Open-access Aplicativos móveis de pré-natal relatados na literatura científica: uma revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:  Mapear os aplicativos móveis de pré-natal descritos e/ou avaliados na literatura científica.

Métodos:  Revisão de escopo, a partir das recomendações da JBI, com recorte temporal de 2017 a 2022. As buscas foram realizadas em outubro/2023 nas bases/portais Lilacs via BVS, Web of Science, MEDLINE, Cochrane Database of Systematic Reviews, Scopus, CINAHL e Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Resultados:  Foram analisados 49 estudos, sendo 45 artigos, três dissertações e uma tese, publicados em português e inglês. Os aplicativos possuem finalidade para educação em saúde/autocuidado (46,9%), monitoramento clínico (28,5%), para uso por profissionais de saúde (16,3%), pesquisa/coleta de dados (6,1%) e ensino profissional (2%).

Conclusão:  Os aplicativos descritos e/ou avaliados nos estudos são diversos em suas finalidades e público e confirmam a inserção da tecnologia móvel no cuidado e monitoramento em saúde das gestantes.

DESCRITORES
Aplicativos Móveis; Cuidado Pré-Natal; Estratégias de eSaúde; Revisão; Informática em Enfermagem

ABSTRACT

Objective:  To map the prenatal mobile applications described and/or evaluated in the scientific literature.

Method:  Scoping review, based on JBI recommendations, with a time frame from 2017 to 2022. The searches were carried out in October/2023 in the following databases/portals: Lilacs via BVS, Web of Science, MEDLINE, Cochrane Database of Systematic Reviews, Scopus, CINAHL, and the Thesis and Dissertation Bank of the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel (CAPES).

Results:  Forty-nine studies were analyzed, including 45 articles, three dissertations and one thesis, published in Portuguese and English. The applications are intended for health education/self-care (46.9%), clinical monitoring (28.5%), for use by health professionals (16.3%), research/data collection (6.1%) and professional education (2%).

Conclusion:  The applications described and/or evaluated in the studies are diverse in their purposes and public and confirm the inclusion of mobile technology in the care and health monitoring of pregnant women.

DESCRIPTORS
Mobile Applications; Prenatal Care; eHealth Strategies; Review; Nursing Informatics

RESUMEN

Objetivo:  Mapear las aplicaciones móviles de prénatal descritas y/o evaluadas en la literatura científica.

Método:  Revisión de alcance, basada en recomendaciones del JBI, con un horizonte temporal de 2017 a 2022. Las búsquedas se realizaron en octubre/2023 en las bases/portales Lilacs vía BVS, Web of Science, MEDLINE, Base de datos Cochrane de revisiones sistemáticas, Scopus, CINAHL y Banco de Tesis y Disertaciones de la Coordinación para el Perfeccionamiento del Personal de Educación Superior (CAPES).

Resultados:  Se analizaron 49 estudios, entre ellos 45 artículos, tres disertaciones y una tesis, publicados en portugués e inglés. Las aplicaciones están destinadas a educación sanitaria/autocuidado (46,9%), seguimiento clínico (28,5%), uso de profesionales sanitarios (16,3%), investigación/recopilación de datos (6,1%), y educación profesional (2%).

Conclusión:  Las aplicaciones descritas y/o evaluadas en los estudios son diversas en sus propósitos y destinatarios y confirman la inserción de la tecnología móvil en la atención de salud y seguimiento de las mujeres embarazadas.

DESCRIPTORES
Aplicaciones Móviles; Atención Prenatal; Estrategias de eSalud; Revisión; Informática Aplicada a la Enfermería

INTRODUÇÃO

O Brasil possui população estimada de mais de 200 milhões de habitantes, que colocam em uso cerca de 447 milhões de dispositivos móveis, utilizando-os em uma média de 3h41min/dia. Sendo assim, a densidade de dispositivos móveis é superior a dois aparelhos por habitante e seu tempo de utilização diária supera a média mundial de 2h22 min/dia(1,2). Tais dados demonstram o quão inserida no dia-a-dia dos brasileiros está a tecnologia móvel e isso se aplica de igual maneira à saúde, na qual cada vez mais as tecnologias de informação e comunicação são integradas(1).

A partir dessa integração surgem novos conceitos, interdisciplinares e complementares, dentre os quais estão a saúde eletrônica (eHealth) e seu ramo, saúde móvel (mHealth), que de maneira geral sintetizam em suas definições as práticas de saúde realizadas por dispositivos eletrônicos, sem fio e/ou móveis, como telefones celulares e aplicativos(3,4).

Nos últimos anos, o campo da saúde tem sido profundamente influenciado pelo avanço das tecnologias móveis. A crescente penetração destes dispositivos na sociedade moderna tem elevado exponencialmente o uso de aplicativos móveis nas mais diversas áreas(5).

Uma das áreas mais exploradas na mHealth tem sido a saúde materno-infantil, em especial o período pré-natal. Estudos mostram o impacto de aplicativos móveis nas diversas possibilidades nesse contexto, dentre as quais estão a educação em saúde da gestante(6), lembretes de consulta(7), comunicação com o profissional que realiza o atendimento durante o período gravídico(8), entre outras.

A assistência pré-natal é fundamental na promoção da saúde materna e fetal, prevenção de complicações e garantia de um desenvolvimento saudável durante a gestação(9). Nesse sentido, tecnologias móveis apresentam-se como ferramentas potencialmente valiosas para melhorar a qualidade e o acesso à informação e aos cuidados pré-natais(10).

Assim, busca-se nesse estudo preencher lacuna no conhecimento, mapeando-se os aplicativos móveis de pré-natal descritos na literatura científica e/ou avaliados em uso. Tal descrição faz-se relevante em um momento em que as tecnologias em saúde ganham destaque no cenário da saúde global e estudos de revisão sobre aplicativos tem se baseado na busca a lojas de aplicativos como Apple Store e Google Play.

Essa pesquisa beneficia mulheres grávidas, profissionais de saúde e desenvolvedores de aplicativos, oferecendo recomendações para o aprimoramento dos aplicativos móveis. Propõe-se a fornecer um panorama acerca dos aplicativos descritos e/ou avaliados, sobre pré-natal, contribuindo para informar práticas clínicas e orientar futuras inovações tecnológicas no campo da assistência pré-natal por aplicativos móveis.

Assim, o objetivo do estudo foi mapear os aplicativos móveis de pré-natal descritos e/ou avaliados na literatura científica, em um recorte temporal.

MÉTODO

Tipo de Estudo

Estudo de revisão de escopo conduzido a partir das recomendações do The Joanna Briggs Institute (JBI)(11) e conforme as recomendações da diretriz Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). O protocolo do estudo foi publicado na Open Science Framework: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/8MC96.

Desenvolvimento da Questão de Pesquisa

Foi utilizada a estrutura mnemônica PCC(12): P (população) – gestantes e profissionais de saúde; C (conceito) - descrição e/ou avaliação de aplicativos móveis; C (contexto) – atividades de saúde relacionadas ao pré-natal. Elaborada a pergunta norteadora: Quais os aplicativos móveis descritos e/ou avaliados na literatura científica sobre atividades de saúde relacionadas ao pré-natal a gestantes e/ou profissionais de saúde?

A busca foi realizada em outubro de 2023.

Critérios de Elegibilidade

Considerando as atualizações das políticas de saúde na atenção à gestante, foi definido um recorte temporal para o estudo. Foram incluídas pesquisas publicadas de 2017 a 2022, em língua inglesa, portuguesa ou espanhola, disponíveis na íntegra e que apresentassem descrição e/ou avaliação de aplicativos móveis (para smartphone) no contexto do pré-natal, a usuários profissionais de saúde ou gestantes.

Estratégia de Pesquisa

A seleção da amostra deu-se a partir do portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio do serviço de VPN (Virtual Private Network) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), rede unespNET, e na busca por artigos nas bases/portais Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) via Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Web of Science (WoS), National Library of Medicine (MEDLINE), Cochrane Database of Systematic Reviews (COCHRANE), Scopus e Current Nursing and Allied Health Literature (CINAHL)(Quadro 1).

Quadro 1
Estratégia de busca nas bases de dados – Botucatu, SP, Brasil, 2023.

Para organizar a estratégia de busca, os termos de vocabulário controlado foram selecionados a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), Medical Subject Headings Section (MeSH) e CINAHL Headings, combinados com operadores booleanos. Foi realizada busca no Banco de Teses e Dissertações da CAPES (Quadro 1).

Seleção da Fonte de Evidência

Os títulos e os resumos das pesquisas foram lidos e analisados para identificar os potencialmente elegíveis para o estudo. A fase seguinte envolveu a leitura na íntegra de cada uma das pesquisas selecionadas para: a) confirmar a pertinência à pergunta de revisão e, em caso positivo, b) extrair os dados de interesse, última fase.

Extração, Análise e Apresentação dos Resultados

A apresentação dos resultados foi realizada por meio de quadros sintéticos e em formato descritivo, conforme as recomendações da diretriz PRISMA-ScR.

O processo de seleção é apresentado, conforme o fluxograma PRISMA-ScR(13,14)(Figura 1).

Figura 1
Fluxograma PRISMA-ScR de seleção de estudos e processo de inclusão na revisão de escopo – Botucatu, SP, Brasil, 2023.

A extração foi conduzida por dois revisores, os casos de desacordo eram resolvidos por um terceiro revisor. Para a extração dos dados foi utilizado um instrumento adaptado do formulário recomendado pelo JBI(11), com as informações: Autor/ano/país/natureza do estudo, Título/objetivo do trabalho, Nome do aplicativo/idioma/sistema operacional/situação (desenvolvimento ou em uso), Tema central do aplicativo/público alvo.

Os dados extraídos foram mapeados utilizando o software Atlas.ti(15), para organização das informações e processo analítico. Esses foram expressos em quadros sintéticos, discutidos de forma descritiva e comparados aos achados de outros trabalhos correlatos.

Conforme a Figura 1, obteve-se um retorno de 554 pesquisas (549 artigos, 2 dissertações e 3 teses). Títulos e resumos foram lidos, 364 (362 artigos e 2 teses) excluídos, e feito download de 190 trabalhos (187 artigos: Lilacs via BVS – 34, SCOPUS – 50, MEDLINE – 28, WoS – 6, CINAHL – 44 e COCHRANE – 25; 1 tese e 2 dissertações) elegíveis para leitura integral. Excluídas as duplicatas (61), procedeu-se à leitura integral de 129 trabalhos (126 artigos, 2 dissertações e 1 tese).

Nessa etapa, 84 estudos foram excluídos por não tratarem de aplicativos para uso em smartphones ou abordarem intervenções utilizando aplicativos já descritos em outros trabalhos analisados/incluídos na revisão. Foi analisada também a lista de referência dos estudos incluídos (adicionados 3 artigos e 1 dissertação).

RESULTADOS

Aplicados os critérios, após leitura e análise crítica das publicações, foram incluídos 49 estudos, sendo 45 artigos, 3 dissertações e 1 tese, publicados entre 2017 e 2022, predominantemente em inglês (79,6%) e português (20,4%). Quanto ao país de origem, foram desenvolvidos por pesquisadores provenientes das Américas (44,8%) (Brasil 11, Canadá 1, EUA 10, República Dominicana 1), da Ásia (24,4%) (Indonésia 1, China 1, Singapura 71, Japão 1, Índia 1, Irã 2, Israel 1, Malásia 1, Omã 1 República da Coréia 1, Taiwan 1), da Europa (20,4%) (Alemanha 1, Reino Unido 2, Holanda 2, Dinamarca 1, Irlanda 1, Reino Unido 1, Itália 1, Noruega 1), da África (6,1%) (Nigéria 1, Quênia 1, Tanzânia 1) e da Oceania (2%) (Austrália 1).

Foram identificados os desenhos de pesquisa: ensaios clínicos randomizados (22,4%), estudos metodológicos (24,4%), estudos descritivos (20,4%), protocolos para estudo clínico (8,1%), estudos de coorte (8,1%), ensaios clínicos não randomizados (4%) e outros desenhos de pesquisa (12,2%) (estudo experimental, exploratório, métodos mistos, natureza aplicada, observacional, qualiquantitativo).

Foram organizadas categorias conceituais, segundo a finalidade do aplicativo móvel apresentado nos estudos: educação em saúde/autocuidado (46,9%), monitoramento clínico (28,5%), para uso de profissionais (16,3%), pesquisa/coleta de dados (6,1%) e ensino profissional (2%).

A partir dos resultados dos estudos analisados, esses são apresentados em Quadros por caraterísticas dos aplicativos móveis para fins de: letramento, autocuidado e educação em saúde de gestantes e intervenção (Quadro 2); monitoramento clínico (acompanhamento, registro, telemonitoramento, consulta, acompanhamento de patologias e condições clínicas – diabetes mellitus gestacional, sífilis, prematuridade, aspectos psicológicos, etc.) e intervenção (Quadro 3); uso por profissionais da saúde, relacionado ao cuidado de gestantes (Quadro 4); e pesquisa/coleta de dados ou recrutamento de gestantes para pesquisas, intervenção e ensino profissional (Quadro 5).

Quadro 2
Caraterísticas dos aplicativos móveis para fins de letramento, autocuidado e educação em saúde de gestantes e intervenção – Botucatu, SP, Brasil, 2023.
Quadro 3
Características dos aplicativos móveis para fins de monitoramento clínico e intervenção – Botucatu, SP, Brasil, 2023.
Quadro 4
Características dos aplicativos móveis para uso de profissionais da saúde vinculados ao cuidado de gestantes e intervenção –Botucatu, SP, Brasil, 2023.
Quadro 5
Características dos aplicativos móveis para pesquisa/coleta de dados ou recrutamento de gestantes para pesquisas, intervenção e ensino em enfermagem obstétrica – Botucatu, SP, Brasil, 2023.

Quanto aos aplicativos para fins de letramento, autocuidado e educação em saúde de gestantes (Quadro 2), identificou-se que quatro desses foram desenvolvidos para a promoção de cuidados no pré-natal ou mesmo para condições específicas como COVID-19 e sífilis. Oito (16,3%) aplicativos foram usados para intervenção, seja na avaliação do uso frente ao monitoramento de condições clínicas (ganho de peso, COVID-19), adesão às consultas e estímulo ao autocuidado com informações sobre estilo de vida saudável.

Seis (12,2%) aplicativos foram avaliados, de forma global ou em uma funcionalidade específica, quanto à aceitabilidade do seu uso para telemonitoramento e quanto à coleta de feedback para melhoria de funcionalidade e acessibilidade do aplicativo. Três (6,1%) foram avaliados quanto à eficácia na promoção de tratamentos, adesão a vacinas, melhores práticas no pré-natal e agendamento de atendimento. Um (2%) aplicativo de combate à mortalidade estava em processo de adaptação transcultural para o Brasil e um (2%) foi avaliado quanto à qualidade do conteúdo.

No Quadro 3, são apresentados os estudos referentes aos aplicativos para monitoramento clínico. Foram identificados três (6,1%) estudos referentes ao desenvolvimento de aplicativos voltados para o acompanhamento e controle de sífilis, e um a identificar requisitos para o aplicativo ideal. Seis (12,2%) estudos realizaram intervenção usando aplicativos e avaliaram diversos aspectos: comunicação paciente-profissional, potencial para monitoramento (diabetes mellitus gestacional, tolerância à glicose oral pós-parto, aspectos psicológicos, pressão arterial combinada com smartwatch) e o efeito do uso da tecnologia móvel no monitoramento combinado com reforço de Agentes Comunitários de Saúde (ACS).

Três (6,1%) estudos avaliaram a eficácia no agendamento e quanto ao fornecimento de breves terapias cognitivo-comportamentais para tratar a depressão materna. Outros dois (4%) estudos avaliaram o custo-benefício dos aplicativos quando comparados ao acompanhamento tradicional e a eficácia clínica, e por fim um voltado para avaliar a aceitabilidade de aplicativo para telemonitoramento de pressão arterial.

No Quadro 4, sobre os aplicativos para uso por profissionais, dois (4%) estudos apontaram o desenvolvimento de um aplicativo para captar informações de saúde, acesso aos exames e para auxiliar a assistência durante a pandemia de COVID-19. Três (6,1%) avaliavam a funcionalidade e viabilidade dos aplicativos quando estes eram usados para fornecer cuidados pré-natais ou no auxílio ao trabalho de agentes comunitários de saúde. Um (2%) estudo avaliou o impacto da implantação do aplicativo em desfechos de parto, por meio do uso para comunicação entre ACS e a equipe de saúde, que direcionava o cuidado. Outros dois (4%) estudos padronizaram a assistência, tanto por orientações fornecidas pelo aplicativo, quanto na uniformização da linguagem utilizada entre os profissionais.

No Quadro 5 são apresentados três (6,1%) estudos nos quais foram abordados os aplicativos desenvolvidos ou em uso como meio acessível e a apoiar a coleta de dados para pesquisa científica envolvendo gestantes e um (2%) estudo demonstrou o desenvolvimento e uso de aplicativo para o ensino profissional.

DISCUSSÃO

Os aplicativos móveis têm apoiado diversas atividades em saúde, no contexto do pré-natal, auxiliando no letramento em saúde, autocuidado, monitoramento clínico pela usuária e pelos profissionais de saúde, bem como para fins de educação em enfermagem.

O letramento em saúde é potencialmente facilitado pelo apoio de aplicativos, no qual seu uso se mostrou positivo para educação parental no pré-natal de gestantes com risco de parto prematuro(16), identificação da necessidade de abordar aspectos psicossociais da gestação de alto risco e preparo para possível situação de internação, parto pré-termo e internação neonatal(37), promoção de autocuidado na pandemia de COVID-19, além de fornecerem informações, orientações acerca de medicações e complicações da COVID-19 na gestação(27,36).

Estudos de intervenção demonstraram que o uso de aplicativos foi eficaz para monitoramento de condições clínicas, favorecendo a comunicação entre equipe de saúde e gestante(8), na adesão das gestantes às consultas pré-natal, aprimoramento de práticas saudáveis, autocuidado durante o pré-natal(8,18,25)), letramento em saúde de gestantes no contexto da pandemia(34) e informações personalizadas sobre vacinas(33).

Acerca dos aplicativos já desenvolvidos que estavam sendo avaliados de forma global ou em alguma funcionalidade, os estudos mostraram usabilidade e aceitabilidade positivas. Apresentaram uso positivo para telemonitoramento e oferta de informação sobre índice glicêmico, via tecnologia, em áreas rurais e em países em desenvolvimento(22), facilitando o cuidado materno-infantil de forma interativa e educativa(35), com alta eficácia clínica na saúde mental materna, promovendo apoio psicológico a pais e mães, por meio de fontes confiáveis de informação(24,30) e boa avaliação percebida mesmo quando avaliada apenas a interface para plano de parto(26).

Estudos(23,26) analisaram o feedback a partir de usuárias e foi identificado que o design utilizado influencia a interação destas com o aplicativo. Foram encontrados resultados positivos no uso de interfaces interativas e que oferecem conteúdos com informação à usuária.

Estudos avaliaram a eficácia dos aplicativos quanto ao lembrete de vacinação contra influenza e ao conhecimento das gestantes sobre a vacina, promovendo atitudes positivas em relação à vacinação(32). Além disso, Sidik(31) propôs o desenvolvimento de um aplicativo de acordo com um mapeamento de intervenção, avaliado quanto à eficácia na orientação para tratamento da incontinência urinária em gestantes.

O aplicativo SweetMama foi implementado para intervenção móvel de saúde para gestantes de baixa renda com diabetes gestacional, e demonstrou ser de fácil uso, eficiente e potencialmente impactante, projetado para atender às necessidades exclusivas dessa população(28).

Além do desenvolvimento e avaliação dos aplicativos, estudo(34) propôs a adaptação cultural de um aplicativo para combate à mortalidade materna, da língua inglesa para o português do Brasil. O Zero Mothers Die é um aplicativo com informação sobre a rotina pré-natal de estabelecimentos de saúde com atividades de ensino, o qual pode oportunizar canais de diálogo com a gestante e atualização do profissional em treinamento(17).

A preocupação com o monitoramento clínico de determinadas condições que podem emergir na gestação ou afetar a gestante de forma direta ou indireta foi destacada em estudos, tanto nas propostas de desenvolvimento e/ou protocolos de ensaio clínico, quanto pelas intervenções utilizando tais ferramentas(46,49).

Destaca-se estudo(43) no qual os autores desenvolveram o aplicativo SELP com informações em texto e vídeo acerca dos sinais, sintomas, causas, riscos e tratamento para sífilis. A tecnologia aplica recursos de mapeamento para localizar postos de saúde, cria alertas à gestante e ao parceiro sobre datas de tratamento e realiza mapeamento da rede de contatos de portadores de sífilis de maneira anônima(43).

Aplicativos móveis são uma importante ferramenta para otimizar tempo e encurtar distâncias. Por serem ferramentas de fácil acesso e de consulta rápida, demonstraram serem eficazes para reduzir visitas presenciais, favorecem atendimento virtual de gestantes e puérperas, e reduzem o tempo de espera por serviços de emergência e profissionais, dados seus recursos de comunicação(39,42). Além da possibilidade de comunicação com um profissional para atendimento, diversos estudos demonstram a eficácia dos aplicativos no telemonitoramento da pressão arterial (PA) de gestantes(45,48,51).

Foi possível promover o monitoramento de PA de gestantes usando um smartwatch em conjunto com aplicativo móvel; houve redução do número de consultas ambulatoriais pré-natais por motivos relacionados à PA em comparação com o manejo de acordo com diretrizes locais e economia de custos com o uso do aplicativo(45,51). A solução demonstrou potencial para sua adoção em sistemas de saúde em países em desenvolvimento, dada a simplicidade e acessibilidade do aplicativo(51).

Outro recurso, de envio de alertas para início de medição repetida da PA, combinado a alertas de sintomas autorrelatados de pré-eclâmpsia, também demonstrou relevância clínica(48).

Intervenção de feedback diário e comunicação entre pacientes e equipe de saúde melhorou a adesão do paciente e o controle glicêmico, e reduziu a taxa de tratamento com insulina(38).

Em contrapartida, ao analisar o efeito de uso de um aplicativo para gestante (Pregnant+) em mulheres com diabetes mellitus na Noruega, os resultados apontaram que o uso do aplicativo não apresentou efeito no desfecho principal de monitorização de glicose e redução de taxas(44). Tal achado pode estar relacionado ao fato de a tecnologia não ter sido desenvolvida especificamente para essa finalidade, o que pode comprometer a eficácia da estratégia para o telemonitoramento.

No impacto para saúde mental perinatal, uma ferramenta para o autorrelato do bem-estar psicológico mostrou potencial em permitir uma maior compreensão do bem-estar na gravidez(40). Outro estudo(41) apresentou a necessidade de promoção de terapia cognitivo-comportamental utilizando tecnologia móvel, e mostrou eficácia do aplicativo na melhoria dos serviços de saúde mental na prática obstétrica. Intervenções como esta podem ajudar a identificar precocemente, monitorar e tratar mulheres com alto risco de desenvolver sintomas psiquiátricos durante a gravidez, além de ter potencial para oferecer informações baseadas em evidência científica, auxiliando-as a identificar ansiedades e inseguranças desse período e buscar apoio.

Aplicativos móveis têm um custo de desenvolvimento e manutenção nas plataformas digitais. Por isso, estudos de avaliação de custo-efetividade também estão descritos.

Estudo(47) realizou análise financeira (retorno sobre investimento) na qual um grupo de gestantes (grupo intervenção) recebeu um smartphone com internet e acesso a plataforma de pré-natal personalizada (avaliada no estudo) com mensagens de texto automatizadas, função de bate-papo e hiperlinks e contato semanal do ACS. O grupo controle recebeu o cuidado pré-natal habitual e materiais educativos impressos. A intervenção obteve avaliação positiva das usuárias e mostrou-se promissora para a adesão aos cuidados pré-natais e a melhorar os resultados do parto em comunidades rurais. A análise de impacto financeiro mostrou resultados positivos de custo-efetividade para a intervenção, produzindo redução de custos de saúde para o grupo de intervenção, em relação ao grupo de controle, com diferença média geral de economia de US$ 1.079 para os participantes da intervenção.

Dada a versatilidade e acessibilidade dos aplicativos, estes também foram utilizados como recursos, para acesso fácil e rápido para recrutar participantes para pesquisa científica envolvendo gestantes(59). O uso de aplicativos para recrutamento de participantes permite dados em tempo real e acesso instantâneo aos dados, além de possibilitar contatar pessoas de vários locais(61), estratégia promissora para o recrutamento de amostras grandes e diversificadas(60).

A versatilidade dos aplicativos tem permitido integrar seu uso com outras ferramentas ou plataformas de saúde, para implementar cuidados no pré-natal e acessar informações da gestante, mesmo em locais com baixa disponibilidade de internet(61) ou durante a pandemia de COVID-19(57), otimizando a qualidade e efetividade dos serviços e a promoção da saúde.

Além de auxiliar na assistência à gestante, aplicativos têm sido utilizados por profissionais de saúde para fornecerem recomendações de cuidado pré-natal, a partir de diretrizes e recomendações de forma estruturada. Alguns resultados são observados, como a melhora da comunicação entre pacientes e cuidadores(52), sistematização das visitas domiciliares e qualificação do atendimento pré-natal e pós-natal, juntamente com o atendimento de casos de maior complexidade, viabilizado pela possibilidade de contato do ACS com a equipe de saúde(53,54).

O uso de smartphones como um componente dos pacotes de intervenção voltados para a maternidade segura pode melhorar o apoio e a efetividade da atuação dos ACS(58) e demais profissionais de saúde, melhorando as taxas de adesão do paciente a exames e seguimento no pré-natal, por meio da oferta de informações durante a gestação e o período perinatal(56).

Além dos aplicativos desenvolvidos para oferta de cuidados via telefonia móvel, estudo(56) propôs a construção de um aplicativo para dispositivos móveis para disponibilizar o Subconjunto Terminológico de Saúde da Mulher, Pré-natal e Pós-parto a partir da versão traduzida para o português da Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE®). Outra pesquisa(62) propôs o desenvolvimento de um aplicativo para o ensino em enfermagem obstétrica.

Essas propostas demonstram um novo perfil de aplicativos móveis voltados a apoiar a assistência prestada por profissionais e a auxiliar estudantes no processo de ensino aprendizagem de habilidades específicas para a enfermagem obstétrica.

Limitações Do Estudo

Limitações do estudo devem ser consideradas. Foi considerado um recorte temporal de 2017 a 2022, limitando a análise da produção científica a um período determinado. Não foi avaliada a qualidade metodológica dos estudos. Alguns estudos incluídos não apresentavam informações completas dos aplicativos e por vezes as informações de caracterização estavam ausentes, tais como sistema operacional, idioma e situação (desenvolvimento ou em uso). Não foi possível avaliar com critérios a fundamentação científica do conteúdo dos aplicativos; entretanto, destaca-se que a divulgação em publicações científicas torna estes mais confiáveis para serem recomendados/utilizados na atenção ao pré-natal.

Contribuições para Pesquisas Relacionadas à Saúde

Esta revisão fornece um panorama abrangente dos aplicativos móveis descritos/avaliados na literatura científica, no contexto de acompanhamento da gestante nas diversas situações clínicas no período pré-natal. Favorecem o acesso à informação no contexto do pré-natal por tecnologia móvel, tanto a mulheres grávidas e seus parceiros, a profissionais de saúde e a estudantes. Considerando a divulgação de estudos de revisão de aplicativos que partem da análise das lojas de aplicativos, esta revisão parte dos aplicativos divulgados em produções científicas, o que possibilita maior confiança nas recomendações apontadas. Ademais, este estudo fornece recomendações para o desenvolvimento e a avaliação de tecnologias móveis em saúde.

CONCLUSÃO

As tecnologias em saúde ganham cada vez mais destaque no cenário global. Por isso, caracterizar os aplicativos móveis utilizados ou idealizados para o acompanhamento da gestante a partir da literatura científica ofereceu uma visão ampliada dessas tecnologias e de suas formas de uso.

Os estudos analisados trouxeram aplicações móveis versáteis e variadas, cujo uso confirma o potencial da inserção da tecnologia móvel nos diversos cenários do cuidado e no monitoramento da saúde das gestantes. Ademais, quer sejam utilizados por profissionais, estudantes da saúde ou pelas próprias gestantes, os aplicativos em tela foram amplamente utilizados nas áreas de letramento, autocuidado, educação em saúde de gestantes, monitoramento clínico e intervenção, ensino em enfermagem obstétrica e para coleta de dados ou recrutamento de gestantes para pesquisas.

Desdobramentos futuros podem ser necessários para que aplicativos possam ser avaliados utilizando instrumentos que considerem aspectos técnicos, segurança, qualidade dessas soluções ou mesmo explorem o potencial dos aplicativos em outras interfaces, do acompanhamento da gestante ao longo do pré-natal, ampliando os resultados apresentados nesse estudo.

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Editado por

  • EDITOR ASSOCIADO
    Paulino Artur Ferreira de Sousa

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    06 Ago 2024
  • Aceito
    25 Nov 2024
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