Open-access Qualidade de vida das pessoas com vírus da imunodeficiência humana e parcerias soroconcordantes e sorodiscordantes

RESUMO

Objetivos:  avaliar a qualidade de vida das pessoas com HIV com parcerias soroconcordantes e sorodiscordantes.

Métodos:  estudo transversal, realizado em três ambulatórios com 190 pessoas com HIV (95 com parcerias soroconcordantes e 95 sorodiscordantes), utilizando-se formulário de caracterização e instrumento de avaliação da qualidade de vida. Realizaram-se estatística descritiva e associações entre variáveis, considerando-se estatisticamente significante valor de p<0,05.

Resultados:  a maioria teve percepção superior da qualidade de vida, sem diferença entre grupos. O sexo feminino teve escores inferiores em todos os domínios. Variáveis associadas à qualidade de vida insatisfatória foram ter filhos, morar com mais de três pessoas, desemprego, renda menor que um salário mínimo, linfócitos TCD4+ menores que 350 células/mm3, carga viral detectável, não aceitar diagnóstico, estigma, passagem pelo sistema prisional e insatisfação com o acompanhamento em saúde.

Conclusões:  a percepção da qualidade de vida foi superior para a maioria dos soroconcordantes e sorodiscordantes, sem diferença entre grupos.

Descritores:
HIV; Qualidade de Vida; Parceiros Sexuais; Enfermagem; Promoção da Saúde.

ABSTRACT

Objectives:  to assess quality of life of people with HIV with seroconcordant and serodiscordant partnerships.

Methods:  a cross-sectional study, carried out in three outpatient clinics with 190 people with HIV (95 with seroconcordant and 95 serodiscordant partnerships), using characterization form and quality of life assessment instrument. Descriptive statistics and associations among variables were performed, considering p-value<0.05 as statistically significant.

Results:  the majority had a higher perception of quality of life, with no difference between groups. Females had lower scores in all domains. Variables associated with unsatisfactory quality of life were having children, living with more than three people, unemployment, income below the minimum wage, CD4+T lymphocytes below 350 cells/mm3, detectable viral load, not accepting diagnosis, stigma, time in the prison system and dissatisfaction with healthcare follow-up.

Conclusions:  perceived quality of life was higher for most seroconcordant and serodiscordant individuals, with no difference between groups.

Descriptors:
HIV; Quality of Life; Sexual Partners; Nursing; Health Promotion

RESUMEN

Objetivos:  evaluar la calidad de vida de personas con VIH con parejas seroconcordantes y serodiscordantes.

Métodos:  estudio transversal, realizado en tres consultorios externos con 190 personas con VIH (95 con parejas seroconcordantes y 95 parejas serodiscordantes), utilizando un formulario de caracterización y un instrumento de evaluación de la calidad de vida. Se realizó estadística descriptiva y asociaciones entre variables, considerándose como estadísticamente significativo un valor p<0,05.

Resultados:  la mayoría tuvo una percepción superior de calidad de vida, sin diferencias entre los grupos. Las mujeres obtuvieron puntuaciones más bajas en todos los dominios. Las variables asociadas a calidad de vida insatisfactoria fueron tener hijos, vivir con más de tres personas, desempleo, ingresos menores a un salario mínimo, linfocitos TCD4+ menores a 350 células/mm3, carga viral detectable, no aceptar el diagnóstico, estigma, tiempo en el sistema penitenciario e insatisfacción con la atención en salud.

Conclusiones:  la percepción de calidad de vida fue superior para la mayoría de los individuos seroconcordantes y serodiscordantes, sin diferencias entre los grupos.

Descriptores:
VIH; Calidad de Vida; Parejas Sexuales; Enfermería; Promoción de la Salud

INTRODUÇÃO

O diagnóstico da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) envolve inicialmente a aceitação da sorologia, que pode associar-se à culpa, medo e decepção(1,2). O diagnóstico precoce possibilita o início da terapia antirretroviral (TARV), que proporciona a supressão viral, redução da mortalidade e aumento da sobrevida(3-5). A carga viral indetectável é intransmissível(6), mas podem ocorrer casos de falha da supressão sustentada e a carga viral tornar-se detectável novamente(7), o que mostra a importância da sua monitorização(8) e do uso dos métodos da prevenção combinada para reduzir a incidência do HIV(9).

A adesão adequada à TARV melhora a qualidade de vida (QV) das pessoas com HIV(3,4). A QV é a percepção do indivíduo sobre sua posição na vida, contexto de cultura e sistema de valores em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações(10). Pode ser mensurada por meio de instrumentos, mas existe um específico para pessoas com HIV, que avalia a QV de forma multidimensional, por meio dos domínios físico, psicológico, nível de independência, relações sociais, meio ambiente, espiritualidade/religião/crenças pessoais(10). A QV das pessoas com HIV pode ser prejudicada pelo estigma nas relações afetivas e sexuais, medo do abandono e rejeição por revelar o diagnóstico(11-13). A sexualidade influencia a QV, pois a sorologia anti-HIV positiva pode diminuir o envolvimento afetivo, pelo risco de transmissão às parcerias(14). Assim, as pessoas com HIV precisam de orientações sobre suas parcerias sexuais e a importância da carga viral indetectável, a fim de melhorar os aspectos da saúde sexual e a capacidade de revelar o diagnóstico(15).

Ressalta-se a influência dos relacionamentos para a QV dessa população, pois ter um(a) companheiro(a) pode significar maior suporte social e melhor QV(16). Também é importante avaliar a QV das pessoas com HIV com diferentes tipos de parcerias sexuais, sejam elas soroconcordantes ou sorodiscordantes, pois estudo identificou que a QV foi melhor no grupo sem o vírus, o que denota que as pessoas com HIV podem ter uma QV insatisfatória, quando comparadas à população geral(12).

Considerando-se os avanços alcançados com a TARV(3,4) e seus efeitos na QV(14,16), torna-se relevante avaliar a QV das pessoas com HIV com parcerias soroconcordantes e sorodiscordantes. Apesar de haver estudos sobre a temática(16-18) e que comparam sorodiscordantes e soroconcordantes(12,19), pesquisas atualizadas sobre a QV em diferentes regiões geográficas são importantes, especialmente após a pandemia de coronavírus-19 (COVID-19), que reestruturou alguns serviços de saúde(20). Essas análises podem detectar os aspectos da vida mais afetados pela doença e ajudar os profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas a direcionarem melhor suas ações(21). Diante do exposto, a hipótese deste estudo é que as pessoas com HIV com parceria sorodiscordante tenham uma QV mais insatisfatória que as soroconcordantes.

OBJETIVOS

Avaliar a QV de pessoas com HIV com parcerias sexuais soroconcordantes e sorodiscordantes.

MÉTODOS

Aspectos éticos

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará e instituições coparticipantes. Seguiu-se a Resolução n° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Desenho, período, local do estudo, população e amostra

Trata-se de estudo transversal, segundo as recomendações do STrengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology(22). A coleta de dados ocorreu de janeiro de 2022 a dezembro de 2023. O estudo foi realizado em três ambulatórios públicos de infectologia em Fortaleza, Ceará, Brasil, os quais são referência no atendimento às pessoas com HIV na região Nordeste. A população foi composta por pessoas com HIV que tivessem parceria fixa ou eventual, soroconcordante ou sorodiscordante. Para cálculo amostral, considerou-se a variação na pontuação do instrumento de QV(10) entre pessoas com HIV com parceria soroconcordante e sorodiscordante, nível de confiança de 95%, poder de 80% e diferença de 7% nas pontuações entre os dois grupos, utilizando-se a fórmula abaixo para comparação de médias:

N = ( σ 1 2 + σ 2 2 ) ( Z a / 2 + Z 1 - β ) 2 ( μ 2 - μ 1 ) 2

A amostra foi de 90 participantes por grupo. Devido à assimetria de valores obtidos em escalas, foi utilizada a correção de Pitman, calculando-se 95 participantes por grupo, com o total de 190 pessoas com HIV. A amostragem foi não probabilística por conveniência. Critérios de inclusão abrangeram pessoas com HIV de ambos os sexos, maiores de 18 anos, sexualmente ativas, com parceria sexual fixa ou eventual, soroconcordante ou sorodiscordante. Critérios de exclusão abrangeram gestantes.

Protocolo do estudo

As pessoas com HIV foram convidadas a participar da pesquisa enquanto aguardavam a consulta médica que ocorre de forma semestral. O estudo foi explanado, e aqueles que concordaram em participar assinaram o TCLE. A entrevista foi realizada em consultório privativo, com duração média de 30 minutos, utilizando-se dois instrumentos. O Formulário de Caracterização Sociodemográfica, Clínica, Epidemiológica e de Vulnerabilidade para Pessoas com HIV(23) incluiu as seguintes variáveis: idade; sexo; escolaridade; estado civil; situação ocupacional; número de pessoas no domicílio; renda mensal familiar; tempo de diagnóstico e de TARV; orientação sexual; reside com parceria; sorologia da parceria; número de filhos; contagem de linfócitos T CD4+; carga viral; aceitação do diagnóstico; vivência de estigma; passagem pelo sistema prisional; e satisfação com o serviço de saúde.

O instrumento de avaliação da QV, o World Health Organization Quality of Life Instrument - HIV/aids module (WHOQOL-HIV-Bref), foi desenvolvido por pesquisadores vinculados à Organização Mundial da Saúde na língua portuguesa validada no Brasil(10). O questionário original tem 120 perguntas, 29 facetas e uma faceta sobre QV geral e percepção geral de saúde, e seis domínios: I. Físico (dor, desconforto, energia, fadiga, sono, descanso); II. Psicológico (sentimentos positivos e negativos, cognição, autoestima, imagem corporal, aparência); III. Nível de independência (mobilidade, atividades de vida diária, dependência de medicação e tratamentos, aptidão ao trabalho); IV. Relações sociais (relacionamentos pessoais, apoio social, atividade sexual); V. Meio ambiente (segurança física, moradia, finanças, acesso à saúde e assistência social, capacidade de adquirir informações e aprender novas habilidades, lazer, ambiente físico, transporte); VI. Espiritualidade/religião/crenças (perdão, culpa, preocupações sobre o futuro, morte e morrer)(10).

Neste estudo, utilizou-se a versão abreviada do instrumento, o WHOQOL-HIV-Bref, com 31 perguntas e seis domínios, e as facetas sobre QV geral e percepção geral de saúde(10). As questões são pontuadas em escala tipo Likert de 5 pontos, em que 1 indica percepção baixa e negativa, e 5, a percepção alta e positiva acerca da QV. Os escores variam de 4 a 20 pontos, refletindo a pior e a melhor percepção da QV, respectivamente. A QV das pessoas com HIV foi estratificada em insatisfatória e satisfatória, conforme a pergunta 1 do WHOQOL-HIV-Bref(10). A caracterização da percepção da QV por escores dos domínios ocorreu da seguinte forma: 4 - 9,9 (inferior); 10 - 14,9 (intermediária); e 15 - 20 (superior)(24,25). Escores mais baixos indicam uma percepção mais inferior da QV(26).

Análise dos dados e estatística

A análise exploratória constou de testes estatísticos descritivos, frequências absolutas e relativas, médias, medianas, e desvios padrão. O teste de normalidade de Shapiro-Wilk foi utilizado para verificar a distribuição de escores. Dependendo dos resultados de homogeneidade de variância e aderência à distribuição normal, aplicaram-se, para casos de não normalidade, o teste de Mann-Whitney, para comparar postos médios entre variáveis constituídas de dois grupos, o teste de Kruskal-Wallis, para aquelas com mais de dois grupos, e o teste de Dunn, para comparações post-hoc. Para associar as variáveis e os escores dos domínios do WHOQOL-HIV-Bref, aplicaram-se o teste qui-quadrado, teste exato Fisher ou teste de Fisher-Freeman-Halton, e o teste z, para comparações post-hoc. O nível de significância foi estabelecido em 5%, considerando-se estatisticamente significante o valor de p<0,05. O software Statistical Package for the Social Sciences, versão 23.0, foi utilizado para análises.

RESULTADOS

Da amostra total de 190 pessoas com HIV, a maioria era do sexo masculino (138; 72,7%), com cor da pele autorreferida parda (67,3%), casada/união estável (54,2%), sem filhos (59,4%), com emprego (55,2%), renda mensal maior que um salário mínimo (64,2%), heterossexual (51,6%), da categoria de exposição sexual (93,1%) e morava com parceria (54,8%). A maioria tinha contagem de linfócitos T CD4+ maior que 350 células/mm3 (84,8%), carga viral indetectável (87,9%), aceitava o diagnóstico (90%) e estava satisfeita com o acompanhamento em saúde (93,1%). Alguns tinham tempo de diagnóstico (51,6%) e de TARV (56,9%) menor que oito anos, sofriam estigma/preconceito (24,2%), mantinham relação sexual por dinheiro/drogas (12,7%) e tinham passagem pelo sistema prisional (2,6%).

A idade variou de 21 a 65 anos, com médias e desvios padrão para soroconcordantes de 39,95 ± 10,61, e sorodiscordantes, de 35,82 ± 10,22. O número de anos de estudo variou de zero a 20, com medianas e intervalos interquartis para de 10 e 6, para soconcordantes, e 8 e 5, para sorodiscordantes. A renda mensal variou de R$150,00 a R$20.000,00, com medianas e intervalos interquartis para soconcordantes de 1.818,00 e 1.800,00, e para sorodiscordantes, de 2.000,00 e 2.400,00.

Os grupos de pessoas com HIV com parceria soroconcordante e sorodiscordante foram semelhantes em todos os domínios do WHOQOL-HIV-Bref, com dados não aderentes à distribuição normal (p<0,05). As medianas nos domínios para soroconcordantes foram 15,00 (I), 16,00 (II), 15,00 (III), 16,00 (IV), 14,50 (V) e 17,00 (VI). Para sorodiscordantes, esses valores foram 15,00 (I), 16,00 (II), 14,00 (III), 16,00 (IV), 15,00 (V) e 17,00 (VI). A maioria das pessoas com HIV teve uma percepção superior da QV, com análise similar entre aqueles com parceria sexual soroconcordante e sorodiscordante, não sendo verificada diferença estatisticamente significante. Na classificação da QV por domínio, não houve diferença entre pessoas com HIV soroconcordantes e sorodiscordantes, apenas uma tendência de significância estatística no domínio III (nível de independência), no qual os sorodiscordantes tiveram uma percepção mais intermediária da QV, comparados aos soroconcordantes (Tabela 1).

Tabela 1
Qualidade de vida das pessoas com HIV com parceria soroconcordante e sorodiscordante, valores dos postos médios por domínio (N=190), Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023

Como não houve diferença entre os grupos de soroconcordantes e sorodiscordantes, realizou-se uma análise com a amostra total por domínio do WHOQOL-HIV-Bref. Segundo os escores, considerando-se as 190 pessoas com HIV, teve-se, respectivamente, a mediana, intervalo interquartil e valor de p do: domínio I (15,00; 5,00; p<0,001); domínio II (16,00; 4,00; p<0,001); domínio III (15,00; 3,00; p<0,001); domínio IV (16,00; 3,00; p<0,001); domínio V (15,00; 2,60; p<0,002); domínio VI (17,00; 5,00; p<0,001). Os escores por domínio indicaram que a maioria tinha percepção superior da QV. Na análise da QV geral, pela primeira pergunta do instrumento, somente 21,6% da amostra teve QV insatisfatória (mediana: 4,00).

Na análise dos postos médios das variáveis sociodemográficas associadas aos domínios do WHOQOL-HIV-Bref, o sexo feminino teve escores inferiores nos domínios I (físico) (p=0,018), II (psicológico) (p=0,017), III (nível de independência) (p=0,021), IV (relações sociais) (p=0,036), V (meio ambiente) (p=0,008) e VI (espiritualidade/religião/crenças) (p=0,017). Aqueles com mais de 40 anos tiveram menores escores no domínio V (p=0,044). As pessoas com HIV com companheiro(a) tiveram escores inferiores nos domínios I (p=0,004) e V (p=0,013). Participantes com menos de oito anos de estudo tiveram escores inferiores no domínio III (p=0,031). Aqueles com filhos tiveram escores mais baixos nos domínios I (p=0,004), III (p=0,002), IV (p=0,002) e V (p<0,001) (Tabelas 2 e 3).

Tabela 2
Associação das variáveis sociodemográficas das pessoas com HIV e os postos médios dos domínios I, II e III do WHOQOL-HIV-Bref (N=190), Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023
Tabela 3
Associação das variáveis sociodemográficas das pessoas com HIV e os postos médios dos domínios IV, V e VI do WHOQOL-HIV-Bref (N=190), Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023

Os que moravam com mais de três pessoas tiveram escores inferiores nos domínios II (p=0,003), III (p=0,012), IV (p=0,021) e VI (p=0,022). As pessoas com HIV desempregadas e de licença/auxílio-doença tiveram escores inferiores aos empregados e aposentados nos domínios I (p<0,001), II (p<0,001), III (p<0,001), IV (p<0,001) e V (p<0,001). Ter renda menor que um salário mínimo foi associado a menores escores nos domínios I (p=0,003), II (p=0,029), III (p=0,003), IV (p<0,001) e V (p<0,001). Heterossexuais tiveram menores escores que os homossexuais nos domínios I (p=0,017), II (p<0,001), IV (p=0,042) e V (p=0,005) (Tabelas 2 e 3).

Na análise dos postos médios das variáveis clínicas e de vulnerabilidade dos domínios do WHOQOL-HIV-Bref, as pessoas com HIV com contagem de linfócitos T CD4+ menor que 350 células/mm3 tiveram percepção mais inferior da QV no domínio I (p=0,014), e aquelas com carga viral detectável tiveram escores mais baixos nos domínios I (p=0,016) e IV (p=0,016). Participantes que não aceitavam a sorologia anti-HIV positiva tiveram escores inferiores nos domínios I (p<0,001), II (p=0,001), III (p<0,001), IV (p<0,001), V (p<0,003) e VI (p<0,032). As pessoas com HIV que sofriam estigma/preconceito tiveram percepção mais inferior da QV nos domínios I (p=0,005), II (p=0,010), III (p<0,020), IV (p<0,001) e V (p<0,001). Quem passou pelo sistema prisional teve menores valores nos domínios IV (p=0,007) e V (p=0,018). Pessoas com HIV insatisfeitas com o acompanhamento em saúde tiveram escores inferiores de QV nos domínios I (p=0,019), II (p=0,048) e V (p=0,005) (Tabelas 4 e 5).

Tabela 4
Associação das variáveis clínicas e de vulnerabilidade das pessoas com HIV e postos médios dos domínios I, II e III do WHOQOL-HIV-Bref (N=190), Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023
Tabela 5
Associação das variáveis clínicas e de vulnerabilidade das pessoas com HIV e postos médios dos domínios IV, V e VI do WHOQOL-HIV-Bref (N=190), Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023

DISCUSSÃO

Este estudo avaliou a QV das pessoas com HIV e parcerias sexuais soroconcordantes e sorodiscordantes, constatando-se que a maioria tinha percepção superior da QV, sem diferença significante entre os grupos. Esse achado pode decorrer da TARV, que possibilita a supressão viral, reduz a mortalidade e aumenta a expectativa de vida(3,4). Ressalta-se que o controle imunológico é importante para que essas pessoas se relacionem sexualmente, sobretudo pelo risco de transmissão do vírus(14), além do estigma relacionado à infecção, que pode afetar negativamente a QV(13).

A perspectiva de que a carga viral indetectável seja igual à intransmissível indica que uma pessoa com HIV com carga viral suprimida não transmite sexualmente o vírus, porém há pouco conhecimento do percentual de indivíduos em nível populacional que sustentam a supressão viral a longo prazo(7,8). Pesquisa mostrou que, dos suprimidos, 54,3% mantinham a supressão viral e 33,6% tiveram falência virológica durante o estudo, e entre aqueles com falência virológica, 82,6% o fizeram seis ou mais meses após supressão consecutiva(8). Isso apoia a necessidade de monitorização contínua da carga viral, incentivo à TARV e orientação dos métodos de prevenção combinada(8,9).

Mesmo sem diferença significante na QV das pessoas com HIV soroconcordantes e sorodiscordantes, na análise da amostra total, algumas variáveis tiveram associação nos domínios do WHOQOL-HIV-Bref. O sexo feminino teve escores mais baixos em todos os domínios, apontando questões de gênero, em que as mulheres encontram barreiras em diversos aspectos da vida, sobretudo no socioeconômico(27), com menor renda e insegurança alimentar, que influenciam negativamente a QV(28). Outras variáveis associadas aos escores inferiores da QV, exceto pelo domínio VI (espiritualidade), foram o desemprego e renda menor que um salário mínimo, concordando com outro estudo, o qual observou que o desemprego interfere na QV das pessoas com HIV(29). Quanto à exceção do domínio VI, pode estar associado à importância do amparo religioso, visto que a religiosidade tem influência positiva na QV(29,30).

No domínio I (físico), ocorreram escores inferiores nas pessoas com HIV com companheiro(a), filhos e heterossexuais. A literatura mostra que ter um(a) companheiro(a) pode ser um suporte social, pois os casados tendem a apresentar melhores escores de QV(16-21). Ademais, o domínio I também engloba a satisfação com o sono, o qual pode estar prejudicado nos participantes com filhos, sendo os distúrbios do sono recorrentes nesse público(31). Quanto ao domínio II (psicológico), a variável morar com mais de três pessoas teve associação com escores inferiores de QV. Isso pode ocorrer pela menor renda per capita, pois esse domínio aborda a percepção do quanto se aproveita a vida(29).

No domínio III (nível de independência), ter menos de oito anos de estudo, ter filhos, morar com mais de três pessoas e ser heterossexual teve relação com escores inferiores de QV. Entre os aspectos abordados nesse domínio, tem-se a capacidade de trabalhar, que pode estar prejudicada pela menor escolaridade, desemprego e dificuldades de ascensão no mercado de trabalho, sobretudo pelo estigma devido ao HIV(32,33). Apesar dos menores escores no domínio III entre aqueles com filhos e que residiam com mais de três pessoas no domicílio, outro estudo não verificou diferença na QV das pessoas com HIV com e sem filhos, assim como entre aquelas com família conjunta ou nuclear(34).

No domínio IV (relações sociais), ter filhos, viver com três ou mais pessoas no domicílio e ser heterossexual foram variáveis associadas a escores inferiores da QV. Esse domínio aborda a satisfação com as relações pessoais e vida sexual. A infecção pelo HIV tem impacto negativo na vida das pessoas e suas famílias, de forma que pesquisa com mulheres HIV+ observou a separação familiar(35). Quanto à sexualidade, apesar dos escores inferiores da QV entre heterossexuais nesse domínio, as relações entre pessoas com HIV do mesmo sexo ainda enfrentam preconceitos, devido ao estigma e interseções de gênero, orientação sexual e cultura(36). A homofobia retarda o diagnóstico e reduz a testagem naqueles com maior nível de homofobia e sorologia desconhecida para o HIV, sendo a testagem maior entre aqueles sem preconceito nas relações entre pessoas do mesmo sexo(37).

No domínio V (meio ambiente), ter mais de 40 anos, ser heterossexual, ter companheiro(a) e filhos foram variáveis associadas a escores inferiores de QV. As pessoas com HIV de mais idade podem ter menos oportunidades de inserção no mercado de trabalho, e os mais jovens têm maior probabilidade para vínculo empregatício(33). Já os escores mais baixos entre heterossexuais no domínio V podem ter relação com a baixa disponibilidade de informações e acesso aos serviços de saúde, pois como não pertencem às populações vulneráveis, não são o foco das ações preventivas do HIV(38). Quanto a ter companheiro(a) e filhos, como o domínio V também aborda a segurança com a vida diária, recursos financeiros e lazer, destacam-se as questões socioeconômicas(29), pois o aporte financeiro contribui para adesão à TARV, alimentação saudável e acesso à saúde(39).

No domínio VI (espiritualidade), aqueles que viviam com três ou mais pessoas no domicílio tiveram escores inferiores. Como esse domínio aborda o medo do futuro, esses escores podem ocorrer pelas preocupações com o núcleo familiar, pois pessoas com HIV com filhos têm medo e estresse(35). Não aceitar o diagnóstico teve relação com menores escores de QV; sobre isso, os estudos mostram que o amparo religioso contribui no enfrentamento da infecção pelo HIV(40), influenciando positivamente a QV(30). Não aceitar a sorologia anti-HIV positiva teve associação a menores escores em todos os domínios do WHOQOL-HIV-Bref. A aceitação do diagnóstico é importante para adesão à TARV e relaciona-se à QV satisfatória(41), enquanto a negação pode acompanhar reações psicossociais negativas(2). As pessoas com HIV que sofriam estigma tiveram escores inferiores em quase todos os domínios da QV, exceto no VI (espiritualidade). Os eventos psicológicos associados ao HIV podem ocorrer pelo estigma, que influencia negativamente a QV(13,18), ressaltando-se a importância do suporte social(17).

No domínio I, as pessoas com HIV com menor contagem de linfócitos T CD4+, carga viral detectável e insatisfeitas com o acompanhamento em saúde tiveram escores inferiores, o que mostra importância do controle imunológico com a TARV(3,4). No domínio II, a menor satisfação com o acompanhamento em saúde teve relação com escores inferiores. Por abordar aspectos psicológicos, como satisfação pessoal e frequência de sentimentos negativos, observa-se a ocorrência de eventos depressivos em pessoas com HIV(42), que podem aumentar os comportamentos de risco(43). Quanto à insatisfação com os serviços de saúde, descentralizar o cuidado aumenta a satisfação dos usuários e melhora a adesão à TARV(44).

O domínio III teve escores inferiores para os que não aceitavam o diagnóstico e sofriam estigma. Esse domínio avalia a necessidade de tratamento percebida, mostrando que devem-se abordar a não aceitação da doença e o atraso no tratamento, pois a adesão à TARV é afetada pelo estigma(39), e aqueles que sofrem estigma têm mais problemas no mercado de trabalho(32,33). Nos domínios IV e V, as pessoas com HIV com carga viral detectável e passagem no sistema prisional tiveram escores inferiores de QV, inferindo-se que o estigma e o histórico penitenciário dificultam o acesso aos cuidados de saúde(45). Há risco aumentado de infecção pelo HIV em pessoas com antecedentes prisionais, pois o acesso à TARV e às medidas preventivas é um desafio nessas instituições(46).

Por fim, esses dados mostram a importância da assistência integral às pessoas com HIV. O acompanhamento dos exames laboratoriais e busca das metas de parâmetros de carga viral e contagem de linfócitos T CD4+ são atividades essenciais desempenhadas pela equipe de saúde. Porém, avaliar as pessoas com HIV, de forma global, pode proporcionar a obtenção de informações capazes de orientar sobre as práticas de educação em saúde, para o bem-estar desses indivíduos e daqueles com os quais se relacionam.

Limitações do estudo

Teve-se como limitação para realização do estudo a pandemia de COVID-19, a qual interferiu na coleta de dados, devido às restrições e alterações na dinâmica de trabalho nos serviços de saúde.

Contribuições para as áreas da enfermagem, saúde, ou políticas públicas

A pesquisa forneceu dados para a compreensão de diferentes fatores que influenciam a QV das pessoas com HIV. Destacou-se a satisfação com o acompanhamento em saúde, que mostra a importância das consultas de seguimento pela equipe multidisciplinar, sobretudo o enfermeiro, que tem um papel primordial nas práticas de educação em saúde. Ademais, os resultados do estudo podem auxiliar no desenvolvimento de intervenções individuais e coletivas capazes de melhorar a QV, bem como orientar os participantes quanto ao autocuidado e às estratégias de prevenção combinadas do HIV.

CONCLUSÕES

A maioria das pessoas com HIV teve QV satisfatória, sem diferença entre soroconcordantes e sorodiscordantes. Houve tendência de significância estatística no domínio III (nível de independência), em que aqueles com parceria sorodiscordante tiveram percepção mais intermediária da QV, comparados aos soroconcordantes. Ser do sexo feminino e não aceitar o diagnóstico teve associação à QV mais insatisfatória. Os desempregados, de licença/auxílio doença, com renda menor que um salário mínimo e que sofriam estigma tiveram escores inferiores de QV em quase todos os domínios, exceto espiritualidade/religião/crenças. Os heterossexuais, pessoas com mais de 40 anos, que viviam com companheiro(a), com menos de oito anos de estudo, que tinham filhos e mais de três pessoas no domicílio tiveram escores inferiores em vários domínios. As pessoas com HIV com contagem de linfócitos T CD4+ menor que 350 células/mm3, carga viral detectável, insatisfeitas com o acompanhamento em saúde e passagem no sistema prisional tiveram percepção mais inferior da QV. Esses dados mostram que apesar de a maioria dos participantes ter uma percepção superior da QV, ainda há aspectos que podem ser avaliados e trabalhados pela enfermagem e demais membros da equipe multiprofissional, visando ao bem-estar das pessoas com HIV e aos cuidados para não transmitir o vírus.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAL

Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

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  • EDITOR CHEFE:
    Dulce Barbosa
  • EDITOR ASSOCIADO:
    Rafael Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Nov 2024
  • Aceito
    04 Abr 2025
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