RESUMO
Objetivo: Objetivou-se descrever como fatores relacionados à ocupação profissional de mulheres impactam no desenvolvimento de depressão pós-parto.
Métodos: Trata-se de uma revisão sistemática realizada sob o protocolo PRISMA e registrada na plataforma PROSPERO (ID: CRD42022371262). A busca foi realizada nas bases de dados PubMED e SciELO, além das disponíveis na BVS, foram incluídos estudos observacionais publicados entre 2012-2024 nos idiomas português, inglês ou espanhol. A qualidade dos estudos foi avaliada a partir da escala ROBINS-I.
Resultados: Foram triados 1425 artigos e selecionados 23, a partir dos quais identificou-se que baixa satisfação, estresse psicossocial, exaustão, remuneração reduzida, alta carga, condições precárias e superinvestimento no trabalho são fatores ocupacionais que podem contribuir para a depressão pós-parto; além de desemprego, busca mal sucedida por trabalho e necessidade de deixar a ocupação para cuidar do recém nascido. Recompensas no trabalho e aumento da licença à maternidade foram descritos como fatores protetores para a depressão pós-parto.
Conclusão: Com base nas análises discutidas, há uma nítida associação entre o risco de depressão pós-parto em relação à situação ocupacional da mulher. Ainda, diante do caráter multifatorial na gênese desse transtorno, a situação ocupacional pode tornar-se fator desencadeador ou agravante da situação de saúde mental da mulher.
PALAVRAS-CHAVE
Período pós-parto; Emprego; Depressão; Depressão pós-parto; Transtornos mentais
ABSTRACT
Objective: The objective was to describe how factors related to the professional occupation of women impact the development of postpartum depression.
Methods: This is a systematic review conducted under the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses protocol in the PubMED, Scientific Electronic Library Online (SciELO) databases, in addition to those available on the Regional Virtual Health Library Portal, with a period of 2012-2024.
Results: 1425 articles were screened and 23 were selected, from which it was identified that low satisfaction, psychosocial stress, exhaustion, low pay, high load, precarious conditions and overinvestment in work are occupational factors that can contribute to postpartum depression; in addition to unemployment, unsuccessful search for work and the need to leave the occupation to take care of the newborn. Work rewards and increased maternity leave have been described as protective factors for postpartum depression.
Conclusion: Based on the analyzes discussed, there's a clear association between the risk of postpartum depression and the woman's occupational status. Still, given the multifactorial character in the genesis of this disorder, the occupational situation can become a triggering or aggravating factor of the woman's mental health situation.
KEYWORDS
Postpartum Period; Employment; Depression; Postpartum depression; Mental disorders
INTRODUÇÃO
A depressão é um transtorno mental comum e frequente entre mulheres em idade fertil1. A depressão pós-parto (DPP) é caracterizada pela CID-11 por sintomas depressivos leves e transitórios que podem se manifestar após o parto2, e acomete entre 10% e 20% das mães no primeiro ano pós parto3. O estado de tristeza, choro e desânimo pode afetar gravemente as mulheres e dificultar que retornem às suas atividades após o parto, além de prejudicar a relação maternal com o recém nascido, com consequência negativa para o desenvolvimento cognitivo e emocional infantil1,3,4.
O trabalho relaciona-se à saúde mental, nesse sentido, estudos com gestantes evidenciaram que a prevalência de depressão naquelas que deixaram de trabalhar em comparação às que permaneceram trabalhando foi maior5. Revisões sistemáticas também já estabeleceram associações entre problemas financeiros e transtornos mentais no período pós-parto, ao identificar a falta de dinheiro como um fator de risco para a depressão6,7. Sobre isso, identificou-se a prevalência de 19,8% de transtornos mentais comuns em mulheres de baixa renda no pós-parto, cuja gravidade foi associada à desvantagem econômica 6, bem como que a preocupação com as finanças eleva o risco de depressão e que a educação pode diminuí-lo7. Enfatiza-se ainda serem necessárias mais pesquisas sobre a relação entre recursos econômicos, maternidade e saúde mental das mulheres no pós-parto7.
Esses achados sugerem que não retornar ao trabalho após o parto pode ser uma condição causadora de desfechos negativos, tanto financeiramente, quanto no desenvolvimento de depressão. A literatura atual, contudo, carece de sistematizações abrangentes que considerem outros fatores ocupacionais além do aspecto financeiro e suas repercussões na DPP. Reconhecer esses fatores é fundamental para a formulação de estratégias que minimizem os desencadeantes negativos e aumentem os fatores protetivos, visando prevenir a DPP. Isso tem implicações diretas na saúde mental da mulher, na sua qualidade de vida e no vínculo mãe-filho, influenciando também o desenvolvimento da criança. Nesta perspectiva, este estudo tem como objetivo descrever como diferentes aspectos da ocupação profissional das mulheres impactam no desenvolvimento da DPP, destacando a relevância social de compreender e abordar essas questões para melhorar o bem-estar materno e infantil.
MÉTODO
Trata-se de uma revisão sistemática de literatura, que dispensa aprovação de comitê de ética, conduzida a partir do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA, 2020)8 e registrada na plataforma PROSPERO - International prospective register of systematic reviews9 (ID: CRD42022371262). Definiu-se a seguinte questão de investigação: "Como fatores relacionados à ocupação profissional de mulheres impactam no desenvolvimento de DPP?".
A pesquisa e seleção dos estudos foram finalizadas em 31 de julho de 2024, a partir dos Descritores em Ciência da Saúde (DeCS): "Postpartum Period", "Perinatal", "Neonatal", "Work Performance"; "Job Satisfaction"; "Right to Work"; "Employment"; "Employment, Supported", "Job", "Mental Disorders"; "Depression, Postpartum"; "Puerperal Disorders", "Depression" combinados com o operador booleano AND, nas bases de dados PubMED, Scientific Electronic Library Online (SciELO), além das disponíveis no Portal Regional Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). A literatura cinzenta não foi incluída pela priorização da qualidade e da confiabilidade das fontes; isso ajuda a evitar vieses e facilita a comparação dos resultados, assegurando a validade das conclusões da revisão. A estratégia de busca foi definida da seguinte forma: 1) definição de descritores para cada categoria da questão de investigação, 2) combinação de um descritor de cada categoria em estratégias para busca pelos estudos; as categorias são apresentadas pela Tabela 1.
Foram incluídos estudos observacionais, com mulheres em idade fértil, publicados em inglês, português ou espanhol, no período de 2012 e 2024 que responderam à questão de investigação. Foram excluídas duplicatas, revisões, pesquisas com animais e estudos não relacionados ao objetivo da pesquisa - 1) que não tiveram como público-alvo mulheres no pós-parto; 2) não abordaram fatores relativos à ocupação profissional; 3) não abordaram fatores relativos ao desenvolvimento de depressão, ou 3) estas variáveis foram apresentadas de forma isolada, não sendo possível estabelecer relação causal entre elas.
Os estudos encontrados foram exportados para a plataforma web Rayyan10 para a realização da triagem inicial, considerando os critérios de elegibilidade. Foram removidas duplicatas e lidos os títulos e resumos, posteriormente, os trabalhos selecionados foram lidos na íntegra. Esta etapa foi conduzida por duas avaliadoras (GGCL e BRMT), de forma independente e cegada, e as divergências foram resolvidas por consenso.
Para analisar a qualidade dos estudos utilizou-se a escala ROBINS-I: a tool for assessing risk of bias in non-randomised studies of interventions11. Essa etapa foi conduzida por duas revisoras (KKSP e KMVS) de forma independente. Esta escala utiliza 7 domínios - 1) Confundimento; 2) Seleção de Participantes; 3) Aferição da Intervenção; 4) Não recebimento da intervenção atribuída; 5) Perdas; 6) Aferição dos desfechos; 7) Relato seletivo dos desfechos - para avaliar a qualidade do estudo e o risco de viés a partir de questões norteadoras específicas. Cada domínio foi analisado como baixo, moderado, grave ou crítico risco de viés e apresentado em formato de tabela. O risco geral de viés de cada estudo foi o risco atribuído ao domínio com maior risco de viés e o resultado da análise apresentado por uma tabela (Tabela 3). Como medidas de efeito para os fatores relacionados à ocupação profissional foi observado o desenvolvimento ou não de DPP.
Os artigos foram sistematizados em um banco de dados utilizando o software Microsoft Excel®, considerando as seguintes variáveis: periódico, autor e ano da publicação, título, desenho de estudo, local da pesquisa, amostra do estudo, fatores relacionados à ocupação profissional, instrumento e avaliação da DPP desenvolvida, principais resultados/desfechos, vieses do estudo e análise de qualidade pela escala ROBINS-I. Esta etapa foi conduzida por duas avaliadoras independentes (KMVS e KKSP). Os dados quantitativos foram sistematizados e analisados no software supracitado e apresentados com base na Estatística Descritiva, elaborando-se, posteriormente, uma tabela de síntese e caracterização dos estudos (Tabela 2).
RESULTADOS
A pesquisa bibliográfica inicial identificou um total de 1425 artigos (BVS = 1145, PubMED = 280, SciELO = 0). Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, foram selecionados 23 artigos para compor a amostra deste estudo (Figura 1). Em consonância com a temática, foram excluídos estudos que não estabeleceram associação entre a ocupação profissional de mulheres e o desenvolvimento de DPP, ou seja, que não tiveram como público-alvo mulheres no pós-parto (n=114), não abordaram fatores relativos a sua ocupação profissional (n=51) e depressão desenvolvida (n=48), ou nos quais estas variáveis foram apresentadas de forma isolada (n=3).
Os artigos selecionados compreenderam o período de publicação de 2013-2024. A população dos estudos (n=93.706) incluiu desde mulheres nas primeiras horas após o parto até as que foram acompanhadas até que a criança atingisse 5 anos de idade. Dez estudos também acompanharam grávidas12-21. O intervalo de idade das mulheres foi de 13-46 anos e a maioria dos estudos analisados considerou na amostra multíparas (45,82%) e primíparas (40,55%), não sendo especificada a paridade em 13,63% das mulheres. A maior parte dos estudos revisados foram realizados na Europa, Ásia e América do Norte, e em menor quantidade na África e América do Sul, os países incluídos foram: Estados Unidos (4), Alemanha (2), Quênia (2), Taiwan (2), Bangladesh (1), Canadá (1), Eslovênia (1), França (1), Japão (1), Jordânia (1), Kosovo (1), Malawi (1), Nigéria (1), Noruega (1), Peru (1), Suécia (1), Tanzânia (1), Uganda (1), Irã (1).
Correlacionando os instrumentos utilizados para avaliar a DPP com a amostra total desta pesquisa, tem-se que 11 estudos (n=5.650; 6,04%) aplicaram o Edinburgh Postpartum Depression Scale (EPDS), considerando (EPDS≥10) como ponto de corte para DPP/com sintomas depressivos; seguido do Center for Epidemiological Studies Depression, utilizada por 02 trabalhos (n=3.521; 3,76%); e 01 artigo (n=1.807; 1,93%) usou ambas as escalas supracitadas. Outras pesquisas utilizaram as escalas: Depression, Anxiety, and Stress Scales (n=97; 0,10%); LTH-MD: Lifetime History of Major Depression (n=689; 0,73%); World Health Organization's Maternal (n=2.332; 2,49%); Inventory of Functional Status after Childbirth (n=315; 0,34%); Patient Health Questionnaire-9 (n=177; 0,19%). A maioria dos estudos utilizou apenas um instrumento e 03 associaram duas ou mais escalas20,29,31 (n=78.388; 84,31%). Quando o estudo apresentou avaliação da amostra quanto à DPP, ela foi descrita na Tabela 2, que apresenta a caracterização dos estudos e sintetiza seus principais resultados.
Os fatores relacionados à ocupação profissional analisados pelos estudos foram: demandas psicológicas, relações sociais, estresse, controle sobre as tarefas, múltiplas jornadas de trabalho, sobrecarga, nível de satisfação, situação de ocupação, condições de trabalho, remuneração e período da licença à maternidade. Também foram analisadas situações de desemprego, falha na busca por empregos e perda do emprego atual.
No que tange à ocupação profissional e a DPP, em 18 dos estudos (78,26%) foi estabelecida uma associação significativa e causal. Cinco estudos (21,73%) não estabeleceram significância estatística entre essas variáveis22-26. O desemprego, incluindo a busca mal sucedida por ocupação e a necessidade de deixar de trabalhar, sobretudo quando essa situação se estende por longos períodos e se associa com isolamento social e baixa renda per capita foi relacionado a gênese desse transtorno mental por dois dos seis estudos que investigaram a associação entre o status de ocupação e a DPP; enquanto não houve diferença significativamente estatística no desenvolvimento de DPP entre pessoas empregadas e não empregadas em dois dos seis estudos; estar empregada foi associado a um maior risco de desenvolvimento de DPP em um estudo e; em outro, com ¾ das mulheres desempregadas, não foi evidenciada relação entre status ocupacional e DPP 13,15,19,21,27,28. Por outro lado, jornadas de trabalho intensas se correlacionaram com sintomas de DPP mais graves18,29 e, com relação ao recente período pandêmico, mulheres que trabalhavam no início da pandemia e tiveram seus filhos no período apresentaram altas chances de desenvolver DPP30.
Entre aquelas que tinham emprego, os fatores de risco que apresentaram significância clínica, indicam que a baixa satisfação no trabalho, alta carga de trabalho, estresse psicossocial, exaustão no trabalho, remuneração reduzida, condições precárias de trabalho e superinvestimento no trabalho podem contribuir para a DPP12,14,15,17,19,27,29-31. Em contrapartida, é possível estabelecer uma relação entre recompensa no trabalho e uma diminuição nos riscos de DPP, podendo ela atuar como um fator protetivo 17 e os estudos concordam que melhorias nas condições de trabalho, tais quais maior flexibilidade, apoio no local de trabalho, apoio interpessoal, boas interações sociais do supervisor, organização e controle do trabalho sugerem benefícios para mães e empregadores, uma vez que aumentam a produtividade, diminuem custos e riscos de DPP24,28. Em concordância, empregos de baixa tensão tiveram chances reduzidas de DPP comparado com outros ambientes de trabalho24.
Além disso, o aumento da duração da licença associa-se à diminuição dos sintomas depressivos em um período de até seis meses pós-parto, relacionando-se positivamente com a saúde física, especialmente nos primeiros dois meses pós-parto20,32. Por fim, os resultados mostraram que os fatores associados à DPP, não se restringem somente à situação ocupacional, uma vez que os autores apresentaram relação da DPP tanto com emprego quanto com desemprego16,28.
O risco de viés dos estudos foi analisado de acordo com a escala ROBINS-I (tabela 3). Cinco estudos foram avaliados com baixo risco de viés19,22,26,29,33 e os outros 18 com moderado risco de viés; nenhum dos estudos foi avaliado com grave ou crítico risco de viés.
DISCUSSÃO
As evidências apontam que a ausência de apoio social e as condições econômicas adversas são fatores de risco significativos para DPP. Estudos mostram que mães com menor suporte social e em situação de desemprego têm maior probabilidade de desenvolver sintomas depressivos. Além disso, a revisão indicou que o retorno precoce ao trabalho e a falta de políticas de apoio podem exacerbar os sintomas de DPP. As implicações práticas sugerem a necessidade de políticas mais robustas que integrem apoio social e econômico às mães em período pós-parto. A criação de redes de suporte que incluam tanto o ambiente familiar quanto profissional pode ser crucial para a prevenção e tratamento da DPP.
Os efeitos da DPP para o binômio mãe-bebê são diretos34. A mãe deprimida é menos sensível e busca menos envolvimento com o filho, que por sua vez, apresenta como consequência a desistência em enviar sinais emocionais para a mãe e propensão maior a desenvolver depressão na vida adulta35.
Em virtude disso, destaca-se a importância da rede de apoio para a prevenção de DPP como destacado nas pesquisas que compõem a presente revisão. Ela pode constituir-se não somente por meio das relações familiares, mas também pelas relações profissionais no que tange a assistência prestada à puérpera nesta fase. Isso possibilita que a mãe se sinta acolhida para expressar seus sentimentos e confiante para exercer a função materna, atendendo às necessidades de seu filho36. Em contraste, o risco de desenvolver sintomas depressivos é 3 vezes maior em gestantes que não tiveram aporte social no momento da gravidez37 e a escassez do apoio familiar no período puerperal torna-se também um fator desencadeante da DPP38.
O diagnóstico da DPP já no início dos sintomas e sua associação causal relacionada, também, à situação ocupacional como abordado pelos estudos, pode facilitar o tratamento, fazendo com que a gestação, o parto e o puerpério para a mãe e bebê ocorram de forma saudável39. Para isso é fundamental reconhecer fatores de risco. A adoção de comportamentos de isolamento social, fadiga, instabilidade do humor, sentimentos de tristeza, inconstância emocional, choro, ansiedade, irritabilidade, cansaço, sentimento de culpa e inutilidade40 se relacionam a fatores de risco como baixa escolaridade, baixa renda e desemprego41.
Os índices de DPP devem considerar os aspectos culturais da população, além do nível de desenvolvimento do país42. A maternagem envolve diferentes experiências, e a ocasião do nascimento do bebê, apesar de culturalmente associada a sentimentos positivos, é um período de elevado estresse para a mulher, o que está relacionado à depressão43. Os fatores de risco para DPP são semelhantes em diversas culturas e incluem: histórico de episódios depressivos anteriores, tanto antes quanto durante a gestação; antecedentes familiares de transtornos mentais; conflitos familiares; experiências de vida estressantes; suporte social e financeiro limitado; problemas conjugais; gravidez na adolescência; gravidez não planejada; complicações durante o parto; e dificuldades no manejo do bebê devido a comportamento, temperamento ou doenças44.
Dentre os vieses relatados pelos estudos incluídos, destacam-se os relativos à amostra: pequeno tamanho18,22,45; alto nível de escolaridade15,17,23; alta condição socioeconômica14,23; e não serem nacionalmente representantes19,28 e perda de seguimento15,32. A baixa condição socioeconômica, entretanto, é um fator de risco importante. Em uma pesquisa realizada com 700 mulheres norte-americanas com uma média de 7 a 13 meses pós parto, foi demonstrado que as que estavam empregadas foram menos propensas a relatar sintomatologia de depressão do que as mulheres desempregadas45. Em outro estudo, a ocupação profissional agiu como um efeito protetor em mulheres com risco de DPP46.
Outro ponto a ser destacado refere-se às repercussões da DPP na atividade ocupacional propriamente dita, uma vez que, como relatado pelos estudos, o retorno precoce ao trabalho é um importante fator desencadeador da doença. A partir da investigação da saúde e da funcionalidade de mães e pais após o falecimento de um filho bebê/criança, foi identificada maior prevalência de depressão nas mães e menor percentual delas retornando ao trabalho após uma semana, 9% comparado aos 32% dos pais que retornaram47. Além disso, uma revisão realizada acerca dos resultados reprodutivos no Irã, com 733 mulheres profissionais da saúde, revelou que outros fatores se associam ao desenvolvimento de DPP, nervosismo e distúrbios do humor, como: a prematuridade, baixo peso ao nascer, e a amamentação, uma vez que mães trabalhadoras em turnos amamentam seus filhos por um período significativamente reduzido48.
Observa-se ainda que a associação entre DPP e dificuldades materiais, pobreza familiar e desemprego pode se estender por vários anos após o episódio depressivo49, esses fatores tornam-se agravantes do transtorno50. O desemprego é um fator causal de maior significância quando está aliado à baixa renda familiar, menor nível de instrução51, jovens que fazem uso de álcool, tabaco e antidepressivos52 e falta de apoio social e familiar53.
Em contraste, o estudo feito com 315 mulheres na Jordânia23 não encontrou relação entre DPP e variáveis sociodemográficas como idade, escolaridade, emprego e renda, estando mais associada ao tipo de parto, aleitamento materno e sexo infantil. Assim, dentro do contexto em que a gestante/puérpera está inserida, parecem existir fatores que têm um peso maior no desenvolvimento da DPP do que o status ocupacional.
Já em outro estudo realizado no Brasil, no estado do Piauí, com 92 puérperas atendidas por uma Unidade Básica de Saúde (UBS), os autores relataram que a maior parte delas intitularam-se como "do lar", sendo alto o índice de mulheres responsáveis pelo lar e pelas crianças, segundo o IBGE54. Dessa forma a associação entre a DPP e a ocupação não tem sido objeto de exploração de pesquisas científicas por esta se correlacionar diretamente com condições financeiras, uma vez que ainda existem barreiras que remontam o patriarcalismo e a mulher ainda enfrenta desafios para ocupar posições de provedora do lar, enquanto homens assumem a responsabilidade do cuidado da família55.
Esta revisão se destaca ao apresentar diferentes contextos culturais e econômicos, fornecendo uma visão abrangente da DPP. No entanto, a literatura científica ainda carece de estudos que explorem profundamente a interação entre condições de trabalho e DPP em contextos brasileiros, onde a heterogeneidade socioeconômica pode influenciar significativamente os resultados. Comparando com a literatura internacional, observa-se que fatores como suporte social e condições econômicas são consistentemente associados à DPP. Os estudos analisados variam consideravelmente em termos de desenho metodológico, impactando a detecção e interpretação dos sintomas de DPP entre estudos longitudinais e transversais e instrumentos de coleta de dados, uma vez que o uso de questionários validados mostram resultados consistentes, enquanto médias não validados apresentam resultados dados heterogêneos. Além disso, amostras reduzidas podem limitar a generalização e ampliação dos resultados.
Para futuras pesquisas, recomenda-se a realização de estudos longitudinais com amostras mais representativas e a inclusão de variáveis culturais e ocupacionais específicas. Além disso, a investigação no contexto brasileiro pode fornecer compreensões importantes para políticas e práticas voltadas para a saúde mental das mães.
CONCLUSÃO
Com base nas análises discutidas, há uma nítida associação entre o risco de DPP em relação à situação ocupacional da mulher. Os estudos demonstraram que mulheres com ocupações estressantes, demandas excessivas no trabalho, falta de apoio no ambiente profissional ou que enfrentam desemprego têm uma maior probabilidade de desenvolver DPP. Ainda, diante do caráter multifatorial na gênese desse transtorno, a situação ocupacional pode tornar-se fator desencadeador ou agravante da situação de saúde mental da mulher.
Diante dessas constatações, é fundamental que a sociedade, empregadores e formuladores de políticas reconheçam a importância de criar ambientes de trabalho que sejam mais favoráveis às mulheres em fase pós-parto. Isso pode ser alcançado por meio da implementação de políticas de licença maternidade adequadas, programas de apoio à saúde mental no local de trabalho, flexibilidade de horários e incentivos para que as mães possam equilibrar suas responsabilidades profissionais e familiares.
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