Open-access A emergência dos preprints para a ciência brasileira: considerações sob a ótica da Enfermagem *

RESUMO

Este estudo pretende refletir sobre o processo de adoção do modelo de publicação em preprints , delineando brevemente seu percurso histórico e seu uso na atualidade por parte da comunidade científica nacional e internacional. Partindo da literatura sobre o tema e da consulta aos repositórios de preprints , esta reflexão tem por intenção salientar os principais desafios que sua implementação enfrentará na área de Enfermagem e suas respectivas especificidades. Se, por um lado, os ganhos para a divulgação científica são considerados, aponta-se as dificuldades que podem resultar da implantação de um modelo de ciência majoritariamente norte-americano num país periférico como o Brasil. Este trabalho pretende contribuir para uma discussão teórica importante, que deve preceder as mudanças significativas esperadas na adoção do modelo no contexto científico brasileiro.

Formatos de Publicação; Publicações Periódicas; Políticas Editoriais

ABSTRACT

This study aims to reflect on the process of adoption of the preprints publication model, briefly delimiting its history and current use by the national and the international scientific community. Departing from the literature and a consultation of preprint repositories, this reflection intends to highlight the main challenges that preprint implementation will face in the Nursing area, along with its specificities. While considering its benefits for scientific dissemination, this study points out the difficulties that may arise from the implementation of mostly north-American science models in a peripheral country such as Brazil. This work intends to contribute to an important theoretical discussion, which should precede the significant changes expected from the adoption of such a model in the Brazilian scientific context.

Publication Formats; Periodical; Editorial Policies

RESUMEN

Este estudio pretende reflexionar acerca del proceso de adopción del modelo de publicación en preprints, delineando a la brevedad su recorrido histórico y su empleo en la actualidad por parte de la comunidad científica nacional e internacional. Partiendo de la literatura acerca del tema y la consulta a los repositorios de preprints, esta reflexión tiene el fin de subrayar los principales retos que su implementación enfrentará en el área de Enfermería y sus respectivas especialidades. Si, por una parte, se consideran las ganancias para la divulgación científica, se señalan las dificultades que pueden resultar de la implantación de un modelo de ciencia mayoritariamente estadounidense en un país como Brasil. Este trabajo pretende contribuir a una discusión teórica importante, que debe preceder los cambios significativos esperados en la adopción del modelo en el contexto científico brasileño.

Formatos de Publicación; Publicación Periódica; Políticas Editoriales

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, a palavra preprint (pré-publicação) tem emergido como um vocábulo recorrente nas áreas de divulgação e editoração científica, ainda que muitas pessoas não saibam exatamente a que se refere. No contexto brasileiro recente dos periódicos científicos, o termo esteve muito ligado à atuação da SciELO ( Scientific Electronic Library Online ), consoante sua proposta de consolidar um repositório próprio de preprints , em concordância com as tendências internacionais de publicação científica 1 - 6 . No bojo de tais tendências, estão ainda outros temas emergentes, dentre os quais se destacam ciência aberta, dados abertos, Big Data , profissionalização dos periódicos e sustentabilidade.

Em artigo ao blog SciELO em Perspectiva , Isaac Farley define preprints como “versões originais de um trabalho que são submetidos para possível publicação. Eles são frequentemente enviados para um servidor de preprints , como bioRxiv. Os preprints não passaram por um processo de avaliação por pares e não foram aceitos para publicação” 2 . Esses documentos são então disponibilizados gratuitamente em repositórios abertos, e o autor pode simultaneamente submeter o mesmo documento a um periódico de revisão por pares. O autor seria o maior beneficiário, pois ao mesmo tempo em que garantiria a primazia sobre uma descoberta ou recorte de pesquisa, poderia fazer isso gratuitamente e com grande rapidez.

No âmbito internacional, alguns dos principais repositórios de preprints são multidisciplinares como o arXiv (precursor dos demais e que contempla várias áreas, com destaque para física e ciência da computação), preprints.org , PeerJ , F1000, OSF Preprints (que agrega preprints de outros respositórios); e outros específicos de uma área do conhecimento, como o bioArXiv , destinado às ciências biológicas, PsyArXiv (Psicologia) e RePEc (Economia). No Brasil, o SciELO Repository é um repositório recente, vinculado inicialmente à divulgação dos trabalhos apresentados no evento de 20 anos da SciELO em 2018 7 - 9 .

A preponderância da discussão sobre preprints dentro da comunidade científica internacional se deve também ao crescimento desse tipo de submissão de documentos, sendo que “a taxa de registros de artigos em preprints foi dez vezes maior do que a taxa de crescimento dos registros de artigos de periódicos, fazendo dos preprints um dos tipos de conteúdo que mais crescem” 2 . O que não corresponde, porém, à realidade brasileira, onde essa forma de publicação parece ser pouco conhecida, tanto entre cientistas docentes, quanto entre jovens pesquisadores. A pouca literatura sobre o assunto em português evidencia esse desconhecimento.

A título de exemplo, uma busca no Google Acadêmico , abrangente indexador de variados documentos científicos, presentes ou não em bases de dados, com a estratégia de busca [“preprint” OU “preprints”], nos últimos 10 anos, em páginas em Português, excluindo citações e patentes, recuperou somente 164 ocorrências, muitas das quais são duplicadas. Tal resultado corrobora a percepção de este ser ainda um tema em ascensão dentro da comunidade acadêmica local, justificando estudos a partir da perspectiva das mais diversas áreas sobre essa temática considerada polêmica e cuja ampla abordagem não pode ser prescindida.

Mais recentemente, a temática chega com mais fôlego a áreas como a Enfermagem e ao contexto brasileiro, periférico e dependente também no que se refere à sua ciência. No entanto, por vezes, quando se aborda esse tema, perde-se de vista seu longo histórico em outras áreas. Alguns autores nacionais, sobretudo no âmbito das publicações do blog SciELO em Perspectiva 3 , assim como autores internacionais 4 , apontam a história desse modo de divulgação em áreas como a física e ciência da computação, em suma, nas ciências duras, sobretudo nos Estados Unidos. Nesse país, vários repositórios de preprints estão consolidados e se apresentam como uma realidade aos pesquisadores que necessitam publicar – cada vez em maior quantidade e com mais frequência – o resultado de suas pesquisas. No Brasil, acompanhando a demanda pela publicação mais acelerada de resultados de pesquisa 5 , especialmente em temas de saúde pública, de maneira vanguardista o periódico Memórias do Instituto Oswaldo Cruz passou a aceitar os preprints 6 .

Considerando a emergência desse tema e as polêmicas que envolvem sua adoção, as quais perpassam desde mudanças de processos de publicação até o embate com publishers comerciais, propõe-se o presente estudo teórico. Neste, intenta-se apresentar diferentes pontos de vista sobre a adoção do modelo de publicação de preprints no Brasil, a partir da ótica da área de Enfermagem, considerando, portanto, algumas particularidades dessa área do conhecimento. O referencial teórico parte do materialismo histórico dialético, abordando as contradições das condições sócio-históricas e as determinantes econômicas de uma sociedade dependente, localizada na periferia do capitalismo, e que envolvem esse debate na atualidade no Brasil.

De modo a fomentar a discussão acerca do tema, elencam-se alguns benefícios advindos da adoção do modelo de publicação em preprints , ressaltados na literatura sobre o tema. Além disso, apontam-se algumas das principais preocupações que cercam sua emergência e expansão no cenário de publicações científicas da atualidade.

DELIMITANDO BENEFÍCIOS DOS PREPRINTS

Agilidade – em pouco tempo o documento estaria disponível online à comunidade científica para leitura e citação 10 - 12 ;

Acesso aberto – a publicação em preprints proveria o acesso aberto, gratuito e irrestrito às publicações científicas 11 ;

Garantia de originalidade – um preprint asseguraria ao autor (e, consequentemente, à sua instituição, laboratório ou grupo de pesquisa) a prioridade de uma descoberta ou recorte de pesquisa 11 - 12 ;

Economia – a disponibilização gratuita do documento em um repositório online de acesso gratuito favoreceria autores que atualmente pagam a publicação de seus artigos através da APC ( Article Processsing Charge ), as chamadas taxas de submissão e publicação ou mesmo a cobrança de acesso aos artigos, os paywalls 11 ;

Mais publicações – a depender de como as agências financiadoras considerem os preprints , a disponibilização de preprints em repositórios poderia significar mais publicações com DOI ( Digital Object Identifier );

Melhoramento – com a possibilidade de o preprint ser comentado (por pares ou não), o documento poderia ser melhorado e suas versões posteriores, acessadas por leitores 10 ;

Submissão simultânea – a submissão de um preprint não impediria que o manuscrito fosse submetido a um periódico de revisão por pares 11 - 12 ;

Duplicação de estudos – a rápida disponibilização dos resultados de pesquisa evitaria o investimento financeiro em novos estudos de temáticas que já possuem estudos em curso;

Publicação de resultados negativos – a publicação acessível permitiria a divulgação de resultados negativos, muitas vezes rejeitados em periódicos de revisão por pares 12 ;

Garantia de publicação – o autor garantiria que, ainda que seu manuscrito demorasse muito para ser avaliado por periódicos, ou mesmo que fosse rejeitado, o trabalho seria divulgado 12 ;

Erros – a publicação ágil possibilitaria a detecção precoce de erros e sua consequente correção nas versões posteriores do documento 11 ;

Citação – a rápida divulgação do manuscrito ampliaria a janela de citação do documento 11 .

Além dessas vantagens, salienta-se que, em suma, esse modelo de publicação possibilita “Acelerar o compartilhamento de resultados; Priorizar descobertas e ideias; Facilitar o avanço na carreira; e Melhorar a cultura de comunicação na comunidade científica” 1 .

Com efeito, algumas áreas, desde as ciências biológicas e farmacêuticas até as engenharias e medicina, valorizam sobremodo a prioridade na descoberta e o desenvolvimento de produtos, que muitas vezes podem implicar patentes e o avanço de carreiras individuais e de grupos de pesquisa, pois envolve também a destinação de recursos. Em outras áreas, por outro lado, a questão da originalidade reside muitas vezes no recorte de pesquisa, como nas ciências humanas, artes e ensino e que, com os preprints , se beneficiariam da garantia de que o trabalho não seria copiado ou desenvolvido simultaneamente por outro pesquisador.

Paralelamente, se faz imperativo tanto para autores quanto para a própria comunidade científica que os resultados de pesquisas sejam disseminados com a máxima rapidez possível, algo que, por consequência, fomentaria uma cultura saudável de divulgação dos achados científicos 5 . Nesse sentido, iniciativas como a publicação em repositórios de preprints da primeira versão de um artigo, que em poucos dias já se encontraria disponível para ser lido, citado e discutido pela comunidade global, são não somente bem-intencionadas, como bem-vindas por muitos, sobretudo, jovens pesquisadores que sofrem como a lógica do lema “publique ou pereça”.

Os periódicos também poderiam encontrar alguns benefícios nesse processo de popularização de preprints . Um deles seria a possibilidade de os editores-chefes monitorarem os repositórios em busca de potenciais bons artigos, convidando os autores a submeterem manuscritos ao seu periódico 7 . Outro ponto positivo seria alçar as revistas a “validadoras” da qualidade do conhecimento científico por excelência, isto é, ao concentrar e gerenciar a revisão por pares, num contexto de facilidade de divulgação, os periódicos se tornariam soberanos na tarefa de atestar um avanço perante a comunidade e garantir que erros, grandes e pequenos, não fossem difundidos e replicados por outros pesquisadores.

DELIMITANDO PREOCUPAÇÕES

Qualidade – questiona-se o quanto a liberdade de publicação poderia ocasionar uma superpopulação de documentos de menor qualidade submetidos a repositórios de preprints 10 ;

Avaliação prévia – caso houvesse uma avaliação prévia, questiona-se a quem seria atribuída, considerando a escassez de editores e a sobrecarga dos docentes pesquisadores;

Responsabilidade do autor – o julgamento inicial sobre a qualidade do trabalho recairia sobre o autor, por vezes um pesquisador inexperiente e nem sempre devidamente orientado;

Erros – os preprints poderiam apresentar erros metodológicos, estatísticos, entre outros, que, a depender da existência ou não da pré-análise, poderiam ser divulgados indistintamente 10 , 13 - 14 ;

Avaliação duplo-cego – com os preprints , não há necessidade de se manter o processo de avaliação duplo-cego, implicando uma mudança no modus operandi vigente 10 ;

Interatividade – apesar de muitas vezes abertos a comentários, poucos preprints recebem avaliações de pares nos repositórios;

Recuperação – questiona-se se os preprints seriam considerados documentos legítimos a serem incluídos em estudos documentais, bibliométricos e revisões da literatura, pois são considerados por muitos ainda literatura cinzenta 12 ;

Competitividade – questiona-se o quanto a submissão de preprints poderia incentivar uma maior competitividade entre pesquisadores e laboratórios, em decorrência da facilidade de publicação;

Especificidade – questiona-se a adoção indistinta de um modelo único, o qual desconsideraria as características de cada área;

Falta de políticas – como para algumas áreas se trata de tema recente, muitos periódicos não têm políticas definidas sobre a aceitação ou não de manuscritos previamente submetidos a repositórios de preprints ;

Perda da originalidade – para os periódicos, significaria a perda da prioridade de divulgação de descobertas, já que os repositórios seriam o primeiro veículo de divulgação dos manuscritos 10 ;

Risco de “roubo” ( scoop ) – questiona-se a possibilidade de uma pesquisa ser beneficiada com os resultados publicados num preprint e publicar um estudo similar num periódico de grande impacto, por exemplo 11 , 13 - 14 .

Apesar do longo histórico em algumas áreas, os preprints encontram resistências, pois mudariam processos vigentes há muito tempo na publicação científica, como a avaliação por pares 10 . Para os periódicos, trata-se de uma grande mudança, especialmente na perda de exclusividade de divulgação e no processo de avaliação duplo-cego, que no Brasil é majoritário.

Outra crítica relacionada à adoção de preprints é de que ela não solucionaria o principal desafio dos periódicos científicos, que é garantir o bom andamento do processo de avaliação por pares, independentemente do modelo adotado. Isso pode ser observado, por exemplo, no processo de “garimpo” de artigos em repositórios de preprints que, no Brasil, esbarraria em aspectos estruturais dos periódicos, como o fato de estarem geralmente alocados em universidades públicas e, consequentemente, editores-chefes e associados possuírem outras atribuições acadêmicas e administrativas.

Dentre as críticas, há também a preocupação de que a liberdade de escolha dos autores, caso os preprints fossem reconhecidos pelas agências financiadoras como publicação legítima para as avaliações, pudesse levar os periódicos a receberem menos submissões o que, a longo prazo, poderia restringir o número de periódicos somente àqueles de maior prestígio.

A “corrida” pela garantia de prioridade científica e pela publicação poderia instigar uma cultura de competição, já existente, e que seria assim exacerbada. Num modelo econômico que após a década de 1970 alicerça-se, sobretudo, na crença na doutrina neoliberal 15 , o fomento a tal competição endossaria uma apreensão de ciência individualista e meritocrática, contrapondo-se à possibilidade da prática científica enquanto epítome da cooperação e colaboração em prol do avanço da sociedade e das pessoas. Nesse cenário torna-se premente analisar inclusive a constituição da universidade brasileira e sua sujeição aos interesses das classes dominantes, conforme analisa o filósofo Álvaro Vieira Pinto 16 .

Dialeticamente, a adoção do modelo de preprints dialoga diretamente com a defesa da ciência aberta, pois disponibilizaria gratuitamente para autores e leitores resultados de pesquisa que, frequentemente, se encontram sob a tutela dos chamados paywalls , ou seja, a cobrança pelo acesso a artigos científicos que beneficia largamente os grandes publishers e as bases de dados através de assinaturas institucionais ou governamentais 11 , 17 . O mesmo se aplica ao fim do modelo duplo-cego, o qual pode ser entendido como uma preocupação por parte da comunidade cientifica e, por outra, como um avanço em direção a mais transparência no processo de avaliação de manuscritos.

Desse modo, se, por um lado, a consolidação dos preprints poderia fomentar uma maior competição entre pesquisadores e uma superpopulação de trabalhos de menor qualidade, por outro, seria um passo importante em direção ao acesso universal e gratuito ao conhecimento produzido por cientistas do mundo todo, muitas vezes financiados pelo poder público, isto é, pela própria população. Questiona-se assim, dentre outros, a adoção de um novo modelo sem que haja um profundo debate sobre as contradições que cercam essa mudança. Conforme delineia-se, há inúmeros benefícios e também alguns possíveis motivos para preocupação, os quais não podem ser ignorados em prol da adequação rápida da ciência brasileira, em toda sua diversidade, às chamadas tendências internacionais.

PROBLEMAS ESTRUTURAIS

Ao trazer à baila a discussão sobre preprints , frequentemente salienta-se as fragilidades do modelo de avaliação por pares, ao qual o novo modelo se contrapõe, sobretudo por conta de sua morosidade. Velterop pontua que é preciso considerar, nesse debate, a própria problemática da revisão por pares como instituição falida, que não atenderia as demandas da comunidade científica atual, configurando-se como um sistema caro, dispendioso, lento e que não garantiria a relevância ou qualidade de um artigo 7 .

De acordo com essa visão, a perda do protagonismo dos periódicos no processo de submissão, avaliação e publicação de um estudo os forçaria a deixar uma posição passiva, de recepção dos manuscritos, para uma posição ativa de possivelmente acompanhar as publicações em preprints e, eventualmente, considerando o escopo de seu periódico, convidar os autores de um trabalho promissor para submetê-lo à revisão por pares. Idealmente, para o autor, é inegável o benefício de tal panorama, no qual, além da vantagem de ter uma publicação gratuita no repositório, escoando sua produção acadêmica, poderia ainda ser alvo de editores de periódicos de visibilidade.

O que essa perspectiva parece esconder, porém, é a existência de problemas estruturais que cerceiam a prática científica brasileira e que obstaculizam o cumprimento de tão vantajoso prospecto. Um deles diz respeito ao fato de que os periódicos científicos brasileiros são, majoritariamente, pertencentes às universidades e, como tal, dependem da organização do trabalho em vigor nesses ambientes. Nesse sentido, editores-chefes ou científicos, editores associados (ou de área) e revisores exercem um trabalho voluntário junto aos periódicos e possuem concomitantemente atividades de docência, de orientação, de pesquisa e burocráticas.

Associado a esse quadro de produção editorial não profissional e, por vezes, até “caseira”, a morosidade do processo de avaliação, pode, em alguns casos, ser inevitável, tanto mais considerando que muitos dos processos editoriais são realizados pelos próprios docentes, ou equipes pequenas compostas por funcionários que têm outras atribuições ou que não necessariamente têm uma formação em biblioteconomia, editoração ou letras ou experiência com a área. Isso sem que se considere ainda os serviços editoriais, muitas vezes terceirizados, como revisões e traduções e a diagramação e marcação XML. Caracteriza-se, portanto, como errôneo tratar a lentidão da publicação com superficialidade, considerando-a como simplesmente questão de incompetência por parte do periódico ou ineficiência da revisão por pares, afinal executada pelos próprios cientistas.

Considerando inclusive os discursos que envolvem tais discussões, há que se ter em vista que conceitos como “competência”, “eficiência”, “otimização”, “profissionalização”, “pró-atividade”, “competitividade”, entre outros, com frequência utilizados na atualidade devem ser historicizados e analisados criticamente. Tais conceitos têm uma história e se compatibilizam com o que Marilena Chauí descreve como “ideologia da competência” 15 , configurando-se como base discursiva do neoliberalismo, que, como modelo econômico e, portanto, definidor de visões de mundo – inclusive no meio acadêmico e científico, erroneamente acreditado por alguns como neutro e descolado da realidade material imediata – deve ser objeto de análise também.

PREPRINTS E ENFERMAGEM

No Brasil, o tema de preprints aparenta ser pouco explorado, mesmo em áreas que tradicionalmente fora do Brasil adotam esse modo de publicação há décadas. A Enfermagem e as Ciências da Saúde, por sua vez, ainda encontram poucos espaços de discussão sobre suas particularidades frente a esse “novo” tipo de publicação, que começa progressivamente a integrar o debate em fóruns e eventos específicos.

A título de exemplo, uma busca em bases de dados como Web of Science , BVS (Biblioteca Virtual em Saúde), Scopus, CINAHL ( Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature ), as principais para a realização de revisões da literatura em Enfermagem, utilizando a estratégia de busca [“Nursing” AND “Preprint*”] recuperou apenas três documentos relacionados ao termo “preprint” no sentido de modelo de publicação científica. Diante do grande volume de publicações científicas, tal achado sinaliza para a escassez de estudos que abordem este modelo de publicação pela ótica da ciência da Enfermagem.

Dentre os artigos encontrados, o estudo “Open Access Part I: The Movement, The Issues, and The Benefits” 18 se debruça sobre os vários aspectos que cercam o movimento em direção ao acesso aberto, pauta presente nas discussões atuais sobre o futuro das publicações científicas. Porém, o artigo não se detém sobre o tema dos preprints , ainda que o elenque entre suas palavras-chave. O termo aparece cinco vezes no documento, uma delas em um quadro relativo às diferenças entre tipos de publicação. Neste, a autora define preprints como um “rascunho de trabalho, versão preliminar”; “não avaliado” e que “não é considerado publicação” (tradução livre) 18 .

No segundo documento encontrado na busca, um editorial de 2018 do Journal of the American Psychiatric Nurses Association 19 , ressaltam-se algumas preocupações que corroboram aquelas apontadas neste estudo. Segundo a autora: “As questões predominantes envolvem a proteção da confidencialidade dos participantes, a garantia de que a pesquisa postada foi conduzida de maneira ética, e a interpretação errônea dos resultados que não foram ainda revisados na revisão por pares por parte dos autores” (tradução livre) 19 . A autora aponta que, como os preprints não recebem avaliação formal de um especialista, eles podem não atingir o rigor exigido por um periódico de alta qualidade; de um ponto de vista ético, isso implicaria confiar totalmente na honestidade dos autores, o que pode ser visto como preocupante em tempos em que violações éticas nas publicações vêm a tona com mais frequência 19 .

O editorial salienta a emergência de um servidor de preprints para a Medicina, o medRxiv 20 , com lançamento previsto para meados de 2018, mas que foi adiado para junho de 2019. Para a Enfermagem, isso acarreta novo ponto a ser considerado na discussão, já que, conforme o servidor, Enfermagem é uma das áreas de abrangência. A tutelagem da área da Enfermagem por parte da Medicina constitui-se como ponto polêmico, perpassando desde questões de gênero e poder até a apropriação de conhecimentos específicos por áreas mais gerais como a Medicina, e que devem, portanto, emergir também no debate aqui delineado.

No único estudo brasileiro encontrado, um editorial recente para a Revista Brasileira de Enfermagem 12 , Barbosa e Padilha comentam os dilemas éticos que envolvem a publicação em preprints na área de Enfermagem, reproduzindo e questionando dez considerações sobre os preprints publicadas pela ASAPbio ( Accelerating Science and Publication in Biology ) em 2016. A ASAPbio é uma iniciativa sem fins lucrativos que visa abordar o problema da morosidade da divulgação de resultados de pesquisas nas ciências da vida através de ações de inovação nos eixos de Revisão por pares e Preprints 21 .

Após apresentar as considerações do ASAPbio , possivelmente desconhecidas do público leitor brasileiro de Enfermagem, as autoras salientam: “Somado a este panorama, os preprints ainda são considerados literatura cinza ou cinzenta, ou seja, possuem qualidade suficiente para ser coletada e preservada por bibliotecas, mas não controlada por publishers , devido à sua publicação imediata e não revisada por pares, previamente” 12 .

Com efeito, a coleta desses artigos publicados em preprints pelas bases de dados é um dos pontos cruciais do debate, considerando que o modelo de pré-publicação questiona exatamente a monopolização do conhecimento por parte dos grandes publishers e bases de dados que empreendem a comercialização de descobertas e estudos científicos frequentemente financiados por investimento público. Esse embate de interesses comerciais encontra novo capítulo com a aproximação do período definido pela União Europeia (UE) para a implementação do chamado Plan S , o qual define que os resultados de pesquisas financiadas pela UE devem ser publicados em acesso aberto 22 .

A complexidade do debate foi reafirmada em carta à revista Science 23 , redigida por autores brasileiros, que questionam se o financiamento do acesso aberto será repassado aos autores através das chamadas APC. O adiamento da implantação do Plano S para o ano de 2021 denota o imbróglio do panorama no qual enfrentam-se interesses de autores, leitores, órgãos de financiamento, publishers , bases de dados, universidades e a sociedade como um todo, dependente dos avanços da ciência e que, em contextos como o brasileiro, financia as pesquisas através de seus impostos 17 , 24 .

Percebe-se que a proposta de universalizar o acesso aberto esbarra nos interesses dos publishers que desejam manter seus paywalls ou cobrar altas taxas aos autores pelo acesso aberto. Em países como o Brasil, de contradições candentes, se, por um lado, essa discussão, num primeiro momento, parece se encontrar distante – em que pese o progressivo corte de recursos governamentais para a pasta de educação e ciência e tecnologia que tem alavancado protestos por todo o país –, considerando-se a assinatura de periódicos por parte das universidades e a manutenção do Portal de Periódicos da CAPES ( Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ), por outro, a popularização de modelos alternativos de publicação enfrenta problemas com raízes fortes e que perpassam desde a constituição das universidades até o projeto de ciência e desenvolvimento do país.

Ratificando esse horizonte contraditório, Barbosa e Padilha lançam o questionamento acerca da questão ética que envolve o modelo de publicação em preprints e que toca de perto as Ciências da Saúde por desenvolverem primordialmente pesquisas com seres humanos: “Mediante esta inovação na forma de apresentação do conhecimento científico, as ciências nas áreas da Saúde e da Enfermagem se encontram frente a um dilema ético por ter sua produção desde os primórdios, sustentada pelos pilares da Declaração de Helsinque, das Boas Práticas em pesquisa da Fapesp e do SciELO, conhecimentos adquiridos em eventos nacionais e internacionais sobre integridade em pesquisa e o processo canônico de revisão pelos pares” 12 . Neste, que é o primeiro comentário publicado num periódico brasileiro sobre os preprints do ponto de vista das especificidades da Enfermagem, as autoras arrematam: “Fica a pergunta: nova forma de divulgar o conhecimento? Será que este sapato nos serve?” 12 .

Conforme mencionado, a literatura internacional no âmbito dos periódicos revisados por pares pouco se debruça sobre o tema, em conformidade com a mencionada busca nas bases de dados. Mesmo em bases nacionais da área de ciência da informação, o tema aparece de modo escasso, como na BRAPCI (Base de Dados em Ciência da Informação), no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES ou na busca por tema do Currículo Lattes.

O fato de as principais fontes de informações acerca dos preprints serem os próprios repositórios de preprints e blogs científicos parece corroborar a apreensão de que o tema precisa adentrar a discussão acadêmica e científica tradicional e ser considerado pelos diversos prismas das especificidades de cada área. Dialeticamente, considerado um tema atual, é sintomático que apareça primeira e primordialmente nos meios de divulgação rápida, em contraposição aos periódicos de revisão por pares, considerado por muitos obsoleto exatamente pelo tempo que leva para avaliar e sedimentar o conhecimento agregado.

Nesse sentido, questiona-se o quanto a Enfermagem e outras áreas que têm um forte viés ancorado nas ciências humanas adequam-se a um modelo ágil de divulgação, isto é, ressalta-se a necessidade de que as diversas áreas avaliem o tempo que levam para consolidar o conhecimento, o qual pode estar concordante ou dissonante com um modelo como o de preprints , sobretudo considerando que o conhecimento em Enfermagem tem grandes repercussões na prática, podendo impactar diretamente na saúde dos pacientes, o que ratifica sua preocupação com a qualidade dos artigos publicados pela área.

Há que se ressaltar ainda que dentre os periódicos que constam na página da Wikipédia List of academic journals by preprint policy 25 , que enumera alguns periódicos compatíveis com o modelo preprint , usualmente mencionada como referência para autores escolherem periódicos para submissão, não consta nenhum de Enfermagem, o que parece indicar que o tema é pouco abordado na área e não parece haver consenso ou tendência acerca de sua adoção.

Mesmo em iniciativas como o portal SHERPA/RoMEO 26 do Reino Unido, que apresenta dados das revistas no que se refere às vias de acesso aberto e política de preprints e que coleta dados, dentre outros, do DOAJ ( Directory of Open Access Journals ), as informações se encontram pulverizadas. Isso ocorre porque a busca no portal não permite filtrar por áreas, restringindo a consulta somente aos periódicos individualmente.

Por outro lado, periódicos de prestígio publicados por publishers comerciais, como é o caso do International Journal of Nursing Studies , editado pela Elsevier, aceitam esse modelo, mediante a conexão via DOI do preprint com o artigo publicado após revisão por pares, através de repositórios como o arXiv ou o RepEc . No entanto, grande parte dos repositórios não possui Enfermagem como área de abrangência e o periódico aceita a submissão de manuscritos depositados em um repositório de outra área, no caso, Economia. Conforme mencionado, tal situação poderá mudar com o lançamento do servidor de preprints medRxiv .

A Enfermagem, bem como as Ciências da Saúde, parece encontrar assim alguns desafios na adoção de tal modelo, os quais perpassam, principalmente, questões éticas de disponibilização de dados de pesquisa, anonimato dos sujeitos, qualidade das análises, erros de interpretação, dentre outros. A adoção de preprints deve, portanto, ser precedida de ampla discussão nos círculos acadêmicos, universitários e entre periódicos, publishers e agências financiadoras. Sublinha-se que a discussão dentro da Enfermagem está se iniciando e, desse modo, se encontra aberta a ponderações, diálogos e debates que elenquem os benefícios e limitações de um modelo emergente frente as especificidades da área, as questões estruturais e os problemas recentes do cenário científico brasileiro e a necessidade de preservação da qualidade das publicações.

A CIÊNCIA BRASILEIRA NA PERIFERIA DO CAPITALISMO

A título de reflexão, Roberto Schwarz, ao se deter sobre a obra do escritor brasileiro Machado de Assis (1839-1908), define-o como “Um mestre na periferia do capitalismo” 27 , nome de seu livro seminal que inaugura uma nova tradição de análise da obra do maior escritor brasileiro, considerando primordialmente as condições sócio-históricas que vêm à superfície através de seus romances. O crítico literário empreende assim uma análise da obra do autor, evidenciando as contradições da sociedade brasileira que emergem através da forma dos romances, isto é, como os conteúdos sócio-históricos se consolidam em forma literária.

Expandindo tal metáfora para a reflexão aqui empreendida, ressalta-se que se faz necessário analisar e questionar a forma como se dá a adoção do modelo de publicação em preprints . Ora, os embates, resistências, discussões e questionamentos ocorrem, dentre outros, pois, da periferia do capitalismo; isto é, desde uma posição econômica periférica e dependente em relação ao capitalismo global e que tem como centro os países desenvolvidos do hemisfério norte, as contradições que advêm do seguimento de tendências ditadas por tais países inexoravelmente vêm à baila.

Seguindo tal ponto de vista, reconhece-se a urgência e importância da discussão sobre preprints , a qual não pode prescindir de considerar as condições socioeconômicas internas, o caráter periférico e dependente da ciência brasileira e as contradições históricas que envolvem os fenômenos que aqui ocorrem e que demandam que se empreenda localmente uma apreensão dialética e crítica das questões ditas “globais”.

Enquanto representantes de tendências de divulgação cientifica mundiais, o modelo de preprints esbarra nos aspectos práticos e ideológicos que envolvem sua adoção em países hoje chamados de “em desenvolvimento”. Em termos ideológicos, um ponto a ser considerado é o quanto países periféricos devem adotar políticas chamadas “internacionais”, produtos e tendências, sem ao menos consolidar uma discussão interna e que considere as particularidades locais, as quais perpassam certamente investimentos em educação e ciência, fortemente ameaçados na atualidade e que devem ser amplamente abordados pela comunidade cientifica na situação atual de crise econômica e política 24 , 28 - 29 .

A exemplo de outros termos importados do debate dos países centrais, conceitos como “internacionalização” e “inovação” galgaram espaço no meio universitário e hoje são muitas vezes utilizados indistintamente sem que se saiba exatamente o que o locutor ou o destinatário entendem como sendo seu significado. Esse processo de utilização de termos de modo impreciso e a adoção de tendências de maneira imediata pode sinalizar processos de sujeição a interesses imperialistas que não necessariamente correspondem e compatibilizam com aqueles que a ciência brasileira quer ou é capaz de sustentar.

Apresentam-se, assim, pelo menos a priori , dois posicionamentos conflitantes. Primeiro, aquele que intenta colocar a ciência brasileira dentro das condições e modelos internacionais mais avançados, capaz de dialogar e se integrar numa ciência globalizada com vistas a “não ficar para trás”. Do outro lado, um ponto de vista que reclama a necessidade de escolher nossos próprios meios, a partir de parâmetros definidos internamente, não sujeitando a ciência nacional a ditames estrangeiros. Ainda que opostos, tais pontos de vista não se excluem e, num contexto de contradições constantes como o brasileiro, estes convivem em aproximações e afastamentos, o que torna a abordagem de temas como preprint s um empreendimento complexo.

Evidentemente, cada área possui especificidades e fazer parte de um grande ecossistema científico de ponta é não somente desejável, mas também necessário para que os avanços aqui alcançados possam ser conhecidos, lidos e citados internacionalmente. Nisso se incluem desde a presença de periódicos brasileiros nas bases de dados e indicadores bibliométricos até o reconhecimento dos cientistas e suas pesquisas nas universidades e eventos internacionais. Por outro lado, denota-se que a discussão acerca dos preprint s se constitui como importante oportunidade para se refletir sobre as condições de investimentos financeiros e estruturais para a integração brasileira nos debates e tendências internacionais. Em suma, à luz das ideia delineadas pelo pesquisador argentino Oscar Varsavsky 30 , progressivamente, se requer que os cientistas brasileiros apresentem seus posicionamentos políticos e a importância e contribuição de suas pesquisas para a soberania nacional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por fim, é difícil prever a adesão dos autores aos preprints , o futuro dos periódicos de menor expressão e, sobretudo, o posicionamento das agências financiadoras, que de fato têm poder econômico para definir o espaço desse modelo de publicação, seu valor e legitimidade. Ponderar os possíveis benefícios e as preocupações relacionados à adoção do modelo de preprints para todos os atores envolvidos é necessário, considerando-se a chamada tendência mundial e, simultaneamente, reconhecendo-se as especificidades do contexto brasileiro.

Conclui-se que, ainda que os preprints configurem-se como um importante tema da atualidade e sua adoção seja considerada por muitos como inevitável, os pesquisadores brasileiros, incluindo os da ciência da Enfermagem, não podem prescindir de analisar as potencialidades e os limites deste modelo internacional. Num país continental como o Brasil, dependente, e que se encontra na periferia do capitalismo, pautado pelos ditames do neoliberalismo, é premente que as mudanças de processos de publicação sejam consideradas em detalhe, de modo a verificar se elas de fato correspondem às necessidades e possibilidades de nosso contexto específico, de contradições históricas e questões socioeconômicas estruturais.

REFERÊNCIAS

  • *
    Autor convidado.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Dez 2019
  • Data do Fascículo
    2019

Histórico

  • Recebido
    12 Jul 2019
  • Aceito
    29 Out 2019
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