As metáforas da identidade em raízes do Brasil: decifra-me ou te devoro

Identity metaphors in roots of Brazil: decipher me or I will devour you

Edgar Salvadori de Decca Sobre o autor

Resumos

Este artigo pretende analisar o uso das metáforas no livro Raízes do Brasil de Sergio Buarque de Holanda, com o objetivo de tomá-las não somente como artifício literário, mas como projeções históricas de longo alcance na formação da identidade nacional. As metáforas nessa obra devem ser vistas como chaves de entendimento de uma teoria da história do Brasil, que Sergio Buarque de Holanda procurou construir para dar conta do processo histórico da formação da sociedade brasileira. A partir do titulo do livro, começamos a compreender as projeções de longo alcance dessas metáforas. Quando o autor fala de raízes, de aventura, de desterro, de semeadura, de limites, de fronteiras e de cordialidade ele nos faz compreender o sentido de nossa história e de nossas desventuras.

Historiografia Brasileira; Sérgio Buarque de Holanda; Teoria da História; identidade nacional


The article analyzes the use of metaphors in Sérgio Buarque de Holanda's Raízes do Brasil and sees them not only as a literary device, but also as historical projections of far-reaching effects for the development of national identity. Metaphors, thus, should be considered a key to the understanding of a theory of the history of Brazil, which Sérgio Buarque de Holanda tried to develop so as to account for the historical process of the formation of Brazilian society. The book's title itself points to the far-reaching projections of such metaphors: as he speaks of "roots", "adventure", "exile", "sowing", "boundaries", "borders" and of "cordiality", Holanda makes us understand the meaning of our history and of our misfortunes.

Brazilian Historiography; Sérgio Buarque de Holanda; Theory of History; national identity


DOSSIÊ: HISTÓRIA DA HISTÓRIA

As metáforas da identidade em raízes do Brasil: decifra-me ou te devoro

Identity metaphors in roots of Brazil: decipher me or I will devour you

Edgar Salvadori de Decca

Dep. de História, UNICAMP Cidade Universitária "Zeferino Vaz", Distrito de Barão Geraldo, Campinas, SP, 13083-970. edecca@terra.com.br

RESUMO

Este artigo pretende analisar o uso das metáforas no livro Raízes do Brasil de Sergio Buarque de Holanda, com o objetivo de tomá-las não somente como artifício literário, mas como projeções históricas de longo alcance na formação da identidade nacional. As metáforas nessa obra devem ser vistas como chaves de entendimento de uma teoria da história do Brasil, que Sergio Buarque de Holanda procurou construir para dar conta do processo histórico da formação da sociedade brasileira. A partir do titulo do livro, começamos a compreender as projeções de longo alcance dessas metáforas. Quando o autor fala de raízes, de aventura, de desterro, de semeadura, de limites, de fronteiras e de cordialidade ele nos faz compreender o sentido de nossa história e de nossas desventuras.

Palavras-chave: Historiografia Brasileira, Sérgio Buarque de Holanda, Teoria da História, identidade nacional

ABSTRACT

The article analyzes the use of metaphors in Sérgio Buarque de Holanda's Raízes do Brasil and sees them not only as a literary device, but also as historical projections of far-reaching effects for the development of national identity. Metaphors, thus, should be considered a key to the understanding of a theory of the history of Brazil, which Sérgio Buarque de Holanda tried to develop so as to account for the historical process of the formation of Brazilian society. The book's title itself points to the far-reaching projections of such metaphors: as he speaks of "roots", "adventure", "exile", "sowing", "boundaries", "borders" and of "cordiality", Holanda makes us understand the meaning of our history and of our misfortunes.

Key words: Brazilian Historiography, Sérgio Buarque de Holanda, Theory of History, national identity

Com efeito, como traçar fronteiras quando deixamos

de considerar plantas, animais, relevo ou clima,

e nos concentramos nos homens, que fronteira alguma detém?

(Fernand Braudel - O Mediterrâneo e mundo Mediterrâneo)

Não chega a ser original, nem tampouco inédito, um trabalho com as metáforas existentes em Raízes do Brasil (RdB) de Sérgio B. de Holanda. Essas metáforas se insinuam por toda a obra e pretendem dar uma resposta, em uma perspectiva de longo alcance, ao problema da identidade nacional. Entretanto, não pretendo me ater à discussão sobre a identidade, mas surpreender no texto de Raízes os artifícios literários que construíram a visão de história do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda. Temos a impressão, inclusive, de que tudo nessa obra de Buarque de Holanda se resolve do ponto de vista metafórico e que a sua compreensão fica comprometida se não acompanharmos atentamente estes jogos de linguagem. Motivos existem de sobra em favor desta opinião. Desde o título, o ardil metafórico desafia-nos. Enfim, os que são raízes em seu sentido histórico, o que é ser ladrilhador ou semeador historicamente falando, quais os caminhos e fronteiras onde a história tece seus fios (outra metáfora), qual a forma histórica desta metáfora do coração que é o homem cordial, chave e desfecho do todo o empreendimento histórico da obra Raízes do Brasil e de reconhecimento da identidade nacional. Sérgio Buarque sempre se utilizou das metáforas para criar as imagens históricas do passado,1 1 Dentre os trabalhos acadêmicos que abordaram a obra Raízes do Brasil destacamos o livro: MONTEIRO, Pedro Meira. A queda do aventureiro. Campinas: Editora Unicamp, 1999, onde o autor procura investigar as afinidadesintelectuais de Sérgio Buarque com a sociologia compreensiva de Max Weber. Neste trabalho as metáforas são tratadas como tipos-ideais, de acordo com a perspectiva teórica de Weber. Há também o trabalho ainda inédito de CARVALHO, Marcus Vinicius Corrêa. Raízes do Brasil, 1936. Campinas: Unicamp, 1997 (tese de mestrado), onde o autor procura afinar as atitudes teóricas de Sérgio Buarque com a hermenêutica de W. Dilthey. Contudo, nestes trabalhos não há a preocupação literária de auscultar o ruído das metáforas em RdB. como que se inspirasse permanentemente nas sugestões de Leopold Ranke: "O historiador se propõe atualizar ante nós o passado, coisa que só pode fazer permitindo-nos, de certo modo, voltar a viver o passado em seu processo individual... Convidará... sempre ao leitor ou ao ouvinte a representar intuitivamente, com sua capacidade de imaginação, um fragmento da realidade",2 2 Citado por HUIZINGA, Johan. El concepto de historia. México: F.C.E., 1992, p.54. ou, então, em Huizinga: quando assim falava da compreensão histórica

o contato com o passado, difícil de definir, é o adentrar-se em uma esfera alheia a nós, uma das muitas formas de que o homem dispõe para sair de si mesmo, para viver a verdade (...). O objeto sobre o qual recai esta vivência não são as figuras humanas em sua contextura individual, não é a vida humana, nem são os pensamentos humanos o que acreditamos estar vivendo. O que o espírito forma ou experimenta aqui pode apenas se chamar imagem. Quando se reveste de uma forma, esta é sempre flutuante e vaga,: uma intuição tanto de ruas e de casas, de campos, de sons e de cores, como de homens que se movem e são movidos.3 3 HUIZINGA, Johan. El concepto de historia, p.55.

Neste sentido, as metáforas em Sérgio Buarque além de intensificar o efeito literário da obra, pretende produzir imagens do passado através das quais o leitor pode compreender o presente com o seu fundo de tradição. Aqui as referências a Huizinga são mais do que oportunas. Procurando distinguir a história da literatura, este autor, muito admirado por Sérgio Buarque, nos adverte:

Há ademais outra circunstância que entorpece a ciência histórica de exercer sua função suprema de cultura. É a concorrência com a literatura. Não é, o mesmo que a ciência, uma concorrência desleal. A literatura é, assim como a ciência, uma forma de conhecimento da cultura que a engendra. Sua função não consiste em escrever lindos versinhos e relatos, mas fazer inteligível o fundo. Mas seus meios para lograr estes fins diferem da ciência. Pois bem, quando se trata de compreender ou fazer inteligível o mundo, não é possível separar nem por um momento o presente do passado. Todo o presente não só se converte em passado, como já o é. O que ocorre é que a literatura pode manejar esta matéria sem se submeter aos postulados da ciência. As figuras deste mundo não são para ela, mais que motivos. O valor de suas criações radica na eficácia representativa ou simbólica destas figuras, não no problema de sua 'autenticidade', de 'como ocorrem realmente as coisas'.4 4 HUIZINGA, Johan. El concepto de historia, p.41.

Em RdB as metáforas são elementos de forte conotação literária, mas funcionam ao mesmo tempo, como imagens históricas criadas para a dar compreensão ao passado. E estas imagens históricas, que são, por sua vez, metáforas, estão saturadas de passado5 5 Outra vez nos valemos de Huizinga, quando este se refere às imagens do passado: "Pois bem, toda cultura tem como condição de vida o estar saturada até certo ponto do passado. Em toda a cultura vivem certas imagens da realidade de outro tempo que afetam a comunidade cultural de hoje e chegam ao coração. Estas imagens estão revestidas por princípio de diversas formas, sem que isto destrua o seu caráter comum, que é o de ser ' história' para a cultura da qual brotam. Segundo o tipo de cultura que necessita destas imagens de seu passado e segundo a atitude espiritual a que estas imagens respondem, adotam a forma de mito, de saga, de lenda, de crônica, de gesta ou de canção histórica. Para a cultura dentro da qual estas imagens brotam, para a cultura a que servem, todas elas representam, até certo ponto, aquilo que 'realmente aconteceu'. Não vêm preencher somente uma necessidade de vida, mas também um apetite de verdade (...). Pois bem, a forma de saber própria da cultura moderna com respeito ao passado, não é mais o mito, mas sim a ciência histórica" (p.38-39). Há também um outro modo de definir a história em Huizinga, que se assemelha ao modo como Sérgio também concebe a história. Assim se manifesta Huizinga: "Na realidade, o único que nos oferece a história é uma certa idéia de um passado, uma imagem inteligível, de um fragmento do passado. Não é nunca a reconstrução ou a reprodução de um passado dado. O passado nunca é dado. O único dado é a tradição (...). A imagem histórica surge quando se indagam determinadas conexões, cuja natureza se determina pelo valor que se lhes atribui (...). A história é sempre, no que se refere ao passado, uma maneira de dar-lhe forma e não pode aspirar a ser outra coisa" (p. 91-92).

Contudo, antes de procurar o jogo de metáforas que permeia em formade oposições todo o texto de RdB, pretendemos sugerir que a principal chave de entendimento da obra de Sérgio Buarque está na relação metafórica que ele estabelece entre história e vida, sendo a última um processo gradual de conhecimento através da experiência, a experiência pessoal, imediata e a história, que teria uma certa afinidade com a arte, "como o conhecimento que incorpora a nova verdade da experiência imediata, alterando e estabelecendo o mundo conhecido do passado, e, alternativamente, exibe a verdade estabelecida, o padrão ideal ou externo ao qual a experiência de vida que está ocorrendo no momento deve ser associada".6 6 SHIFF, Richard. Arte e vida: uma relação metafórica. In: SACHS, Sheldon (org.). Da Metáfora. Pontes, 1992. Utilizando-se da analogia com a arte, poderíamos dizer que, para Sérgio Buarque, a metáfora entre história e vida não deve ser entendida como um salto, de um para outro mundo, mas sim como uma ponte que permite a passagem do mundo da vida para o mundo da história, sendo este último, ao mesmo tempo, mundo da morte e do devir. Assim a própria história é entendida como uma metáfora, uma vez que ela liga o mundo do do presente ao mundo do passado, ela permite a passagem de um mundo para outro, uma transporte do mundo da experiência imediata para o mundo das verdades estabelecidas e da tradição. Esta transposição, do presente para o passado e dele para o presente, não se dá por meio de um salto vertiginoso, a metáfora é uma ponte que permite a passagem entre os dois mundos. Além dessa transposição do passado para o presente a metáfora funciona também como projeção de longo alcance em direção ao futuro. Nesse sentido a história em seu sentido metafórico é redentora, uma vez que o presente, carregado de passado, projeta o futuro, como uma imagem de longo alcance. Metaforicamente, também estamos na fronteira entre omundo dos vivos e mundo dos mortos, o qual só podemos alcançar, afugentar ou exorcizar através das imagens históricas. Tem razão a historiadora Maria Odila Dias, quando associa o historiador concebido por Sérgio ao taumaturgo e ao exorcista, pois para o autor :

uma das missões do historiador, desde que se interesse nas coisas de seu tempo - mas em caso contrário ainda pode se chamar historiador - consiste em procurar afugentar do presente os demônios da história. Quer isto dizer, em outras palavras, que a lúcida inteligência das coisas idas ensina que não podemos voltar atrás e nem há como pretender ir buscar no passado o bom remédio para as misérias do momento que corre. (p. XVIII)

Nesse sentido, a ponte entre a morte e a vida não deve se estender para que fiquemos aprisionados na morte de um passado perdido. Não cabe ao historiador "erigir altares para o culto do Passado, desse passado posto no singular, que é palavra santa, mas oca" (p.XVIII).7 7 HOLANDA, Sérgio B. Visão do Paraíso. Rio de Janeiro: Cia. Editora Nacional, 1977. Por meio desta percepção metafórica da história, como ponte que permite a passagem através dos tempos do passado, do presente e do devir, podemos entender a forma como, reiteradamente, o autor utiliza de outras metáforas que fazem alusão à transposição e à passagem. Por isso, a obra histórica de Sérgio Buarque é um permanente atravessar de fronteiras, de percursos de caminhos e de estradas móveis, uma ponte entre a tradição e a vontade de devir e de mudanças. Com estas metáforas da história o autor abre o livro RdB, procurando construir a ponte entre a tradição e o devir, entre o presente e o passado, entre a vida e a história. Transportar-se do presente para o passado, e deste de volta para o presente, num caminho por uma estrada móvel que propicie o devir e a mudança:

Todo o estudo compreensivo da sociedade brasileira há de destacar o fato verdadeiramente fundamental de constituirmos o único esforço bem sucedido, e em larga escala, de transplantação da cultura européia para uma zona de clima tropical e sub-tropical. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de cultura que representamos; o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça participa fatalmente de um estilo e de um sistema de evoluções naturais a outro clima e a outra paisagem. Assim, antes de investigar até que ponto poderemos alimentar um tipo próprio de cultura, cumpriria averiguar até onde representamos nele as formas de vida, as instituições e a visão do mundo de que somos herdeiros e de que nos orgulhamos.8 8 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1936, p.3.

Há uma ponte que nos leva do presente ao passado, assim como também traz o passado para o presente. Transpor esta ponte, modificandoo sentido de um em relação ao outro, é esta a tarefa do historiador comprometido com os desafios da mudança, um outro nome que pode ser dado à metáfora. Contudo, nada é nitidamente demarcado nesta mobilidade sugerida pelos caminhos e pelas fronteiras. Ficamos muito mais convencidos de que na história não encontramos respostas prontas, nem tampouco certezas acabadas. Encontramos sempre e cada vez mais indeterminação, traço marcante na trajetória do próprio Sérgio Buarque, como bem anotou Flora Sussekind. Em um comentário muito inspirado à obra de Sérgio Buarque, Flora, aludindo a um crítico do Diário Carioca de 1962, relata que ele observa com admiração o caráter

antiperemptório da expressão ensaística do amigo, lista várias fórmulas de cautela utilizadas por ele na redação das Monções: 'pode-se quase dizer que', 'talvez não exagerasse ao dizer que', 'não haverá absurdo em supor', 'nada impede de acreditar que', 'o que não significa , é certo, exclusão obrigatória de'. A percepção mais acurada, a conquista da multiplicidade, a ampliação do próprio repertório deixam (...) claro rastro estilístico: o cultivo de uma espécie de 'discurso do talvez', de ambigüidade propositada, variações de ritmo e de linguajar no interior do texto.(...) No campo da historiografia não é tranquilo a exposição do movediço. É com o passar do tempo, com o próprio adestramento, que seu modo de escrever passa a incorporar decisivamente a fluidez, a mobilidade. E até a tematizar o terreno incerto com que trabalha o historiador.9 9 SUSSEKIND, Flora. Outra nota: comentário ao texto "nota breve sobre Sérgio crítico" de Antonio Arnoni Prado. In: Sergio Buarque de Holanda - 3º Colóquio UERJ. Imago, 1992, p.141.

Levando-se em consideração estas observações preliminares resta-nos indagar quais são as referências literárias que sustentam este jogo metafórico em RdB. De algumas delas existem enormes evidências, mas nem sempre exploradas à exaustão. Neste texto procurarei abordar as referências metafóricas em Raízes do Brasil, procurando percebê-las como elementos de grande eficácia para o modo de representação do social e da história. Em se tratando de Raízes poderíamos, inclusive, acentuar o modo como o uso das metáforas permite que o autor faça referências explícitas e implícitas a outros intérpretes do Brasil e a outros historiadores, como é o caso do contraste com o retrato de Paulo Prado ou com os caminhos antigos e povoamento do Brasil e a formação dos limites da obra de Capistrano de Abreu, bem como com as fronteiras da Europa, uma implícita alusão à obra de Leopold Ranke sobre as origens da Europa.

Minha intenção neste texto é explorar este jogo metafórico que se arma desde a própria idéia de história para Sérgio Buarque e prolongando-se até as alusões a obras de outros autores. Passo então a explorar os sentidos de duas metáforas muito sedutoras da obra RdB, a de fronteira e a da semeadura , que darão os contornos definitivos do homem cordial.

Não devemos esquecer para a discussão que levaremos a seguir o fato de que o primeiro capítulo de RdB se intitula Fronteiras da Europa e posteriormente, o autor daria o título de Caminhos e Fronteiras (Cia. das Letras, 1995) a um outro livro seu, o que mostra o fascínio de Sérgio pela metáfora da fronteira. No prefácio do livro acima referido o autor nos adverte:

A visão e orientação unitárias a que se sujeita, assim, a matéria deste livro se acham sugeridas, aliás, no seu próprio título. Se o aceno ao caminho, ' que convida ao movimento', quer apontar exatamente a mobilidade característica, sobretudo nos séculos inicias, das populações do planalto paulista - em contraste com as que, seguindo a tradição mais constante da colonização portuguesa, se fixaram junto à marinha -, o fato é que essa própria mobilidade é condicionada entre elas e irá, por sua vez, condicionar a situação implicada na idéia de ' fronteira' . Fronteira, bem entendido, entre paisagens, populações, hábitos, instituições, técnicas, até idiomas heterogêneos que aqui se defrontavam, ora a esbater-se para deixar lufar à formação de produtos mistos ou simbióticos, ora a afirmar-se, ao menos enquanto não a superasse a vitória final dos elementos que se tivessem revelado ativos, mais robustos ou melhor equipados. (p.13- 14).10 10 HOLANDA, Sérgio B. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

Este fascínio confessado e envolvente pelas fronteiras no prólogo deste livro, tem o seu ponto de partida em Raízes do Brasil, quando o autor presta uma homenagem indisfarçável àquele historiador que ele tanto admira, Leopold Ranke, logo em seu primeiro capítulo. Mas antes de tratarmos desta homenagem a Ranke, deveríamos nos ater na metáfora da fronteira já anunciada no primeiro parágrafo desta obra, onde o autor afirma que "somos uns desterrados em nossa terra". Estranhamos a nós mesmos por vivermos na fronteira do exterior e do interior. Em seu famoso artigo Corpo e Alma do Brasil, publicado em 1935, o autor já afirmava que éramos um povo endomingado, "éramos uma periferia sem centro". Ao procuramos a metáfora mais ajustada ao homem cordial brasileiro, a encontramos na imagem da dobra barroca, uma vez que desterrados em nossa própria terra, desde a colonização, seríamos um povo sempre dobrado para o exterior. Esta dobra irá aparecer também em outros autores como, por exemplo, Caio Prado Junior e o seu sentido da colonização, onde o sentido da colônia é exterior a ela e a mesma está dobrada para o capitalismo comercial europeu. Nesse sentido, desde a obra inaugural de Sérgio Buarque a metáfora da nacionalidade brasileira estará sempre associada a uma dobra impossível para o interior de si mesmo. Esta é a grande impossibilidade e falha do homem cordial, homem de completa exterioridade e ausência de interior. Historicamente falando, ele é a tradução de uma tradição: "os portugueses criaram dificuldades às entradas terra a dentro, receosos de que assim se despovoasse a marinha". Durante o período colonial apenas os pioneerspaulistas romperam esta tradição portuguesa de viverem no litoral como caranguejos: "No planalto de Piratininga nasce em verdade um momento novo da nossa história nacional. Ali, pela primeira vez, a inércia difusa da população colonial adquire forma própria e encontra uma voz articulada".11 11 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.72. Se de um lado, o autor nos traça os elementos históricos de uma insipiente dobra para o interior, por outro ele nos mostra como esse voltar-se para dentro, acabou se corrompendo com a descoberta das minas de ouro das Gerais. Assim a explicação histórica completa a metáfora da dobra quando descobrimos que para o "Homem cordial, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência (...). Ele é antes um viver nos outros",12 12 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.102. assim como a colônia é um viver no outro, a Europa. Nesta metáfora da dobra para fora, desde Sérgio Buarque, fundam-se todas as teorias da dependência e de centro e periferia, que analisam as sociedades coloniais pela ausência de interioridade. Por isso mesmo, para uma visão histórica cuja metáfora é a da dobra para o exterior, o interior é uma lacuna, um vazio e sendo o Brasil um lugar de um povo desterrado na própria terra, tudo nele só pode estar fora de lugar.

Todo este intrincado jogo de metáforas tem as suas raízes na admiração do autor pelo historiador alemão L. Ranke. Assim como Sérgio, este historiador, com uma disposição historiográfica invejável, procurou encontrar, em um século 19 marcado pela política das nacionalidades, a unidade da Europa. Procurou estabelecer através da análise histórica as fronteiras políticas e culturais européias e encontrou esta unidade como resultado de 3 momentos. O primeiro momento foi a intensa migração dos povos romanos e germânicos, propiciando a formação interior da Europa. Com o segundo momento, isto é, as Cruzadas, os europeus criaram o espírito de expansão para o exterior e de luta contra o Infiel que poderia infestar o seu interior. Com as Cruzadas criou-se uma profunda divisão entre a cristandade de Roma e a cristandade oriental. Por último, como bem observou Sérgio Buarque, o terceiro momento, quando as fronteiras da Europa se expandem para além dos oceanos com a expansão ultramarina, "em que diferentes nações do ocidente europeu, guerreando-se, embora, muitas vezes, se acham articuladas pelos mesmos propósitos, nascidos da cobiça de riqueza material, do desejo de estender sobre terras distantes, muitas vezes ignoradas das gerações antecedentes, sua fé e seu empenho de dilatar além dos mares a cultura que tiram de uma tradição comum".13 13 HOLANDA, Sérgio B. Ranke. São Paulo: Editora Ática, 1979. O primeiro capítulo de RdB dá continuidade à obra de Ranke, explorando a metáfora da viagem da Europa a partir de suas zonas de fronteira. Nas palavras do autor:

A Espanha e Portugal são, com a Rússia e os países balcânicos (e, e certo sentido, muito especial, embora, a Inglaterra), um dos territórios-ponte, pelos quais a Europa se comunica com os outros mundos. Assim eles constituem uma zona fronteiriça, de transição, menos carregada, por isso mesmo, desse europeismo que, não obstante, mantém como um patrimônio.14 14 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.4.

De acordo com o que havíamos comentado acima, quando utilizamos a metáfora como uma ponte entre dois mundos, assim também "Portugal seria uma metáfora da Europa", ele seria o elemento de transposição do sentido europeu para outros continentes. Através da nação Ibérica, a Europa faria a expansão de seu sentido e a partir de então, seria apreendida por outros povos como uma metáfora civilizatória.15 15 Estas são apenas as indicações de uma pesquisa que está em desenvolvimento. Contudo, devemos acrescentar que esta metáfora da fronteira, que de Ranke passa para Sérgio Buarque, também pode ser apreendida, embora um tanto modificada e sexualizada , na obra de FREYRE, G. Casa grande e senzala. Editora Record, 1992. Explica o sociólogo pernambucano: "A singular predisposição do português para a colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica-a em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África. Nem intransigentemente de uma nem de outra, mas de ambas. (...) A indecisão étnica e cultural entre a Europa e a África parece Ter sido sempre a mesma em Portugal como em outros trechos da Península. Espécie de bicontinentalidade que correspondesse em população vaga e incerta à bissexualidade no indivíduo". Aqui, a metáfora da fronteira íbero-africana irá adquirir um caráter sexual, erótico e étnico e será a chave de explicação para toda a hibrys e para todo excesso existente no mundo colonial português da América. Este sentido metafórico de Portugal como fronteira européia mereceria ainda a atenção de Sérgio Buarque duas décadas depois da publicação de RdB. Em 1958, o autor iria defender uma tese de mestrado na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, com o título Elementos formadores da sociedade portuguesa à época dos descobrimentos. Neste trabalho pouco conhecido do autor de RdB, há como que um estudo de fronteiras étnicas, onde se procura a formação da sociedade portuguesa no cruzamento de culturas muçulmanas, hebraica e ibérica, sem contar com a forte presença do negro africano. Nele também o jogo polissêmico da palavra fronteira dá margem a muitas divagações. Dentre elas a alusão de que este multiculturalismo étnico fez Portugal voltado para fora, sem muito apelo para a sua própria internalização, sendo a empresa colonial um sucedâneo de uma disposição já existente anteriormente.16 16 HOLANDA, Sérgio Buarque. Elementos formadores da sociedade portuguesa à época dos descobrimentos. São Paulo: Escola Livre de Sociologia e Política, 1958. (tese de mestrado - mimeo)

Proponho-me, agora, a observar o funcionamento da metáfora da semeadura, que para muitos é a chave para a compreensão (outro termo completamente decisivo na concepção de RdB) da psicologia social do homem cordial. Literariamente falando, trata-se de uma referência explícita ao sermão da Sexagésima do Padre Antonio Vieira. Na primeira edição de RdB não há um destaque acentuado a esta metáfora.17 17 É sempre bom lembrar que no documento que, alegoricamente, representa a certidão de nascimento do Brasil já existe em bruto a metáfora da semeadura. Referimo-nos à famosa passagem da carta de Pero Vaz de Caminha, onde o escrevinhador assim se refere à missão do conquistador sobre as novas gentes: "Porém o melhor fruto,que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar". Somente a partir da segunda edição da obra é que o capítulo O passado agrário (continuação) receberia como título a sugestiva oposição metafórica entre O ladrilhador e o Semeador. Nele podemos compreender qual a mentalidade ou disposição psico-social que presidiu a formação das cidades coloniais portuguesas em contraste com as da América espanhola e a tese do autor está sintetizada na oposição sugerida pelo novo título. Contudo, não me parece acertado afirmar que esta metáfora tenha sido sugerida, literariamente, pelo sermão do Padre Vieira. Há indícios de que ela funciona na obra de Sérgio como um modo ambiguamente indireto e elíptico para abordar o incômodo uso da metáfora da semeadura feito por Paulo Prado em sua polêmica obra Retrato do Brasil. Neste autor, a semeadura refere-se ao sêmen que por se espalhar em excesso dá forma a uma personalidade brasileira, que por transbordamento de sexualidade, torna-se, profundamente, melancólica. Espalhar o sêmen é, ao mesmo tempo, excesso de sexualidade e por decorrência histórica, povoamento. Assim é retratado o espírito de aventura dos portugueses na obra de Paulo Prado: "Paraíso ou realidade, nele se soltara, exaltado pela ardência do clima, o sensualismo dos aventureiros e conquistadores. Aí vinham esgotar a exuberância de mocidade e força e satisfazer os apetites de homens a quem já incomodava e repelia a organização da sociedade européia" (p.65). Ou então, "Para homens que vinham da Europa, o ardor dos temperamentos, a moralidade dos costumes, a ausência do pudor civilizado - e toda a contínua tumescência voluptuosa da natureza virgem - eram um convite à vida solta e infrene em que tudo era permitido" (p.74).18 18 PRADO, Paulo. Retrato do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1997. Segundo o próprio Paulo Prado, deste desregramento sexual e desta semeadura a "Primeira Visitação do Santo Oficio às partes do Brasil" (sem sentido metafórico, por favor) forneceram documentos preciosos:

Grande número dessas confissões, 45 em 120, referem-se ao pecado sexual. Na população relativamente escassa da cidade de Salvador e do seu recôncavo a repetição dos casos de anormalidade patológica põe claramente claramente em evidência em que ambiente de dissolução e aberração viviam os habitantes da colonia. São reinóis, franceses, gregos, e a turba mesclada da mestiçagem - mamelucos, curibocas e mulatos - trazendo ao tribunal da Inquisição os depoimentos dos seus vícios: sodomia, tribalismo, pedofilia erótica, produtos da hiperestesia sexual a mais desbragada (...). (p.79)19 19 PRADO, Paulo. Retrato do Brasil, p.79.

Tratando-se da metáfora da semeadura não poderíamos nos ater somente à obra de Paulo Prado. Contemporânea às raízes existe a obra de Gilberto Freyre, Casa Grande e senzala, onde o sêmen ocupa um papel absolutamente determinante na formação desta cultura tropical, simbiose erótica do branco, do negro e do índio. Na dianteira desta imensa proliferação estava, evidentemente, o homem português, que desde épocas remotas havia sido induzido ao uso bem generoso de seu sêmen. Segundo Freyre, as condições históricas deste comportamento seriam decorrentes do fato de que desde épocas antigas Portugal sofreu da crise de gente:

As condições disgênicas da região de trânsito - pestes, epidemias, guerras - acrescidas das de meio físico em largos trechos desfavorável à vida humana e à estabilidade econômica - secas, terremotos, inundações - encarregaram-se de conservar a população rente com as necessidades nacionais, desbastando os excessos porventura conseguidos pela poligamia dos conquistadores africanos e pela fecundidade patriarcal dos lavradores e dos criadores dos trechos de clima e de solo fértil. Refletiu-se nas leis portuguesas o problema de escassez de gente ao qual parece às vezes Ter-se sacrificado a própria ortodoxia católica. Vemos com efeito a Igreja consentir, em Portugal, no casamento de juras, ou secreto, consumado com o coito; e as Ordenações Manuelinas, e depois as Filipinas, o permitirem, considerando cônjuges os que vivessem em pública voz e fama de marido e mulher(..) Os interesses de procriação abafaram não só os preconceitos morais como os escrúpulos católicos de ortodoxia; e ao seu serviço vamos encontrar o cristianismo que, em Portugal, tantas vezes tomou característicos quase pagãos de culto fálico. (p.245- 246)20 20 FREYRE, G. Casa Grande e Senzala, p.245- 246.

As alusões ao modo como o sêmen português foi se disseminando na colonia ganha sentido mais profundo quando Freyre nos mostra como

era natural, esses santos, protetores do amor e da fecundidade entre os homens, tornarem-se protetores da agricultura (...). O São João é no Brasil além de festa afrodisíaca, a festa agrícola por excelência. A festa do milho, cujos produtos culinários - a canjica, a pamonha, o bolo, - enchem as mesas patriarcais para as vastas comezainas da meia-noite.21 21 FREYRE, G. Casa Grande e Senzala, p.249.

Por outro lado, há também em Sérgio Buarque esta tensão no uso metafórico da semeadura. A alusão ao passado agrícola em Raízes é reiterada no modo como o autor explica a formação das cidades colonias portuguesas. Além disso, o próprio título da obra já nos remete ao efeito da semeadura, uma vez que as sementes criam raízes. Também, como já foi mencionado anteriormente, o jogo metafórico se explicita aos poucos, nas mudanças de título dos capítulos que o autor faz a partir da segunda edição da obra. Originalmente, o capítulo sobre a o semeador português tinha o título de passado agrário (continuação). Assim, trata-se de reinterpretar o povoamento do Brasil sob um ângulo metafórico, mas ao mesmo tempo esta metáfora desloca-se progressivamente de sua conotação agrícola para uma alusão ao processo formador de cidades. Aqui, entra em jogo um outro componente metafórico que foi tratado anteriormente, neste caso as fronteiras, absolutamente, fundamental na obra de Sérgio Buarque. Lugar do incerto, de trocas e de tensões e acomodações, a fronteira é sempre contacto entre dois mundos. Em se tratando da metáfora das sementes, e, portanto, da criação das cidades, a fronteira incerta que se vislumbra é a da modernidade com a tradição, do novo com o velho ou do passado com o presente, mas também, do real com o virtual, do fato com a ficção, por fim, da ideologia com a utopia, parafraseando Karl Manheim. A semeadura tornou-se metáfora de povoamento para muitos dos intérpretes do Brasil e não somente em Paulo, Gilberto e Sérgio. Em Paulo Prado a luxúria deste desbragado uso do sêmen combina-se com a cobiça e este excesso, esta hybris é responsável pela melancolia. Não é muito diferente esta metáfora do sêmen em excesso na explicação do cruzamento entre raças na colonia, realizado por G. Freyre. Aliás, o excesso de sêmen é o que sedimenta as relações entre a casa grande e a senzala. No caso de Sérgio Buarque, há como uma dessexualização da metáfora e a semeadura torna-se a forma de constituição da colônia e mais especificamente, de seu desdobramento do agrário para o urbano.22 22 Um caso bastante curioso de sexualização no uso da metáfora encontrei recentemente em um texto muito curioso do crítico literário e poeta Haroldo de Campos, que joga com as palavras Vieira, Venera, Vênus mostrando que Vieira vem do latim veneria, uma certa concha, que por sua vez, remete a venerare (Venus, te rogo), que entra em aliteração com Vênus, que por sua vez é a corresponde latina da deusa grega Afrodite, que traz o sêmen em seu nome através do prefixo afros. Sem dúvida, toda esta paronomásia pode ser visualizada no famoso quadro de Botticelli, O nascimento de Vênus. Este texto de Haroldo de Campos encontra-se no livro organizado por J. FILHO, Luis Carlos Uchoa. Perturbador Mundo Novo. Editora Escuta, 1994. Distancia-se das alusões mais diretas, sugeridas por Vieira, relativas ao cultivo agrícola, para tornar-se também a forma de criação das cidades, típica dos portugueses. Portanto, para Sérgio Buarque, trata de se indagar de que modo esta semeadura realizada pelos colonizadores portugueses foi capaz de dar forma a esta original

contribuição brasileira para a civilização: daremos ao mundo o homem cordial. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definitivo do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. (p. 146)

Há, portanto, em Sérgio Buarque todo um ciclo de reprodução que vai desde o espalhar do sêmen na terra, à criação das raízes, até o desenvolvimento do fruto que terá a sua a forma definitiva no homem cordial brasileiro. Trata-se, portanto, não apenas da formação do homem brasileiro, mas de todo o universo histórico do qual ele é resultado, isto é, da colônia (esta maravilhosa criação modernista, bem ao gosto de Paulo Prado no Retrato do Brasil e de Gilberto em Casa Grande e Senzala).

Esta metáfora do coração, que dá forma ao homem cordial, foi utilizada pela primeira vez por Ribeiro Couto e pode ser o mais bem sucedido esforço de definição do homem latino-americano.23 23 Na primeira edição de RdB, o artigo originalmente publicado na revista Espelho em 1935, Corpo e Alma do Brasil, vem a se transformar no capítulo do homem cordial. Como é bastante conhecido Sérgio Buarque utiliza da tragédia Antígoda de Sófocles para fazer alusão à separação da esfera privada, Antígona, e a esfera pública, o Estado, Creonte. Nele Antígona representaria o mundo antigo, onde os interesses privados invadiriam a esfera pública, ao passo que Creonte estaria representando o Estado moderno com a sua abstração e racionalidade legal. Nesta obra a oposição entre público e privado está projetada no tempo histórico pela oposição do tradicional e do moderno, do antigo e do novo. Recentemente, o crítico literário Luis Dantas em prefácio ao livro já citado anteriormente, A queda do aventureiro, nos dá uma interpretação muito inspirada do conflito entre Creonte e Antígona e que pode iluminar ainda mais os pares de oposição propostos por Sérgio Buarque em RdB, deixando subentendido que eles não são mutuamente excludentes. Segundo Dantas, na tragédia de Sófocles: "as duas esferas que se afrontam no drama não estão propriamente em conflito. Para Creonte, aquele que detém o poder da cidade, Antígona não é uma vítima a ser sacrificada em nome da razão do Estado, condição prévia para o triunfo; tampouco Antígona seria a porta-voz atardada do indivíduo e da estirpe, representando aos olhos de Creonte uma lei adversa ou estranha, conscientemente desprezada. A queda final de Antígona não significa que a intriga se resolveu conforme o conceito humano de justiça, nem a sobrevivência de Creonte, em meio ao vazio provocado por ele, uma expiação pelo sangue derramado. Não parece existir um conflito de caráter jurídico em torno de normas apenas. Os protagonistas (...) pertencem a dois reinos distintos, a duas esferas contrastantes, acham-se separados, no fundo e na forma, por um abismo. A cidade de Creonte não triunfa simplesmente sobre o mundo extinto". Já na definição de Ribeiro Couto, em 1931, a cordialidade está relacionada à generosa semeadura realizada pelo homem ibérico:

Nossa América a meu ver, está dando, ao mundo isto: o homem cordial: O egoísmo europeu, batido de perseguições religiosas e de catástrofes econômicas, tocado pela intolerância e pela fome, atravessou os mares e fundou ali, no leito das mulheres primitivas e em toda a vastidão generosa daquela terra, a família dos homens cordiais, esses que se distinguem do resto da humanidade por duas características americanas: o espírito hospitaleiro e a tendência à credulidade.24 24 COUTO, Ribeiro. El hombre cordial, producto americano. Revista do Brasil , Rio de Janeiro 1985.

Esta metáfora Sérgio Buarque tomou emprestado de Ribeiro Couto e pode muito bem ser uma alusão reatualizada e crítica de outro texto emblemático do pensamento latino americano, Ariel de José Enrique Rodó. Neste texto bastante conhecido a alusão literária evidente é a Tempestade de Shakespeare, e os personagens de Próspero, Ariel e Caliban. Na versão de Rodó, enquanto Próspero representa o velho e venerando mestre, herói civilizador europeu com sua imensa sabedoria e Caliban a barbárie de uma cultura utilitarista do tipo norte-americana, Ariel seria o idealista homem de letras, dotado de um espírito racional, fundador da uma nova América.25 25 RODÓ, José Enrique. Ariel. Campinas: Editora da Unicamp, 1991. Assim o autor idealiza a figura de Ariel, extraída de A Tempestade de Shakespeare, como modelo para o homem latino-americano: "Ariel, gênio do ar, representa no simbolismo da obra de Shakespeare a parte nobre e alada do espírito. Ariel é o império da razão e do sentimento sobre os baixos espíritos da irracionalidade; é o entusiasmo generoso, o móvel elevado e desinteressado na ação, a espiritualidade da cultura; a vivacidade e a graça da inteligência - o término ideal a que ascende a seleção humana, corrigindo no homem superior os vestígios tenazes de Caliban, símbolo da sensualidade e torpeza, com o cinzel perseverante da vida" (p.14). Este famoso texto latino americano já havia recebido comentário crítico do próprio Sérgio Buarque, em uma resenha ao livro, datada de 1920. Nestecomentário, muito anterior à criação do homem cordial, Sérgio Buarque ainda está entusiasmado com a possível missão iluminista da intelectualidade latino-americana e prognostica a vitória de Ariel sobre Caliban. Entretanto, o homem cordial de Sérgio, desmonta esta composição cênica da história e absorve todos os outros personagens desta tragédia, alegoricamente, situada por Shakespeare nas ilhas do Caribe centro americano. O homem cordial possui os traços do conquistador e colonizador Próspero, bem como a sua cobiça, de Caliban absorveu a barbárie e ao mesmo tempo a lhaneza e de Ariel tomou emprestado o seu verniz e passou a se seduzir pelas belas palavras e pelas frases fáceis e pomposas. Ele é um ser que está na fronteira entre Próspero e Caliban, entre Ariel e Próspero e entre Ariel e Caliban. A tragédia não é o seu gênero teatral, está mais para a comédia ou a farsa. Como o próprio Sérgio reconhece, ele um tipo um tanto rastaquera.26 26 Há um outro autor latino americano de origem cubana que entre as décadas de setenta e oitenta, voltou a tematizar o teatro Shakespereano de A Tempestade. Em RETAMAR, Roberto Fernandez. Caliban e outros ensaios. São Paulo: Busca Vida, 1988, prefaciado por Darcy Ribeiro, Roberto Fernandez Retamar refunda o mito do homem latino-americano na figura, desta vez, de Caliban. Assim, o novo mito começa a ser talhado: "Nosso símbolo, então, não é Ariel, como pensou Rodo, mas Caliban,. Isso se torna particularmente claro para nós, mestiços que habitamos as mesmas ilhas onde morou Caliban: Próspero invadiu as ilhas, matou os nossos antepassados, escravizou Caliban e lhe ensinou sua língua para poder se entender com ele. Que outra coisa pode fazer Caliban senão empregar essa mesma língua - hoje não há outra - para amaldiçoar Próspero, para desejar que a 'peste rubra' o consuma? Não conheço outra metáfora mais adequada para a nossa situação cultural, para a nossa realidade. (...) O que é a nossa cultura senão a história , senão a cultura de Caliban. Quanto a Rodó, se de um lado confundiu os símbolos, como já foi dito, soube no entanto assinalar com clareza o maior inimigo que nossa cultura teve em sua época - e na nossa -, e que é muitíssimo mais importante" (p.29).

Este homem cordial dissolve as distâncias e as diferenças, de uma maneira tão ardilosa que, ao final de Raízes do Brasil, ele sorrateiramente toma conta do próprio autor da obra, quando Sérgio dissolve em um mesmo caldo a esquerda e a direita brasileiras, como num prenúncio de um tempo futuro que estaria ainda por acontecer.27 27 Dentre os autores que já apontaram a dissolução das distâncias e das diferenças em Sérgio Buarque, destaco, principalmente, BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia. Das Letras, 1996, Bosi nos adverte dos riscos da interpretação buarquiana e gilberto freyriana da aculturação: "Os vários modos da chamada assimilação luso-africana e luso-tupi adquirem, vistos por essa ótica, um relevo tal que acabam deixando em discreto ou subentendido segundo plano os aspectos estruturais e constantes de assenhoreamento e violência que marcaram a história da colonização (p.28). (...) Nos textos eruditíssimos de Sérgio Buarque uma sutil sublimação do bandeirismo, visto em feliz continuidade com os processos de aclimação do português à terra, relativiza o contexto de agressão e defesa que definiu objetivamente as incursões dos paulistas e as reações que os indígenas e missionários lhes opuseram. (...) Os exemplos de cultura material apontados ad nauseam como exemplos de adaptação do colonizador ao colonizado não deveriam ser chamados a provar mais do que podem. Ilustram o uso e abuso do nativo e do africano pelo português tanto no nível econômico global quanto nos hábitos enraizados na corporeidade. Deve o estudioso brasileiro competir com outros povos irmãos para saber quem foi melhor colonizado? Não me parece que o conhecimento justo do processo avance por meio desse jogo inconsciente e muitas vezes ingênuo de comparações que necessariamente favoreçam o nosso colonizador" (p.29). Ainda mais intrigante é a observação de Bosi ao uso da metáfora da semeadura feita por Sérgio Buarque: "Em abono de sua leitura e subscrevendo a apologia que Júlio de Mesquita Filho faz da colonização portuguesa nos seus Estudos sul-americanos, chega o autor de Raízes do Brasil a comparar a plasticidade dos lusitanos ao grão de trigo do Evangelho que aceita anular-se até a morte para dar muitos frutos. Como poderiam suspeitar os negros presos no eito e os índios caçados na selva que os senhores de engenho e os bandeirantes estivessem cumprindo com eles algum rito sacrificial em que a vítima imolada era o próprio branco?" (p.29). Num pessimismo quase indisfarçável, o autor condena o fascismo e seu primo autóctone o integralismo, ironiza o comunistas brasileiros que mais se parecem anarquistas e denuncia o caráter artificial do liberalismo brasileiro. Enfim, nenhum destes sistemas deidéias e de valores servem para Brasil, porque aqui não deitaram raízes e seriam idéias fora de lugar, importadas, enfim. No final de Raízes do Brasil ficamos perplexos e com uma quase sensação de no way out. Talvez mais uma trapaça buarquiana deste interminável jogo de indeterminação:

Podemos ensaiar a organização de nossa desordem segundo esquemas sábios e de virtude provada, mas há de restar um mundo de essências mais íntimas que, esse, permanecerá sempre intacto, irredutível e desdenhoso das invenções humanas. Querer ignorar esse mundo será renunciar ao nosso próprio ritmo expontâneo, à lei do fluxo, por um compasso mecânico e uma harmonia falsa. Já vimos que o Estado, criatura espiritual, opõe-se à ordem natural e a transcende. Mas também é verdade que essa oposição deve resolver-se em um contraponto para que o quadro social seja coerente consigo. Há uma única economia possível e superior aos nossos cálculos e imaginações. Para compor um todo perfeito de partes tão antagônicas. O espírito não é uma força normativa, salvo onde pode servir à vida social e onde lhe corresponde. As formas exteriores da sociedade devem ser como um contorno congênito e dela inseparável: emergem continuamente das suas necessidades específicas e jamais das escolhas caprichosas. Há, porém, um demônio pérfido e pretensioso, que se ocupa em obscurecer aos nossos olhos estas verdades singelas. Inspirados por ele, os homens se vêem diverso do que são e criam novas preferências e repugnâncias. É raro que sejam boas.28 28 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.161.

Por último, gostaria de esclarecer que as idéias apresentadas neste artigo fizeram parte de um curso que eu desenvolvi no nível de doutorado e muitos dos possíveis méritos deste texto se devem às discussões travadas em sala de aula. Quem sabe, vários destes trabalhos possam vir a ser publicados num futuro próximo. Entretanto, em um deles encontrei também a mesma suspeita levantada pelo crítico literário Luis Dantas, comentada em uma nota anterior. Gostaria de mencionar, aqui, os comentários de Maria Lúcia A. Gnerre sobre o capítulo do homem cordial e o uso da tragédia de Sófocles por Sérgio Buarque. Em nota anterior tivemos a oportunidade de apresentar os comentários do crítico literário Luis Dantas sobre o jogo das oposições na obra RdB. Luis Dantas, por sinal, reforça um comentário de Antonio Candido no, hoje, clássico prefácio à obra de Sérgio Buarque. Dantas resume muito bem o procedimento metodológico em RdB, sugerido por Antônio Candido: "Nunca opção simples dentro de um sistema dual, mas tensão ininterrupta, conferindo ao ensaio inteiro uma particularíssima impressão de dissonância não resolvida, de incomodidade perpetuamente fecunda".29 29 MONTEIRO, Pedro Meira. A queda do aventureiro, p.19. Entretanto, o texto de Maria Lúcia joga com o paradoxo do próprio tempo histórico vivido pelo autor e por sua obra, chegando a admitirum significado profético ao capítulo sobre o homem cordial. Assim ela conclui o seu artigo:

Curiosamente, o autor, ao citar a tragédia de Sófocles, narra apenas a sua parte inicial, quando as cartas ainda não eram definidas (...). Se pensarmos que RdB fora lançado em 1936, um ano antes da implementação do Estado Novo por Getúlio Vargas, que de presidente torna-se patriarca ditador, seguindo um processo correspondente ao do Rei Creonte, a citação da obra de Sófocles no capítulo O homem cordial torna-se quase profética (...). É a parte da obra de Sófocles em que o rei Creonte, antes defensor do Estado, torna-se um ditador (...) o que se efetiva no Brasil, no ano seguinte ao lançamento de RdB. Não bastou a implementação do Estado para a transcendência da ordem familiar, eis que o novo governante se auto intitularia o pai dos pobres.30 30 GNERRE, Maria Lúcia. A tragédia da cordialidade: Antígona, o Estado e a família no 'homem cordial' de Raízes do Brasil. (texto inédito, doutorado da Unicamp).

Esse enigma metafórico é o que faz ainda atual essa obra de Sérgio Buarque, com seus jogos de linguagem e com a sua indeterminação. Se essas metáforas são projeções de longo alcance da identidade nacional, então, o homem cordial ainda vive nos interstícios de nossa sociedade, apesar de Sérgio ter vaticinado o seu fim, com a urbanização e a industrialização modernas. O nosso sentimento de desapego pelas normas sociais, se faz presente na nossa idolatria pelos líderes autoritários, que nos impõe a ordem e o constrangimento aos nossos excessos, na indiferença perante as injustiças e a violência, bem como na nossa dificuldade de incorporar dentro do terreno da cidadania aqueles que vivem nas margens da história do Brasil. Por esse motivo, acredito ser apropriado perceber essas metáforas como enigmas de nossa identidade, que nos seduz ao ponto de procurar decifrá-las, mas ao mesmo tempo devora o nosso destino e o nosso sonho por um futuro melhor.

Artigo recebido em 02/03/2006. Autor convidado.

  • 1
    Dentre os trabalhos acadêmicos que abordaram a obra
    Raízes do Brasil destacamos o livro: MONTEIRO, Pedro Meira.
    A queda do aventureiro. Campinas: Editora Unicamp, 1999, onde o autor procura investigar as afinidadesintelectuais de Sérgio Buarque com a sociologia compreensiva de Max Weber. Neste trabalho as metáforas são tratadas como tipos-ideais, de acordo com a perspectiva teórica de Weber. Há também o trabalho ainda inédito de CARVALHO, Marcus Vinicius Corrêa.
    Raízes do Brasil, 1936. Campinas: Unicamp, 1997 (tese de mestrado), onde o autor procura afinar as atitudes teóricas de Sérgio Buarque com a hermenêutica de W. Dilthey. Contudo, nestes trabalhos não há a preocupação literária de auscultar o ruído das metáforas em RdB.
  • 2
    Citado por HUIZINGA, Johan.
    El concepto de historia. México: F.C.E., 1992, p.54.
  • 3
    HUIZINGA, Johan.
    El concepto de historia, p.55.
  • 4
    HUIZINGA, Johan.
    El concepto de historia, p.41.
  • 5
    Outra vez nos valemos de Huizinga, quando este se refere às imagens do passado: "Pois bem, toda cultura tem como condição de vida o estar saturada até certo ponto do passado. Em toda a cultura vivem certas imagens da realidade de outro tempo que afetam a comunidade cultural de hoje e chegam ao coração. Estas imagens estão revestidas por princípio de diversas formas, sem que isto destrua o seu caráter comum, que é o de ser ' história' para a cultura da qual brotam. Segundo o tipo de cultura que necessita destas imagens de seu passado e segundo a atitude espiritual a que estas imagens respondem, adotam a forma de mito, de saga, de lenda, de crônica, de gesta ou de canção histórica. Para a cultura dentro da qual estas imagens brotam, para a cultura a que servem, todas elas representam, até certo ponto, aquilo que 'realmente aconteceu'. Não vêm preencher somente uma necessidade de vida, mas também um apetite de verdade (...). Pois bem, a forma de saber própria da cultura moderna com respeito ao passado, não é mais o mito, mas sim a ciência histórica" (p.38-39). Há também um outro modo de definir a história em Huizinga, que se assemelha ao modo como Sérgio também concebe a história. Assim se manifesta Huizinga: "Na realidade, o único que nos oferece a história é uma certa idéia de um passado, uma imagem inteligível, de um fragmento do passado. Não é nunca a reconstrução ou a reprodução de um passado dado. O passado nunca é dado. O único dado é a tradição (...). A imagem histórica surge quando se indagam determinadas conexões, cuja natureza se determina pelo valor que se lhes atribui (...). A história é sempre, no que se refere ao passado, uma maneira de dar-lhe forma e não pode aspirar a ser outra coisa" (p. 91-92).
  • 6
    SHIFF, Richard.
    Arte e vida: uma relação metafórica. In: SACHS, Sheldon (org.).
    Da Metáfora. Pontes, 1992.
  • 7
    HOLANDA, Sérgio B.
    Visão do Paraíso. Rio de Janeiro: Cia. Editora Nacional, 1977.
  • 8
    HOLANDA, Sérgio B.
    Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1936, p.3.
  • 9
    SUSSEKIND, Flora. Outra nota: comentário ao texto "nota breve sobre Sérgio crítico" de Antonio Arnoni Prado. In:
    Sergio Buarque de Holanda - 3º Colóquio UERJ. Imago, 1992, p.141.
  • 10
    HOLANDA, Sérgio B.
    Caminhos e fronteiras. São Paulo: Cia das Letras, 1995.
  • 11
    HOLANDA, Sérgio B.
    Raízes do Brasil, p.72.
  • 12
    HOLANDA, Sérgio B.
    Raízes do Brasil, p.102.
  • 13
    HOLANDA, Sérgio B.
    Ranke. São Paulo: Editora Ática, 1979.
  • 14
    HOLANDA, Sérgio B.
    Raízes do Brasil, p.4.
  • 15
    Estas são apenas as indicações de uma pesquisa que está em desenvolvimento. Contudo, devemos acrescentar que esta metáfora da fronteira, que de Ranke passa para Sérgio Buarque, também pode ser apreendida, embora um tanto modificada e sexualizada , na obra de FREYRE, G.
    Casa grande e senzala. Editora Record, 1992. Explica o sociólogo pernambucano: "A singular predisposição do português para a colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica-a em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África. Nem intransigentemente de uma nem de outra, mas de ambas. (...) A indecisão étnica e cultural entre a Europa e a África parece Ter sido sempre a mesma em Portugal como em outros trechos da Península. Espécie de bicontinentalidade que correspondesse em população vaga e incerta à bissexualidade no indivíduo". Aqui, a metáfora da fronteira íbero-africana irá adquirir um caráter sexual, erótico e étnico e será a chave de explicação para toda a hibrys e para todo excesso existente no mundo colonial português da América.
  • 16
    HOLANDA, Sérgio Buarque.
    Elementos formadores da sociedade portuguesa à época dos descobrimentos. São Paulo: Escola Livre de Sociologia e Política, 1958. (tese de mestrado - mimeo)
  • 17
    É sempre bom lembrar que no documento que, alegoricamente, representa a certidão de nascimento do Brasil já existe em bruto a metáfora da semeadura. Referimo-nos à famosa passagem da carta de Pero Vaz de Caminha, onde o escrevinhador assim se refere à missão do conquistador sobre as novas gentes: "Porém o melhor fruto,que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar".
  • 18
    PRADO, Paulo.
    Retrato do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1997.
  • 19
    PRADO, Paulo.
    Retrato do Brasil, p.79.
  • 20
    FREYRE, G.
    Casa Grande e Senzala, p.245- 246.
  • 21
    FREYRE, G.
    Casa Grande e Senzala, p.249.
  • 22
    Um caso bastante curioso de sexualização no uso da metáfora encontrei recentemente em um texto muito curioso do crítico literário e poeta Haroldo de Campos, que joga com as palavras
    Vieira, Venera, Vênus mostrando que Vieira vem do latim
    veneria, uma certa concha, que por sua vez, remete a
    venerare (Venus, te rogo), que entra em aliteração com Vênus, que por sua vez é a corresponde latina da deusa grega Afrodite, que traz o
    sêmen em seu nome através do prefixo
    afros. Sem dúvida, toda esta paronomásia pode ser visualizada no famoso quadro de Botticelli,
    O nascimento de Vênus. Este texto de Haroldo de Campos encontra-se no livro organizado por J. FILHO, Luis Carlos Uchoa.
    Perturbador Mundo Novo. Editora Escuta, 1994.
  • 23
    Na primeira edição de
    RdB, o artigo originalmente publicado na revista Espelho em 1935,
    Corpo e Alma do Brasil, vem a se transformar no capítulo do homem cordial. Como é bastante conhecido Sérgio Buarque utiliza da tragédia
    Antígoda de Sófocles para fazer alusão à separação da esfera privada, Antígona, e a esfera pública, o Estado, Creonte. Nele Antígona representaria o mundo antigo, onde os interesses privados invadiriam a esfera pública, ao passo que Creonte estaria representando o Estado moderno com a sua abstração e racionalidade legal. Nesta obra a oposição entre público e privado está projetada no tempo histórico pela oposição do tradicional e do moderno, do antigo e do novo. Recentemente, o crítico literário Luis Dantas em prefácio ao livro já citado anteriormente,
    A queda do aventureiro, nos dá uma interpretação muito inspirada do conflito entre Creonte e Antígona e que pode iluminar ainda mais os pares de oposição propostos por Sérgio Buarque em
    RdB, deixando subentendido que eles não são mutuamente excludentes. Segundo Dantas, na tragédia de Sófocles: "as duas esferas que se afrontam no drama não estão propriamente em conflito. Para Creonte, aquele que detém o poder da cidade, Antígona não é uma vítima a ser sacrificada em nome da razão do Estado, condição prévia para o triunfo; tampouco Antígona seria a porta-voz atardada do indivíduo e da estirpe, representando aos olhos de Creonte uma lei adversa ou estranha, conscientemente desprezada. A queda final de Antígona não significa que a intriga se resolveu conforme o conceito humano de justiça, nem a sobrevivência de Creonte, em meio ao vazio provocado por ele, uma expiação pelo sangue derramado. Não parece existir um conflito de caráter jurídico em torno de normas apenas. Os protagonistas (...) pertencem a dois reinos distintos, a duas esferas contrastantes, acham-se separados, no fundo e na forma, por um abismo. A cidade de Creonte não triunfa simplesmente sobre o mundo extinto".
  • 24
    COUTO, Ribeiro. El hombre cordial, producto americano.
    Revista do Brasil , Rio de Janeiro 1985.
  • 25
    RODÓ, José Enrique. Ariel. Campinas: Editora da Unicamp, 1991. Assim o autor idealiza a figura de Ariel, extraída de
    A Tempestade de Shakespeare, como modelo para o homem latino-americano: "Ariel, gênio do ar, representa no simbolismo da obra de Shakespeare a parte nobre e alada do espírito. Ariel é o império da razão e do sentimento sobre os baixos espíritos da irracionalidade; é o entusiasmo generoso, o móvel elevado e desinteressado na ação, a espiritualidade da cultura; a vivacidade e a graça da inteligência - o término ideal a que ascende a seleção humana, corrigindo no homem superior os vestígios tenazes de Caliban, símbolo da sensualidade e torpeza, com o cinzel perseverante da vida"
    (p.14).
  • 26
    Há um outro autor latino americano de origem cubana que entre as décadas de setenta e oitenta, voltou a tematizar o teatro Shakespereano de
    A Tempestade. Em RETAMAR, Roberto Fernandez.
    Caliban e outros ensaios. São Paulo: Busca Vida, 1988, prefaciado por Darcy Ribeiro, Roberto Fernandez Retamar refunda o mito do homem latino-americano na figura, desta vez, de
    Caliban. Assim, o novo mito começa a ser talhado: "Nosso símbolo, então, não é Ariel, como pensou Rodo, mas Caliban,. Isso se torna particularmente claro para nós, mestiços que habitamos as mesmas ilhas onde morou Caliban: Próspero invadiu as ilhas, matou os nossos antepassados, escravizou Caliban e lhe ensinou sua língua para poder se entender com ele. Que outra coisa pode fazer Caliban senão empregar essa mesma língua - hoje não há outra - para amaldiçoar Próspero, para desejar que a 'peste rubra' o consuma? Não conheço outra metáfora mais adequada para a nossa situação cultural, para a nossa realidade. (...) O que é a nossa cultura senão a história , senão a cultura de Caliban. Quanto a Rodó, se de um lado confundiu os símbolos, como já foi dito, soube no entanto assinalar com clareza o maior inimigo que nossa cultura teve em sua época - e na nossa -, e que é muitíssimo mais importante" (p.29).
  • 27
    Dentre os autores que já apontaram a dissolução das distâncias e das diferenças em Sérgio Buarque, destaco, principalmente, BOSI, Alfredo.
    Dialética da Colonização. São Paulo: Cia. Das Letras, 1996, Bosi nos adverte dos riscos da interpretação buarquiana e gilberto freyriana da aculturação: "Os vários modos da chamada
    assimilação luso-africana e luso-tupi adquirem, vistos por essa ótica, um relevo tal que acabam deixando em discreto ou subentendido segundo plano os aspectos estruturais e constantes de assenhoreamento e violência que marcaram a história da colonização (p.28). (...) Nos textos eruditíssimos de Sérgio Buarque uma sutil sublimação do bandeirismo, visto em feliz continuidade com os processos de aclimação do português à terra, relativiza o contexto de agressão e defesa que definiu objetivamente as incursões dos paulistas e as reações que os indígenas e missionários lhes opuseram. (...) Os exemplos de cultura material apontados
    ad nauseam como exemplos de adaptação do colonizador ao colonizado não deveriam ser chamados a provar mais do que podem. Ilustram o uso e abuso do nativo e do africano pelo português tanto no nível econômico global quanto nos hábitos enraizados na corporeidade. Deve o estudioso brasileiro competir com outros povos irmãos para saber quem foi melhor colonizado? Não me parece que o conhecimento justo do processo avance por meio desse jogo inconsciente e muitas vezes ingênuo de comparações que necessariamente favoreçam o nosso colonizador" (p.29). Ainda mais intrigante é a observação de Bosi ao uso da metáfora da semeadura feita por Sérgio Buarque: "Em abono de sua leitura e subscrevendo a apologia que Júlio de Mesquita Filho faz da colonização portuguesa nos seus
    Estudos sul-americanos, chega o autor de
    Raízes do Brasil a comparar a plasticidade dos lusitanos ao grão de trigo do Evangelho que aceita anular-se até a morte para dar muitos frutos. Como poderiam suspeitar os negros presos no eito e os índios caçados na selva que os senhores de engenho e os bandeirantes estivessem cumprindo com eles algum rito sacrificial em que a vítima imolada era o próprio branco?" (p.29).
  • 28
    HOLANDA, Sérgio B.
    Raízes do Brasil, p.161.
  • 29
    MONTEIRO, Pedro Meira.
    A queda do aventureiro, p.19.
  • 30
    GNERRE, Maria Lúcia.
    A tragédia da cordialidade: Antígona, o Estado e a família no 'homem cordial' de Raízes do Brasil. (texto inédito, doutorado da Unicamp).
    • 1 Dentre os trabalhos acadêmicos que abordaram a obra Raízes do Brasil destacamos o livro: MONTEIRO, Pedro Meira. A queda do aventureiro. Campinas: Editora Unicamp, 1999,
    • onde o autor procura investigar as afinidadesintelectuais de Sérgio Buarque com a sociologia compreensiva de Max Weber. Neste trabalho as metáforas são tratadas como tipos-ideais, de acordo com a perspectiva teórica de Weber. Há também o trabalho ainda inédito de CARVALHO, Marcus Vinicius Corrêa. Raízes do Brasil, 1936.
    • 2 Citado por HUIZINGA, Johan. El concepto de historia. México: F.C.E., 1992, p.54.
    • 3 HUIZINGA, Johan. El concepto de historia, p.55.
    • 4 HUIZINGA, Johan. El concepto de historia, p.41.
    • 6 SHIFF, Richard. Arte e vida: uma relação metafórica. In: SACHS, Sheldon (org.). Da Metáfora. Pontes, 1992.
    • 7 HOLANDA, Sérgio B. Visão do Paraíso. Rio de Janeiro: Cia. Editora Nacional, 1977.
    • 8 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1936, p.3.
    • 9 SUSSEKIND, Flora. Outra nota: comentário ao texto "nota breve sobre Sérgio crítico" de Antonio Arnoni Prado. In: Sergio Buarque de Holanda - 3ş Colóquio UERJ. Imago, 1992, p.141.
    • 10 HOLANDA, Sérgio B. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Cia das Letras, 1995.
    • 11 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.72.
    • 12 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.102.
    • 13 HOLANDA, Sérgio B. Ranke. São Paulo: Editora Ática, 1979.
    • 14 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.4.
    • 15 Estas são apenas as indicações de uma pesquisa que está em desenvolvimento. Contudo, devemos acrescentar que esta metáfora da fronteira, que de Ranke passa para Sérgio Buarque, também pode ser apreendida, embora um tanto modificada e sexualizada , na obra de FREYRE, G. Casa grande e senzala. Editora Record, 1992.
    • 16 HOLANDA, Sérgio Buarque. Elementos formadores da sociedade portuguesa à época dos descobrimentos. São Paulo: Escola Livre de Sociologia e Política, 1958. (tese de mestrado - mimeo)
    • 18 PRADO, Paulo. Retrato do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1997.
    • 19 PRADO, Paulo. Retrato do Brasil, p.79.
    • 20 FREYRE, G. Casa Grande e Senzala, p.245- 246.
    • 21 FREYRE, G. Casa Grande e Senzala, p.249.
    • 22 Um caso bastante curioso de sexualização no uso da metáfora encontrei recentemente em um texto muito curioso do crítico literário e poeta Haroldo de Campos, que joga com as palavras Vieira, Venera, Vênus mostrando que Vieira vem do latim veneria, uma certa concha, que por sua vez, remete a venerare (Venus, te rogo), que entra em aliteração com Vênus, que por sua vez é a corresponde latina da deusa grega Afrodite, que traz o sêmen em seu nome através do prefixo afros. Sem dúvida, toda esta paronomásia pode ser visualizada no famoso quadro de Botticelli, O nascimento de Vênus. Este texto de Haroldo de Campos encontra-se no livro organizado por J. FILHO, Luis Carlos Uchoa. Perturbador Mundo Novo. Editora Escuta, 1994.
    • 24 COUTO, Ribeiro. El hombre cordial, producto americano. Revista do Brasil , Rio de Janeiro 1985.
    • 25 RODÓ, José Enrique. Ariel. Campinas: Editora da Unicamp, 1991.
    • 26 Há um outro autor latino americano de origem cubana que entre as décadas de setenta e oitenta, voltou a tematizar o teatro Shakespereano de A Tempestade. Em RETAMAR, Roberto Fernandez. Caliban e outros ensaios. São Paulo: Busca Vida, 1988,
    • 27 Dentre os autores que já apontaram a dissolução das distâncias e das diferenças em Sérgio Buarque, destaco, principalmente, BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia. Das Letras, 1996,
    • 28 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.161.
    • 29 MONTEIRO, Pedro Meira. A queda do aventureiro, p.19.
    • 30 GNERRE, Maria Lúcia. A tragédia da cordialidade: Antígona, o Estado e a família no 'homem cordial' de Raízes do Brasil. (texto inédito, doutorado da Unicamp).

    1 Dentre os trabalhos acadêmicos que abordaram a obra Raízes do Brasil destacamos o livro: MONTEIRO, Pedro Meira. A queda do aventureiro. Campinas: Editora Unicamp, 1999, onde o autor procura investigar as afinidadesintelectuais de Sérgio Buarque com a sociologia compreensiva de Max Weber. Neste trabalho as metáforas são tratadas como tipos-ideais, de acordo com a perspectiva teórica de Weber. Há também o trabalho ainda inédito de CARVALHO, Marcus Vinicius Corrêa. Raízes do Brasil, 1936. Campinas: Unicamp, 1997 (tese de mestrado), onde o autor procura afinar as atitudes teóricas de Sérgio Buarque com a hermenêutica de W. Dilthey. Contudo, nestes trabalhos não há a preocupação literária de auscultar o ruído das metáforas em RdB. 2 Citado por HUIZINGA, Johan. El concepto de historia. México: F.C.E., 1992, p.54. 3 HUIZINGA, Johan. El concepto de historia, p.55. 4 HUIZINGA, Johan. El concepto de historia, p.41. 5 Outra vez nos valemos de Huizinga, quando este se refere às imagens do passado: "Pois bem, toda cultura tem como condição de vida o estar saturada até certo ponto do passado. Em toda a cultura vivem certas imagens da realidade de outro tempo que afetam a comunidade cultural de hoje e chegam ao coração. Estas imagens estão revestidas por princípio de diversas formas, sem que isto destrua o seu caráter comum, que é o de ser ' história' para a cultura da qual brotam. Segundo o tipo de cultura que necessita destas imagens de seu passado e segundo a atitude espiritual a que estas imagens respondem, adotam a forma de mito, de saga, de lenda, de crônica, de gesta ou de canção histórica. Para a cultura dentro da qual estas imagens brotam, para a cultura a que servem, todas elas representam, até certo ponto, aquilo que 'realmente aconteceu'. Não vêm preencher somente uma necessidade de vida, mas também um apetite de verdade (...). Pois bem, a forma de saber própria da cultura moderna com respeito ao passado, não é mais o mito, mas sim a ciência histórica" (p.38-39). Há também um outro modo de definir a história em Huizinga, que se assemelha ao modo como Sérgio também concebe a história. Assim se manifesta Huizinga: "Na realidade, o único que nos oferece a história é uma certa idéia de um passado, uma imagem inteligível, de um fragmento do passado. Não é nunca a reconstrução ou a reprodução de um passado dado. O passado nunca é dado. O único dado é a tradição (...). A imagem histórica surge quando se indagam determinadas conexões, cuja natureza se determina pelo valor que se lhes atribui (...). A história é sempre, no que se refere ao passado, uma maneira de dar-lhe forma e não pode aspirar a ser outra coisa" (p. 91-92). 6 SHIFF, Richard. Arte e vida: uma relação metafórica. In: SACHS, Sheldon (org.). Da Metáfora. Pontes, 1992. 7 HOLANDA, Sérgio B. Visão do Paraíso. Rio de Janeiro: Cia. Editora Nacional, 1977. 8 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1936, p.3. 9 SUSSEKIND, Flora. Outra nota: comentário ao texto "nota breve sobre Sérgio crítico" de Antonio Arnoni Prado. In: Sergio Buarque de Holanda - 3º Colóquio UERJ. Imago, 1992, p.141. 10 HOLANDA, Sérgio B. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Cia das Letras, 1995. 11 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.72. 12 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.102. 13 HOLANDA, Sérgio B. Ranke. São Paulo: Editora Ática, 1979. 14 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.4. 15 Estas são apenas as indicações de uma pesquisa que está em desenvolvimento. Contudo, devemos acrescentar que esta metáfora da fronteira, que de Ranke passa para Sérgio Buarque, também pode ser apreendida, embora um tanto modificada e sexualizada , na obra de FREYRE, G. Casa grande e senzala. Editora Record, 1992. Explica o sociólogo pernambucano: "A singular predisposição do português para a colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica-a em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África. Nem intransigentemente de uma nem de outra, mas de ambas. (...) A indecisão étnica e cultural entre a Europa e a África parece Ter sido sempre a mesma em Portugal como em outros trechos da Península. Espécie de bicontinentalidade que correspondesse em população vaga e incerta à bissexualidade no indivíduo". Aqui, a metáfora da fronteira íbero-africana irá adquirir um caráter sexual, erótico e étnico e será a chave de explicação para toda a hibrys e para todo excesso existente no mundo colonial português da América. 16 HOLANDA, Sérgio Buarque. Elementos formadores da sociedade portuguesa à época dos descobrimentos. São Paulo: Escola Livre de Sociologia e Política, 1958. (tese de mestrado - mimeo) 17 É sempre bom lembrar que no documento que, alegoricamente, representa a certidão de nascimento do Brasil já existe em bruto a metáfora da semeadura. Referimo-nos à famosa passagem da carta de Pero Vaz de Caminha, onde o escrevinhador assim se refere à missão do conquistador sobre as novas gentes: "Porém o melhor fruto,que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar". 18 PRADO, Paulo. Retrato do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1997. 19 PRADO, Paulo. Retrato do Brasil, p.79. 20 FREYRE, G. Casa Grande e Senzala, p.245- 246. 21 FREYRE, G. Casa Grande e Senzala, p.249. 22 Um caso bastante curioso de sexualização no uso da metáfora encontrei recentemente em um texto muito curioso do crítico literário e poeta Haroldo de Campos, que joga com as palavras Vieira, Venera, Vênus mostrando que Vieira vem do latim veneria, uma certa concha, que por sua vez, remete a venerare (Venus, te rogo), que entra em aliteração com Vênus, que por sua vez é a corresponde latina da deusa grega Afrodite, que traz o sêmen em seu nome através do prefixo afros. Sem dúvida, toda esta paronomásia pode ser visualizada no famoso quadro de Botticelli, O nascimento de Vênus. Este texto de Haroldo de Campos encontra-se no livro organizado por J. FILHO, Luis Carlos Uchoa. Perturbador Mundo Novo. Editora Escuta, 1994. 23 Na primeira edição de RdB, o artigo originalmente publicado na revista Espelho em 1935, Corpo e Alma do Brasil, vem a se transformar no capítulo do homem cordial. Como é bastante conhecido Sérgio Buarque utiliza da tragédia Antígoda de Sófocles para fazer alusão à separação da esfera privada, Antígona, e a esfera pública, o Estado, Creonte. Nele Antígona representaria o mundo antigo, onde os interesses privados invadiriam a esfera pública, ao passo que Creonte estaria representando o Estado moderno com a sua abstração e racionalidade legal. Nesta obra a oposição entre público e privado está projetada no tempo histórico pela oposição do tradicional e do moderno, do antigo e do novo. Recentemente, o crítico literário Luis Dantas em prefácio ao livro já citado anteriormente, A queda do aventureiro, nos dá uma interpretação muito inspirada do conflito entre Creonte e Antígona e que pode iluminar ainda mais os pares de oposição propostos por Sérgio Buarque em RdB, deixando subentendido que eles não são mutuamente excludentes. Segundo Dantas, na tragédia de Sófocles: "as duas esferas que se afrontam no drama não estão propriamente em conflito. Para Creonte, aquele que detém o poder da cidade, Antígona não é uma vítima a ser sacrificada em nome da razão do Estado, condição prévia para o triunfo; tampouco Antígona seria a porta-voz atardada do indivíduo e da estirpe, representando aos olhos de Creonte uma lei adversa ou estranha, conscientemente desprezada. A queda final de Antígona não significa que a intriga se resolveu conforme o conceito humano de justiça, nem a sobrevivência de Creonte, em meio ao vazio provocado por ele, uma expiação pelo sangue derramado. Não parece existir um conflito de caráter jurídico em torno de normas apenas. Os protagonistas (...) pertencem a dois reinos distintos, a duas esferas contrastantes, acham-se separados, no fundo e na forma, por um abismo. A cidade de Creonte não triunfa simplesmente sobre o mundo extinto". 24 COUTO, Ribeiro. El hombre cordial, producto americano. Revista do Brasil , Rio de Janeiro 1985. 25 RODÓ, José Enrique. Ariel. Campinas: Editora da Unicamp, 1991. Assim o autor idealiza a figura de Ariel, extraída de A Tempestade de Shakespeare, como modelo para o homem latino-americano: "Ariel, gênio do ar, representa no simbolismo da obra de Shakespeare a parte nobre e alada do espírito. Ariel é o império da razão e do sentimento sobre os baixos espíritos da irracionalidade; é o entusiasmo generoso, o móvel elevado e desinteressado na ação, a espiritualidade da cultura; a vivacidade e a graça da inteligência - o término ideal a que ascende a seleção humana, corrigindo no homem superior os vestígios tenazes de Caliban, símbolo da sensualidade e torpeza, com o cinzel perseverante da vida" (p.14). 26 Há um outro autor latino americano de origem cubana que entre as décadas de setenta e oitenta, voltou a tematizar o teatro Shakespereano de A Tempestade. Em RETAMAR, Roberto Fernandez. Caliban e outros ensaios. São Paulo: Busca Vida, 1988, prefaciado por Darcy Ribeiro, Roberto Fernandez Retamar refunda o mito do homem latino-americano na figura, desta vez, de Caliban. Assim, o novo mito começa a ser talhado: "Nosso símbolo, então, não é Ariel, como pensou Rodo, mas Caliban,. Isso se torna particularmente claro para nós, mestiços que habitamos as mesmas ilhas onde morou Caliban: Próspero invadiu as ilhas, matou os nossos antepassados, escravizou Caliban e lhe ensinou sua língua para poder se entender com ele. Que outra coisa pode fazer Caliban senão empregar essa mesma língua - hoje não há outra - para amaldiçoar Próspero, para desejar que a 'peste rubra' o consuma? Não conheço outra metáfora mais adequada para a nossa situação cultural, para a nossa realidade. (...) O que é a nossa cultura senão a história , senão a cultura de Caliban. Quanto a Rodó, se de um lado confundiu os símbolos, como já foi dito, soube no entanto assinalar com clareza o maior inimigo que nossa cultura teve em sua época - e na nossa -, e que é muitíssimo mais importante" (p.29). 27 Dentre os autores que já apontaram a dissolução das distâncias e das diferenças em Sérgio Buarque, destaco, principalmente, BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia. Das Letras, 1996, Bosi nos adverte dos riscos da interpretação buarquiana e gilberto freyriana da aculturação: "Os vários modos da chamada assimilação luso-africana e luso-tupi adquirem, vistos por essa ótica, um relevo tal que acabam deixando em discreto ou subentendido segundo plano os aspectos estruturais e constantes de assenhoreamento e violência que marcaram a história da colonização (p.28). (...) Nos textos eruditíssimos de Sérgio Buarque uma sutil sublimação do bandeirismo, visto em feliz continuidade com os processos de aclimação do português à terra, relativiza o contexto de agressão e defesa que definiu objetivamente as incursões dos paulistas e as reações que os indígenas e missionários lhes opuseram. (...) Os exemplos de cultura material apontados ad nauseam como exemplos de adaptação do colonizador ao colonizado não deveriam ser chamados a provar mais do que podem. Ilustram o uso e abuso do nativo e do africano pelo português tanto no nível econômico global quanto nos hábitos enraizados na corporeidade. Deve o estudioso brasileiro competir com outros povos irmãos para saber quem foi melhor colonizado? Não me parece que o conhecimento justo do processo avance por meio desse jogo inconsciente e muitas vezes ingênuo de comparações que necessariamente favoreçam o nosso colonizador" (p.29). Ainda mais intrigante é a observação de Bosi ao uso da metáfora da semeadura feita por Sérgio Buarque: "Em abono de sua leitura e subscrevendo a apologia que Júlio de Mesquita Filho faz da colonização portuguesa nos seus Estudos sul-americanos, chega o autor de Raízes do Brasil a comparar a plasticidade dos lusitanos ao grão de trigo do Evangelho que aceita anular-se até a morte para dar muitos frutos. Como poderiam suspeitar os negros presos no eito e os índios caçados na selva que os senhores de engenho e os bandeirantes estivessem cumprindo com eles algum rito sacrificial em que a vítima imolada era o próprio branco?" (p.29). 28 HOLANDA, Sérgio B. Raízes do Brasil, p.161. 29 MONTEIRO, Pedro Meira. A queda do aventureiro, p.19. 30 GNERRE, Maria Lúcia. A tragédia da cordialidade: Antígona, o Estado e a família no 'homem cordial' de Raízes do Brasil. (texto inédito, doutorado da Unicamp).

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      04 Jan 2008
    • Data do Fascículo
      Dez 2006

    Histórico

    • Aceito
      02 Mar 2006
    • Recebido
      02 Mar 2006
    Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
    E-mail: variahis@gmail.com
    Accessibility / Report Error