RESUMO
Objetivo: Mapear práticas integrativas utilizadas no enfrentamento do estresse ocupacional em profissionais de enfermagem durante a pandemia da Covid-19.
Método: Trata-se de scoping review seguindo as recomendações do Instituto JBI e PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). A busca foi realizada entre março e abril de 2024 nas bases de dados: MEDLINE, LILACS, BDENF, IBECS via BVS, além de CINAHL, SCOPUS e Web of Science via Portal de periódicos CAPES. A seleção, estratificação e organização dos estudos foram feitas plataforma Rayyan. Os resultados foram apresentados em quadro sinóptico, com uma análise descritiva e comparativa dos achados, destacando as práticas integrativas e suas evidências de eficácia.
Resultados: Foram incluídos 18 estudos, a maioria publicada nos Estados Unidos no ano de 2021. As práticas mais recorrentes foram: mindfulness (16,6%), salas de oscilação (11%), psicoeducação (11%), apoio de pares (11%), comunicação não violenta (11%). Todas foram eficazes na redução do estresse, promoção de bem-estar e melhoria da qualidade de vida dos profissionais de enfermagem. Conclusões: As práticas integrativas mais utilizadas foram mindfulness e programas de psicoeducação, com estímulo à comunicação não violenta, todas demonstrando efetividade como intervenções para reduzir o estresse em profissionais de enfermagem durante a pandemia. Essas práticas emergem como estratégias viáveis e eficazes para promover a saúde mental e o bem-estar desses profissionais.
DESCRITORES
Enfermagem; Estresse Ocupacional; Terapias Complementares; Infecções por Coronavírus
ABSTRACT
Objective: To map integrative practices used to address occupational stress in nursing professionals during the Covid-19 pandemic.
Method: This is a scoping review following the recommendations of the JBI Institute and PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). The search was performed between March and April 2024 in the following databases: MEDLINE, LILACS, BDENF, IBECS via BVS, and CINAHL, SCOPUS and Web of Science via the CAPES Journal Portal. The selection, stratification and organization of the studies were carried out on the Rayyan platform. The results were presented in a synoptic table, with a descriptive and comparative analysis of the findings, highlighting the integrative practices and their evidence of effectiveness.
Results: Eighteen studies were included, most of which were published in the United States in 2021. The most common practices were: mindfulness (16.6%), wobble rooms (11%), psychoeducation (11%), peer support (11%), and nonviolent communication (11%). All were effective in reducing stress, promoting well-being, and improving the quality of life of nursing professionals. Conclusions: The most widely used integrative practices were mindfulness and psychoeducation programs, with encouragement of nonviolent communication, all demonstrating effectiveness as interventions to reduce stress in nursing professionals during the pandemic. These practices emerge as viable and effective strategies to promote the mental health and well-being of these professionals.
DESCRIPTORS
Nursing; Occupational Stress; Complementary Therapies; Coronavirus Infections
RESUMEN
Objetivo: Mapear las prácticas integradoras utilizadas para afrontar el estrés ocupacional en profesionales de enfermería durante la pandemia de Covid-19.
Método: Esta es una revisión de alcance que sigue las recomendaciones del Instituto JBI y PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). La búsqueda se realizó entre marzo y abril de 2024 en las bases de datos: MEDLINE, LILACS, BDENF, IBECS vía VHL, además de CINAHL, SCOPUS y Web of Science vía el portal de revistas CAPES. La selección, estratificación y organización de los estudios se realizó en la plataforma Rayyan. Los resultados se presentaron en una tabla sinóptica, con un análisis descriptivo y comparativo de los hallazgos, destacando las prácticas integradoras y su evidencia de efectividad.
Resultados: Se incluyeron 18 estudios, la mayoría publicados en Estados Unidos en 2021. Las prácticas más comunes fueron: mindfulness (16,6%), salas de bienestar (11%), psicoeducación (11%), apoyo entre pares (11%) y comunicación no violenta (11%). Todas resultaron efectivas para reducir el estrés, promover el bienestar y mejorar la calidad de vida de los profesionales de enfermería.
Conclusiones: Las prácticas integradoras más utilizadas fueron los programas de mindfulness y psicoeducación, fomentando la comunicación no violenta, y todas demostraron efectividad como intervenciones para reducir el estrés en los profesionales de enfermería durante la pandemia. Estas prácticas emergen como estrategias viables y efectivas para promover la salud mental y el bienestar de estos profesionales.
DESCRIPTORES
Enfermería; Estrés Laboral; Terapias Complementarias; Infecciones por Coronavírus
INTRODUÇÃO
As Práticas Integrativas em Saúde (PICs) têm ganhado destaque como abordagens eficazes no enfrentamento do estresse ocupacional entre profissionais de enfermagem, especialmente durante a pandemia de Covid-19(1,2). Diferente das abordagens tradicionais, que frequentemente focam em intervenções medicamentosas e tratamentos reativos, as PICs oferecem uma perspectiva holística e preventiva, integrando cuidados que consideram os aspectos físicos, emocionais, mentais e sociais dos indivíduos(3,4). Essa abordagem visa não apenas o tratamento, mas a promoção de bem-estar e qualidade de vida.
As PICs foram incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil em 2021 e têm sido incentivadas como parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU)(5,6), com o objetivo de melhorar a saúde ocupacional. No contexto da pandemia, essas práticas foram viáveis para mitigar os impactos psicológicos enfrentados pelos profissionais de enfermagem, que se tornaram especialmente vulneráveis a insônia, ansiedade e depressão(2,4).
Apesar de seu uso crescente, a literatura ainda apresenta lacunas sobre a efetividade específica das práticas integrativas no enfrentamento do estresse ocupacional em profissionais de enfermagem durante a pandemia de Covid-19. Revisões anteriores abordaram o impacto de diversas intervenções no bem-estar desses profissionais, mas a aplicação e os resultados específicos das PICs permanecem insuficientement explorados(2).
Diante desse cenário, o objetivo deste estudo foi mapear as práticas integrativas utilizadas no enfrentamento do estresse ocupacional em profissionais de enfermagem durante a pandemia da Covid-19, oferecendo uma análise crítica das evidências disponíveis e contribuindo para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de cuidado mental para esses profissionais.
METODOLOGIA
Tipo De Estudo
Trata-se de uma revisão de escopo, que possibilita mapear os conceitos fundamentais que alicerçam uma determinada temática, além de verificar a expansão, o alcance e a natureza de pesquisa existentes(7).
Questão de Pesquisa
A questão de pesquisa foi elaborada a partir da estratégia PCC (População, Conceito, Contexto)(7), definindo-se como P- população: “Profissionais de enfermagem”, C-conceito: “Práticas integrativas na redução de estresse” e C-contexto: “Covid-19/coronavírus”. A estratégia resultou na questão: Quais são práticas integrativas utilizadas no enfrentamento do estresse ocupacional em profissionais de enfermagem durante a pandemia da Covid-19?
Procedimento Metodológico
Este estudo seguiu as recomendações do manual JBI para revisões de escopo, garantindo um processo transparente e imparcial na condução da pesquisa. O protocolo de pesquisa foi registrado na Open Science Framework (OSF) com identificador DOI: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/3GHS7. A estratégia é um guia para revisão de escopo(8,9) em 9 etapas, as quais foram desenvolvidas de janeiro a abril de 2024: 1 – desenvolvimento da questão de pesquisa; 2 – identificação de estudos relevantes; 3 – seleção de estudos; 4 – mapeamento das informações; 5 – agrupamento, resumo e relato dos resultados, 6 – consulta; 7 – análise das evidências; 8 – apresentação dos resultados e 9 – resumo das evidências em relação ao objetivo da revisão e conclusões.
A revisão preliminar foi realizada através de busca refinada na Biblioteca Cochrane, confirmando a originalidade do tema e a existência de literatura significativa para o desenvolvimento da pesquisa. Em seguida, foi construído um protocolo de pesquisa para definir os critérios de elegibilidade. A coleta de informações, com levantamento de autores e periódicos segundo tema e ano de publicação, baseada no termo mnemônico PCC(7), deu origem à questão de pesquisa, ao objetivo, título e descritores.
Critérios de Seleção
Foram incluídos estudos primários, revisões sistemáticas (a inclusão destas foi reconsiderada para atender ao objetivo do mapeamento de evidências, conforme sugerido pelo manual do JBI), reflexivas, guidelines, diretrizes, sites, cartas, relatórios descritivos e comunicações oficiais de instituições governamentais, sem delimitação temporal, nos idiomas português, inglês e espanhol. Estudos que abordassem estratégias farmacológicas para o manejo do estresse ocupacional, contemplassem somente outras categorias profissionais e desvinculados do tema foram excluídos.
Estratégias de Busca
Definida a questão de pesquisa, procedeu-se ao levantamento do corpus literário a ser analisado. Para efetuar o cruzamento dos descritores controlados e não controlados indexados no Descritores em Ciências da Saúde (DECs) e Medical Subject Headings (MeSH), foram utilizados os operadores booleanos AND e OR.
A coleta de dados foi realizada entre março e abril de 2024, por meio da inserção de estratégias de busca distintas e adequadas a cada base, incluindo: National Library of Medicine (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Banco de dados de Enfermagem (BDENF), Índice Bibliográfico Español en Ciencias de la Salud (IBECS), acessados via BVS, e Web of Science, Cummulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), além de Scopus, acessados via Portal CAPES (Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), por meio da identificação na Comunidade Acadêmica Federada (CAFe). Os descritores e estratégias estão descritos no Quadro 1.
Estratégias de busca em português, espanhol e inglês utilizadas nas bases de dados pesquisadas – Teresina, PI, Brasil, 2024.
Seleção de Estudos
Após a busca, os arquivos com os estudos foram exportados para a ferramenta de centralização Rayyan QCRI®, onde os duplicados foram removidos. Em seguida, ocorreu a revisão por pares com dois pesquisadores independentes, cada um realizando uma seleção individual dos estudos elegíveis. No final, os pesquisadores se encontraram para solucionar discordâncias, com revisão dos critérios de elegibilidade.
O processo de organização sistemática da amostra para a condução da pesquisa, análise dos estudos e construção dos resultados seguiu o padrão da extensão PRISMA-ScR para a condução de Revisões de Escopo (PRISMA-ScR)(10).
Extração e Análise dos Dados
Para a discussão teórica, utilizou-se a literatura sobre o tema, incluindo o arcabouço legal sobre as PICs mencionado anteriormente. Na extração dos dados, foi considerado um instrumento desenvolvido pelos revisores, baseado no modelo disponível no manual do JBI(8,9), contendo: objetivo, ano, país, método. Os resultados foram apresentados em quadro sinóptico com uma análise descritiva e comparativa dos achados com a literatura científica global.
RESULTADOS
As estratégias de busca recuperaram 3.206 registros, e 41 registros adicionais foram identificados por busca manual em outras fontes. Após a exclusão de 288 referências duplicadas, 2.959 artigos foram analisados quanto ao título e resumo, aplicando os critérios de elegibilidade previamente estabelecidos. A partir dessa análise, 42 estudos foram selecionados para a leitura completa, e 24 destes foram excluídos por não responderem diretamente à questão de pesquisa, resultando em amostra final de 18 estudos elegíveis para inclusão na revisão (Figura 1).
Fluxograma PRISMA-ScR de seleção de estudos e processo de inclusão na revisão de escopo. Teresina, PI, Brasil, 2024.
O Quadro 2 traz a síntese e a caracterização dos achados. A maioria dos estudos selecionados foi realizada nos Estados Unidos da América (EUA) (22%, n = 24), com uma predominância de publicações em 2021 (61%, n = 11). Em relação ao delineamento, a maioria dos estudos foi do tipo intervenção (89%, n = 16).
Caracterização dos estudos selecionados na revisão de escopo quanto ao ano, país, objetivo, método, instrumento de mensuração, prática integrativa e desfecho – Teresina, PI, Brasil, 2024.
As intervenções mais utilizadas incluíram mindfulness (16,6%, n = 3), salas de oscilação (11%, n = 2), comunicação (11%, n = 2), espaço de relaxamento (11%, n = 2), a pseudoeducação (11%, n = 2), apoio por pares (11%, n = 2), e terapia de dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares (5,5%, n = 1), e programa de repetição de mantras (5,5%, n = 1). A eficácia dessas intervenções foi avaliada com base em estudos do tipo antes e depois, utilizando escalas validadas para o estresse (27,7%, n = 5), qualidade de vida e bem-estar (22,2%, n = 4), ansiedade (11%, n = 2), depressão (5,5%, n = 1), e angústia (5,5%, n = 1).
Em alguns estudos foi possível identificar as escalas utilizadas para medir as variáveis destacadas, tais como: Escala de Qualidade de Vida Profissional, Escala de Presença de Enfermagem(12), Escala de Atenção e Consciência Mindfulness, Escala de Avaliação Funcional do Bem-Estar Espiritual da Terapia de Doença Crônica, Nurse Survey with Practice Environment Scale (Escala de Ambiente de Prática)(15), Escala reduzida de Kessler Psychological Distress Scale (K6)(16), Escala de Depressão Hospitalar de Ansiedade e o nível de perturbação percebida(17), Medida de bem-estar Warwick Edinburgh Mental Wellbeing (WEMWBS), subescala de Dedicação do Trabalho de Utrecht, Escala de Engajamento(18), Formulário de Questionário Básico de Situação, Escala de Pressão de Trabalho de Enfermeiras Chinesas(22), Escala de Unidades Subjetivas de Angústia, Inventário de Ansiedade Traço-Estado e Escala de Burnout(24), The State Anxiety Inventory, Psychological Well-Being Scale, Work-Related Strain Scale(26), Work-Related Quality of Life Scale (WRQoL)(27), Nursing Stress Scale [NSS] e Brief COP E Scale(28).
DISCUSSÃO
Esta revisão de escopo possibilitou o mapeamento das principais práticas integrativas utilizadas no enfrentamento do estresse ocupacional entre profissionais de enfermagem durante a pandemia de Covid-19, bem como das principais sugestões e recomendações para reduzir os efeitos do estresse na saúde mental dos profissionais de saúde.
A maioria dos estudos publicados foi de origem nos EUA(12,15,25,27), randomizados(24,26,28). Essa predominância pode estar atribuída ao grande volume de publicações científicas do país e ao elevado número de casos de Covid-19, quando comparado aos demais locais. Estudos randomizados foram mais comuns e são cruciais para avaliar a eficácia de intervenções em saúde. A qualidade desses estudos é fundamental(9), e os artigos revisados apresentaram níveis significativos de evidência científica.
Algumas instituições referidas nos estudos contrataram equipes para criar ou desenvolver espaços de descanso para os funcionários. Estudiosos(11,14,19) destacaram a criação de salas Wobble, denominadas “salas de oscilação”, “salas de descanso”, “salas de relaxamento da equipe” e “centros de bem-estar”. Essas instalações ganharam maior importância durante a pandemia da Covid-19 devido ao aumento do nível de estresse e à sobrecarga de trabalho(12,16,21,23). Seu objetivo foi fornecer apoio à saúde dos profissionais, e elas repercutiram em redução do estresse e maior bem-estar para os trabalhadores da linha de frente. As salas foram descritas como locais seguros, fora da base/enfermaria, facilmente disponíveis 24 horas por dia, com oferta de conforto, distração (música/materiais de leitura), alimentos, relaxamento, episódios de reflexão facilitada, exercícios e apoio de pares(11).
Um dos estudos combinou estratégias para a autogestão do estresse entre enfermeiros durante a Covid-19, incluindo o Programa Psicoeducativo de seis semanas implementado na Jordânia. A prática incluiu treinamento de técnicas de relaxamento progressivo, gestão do tempo, promoção do riso, exercícios de respiração profunda, entre outros(28). Paralelamente, a musicoterapia também se destacou na Turquia como método eficaz para reduzir o estresse e a tensão entre enfermeiros que cuidavam de pacientes infectados com Covid-19, promovendo significativo aumento do bem-estar psicológico. Esta estratégia combinou música com técnicas de mindfulness e respiração(26).
Apesar das iniciativas, sabe-se que nem todos os funcionários participam dos momentos de relaxamento oferecidos pela empresa. Uma pesquisa(18) detalhou algumas justificativas relatadas pelos profissionais que não participaram dos centros de bem-estar, sendo elas: os intervalos não eram longos o suficiente (27,8%); o centro estava muito distante do local de trabalho (26,4%); não puderam fazer uma pausa para participar (21%); preferiam um espaço privado em vez de público (18,8%); não sentiam necessidade (16,3%); trabalhavam remotamente de casa (12,3%); não tinham conhecimento dos centros ou não sabiam se o pessoal não clínico podia comparecer (10,4%); não havia espaço ou assentos suficientes no centro (4,1%); não havia amigo disponível (1,9%). Assim, é importante captar esses profissionais com abordagens alternativas e atraentes para facilitar o processo de relaxamento e melhorar sua qualidade de vida.
Algumas possíveis estratégias foram descritas pelos autores de um estudo realizado em Wuhan(22). Outra equipe de enfermagem considera significativas a psicoterapia, a comunicação assertiva, ouvir música, ler um livro, fazer videochamadas com amigos ou familiares, acessar uma proteção pessoal adequada, descansar apropriadamente e falar sobre sentimentos e emoções. Essas estratégias ajudaram a lidar com o estresse psicológico(27). Os estudos têm mostrado que o apoio social, em particular o apoio dos pares, limita o efeito da exposição ao trauma nos sintomas de estresse, protegendo contra a depressão, ansiedade, sofrimento psicológico e esgotamento(18).
Um estudo(24) realizado com enfermeiros que trabalharam no setor Covid-19 na Turquia descreveu profissionais vulneráveis a emoções como o medo e a ansiedade devido ao cansaço, desconforto e desamparo relacionados ao trabalho de alta intensidade. Neste grupo, as Técnicas de Liberdade Emocional (EFT – Emotional Freedom Techniques) foram eficazes na prevenção de estresse, ansiedade e burnout. Uma única sessão em grupo online reduziu os níveis de estresse, ansiedade e esgotamento em enfermeiros que tratavam da Covid-19. As reduções no estresse, na ansiedade e no esgotamento alcançaram níveis de significância estatística para o grupo de intervenção. Além disso, mais da metade dos enfermeiros (68%) relatou estar motivada e reconheceu a necessidade de se concentrar no autocuidado e bem-estar.
Os profissionais de enfermagem devem buscar a autogestão da própria saúde mental, como exemplificado por enfermeiros africanos a respeito de estratégias individuais de resiliência durante a pandemia; o apoio familiar, comunicação aberta e atividades recreativas, que refletiram positivamente na qualidade de vida desses profissionais(27).
A importância de cuidar das necessidades básicas, exercitar-se e manter uma alimentação saudável e equilibrada também foi mencionada. Exercícios de respiração diafragmática e atividades de alongamento realizados a cada duas horas contribuem para a manutenção da boa saúde cerebral, estimulando o nervo vagal e ativando o sistema parassimpático. Mesmo realizados brevemente, por períodos de quatro ou cinco minutos, esses exercícios mostraram eficácia no controle dos sintomas de ansiedade e estresse(22).
Além do apoio aos enfermeiros durante a Covid-19, o modelo de suporte entre pares foi reconhecido como componente crucial para o bem-estar institucional. Essas intervenções ajudaram a minimizar os três componentes do esgotamento – exaustão emocional, despersonalização e eficácia reduzida – que compõem a síndrome de burnout. A simples escuta ativa foi atestada como positivamente benéfica, estabelecendo relações de confiança através de frases encorajadoras e convites para reflexão sobre emoções, normalizando e resumindo preocupações(23).
Por vezes, o sofrimento psíquico e estresse podem ser inexistentes, quando os profissionais tem alta resiliência no enfrentamento, ou mesmo em caso de subnotificação. Um estudo realizado na China em 2020 não encontrou diferença estatisticamente significativa entre enfermeiros de pronto-socorro e não emergenciais (p>0,05), mas identificou diferença significativa na fonte de pressão no trabalho (p<0,05). Após um mês de intervenção narrativa em Enfermagem, não foram observadas mudanças significativas na distribuição de tempo, carga de trabalho, ambiente de trabalho, atendimento ao paciente, gestão e relacionamento interpessoal (p > 0,05)(22). Métodos práticos para reduzir fatores estressores entre os profissionais devem ser desenvolvidos, destacando-se a disposição para investir em práticas de autodireção no cuidado, fortalecendo autonomia e criatividade.
Na Espanha, a prática de mindfulness com duração média de cinco a dez minutos, duas vezes ao dia, aplicada por psiquiatras, psicólogos e enfermeiras de saúde mental foi utilizada em uma abordagem pós-intervenção. Cada sessão enfocou três elementos: (1) respiração, partes do corpo como mãos ou pés ou sons circundantes; (2) movimentos conscientes por meio de exercícios suaves de alongamento tipo yoga, realizados em pé ou sentado, adaptados a qualquer condição física; e (3) compaixão por meio de linguagem e atitudes amáveis e acolhedoras. Os enfermeiros avaliaram a intervenção como útil para o estresse, com uma média de 8,4 em uma escala de zero a dez(21).
Pesquisadores franceses desenvolveram um espaço de relaxamento no ambiente hospitalar para apoiar os profissionais, oferecendo atividades que facilitassem a descompressão e o relaxamento. O ambiente incluía uma recepção calorosa, atenção, escuta, apoio empático e a oportunidade de participar de atividades físicas relaxantes ou de baixo impacto. Foi criado o Programa Bolha, estruturado em quatro áreas: (1) acolhimento e espaço para conversação e lembretes sobre higiene; (2) vestiário para guarda de pertences e lavagem das mãos; (3) sala modular para relaxamento e atividades físicas; e (4) sala de estar para conversação e escuta. A maioria dos participantes era composta por enfermeiros, perfazendo 57% do total(19).
No Japão, a psicoterapia individual foi promovida para enfermeiros com alto risco de adoecimento psíquico. Foram fornecidas sessões de primeiros socorros psicológicos com duração de 30 a 60 minutos, focadas nas condições gerais da vida diária e relações interpessoais. Houve melhora significativa no sofrimento psicológico e nos distúrbios do sono e apetite, embora não tenha havido efeitos significativos no uso indevido de álcool(16).
O esgotamento é especialmente relevante no atual clima de saúde, com enfermeiros da linha de frente enfrentando uma carga de trabalho aumentada e vários estressores psicossociais durante a pandemia da Covid-19. O Project7 Mindfulness Pledge© é uma ferramenta acessível e voluntária que ajudou os enfermeiros na redução do esgotamento sem demandar comprometimento significativo de tempo(15).
O apoio por pares demonstrou eficácia no apoio ao bem-estar no local de trabalho. O bem-estar da equipe requer uma abordagem organizacional, de unidade e individual para incentivar o autocuidado e a compaixão, cultivando uma mentalidade positiva(13).
O Programa de Repetição de Mantras (MRP) aplicado por profissionais de enfermagem aumentou a atenção plena, a compaixão, a satisfação, o bem-estar espiritual e a presença de Enfermagem, reduzindo o esgotamento. O I-MRP foi fornecido em seis sessões de uma hora ao longo de três meses, sugerindo que os profissionais estão dispostos a aprender técnicas portáteis de redução do estresse(12).
A escuta empática, como desdobramento da comunicação não violenta, é uma estratégia relevante para minimizar fatores estressores no trabalho e suas repercussões, como violência, bullying, turnover e absenteísmo. Além disso, promove a cultura de paz e fortalece os profissionais de Enfermagem durante a pandemia(20).
A amostra, constituída por profissionais de enfermagem, foi sensibilizada para promover e preservar a saúde dos profissionais que trabalhavam durante a pandemia de Covid-19. Isso incluiu mudanças no ambiente estrutural, programas de psicoeducação para o autocuidado, e estratégias de meditação, autorreflexão e autocuidado. Programas específicos para a redução do estresse, como a sala de oscilação(11,14) e o centro de bem-estar(18), foram implementados, com destaque para o mindfulness, a técnica mais adotada(15,21,26).
Além disso, discutiu-se a adoção de práticas não farmacológicas comprovadamente eficazes, como a prática de repetição de mantras(12), prática autorreflexiva(13), e Terapia de Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares (EMDR)(17). Para mensurar a eficácia das intervenções, foram aplicados instrumentos de medição de estresse, bem-estar, qualidade de vida, ansiedade, depressão, angústia, pressão no trabalho, entre outros.
A prática de atenção plena em sessões(15,21) e abordagens artístico-culturais, como a musicoterapia(26), lideraram as intervenções. A comunicação(20,27) e a escuta ativa entre pares(23,25) também foram destacadas no enfrentamento do adoecimento mental dos profissionais de enfermagem diante das adversidades trazidas pela pandemia de Covid-19.
Em síntese, o uso de práticas integrativas se mostra valioso como estratégia de enfrentamento, especialmente psíquica, e contribui para a condução futura das adversidades vividas no cotidiano dos profissionais de enfermagem. O mindfulness se destaca como uma prática acessível e viável. O uso de instrumentos de mensuração de estresse, depressão, ansiedade, qualidade de vida e outras variáveis também é importante para validar tais práticas, demonstrando a eficácia científica de estratégias sensíveis. Este estudo reforça a necessidade de realizar novos trabalhos randomizados para avaliar a eficácia de intervenções terapêuticas na redução do estresse em profissionais de saúde, especialmente enfermeiros.
Este estudo apresenta como limitação o fato de a maioria dos artigos analisados avaliarem o impacto das práticas integrativas utilizando métodos quantitativos randomizados. Apesar de seu alto nível de evidência, tais métodos demonstram lacunas na análise qualitativa de variáveis subjetivas e abstratas, como o estresse e o adoecimento mental. A sensibilização teórica dos pesquisadores foi alternativa para contornar esta lacuna, a fim de apresentar a síntese dos achados com maior alcance para os leitores.
CONCLUSÃO
As práticas integrativas utilizadas no enfrentamento do estresse ocupacional em profissionais de enfermagem durante a pandemia da Covid-19 incluíram mindfulness, programas de psicoeducação para os profissionais e seus pares, estímulo à comunicação não violenta e à escuta ativa, mudanças no ambiente estrutural com a criação de salas de oscilação e centros de bem-estar, estratégias para autocuidado e autorreflexão, meditação com mantras, dentre outras. Em sua maioria, as intervenções tiveram sua eficácia atestada por escalas de mensuração do estresse e de sintomas da depressão, ansiedade e angústia.
Os resultados apontam para a necessidade de abordagem multidimensional do estresse, especialmente considerando estratégias conduzidas pelo próprio indivíduo. A recuperação do estado de saúde psíquica converge para a prevenção de futuros adoecimentos, em um cenário de baixo custo e atenção primária. Conforme descrito na literatura, é importante fornecer suporte imediato pós-trauma, o qual deve ser concreto, não intrusivo e adequado às necessidades e expectativas das pessoas às quais é oferecido. Esta revisão também sugere que práticas de autocuidado consciente baseadas em evidências precisam ser reforçadas para impactar o adoecimento ocupacional.
A realização de revisões sistemáticas e estudos baseados em dados primários, com delineamento qualitativo e amostragens em grupo é outra sugestão para validar a eficácia das práticas integrativas no enfrentamento do estresse, depressão e ansiedade.
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Fonte: Elaborado pelos autores.