Open-access Qualidade do cuidado de enfermagem na gestão da dor em pacientes cirúrgicos ortopédicos: revisão de escopo*

RESUMO

Objetivo:  Mapear as evidências sobre as práticas de qualidade do cuidado de enfermagem na gestão da dor em pacientes cirúrgicos ortopédicos.

Método:  Revisão de escopo, conforme as recomendações do Manual JBI. As buscas foram realizadas nas bases de dados MEDLINE (PubMed), LILACS (BVS Regional), Scopus, Embase, Web of Science, Cochrane, Cinahl e literatura cinzenta, independentemente do idioma e período. A seleção e a extração foram realizadas por dois revisores independentes, utilizando critérios de inclusão/exclusão, e os dados extraídos foram organizados para refletir os principais temas ou padrões recorrentes relacionados ao objetivo da revisão.

Resultados:  Foram incluídos 94 estudos, a maioria dos Estados Unidos, correspondendo a 34% da amostra, e publicados entre 1997 e 2022. Os achados foram categorizados em práticas de qualidade de enfermagem na gestão da dor relacionadas à organização e monitoramento das unidades, e período pré e pós-operatório.

Conclusão:  A pesquisa revelou que as práticas de qualidade do cuidado de enfermagem na gestão da dor em pacientes cirúrgicos ortopédicos abrangem uma variedade de abordagens, desde o uso de práticas não farmacológicas e educação ao paciente até o uso de escalas de avaliação da dor, capacitação da equipe, treinamento, até procedimentos farmacológicos inovadores.

DESCRITORES
Enfermagem em Ortopedia e Traumatologia; Qualidade da Assistência à Saúde; Segurança do Paciente; Dor Pós-Operatória; Enfermagem Baseada em Evidências

ABSTRACT

Objective:  To map the evidence on quality nursing care practices in pain management in orthopedic surgical patients.

Method:  Scoping review, as per the JBI Manual recommendations. Searches were performed in the MEDLINE (PubMed), LILACS (Regional VHL), Scopus, Embase, Web of Science, Cochrane, Cinahl databases, and gray literature, regardless of language and period. Selection and extraction were performed by two independent reviewers, using inclusion/exclusion criteria, and the extracted data were organized to reflect key themes or recurring patterns related to the purpose of the review.

Results:  A total of 94 studies were included, most from the United States, corresponding to 34% of the sample, and published between 1997 and 2022. The findings were categorized into: nursing quality practices in pain management related to the organization and monitoring of units, and pre- and post-operative period.

Conclusion:  The research revealed that quality nursing care practices in pain management in orthopedic surgical patients encompass a variety of approaches, from the use of nonpharmacological practices and patient education to the use of pain assessment scales, staff training, to innovative pharmacological procedures.

DESCRIPTORES
Trauma Nursing; Quality of Health Care; Patient Safety; Pain, Postoperative; Evidence-Based Nursing

RESUMEN

Objetivo:  Mapear la evidencia sobre las prácticas de atención de enfermería de calidad en el manejo del dolor en pacientes de cirugía ortopédica.

Método:  Revisión del alcance, según las recomendaciones del Manual del JBI. Las búsquedas se realizaron en las bases de datos MEDLINE. (PubMed), LILACS (BVS Regional), Scopus, Embase, Web of Science, Cochrane, Cinahl y literatura gris, independientemente del idioma y época. La selección y extracción fueron realizadas por dos revisores independientes, utilizando criterios de inclusión/exclusión, y los datos extraídos se organizaron para reflejar temas clave o patrones recurrentes relacionados con el objetivo de la revisión.

Resultados:  Se incluyeron 94 estudios, la mayoría de Estados Unidos, correspondientes al 34% de la muestra, y publicados entre 1997 y 2022. Los hallazgos se categorizaron en prácticas de enfermería de calidad en el manejo del dolor relacionadas con la organización y seguimiento de las unidades, y períodos pre y postoperatorios.

Conclusión:  La investigación reveló que las prácticas de atención de enfermería de calidad en el manejo del dolor en pacientes de cirugía ortopédica abarcan una variedad de enfoques, desde el uso de prácticas no farmacológicas y la educación del paciente hasta el uso de escalas de evaluación del dolor, capacitación de equipos, capacitación e incluso procedimientos farmacológicos innovadores.

DESCRIPTORS
Enfermería de Trauma; Calidad de la Atención de Salud; Seguridad del Paciente; Dolor Postoperatorio; Enfermería Basada en la Evidencia

INTRODUÇÃO

A Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) atualizou o conceito de dor como uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial (1). Dentro desse novo conceito, aspectos importantes devem ser considerados: a dor é sempre uma experiência pessoal que é influenciada, em graus variáveis, por fatores biológicos, psicológicos e sociais; dor e nocicepção são fenômenos diferentes, ou seja, a dor não pode ser determinada exclusivamente pela atividade dos neurônios sensitivos; por meio das experiências de vida, as pessoas aprendem o conceito de dor; o relato de uma pessoa sobre uma experiência de dor deve ser respeitado. Embora a dor geralmente cumpra um papel adaptativo, ela pode ter efeitos adversos na função e no bem-estar social e psicológico; e a descrição verbal é apenas um dos vários comportamentos para expressar a dor(1).

Além de seu aspecto subjetivo, a dor integra processos fisiológicos subjacentes que envolvem os sistemas nervoso sensorial e autônomo, catecolaminas circulantes e outros hormônios de resposta ao estresse e respostas do sistema imunológico à sinalização autonômica e hormonal. Clinicamente, os estados de dor podem ser agudos ou crônicos. A dor aguda caracteriza-se como um sintoma e tende a se resolver com a resolução da causa da dor. Já a dor crônica caracteriza-se por um processo patológico, com alterações no sistema de modulação da dor, e sensibilização central(2).

A dor pós-operatória é a forma mais comum de dor aguda, afetando 80% dos pacientes submetidos a cirurgia. O tempo de recuperação após o procedimento impacta diretamente a frequência e a intensidade da dor, que tende a ser mais intensa nas primeiras 24 horas de pós-operatório(2,3). Geralmente, é uma consequência previsível e temporária da lesão física gerada pelo procedimento cirúrgico, uma função biológica protetora que auxilia na recuperação, ao limitar movimentos e comportamentos que podem causar danos adicionais ao tecido, além de uma resposta do sistema imunológico e inflamatório para a recuperação do tecido lesado(2,4).

Pacientes submetidos a cirurgia ortopédica podem apresentar dor em sua forma aguda, crônica ou uma combinação das duas, sendo que menos da metade de todos os pacientes cirúrgicos relatam alívio adequado da dor(5). Em cirurgias ortopédicas, o alívio efetivo da dor permite melhor mobilidade, reabilitação e acelera o retorno às atividades de vida diária(6).

Apesar do maior foco na compreensão e tratamento da dor pós-operatória e do desenvolvimento de recomendações baseadas em evidências e melhores práticas na busca de um manejo da dor eficaz, o controle da dor pós-operatória continua abaixo do ideal, independentemente do sistema hospitalar, tipo de cirurgia ou país(2,7). O controle inadequado da dor durante o pós-operatório pode resultar na cronificação da dor, afetando de forma negativa a qualidade de vida dos pacientes e aumentando os custos do cuidado para os serviços de saúde(2,3,4,8). Com o objetivo de melhorar a qualidade no gerenciamento da dor, instituições acreditadoras, como a Joint Commission, buscou estabelecer padrões que incluem práticas de qualidade em cuidados para diversas categorias profissionais, incluindo a enfermagem(8).

A busca pela melhoria constante da qualidade nos cuidados em saúde traz mudanças que geram melhores resultados para os pacientes, integrando elementos da prática clínica que podem ser padronizados em um determinado contexto(2).

No contexto hospitalar, o enfermeiro é o profissional de saúde que mais frequentemente é responsável por avaliar a resposta do paciente à terapêutica utilizada para alívio da dor, pois são os que gerenciam a administração da analgesia prescrita e utilização das práticas não farmacológicas(9). Com isso, a equipe de enfermagem tem um papel fundamental no manejo da dor porque são os profissionais de saúde que atuam na primeira linha no atendimento ao paciente. Sendo assim, a avaliação e o cuidado da dor são habilidades essenciais e é fundamental para a qualidade do cuidado ao paciente(10).

O gerenciamento efetivo da dor é o principal objetivo do cuidado pós-operatório e contribui para recuperação do paciente, retorno às atividades, conforto e sensação de bem- estar e satisfação, e redução do tempo e os custos da internação(11). Apesar de ser consensual entre as evidências científicas e os profissionais de saúde a importância de um manejo da dor com qualidade no pós-operatório, o controle álgico após procedimento cirúrgico continua sendo um grande problema durante a hospitalização, sendo a dor relatada de forma moderada a intensa em 51% dos pacientes(7).

Identificar as práticas de qualidade no manejo da dor contribui para busca de um cuidado de alta qualidade, seguro e eficiente, beneficiando tanto os pacientes quanto os profissionais, sendo fundamental para avançar o conhecimento na área e melhorar os cuidados de saúde(2,10).

Alguns estudos primários foram publicados sobre o tema e uma busca preliminar na base Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), COCHRANE DATABASE E JBI Evidence Synthesis foi conduzida, e nenhuma revisão sistemática ou de escopo sobre o tópico foi identificada. O objetivo deste estudo foi mapear as evidências sobre as práticas de qualidade do cuidado de enfermagem na gestão da dor em pacientes cirúrgicos ortopédicos.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Trata-se de um estudo do tipo revisão de escopo baseado no referencial teórico proposto e desenvolvido pela JBI, específico para esse tipo de pesquisa(12), sendo relatado de acordo com os pressupostos do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension or Scoping Reviews (PRISMA-ScR)(13).

A revisão de escopo adequa-se bem a esta pesquisa, que visa uma abordagem ampla da temática, a fim de identificar lacunas na literatura e subsidiar pesquisas futuras. O protocolo desta revisão foi registrado, conforme recomendações do JBI, na plataforma de registro Open Science Framework (https://osf.io/tfwuh) com DOI 10.17605/OSF.IO/TFWUH(14).

Identificação da Pergunta de Revisão

Para construção da pergunta, utilizou-se o acrônimo PCC (Population, Concept e Context), recomendado para revisões de escopo. Com base nessas definições, foi estabelecida a questão de pesquisa: “Quais práticas de qualidade do cuidado de enfermagem na gestão da dor em pacientes cirúrgicos ortopédicos são recomendadas e realizadas no contexto hospitalar”?, onde População = Pacientes cirúrgicos ortopédicos; Conceito = Práticas de qualidade de enfermagem em gestão da dor; e Contexto = ambiente hospitalar.

Critérios de Elegibilidade

População: Foram considerados estudos com pacientes adultos cirúrgicos ortopédicos, que estejam no ambiente hospitalar, durante o período pré e/ou pós-operatório, independentemente da natureza ou extensão da cirurgia realizada. Foram excluídos os estudos que não respondiam à questão de pesquisa.

Conceito: Como conceito, foram considerados estudos contendo práticas de qualidade do cuidado de enfermagem na gestão da dor em procedimentos cirúrgicos ortopédicos. A qualidade do cuidado de enfermagem é definida como todas as práticas que envolvem um cuidado holístico ao paciente, que abrange as questões de atendimento às necessidades do paciente, competência e empatia dos enfermeiros, melhores resultados do paciente e satisfação(15). Para a gestão da dor, foram considerados estudos que descrevessem práticas que estão relacionadas às competências essenciais do enfermeiro no manejo da dor aguda e crônica, que envolvem natureza multidimensional da dor, avaliação e medição da dor, manejo da dor e contexto do manejo da dor(16).

Contexto: O contexto da pesquisa desenvolveu-se no ambiente hospitalar, onde se concentram as atividades de cuidados médicos e tratamentos aos pacientes. Este ambiente é crucial para a compreensão do manejo da dor no período operatório até questões relacionadas à gestão hospitalar e de políticas de saúde.

Tipos de estudo: Considerou desenhos de estudos experimentais e quase experimentais, incluindo ensaios clínicos randomizados e não randomizados, estudos do tipo antes e depois, e séries temporais. Estudos observacionais, incluindo estudos de coorte, estudos caso-controle e estudos transversais, série e relatos de casos, além de protocolos e diretrizes de prática clínica. Revisões de literatura, teses e artigos de texto e opinião de especialistas também foram considerados para inclusão nesta revisão de escopo.

As publicações que não atendiam aos objetivos do estudo, que não continham informações pertinentes ao cenário proposto e que não abordavam o conceito e o contexto escolhidos foram excluídas.

Estratégia de Busca E Fontes de Informação

A busca ocorreu de maio a outubro de 2023, por dois revisores independentes, e uma estratégia de busca em três etapas foi utilizada para esta revisão. Uma pesquisa inicial limitada no MEDLINE (Pubmed) e CINAHL foi realizada, seguida da análise das palavras do texto contidas no título e no resumo, e os termos de índice usados para descrever o artigo, conforme exemplificado no Quadro 1. Uma pesquisa secundária completa foi realizada em todos os bancos de dados incluídos na revisão: MEDLINE (PubMed), LILACS (BVS Regional), Scopus, Embase, Web of Science, Cochrane e Cinahl, usando as palavras chaves e os termos de índice identificados na pesquisa inicial. Para ajudar a identificar quaisquer estudos adicionais, uma pesquisa de literatura terciária foi realizada examinando as listas de referências de toda a literatura que apreciasse os critérios de inclusão desta revisão. A revisão considerou estudos em qualquer idioma e sem limite de data de publicação. A busca por literatura cinzenta incluiu: Sites de organizações de dor, Biblioteca Digital de Teses e Dissertações, Protocolos e Diretrizes Clínicas reconhecidas por órgãos governamentais e National Institute for Health and Care Excellence (NICE).

Quadro 1
Busca e mapeamento dos termos realizados na base MEDLINE em 22/05/2023 – Niterói, RJ, Brasil, 2023.

Seleção Dos Estudos

Os registros foram importados para o gerenciador de referências EndNote (Clarivate Analytics, PA, EUA) e os estudos duplicados foram removidos. Em seguida, as referências geradas do EndNote foram exportadas para a plataforma on-line para revisões sistemáticas Rayyan QCRI(17). A partir disso, foi feita a seleção dos estudos em duas etapas por dois revisores independentes. Primeiramente, pela análise dos títulos e resumos e, posteriormente, os estudos selecionados que atenderam os critérios de elegibilidade e que tiveram consenso entre os dois revisores foram lidos na íntegra para inclusão ou exclusão. As divergências que surgiram entre os revisores foram resolvidas por meio de discussão, e não houve necessidade de um terceiro revisor.

Extração Dos Dados E Apresentação Dos Resultados

As informações dos documentos selecionados para análise foram extraídas por dois revisores, de maneira independente, com o uso de planilhas do Microsoft Excel®. Os dados extraídos incluíram detalhes específicos sobre a população, conceito, contexto, métodos de estudo e principais conclusões relevantes para o objetivo da revisão. A primeira parte da extração traçou o perfil dos estudos contendo os seguintes tópicos: Autor e ano de publicação; Local do Estudo; Tipo de Estudo; Tamanho da amostra; Tipo de cirurgia ortopédica e Hospital (tipo e setor de internação). Após a extração dos dados, os achados foram consolidados em uma tabela que destacou as principais características dos estudos incluídos na pesquisa, proporcionando uma visão geral de todo o material utilizado e sua relevância para o tema, e foram descritos acerca de: práticas de qualidade de enfermagem na gestão da dor relacionadas à organização das unidades e monitoramento dos pacientes; práticas de qualidade de enfermagem na gestão da dor no período pré e pós-operatório. Sendo assim, os dados extraídos foram organizados para refletir os principais temas ou padrões recorrentes relacionados ao objetivo da revisão.

Os dados estão apresentados em figura e quadros, acompanhados de uma análise narrativa.

RESULTADOS

A pesquisa na base de dados recuperou 3962 estudos/registros potencialmente relevantes. Foram excluídos 453 documentos duplicados. Foram analisadas 3509 publicações pelo título e resumo, sendo excluídos 3.263 por não atenderem aos critérios de inclusão. Dessa forma, 246 estudos foram avaliados na íntegra quanto à elegibilidade. Ao final, foram incluídos 94 estudos.(18 17,18,19,20,21,22,23,24,25,26,27,28,29,30,31,32,33,34,35,36,37,38,39,40,41,42,43,44,45,46,47,48,49,50,51,52,53,54,55,56,57,58,59,60,61,62,63,64,65,66,67,68,69,70,71,72,73,74,75,76,77,78,79,80,81,82,83,84,85,86,87,88,89,90,91,92,93,94,95,96,97,98,99,100,101,102,103,104,105,106,107,108,109,110,111), para compor a amostra final da revisão (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma do PRISMA-ScR de seleção das publicações(13) – Niterói, RJ, Brasil, 2023.

Qaa2’

O Quadro 2 apresenta a síntese dos estudos. Dos 94 estudos incluídos, 90 foram publicados em inglês(18,19,20,21,23,24,25,26,27,28,29,30,31,32,33,34,35,38,39,40,41,42,43,44,45,46,47,48,49,50,51,52,53,54,55,56,57,58,59,60,61,62,63,64,65,66,67,68,69,70,71,72,73,74,75,76,78,79,80,81,82,83,84,85,86,87,88,89,90,91,92,93,94,95,96,97,98,99,100,101,102,103,104,105,106,107,108,109,110,111), dois em português(36,37), um em alemão(22) e um em polonês(77). Quanto ao período de publicação, os estudos encontram-se entre os anos de 1997 e 2022, com maior crescimento nas produções a partir de 2015. Quanto à origem, trinta e seis foram produzidos no continente americano(18,19,20,21,23,24,25,30,34,36,37,40,41,42,45,46,50,51,58,59,60,61,63,68,69,71,72,74,76,78,91,92,97,98,104,108,109,110), vinte e nove no continente asiático(11,12,15,16,17,22,23,27,28,36,37,39,40,41,50,54,57,64,71,77,78,79,86), vinte e quatro no continente europeu(22,26,29,35,62,64,67,75,77,83,84,85,86,88,89,90,91,99,100,101,103,105,106,107,111) e cinco na Oceania(48,49,66,81,82). Os países com maior volume de publicações foram: Estados Unidos da América com trinta e dois (34%), China com quinze (16%) e Suécia com nove (8,5%). Dentre as publicações analisadas, os estudos de revisão destacaram-se como os mais utilizados, compreendendo 35,7% do total, seguidos pelos ensaios clínicos randomizados (25,7%). Na pesquisa em outras fontes de dados o que foi recuperado foi excluído por não atender aos critérios de inclusão; na busca em base de dados, foram incluídas duas recomendações(78,91), um consenso(47) e uma dissertação de mestrado(20).

Quadro 2
Perfil dos estudos selecionados – Niterói, RJ, Brasil, 2023.

As práticas de qualidade na gestão da dor encontradas nos estudos foram classificadas em organização das unidades e monitoramento do paciente e quanto ao período operatório em que foram aplicadas (Quadro 3). Com relação à organização das unidades e monitoramento do paciente, as pesquisas utilizaram como intervenção a capacitação da equipe de enfermagem, a prática baseada em evidências, o uso de protocolos e planejamento da assistência; foram realizadas independente do tempo operatório e tinham como objetivo o manejo da dor a partir da organização dos serviços.

Quadro 3
Práticas de qualidade de enfermagem na gestão da dor - Niterói, RJ, Brasil, ٢٠٢٣.

Quanto ao período em que as melhores práticas foram utilizadas, observamos que as intervenções estudadas por vezes se repetem, como o uso de algumas práticas não farmacológicas; sendo assim, outra classificação realizada foi em relação ao período operatório (pré e pós-operatório).

A extração de dados revelou uma série de práticas relevantes associadas à gestão da dor, dentre elas, o destaque foi a utilização de abordagens não farmacológicas para o alívio da dor, evidenciada em 34,4% dos casos. Além disso, foram identificados casos de gerenciamento eficaz (14,6%), educação para o autogerenciamento da dor (13,5%), adoção de procedimentos inovadores (10,4%), formação de equipes especializadas no gerenciamento da dor (10,4%), uso de escalas de avaliação da dor (5,2%), atenção individualizada (4,2%), e participação ativa do paciente nas decisões do cuidado (7,3%).

DISCUSSÃO

Nesta revisão, foi possível mapear as práticas de qualidade do cuidado de enfermagem na gestão da dor em pacientes cirúrgicos ortopédicos. A qualidade do cuidado é um elemento essencial para a assistência à saúde, e os enfermeiros desempenham um papel vital na gestão do cuidado na dor pós-operatória, garantindo que os pacientes recebam alívio adequado e individualizado da dor, promovendo seu bem-estar geral e recuperação.

A IASP também define um currículo mínimo que reúne conhecimentos que o enfermeiro deve adquirir para que haja uma adequada gestão da dor(112). No Brasil, a atuação do enfermeiro no manejo da dor está regulamentada pela Resolução Cofen 581/2018(113).

Os estudos mencionam a importância de uma equipe de enfermagem especializada em dor(56,82,89,103,105,109), bem como a importância da atuação de equipes multidisciplinares(35,44,59,62,105). Sendo o controle da dor um importante resultado a ser acompanhado quando pensamos na qualidade e segurança da assistência, e que, apesar disso, pacientes internados ainda tem a sua dor tratada de forma ineficaz, pesquisas que tenham como foco estratégias que possam impactar o manejo da dor realizado são essenciais para transformar a prática(9,113,114).

Uma quantidade considerável dos estudos selecionados estava voltada para a capacitação profissional, prática baseada em evidências, definição de protocolos assistenciais e uso de auditorias para avaliar a prática utilizada como forma de intervenção para tornar o manejo da dor realizado por enfermeiros efetivo, seguro e baseado nas melhores práticas.

A organização das unidades e o monitoramento do paciente após a cirurgia são cruciais para assegurar a eficácia do tratamento e a segurança. Isso inclui várias práticas de gerenciamento encontradas nos estudos, como: capacitação da equipe(36,37,47,52,55,56,57,60,62,67,69,70,73,84,87,88,89,91,92,103,109), implementação de protocolo padrão e educação(19,22,26,29,36,38,41,42,44,45,63,65,97,100,107), prática baseada em evidências(30,49,50,51,66,67,68,76,80,88,104,107,111), planejamento de assistência(23,27,33,86,90,104), uso de algoritmo(34,48), avaliação por meio de auditorias(64,89), condições de trabalho na avaliação da dor(77), fluxograma(79), uso de checklist(105), fornecimento de kit de tratamento não farmacológico(110) e criação de guia específico para crioterapia(111). O objetivo dessas estratégias é incentivar uma abordagem sistemática e eficiente para o tratamento da dor após a cirurgia, assegurando a qualidade do cuidado e a melhoria contínua dos processos clínicos.

É relevante que todas as práticas de qualidade estejam fundamentadas nas evidências científicas, e que um protocolo institucionalizado seja instituído, padronizando condutas e fluxos no atendimento. A avaliação da dor, com uso de instrumentos validados e padronizados na instituição foi citada em diversos estudos(18,21,23,34,37,42,43,44,46,49,56,63,66,68,69,75,78,79,81,91,95,100). A avaliação e prestação de cuidados eficazes e seguros refletem-se em uma cultura de excelência e resultam na obtenção de resultados desejados(115,116). Um dos autores apresentou uma recomendação diferenciada das relatadas, que é o feedback de desempenho individual, um processo em que os profissionais de saúde recebem informações específicas sobre a qualidade e eficácia de suas práticas relacionadas ao controle da dor em pacientes e os resultados indicaram que fornecer feedback aos enfermeiros sobre as suas práticas anteriores de gestão da dor pode melhorar os resultados da dor pós-operatória dos pacientes(58).

Durante o período pré e pós-operatório os estudos mostraram a relevância de um tratamento multimodal da dor, envolvendo abordagem farmacológica e não farmacológica na gestão da dor. Essa abordagem pode minimizar a quantidade administrada de opioides e riscos associados. Apesar disso, muitos pacientes cirúrgicos ainda recebem apenas o tratamento farmacológico para a dor. Dentro desse contexto, o enfermeiro tem papel fundamental na implementação de práticas não farmacológicas para a gestão da dor nos serviços de saúde. No período pré-operatório, diversas práticas não farmacológicas foram empregadas nos estudos, incluindo acupuntura(23), musicoterapia(25,53,57), terapia relaxante (como imagens guiadas e meditação)(31,54,63), respiração profunda(39,60), crioterapia(45), neuroestimulação transcutânea(45) e terapia reiki(92). No período pós-operatório, as mais utilizadas no alívio da dor incluíram crioterapia(48,50,51,52,60,62,69,72,102,104,110,111), musicoterapia(25,36,53,57,60,73,97,98,99), terapia relaxante (como imagens guiadas e meditação)(22,31,36,38,54,63,69,109), acupuntura(22,24,27,28,55), massagem(24,62,96,99,110), reposicionamento e deambulação precoce(33,62,69,100), respiração profunda(39,99), hipertermoterapia(46,83), terapia vibracional(20), aromaterapia(36), cãoterapia(41), neuroestimulação elétrica transcutânea(45), fortalecimento espiritual(60), acupuntura a laser de baixa intensidade(70), toque de cura (HT)(76) e terapia reiki(92).

Os estudos também enfatizaram a importância do cuidado centrado no paciente. Este é um modelo de cuidado que coloca o paciente no centro do processo de tomada de decisão, considerando as suas necessidades, desejos e valores individuais ao planejar a assistência(117). Esse modelo, além de fortalecer a segurança nos processos de cuidado, gera impacto no manejo da dor, tendo em vista a multidimensionalidade e subjetividade da dor. Dessa forma, a educação para o autogerenciamento da dor foi citada em vários estudos destacando a sua importância(22,24,32,33,39,42,44,47,50,56,62,71,83,85,87,89,91,93,94,95,106), inclusive como política educacional da instituição para o autocontrole da dor(20,44,59,61,68,74,75,82,87,106).

Outros estudos trouxeram o cuidado individualizado com ênfase na participação ativa do paciente nas decisões do cuidado(32,56,65,68,81,82,85,91,106) e no gerenciamento da qualidade do sono(39,40,41,43), incluindo o uso de cartilhas(95,107) e a abordagem cognitivo-comportamental(101) como estratégias. Essas práticas visam otimizar o manejo da dor pré-operatória e melhorar a experiência do paciente durante o processo cirúrgico ortopédico.

Alguns estudos comprovaram que o mecanismo da dor não é igual, ocorre de forma diferente para cada pessoa, sendo considerada uma experiência pessoal e intransferível(118,119,120), um fenômeno multidimensional e subjetivo, o que torna a sua avaliação um processo complexo, visto que não pode ser medida de forma objetiva(120). Assim, os estudos selecionados nesta revisão abordam justamente a educação para autogerenciamento da dor, participação do paciente nas decisões do cuidado e cuidado individualizado, capacitação da equipe e avaliação e monitoramento dos pacientes, evidenciando o protagonismo do enfermeiro no manejo da dor, no sentido de que quando realizam uma gestão da dor bem estruturada e individualizada os resultados para o controle da dor e satisfação do paciente são positivos.

Existem novos procedimentos farmacológicos, como terapia multimodal medicamentosa(19,29,37,45,47,69,71), analgesia controlada pelo paciente(67,71,74,75,78,108) e a pré-analgesia na unidade de recuperação pós-anestésica(23). O uso de escalas de avaliação da dor é comum para monitorar e quantificar a dor dos pacientes, proporcionando uma base objetiva para o tratamento(18,21,37,43,56,69,75,85,95). Essas abordagens multidimensionais têm como objetivo aperfeiçoar o manejo da dor pós-operatória e proporcionar uma melhor recuperação para os pacientes.

Como limitação, este estudo, por ser uma revisão de escopo, não avaliou a qualidade e risco de viés dos estudos primários e, portanto, não traz recomendações sobre a efetividade das práticas citadas para a gestão da dor. No entanto, o estudo possibilita um panorama das práticas evidenciadas na literatura, trazendo o enfermeiro como protagonista de práticas de qualidade na gestão da dor em pacientes cirúrgicos ortopédicos. Este estudo também contribui para o fortalecimento das práticas não farmacológicas à medida que traz diversas possibilidades de uso para o paciente cirúrgico.

CONCLUSÃO

Os resultados desta revisão destacam a complexidade e a importância do manejo da dor em pacientes submetidos à cirurgia ortopédica. A dor pós-operatória foi considerada um desafio significativo que afeta o bem-estar e a recuperação desses pacientes. Ao analisar uma variedade de fontes, incluindo estudos experimentais e observacionais, protocolos, diretrizes clínicas e literatura cinzenta, conseguimos reunir uma ampla gama de informações valiosas. As práticas de qualidade na gestão da dor realizadas por enfermeiros foram classificadas em organização das unidades e monitoramento do paciente e quanto ao período pré e pós-operatório, trazendo ações importantes, tais como definição de protocolos, capacitação da equipe, uso de instrumentos de avaliação da dor, intervenções não farmacológicas e avaliação por meio de auditorias, o que pode auxiliar os líderes e profissionais da prática no cuidado ao paciente.

Concluindo, esta revisão de pesquisa fornece uma visão abrangente das melhores práticas de enfermagem no manejo da dor pós-operatória em pacientes ortopédicos. Os resultados e recomendações obtidos podem constituir uma base sólida para melhorar as práticas de tratamento, melhorar os resultados dos pacientes e promover o desenvolvimento contínuo do tratamento neste grupo especial.

  • Apoio financeiro
    Apoio financeiro O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa de Desenvolvimento de Pós-Graduação(PDPG) - CAPES/COFEN - Apoio a Programas de Pós-Graduação - Modalidade Mestrado Profissional - número de inscrição COFEN-20211946906P.

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Editado por

  • EDITOR ASSOCIADO
    Cristina Lavareda Baixinho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    15 Abr 2024
  • Aceito
    09 Set 2024
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