo essa tipologia para a HP como área de estudo e ação, e indicando que esta enseja mudanças em todo o processo de pesquisa, as quatro formas de engajamento com a HP são a história feita com o público, a história feita pelo público, a história para o público e a história e público, esta última conectada à reflexividade e autorreflexividade do campo em HP e acrescentada pelo autor a partir da interlocução com a tipologia de Knevel (Santhiago, 2016, p. 28).

Muito embora o autor reconheça que a disseminação dessa tipologia não tivesse intenção de criar modalidades historiográficas para a HP (Carvalho Neto; Silva; Fernandes, 2020, p. 305), o fato é que essa classificação de formas de HP tornou-se referência importante para o PPGHP, na tentativa de conceituar as práticas de pesquisa realizadas no âmbito do programa, sendo citada pela quase totalidade das dissertações analisadas na terceira seção deste artigo, sobretudo, no que diz respeito à noção de produzir HP com o público, em trabalhos que utilizam a metodologia da HO, e para o público, quando a pesquisa visa à divulgação de seus resultados fora do ambiente acadêmico.

A ideia de produzir HP com o público e pelo público terá, na metodologia da HO, espaço privilegiado. Para tanto, a noção de “autoridade compartilhada” será constantemente mobilizada nas dissertações do PPGHP como justificativa teórica para subsidiar a produção da HP pelo historiador público com seus públicos. A noção defendida pelo historiador estadunidense Michael Frisch, em capítulo publicado na seção ora em análise, defende que os historiadores estabeleçam um diálogo genuíno com seus públicos no processo de escrita da HP, superando a noção de que apenas os historiadores têm autoridade para pesquisar, analisar e escrever sobre o passado (Frisch, 2016). Nesse sentido, apontamos que, indiretamente, as publicações da RBHP aqui em análise acabaram por conformar modelos teórico-metodológicos para a escrita da HP institucionalizada no PPGHP.

Esse movimento de reflexão teórica e metodológica que reverberará no PPGHP da Unespar continua nesse volume em apreço, com destaque para o capítulo assinado por Renata Schittino: O conceito de público e o compartilhamento da história, em que a autora busca conceituar o que é público a partir dos estudos de Hannah Arendt e Jürgen Habermas, entendendo, a partir dessas referências, a HP como uma possibilidade de “compartilhamento de um mundo comum” em que a HP e a história acadêmica não se colocarão em campos opostos, mas em um mundo comum de múltiplas formas de diálogo (Schittino, 2016, p. 45-46). Ainda nessa seção do livro, destacamos dois capítulos vinculados à relação da HP com a HO, essa “prima-irmã” da HP (Santhiago, 2016, p. 23), em textos assinados por Juniele Rabelo de Almeida e Linda Shopes, e em outra seção do livro, texto assinado por David King Dunaway.

O texto de Almeida, mais citado nas dissertações do PPGHP, com o título: Práticas de história pública: O movimento social e o trabalho da história oral, sugere que, nas diferentes etapas do trabalho em HO, a dialogicidade se faz presente na interpretação do conhecimento histórico, passando pela composição da rede de entrevistados, a apresentação pública da memória, o estabelecimento de arquivos e acervos, bem como as estratégias narrativas mobilizadas nas entrevistas (Almeida, 2016). Shopes segue caminho distinto, mostrando a historicidade dessas duas vertentes, suas convergências, bem como as oportunidades abertas para ambas a partir do aprofundamento dessas relações em HO e HP (Shopes, 2016).

Dois anos depois, em 2018, vem à lume mais um livro organizado pela RBHP, assumido pelos organizadores como verdadeiro “livro-manifesto”, com sugestivo título: Que história pública queremos? Questionamento geral a que os 20 capítulos dispostos no livro organizado por Ana Maria Mauad, Ricardo Santhiago e Viviane Trindade Borges procuram responder em discussões que envolvem profissionalização do historiador, ensino de História, patrimônio histórico, história oral, museus, mídia, revisionismo histórico, temas sensíveis, democracia, entre outros assuntos. Os organizadores saúdam o crescimento da área na agenda da pesquisa e da pós-graduação no país, com clara demonstração de otimismo com suas próprias realizações, mostrando que essa prática no Brasil é múltipla e peculiar, incitando os historiadores a refletirem sobre “seu próprio tempo, sobre a prática historiadora e as implicações do seu métier no mundo social” (Mauad; Santhiago; Borges, 2018, p. 12).

A HP que querem os membros da RBHP, nesse sentido, se pensa como um campo disciplinar que não erija novos limites, mas que “propõe-se como uma plataforma de onde se observam a confluência de atitudes comuns face ao tempo e as temporalidades, disseminadas por diferentes instituições e por meio de tema diversos” (Mauad; Santhiago; Borges, 2018, p. 12). Temos, nesse manifesto, um sensível alargamento das preocupações da HP brasileira, potencializado pela diversidade cultural do país, suas dimensões continentais e as reflexões teóricas sobre o tempo e as temporalidades, que fazem a diversidade de seus temas combativos e difusos.

Nesse sentido, Santhiago se pergunta, em texto que fecha o volume, se podemos falar, naquele momento, de uma HP brasileira. A resposta negativa, surpreendentemente, vem amparada na sensível ampliação das manifestações da HP no Brasil, na sua pluralidade tanto na sua forma acadêmica quanto na sua forma pública (embora essa clivagem não exista formalmente, nós a adotamos à medida que estamos trabalhando apenas sobre a HP acadêmica e institucionalizada), denotada pela polissemia do termo e suas práticas, com o autor a entendendo mais como “um dispositivo capaz de animar a reflexão com consequências práticas, estimulando a revisão e a revitalização dos princípios e práticas do historiador” (Santhiago, 2018, p. 164). Apesar disso, como uma prática plural, a HP brasileira, na sua forma acadêmica, expressa um forte “influxo de um movimento da história pública” na História, chegando a advogar a favor de uma “virada pública” na historiografia brasileira, que só faz a HP se engrandecer; otimismo explícito de um historiador em posição de liderança na RBHP, na organização de suas publicações e nos eventos por ela promovidos.

Esse processo de tomada de posição e demarcação de espaços para a HP no Brasil continua ainda em 2018, quando é publicado outro volume em torno da HP, também pela editora Letra e Voz. Organizado por Juniele Rabêlo de Almeida e Sônia Meneses e intitulado História Pública em Debate: Patrimônio, educação e mediações do passado, o livro se organiza dentro de três seções específicas a cada um dos temas elencados no subtítulo, com um total de 12 capítulos, um prefácio e um posfácio (Almeida; Meneses, 2018). Este último, assinado por Ana Maria Mauad, traz uma análise de samba-enredo, encenado em 2018, pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, que causou bastante polêmica à época por estabelecer relações entre o passado escravocrata do país e acontecimentos do tempo presente acerca da perda de direitos trabalhistas no governo de Michel Temer.

Interessante, nesse pequeno texto, é a mobilização do conceito de “atitude historiadora” para explicar a prática de HP empreendida pela agremiação carnavalesca. O conceito é assim explicitado por Mauad: “a tomada de posse do passado comum como material para dar sentido ao presente e situar-se no fluxo do tempo futuro” (Mauad, Santhiago; Borges, 2018, p. 228). Essa noção de atitude historiadora, que faz do passado um objeto de reflexão e investigação não apenas do historiador, mas do próprio público, será combinada com a noção de história feita pelo público, discutida anteriormente, e será utilizada nas dissertações do PPGHP da Unespar para dar embasamento teórico a pesquisas em que o público é membro atuante no processo de pesquisa.

O ritmo de publicações continua em 2019, com História Pública e divulgação de História (Carvalho; Teixeira, 2019) e, em 2021, com mais três publicações, o História e ensino de história (Hermeto; Ferreira, 2021), o História Pública em movimento (Almeida; Rodrigues, 2021) e o livro História Pública e história do tempo presente (Rodrigues; Borges, 2021). O segundo volume, em especial, é bastante relevante em nossa análise, pois tem tom de celebração dos dez anos das ações e debates promovidos pelos pesquisadores da RBHP, que congrega pesquisadores, profissionais da História e professores do ensino básico e do superior. No texto de apresentação do volume, assinado pelos organizadores, eles não apenas apresentam as temáticas discutidas no livro, cujos capítulos foram pensados e redigidos a partir de dez perguntas catalisadoras, dentro de questões referentes “às discussões, experiências e experimentações sobre os usos do passado e sobre as dimensões públicas da história socialmente vivas”, como realizam um pequeno histórico dos caminhos da HP no Brasil, celebrando os cursos promovidos, a criação da RBHP, as publicações da editora Letra e Voz, ora em análise, listam outras publicações de outras editoras, bem como apresentam dossiês temáticos em periódicos acadêmicos, concluindo que a HP brasileira é marcada por “diversidade teórica-metodológica e temática [...] presente na pluralidade das respostas em uma interlocução horizontal” entre historiadores e públicos (Almeida; Rodrigues, 2021, p. 7).

Dentre os diferentes temas em debate na obra, entre eles negacionismos, desafios profissionais do historiador, história local, história digital e ensino de História, os apresentadores afirmam que as ações da RBHP, sobretudo os eventos promovidos, reverberaram na criação do Mestrado em História Pública da Unespar, criado em 2019, correlação que deve ser mais bem investigada para se confirmar, haja vista a desarticulação política apontada entre a RBHP e o PPGHP, desarticulação esta que parece se enfraquecer nesse período, pois docentes do programa publicam textos no livro em análise e pesquisadores da Rede são convidados a participar de bancas de defesa de pesquisas a partir de 2021, quando as primeiras dissertações do programa são concluídas. Para os apresentadores, a obra é reveladora da potência da HP brasileira, ao abrigar projetos de grande apelo social e político, ao mesmo tempo que as reflexões promovidas têm fomentado articulações “teóricas e metodológicas que dão suporte ao saber executado”, o que nossa análise, na terceira seção deste artigo, poderá vir a confirmar (Almeida; Rodrigues, 2021, p. 15).

No posfácio da mesma obra, assinado por Ricardo Santhiago, o mesmo tom de otimismo com as realizações da RBHP é patente, sobretudo, quando o autor afirma ser a HP instrumento potente contra o negacionismo histórico, abrindo novas possiblidades de documentação, interpretação e difusão da História e de suas histórias, sendo espaço de aglutinação de compromissos públicos com a memória, diante das desigualdades, injustiças e afasia social. Negando que a HP seja mais um modismo passageiro ou um campo específico de trabalho, Santhiago afirma que, após anos de debates e discussões sobre o que é HP, de como se faz HP e por que se faz HP, é momento de se estabelecer como meta a “incorporação da história pública enquanto perspectiva integrante de toda a prática historiográfica”. Finalizando, Santhiago se pergunta se a HP brasileira que a Rede está construindo efetivamente tem conseguido ser uma história complexa, potente e diversa e que emerja como uma plataforma de ação de diferentes sujeitos e diferentes saberes (Santhiago, 2021).

Tantas perguntas e questionamentos que parecem fazer parte do processo de constituição da HP no exterior e no Brasil parecem ensejar uma cultura de contínua publicação de livros congregando os pesquisadores da área no Brasil por meio das publicações da Letra e Voz. No ano de 2023, observamos a publicação do livro História Pública e história conectada, editado por Janice Gonçalves, voltado à discussão em torno da HP e da história digital (Gonçalves, 2023). Em 2024, outros dois volumes são publicados, o primeiro intitulado História Pública e teoria da história, editado por Rafael Dias de Castro e Thamara de Oliveira Rodrigues (Castro; Rodrigues, 2024), e, por fim, o História Pública e queer, editado, por sua vez, por Benito Bisso Schmidt (Schmidt, 2024).

Esses volumes não serão analisados detidamente por não fazerem parte das referências bibliográficas mobilizadas pelos pesquisadores do PPGHP da Unespar, uma vez que são publicações recentes, contudo, uma análise detida, impossível de ser realizada nesse espaço, poderia relevar uma diminuição das reflexões teóricas, mais presentes nos primeiros volumes, e aumento dos relatos de experiência, mais comuns nesses volumes publicados mais recentemente, indicando possíveis limites teóricos da HP no país, talvez com exceção para o volume sobre HP e Teoria da História.

O PPGHP DA UNESPAR: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA HISTÓRIA PÚBLICA NO BRASIL

A institucionalização da HP brasileira na pós-graduação terá lugar a partir de 2019, com a criação do PPGHP, ligado ao Colegiado de História da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), campus de Campo Mourão. O programa é composto por duas linhas de pesquisa: “Saberes e Linguagens” e “Memórias e Espaços de formação”. Importante destacarmos que, no site do programa4, encontramos a seguinte definição de HP, que segue, indiretamente, a tipologia de Santhiago, uma vez que o programa prefere a palavra audiência ao invés de público:

A História Pública se constitui em uma perspectiva historiográfica cujo foco está voltado para a análise, compreensão e explicação de debates e fenômenos públicos que envolvem conhecimentos históricos. Nesse sentido, as pesquisas em História Pública enquanto Área de Concentração podem desenvolver-se, pelo menos, em três direções: 1) a respeito de dada(s) audiência(s), investigando, por exemplo, como determinados conhecimentos históricos são acionados por diferentes agentes e/ou instituições em situações de normalidade, de tensão e/ou de disputas de espaço e poder; 2) com a(s) audiência(s), por meio de um diálogo colaborativo entre o pensamento histórico acadêmico e aquele(s) produzido(s) fora da comunidade de historiadores(as), a fim de propiciar um novo entendimento acerca das relações entre acontecimentos pretéritos e atuais; 3) e para a(s) audiência(s), com a elaboração de reflexões, serviços e produtos que articulem o arcabouço de pesquisas historiográficas às demandas sociais, intelectuais, políticas e comerciais específicas sobre a história, mantendo, simultaneamente, os fundamentos epistêmicos da história como ciência, pressupostos ético-profissionais e a didatização de determinado tema ao público-alvo.

O programa afirma que a HP surgiu como uma resposta às demandas sociais, ocupando espaços de debate histórico frequentemente apropriados por profissionais de outras áreas, alcançando amplas audiências, abrindo novos mercados de trabalho, sugerindo formas alternativas de aprendizado histórico e promovendo reflexões inovadoras sobre temas já consagrados.

A linha de pesquisa “Saberes e Linguagens” tem como objetivo analisar como determinados saberes historicamente constituídos se expressam em linguagens específicas no espaço público, além de propor, com e para diferentes audiências (ou públicos), novos entendimentos sobre a História. Parte-se do pressuposto teórico de que a aparente separação entre conteúdo (saberes) e forma (linguagem) deve ser constantemente revisitada em cada objeto de análise. As linguagens transformam os saberes, assim como os saberes moldam as linguagens para transmitirem determinada mensagem. Dessa forma, ambos se constituem como dimensões indissociáveis, que se influenciam mutuamente. Isso exige que o historiador público reflita historicamente sobre as possibilidades e os limites da complexa relação entre uma configuração sociopolítica específica, autoria/origem, obra/produto e audiências.

Nessa linha de pesquisa, as possibilidades de investigação incluem a problematização de trajetórias, relações de gênero, narrativas, apropriações de conceitos históricos, práticas de leitura e escrita, mídias, identidade e diferença, usos da História, oralidades e discursos científicos. O objetivo é compreender esses fenômenos e, em alguns casos, propor novas formas de relação entre a História, o presente e o público não especializados.

A linha de pesquisa “Memórias e Espaços de Formação”, por sua vez, tem como propósito analisar as relações entre História e memória em espaços de formação. Compreende a memória em sua relação com a alteridade, pois se manifesta no sujeito, expande-se para os grupos e atinge seu ápice nas tentativas de construção e imposição de uma memória coletiva. Ela é compreendida tanto como resultado de interações individuais e coletivas quanto como um campo de esquecimento. Assim, podemos investigar sua relação com a imaginação e sua atuação em dimensões social, cultural, ideológica, política, emotiva, festiva e traumática. Os espaços de formação se manifestam nas relações intersubjetivas, nas práticas socioculturais e nas instituições, sejam elas formais ou informais, por meio das quais ocorrem os processos formativos de indivíduos e grupos sociais. Entre essas manifestações, estão a escola, os museus, os arquivos, os memoriais, as paisagens urbana, rural e natural, o patrimônio cultural, as famílias, as comunidades, o Estado, as religiões, as mídias, as interações e os espaços sociais.

Assim, essa linha de pesquisa investiga as práticas e os papéis na apreensão da História e da memória, a construção do passado e a partilha da autoridade em espaços formativos. Entre os temas analisados, estão a atuação de historiadores no debate público, a interpretação e exposição do passado em lugares de memória, os ambientes imersivos, os processos socioculturais, as estratégias educativas extraescolares e as formas de coleta, gerenciamento e preservação da memória.

Desde 2019 até o momento da escrita deste texto, foram defendidas 41 dissertações de mestrado, correspondentes às turmas de 2019, 2020, 2021 e 2022.5 Com base na definição do próprio programa e nas quatro formas engajamento da HP propostas por Santhiago, os autores classificam seus trabalhos em uma ou mais dessas abordagens. Para facilitarmos a visualização, elaboramos um gráfico.

Tabela 1
: Dissertações defendidas no programa de Mestrado em História Pública da Unespar, Campo Mourão

Esse gráfico destaca aspectos relevantes. Primeiro, a total articulação entre a tipologia da HP proposta por Santhiago; e segundo, a mesma revela também certos limites, na medida em que a produção do programa parece “presa” a uma tipologia que pode cercear outras iniciativas historiográficas em HP. Além disso, outro limite observável dentro dessa tipologia refere-se à escassez de pesquisas sobre a “história feita pelos públicos”. Isso indica uma oportunidade para o curso avançar, aprofundando os estudos que investigam diretamente a produção histórica realizada pelos públicos. Memórias coletivas, narrativas populares, iniciativas comunitárias de preservação da História, criação de arquivos digitais informais de preservação de memória (Marino; Silveira; Nicodemo, 2020) e produção de conhecimento histórico por não acadêmicos são aspectos fundamentais da HP, mas muitas vezes recebem menos atenção, como podemos observar na produção do PPGHP, talvez, em parte, em razão de seu caráter institucionalizado.

Também quantificamos os temas investigados no âmbito do programa com base na definição de ‘tema’, proposta por José D’Assunção Barros (2004), que corresponde à escolha específica de sujeitos ou objetos de estudo pelos historiadores. Por exemplo, em relação aos agentes históricos, temos “história das mulheres”, “história dos marginais” e “história das massas”. Em relação aos “ambientes sociais” examinados pelos historiadores, temos “história rural”, “história urbana”, “história da vida privada” e “história na internet” (definição por nós proposta, inexistente no modelo de Barros). No que se refere aos objetos considerados da pesquisa histórica, destacam-se os seguintes temas: “história da arte”, “história da sexualidade”, “história das ideias”, “história das representações”, “ensino de história” e “história do direito” (Barros, 2004).

A partir dessas subdivisões temáticas, procuramos classificar a produção do PPGHP considerando a temática central do trabalho, uma vez que, em alguns casos, a pesquisa poderia ser classificada em mais de um tema:

  • Agentes históricos: cinco dissertações em “História dos Marginais”; cinco dissertações em “História das Mulheres”.

  • Ambientes sociais: cinco dissertações em “História Urbana”; duas em “História na Internet”; e três em “História Rural”.

  • Objetos: sete em “Ensino de História”; seis em “História das Representações”; sete em “História das Ideias”; e uma em “História da Arte”.

Para a relevância deste texto, também analisamos os “campos de observação” das dissertações (História Local, História Regional, Micro-História e a Biografia) e verificamos que 22 se enquadram em História Regional ou Local, sendo 20 delas sobre cidades do Paraná, uma sobre a cidade de São Paulo e uma sobre Pernambuco. A prevalência de temas locais vinculados ao estado do Paraná deve-se, evidentemente, à posição regional ocupada pelo programa, mas se mostra também como um limite temático, que não abrange temas de interesse nacional.

Contudo, ressaltamos que nenhuma das dimensões da HP deve ser pensada de forma opositora ou excludente, mas complementar, indicando vários caminhos possíveis de atuação, compreendendo que a HP não se reduz a nenhuma delas. A diversidade temática observada nas dissertações, bem como as dificuldades inerentes de se definir HP em uma única acepção, são sintomáticas do processo de constituição de um novo campo historiográfico, que parece carecer de uma acepção clara na sua forma institucionalizada. As práticas de HP do PPGHP refletem, em parte, essas dificuldades semânticas, teóricas e metodológicas.

HISTÓRIA PÚBLICA E HISTÓRIA ORAL NO PPGHP DA UNESPAR: UMA HISTÓRIA FEITA COM O PÚBLICO E PARA O PÚBLICO?

Na análise a seguir, privilegiamos a investigação e o apontamento de padrões observáveis no universo de dados elegidos, quais sejam 14 dissertações defendidas no PPGHP. Destacamos características gerais e fazemos generalizações a partir dos dados observáveis na maioria dos trabalhos, desconsiderando, nessa análise, os desvios de padrão e as exceções observáveis nas pesquisas, quando consideradas na sua individualidade. Entretanto, conciliamos com esta análise panorâmica uma observação mais detida a uma das dissertações defendidas no programa.

A institucionalização acadêmica da HP brasileira, por meio da criação do PPGHP, veio acompanhada de desafios teóricos e metodológicos relativos à conformação de uma operação historiográfica em HP, no sentido de propiciar práticas para a execução de pesquisas nessa área. A existência de tais desafios, a nosso ver, fica patente à medida que praticamente todas as dissertações analisadas nesta seção realizam algum tipo de discussão teórica e metodológica sobre HP na sua relação com a HO. Essas discussões assumem caráter prático, uma vez que estão criando condições para a produção de um conhecimento histórico específico em HP, desdobrando as reflexões teóricas em ferramentas metodológicas. Seria a dimensão história e público, como defende Santhiago (2016), voltada a reflexões teóricas sobre HP.

Com isso, as publicações da RBHP acabaram por se tornar referências privilegiadas nessas dissertações, muito embora não sejam as únicas, pois vêm, muitas vezes, acompanhadas de autores estrangeiros para a realização dessas reflexões, ensejando discussões teórico-metodológicas que procuraram dar embasamento às pesquisas realizadas no âmbito do programa. Nesse sentido, as publicações da Rede, com textos de caráter teórico de autores estrangeiros traduzidos para o português e de autores brasileiros ligados à RBHP, dão acesso facilitado aos pesquisadores discentes do programa a esses debates. Entretanto, parece haver um diálogo assimétrico entre as publicações da Rede e as dissertações, haja vista que, nas segundas, as publicações da primeira são constantemente citadas, muito embora a RBHP raramente faça menção ao que é produzido no PPGHP, o que poderia ocorrer, considerando que muitos dos livros publicados pela Rede trazem textos com relatos de experiência em HP.

Politicamente, é necessário considerar que os autores ligados à RBHP pertencem a grandes universidades do Sudeste brasileiro (centro), com forte apelo simbólico, tais como a USP e UFF, enquanto o PPGHP está localizado em uma instituição pequena de um município do interior do estado do Paraná (periferia), o que faz com que tenhamos certa assimetria político-epistêmica nas relações entre a RBHP e o PPGHP. Desse modo, as publicações da Rede parecem assumir uma condição de autoridade epistêmica (Bourdieu, 2004), referendando e dando legitimidade à operação historiográfica em HP realizada no PPGHP. Tal autoridade, é mister considerar, foi elaborada pela própria Rede no processo descrito na primeira seção deste texto, com forte tomada de posição na academia brasileira, com explícito apelo internacional, que, na prática, se efetiva na apropriação de conceitos e teorias e na publicação de autores estrangeiros nas obras e na perspectiva internacional dos seus eventos. Cumpre observarmos que essa autoridade epistêmica também está assentada no fato de que são pesquisadores consolidados que se tornam referência para mestrandos em início de suas trajetórias acadêmicas como pesquisadores.

A diversidade temática observável nas 14 dissertações produzidas no PPGHP em torno da confluência em HP e HO ensejou em proporcional diversidade teórica e metodológica nas pesquisas, com combinações variadas e complexas. Contudo, o entendimento sobre o que é HP e como fazer HP teve, nas publicações da Rede, as referências centrais, uma vez que as 14 dissertações defendidas no programa, entre 2021 a 2024, são classificadas, pelos seus autores, como histórias feitas com o público, uma vez que têm na HO metodologia principal, totalizando 13 trabalhos (Brito, 2024; Campos, 2021; Carvalho, 2021; Fonseca, 2022; Goularte, 2023; Maccagnan, 2022; Melo, 2023; Pedro, 2024; Silva, 2021; Silva, 2022; Silva, 2024; Soares, 2023; Souza, 2023; Sphair, 2024), e pelo público , com apenas 1 trabalho (Souza, 2023), quando, nas entrevistas orais, os autor enxergou protagonismo maior dos entrevistados no processo de pesquisa, e histórias feitas para o público, quando incluem ações de divulgação, nesse caso, com 8 trabalhos (Brito, 2024; Campos, 2021; Fonseca, 2022; Maccagnan, 2022; Melo, 2023; Pedro, 2024; Soares, 2023; Souza, 2023). Importante asseverarmos a atuação das pesquisas em mais de uma modalidade, com o público e para o público, por exemplo, algo comum nas dissertações.

Os objetos de pesquisa dessas dissertações incluem temáticas tais como a história do movimento negro em Maringá-PR, com entrevistas orais com os protagonistas desses movimentos (Carvalho, 2021); memórias do fenômeno migratório do Nordeste para o Paraná, por meio de entrevistas orais com os avós da autora (Campos, 2021); um estudo sobre bares com decoração e temáticas históricas, com entrevistas com proprietários e clientes desses estabelecimentos (Silva, 2021); pesquisa sobre o olhar (captado em rodas de conversa) de professores de História sobre suas atividades durante a pandemia (Silva, 2022); estudo sobre as memórias de frequentadores das salas de cinema em Campo Mourão-PR, também por meio de entrevistas orais (Maccagnan, 2022); pesquisa sobre representações do Oriente e Zen budismo em redes sociais, com foco na Monja Coen, e que também contou com relatos orais (Fonseca, 2022).

A coleta de comentários em páginas em redes sociais, como metodologia de pesquisa em HO, foi realizada em pesquisa sobre memórias e visões do passado acerca da história do município de Engenheiro Beltrão-PR (Soares, 2023); outra pesquisa analisou as histórias e memórias veiculadas por um grupo folclórico ucraniano e contou com entrevistas com membros do grupo (Goularte, 2023); a memória e a cultura popular do município de Quinta do Sol-PR, capital brasileira do folclore, foi tema de pesquisa e também contou com entrevistas orais (Melo, 2023); outra investigação captou memórias de trabalhos rurais sobre a vida no campo no passado também por meio de rodas de conversa (Souza, 2023). A presença de mulheres na política no município de Mamborê-PR também contou com entrevistas orais (Sphair, 2024); enquanto que a presença e o trabalho de mulheres em uma feira livre no município de Paranavaí-PR também apresentou a metodologia da HO (Brito, 2024); o estudo sobre a cultura germânica na comunidade do Lageado, em Mamborê-PR, seguiu a mesma linha metodológica (Silva, 2024); e as entrevistas orais também foram a metodologia privilegiada em pesquisa sobre o estilo musical Kuduro, captada nas ruas de Angola (Pedro, 2024).

Essa enorme diversidade temática, observável nas 14 dissertações, tem um argumento central único e construído sobre as mesmas bases teóricas, pois todos os trabalhos citam alguma publicação da RBHP, em especial, o texto de Santhiago, publicado em 2016, citado e discutido detidamente em oito dos trabalhos em análise. A dimensão de HP feita com o público e pelo público tem na HO centralidade metodológica, uma vez que seus autores entendem a pesquisa em torno de relatos orais como metodologia em que os entrevistados são coparticipantes do processo de pesquisa, pois seriam membros ativos do processo. Embora as referências sobre HO sejam mais diversas, a maioria dos autores remete ao texto de Michael Frisch, publicado em 2016, em livro organizado pelo RBHP, para referendar a ideia de realizarem as pesquisas com o público e pelo público dentro da perspectiva da autoridade compartilhada, utilizando esse argumento teórico para a utilização das práticas metodológicas da HO na operação historiográfica em HP (Campos, 2021; Carvalho, 2021; Maccagnan, 2022; Pedro, 2024; Sphair, 2024; Silva, 2021; Silva, 2022; Souza, 2023).

Em uma operação historiográfica tão nova quanto a realizada no PPGHP, as interlocuções entre a HP e HO estão baseadas, principalmente, na apropriação dos métodos de pesquisa da HO pelos pesquisadores da HP, algo sintomático nas dissertações do PPGHP, com os argumentos teóricos apontados acima. Além disso, quando se considera a HO uma área específica da historiografia, essas interlocuções são ainda mais intensas, dadas as relações entre essas áreas nos cenários internacional e nacional, sobretudo, quando se considera que a HP desenvolveu-se, no Brasil, nos últimos anos, liderada por pesquisadores da HO, sob risco de diluição de fronteiras e perda de especificidade das duas, em especial da HP, algo apontado por Juniele Rabêlo de Almeida, que, no entanto, procurou demonstrar as aproximações e especificidades de cada modalidade (Almeida, 2018).

Essa problemática nos parece central para a construção de uma metodologia de pesquisa em HP, pois existe uma questão subjacente que deve ser enfrentada. Para Almeida (2018), as “potencialidades presentes nas escolhas por trabalhos de história oral para a ampliação do sentido público da história - potência expressa na produção dialógica, circulação e divulgação de saberes sobre o passado” – podem suscitar debates públicos sobre esse passado na sociedade (Almeida, 2018, p. 103). O problema, a nosso ver, reside no conceito de público com o qual a HP lida, que nos parece distinto daquele da HO e que parece gerar desdobramentos metodológicos importantes. Com efeito, a noção de público discutida acima por Schittino pressupõe uma noção ampla de público, sobretudo como um mundo comum compartilhado pelos homens e mulheres na vida em sociedade (Schittino, 2016, p. 45-46).

Nesse sentido, fazer história com o público ou mesmo pelo público, por meio dessa concepção de público, pressupõe considerar como parte da pesquisa em HP toda a sociedade que compartilha um mundo comum, o que, de antemão, parece inviável. Assim, as 14 dissertações analisadas no programa trabalham com essa concepção de público, mas, na prática, elegem como público participante da pesquisa um número relativamente reduzido de entrevistados, utilizando, como prática de pesquisa, entrevistas estruturadas, semiestruturadas, diálogos e coletas de relatos em redes sociais, combinadas, em muitos casos, com análise de outras fontes, tais como jornais e documentos oficiais (Sphair, 2024, Soares, 2023, Melo, 2023, Souza, 2023, Goularte, 2023, Carvalho, 2022, Silva, 2022, Silva, 2021, Pedro, 2024, Brito, 2024, Campos, 2021, Fonseca, 2022, Maccagnan, 2022, Silva, 2024).

Nesse ponto, o argumento teórico metodológico de fazer História com o público e pelo público deve ser relativizado, pois o público considerado, na prática, são os entrevistados nas pesquisas e não um público amplo, como pode parecer à primeira vista, o que implica considerarmos que as dissertações do programa realizam, metodologicamente, pesquisas em HO amparadas por reflexões teóricas em HP. Na prática, o que observamos nessas pesquisas é que estão realizando pesquisas em HO, considerando a sua metodologia central, teoricamente orientada pelas reflexões da HP em todo o processo de pesquisa, revelando, assim, limites teóricos e metodológicos nessas pesquisas que precisam ser aprimorados. A dimensão da História e Público, como defendida por Santhiago como um movimento de autorreflexividade (Santhiago, 2016, 2018) em torno da HP, é realizada nas dissertações do PPGHP, uma vez que todas elas promovem essa reflexão por meio das publicações da Rede, o que embasa nosso argumento de que estamos diante de pesquisas em HO com embasamento e sustentação teórica em HP.

Nas dissertações defendidas no PPGHP, para além das histórias feitas com os públicos, existe a mencionada relação desses trabalhos com a divulgação histórica, em trabalhos feitos para os públicos, geralmente, com ações produzidas como parte do próprio processo de pesquisa. Dentre essas ações, temos, por exemplo, o trabalho de Soares (2023) em torno do Museu Histórico Yutaka Katayama e a Gruta Nossa Senhora da Rosa Mística, do município de Engenheiro Beltrão-PR, em que a autora produziu um site na internet para promover a divulgação histórica desses espaços, bem como, para captar as percepções do público acerca de seus acervos e características históricas (Soares, 2023). A criação de um site de divulgação histórica também fez parte do trabalho de Melo (2023) que, ao realizar pesquisa sobre a memória e a cultura popular do município de Quinta do Sol-PR, capital brasileira do folclore, também criou um Memorial Virtual do Folclore do município, atuando no processo de salvaguarda e difusão de memórias sobre esse fenômeno histórico e cultural (Melo, 2023). Outra ação semelhante foi realizada por Souza (2023), que produziu um site para a publicização das memórias e experiências de trabalhadores rurais de Araruna-PR, por meio de narrativas orais e iconográficas elaboradas no processo de pesquisa (Souza, 2023). O mesmo fez a pesquisa de Maccagnan (2022) a respeito da história das salas de cinema em Campo Mourão-PR, que originou, como parte da pesquisa, publicações de fotos e áudios com entrevistas em redes sociais como Facebook e Instagram (Maccagnan, 2022).

O trabalho de Fonseca (2022), que investigou as influências da Monja Coen no imaginário orientalista na audiência do Zen Budismo, analisando representações sociais orientalistas por meio das memórias de entrevistados, deu origem, como parte do trabalho, à criação de um Podcast no qual o autor publicou os resultados colhidos na pesquisa, ensejando a divulgação histórica (Fonseca, 2022). A pesquisa de Brito (2024), que teve como tema o protagonismo das mulheres idealizadoras de uma feira livre no município de Paranavaí-PR, por meio da análise de suas memórias coletadas em entrevistas orais, também foi produzida para o público, por meio de um Podcast e foi disponibilizada na plataforma Spotify (Brito, 2024).

A pesquisa de Pedro (2024) sobre as narrativas de jovens praticantes do estilo musical e de dança Kuduro, de Luanda, Angola, buscou analisar os sentidos e significados que esses jovens atribuem ao Kuduro, e contou, como parte do processo de pesquisa, com a produção de um vídeo-documentário que evidencia os enfrentamentos desses jovens em torno dessas práticas nas ruas de Luanda, em uma pesquisa amplamente realizada com o público e para o público (Pedro, 2024). O mesmo caminho de produção de um vídeo-documentário como parte do processo de pesquisa foi realizado na pesquisa de Campos (2021), que será analisada detidamente mais à frente. Nota-se, nessa breve exposição, que as ações da operação historiográfica em HP realizadas no PPGHP assumem não apenas a perspectiva com o público, mas, nesses casos, para o público, com ações variadas de divulgação, mas que possuem na internet espaço privilegiado.

A dimensão História e Público, como seara de reflexões propiciadas pelo arsenal teórico da HP, talvez seja o elemento teórico central da HP, uma vez que possibilita reflexões como a que realizamos neste texto. Nesse sentido, apontamos uma questão fundamental para a compreensão do tipo de História produzida no PPGHP enquanto prática historiográfica e que diz respeito à relação entre História e Memória. A quase totalidade das dissertações analisadas, 12 dentre as 14, realiza estudos em torno do conceito de memória, seja individual, seja coletiva, ora tratando a memória como objeto de pesquisa, ora como fonte de pesquisa com aporte metodológico da HO. Esse é um aspecto interessante da HP, pois sua relação com a memória é intensa, o que se coaduna com a existência da linha de pesquisa “Memórias e Espaços de Formação”, com seis dissertações que apontam filiação à linha (Soares, 2023, Souza, 2023, Pedro, 2024, Goularte, 2023, Maccagnan, 2022, Silva, 2024). Outras duas dissertações estão ligadas à linha “Saberes e Linguagem” (Sphair, 2024, Brito, 2024), enquanto as demais não mostram filiação a nenhuma das linhas no corpo do texto.

Desse modo, as pesquisas em HP produzidas no PPGHP procuram, por exemplo, por meio das entrevistas orais, praticar a rememoração, entendendo memória como meios de produção de conhecimento histórico (Pedro, 2024); investigam memórias e registros visuais e estéticos do passado, encarando as entrevistas como gatilhos memoriais (Soares, 2023); ainda, buscam tornar públicas as memórias e experiências políticas das entrevistadas (Sphair, 2024), ou mesmo contrastar o discurso oficial e as memórias dos moradores (Melo, 2023); e mais, buscam escutar as memórias dos trabalhadores rurais (Souza, 2023). Com isso, rodas de conversas como metodologia em HO permitem acesso e compartilhamento de memórias (Silva, 2022); ou analisar fenômeno histórico sob o prisma da memória de dois entrevistados (Campos, 2020); analisar a memória individual e coletiva dos membros de um grupo de folclore (Goularte, 2023); analisar usos da memória (Brito, 2024); escutar as memórias dos moradores de uma comunidade (Silva, 2024); bem como estudar a memória dos frequentadores de cinemas (Maccagnan, 2022); e, ainda, analisar as representações sociais orientalistas por meio da memória de entrevistados (Fonseca 2022); investigar o apelo à memória que as decorações históricas propiciam, escutando a memória dos entrevistados (Silva, 2021).

Chama a atenção nesta análise, a possível perspectiva de que, na realidade, a HP realiza pesquisas dentro de uma seara mais propriamente conectada às memórias individual e coletiva acerca de processos históricos, ora tomando a memória como objeto, ora como fonte para a HP. Essa constatação permite que compreendamos certas escolhas e caminhos metodológicos que essas pesquisas tomam. A centralidade ocupada pela metodologia da HO é um desses elementos, pois é por meio dela que as memórias vêm à tona e se tornam objeto e fonte da HP. Na prática de investigação, muitas das dissertações aliam a pesquisa em HO com outras fontes documentais, bem como realizam diálogo historiográfico sobre o tema em tela, o que as fortalece metodologicamente. Contudo, é preciso considerar que esse aspecto revela outro limite teórico nessa produção, uma vez que estudos da memória e HP são coisas diferentes, cujas fronteiras parecem diluídas nessas dissertações em análise.

As afirmações que fazemos em relação ao conjunto do corpus ora em análise podem ser mais bem exemplificadas e amparadas empiricamente com a análise individual de uma das dissertações produzidas no PPGHP. O trabalho de Laiza Suelen Barroso Campos, intitulado Benedita e Manoel: memórias do fenômeno migratório (Nordeste e Sul), foi defendido em 2021, sendo a quarta defesa realizada na turma de 2019, a primeira do programa. O trabalho tem como objetivo analisar o fenômeno migratório do Nordeste para o Sul do Brasil, no Paraná em especial, por meio das memórias de Benedita e Manoel, migrantes baianos que vieram ao estado na década de 1960 e que são, respectivamente, avó e avô da autora. O trabalho está centrado na investigação das memórias desses migrantes, captadas por meio de entrevistas, tendo como base metodológica a HO. A história feita com o público, nesse caso, limita-se a 2 entrevistados, o que revela um limite teórico metodológico, sendo a dimensão para o público do trabalho a divulgação dessas memórias por meio da criação de um documentário produzido a partir das entrevistas realizadas no processo de pesquisa.

Segundo a autora, a HP norte-americana já buscava, desde os anos 1970, formas de comunicação com distintos públicos, bem como procurava por outros campos de atuação para além do acadêmico, mostrando a criação da RBHP como promotora desse tipo de reflexão no país, citando, para essa reflexão, texto de Santhiago publicado em 2018 (Campos, 2021, p. 15). Para a autora, a HP se configura como uma intenção, isto é, uma “produção historiográfica pensada levando-se em conta [...] os públicos nas suas mais variadas dimensões”, sendo, no seu trabalho, a dimensão para os públicos fundamental, em razão da produção do documentário, mas também a autora assume a dimensão da HP como história feita com o público, uma vez que tem, na metodologia da HO, o cerne de sua metodologia, citando, para tanto, o trabalho de Santhiago, já apontado anteriormente (Campos, 2021, p. 103).

Nesse sentido, o conceito de público assume uma dimensão teórica fundamental para a noção de HP da autora. Com isso, Campos sinaliza que está se remetendo ao conceito de público tal qual discutido por Schittino, alertando, contudo, que não trabalha com uma definição precisa de audiência e público em razão do caráter “prematuro das discussões teórico-conceituais da HP”, mas indica essa promoção de diálogos, aproximações e compartilhamento das atividades de historiadores acadêmicos com a sociedade, sendo a HO o caminho escolhido para o diálogo com o público (os entrevistados) e para os públicos (audiência do documentário) (Campos, 2021, p. 103-104).

A HO ocupa a centralidade do método empregado na consecução da pesquisa em HP, uma vez que as entrevistas compõem a dimensão com o público e para o público, quando são transformadas em documentário. A HO vê-se na confluência entre Memória, Identidade e HP, sendo Alessandro Portelli a referência central para a reflexão teórica em torno desses aspectos da pesquisa. Nesse sentido, a HO responde ao processo de troca de conhecimento entre o historiador e seus públicos, com os avós da autora como narradores dessa HP carregada de afetividade, mas que tem posicionamento teórico e metodológico capaz de responder a essa dimensão afetiva, ao mesmo tempo em que é a “história dos eventos, a história da memória e a história da interpretação dos eventos através da memória” (Portelli, 2016, citado por Campos, 2021, p. 26).

A memória acontece na narrativa como um processo de performance que aproxima historiador e público, não apenas na entrevista, mas também na divulgação histórica. Com isso, ao tratar da elaboração do documentário, a autora remete ao conceito de autoridade compartilhada, sendo o material audiovisual produzido uma “ferramenta ou caminho para fazer uma ‘autoridade compartilhada’ para aproximar os historiadores dos participantes da pesquisa” (Campos, 2021, p. 117). Com isso, a HO assume, no trabalho, duas perspectivas interconectadas, metodologia de pesquisa para captar as memórias acerca desse fenômeno histórico da migração e ferramenta de divulgação dessas memórias (com conceituação de memória em Pollak e Halbwachs) para as audiências amplas por meio do vídeo-documentário.

A centralidade metodológica ocupada pela HO é coadunada com o diálogo historiográfico sobre a história do Nordeste e das migrações, em especial, das migrações para o Sul do Brasil, no Paraná em específico. Nesse aspecto, a autora também realiza diálogos e confrontos entre certa historiografia oficial do Paraná, criadora de uma identidade para o estado que nega as migrações nordestinas, o Paranismo, bem como estabelece um diálogo com a historiografia que trata da ocupação das regiões norte e noroeste do estado. Além disso, a pesquisa também realiza um trabalho com fontes históricas, ainda que não ocupe centralidade metodológica, com fontes oficiais do estado do Paraná sobre migração, bem como com boletins de museus, a Lei de Terras de 1850 e, ainda, livro de memorialista acerca da história da cidade de Ubiratã-PR, palco dessa pesquisa (Campos, 2021, p. 137-142).

Como procuramos mostrar, as questões que envolvem o fazer da HP no Brasil em confluência com a HO estão permeadas de reflexões e análises teóricas e metodológicas capazes de explicitar os caminhos assumidos pela operação historiográfica em HP enquanto prática institucionalizada em um lugar de produção como no PPGHP. Como visto, o material de análise dessa seção é denso, tanto nos aspectos teóricos quanto nos aspectos metodológicos. A diversidade de temas investigados nessas dissertações ensejou certa complexidade metodológica, com avanços e limites teórico-metodológicos, sendo que as reflexões teóricas sobre HP observadas nas publicações da RBHP acabaram por propiciar um conjunto de referências possíveis de subsidiar as práticas de pesquisa dessa operação historiográfica em HP.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Procuramos demonstrar nesse texto o caráter ainda incipiente da HP brasileira, que pode ser vislumbrado nas publicações da RBHP. Essa característica, a nosso ver, está ligada ao processo de constituição da área no país, bem como dos processos de reflexão teórica e metodológica que atuaram para fazer da HP uma prática de pesquisa institucionalizada. Se as publicações da Rede estiveram mais conectadas ao estabelecimento de um lugar político e teórico-metodológico e de demonstração de experiências em HP no campo historiográfico brasileiro, na prática, sem quererem ou saberem, tais publicações tornaram-se referências teórico-metodológicas que ocupam certa centralidade nas práticas dos historiadores públicos do PPGHP. A dimensão História e Público, afeita às reflexões e à autorreflexividade da HP, parece ter encontrado no PPGHP lugar privilegiado de realização.

Entretanto, as dimensões que envolvem a História feita com os públicos, pelos públicos e para os públicos parecem ainda se defrontar com questões teóricas e metodológicas que podem revelar limites nesse processo, entre elas, a própria definição de público, a confluência da HP com a HO, do ponto de vista metodológico, bem como a aparente convergência da HP com as questões da memória e com a História, que ensejam reflexões que, aqui, assumem caráter hipotético e que, por isso mesmo, carecem de análises mais densas a fim de serem sustentadas ou refutadas.

Diante dessas provocações de natureza teórica, sustentadas empiricamente em nossa análise, nosso intuito foi fomentar a autorreflexividade, por um lado, e, por outro, propor discussões metodológicas que possam subsidiar as práticas de pesquisa futuras no PPGHP. Vislumbramos as potencialidades da HP na sociedade e no campo historiográfico brasileiro, mas chamamos a atenção para as características epistêmicas subjacentes à prática historiográfica, ainda bastante inaugural na sua forma institucionalizada.

Uma última reflexão diz respeito ao lugar da teoria na produção recente sobre HP no Brasil. Embora o trabalho realizado pela RBHP e pelo PPGHP seja inegavelmente relevante para consolidar práticas e dar visibilidade ao campo, parece-nos que o resultado teórico ainda se mostra limitado. Com exceção das primeiras coletâneas mencionadas na primeira parte do texto — nas quais havia um esforço maior em conferir densidade conceitual e epistemológica à HP —, as publicações posteriores tendem a assumir um caráter excessivamente “empiricista”, pouco voltado à problematização de pressupostos teóricos mais amplos. A própria alegação de pluralidade do campo e as dificuldades em defini-lo de maneira única, como ressaltamos no texto, muitas vezes acabam funcionando como justificativa para essa fragilidade teórica. Nossa inferência, portanto, é a de que seria necessário avançar em reflexões epistemológicas mais consistentes, sem abandonar a diversidade de práticas, mas conferindo-lhes maior sustentação teórica e conceitual. Esta observação é oferecida em tom de diálogo, com o objetivo de enriquecer o debate proposto pelo texto.

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  • Editor responsável:
    Ely Bergo de Carvalho.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Abr 2025
  • Revisado
    15 Out 2025
  • Aceito
    10 Set 2025
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Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
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