Open-access Gerenciamento dos Resíduos dos Serviços de Saúde: conexões com o cuidado sustentável de enfermagem

RESUMO

Objetivo:  Compreender os significados desvelados pela enfermagem sobre o cuidado sustentável em suas conexões com o gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde no hospital.

Método:  Pesquisa qualitativa, cujos referenciais teórico e metodológico foram, respectivamente, a Teoria da Complexidade e a Teoria Fundamentada nos Dados. Participaram do estudo profissionais de enfermagem de um hospital público do Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por entrevistas semiestruturadas.

Resultados:  As ações-interações significadas pela enfermagem, para o gerenciamento dos Resíduos dos Serviços de Saúde, revelaram a compreensão sobre a responsabilidade socioambiental do uso racional de recursos materiais; da necessidade de educação permanente para promover educação ambiental; da necessidade de supervisão o gerenciamento adequado dos resíduos. Os profissionais se percebem como força motriz para reordenar mudanças positivas nesse contexto.

Conclusão:  Os participantes sinalizaram implicações entre conhecimento, uso racional de materiais, geração e descarte de resíduos, economia da saúde e qualidade da assistência. Dessas conexões, depreende-se o sentido complexo de cuidado sustentável da enfermagem hospitalar no contexto do gerenciamento de Resíduos dos Serviços de Saúde.

DESCRIPTORES
Resíduos de Serviços de Saúde; Serviço Hospitalar de Enfermagem; Enfermagem; Desenvolvimento Sustentável

ABSTRACT

Objective:  To understand the meanings revealed by nurses about sustainable care in its connections with the management of Healthcare Waste in hospital.

Method:  Qualitative research, whose theoretical and methodological references were, respectively, Complexity Theory and Grounded Theory. Nursing professionals from a public hospital in Rio de Janeiro participated in the study. Data was collected through semi-structured interviews.

Results:  The actions-interactions signified by the nursing staff, for the management of Healthcare Waste, revealed an understanding of the socio-environmental responsibility of the rational use of material resources; of the need for permanent education to promote environmental education; of the need to supervise the proper management of waste. The professionals perceive themselves as a driving force for reordering positive changes in this context.

Conclusion:  The participants signaled implications between knowledge, rational use of materials, waste generation and disposal, health economics and quality of care. From these connections, we can deduce the complex meaning of sustainable hospital nursing care in the context of Healthcare Waste management.

DESCRIPTORS
Medical Waste; Nursing Service, Hospital; Nursing; Sustainable Development

RESUMEN

Objetivo:  Comprender los significados revelados por enfermeros sobre cuidados sostenibles en sus conexiones con la Gestión de Residuos Sanitarios en el hospital.

Método:  Investigación cualitativa, cuyos referentes teóricos y metodológicos fueron, respectivamente, la Teoría de la Complejidad y la Teoría Fundamentada en Datos. Participaron en el estudio profesionales de enfermería de un hospital público de Río de Janeiro. Los datos se recogieron mediante entrevistas semiestructuradas.

Resultados:  Las acciones-interacciones significadas por el personal de enfermería, para la gestión de Residuos de Servicios de Salud, revelaron la comprensión de la responsabilidad socioambiental del uso racional de los recursos materiales; de la necesidad de educación permanente para promover la educación ambiental; de la necesidad de supervisar la correcta gestión de los residuos. Los profesionales se perciben a sí mismos como un motor para reordenar cambios positivos en este contexto.

Conclusión:  Los participantes señalaron implicaciones entre el conocimiento, el uso racional de materiales, la generación y eliminación de residuos, la economía de la salud y la calidad de la atención. De estas conexiones se deduce el complejo significado de los cuidados sostenibles de enfermería hospitalaria en el contexto de la gestión de residuos de los servicios de salud.

DESCRIPTORES
Residuos Sanitarios; Servicio de Enfermería en Hospital; Enfermería; Desarrollo Sostenible

INTRODUÇÃO

São considerados geradores de Resíduos de Serviços de Saúde (RSS) os contextos que prestam atendimento à saúde humana e geram resíduos perigosos, a saber: com potencial de risco em função da presença de materiais biológicos capazes de causar infecção; de objetos perfurocortantes; de produtos químicos perigosos e materiais radioativos(1). Desse modo, os desafios imbuídos no contexto dos RSS são relevantes para as discussões globais e locais devido à expressiva preocupação que se deve esperar dos órgãos públicos e setores privados com a preservação dos recursos naturais, bem como da saúde pública(2).

Durante os cuidados de saúde, o que inclui aqueles desenvolvidos no ambiente hospitalar, diversos materiais são utilizados, como consequência dessa realidade está a geração de diferentes resíduos. Estes, quando gerenciados de forma indevida, podem oferecer riscos à saúde das pessoas e ao meio ambiente(2,3). Tais impactos afetam, em expressiva proporção, as populações minoritárias e as pessoas mais pobres que estão expostas aos riscos oferecidos pela falta de condições sanitárias adequadas quando comparadas com populações mais favorecidas(2). Portanto, a incorporação de práticas e valores ambientais em todas as esferas sociais deve ser objeto de preocupação das profissões da área da saúde, o que envolve, com especial destaque, a enfermagem, não apenas por ser esta a profissão do maior contingente de recursos humanos do setor saúde, mas pela qualidade e projeção de seu trabalho. Dessa realidade, depreendem-se possibilidades para melhor promover práticas de saúde mais sustentáveis e saudáveis para o meio ambiente, para as pessoas e para as comunidades(4).

Como todo e qualquer fenômeno complexo, além das suas relações locais, aqui pensadas a partir do trabalho realizado pelos profissionais de enfermagem, há que se considerar também a sua projeção planetária no que diz respeito aos seus impactos e origens(5), o que inclui o uso de práticas mais seguras e sustentáveis no gerenciamento de RSS. Nessa conjuntura está o incentivo à utilização de produtos e tecnologias mais ecológicas e a promoção de ações de conscientização e educação ambiental junto aos pacientes e familiares(6).

Destarte, para uma perspectiva complexa, utilizando o princípio hologramático(5) em que o todo está na parte e a parte no todo, pode-se entender que a sustentabilidade deve ser pensada em uma lógica não limitada ao ambiente, mas que envolve os indivíduos e grupos que com ele interagem. Logo, trabalhar a sustentabilidade deve ser prerrogativa de todas as pessoas envolvidas no processo de cuidados em saúde(5,7).

Comumente, sustentabilidade é conceituada a partir do diálogo entre as definições de ecologia e holismo. Entretanto, para a complexidade, na perspectiva do pensador Morin(5), a ideia de holismo deve ser rejeitada quando não valoriza a identidade das partes. Nessa conjuntura, a sustentabilidade, sob ótica hologramática, deve ser reconhecida em suas conexões entre saúde, cultura, meio ambiente e sociedade, cujas interações entre cada parte afetam o ambiente circundante(5,8).

Para esta problematização, importa mencionar que a Teoria da Complexidade(5) concebe riscos, ilusões e incertezas como elementos indissociáveis das relações humanas. Ademais, o pensamento complexo considera que para lidar com tais elementos faz-se necessário o desenvolvimento de estratégias. Esse entendimento parece corroborar o conceito de sustentabilidade sob enfoque da ecologia, haja vista esta avaliar as respostas aos perigos ambientais para a saúde, qualidade e segurança do ambiente físico. Outros autores, porém, sugerem que uma perspectiva ecológica na sociedade humana só pode ser desenvolvida mediante equilíbrio na natureza, com foco nos ambientes imediatos e na relevância da conjuntura global(8,9).

Sejam em projeções locais ou globais, as iniciativas da enfermagem destacam-se ao longo da história, uma vez que têm sido aplicadas em direção à sustentabilidade porque os enfermeiros se esforçam para melhorar a saúde humana nos ambientes físico, econômico e social. Por causa de sua perspectiva complexa, a enfermagem está posicionada para afetar o presente e o futuro da sustentabilidade(8,10), a partir de cuidados capazes de valorizar as partes que integram o todo/ambiente para melhor lidar com os recursos naturais(8).

Sob o enfoque da complexidade, cujo sentido de complexo está em reconhecer a multidimensionalidade dos fenômenos, assume-se, nesta pesquisa, a perspectiva epistemológica e ontológica de que os cuidados de enfermagem buscam a sustentabilidade ao valorizarem o ambiente em seu metaparadigma, e com isso apresentam potencialidades para uma consciência ambiental. Além do exposto, deve-se considerar que a consciência ambiental é um fator importante que influencia diretamente o gerenciamento de RSS e pode ser um fator-chave para promover a sustentabilidade ambiental, além de contribuir para a prevenção de doenças e promoção da saúde pública. Portanto, depreende-se que os cuidados de enfermagem são complexos quando envolvem, em sua multidimensionalidade, a própria sustentabilidade.

A complexidade que parte da consciência ecológica para ações estratégicas favorece que a enfermagem possa, mediante políticas públicas, contemplar conjunturas amplas para o alcance de agendas globais, tal qual a Agenda 2030 da ONU, para o atingimento dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), incluindo aqueles que tratam, direta ou indiretamente, da diminuição substancial de geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso; relações entre saúde, bem-estar, consumo e produção sustentáveis; ação contra a mudança global do clima, cidades e comunidades sustentáveis, entre outros(11).

Diante do exposto, a problemática desta investigação concentra-se na premissa de que a consciência ecológica parte do campo mais profundo de interpretação da realidade quando tal consciência alcança o campo dos significados, e estes, por conseguinte, mobilizam as ações/comportamentos humanos/sociais. Por tal sentido, cumpre questionar: quais ações e interações permeiam os significados desvelados pelos profissionais de enfermagem, no contexto hospitalar, em meio aos cuidados que visam à sustentabilidade implicados no gerenciamento dos RSS?

O objetivo desta pesquisa foi, portanto, compreender os significados desvelados pela enfermagem sobre o cuidado sustentável em suas conexões com o gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde no hospital.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Pesquisa qualitativa, cujo referencial teórico foi a Teoria da Complexidade, na perspectiva de Edgar Morin(5). Para o processo analítico, utilizou-se a Teoria Fundamentada nos Dados (TFD), na vertente da escola “corbiniana”(12,13). Este método consiste em intensa análise comparativa entre etapas da construção de conceitos/categorias e dispõe de ferramentas analíticas e epistemológicas para o ordenamento paradigmático dos conceitos/categorias.

Local

Os dados foram coletados em um hospital universitário federal, na cidade do Rio de Janeiro – RJ. O estudo envolveu os setores de clínica médica e cirúrgica, por considerar que nesses locais há uma expressiva produção de resíduos provenientes da assistência direta e indireta de enfermagem aos pacientes.

Critérios de Seleção

Participaram do estudo, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Foram critérios de inclusão: ter, no mínimo, um ano de experiência profissional na instituição, no cenário de pesquisa em questão, e na assistência direta ao paciente como enfermeiro ou técnico de enfermagem. Foram excluídos os participantes afastados do trabalho, em licença ou em férias. Os participantes foram convidados presencialmente, no cenário do estudo, conformando amostragem por conveniência. Não houve recusa ou desistência de nenhum participante.

Definição da Amostra

A definição da amostra se deu por saturação teórica, conforme determina o método, ocasião em que os pesquisadores constatam que as categorias e suas respectivas subcategorias alcançaram densidade teórica suficiente para, em conjunto, explicarem o objeto de estudo. Na TFD, o processo de saturação teórica é favorecido em decorrência da coleta de dados acontecer de forma paralela à análise, pois, a cada entrevista os pesquisadores analisam os dados para posterior retorno ao cenário investigativo(12,13). Desse modo, 32 profissionais participaram da pesquisa.

Coleta de Dados

A coleta de dados ocorreu entre os meses de janeiro a agosto de 2022, a partir de entrevistas semiestruturadas. As entrevistas aconteceram em encontros individuais, em ambiente reservado, no próprio cenário de estudo, em horários previamente acordados e que não comprometessem as atividades laborais dos entrevistados. Essas entrevistas foram gravadas em meio digital (áudio) e tiveram duração média de 30 minutos, cada, e não foram repetidas com um mesmo participante. Em virtude de o método buscar a captação dos significados que emergem no ato das entrevistas(13), destaca-se que estas não foram devolvidas aos participantes para ajustes/acréscimos.

A pesquisadora responsável pela coleta de dados, que é enfermeira, desenvolveu competências para a abordagem metodológica descrita neste estudo, junto ao grupo de pesquisa ao qual está vinculada, bem como em experiências como pesquisadora em outras investigações científicas semelhantes. Não houve nenhum conflito de interesse, de ordem pessoal ou profissional, para a realização do estudo no cenário escolhido, ou com os participantes da pesquisa envolvidos.

Análise e Tratamento Dos Dados

Para esta pesquisa, adotou-se a perspectiva construtivista da escola “corbiniana” da TFD, que em comum às demais, apresenta abordagem comparativa, perguntas constantes, amostragem teórica, elaboração e integração de conceitos(12,13). Todavia, diferencia-se das demais escolas no modelo paradigmático, que passa a ser composto por três dimensões: condições, ações-interações e consequências.

Os dados das entrevistas foram submetidos à análise seguindo as etapas de codificação da TFD, da escola “corbiniana”, que são: aberta, axial e integração seletiva. Na codificação aberta os dados foram segmentados em partes distintas, rigorosamente examinadas e comparadas em busca de similaridades e diferenças(13). Nessa etapa, os códigos iniciais são provisórios.

À medida que as entrevistas foram transcritas no Microsoft Office Word® 2016, os seus dados foram importados para o Software NVIVO® 12. Esse software auxilia o pesquisador no processo de codificação dos textos e no agrupamento das informações para a condução de estudos com TFD. Cumpre destacar, porém, que o processo analítico de forma simultânea (coleta e análise de dados) se manteve mesmo com a utilização do software supracitado. Inicialmente, houve a formação de códigos preliminares, a partir da identificação de propriedades e dimensões específicas das entrevistas transcritas. Os códigos preliminares assumem caráter mais descritivo dos dados. Após a reunião de códigos preliminares oriundos de múltiplas entrevistas, é que se intensificou o processo de agrupamento desses códigos por similaridades e diferenças, com auxílio do NVIVO® 12.

O agrupamento dos códigos preliminares por similaridades e diferenças deu origem aos códigos conceituais que são apresentados como uma representação abstrata de um fato, objeto ou ação que o pesquisador percebe como significativo nos dados(13). O agrupamento dos códigos conceituais por similaridades originou as categorias. Uma vez identificada a categoria, o pesquisador pode começar a desenvolvê-la em propriedades e dimensões específicas. Propriedades são características ou atributos gerais ou específicos que delineiam, definem e conferem significados a uma determinada categoria(13).

Uma das características da TFD consiste na análise comparativa em todas as fases analíticas. Assim, nem todo conceito (conexões de códigos conceituais similares) apresenta densidade suficiente para conformar uma categoria, mas pode agregar sentido em torno de uma e passar ao status de subcategoria. Desse modo, inicia-se a codificação axial, que permite ao pesquisador relacionar categorias com subcategorias afins. A codificação axial ocorre, portanto, em torno do eixo de uma categoria, associando categorias ao nível de propriedades e dimensões, para acrescentá-las em profundidade e estrutura(13).

Para conferir sentido entre as categorias, a TFD dispõe como ferramenta analítica o modelo paradigmático. Esse modelo consiste nos seguintes recursos: condições, que são as razões dadas pelos informantes para o acontecimento de determinado fato, bem como explicações sobre os motivos pelos quais respondem de uma dada maneira a uma ação; ações-interações: resposta expressa pelos participantes aos eventos ou a situações problemáticas; consequências: referem-se aos resultados previstos ou reais das ações e interações(11).

A integração, última etapa de construção da TFD, é o processo de refinar e integrar categorias com o propósito de revelar a categoria central. Na integração, as categorias são organizadas em torno de um conceito explanatório central, que inicia com os primeiros passos da análise e geralmente não termina até a redação final(13).

Concomitantemente ao processo de codificação dos dados e tão importante quanto ele, é o direcionamento da análise em termos de contexto e de processo. Essa análise foi registrada em memorandos redigidos e organizados no NVIVO® 12 pela própria pesquisadora principal.

Aspectos Éticos

O projeto de pesquisa desta investigação foi aprovado em 30 de agosto de 2021 pelo Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos com o parecer número 4.941.218. Atendeu às exigências das Resoluções nº 466/12 e nº 580/18 do Conselho Nacional de Saúde. Após o consentimento, os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para garantir o anonimato e a confidencialidade, os entrevistados estão designados em suas entrevistas (trechos) apresentados ao longo do artigo, da seguinte maneira: EN (enfermeiro) e TE (Técnicos de enfermagem), seguidos com o número das suas respectivas entrevistas.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 10 enfermeiros e 22 técnicos de enfermagem. Do grupo dos enfermeiros, 9 eram especialistas. O tempo médio de formação foi de 12 anos e 9 meses, já o tempo médio de experiência profissional, no cenário da pesquisa, foi de cinco anos e 10 meses.

Os dados apresentados neste artigo conformam a dimensão ações e interações estratégicas, sinalizada no modelo paradigmático da TFD, cuja categoria/conceito construída foi intitulada Cuidado de enfermagem sustentável e suas conexões com o Gerenciamento dos Resíduos dos Serviços de Saúde, e está fundamentada em quatro subcategorias que subsidiam o conceito supracitado a partir da complexidade envolvida nas competências que constituem o cuidado sustentável, desde o desenvolvimento de uma consciência ecológica, aos desdobramentos práticos para a utilização e descarte racional dos RSS. A seguir, apresenta-se a primeira subcategoria.

Estratégias Para Gerenciar os Resíduos Dos Serviços de Saúde no Contexto Hospitalar

A apropriação do conceito de sustentabilidade como mediador do planejamento da assistência de enfermagem permeia estratégias que podem ser adotadas no contexto hospitalar para o gerenciamento dos RSS. Todavia, há que se compreender a responsabilidade social e ambiental em relação ao uso de recursos hospitalares, a partir de ações individuais, como racionalizar materiais que podem contribuir para uma instituição mais sustentável. Essa realidade é vislumbrada pelos participantes.

(...) calcular o material que vai utilizar (...) usar menos materiais, se não for necessário, não utilizar o material. Exemplo, não pegar aquela quantidade grande de material que não será utilizado naquele momento, que muitas vezes a gente acaba levando e não vai ser utilizado, acho que a gente pode economizar um pouco também. (TE 01)

Os resultados sinalizam que uma abordagem consciente e sustentável em relação ao uso de recursos materiais, com ênfase no cálculo cuidadoso da quantidade necessária para evitar desperdício, pode levar à redução da geração de RSS e, consequentemente, dos impactos econômicos e ambiental, conforme demonstrado, a seguir:

Se a gente conseguir fazer com que todos entendam que o uso racional de material pode ajudar o hospital e a sociedade, talvez as coisas mudassem. Digo o hospital por causa da economia, e a sociedade também seria beneficiada pela ecologia protegida. (EN 09)

Para os profissionais de enfermagem, a falta de controle na utilização de materiais e a necessidade de um profissional responsável por auditar e contabilizar os materiais utilizados, com a finalidade de evitar e/ou reduzir desperdícios e garantir que haja suprimentos suficientes para atender às necessidades da instituição, pode significar problemas, como: falta de materiais essenciais, gastos excessivos e desperdício de recursos. A implementação de medidas para monitorar e controlar a utilização de materiais pode ajudar a reduzir esses impasses e garantir uso mais eficiente e sustentável dos recursos, conforme sinalizam os participantes.

Eu acredito que falte maior controle do que a gente utiliza, por isso acho que falta tantas vezes, falta um tipo de material, (...) teria que ter alguém para auditar isso, não é só a gente escrever o que utilizou (...) precisaria ter alguém para auditar, contabilizar, quantas estará sendo utilizado. (EN 05)

Falta chegar alguém que fiscalize melhor essa questão, que ajude a controlar mais o uso excessivo de materiais, até para não faltar para nós e para o paciente. (TE 21)

Os dados demonstram não ser consenso a importância de conhecimento na enfermagem sobre a gestão de recursos e gastos de materiais que exercem impactos na produção de RSS.

Aqui, como a gente está em um cargo de certa forma de chefia, faz parte da gerência. Eu preciso saber que o que eu tenho vai durar tanto tempo, né? O que eu gasto por semana. (EN 01)

Eu acho que todos conhecem a importância de não desperdiçar, não jogar material onde não se deve. É algo que já de antes do trabalho aqui, não precisa de um curso sobre isso. (TE 19)

Para os profissionais de enfermagem, os RSS não são afetados somente por atividades relacionadas aos materiais resultantes do cuidado direto ao paciente. Nesse sentido, sinalizam o grupo dos resíduos eletrônicos, como pilhas e baterias, ao tempo que reconhecem a importância de haver destinação final adequada, dado o impacto ecológico que esses resíduos podem gerar.

(...) essas pilhas a gente junta ali para não fazer o descarte inadequado, também com o objetivo de fazer essa troca. Então, a gente tem trocentas (muitas) pilhas usadas para trocar. (EN 08)

A complexidade imbuída nos significados que os profissionais de enfermagem atribuem aos RSS no contexto hospitalar assume relação direta com as interações que percebem entre essa realidade e os atores implicados nela. Nesse sentido, atribuem significado de importância aos profissionais da higienização hospitalar (serviços gerais), ao tempo que percebem como preocupante a desvalorização da realidade em que esses profissionais são negligenciados nos programas de qualificação e treinamento para o gerenciamento de RSS, conforme exemplificado a seguir:

(...) a categoria que é menos olhada, é como você olhasse assim, uma formiga, é assim que são vistas as pessoas da limpeza, entendeu? (...) eles também influenciam essa questão de resíduos de saúde. (TE 13)

Em se tratando de questões técnicas e estruturais de fácil resolução, os profissionais de enfermagem significaram como importante a qualificação das condições dos recursos para o descarte correto a partir de melhorias na identificação dos recipientes de coleta. A título de exemplo, os trechos seguintes destacam a importância de uma identificação adequada dos diferentes tipos de coletores em um hospital.

Algumas lixeiras são identificadas somente embaixo, mas eu acho que deveria haver uma identificação melhor, até mesmo na tampa dela, para a pessoa visualizar que ali é só resíduo infectante. (EN 08)

(...) se melhorar a estrutura das lixeiras, a identificação da lixeira, identificar realmente, não só colocar lixeira, mas dizer, descrever os lixos que deveriam estar condicionados ali. (TE 19)

Para os profissionais de enfermagem pesquisados, a identificação mais nítida e visível dos recipientes coletores serve para que todos possam facilmente identificar a qual tipo de resíduo o coletor é destinado, de modo a permitir que os resíduos descartados sejam adequadamente segregados e reduzam a chance de contaminação cruzada ou outros problemas associados à gestão inadequada de resíduos hospitalares. Os dados revelaram, ainda, a importância das interações no campo do conhecimento dos profissionais para o gerenciamento dos RSS, conforme destaca a subcategoria a seguir.

Educação Permanente e a Promoção de Ações de Conscientização e Educação Ambiental no Contexto Hospitalar

Essa subcategoria revela a insuficiência de treinamentos e debates no cenário sobre a temática “gerenciamento de RSS” e a necessidade de fortalecimento da educação permanente voltada para a promoção do cuidado com vistas à sustentabilidade nas instituições de saúde. Uma das soluções para reduzir o desperdício de materiais e o manejo dos RSS, no contexto hospitalar, seria através de treinamentos contextualizados em uma educação permanente para todos os profissionais envolvidos.

A gente precisa aprender melhor a importância de tudo isso, não digo apenas saber como fazer, mas além disso, o porquê de realizarmos o descarte de uma certa forma. Por isso, um treinamento assim seria melhor, algo que permitisse olhar de forma ampla. (EN 04)

Os resultados destacaram a necessidade de educação permanente não apenas em relação ao manejo e cuidado com os pacientes, usualmente disseminada e necessária, mas também em relação ao descarte correto de resíduos, como pilhas/baterias e materiais perfurocortantes. A observação de que nunca foi oferecido um curso específico para o descarte correto indica a falta de atenção à questão e a necessidade de se incluir esse tema nos treinamentos e capacitações oferecidos aos profissionais da saúde.

(...) aqui, eu acho interessante os treinamentos que a gente tem, de vez em quando, a gente tem treinamento de como manipular, manuseio com o paciente, mas nunca foi dado um curso assim, de descarte correto dos perfurocortantes. A chefe aqui do setor que faz, como também de pilhas. (TE 02)

Então eu acho que se difundir assim, cartazes e informativos e também de treinamentos, que a gente consegue fazer na parte da manhã, às vezes até em dois horários, coisa rápida. O pessoal tem uma boa adesão, todos os setores, o pessoal faz direitinho, entendeu? Então eu acho que é uma porta aberta boa para montar uma coisa desse tipo e conscientizar a enfermagem. (EN 01)

Falta divulgar mais esse assunto, tornar mais comum no nosso dia a dia, até porque é o tempo inteiro, todos os dias no plantão que você estiver, seja onde for, muitas das vezes tem um descarte incorreto, porque está somente aquela lixeira e aí ninguém se preocupa. (EN 04)

Foi evidenciada a importância da conscientização e treinamento para melhorar a prática profissional. Para os participantes, a consciência sobre o descarte correto de materiais é favorecida mediante processos educativos. Para eles, os treinamentos precisam ser realizados regularmente para manter a conscientização e os bons resultados.

Essa consciência só vem com o treinamento, e o treinamento precisa ser feito de 3 em 3 meses, porque as pessoas esquecem. A gente fez um treinamento sobre punção venosa, acesso venoso, infecção e foi um sucesso, eles adoraram, os números melhoraram. Não sei o que, só que se passou o tempo, começou de novo a ter caso, precisa ser constante o treinamento, precisa ser cíclico mesmo. (EN 08)

Supervisão: o Olhar do Outro Nas Ações do Gerenciamento Dos Resíduos do Serviços de Saúde

Para os enfermeiros e técnicos de enfermagem, em virtude da falta de consciência ambiental dos profissionais de saúde, faz-se necessário que o gerenciamento do RSS, no contexto hospitalar, disponha de supervisão de um profissional responsável que pode ocorrer a partir de visitas periódicas aos setores, com o objetivo de orientar/capacitar os profissionais de saúde. Ademais, os participantes sinalizam contextos transversais em que tais abordagens podem acontecer, entre os quais está a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), por eles mencionada.

A CCIH tem uma enfermeira que ela vem, umas duas vezes por semana, ela faz a ronda no setor. Se ela encontrar uma agulha, ela fala: ‘tenha atenção, a agulha tem que ser no coletor!’ (...) ‘Não mistura isso com aquilo!’, ela passa e dá uma luz rápida, principalmente, não só na parte dos perfurocortantes, mas se ela achar essa medicação aberta, ela fala (...) sempre passa uma orientação. (TE 12)

Os participantes reconhecem que as ações e interações estabelecidas com a enfermeira da CCIH, a partir de suas orientações, são importantes para manter a segurança do paciente e prevenir infecções relacionadas à saúde. Além disso, suas abordagens oferecem redirecionamentos objetivos que os auxiliam nas tomadas de decisões cotidianas em relação ao gerenciamento de RSS. As ações-interações para um melhor gerenciamento de RSS não estão limitadas aos profissionais de saúde, mas alcançam também os profissionais da higienização hospitalar, cujos significados estão centrados na corresponsabilidade da supervisão.

Uma vez, sem querer, eu joguei um equipo no lugar errado, aí o rapaz da limpeza falou: ‘não pode jogar aqui não!’. Então, eu fiquei mais atenta para as outras oportunidades. (TE 04)

Os dados corroboram a perspectiva sistêmica de que as estratégias para o gerenciamento de RSS, no contexto hospitalar, assumem uma lógica não linear entre as partes envolvidas, em que todos os membros são importantes. Em paralelo, a subcategoria seguinte ressalta a enfermagem como estratégica para o equilíbrio dessa realidade.

A Enfermagem Como Atrator Caótico Para a Mudança Positiva do Gerenciamento de Rss

Dessa subcategoria emerge o conceito de “enfermagem como atrator caótico” e se refere à capacidade da enfermagem de ser agente de mudança no contexto do gerenciamento de RSS, à medida que utiliza as suas competências para promover, mediante um cuidado sustentável, práticas mais conscientes e seguras para o meio ambiente e para a saúde dos demais profissionais e pacientes.

Para os participantes, a enfermagem pode proporcionar a mudança necessária para o correto gerenciamento de RSS e essa capacidade decorre do estímulo à mudança de pensamento capaz de modificar comportamento para práticas sustentáveis. Dessa realidade, resultam melhores possibilidades para a implementação de estratégias mais eficazes de gestão de resíduos no âmbito da educação e conscientização dos profissionais de saúde sobre questões ambientais, bem como a busca por soluções inovadoras e colaborativas para melhorar o gerenciamento dos RSS. Assim, os dados sinalizam que a enfermagem pode desempenhar um papel fundamental na promoção de práticas mais sustentáveis e na prevenção de danos ambientais e de saúde decorrentes do gerenciamento de RSS.

A Enfermagem pode transformar a realidade, ela tem esse poder. (EN 07)

A Enfermagem sempre disposta a aprender, a gente dá jeitinho para tudo, eu acho que deveria pensar em uma maneira melhor de trabalhar de otimizar nosso trabalho, né? (TE 02).

DISCUSSÃO

A concepção sistêmica dos fenômenos complexos sinaliza a necessidade de um pensamento capaz de estabelecer conexões entre as partes, em uma lógica que ultrapassa a relação simplista de causa e efeito(14,15). É nesse sentido que a produção inadequada de resíduos pode resultar em graves consequências para a manutenção do ecossistema, com rápida degradação do meio ambiente associada ao aquecimento global, de modo a determinar mudanças climáticas. Logo, faz-se oportuno corroborar a necessidade de se reformar o pensamento para se pensar a reforma(5), pois, a mudança de pensamento que resulte em modificação de comportamento é um desafio crítico para a comunidade global no que diz respeito à preservação da vida(15).

Apesar do exposto, para a Teoria da Complexidade, as modificações de pensamentos e de ações não ocorrem de forma linear. Nessa seara, encontra-se o que Morin caracteriza como ecologia da ação, a saber: um fenômeno que, ao sofrer um conjunto de conexões, tende a iniciar um movimento do qual não podem ser conhecidas as consequências, isto por carência de controle da natureza de suas interações(5). Por conseguinte, o gerenciamento de RSS deve ser alcançado pela perspectiva complexa capaz de conectar o cuidado ao paciente ao cuidado ecológico, visto que o complexo significa o que é tecido junto’(5,15). Assim sendo, há que se conceber a necessidade de compreensão sobre conexões entre as partes, que juntas formam o todo, proporcionando uma visão sistêmica da realidade(5).

O cuidado de enfermagem, com vistas à sustentabilidade, a partir de um plano de ação bem elaborado pode ser capaz de reduzir a quantidade de RSS sem diminuir a qualidade da assistência ofertada aos pacientes. Os profissionais de enfermagem precisam, desse modo, estar cientes de seu papel crítico na gestão eficaz de resíduos, conforme sinalizaram os dados desta pesquisa, porque são eles que, na maior parte dos procedimentos realizados, separam os resíduos no ponto de geração, por exemplo. Nessa conjuntura, esforços para identificar e eliminar fontes desnecessárias de geração de resíduos podem impactar positivamente a eficácia do desenvolvimento de um ecossistema sustentável, o que envolve o setor saúde(16).

Na produção de cuidados de saúde e de enfermagem, dependendo das intervenções realizadas, torna-se inevitável que resíduos sejam gerados. Entretanto, pensar a assistência de maneira sustentável, sem desperdícios de materiais e no descarte correto de resíduos, deve compor o cotidiano dos profissionais de saúde(17), haja vista a importância do gerenciamento de RSS ser concebido e processado em sua perspectiva sistêmica, conectada entre todas as partes, o que faz desse fenômeno uma responsabilidade dos trabalhadores da saúde, bem como dos tomadores de decisões na esfera legislativa e da gestão pública(18). Ademais, essa perspectiva remonta ao que Morin categoriza como princípio da auto-organização, o qual está ancorado em dois conceitos, a saber: autonomia e dependência. A relação desses conceitos com o cuidado sustentável e o gerenciamento de RSS, põe em relevo que a autonomia do enfermeiro na tomada de decisão que visa uma assistência de maneira sustentável, depende também da cultura ambiental na qual está inserido. Por essa razão, a partir da complexidade, compreende-se os trabalhadores de saúde como seres auto-ecoorganizadores, pois dependem de sua cultura e consciência ecológica para exercer a sua autonomia no âmbito do gerenciamento de RSS.

Pelo exposto, repensar os padrões de consumo e reduzir a geração de resíduos, assegurando que esses sejam sustentáveis, além de outras agendas, é um chamado a todas as nações para o desenvolvimento sustentável. Com isso, a ONU, a partir da Agenda 2030, mediante os ODS, visa proteger o planeta da degradação, sobretudo por meio do consumo e da produção sustentáveis, mediante gestão sustentável dos recursos naturais, bem como da assunção de medidas urgentes sobre a mudança climática. Tais ações visam garantir que a biosfera possa suportar as necessidades das gerações presentes e das gerações vindouras(11,18).

Nesse contexto, há que se dar espaço para a discussão sobre logística reversa, que pode ser definida como o processo de gerenciamento de produtos após o consumo final, com o objetivo de reduzir o impacto ambiental e promover a sustentabilidade. Assim, a logística reversa é a gestão dos resíduos gerados pelos produtos e embalagens após o seu uso, visando à reciclagem, reutilização ou disposição final adequada(19,20).

Diante das conexões relacionadas ao tema, o gerenciamento de RSS é fenômeno complexo por abarcar, também, a multidimensionalidade dos atores envolvidos em seu processo. Assim, cumpre destacar a responsabilidade compartilhada entre fabricantes, consumidores e governos na gestão dos resíduos. Fabricantes são responsáveis pela implementação de sistemas de reciclagem e pela produção de produtos mais sustentáveis; os consumidores têm o papel de separar e descartar os resíduos adequadamente; e os governos devem estabelecer políticas públicas que incentivem a logística reversa e regulamentem a gestão dos resíduos; finalmente, os profissionais da assistência direta ao paciente têm a responsabilidade de agir, supervisionar e cobrar ações sustentáveis(20). Essa reflexão é importante porque destaca a gestão adequada de resíduos em um hospital, incluindo a necessidade de garantir que as pessoas possam identificar facilmente o tipo de lixo que devem descartar, conforme demonstraram os enfermeiros desta pesquisa. Assim, ao melhorar a identificação dos recipientes de lixo, é possível aumentar a eficácia da gestão de resíduos hospitalares e reduzir o risco de problemas associados à contaminação ou outros perigos para a saúde pública(21,22).

Para a implementação do gerenciamento de RSS de forma segura, faz-se necessário a utilização de procedimentos, normas e rotinas no âmbito institucional. Para tanto, os profissionais devem ser capacitados e estimulados às ações que minimizem a geração de RSS, com operacionalização de gestão a partir de métodos acessíveis e resolutivos. É importante destacar que aliado a tudo isso, deve-se considerar, também, que a redução do volume de resíduos hospitalares só é possível quando as atividades dos setores responsáveis pela geração desses resíduos são integradas ao cotidiano do trabalho, juntamente com a conscientização de todos os profissionais envolvidos no gerenciamento de RSS(22).

Finalmente, as avaliações ambientais são necessárias para entender o amplo impacto dos RSS, tanto na saúde pública, diretamente, como no meio ambiente. Nessa perspectiva, cabe ressaltar que os hospitais são também significados como instituições que consomem um alto volume de produtos plásticos descartáveis para minimizar infecções, além de diferentes medicamentos e suprimentos médicos. Portanto, instruções ou manuais detalhados sobre o manuseio de resíduos devem ser fornecidos aos profissionais de saúde para separação e descarte adequados para reduzir o volume de resíduos gerados(23,24).

A educação permanente, conforme sinalizaram os dados, é uma estratégia fundamental para promover ações de educação ambiental no ambiente hospitalar, visando a gestão adequada dos RSS. Algumas estratégias que podem ser adotadas incluem capacitações regulares para os profissionais de saúde sobre os procedimentos corretos de segregação e descarte dos resíduos, incentivo ao uso de materiais e equipamentos mais sustentáveis e de menor impacto ambiental, campanhas de sensibilização para pacientes e familiares sobre a importância da gestão adequada dos resíduos, entre outras(24). Ademais, em relação aos profissionais de saúde, essa realidade é corroborada nos resultados encontrados em estudo cuja maioria dos pesquisados revelaram não ter recebido nenhum treinamento/educação relacionado ao gerenciamento de resíduos (56,8%)(25). Todavia, cumpre ressaltar que, para a complexidade, o processo educativo deve romper a patologia do saber, isto é, o conhecimento isolado, descontextualizado(5). Assim, a educação para a transformação de práticas positivas relacionadas ao gerenciamento de RSS deve envolver a perspectiva multidimensional e, por conseguinte, a ecologia como parte indissociável da saúde e da enfermagem.

Medidas de intervenção são pontos importantes para preencher a lacuna no conhecimento. Além disso, práticas e atitudes devem ser apoiadas por treinamento em gerenciamento de RSS para manipuladores e gerentes de resíduos, de modo a fomentar maior mudança na prática dos profissionais de saúde(26). Nesse sentido, a educação sobre o gerenciamento de RSS conforma necessidade para processos sustentáveis relacionados aos cuidados em saúde em que todos os membros do hospital devem ser encorajados a participar da educação sobre o valor do gerenciamento desses resíduos, cuja finalidade implica alcançar um ambiente mais sustentável possível(27).

Ao sinalizarem a importância da supervisão, os dados da pesquisa reforçam que esta é uma prática importante no gerenciamento de RSS, pois permite que os profissionais envolvidos nas atividades tenham um olhar crítico e reflexivo sobre suas ações. A supervisão também permite que os profissionais recebam feedbacks sobre seu trabalho e possam identificar possíveis falhas ou oportunidades de melhorias. Além disso, promove o compartilhamento de conhecimentos e experiências entre os profissionais, o que pode contribuir para a melhoria do gerenciamento de resíduos no contexto hospitalar(28).

Na CCIH, é relevante o papel da enfermagem, especialmente para prospectar possibilidades para o conhecimento das infecções na unidade de saúde, além de desempenhar ações de educação permanente que abrangem toda a equipe de enfermagem e demais membros da equipe de saúde. Destaca-se a importância desses órgãos perante a prevenção, uma vez que eles avaliam os riscos presentes nos locais de trabalho, efetivam ações preventivas, além de conduzir os trabalhadores nas questões relacionadas à saúde e segurança(29).

O não cumprimento das diretrizes que regulam o gerenciamento de RSS pode ser devido à falta de fiscalização das autoridades e à ausência de regras e procedimentos rígidos regulamentados. Portanto, há que se enfatizar a importância da elaboração de regras e regulamentos seguidos de fiscalização de caráter educativo, bem como a monitorização regular, todos os quais devem reforçar a importância da adesão e garantir o cumprimento dos protocolos relacionados ao gerenciamento de RSS(24,26). Tal entendimento vai ao encontro do princípio da ecologia de ação, em que uma ação não depende somente da vontade daquele que a pratica, mas, principalmente, dos contextos em que ela se insere, das condições sociais, biológicas, culturais, políticas que a impulsionam, retroalimentam o seu desenvolvimento ou desaparecimento(5).

Portanto, ao se considerar a importância do gerenciamento de RSS como fenômeno complexo, enraizado em múltiplos fatores que potencializam impactos para a qualidade de vida das pessoas e para o meio ambiente, faz-se necessária a delimitação de um ponto de partida para a tecedura de uma investigação capaz de compreender esse fenômeno a partir da ação humana no cotidiano laboral da saúde(8). Por ser um fenômeno complexo, há que se demarcar, contudo, o contexto de sua emergência e desenvolvimento(5,14), em que, nesta problematização, está centrado no âmbito do hospital. Todavia, o entendimento de contexto não se limita a estrutura física onde determinado fenômeno está posicionado, mas envolve, também, as pessoas implicadas nas interações sociais que influenciam o seu desenvolvimento. Na projeção desta pesquisa está focalizada na enfermagem.

Devido à natureza única do fenômeno estudo, a replicação direta dos resultados da pesquisa pode ser desafiadora. A reprodução dos mesmos resultados em diferentes configurações pode apresentar especificidades que sinalizam a limitação do estudo, a saber: a necessidade de alcançar outros grupos amostrais, como demais membros da equipe de saúde e da equipe de limpeza. O cenário do estudo também pode revelar implicações limitadoras, uma vez que ocorreu em um hospital universitário onde podem ocorrer ações educativas específicas. Logo, estudos semelhantes em hospitais privados ou públicos distintos do âmbito universitário podem revelar resultados diferentes desta pesquisa.

CONCLUSÃO

A complexidade envolvida nas ações e interações que permeiam os significados dos profissionais de enfermagem sobre o gerenciamento de RSS está diretamente relacionada com a perspectiva de cuidado sustentável. Essas conexões são estabelecidas à medida que esses profissionais reconhecem e valorizam a compreensão sobre a responsabilidade social e ambiental para o uso de recursos materiais, com a devida preocupação para o uso racional desses recursos e redução de desperdícios que afetam a geração de resíduos e impactam a economia institucional e, por conseguinte, do setor saúde. Nesse sentido, os participantes ponderaram a relação entre uso racional de materiais, geração de resíduos, economia da saúde e qualidade da assistência. Dessas conexões, depreende-se o sentido complexo de cuidado sustentável.

Os resultados da pesquisa apresentaram significados relacionados ao contexto da cultura organizacional e dos processos de trabalho vinculados ao gerenciamento dos RSS, desde ações que favoreçam a classificação correta dos resíduos, treinamento e capacitação para os profissionais implicados no gerenciamento de RSS; ao monitoramento e controle dos resíduos produzidos, desde a sua geração até o seu descarte final, a fim de garantir a segurança ambiental e da saúde pública; entre outras.

O paradigma da complexidade estabelece, portanto, importantes nexos com a forma apreendida pela enfermagem em relação à sustentabilidade requerida para o cuidado ecológico capaz de pensar/fazer o gerenciamento de RSS fundamentado na relação entre contexto, ambiente, indivíduos e ecologia.

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  • Apoio financeiro O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes. Código de Financiamento 001.

Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Cristina Lavareda Baixinho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    03 Set 2023
  • Aceito
    14 Ago 2024
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