RESUMO
O artigo analisa a viagem do escritor norte-americano Waldo Frank (1889-1967) ao Brasil, em 1942, e a repercussão de seu relato sobre o país na imprensa brasileira. Com base em fontes periódicas, apresenta um panorama das redes intelectuais que Frank articulou na América Latina, especialmente no Brasil, em suas visitas à região, realizadas a partir dos anos 1920, e evidencia o papel da diplomacia cultural brasileira no contexto de sua visita ao país, realizada no âmbito da Política da Boa Vizinhança (1933-1945) e da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) contra os países do Eixo. Ao examinar as críticas a seu livro SOUTH AMERICAN JOURNEY, publicado nos Estados Unidos em 1943, o artigo argumenta que, no começo dos anos 1940, a brasilidade ainda era objeto de disputas entre atores do campo intelectual, que procuravam definir as formas e os conteúdos legítimos da identidade nacional, e em estabelecer limites à celebração da mestiçagem no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE
política da boa vizinhança; governo Vargas; democracia racial
ABSTRACT
This article analyzes American writer Waldo Frank’s trip to Brazil in 1942 and the repercussions of his account of the country in the Brazilian press. Based on periodical sources, it presents an overview of the intellectual networks that Frank articulated in Latin America, especially in Brazil, and highlights the role of Brazilian cultural diplomacy in the context of his visit to the country, carried out within the framework of the Good Neighbor Policy (1933-1945). By examining the criticism of his book South American Journey, published in the United States in 1943, the article argues that, in the early 1940s, Brazilianness was still the subject of disputes among intellectuals interested in defining the legitimate forms and contents of national identity and in setting limits on the celebration of miscegenation in Brazil.
KEYWORDS
good neighbor policy; Vargas government; racial democracy
INTRODUÇÃO
No dia 29 de fevereiro de 1944, um texto anônimo publicado no jornal Gazeta de Notícias (RJ) acusava a existência de “literatos e cicerones oficiais” que eram sempre indicados para representar a “inteligência nacional” no “estrangeiro”, “realizar cursos sobre a cultura brasileira” ou, ainda, para “acompanhar os nossos visitantes ilustre” (sic), conduzindo sua “atenção para os mais sugestivos aspectos do pensamento nacional”. Segundo o texto, os cicerones, em especial, eram, “na mór parte das vezes, os grandes responsáveis por tudo que de mau, nocivo ou inverídico” tem sido “dito e escrito a nosso respeito”, pois consideravam como “aspectos típicos nacionais” a serem mostrados aos visitantes “macumbas, favelas, samba na Mangueira” e “malandros na ladeira João Homem”, localizada na região portuária da então capital federal. Para fazer frente à suposta imagem do país no exterior construída em torno desses temas, o texto defendia que a “cooperação cultural” com os países do continente, em especial com os Estados Unidos, tivesse em foco a criação de cursos e “boletins divulgativos” sobre o “panorama intelectual” contemporâneo e histórico do país. Além disso, propunha que “a cultura nacional” não fosse tratada como “monopólio daqueles que têm a sorte de possuir cartaz, bom círculo de relações e amigos dedicados”, mas sim “representada o mais amplamente possível, e principalmente, por nomes que não sejam o de sempre” (Gazeta de Notícias, p. 3, 29 fev. 1944).
As disputas por posições no campo intelectual e do poder, bem como em torno da definição da brasilidade, estão em evidência no texto, que, ao condenar à associação de aspectos da cultura popular e religiosa afro-brasileira à imagem do Brasil no exterior, recorre a uma linguagem abertamente racista. Suas críticas resvalam nas ações da diplomacia cultural e propaganda do Brasil no exterior durante o Estado Novo (1937-1945) e foram apresentadas no contexto do lançamento, nos Estados Unidos, do livro South American Journey (1943), do escritor judeu norte-americano Waldo David Frank (1889-1967). Quanto ao jornal em que esses temas vieram à público, na década de 1940, a Gazeta de Notícias se dividia na época entre o apoio histórico ao varguismo e a simpatia pelos países do Eixo, especialmente Itália e Alemanha, contra os quais o Brasil havia declarado guerra em 28 de agosto de 1942 (Brasil, 2022).
Frank chegara à América do Sul em abril de 1942, em missão cultural financiada pelo Departamento de Estado norte-americano, com o objetivo de promover o intercâmbio com os países da região e reforçar a união continental contra as forças do Eixo, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). No Brasil, sua visita foi apoiada pelos órgãos do governo que organizavam o turismo estrangeiro e as atividades de cooperação intelectual, ligados ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e ao Ministério das Relações Exteriores (MRE). Frank se reuniu no Brasil com autoridades políticas, intelectuais, escritores e artistas. Entre os últimos, Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Candido Portinari e Vinícius de Moraes foram citados com maior frequência pelos jornais brasileiros. Embora não tenham sido nomeados no texto da Gazeta de Notícias, quando do lançamento de South American Journey, recaiu sobre os quatro, boa parte das críticas que Frank recebeu pela maneira como retratou o Brasil para o público norte-americano. Segundo os resenhistas do livro, como um país exótico, selvagem, mestiço e com uma cultura e população afro-brasileira importantes.
Foi sobretudo no governo de Getúlio Vargas (1930-1945) que a miscigenação passou a estruturar o discurso oficial da brasilidade (Domingues, 2005; Gomes, 1997; Weinstein, 2022), apropriando-se seletivamente dos discursos modernistas das primeiras décadas do século XX (Velloso, 2012). Esse período marcou a atualização do “mito das três raças” formadoras da nacionalidade, que se constituiu ainda no século XIX, no âmbito da produção historiográfica do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (Guimarães, 1998). Um processo que oscilou, de forma esquemática, entre uma valorização da herança indígena, especialmente nos modernismos paulistas da década de 1920 (Cuccagna, 2014; Jardim, 2016), e da herança africana, a partir da década de 1930, na literatura e nas ciências sociais em processo de institucionalização (Morais, 2010; Rossi, 2015; Sansone, 2012,). A publicação de Casa Grande & Senzala, por Gilberto Freyre, em 1933, marcou a consolidação do ideário da democracia racial, a partir do qual a identidade nacional seria associada à fusão harmoniosa entre as culturas europeias, africanas e indígenas.
Nesse cenário, os esforços de unificação do discurso nacional articularam-se à divulgação do Brasil no exterior como um país marcado pela mestiçagem e pela ausência de preconceito racial. A propaganda brasileira deslocou seu foco da Europa para os Estados Unidos, movimento que se consolidaria na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. Além de apresentar o Brasil como um suposto paraíso racial, como um país que, ao longo de sua história, teria encontrado uma solução para as questões raciais que haviam conduzido a Europa a mais uma guerra, a preocupação era mostrar que o Brasil se desenvolvia economicamente, socialmente, se urbanizava e se industrializava.
Os intelectuais foram atores centrais da política sistemática de propaganda e da diplomacia cultural organizada nos anos Vargas. Embora muitos deles compartilhassem a militância na causa modernista e o trabalho na burocracia estatal (Nicodemo, 2016, p. 324), conforme destaca Daryle Williams (2001), a formulação de uma política cultural oficial foi, nesse período, complexa, paradoxal e contraditória. Ela se apoiou simultaneamente em expressões do modernismo, que vieram a ser celebradas no exterior como marcadores por excelência da brasilidade, e nas estéticas conservadoras do tradicionalismo e do academicismo, que enraizaram a cultura brasileira em seu passado colonial e oitocentista. Nesse cenário, burocratas, artistas, intelectuais, críticos e cidadãos disputaram frequentemente o controle do conteúdo e do significado da brasilidade.
Neste artigo, dialogando com a historiografia que tem chamado a atenção para a reciprocidade das relações internacionais culturais no contexto da Política da Boa Vizinhança (Ferreira, 2006, Vieira, 2019),1 tomo por foco a visita de Frank ao Brasil e a recepção do seu relato de viagem na imprensa brasileira para apresentar um panorama dos circuitos intelectuais estabelecidos naquele contexto e destacar o papel ativo do Brasil nos campos da diplomacia cultural e propaganda. Ao me debruçar sobre as críticas recebidas por Frank quando da publicação de South American Journey, procuro ressaltar ainda a heterogeneidade dos discursos sobre a brasilidade no começo dos anos 1940, e embates em torno da interpretação do país. Procuro argumentar que os debates envolvendo a obra de Frank colocaram em evidência disputas entre atores do campo e intelectual, em torno dos conteúdos e formas de representação da brasilidade, e estabeleceram limites bastante claros para a celebração da mestiçagem no Brasil.
A CRÍTICA AOS ESTADOS UNIDOS E O FASCÍNIO PELA AMÉRICA LATINA
Waldo Frank nasceu na cidade de Long Branch, no estado de Nova Jersey, em uma família judia de artistas e intelectuais. Em 1911, concluiu a graduação na Universidade de Yale e começou a trabalhar como escritor e jornalista. Em 1916, foi um dos fundadores da revista Seven Arts (1916-1917), que reuniu escritores modernistas e críticos sociais.2 A geração de Frank alimentou o sonho de um renascimento cultural nos Estados Unidos, investindo na crítica aos valores materialistas, repressivos e segregacionistas da cultura norte-americana, e na valorização dos aspectos “selvagem” e “natural”, que foram frequentemente associados aos indígenas, negros, mulheres e latinos (Lino, 2009, p. 527; Tota, 2001, p. 33-35).3
Frank obteve certo reconhecimento nos Estados Unidos por sintetizar as esperanças de um renascimento cultural e direcioná-las para a América Latina (Pike, 2001, p. 61), onde seria reconhecido como o escritor norte-americano mais lido e influente nas décadas de 1930 e 1940 (Sitman, 2015, p. 115). Frank enxergava nos países latino-americanos exemplos de uma sociedade mais orgânica, próxima da terra e com sentidos de comunidade e espiritualidade que faltavam à sociedade estadunidense. Conforme sua visão messiânica, a reunião entre esses dois mundos representados pelos Estados Unidos, mercantil e industrializado, e os países latino-americanos, agrários e mais espirituais, poderia formar uma nova cultura. Com base na ideia de uma complementaridade entre o Norte materialista e o Sul espiritual e humano, Frank propunha novos termos para a relação entre os Estados Unidos e os países latino-americanos (Pike, 2001; Lino, 2009).
Seu repertório intelectual, tanto nas críticas à sociedade norte-americana, quanto nos estereótipos de autenticidade cultural associados aos países latino-americanos, fermentou tradições intelectuais locais de contraponto aos Estados Unidos e discursos de identidades nacionais e regionais, que foram amplificados através das redes latino-americanas de Frank. Sua ideia de que uma cultura totalmente nova emergiria no hemisfério ocidental estava alinhada com as projeções de futuro que animavam seus anfitriões do Sul continental. Por sua vez, muitas destas projeções estiveram afinadas com a teoria da raça cósmica formulada pelo intelectual mexicano José Vasconcelos (1882-1959), especialmente no livro La raza cósmica, publicado em 1925, que acenava para a formação de uma raça mestiça, universal no continente americano.4
O livro Our America (1919), em que Frank buscou explicar criticamente os Estados Unidos para o público francês (Rostagno, 1989, p. 44), teria prenunciado a fascinação do autor pela América Latina e atraiu a atenção dos intelectuais latino-americanos. Já o livro seguinte, Virgin Spain (1926), publicado após sua viagem pela Espanha, em 1921, foi bastante criticado nos Estados Unidos pela mesma razão que o tornou um sucesso na América Latina, onde os leitores teriam “se encantado com a capacidade de Frank de dramatizar, em vez de analisar friamente seu objeto”, lembrando, com isso, a “poética latino-americana” (Rostagno, 1989, p. 48).5
Em meados da década de 1920, quando estava escrevendo Virgin Spain, Frank conheceu o intelectual mexicano Alfonso Reyes (1889-1959). Em 1926, visitou Cuba e, em 1929, realizou sua primeira turnê de conferências pela América Latina. A viagem teve a duração de seis meses e alcançou importante repercussão no México, Argentina, Chile, Bolívia e Peru, tendo sido favorecida pelas redes de sociabilidade do editor e produtor cultural judeu argentino Samuel Glusberg (1898-1987) e do intelectual peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930) (Sitman, 2015, p. 115). Se, em 1929, a breve passagem de Frank pelo Brasil não trouxe grandes repercussões, no país vizinho, a Argentina, sua parceria com a intelectual e mecenas cultural Victoria Ocampo (1890-1979) resultou em um dos projetos culturais mais longevos daquele país, a revista Sur (1931-1992).
As conferências que realizou nos países sul-americanos foram reunidas por Frank no livro Primer Mensaje a la América Hispana (1930), e suas impressões sobre a região foram publicadas no ano seguinte, no livro America Hispana (1931).6 De volta aos Estados Unidos, Frank dedicou-se à divulgação da literatura latino-americana, ou pelo menos de uma parte dela, privilegiando textos que, na sua visão, expressavam os traços essenciais do continente, e serviriam à revitalização da cultura norte-americana. Nesse projeto de difusão de autores latino-americanos, Frank encampou diversas frentes, como a crítica literária, a tradução e o trabalho como assessor editorial na Soubleday, Doran & Company e na série latino-americana da editora Farrar and Rinehar (Rostagno, 1989, p, p. 53-62).
WALDO FRANK E O BRASIL
Frank foi citado na imprensa brasileira a partir de meados da década de 1920, em textos de Plínio Salgado e, sobretudo, de Tristão de Athayde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima). Em 1929, as conferências que realizou em Buenos Aires repercutiram em jornais brasileiros de grande circulação e lhe renderam um artigo na edição de novembro da revista Movimento Brasileiro: revista de crítica e informação (1929-1930), dirigida pelo poeta modernista Renato Almeida (1895-1981).
Na década de 1930, as citações a Frank se tornaram mais frequentes. Artigos de sua autoria e excertos de sua obra foram publicados pelo jornal Diário de Notícias (RJ) e pela revista Diretrizes: política, economia e cultura (1938-1946). Em 11 de março de 1934, Frank foi entrevistado no Rio de Janeiro, a bordo do navio Southern Prince, que o levava de volta aos Estados Unidos após uma temporada na Argentina. Além dos jornalistas, Frank foi recepcionado por Renato Almeida e Alfonso Reyes, que, na época, atuava como Embaixador do México no Brasil (Diário de Notícias, p. 19-22, 11 mar. 1934). Em outubro do mesmo ano, a reportagem do “Um importante congresso de pesquisas científicas vai reunir-se em Recife” mencionou Frank entre os “especialistas em assuntos afro-brasileiros e africanos em geral” contatados pelo secretário geral do Primeiro Congresso Afro-Brasileiro, José Valadares (O Jornal, p. 5-7, 25 out. 1934). Em 1939, o argentino Atillio Garcia Mellid (1901-1972) reiterou o nome de Frank como uma referência para os estudos sobre “o negro brasileiro”, em publicação na revista PAN – Expressão do Pensamento Mundial (1935-1945). O parágrafo de abertura da série de artigos assinada por Mellid transcreveu uma citação de Frank, na qual ele afirmara que “só a gente negra que habita o Brasil pode criar uma autêntica cultura brasileira” (Mellid, 1939).
Em abril de 1942, Frank desembarcou mais uma vez no Brasil. O país foi a primeira e a última escala do seu novo périplo pela América do Sul. Nessa viagem, seu projeto pessoal de intercâmbio com a intelectualidade latino-americana se encontrou com os da diplomacia cultural estadunidense em direção à América Latina, cujas ações foram intensificadas com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, em 1941. A nova visita de Frank aos países sul-americanos contou com o financiamento do Departamento de Estado norte-americano e integrou as iniciativas do país para conter a influência do nazifascismo na região e obter apoio aos esforços de guerra dos países Aliados.
Com efeito, para além dos circuitos oficiais da Boa Vizinhança, a viagem de Frank ao Brasil, em 1942, como ocorreu a outros estrangeiros de passagem pelo continente nas primeiras décadas do século XX, pode ser analisada da perspectiva de um acontecimento cultural.7 Dela resultou um extenso conjunto de publicações, abrangendo desde textos que noticiaram sua chegada ao país e que se debruçavam sobre sua biografia e produção bibliográfica, passando por entrevistas e artigos que reverberavam suas primeiras impressões sobre o Brasil, notícias e transcrições de suas conferências, até resenhas sobre o livro South American Journey (1943), que Frank lançou nos Estados Unidos, com reflexões sobre sua viagem.
Frank foi apresentado pela imprensa brasileira como novelista, filósofo, sociólogo, ensaísta e principalmente como um especialista em assuntos latino-americanos. Na ocasião, suas obras mais citadas foram Primer Mensaje a la America Hispana (1930) e America Hispana (1931). Alguns artigos chamaram a atenção para a inclusão do Brasil em sua concepção de América Hispânica; outros lamentaram que o país ainda não tivesse sido objeto privilegiado de suas reflexões.
A ausência de traduções da obra de Frank no Brasil foi notada por jornalistas brasileiros. Na revista Diretrizes: política, economia e cultura, dirigida por Maurício Goulart e Samuel Wainer, F. A. B. colocou esse tema em destaque para reiterar a afirmação de Ribeiro Couto de que Frank permanecia um autor desconhecido do grande público no Brasil. Coube a Couto apresentar Frank à plateia composta por nomes como Manuel Bandeira, Candido Portinari, José Lins do Rego, Sergio Buarque de Holanda, Lucia Miguel Pereira, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Rubem Braga, Astrogildo Pereira, Augusto Rodrigues, Gabriela Mistral e Vinícius de Moraes, que se reuniu para assistir à conferência do escritor estadunidense sobre democracia, no Instituto Brasil-Estados Unidos,8 no dia 29 de abril (F. A. B., Diretrizes, p. 27, 30 abr., 1942).
No começo de maio, a imprensa publicou que Frank havia cedido os direitos autorais de America Hispana para a Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil. América Hispânica, na tradução para o português, inauguraria a Coleção Pensamento Americano. A tradução do texto ficaria a cargo de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça (1896-1971), fundadora da Casa do Estudante do Brasil, em 1929,9 e incluiria um novo capítulo sobre o Brasil (Diário da Noite, p. 5, 12 set. 1942). Embora anunciado pela editora, em 1942, ao lado de títulos de Gilberto Freyre e do médico, psiquiatra e antropólogo Arthur Ramos (1903-1949), (Vamos Ler, p. 21, 01 out. 1942), seu lançamento teria ocorrido somente em agosto de 1945, coincidindo com a inauguração da sede própria da Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro (Correio da Manhã, p. 13, 02 ago. 1945).10
A resposta de Frank sobre o lugar do Brasil em suas reflexões sobre o continente veio com a promessa reiterada em diversas entrevistas de que estaria preparando um livro sobre sua viagem à América do Sul, com uma parte dedicada ao Brasil. Seu anúncio atendia às expectativas que os anfitriões brasileiros costumavam manifestar aos estrangeiros “ilustres” em visita ao país, e, em particular, aos interesses da propaganda brasileira no exterior, que, durante o Estado Novo (1937-1945), esteve a cargo de diferentes órgãos. Entre os principais, o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Ministério da Educação e Saúde (MES) e o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) (Ferreira, 2006; Vieira, 2019).
A recepção oficial a Frank e sua agenda de conferências no Brasil estiveram sob os cuidados da Divisão de Cooperação Intelectual, do MRE, chefiada por Temístocles da Graça Aranha, e do Ministro Osvaldo Aranha (Correio da Manhã, p. 3-7, 21 abr. 1942). No Itamaraty, as ações de cooperação intelectual e propaganda brasileira no exterior vinham sendo estruturadas desde antes do início do Estado Novo. Em 1934, nos primeiros anos de governo do presidente Getúlio Vargas (1930-1945), foi criado o Serviço de Cooperação Intelectual, na gestão do Ministro José Carlos de Macedo Soares (1934-1936). O novo órgão projetou os intelectuais como atores centrais da diplomacia e da propaganda do Brasil no exterior e buscou fomentar o intercâmbio entre escritores e instituições brasileiras e estrangeiras, visando a difusão da literatura e das artes nacionais (Dumont; Flèchet, 2014, p. 206).
Em 1936, o SCI, sob a direção de Idelfonso Falcão (1892-1958), se inspirou no modelo de política cultural da Alemanha e de Portugal para defender uma ação pragmática de difusão cultural, de cooperação e de propaganda. Escritores como Mário de Andrade e Prudente de Morais Neto foram chamados a colaborar na produção de monografias a respeito da história e das atividades intelectuais do país (Suppo, 2002, p. 336-337).
Ainda em 1936, ano em que Buenos Aires sediou uma reunião PEN Clube Internacional, uma Entretien do Instituto Internacional de Cooperação Intelectual da (IICI), da Liga das Nações, em setembro, e a Conferência Interamericana de Consolidação da Paz, em dezembro, o Itamaraty recebeu uma série de diplomatas, políticos e escritores estrangeiros, entre os quais o grego Nicolas Polítis, o austríaco Stefan Zweig, o alemão Emil Ludwig e os franceses Georges Duhamel e Jacques Maritain (Zem El-Dine, 2022, p. 122). Suas impressões sobre o Brasil, publicadas em jornais brasileiros e do exterior, repercutiram na imprensa brasileira e foram mobilizadas para endossar o nacionalismo oficial.
Convites a personalidades “ilustres” estrangeiras foram constantemente considerados para os fins da propaganda do Brasil no exterior. A visita de Frank ao Brasil, em 1942, deve ter em conta esse contexto. Ainda aspirante à carreira diplomática, o poeta Vinícius de Moraes foi escalado, a pedido do escritor estadunidense, para acompanhá-lo nas viagens pelas capitais do Nordeste e do Norte brasileiros.11 Também para Moraes, essa foi uma viagem de descoberta do Brasil, que, alguns meses depois, publicaria um longo artigo sobre a visita dos dois à Bahia (Moraes, 1942). Além de viajar pelo país, Frank proferiu conferências e concedeu uma série de entrevistas, foi homenageado em almoço oferecido pelo Ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, no Jockey Clube, pela Casa do Estudante do Brasil, e se reuniu com artistas, intelectuais e políticos em diversas cidades do país. Seus encontros com Lourival Fontes, então Diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), e com o presidente Getúlio Vargas, foram destaque na imprensa varguista.
No dia 30 de abril, uma publicação do DIP buscou sintetizar as primeiras impressões do visitante, destacando que “o Brasil lhe comunicou a sensação de unidade organizada, produto de uma força como telúrica”, e que, na opinião de Frank, os brasileiros estariam “preparados para criar uma nova civilização tropical”, “com um sentido profundamente humano”. Ainda segundo a publicação, Frank teria exaltado “o eficiente trabalho dos técnicos brasileiros corrigindo os desvios e excessos da natureza, com uma notável política sanitária”. A conclusão do texto destacava que o escritor norte-americano vinha fazendo “uma das campanhas mais meritórias” de “vulgarização e aproximação dos povos americanos”, concluindo que se tratava de um “amigo declarado do Brasil” (Brasil de hoje, de ontem e de amanhã, p. 15-16, 30 abr. 1942).
O BRASIL EM SOUTH AMERICAN JOURNEY (1943)
De volta aos Estados Unidos, Frank publicou artigos e proferiu conferências sobre o Brasil e a América Latina que repercutiram na imprensa brasileira. No primeiro semestre de 1943, lançou o livro South American Journey pela Duell, Sloan and Pearce, de Nova York. Fundada em 1939 e parceira, na década de 1940, das políticas culturais dos Estados Unidos em direção à América Latina, essa editora publicou materiais de turismo como The New World Guides to the Latin American Republics, produzidos pelo Escritório de Assuntos Inter-americanos (EAI) (Guimarães; Silva, 2018).
Em 1944, foi lançada a edição inglesa de South American Journey, pela Victor Gollancz Ltda. O livro possui pouco mais de duzentas páginas, distribuídas em nove capítulos, dos quais dois são dedicados ao Brasil: o capítulo um, “The face of Brazil”, e o capítulo oito, “The body of Brazil”. Os dois capítulos totalizam setenta e quatro páginas. Com quase o mesmo tamanho, a parte sobre a Argentina, também dividida em dois capítulos, soma sessenta e oito páginas. Os demais capítulos, bem menores, contemplam Chile, Uruguai, Peru, Paraguai e Bolívia, em apenas trinta e nove páginas. A passagem dedicada ao Brasil corresponde a quase quarenta por cento do total de páginas do livro.
South American Journey não teve êxito nos Estados Unidos (Rostagno, 1989, p. 53). No Brasil, apesar de todo o destaque conferido ao país, não chegou a ser lançado em português, contrariando a expectativa inicial e os esforços empreendidos pela Editora Livraria do Globo envolvendo Vinícius de Moraes e Oswaldo Aranha.12 Apenas o trecho do livro sobre o Pará circulou em português, publicado pelo O Jornal (RJ) e pelo O Diário (SP) em 04 e 11 de junho de 1944.
No livro, Frank se refere ao Brasil como um exemplo de democracia racial para o mundo. A expressão democracia racial, que começava a ser difundida na imprensa brasileira na década de 1940, foi reproduzida pelo menos três vezes na parte do livro dedicada ao Brasil. Ecoando leituras otimistas da mistura racial caras aos latino-americanos, Frank (1944, p.163) alude à formação de uma “nova raça” no Brasil via mestiçagem entre africanos, europeus e indígenas e, numa leitura idílica da história brasileira, que recorre tanto à obra de Gilberto Freyre quanto à comparação com os Estados Unidos, afirma que a maior riqueza histórica produzida pela Bahia foi a relativa “ausência de tensão racial” (Frank 1944, p. 166).13 Segundo Frank, a sociedade brasileira, cristã, partia do pressuposto de que todos eram irmãos e que nela os negros foram aceitos e considerados brasileiros (Frank 1944, p. 193).
Continuando seu esforço de relativização, afirma que o povo brasileiro não considerava a cor da pele um marcador intrínseco de posição social e que, embora os negros fossem maioria nas classes econômicas mais baixas do país, o preconceito racial seria indireto e a distinção de classe no Brasil não produziu uma sociedade de castas (Frank 1944, p. 193-194). Diferente dos Estados Unidos, onde os negros viviam segregados pela população branca, no Brasil existiria, segundo Frank, uma “verdadeira integração” e uma “constante seleção eugênica com base em valores espirituais, intelectuais e emocionais e não na cor da pele” (Frank 1944, p. 194).14 Ainda nas palavras de Frank, a mistura, a integração, a “circulação de sangue” tornavam o Brasil um líder mundial em democracia racial (Frank 1944, p. 194).
Embora essas passagens do livro de Frank se conformem perfeitamente à imagem por meio da qual o Brasil se projetou internacionalmente, em especial no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, como exemplo de sociedade marcada por relações raciais harmoniosas (Barbosa, 2023; Maio, 1998; Venancio; Furtado, 2020), o mais provável é que o destino do livro tenha sido selado pelas diversas críticas e indiscrições cometidas por Frank sobre políticos e intelectuais brasileiros, incluindo o presidente Getúlio Vargas e sua filha, Alzira Vargas. Além disso, Frank acusou o cerceamento das liberdades, incluindo a de imprensa, e chamou a atenção para a pobreza e a desigualdade social no país. Finalmente, seu foco sobre a população e cultura afro-brasileiras teria ultrapassado os limites do esperado pelas autoridades políticas brasileiras (Menezes, 2018; Tota, 2001), distanciando-se do discurso nacional de valorização da mestiçagem como um processo que levaria ao branqueamento da população.
Dos impressos para o cinema, segundo o historiador Alexandre Busko Valim (2017), que estudou as atividades da Motion Picture Division do Office of the Coordinator of Inter-Americans Affairs (OCIAA) no contexto brasileiro, não interessava aos governos dos Estados Unidos e do Brasil representar “um Brasil desigual, em sua grande maioria empobrecido, mestiço e carente” (Valim, 2017, p. 171). A esse respeito, a Brazilian Division chegou “a fazer uma série de recomendações para os estúdios que produziriam cinejornais a partir de material filmado no Brasil”. O relatório da Warner Brothers, produzido na década de 1940, recomendou “evitar muitos negros brasileiros e imagens de pobreza”. Segundo o documento, as “filmagens no Brasil não podem ter mais do que 20% de pessoas negras – se for do Sul do Brasil, a percentagem deve ser ainda menor” (Valim, 2017, p. 180-181).
Os impressos de divulgação do Brasil no exterior, produzidos pelo DIP, seguiram recomendações semelhantes. Segundo a historiadora Ana Paula Leite Vieira (2019), a Travel in Brazil/This is Brazil (1941-1944), principal publicação do DIP destinada a estrangeiros, apresentou “a mestiçagem e a diversidade racial e cultural” “com um viés positivo”. Ainda assim, as manifestações culturais negras eram censuradas pelo DIP; o que ficaria claro por meio análise das correspondências trocadas entre a diretora da revista, Cecilia Meireles, e Mário de Andrade, a respeito de suas colaborações (Vieira, 2019, p. 221-222).
Em março de 1941, Andrade perguntou a Meireles se a publicação obedecia a “essa lei diplomática que afirma não haver negros no Brazil com z”, pediu esclarecimentos “sobre os projetos arianizadores do DIP” e sobre o “limite” dos seus assuntos na revista. Em resposta a Andrade, Meireles falou das dificuldades que teve para ilustrar seu artigo sobre o Carnaval (citado por Vieira, 2019, p. 222). Segundo Vieira, a correspondência entre Andrade e Meireles sugere, ao mesmo tempo, que houve certa margem de negociação sobre o tema, pois, no início de 1941, Meireles escreveu a Andrade que “a revista Travel in Brazil tem melhorado, e já se pode falar de assuntos de todas as ‘cores’ – preto, branco, marrom etc.”. Contudo, em agosto do mesmo ano, Andrade foi alertado por Meireles para ter “cuidado com o material humano que apareça em alguma foto”, pois, conforme explicava, “voltamos ao regime exclusivamente ariano” (citado por Vieira, 2019, p. 222). Seja como for, os negros não foram retratados nem no artigo de Meireles sobre o carnaval, nem na revista, de uma forma geral (Vieira, 2019, p. 223).
Lourival Fontes, o diretor do DIP, foi um dos alvos das críticas de Frank e um dos primeiros leitores brasileiros de South American Journey. Em 1943, quando o livro foi lançado nos Estados Unidos, Fontes era o representante do Brasil no Conselho administrativo do Bureau Internacional do Trabalho, em Nova York. No dia 17 de julho, atendendo a um pedido do Ministro Oswaldo Aranha, lhe enviou um relatório detalhado sobre os resultados da propaganda brasileira nos Estados Unidos. Umas das seções do relatório contemplava a publicação de livros sobre o Brasil. Nela, Fontes afirmou que, sobretudo nos livros de sociologia e política, “florescem e proliferam” “equívocos”, “incompreensões”, “deturpações da verdade” e “julgamentos parciais” sobre o país, e menciona que nesse grupo “dois péssimos livros de negação e de deformação brasileira” haviam sido “editados recentemente”. Um deles era o livro de Frank, que Fontes mencionou sem indicar o nome do autor e errando a grafia do título, como “Journey South American”.15
A RECEPÇÃO DE SOUTH AMERICAN JOURNEY NA IMPRENSA BRASILEIRA
O livro de Frank foi resenhado entre fins de 1943 e meados de 1944. As leituras de South American Journey reforçaram avaliações sobre a qualidade dos livros sobre o Brasil produzidos no contexto da Política da Boa Vizinhança. Com frequência, os resenhistas apontaram a superficialidade, a visão estereotipada, o tom apologético, assim como o foco recorrente sobre a população afro-brasileira dos autores norte-americanos. Em tais casos, a imprensa reiterava a censura à representação do Brasil como um país de população negra, questionando a condução e os resultados das ações de divulgação do Brasil no exterior e sinalizando que a celebração da mestiçagem no Brasil, longe de ser um discurso pacificado, ainda era foco de disputas.
No dia 28 de novembro de 1943, o jornalista alagoano Povina Cavalcanti (1898-1974) publicou, no Jornal do Comércio, a resenha “Os equívocos e a malícia do sr. Waldo Frank”, que começava por ironizar a pretensão dos viajantes de “definir uma cultura” e “retratar um povo”, sobretudo em se tratando de um “país novo” como o Brasil. Segundo Cavalcanti, para esses estrangeiros, o Brasil não passava de uma “terra exótica, com suas peculiaridades nativas que a imaginação dos falsos observadores caprichosamente exagera”. Na visão do autor, a diferença entre os viajantes que escreveram sobre o país no passado e os que escreviam no presente era que os primeiros compartilhavam impressões “mais ou menos autônomas”, enquanto os segundos eram informados por “fontes nacionais” oferecidas pelos “próprios autores brasileiros”. Ainda nas palavras do resenhista, o livro de Frank continha “sérios agravos à nossa cultura e à própria realidade brasileira, que foi tendenciosamente deformada, sob o véu de pretensas definições etnográficas e sociológicas” (Cavalcanti, p. 6, 28 nov. 1943).
Para Cavalcanti, o escritor norte-americano teria sido mal ciceroneado por brasileiros, “que o levaram a ver, como documentos de nossa vida típica, aspectos escabrosos ou simplesmente acidentais de nossa psique nacional”. Seu guia no Rio de Janeiro e em viagens pelo Brasil, Vinícius de Moraes, o havia apresentado à festa de São Jorge, na Praça da República, tornando-a para Frank um “acontecimento” – uma vez que “aquele santo é considerado pelos cariocas o patrono dos homens e das mulheres de cor” –, e ao Mangue, região de prostituição da capital da República (Cavalcanti, 28 nov. 1943).
Além do poeta carioca, Gilberto Freyre, José Lins do Rego e Candido Portinari foram alvos do resenhista. Eles foram citados como integrantes de uma “certa casta de sociólogos indígenas” que se opunha ao que Gilberto Freyre nomeava como “misticismo ariano”, elevando “o nosso coeficiente racial de sangue negro”. Na leitura de Cavalcanti, teria sido esse grupo que forneceu a Frank as fontes “facciosas” e “unilaterais” que o levaram a ver “o negro, o mulato, como índices da nossa representação racial” (Cavalcanti, p. 6, 28 nov. 1943).
Em South American Journey, Frank aproximou as ideias de Oliveira Vianna (1893-1951) da doutrina racial nazista (Frank, 1944, p. 31). Ao denunciar que no Brasil os ritos religiosos africanos eram proibidos por lei, explicou que essa proibição fazia parte da “tendência na vida cultural brasileira que Freyre chamou de misticismo ariano” (Frank, 1944, p. 196).16 Seu principal expoente era “o famoso sociólogo, Oliveira Vianna”, que considerava os africanos uma raça inferior e projetava sua “gradual absorção e desaparecimento” no Brasil. Ainda segundo Frank, Vianna apontava a alta mortalidade da população negra como prova dessa inferioridade, ignorando sua correlação com fatores econômicos e sociais (Frank, 1944). Na sequência, o escritor norte-americano registrou com apreço a atuação dos “guerreiros valentes que combatem os Viannas, liderados por Freyre, pelo romancista José Lins do Rego, por Portinari e outros artistas e escritores” (Frank, 1944).17
Cavalcanti se referiu a esse grupo como “açambarcadores da literatura brasileira”, favorecidos por “boas relações”, “cadeia de jornais” e “grande editora”. Além disso, relacionando qualificativos políticos e estéticos, chamou-os de “revolucionários de opereta”, “inconformados militantes” e “modernistas pornográficos” (Jornal do Comércio, p. 6, 28 nov. 1943). A referência ao modernismo é significativa, pois, duas décadas após a realização da Semana de 22, multiplicavam-se os balanços sobre seu legado. No terreno das políticas culturais do governo Vargas, os projetos modernistas ganharam um terreno importante, entretanto, como aponta Daryle Williams, seus expoentes disputavam o patrocínio e a gestão cultural, e o controle sobre a brasilidade, com representantes de estéticas mais conservadoras (Williams, 2001).
Cavalcanti, que, em 1944, tentara por duas vezes se eleger para a Academia Brasileira de Letras, apontou a “inexatidão do estilo” e “a impureza da linguagem” de Lins do Rego, que, em sua avaliação, embora fosse um “ficcionista interessante”, não estaria “em condições de ir fazer, como há pouco aconteceu, conferências culturais no estrangeiro”. Como exemplo do caráter “demolidor” do seu modernismo, o resenhista mencionou sua conferência sobre o pintor acadêmico Pedro Américo (1843-1905), que havia sido publicada pela Editora da Casa do Estudante do Brasil, na qual, além de caricaturar “o perfil do glorioso pintor”, o romancista paraibano teria “arrasado” com toda a sua obra (Cavalcanti, p. 6, 28 nov. 1943).
Em 1943, já consagrado como um dos escritores mais exitosos do romance social brasileiro, José Lins do Rego realizou conferências na Argentina sobre a literatura brasileira, a convite do Itamaraty (Matos, 2020). Não era, contudo, a primeira vez que o escritor paraibano representava o Brasil no exterior. Em 1941, ele publicou um artigo sobre a Bahia na revista Travel in Brazil (Vieira, 2019, p. 216).
Na mesma época, a obra do pintor paulista Candido Portinari também se projetava como vitrine brasileira nos Estados Unidos. Em 1935, Café (1935) recebeu um prêmio do Instituto Carnegie. Em 1939, suas pinturas tiveram destaque no Pavilhão do Brasil, na Feira Mundial de Nova York e Morro (1933) foi adquirida pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). O sucesso levou, no ano seguinte, ao convite para a execução de murais na Biblioteca do Congresso de Washington. No Brasil, coube a Portinari a confecção dos murais e painéis do novo edifício do Ministério da Educação e Saúde, inaugurado em 1945.
Na virada dos anos 1940, o êxito de Casa Grande & Senzala (1933) levou Gilberto Freyre a representar o Brasil em conferências realizadas em Portugal, Inglaterra, Uruguai, Paraguai e Argentina (Mesquita, 2018, p, p. 185-193). Ao mesmo tempo, sua obra alcançava grande projeção nos Estados Unidos. Em 1938, ele ministrou cursos nas Universidades de Columbia e Michigan. Em 1943, recusou convites para ocupar o cargo de professor nas Universidade de Yale e Harvard. Em 1944, proferiu conferências na Universidade de Indiana, que resultaram em sua primeira publicação em inglês, o livro Brazil, an interpretation (1945).18 A tradução de Casa Grande & Senzala, pela editora norte-americana Alfred A. Knopf, saiu no ano seguinte, em 1946. Na sobrecapa, Frank a apresentou como “obra prima da sociologia brasileira”, que oferece a seu leitor “uma verdadeira visão da vida do grande povo do Brasil” e, “além disso, uma perspectiva muito melhor para compreender muitos dos mais profundos e mais trágicos aspectos dos nossos Estados Unidos – particularmente o nosso problema negro”. (Diário de Notícias, p. 4, 26 set. 1946).
Segundo Cavalcanti, Frank teria se deixado influenciar por esses interlocutores, e reduziu o país à fórmula “It is the forest... Its is the negro”. Para o resenhista, as conclusões do escritor norte-americano, além de equivocadas, eram maliciosas. Isso porque, ao mesmo tempo em que refutava “autores como Euclides da Cunha, Machado de Assis e Oliveira Vianna”, negando “a inferioridade da raça” e louvando a solução que o Brasil estava dando para o problema racial, pela via da mestiçagem, Frank classificava o “povo” como “impotente, devido à complexidade e imaturidade de nossas forças”. Na leitura do resenhista, o autor louvava “hipocritamente” a “política racial” brasileira. Sua definição do Brasil era tão pejorativa que, para Cavalcanti, “em todos os ensejos, no presente e no passado, só se lhe deparam negros e mulatos. Sampaio Ferraz, Cotegipe, Machado de Assis e outros vêm citados pela cor. Até o saudoso e boníssimo Cardeal Leme não escapou a este censo ariano: ‘The archbishop is a fat mulato...’” (Cavalcanti, p. 6, 28 nov. 1943).
Em sua conclusão, Cavalcanti sugeria que os “homens de letras e as próprias autoridades brasileiras” exercessem “um policiamento profilático em torno de certas correntes locais” que atraíam “numa espécie de monopólio intelectual, todos os valores que aportam às nossas plagas”. Para ele, o resultado desse monopólio, no âmbito da “nossa propaganda oficial”, era “insinuação de pontos de vista pessoalíssimos”, que pretendiam “traduzir o sentir de cinquenta milhões de habitantes” (Cavalcanti, p. 6, 28 nov. 1943).
A resenha do jornalista Osmar Pimentel, intitulada “Waldo Frank e o Brasil”, foi publicada na Gazeta de Notícias (RJ), em 05 de dezembro do mesmo ano de 1943. Sua avaliação do livro de Frank converge com a de Cavalcanti ao destacar que ele retratara o Brasil sob uma perspectiva excessivamente pessoal, mas tangencia o racismo explícito de Cavalcanti e mira diretamente em Frank, sem se preocupar com identificar seus interlocutores brasileiros.
Para o resenhista, South American Journey era fruto das conclusões apressadas e superficiais de um turista norte-americano, revelando “indiscutivelmente Frank aos brasileiros”. Em seu país de origem, observava, Frank não poderia “ser levado a sério como ficcionista ou como pensador”, pois embora tivesse participado dos “movimentos literários, que, após a primeira grande guerra, deram uma consciência e vitalidade às letras norte-americanas”, escolhera o gênero literário “que menos haveria de servir aos interesses literários de seu país”. Lembra ainda que, depois de ser citado pela Revista do Ocidente e estabelecido relações com os “granfinos portenhos que editam Sur”,19 abandonara o romance “para dedicar-se com êxito às suas trabalheiras de filósofo” e “aos seus afazeres absorventes de intérprete do mundo hispânico, assunto em que não poucos, à falta de outro, o consideram autoridade sem controvérsia” (Pimentel, p. 1, 05 dez. 1943).
Na leitura de Pimentel, Frank não passava de um “cidadão telúrico”, compreendendo-se pelo termo “tudo aquilo que a gente não consegue entender bem” e que se propõe a simular profundidade. Como filósofo, reconstruía “o mundo e as sociedades à própria imagem e semelhança”. Para o resenhista, o Brasil era “segundo as pupilas e o olfato de Frank”, “as chuvas pesadas, o colorido das araras e ritmo entre indígena e africano do andar das mulheres do povo” do Belém do Pará; “a paisagem e as cadências sexuais do samba” do Rio; a Floresta do Mato Grosso e do Amazonas, considerada o “corpo do Brasil”. Em contrapartida, Frank teria se referido a São Paulo como uma “capital irritante”, “com suas fábricas provavelmente pouco telúricas para o gênero dele” (Pimentel, p. 1, 05 dez. 1943).
A conclusão de Pimentel era a de que South American Journey reduziu a “complexa cultura” do Brasil “a símbolos por demais nítidos, como a floresta, a magia, a música e as linhas da cor nacional”. Além de o país não ser “totalmente desse jeito”, seu relato não teria sequer “o mérito da novidade”, pois, também no Brasil, conforme argumentava, não eram poucos os que “mimam a própria incapacidade de estudar objetivamente os problemas brasileiros” com “serenatas filosofantes como a de mr. Frank” (Pimentel, p. 1-2, 05 dez. 1943).
No artigo “Livros sobre o Brasil”, de 04 de janeiro de 1944, Gilberto Freyre citou o livro de Frank como um exemplo, entre poucos publicados por estrangeiros,20 que continham interpretações “lúcidas” e “exatas” sobre o país, ainda que acompanhadas “de generalizações vagas e incorretas que eles próprios corrigiriam se lhes fosse possível um contato mais demorado com as várias regiões do Brasil, maior conhecimento e mais profunda compreensão das intimidades do nosso passado” (Freyre, p. 4, 07 jan. 1944).
Ainda segundo Freyre, sua principal repulsa aos livros de estrangeiros dizia respeito à “leviandade” e “falta de cerimônia na utilização e na deformação de trabalhos brasileiros (apenas citados de raspão nos livros desses parasitas)”. O alvo central de suas críticas foi o autor do livro Brazil under Vargas (1942), o alemão Karl Loewenstein, que, segundo o sociólogo pernambucano, além de cometer “erros elementares” sobre inúmeros fatos brasileiros, ao se referir à Casa grande & senzala, chegou “ao extremo de dizer, do referido ensaio, que ‘talvez [fosse] a maior obra da moderna literatura de imaginação no Brasil’” (Freyre, p. 24, 07 jan. 1944).
Finalmente, os artigos “Waldo Frank e a Amazônia”, de Gilberto Freyre, e “Profeta em Terra Alheia”, do musicólogo norte-americano Carleton Sprague Smith (1905-1994), foram publicados nos meses de abril de julho de 1944, respectivamente, e abordaram leituras enviesadas das obras de Freyre e de Frank na imprensa.
Em “Waldo Frank e Amazônia”, Freyre corrigiu Smith a respeito de uma entrevista concedida à revista Diretrizes: política, sociedade e cultura, na qual o intelectual norte-americano teria afirmado que Freyre considerara a descrição sobre a Amazônia de Frank uma das melhores já escritas. O sociólogo pernambucano negou que tivesse feito tal avaliação sobre o texto de Frank, a propósito de sua descrição da Amazônia, e apontou como uma possível explicação para o mal-entendido: o fato de ter se referido, em trecho de Casa grande & senzala, “a certo reparo do sr. Waldo Frank”, que “quase repete Bates nessa exaltação do negro como verdadeiro filho dos trópicos” (Freyre, p. 4 e 13, abr. 1944).21
No mesmo texto, Freyre fez uma série de elogios a Frank. Destacou seu “notável talento de intuitivo e impressionista” e valorizou o fato de ele ser, nas palavras de Freyre, “quase um dos nossos”, “um intelectual antes do tipo ibérico que do tipo anglo-americano pela coragem de atitudes e pela bravura de opiniões sobre assuntos do dia” (Freyre, p. 4, 8 e13 abr. 1944).
Quando publicou seu artigo sobre South American Journey, para responder ao de Freyre, em julho de 1944, Smith vivia em São Paulo e exercia a função de adido cultural dos Estados Unidos. Embora trabalhasse para o Departamento de Estado dos Estados Unidos, que financiara a viagem de Frank ao Brasil, não é possível afirmar que suas impressões sobre South American Journey expressassem um ponto de vista oficial. Smith assinou “Profeta em terra alheia” como professor da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, instituição criada em 1933, onde ministrava aulas de História Social dos Estados Unidos (Morinaka, 2019, p. 705).
Apresentando-se a partir desse campo, Smith reconheceu o engano apontado por Freyre, admitiu não ter conferido as referências de Frank e ter se baseado em uma passagem de South American Journey, para fazer aquela afirmação (Smith, p. 4, 25 jul. 1944). Argumentava, entretanto, que seu engano demonstrava a veracidade do fato que sempre combatia, o “de um grande número de norte-americanos escrever sobre o Brasil sem verdadeiro conhecimento do assunto”. A seu ver, Frank estava incluído nessa categoria de escritor, com os quais os brasileiros costumavam se mostrar “bastante indulgentes”. Era um escritor “talentoso e intuitivo”. No entanto, afirmava que “se os norte-americanos sentiam por ele menor apreço”, a suspeita era a de que isso se dava “por causa dessa sua irresponsabilidade” (Smith, p. 4, 25 jul. 1944).
Na conclusão de seu artigo, Smith assinalou “a tendência dos viajantes para embelezar e colorir as suas narrativas”, “a par de um insuficiente registro de fatos verdadeiros”, ao passo que livros como Casa grande & senzala, em sua visão, mostravam “os resultados a que pesquisas sólidas podem conduzir” (Smith, p. 4, 25 jul. 1944).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A viagem de Frank ao Brasil, em 1942, como enviado da Política da Boa Vizinhança dos Estados Unidos, abriu um novo capítulo de suas relações com o país, que, até então, ocupava um lugar secundário em suas reflexões sobre a América Latina. O modo como transcorreu sua estada demonstra que mais do que um movimento de mão única, marcado pela expansão da influência norte-americana e pelos esforços dos Estados Unidos para costurar uma unidade continental contra os países do Eixo, havia, no início dos anos 1940, um ambiente de trocas culturais, ainda que assimétricas, em que os intelectuais atuavam como mediadores privilegiados. No Brasil, Frank entrou em contato com o discurso da brasilidade mestiça, oficializado durante o governo Vargas, e dialogou com alguns de seus arquitetos mais representativos – artistas e intelectuais, cujas obras se tornavam vitrine brasileira no exterior – em contexto marcado pela segregação racial, pelos ódios e perseguições raciais nos Estados Unidos e na Europa.
As críticas que Frank recebeu na imprensa brasileira pela maneira como projetou o Brasil para os leitores norte-americanos em South American Journey indica que a identidade nacional mestiça promovida ao longo do governo Vargas estava sujeita a disputas internas e modulações. Como observa Barbara Weinstein (2006, p. 282), embora o regime Vargas tenha buscado homogeneizar o discurso nacional em torno do ideário da democracia racial, “continuou existindo uma pluralidade de discursos sobre raça e seu lugar na identidade brasileira e esses discursos estavam intimamente conectados com identidades regionais que persistiram além dos anos Vargas”. O caso exemplar mencionado pela autora é o da identidade paulista, que buscou relacionar a cultura brasileira aos valores da modernidade, do progresso econômico e do embranquecimento, marginalizando o papel dos afro-brasileiros na construção da nação (Weinstein, 2006, p. 282).
No entanto, como visto anteriormente, as resenhas de Cavalcanti e Pimentel sugerem que não apenas disputas regionais, mas também divergências estéticas e disputas por posição no campo cultural estiveram implicadas nas críticas recebidas pelo livro de Frank. Pimentel, em particular, questionou a legitimidade da interpretação de Frank, que descreveu de forma pejorativa, como “ficção telúrica”.
Do mesmo modo, os artigos de Freyre e de Smith mostram que as disputas pelo controle das interpretações do Brasil não se limitaram ao conteúdo dos relatos de estrangeiros sobre o país. Elas também envolveram as práticas, as formas de representação da brasilidade e suas classificações em um contexto das décadas de 1940 e 1950, em que a discussão sobre a delimitação de fronteiras epistemológicas e pela “oposição entre uma escrita de caráter ensaístico e uma narrativa acadêmica e profissional” ocorria nas páginas de jornais de ampla circulação (Venancio; Wegner, 2018, p. 732). Nesse sentido, como visto anteriormente, os elogios de Freyre ao livro de Frank procuram situá-lo no terreno próprio do ensaio, com o qual identifica a sua própria obra, enquanto Smith, ao criticar Frank, enfatiza o caráter impressionista, e, portanto, ensaístico, de sua escrita, em contraste com o conhecimento especializado em que localiza a obra de Freyre. 22
Tendo ocorrido no âmbito de uma política de Estado, a viagem de Frank ao Brasil produziu efeitos inesperados, que escaparam do terreno das instâncias oficiais. Houve uma quebra de expectativa quanto à representação do país, tanto do ponto de vista de seus conacionais, como indicam as declarações de Smith na imprensa brasileira, quanto do de atores intelectuais e políticos brasileiros, cujas críticas, em alguns casos, recaíram sobre as próprias ações do governo Vargas no campo da diplomacia cultural. Em um cenário em que a representação do Brasil por estrangeiros estava em foco na imprensa brasileira, os debates em torno do livro de Frank permitem entrever diferentes disputas ainda existentes em torno do repertório nacional e os limites da celebração da mestiçagem no Brasil do início dos anos 1940.
AGRADECIMENTOS
Meus agradecimentos a Mariana Tavares, Valério Negreiros e André Furtado, coordenadores do Simpósio Temático “História do Livro, da Edição e da Leitura”, que aconteceu durante o 33º Simpósio Nacional de História, em julho de 2025, pela oportunidade de apresentar os resultados da pesquisa que deu origem a este artigo.
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1
Para uma reflexão sobre a importância da dimensão cultural na política externa brasileira, em distintos contextos, ver: Suppo e Lessa (2012).
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2
Sobre a revista Seven Arts e os americanismos dissidentes difundidos pela publicação, ver: Malossi (2017).
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3
Nessas considerações sobre Frank ambos os autores dialogam com Pike (1992).
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4
Vale destacar que em sua biografia de José Vasconcelos, José Joaquín Blanco (1977, p. 118) cita Frank como um difusor do nacionalismo mexicano nos países hispano-americanos e nos Estados Unidos. Vasconcelos foi um membro importante da rede intelectual que Frank estabeleceu no continente.
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5
Tradução livre da autora: Readers were enthralled by Frank’s tendency to dramatize rather then coolly analyze his subject. His ornate imagery was also appealing for its resemblance to Latin American poetic prose like that of Darío or Rodó.
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6
Para uma reflexão sobre as relações de Frank com a América Latina a partir da obra América Hispana, ver: Costa (2014).
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7
Em relação ao contexto argentino, sobre as visitas e estadias de estrangeiros como eventos culturais, nas primeiras décadas do século XX, ver: Bruno (2015, 2024). Sobre os viajantes estrangeiros como intérpretes do nacional, ver: Aguilar e Siskind (2002).
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8
Sobre o Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU) e sua atuação na Política da Boa Vizinhança, ver: Silva (2026).
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9
Outros aspectos de sua trajetória foram analisados recentemente por Araújo (2022) e Infanger (2023).
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10
Contrariando as expectativas, América Hispânica (1945) não incluiu um texto inédito sobre o Brasil. O sumário da edição brasileira, conforme o anúncio publicado pela revista Leitura: crítica e informação bibliográfica (1942-1968), é idêntico ao da edição chilena, lançada pela Ediciones Ercilla, em 1937. América Hispânica foi o primeiro e, ao que tudo indica, o único livro do autor traduzido no Brasil.
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11
Segundo Vinícius de Moraes, os dois teriam se conhecido em um coquetel oferecido a Frank pelo editor José Olympio. Moraes fala de seu encontro com Frank em entrevista de 1979, ver: A última entrevista de Vinícius de Moraes. Disponível em: http://www.revistabula.com/369-a-ultima-entrevista-de-vinicius-de-moraes/. Acesso em: 04 abr. 2026.
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12
Registro VMCP039 COD. FER FCRB: 039/ Série: correspondência pessoal, carta de Oswaldo Aranha a Vinícius de Moraes. Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB).
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13
Tradução livre do/a autor/a: Bahía became the capital of a plantation world far richer than our South. But its greatest wealth was its lack of strain between the races.
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14
Tradução livre do/a autor/a: “There is real integration; there is constant eugenic selection by standards of spiritual, intellectual and emotional values, rather than colour”. Aparentemente, mais do que uma visão particular da eugenia, nesse trecho Frank se aproxima da interpretação dada a eugenia pelo mexicano José Vasconcelos (Stepan, 2005, p. 160-161).
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15
Relatório enviado por Lourival Fontes, do então Consulado Geral dos Estados Unidos do Brasil, em Nova Iorque, a Oswaldo Aranha, Ministro das Relações Exteriores, em 17 de julho de 1943. Arquivo Histórico do Itamaraty.
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16
Tradução livre do/a autor/a: “The prudery and insincerity of the official ban outside Bahia is part of that dangerous trend in Brazilian cultural life which Freyre has called ‘Aryan mysticism’.
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17
Tradução livre do/a autor/a: Plenty of stout warriors carry the battle against the Viannas; led by Freyre, the novelist Lins do Rego, Portinari and other artists and writers.”
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18
Para uma análise sobre o papel desempenhado por Freyre na diplomacia cultural que orientou a política externa brasileira entre os anos 1930 e 1970, ver: Suppo (2003).
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19
Sobre a revista cultural argentina Sur, ver: Gramuglio (2007).
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20
Neste trecho, Freyre menciona de forma elogiosa, além de Frank, o argentino Ricardo Saens-Hayes e o antropólogo norte-americano Donald Pierson.
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21
No trecho, Freyre faz referência ao naturalista inglês Henry Bates (1825-1892), que viajou pelo Norte do Brasil nos meados do século XIX.
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22
Para compreender a posição de Freyre, vale lembrar que, com o estabelecimento da formação universitária em história e ciências sociais na década de 1930, os ensaios de interpretação passariam a ser criticados (Silva, 2014). Contudo, na contramão de, por exemplo, Sérgio Buarque de Holanda, que, a partir do final da década de 1940, passou a defender a produção que resultava da formação universitária, Freyre sustentou a posição de que o ensaio permanecia sendo um gênero legítimo de produção de conhecimento e poderia, inclusive, caracterizar a contribuição própria do Brasil para a renovação das ciências sociais (Venâncio; Wegner, 2018).
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DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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INDICAÇÃO DE FONTE DE FINANCIAMENTO:
Esta pesquisa foi financiada pela FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, processo SEI-260003/014801/2021.
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Editora responsável:
Adriane Vidal Costa
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
