Acessibilidade / Reportar erro

Na ausência de luz, o farol da mobilização Nursing Now iluminando o porvir* * Este editorial refere-se à chamada temática “Nursing Now and Nursing in the Future”.

Estamos a caminho da emancipação da Enfermagem.

Desde o início de nossa atuação nesta profissão, há mais de 50 anos, percebíamos seu contexto de subordinação e acato, sem limites, de ordens de outros profissionais - especialmente de médicos.

Durante algum tempo, nos primeiros anos de nossa carreira, testemunhamos fatos que evidenciavam que muitas enfermeiras não só concordavam com essa situação, mas também conduziam seus pares e alunos de enfermagem a tomarem atitudes que harmonizassem seu desempenho nos serviços de saúde tendo por base essa subserviência.

Com clareza, sentíamos também que alguns colegas, apesar de se enquadrarem a essas circunstâncias, não se mostravam confortáveis diante de tanta dependência. Algumas vezes presenciamos conflitos e até rebeldia da parte que se sentia dominada. Por outro lado, uma parcela das enfermeiras procurava demonstrar a importância de seu trabalho no âmbito da saúde, além de expressar suas convicções sobre a necessidade de interdependência em relação aos demais profissionais. Entretanto, em geral, elas demonstravam facilidade de ajustar-se a disciplina, rotinas e rigorosa observância de determinações organizacionais a ponto de transformá-las de meios para fins em si mesmas, provocando rigidez e formalismos desmedidos em suas ações(11 Trevizan MA. Enfermagem hospitalar: administração & burocracia. Brasília: Editora UnB; 1988.).

Considerávamos traumática essa realidade da Enfermagem: assim afirmamos porque, um acontecimento pode ser indutor de trauma se causar apreensão excessiva, desrespeito a crenças e valores, além de violação de expectativas frente a uma profissão, sufocando os recursos cognitivos e causando respostas emocionais inadequadas. Com essa restrição cognitiva e fragilidade comportamental, os profissionais apresentavam desempenho aquém de suas competências, dificultando a tomada de decisões.

Estávamos cientes de que transformações nessa dinâmica começavam a ser vislumbradas.

No entanto, apesar de mudanças progressivas principalmente no ensino, na evolução científica e tecnológica, na criação e desenvolvimento de especialidades, muito pouco foi alterado no comportamento e na atitude do enfermeiro, em relação a sua valorização, liderança e seu engajamento político tendo em vista a necessidade, o benefício e a relevância social da profissão.

Até agora o papel do enfermeiro permanece incompreensível. Essa obscuridade, essa incapacidade de se perceber a qualificação e os atributos que habilitam o trabalho desse profissional, é originalmente proveniente em grande parte da equipe de saúde, incluindo os próprios enfermeiros e, por conseguinte, da sociedade. Mas passado tanto tempo, é chocante admitir que a subutilização profissional do enfermeiro, que constatamos há quase quatro décadas(22 Trevizan MA, Mendes IAC, Favero N. Subutilização do preparo profissional do enfermeiro. Rev Gaúcha Enferm. 1984 [Acesso 25 mai 2020];5(1):101- 11. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/RevistaGauchadeEnfermagem/article/view/3257/43273
https://seer.ufrgs.br/RevistaGauchadeEnf...
), ainda é real, conforme acaba de ser apontado por respeitáveis e notáveis líderes(33 All-Party Parliamentary Group on Global Health (APPG). Triple impact: how developing nursing will improve health, promote gender equality and support economic growth. London: All-Party Parliamentary Group on Global Health; 2016 [cited May 25, 2020]. Available from: https://www.who.int/hrh/com-heeg/digital-APPG_triple-impact.pdf). Nossa concepção, também aceita por outros autores(44 Salvage J, Stilwell B. Breaking the silence: a new story of nursing. J Clin Nurs. 2018;27(7-8):1301-3. doi: 10.1111/jocn.14306
https://doi.org/10.1111/jocn.14306...
-55 Mitchell PM. Nursing science and health policy- opportunities in the year of the nurse and midwife. Int Nurs Rev. 2020;67(1):1-3. doi: 10.1111/inr.12577
https://doi.org/10.1111/inr.12577...
) é a de que a eficiência e a eficácia do enfermeiro prosseguem ocultas, invisíveis.

Assim, em consequência dessa ausência de luz, da falta de visão e de inteligibilidade frente a Enfermagem, há o desprestígio em torno da profissão. A sociedade ainda não considera o mérito, a necessidade e a legitimidade do enfermeiro: confere a ele a condição de um profissional quase desconhecido; ela não visualiza a essência e a excelência de sua atuação na área da saúde e, em decorrência dessa falta de clareza, não há a devida valorização e nem o justo reconhecimento do seu trabalho tanto por parte dos agentes da saúde, quanto por parte da coletividade.

A distinção dos relevantes serviços prestados por esse profissional precisa urgentemente ser evidenciada(66 Trevizan MA, Mendes IAC. Administration of patient care: theoretical aspects. Int Nurs Rev. 1993 [cited May 25, 2020];40(1):25-8. Available from: https://pdfs.semanticscholar.org/eb74/dda3a14f45d92a98fbd87c9a72c01f466dec.pdf?_ga=2.153787453.481196755.1589149382-353432712.1589149382
https://pdfs.semanticscholar.org/eb74/dd...
)!

Esses argumentos têm sido primordiais nos documentos-base que sustentam a Campanha Nursing Now(77 Crisp N, Iro E. Nursing Now campaign: raising the status of nurses. Lancet. 2018;391(10124):920-1. doi: 10.1016/S0140-6736(18)30494-X
https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)30...
-88 The Lancet. The status of nursing and midwifery in the world. Lancet. 2020;395:1167. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30821-7
https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30...
), nos quais são abordados dilemas e desafios que mobilizaram lideranças de governos e de organismos internacionais para ações convergentes, perante a visão de que sem enfermeiras e obstetrizes não haverá alicerce e estrutura funcional para o pleno cuidado á saúde, pois ambas são essenciais para a implementação da agenda de desenvolvimento sustentável e cobertura universal de saúde. Nessa perspectiva está expressa a conclusão de que a superação desse entrave requer investimentos em educação, em políticas de valorização que sejam convertidas em melhores condições de trabalho, salários decentes, respeito, autonomia e, então, a adoção de estratégias capazes de vencer a escassez, incentivar vocações atraindo jovens talentos e ainda preservar os recursos humanos valiosos que já escolheram a profissão e merecem reconhecimento.

A previsão é a de que os serviços de saúde existentes somente serão mantidos se a força de trabalho, hoje quantificada em 27,9 milhões de profissionais de enfermagem e obstetrícia(99 World Health Organization (WHO). State of the world's nursing 2020: investing in education, jobs and leadership. Geneva (CH): World Health Organization; 2020.), receber investimento, incentivos para retenção e renovação. Há evidências da necessidade de expansão de pelo menos 4,7 milhões nos próximos dez anos. Ressalte-se que essa ampliação foi estimada num cenário de relativa estabilidade, quando da conclusão do levantamento de dados para o Relatório sobre o Estado Global da Enfermagem(99 World Health Organization (WHO). State of the world's nursing 2020: investing in education, jobs and leadership. Geneva (CH): World Health Organization; 2020.). Entretanto, com as turbulências devastadoras como a da COVID-19, em que a perda de vidas resvala significativamente também nos profissionais e alunos de enfermagem e de saúde, esse déficit já está ultrapassado, não obstante o recentíssimo lançamento desse primeiro relatório(99 World Health Organization (WHO). State of the world's nursing 2020: investing in education, jobs and leadership. Geneva (CH): World Health Organization; 2020.) em 6 de abril de 2020 pela Organização Mundial de Saúde, pelo Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN) e pela Campanha Nursing Now.

A mudança de paradigma que se vislumbra com a Campanha Nursing Now exige evidências que convençam governos e empregadores a investirem mais e melhor nos recursos humanos de enfermagem e a adotarem políticas inclusivas, em âmbitos governamentais e organizacionais, nos setores público e privado. Em assim sendo, conquistem espaço para que enfermeiras tenham voz ativa na formulação de políticas de saúde e que, ao invés de serem apenas aquelas que sempre garantem e fazem garantir a implementação de políticas de saúde - creditadas invariavelmente a outros profissionais - passem a ter posição assegurada nas mesas deliberativas, que sejam incluídas e ouvidas nas suas formulações, demonstrem sua contribuição nesse nível decisório e político, valham-se de sua visão e sua experiência para traçar a definição estratégica e operacional adequada e factível para cada contexto.

Em alinhamento com as organizações internacionais, que esse novo conceito de valor reflita-se no recrutamento de enfermeiras para cargos de liderança.

Sabemos que liderança faz diferença!

Para que as enfermeiras, cônscias e com convicção, possam adquirir habilidades, ter melhor compreensão e aprimorarem o desenvolvimento de seu potencial de liderança, devem considerar suas próprias peculiaridades, reconhecer seus valores e admitir a necessidade de esforço para assumir e cumprir certos requisitos e condições para o alcance da posição de líder. Assumida a posição, saber estar sempre vigilante para com o contínuo desenvolvimento de suas competências, solidificando os conhecimentos já adquiridos, dedicando-se ao mesmo tempo à formação de novos líderes. Mobilizar essas lideranças para aprimoramento contínuo faz parte de seu papel, como representante da Enfermagem na instância decisória da organização à qual está vinculada: e é nessa esfera que ela apresentará propostas que visem o estabelecimento de uma política e de estratégias de desenvolvimento contínuo de pessoal em busca de qualidade, inovação e autonomia. E nessa mesma instância ela apresentará resultados e impacto do investimento na qualidade, demonstrando a eficácia dos serviços de enfermagem para a assistência aos pacientes e a eficiência para o envolvimento dos profissionais. Em assim agindo, passará a contar com apoio de outros profissionais, desencadeando projetos interprofissionais e contribuindo para a cultura de inovação nos processos de trabalho, num ambiente organizacional positivo e de valor aos seus componentes. Ao acionar esse processo de mudança, colocando-o em movimento e atuando como ativadora de projetos, programas e processos, essa enfermeira-líder e seus apoiadores projetam uma nova imagem profissional que se reflete por toda a organização, inspira reproduções pelos pares em outros ambientes de saúde capilarizando, aos poucos, para a sociedade.

Propósitos como esses em todos os setores da prática de enfermagem, em diversas conjunturas, são extremamente válidos, bem-vindos, fortalecem individual e coletivamente, empoderam os profissionais e a profissão, mas sua validação depende de autoridade, legitimidade associada a uma posição oficial - somente conferida pelo poder de posição, tal como recomendada pelo Conselho Internacional de Enfermeiros e pela Organização Mundial da Saúde: a posição de Enfermeira-Chefe Oficial de Governo, no mais alto nível dos Ministérios de Saúde.

E aqui está nosso desafio: qual a razão de não termos ainda a posição de Enfermeira-Chefe Oficial de Governo em alguns países?

A resposta primordial é ausência de liderança, da qual decorrem diretamente entraves políticos que só podem ser superados `a medida em que tivermos desenvolvido, coletivamente, liderança expressiva capaz de convencer Ministérios de Saúde a seguir recomendação da OMS.

  • *
    Este editorial refere-se à chamada temática “Nursing Now and Nursing in the Future”.

References

  • 1
    Trevizan MA. Enfermagem hospitalar: administração & burocracia. Brasília: Editora UnB; 1988.
  • 2
    Trevizan MA, Mendes IAC, Favero N. Subutilização do preparo profissional do enfermeiro. Rev Gaúcha Enferm. 1984 [Acesso 25 mai 2020];5(1):101- 11. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/RevistaGauchadeEnfermagem/article/view/3257/43273
    » https://seer.ufrgs.br/RevistaGauchadeEnfermagem/article/view/3257/43273
  • 3
    All-Party Parliamentary Group on Global Health (APPG). Triple impact: how developing nursing will improve health, promote gender equality and support economic growth. London: All-Party Parliamentary Group on Global Health; 2016 [cited May 25, 2020]. Available from: https://www.who.int/hrh/com-heeg/digital-APPG_triple-impact.pdf
  • 4
    Salvage J, Stilwell B. Breaking the silence: a new story of nursing. J Clin Nurs. 2018;27(7-8):1301-3. doi: 10.1111/jocn.14306
    » https://doi.org/10.1111/jocn.14306
  • 5
    Mitchell PM. Nursing science and health policy- opportunities in the year of the nurse and midwife. Int Nurs Rev. 2020;67(1):1-3. doi: 10.1111/inr.12577
    » https://doi.org/10.1111/inr.12577
  • 6
    Trevizan MA, Mendes IAC. Administration of patient care: theoretical aspects. Int Nurs Rev. 1993 [cited May 25, 2020];40(1):25-8. Available from: https://pdfs.semanticscholar.org/eb74/dda3a14f45d92a98fbd87c9a72c01f466dec.pdf?_ga=2.153787453.481196755.1589149382-353432712.1589149382
    » https://pdfs.semanticscholar.org/eb74/dda3a14f45d92a98fbd87c9a72c01f466dec.pdf?_ga=2.153787453.481196755.1589149382-353432712.1589149382
  • 7
    Crisp N, Iro E. Nursing Now campaign: raising the status of nurses. Lancet. 2018;391(10124):920-1. doi: 10.1016/S0140-6736(18)30494-X
    » https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)30494-X
  • 8
    The Lancet. The status of nursing and midwifery in the world. Lancet. 2020;395:1167. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30821-7
    » https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30821-7
  • 9
    World Health Organization (WHO). State of the world's nursing 2020: investing in education, jobs and leadership. Geneva (CH): World Health Organization; 2020.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Out 2020
  • Data do Fascículo
    2020
Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto / Universidade de São Paulo Av. Bandeirantes, 3900, 14040-902 Ribeirão Preto SP Brazil, Tel.: +55 (16) 3315-3451 / 3315-4407 - Ribeirão Preto - SP - Brazil
E-mail: rlae@eerp.usp.br