Open-access Supervisão de enfermagem no serviço de atendimento pré-hospitalar móvel de urgência

RESUMO

Objetivo:  Analisar limitações e potencialidades da supervisão de enfermagem, segundo a equipe de enfermagem, de um Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.

Método:  Pesquisa descritiva, de abordagem qualitativa, utilizando Técnica do Incidente Crítico. Participaram enfermeiros e técnicos de enfermagem. Os dados foram coletados em entrevista semiestruturada, individual, gravada, posteriormente transcrita, seguida do agrupamento e categorização dos Incidentes Críticos, utilizando análise de conteúdo de Bardin.

Resultados:  Das entrevistas, emergiram 77 Incidentes Críticos, 22% receberam referência positiva e 78% negativas, indicando predomínio de fatores que limitam a supervisão. Esses fatores foram categorizados em “Singularidades da supervisão de enfermagem”, “Condições Organizativas”, “Gestão de pessoas” e “Regulação de vagas”.

Conclusão:  Fatores potencializadores: apoio institucional, educação como ferramenta de supervisão, reuniões de equipe, “feedback” oportuno e gestão participativa; fatores limitantes: supervisão de enfermagem indireta (enfermeiro e técnicos em equipes distintas), falta de materiais e de manutenção e apoio institucional, sobrecarga de trabalho do enfermeiro, conflitos e falta de comunicação.

DESCRITORES
Supervisão de Enfermagem; Enfermagem; Serviços Médicos de Emergência

ABSTRACT

Objective:  To analyze limitations and potentialities of nursing supervision, according to the nursing team, of a Mobile Emergency Care Service.

Method:  Descriptive research, with a qualitative approach, using the Critical Incident Technique. Nurses and nursing technicians participated. Data were collected in a semi-structured, individual, recorded interview, later transcribed, followed by the grouping and categorization of Critical Incidents, using Bardin’s content analysis.

Results:  Seventy-seven critical incidents emerged from the interviews, 22% received positive and 78% negative references, indicating a predominance of factors that limit supervision. These factors were categorized into “Singularities of nursing supervision”, “Organizational conditions”, “People management”, and “Vacancy regulation”.

Conclusion:  Enhancing factors: institutional support, education as a supervision tool, team meetings, timely feedback and participatory management; limiting factors: indirect nursing supervision (nurse and technicians in different teams), lack of materials and maintenance and of institutional support, nurse work overload, conflicts, and lack of communication.

DESCRIPTORS
Nursing, Supervisory; Nursing; Emergency Medical Services

RESUMEN

Objetivo:  Analizar las limitaciones y el potencial de la supervisión de enfermería, según el equipo de enfermería, de un Servicio de Atención Médica de Urgencias.

Método:  Investigación descriptiva, de enfoque cualitativo, utilizando la técnica del incidente crítico. Participaron enfermeros y técnicos de enfermería. Los datos se recopilaron mediante entrevistas semiestructuradas, individuales, grabadas y posteriormente transcritas, seguidas de la agrupación y categorización de los Incidentes Críticos, utilizando el análisis de contenido de Bardin.

Resultados:  De las entrevistas surgieron 77 Incidentes Críticos, el 22% recibieron referencias positivas y el 78% negativas, lo que indica un predominio de factores que limitan la supervisión. Estos factores se clasificaron en «Singularidades de la supervisión de enfermería», «Condiciones organizativas», «Gestión de personas» y «Regulación de plazas».

Conclusión:  Factores potenciadores: apoyo institucional, educación como herramienta de supervisión, reuniones de equipo, «feedback» oportuno y gestión participativa; factores limitantes: supervisión indirecta de enfermería (enfermeros y técnicos en equipos distintos), falta de materiales y de mantenimiento y apoyo institucional, sobrecarga de trabajo del enfermero, conflictos y falta de comunicación.

DESCRIPTORES
Supervisión de Enfermería; Enfermería; Servicios Médicos de Urgência

INTRODUÇÃO

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) é um serviço público, complexo e realizado no contexto da Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE); dentre outras atividades é, particularmente, caracterizado pelo foco nas situações de urgências e emergências pré-hospitalares, com atendimento e encaminhamento dos usuários para continuidade da assistência, além de realizar o transporte de pacientes críticos entre unidades de saúde(1). O atendimento pré-hospitalar no Brasil, até a década de 1990, seguia o modelo norte-americano de Atendimento Pré-Hospitalar (APH), variando sua organização nos diferentes estados; a partir de 1997, normatizações do Ministério da Saúde (MS), influenciadas pelo modelo francês, consolidaram o atendimento móvel de urgência; e a Portaria MS 2048, de 2022, redefiniu o sistema brasileiro de atenção às urgências e emergências, misto dos modelos norte-americano e francês, consolidando o SAMU(2).

O SAMU utiliza diferentes tipos de unidades móveis para atendimento das ocorrências, mas essencialmente o modelo terrestre é composto pela Unidade de Suporte Básico (USB) de vida, tripulada pelo condutor do veículo de urgência e um técnico ou auxiliar de enfermagem e Unidade de Suporte Avançado (USA) de vida, tripulada por um condutor de veículo de urgência, um enfermeiro e um médico(3). Trata-se de estratégia eficiente de primeiros socorros, estabilização e deslocamento de pacientes para serviços de referência. Cabe destacar que a enfermagem tem um papel relevante nesse serviço, cuja evolução constante demanda profissionais qualificados, capazes de atender às necessidades de saúde no cuidado pré-hospitalar de urgência, bem como no transporte para e entre hospitais, com ênfase na promoção, resguardo e restauração da saúde, além de desenvolver ações para assegurar o bom clima organizacional e satisfação da equipe no trabalho(4).

O enfermeiro desempenha um papel central, tanto na assistência direta ao paciente quanto na coordenação das equipes, e a sua atuação profissional está regulamentada por legislações específicas, como a Resolução do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) nº 713/2023, que atualiza as normas de atuação no APH móvel, e o Parecer do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (COREN-SP) nº 005/2019, que define o perfil e as competências do Técnico de Enfermagem nesse cenário. Essas legislações reforçam a importância do enfermeiro no gerenciamento de recursos, na tomada de decisões e na regulação das urgências, essenciais para a eficácia do atendimento pré-hospitalar, alinhando-se às diretrizes estabelecidas pelo SAMU para assegurar a qualidade e a segurança no cuidado ao paciente(5,6,7).

Na coordenação do processo assistencial, a supervisão de enfermagem identifica necessidades assistenciais e gerenciais específicas, para estabelecer planos e metas que contribuem para uma abordagem integral ao paciente(8). Ressalta-se que o enfermeiro tem a atribuição privativa de supervisionar a equipe de enfermagem, em um processo educativo de integração e coordenação, que resulta em atendimento qualificado das necessidades dos pacientes e instituições(9).

A supervisão de enfermagem pode ser entendida sob diferentes perspectivas, como um instrumento gerencial dinâmico, que há muito vivencia o desafio de avançar em formas de desempenho que garantam a produção adequada de ações cuidativas, na perspectiva da integralidade e em tempo oportuno, mas com abordagem mais participativa, colaborativa, intergeracional(10). A supervisão pode ter enfoque de controle da organização do trabalho, da padronização interna dos serviços de saúde, bem como da possibilidade de garantir que seja produzido o necessário, no tempo e forma apropriados; pode ter perspectiva educativa, que abarca a participação ativa da equipe, por intermédio de ações/práticas educativas, além de ter o enfoque de articulação política relativo ao papel da supervisão como mediador entre a política institucional e a equipe, para viabilização do cuidado de enfermagem(11).

A realização deste estudo é justificada pela peculiaridade do exercício da supervisão de enfermagem no SAMU, que requer agilidade nos processos decisórios e abordagem integral às necessidades dos pacientes(11,12), somadas ao fato de que o enfermeiro e o técnico de enfermagem não estão no mesmo espaço físico durante a assistência(7). Ademais, pesquisas científicas são essenciais para compreender a complexidade de aspectos organizacionais e processuais relativos à supervisão, cujos resultados possibilitem desenvolver estratégias para apoiar os enfermeiros, de forma a potencializar a qualificação dos cuidados prestados(8,13). O último trabalho nacional sobre a especificidade da supervisão de enfermagem no SAMU foi publicado há uma década(13). Nesse sentido, questiona-se: Quais fatores facilitam e quais dificultam a supervisão de enfermagem no SAMU? Diante do exposto, o estudo tem como objetivo analisar limitações e potencialidades da supervisão de enfermagem, segundo a equipe de enfermagem de um SAMU.

MÉTODO

Desenho do Estudo

Pesquisa descritiva, de abordagem qualitativa, utilizando a Técnica do Incidente Crítico (TIC), que requer o cumprimento dos seguintes passos: Determinação dos objetivos da atividade a ser executada; Elaboração das perguntas a serem feitas às pessoas que fornecerão os incidentes críticos da atividade a ser analisada; Delimitação da população; Coleta dos incidentes críticos; Análise do conteúdo dos incidentes coletados; Agrupamento e categorização dos incidentes críticos; Levantamento das frequências dos incidentes críticos positivos e negativos(8,14).

Cabe destacar que o presente trabalho seguiu as recomendações do protocolo internacional Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ)(8,15) para apresentação dos resultados de pesquisa.

Local do Estudo

A pesquisa foi realizada em base descentralizada de SAMU, em município do interior do estado de São Paulo, com população estimada de 127 mil habitantes, em 2022, distribuída em cerca de 400 km2 de território(16). O serviço conta com duas USBs que atuam no atendimento dos munícipes e uma USA que atende à região e aos munícipes.

População e Critérios de Seleção

Os participantes foram enfermeiros (ENF) e técnicos de enfermagem (TE) do SAMU, totalizando sete enfermeiros e quatorze técnicos de enfermagem, 21 participantes potenciais. Utilizou-se como critério de inclusão: profissionais atuantes, no serviço investigado, há no mínimo um ano, tempo que permite ao profissional ter experiência de inserção nas atividades da unidade.

Coleta de Dados

Para coleta de dados foi organizado um roteiro de entrevista, de maneira a atender às recomendações da TIC(8,14), composto por três tópicos: identificação do participante; duas questões abertas, com texto similar, um com referência positiva e outro com referência negativa, acerca de situações vividas ou observadas sobre a supervisão de enfermagem no SAMU, como as pessoas se comportaram e as consequências decorrentes da situação, além de outra questão aberta pedindo aos participantes sugestões para melhorar a supervisão de enfermagem no SAMU.

O roteiro passou por validação de face por juízes, enfermeiros-docentes, escolhidos intencionalmente em virtude do domínio do tema e do método e foi submetido a pré-teste, com profissionais que desempenham a mesma função dos participantes, porém em unidades distintas à da coleta, de modo a assegurar a qualidade e a aplicabilidade do roteiro da entrevista em condições reais. Ressalta-se que foram feitos ajustes de forma e não de conteúdo para a versão final do roteiro. A coleta de dados ocorreu no período de abril a junho de 2022, por intermédio de entrevistas semiestruturadas, presenciais e individuais, em um ambiente reservado, que tiveram duração aproximada de 30 minutos e foram conduzidas pela pesquisadora principal do estudo, após consentimento dos participantes.

Análise e Tratamento dos Dados

As entrevistas foram gravadas em dois aparelhos digitais, transcritas na íntegra pela pesquisadora e conferidas com os respectivos áudios por outro pesquisador, sendo armazenadas em um banco de dados de um e-mail institucional do centro de pesquisa. Com o propósito de evitar a identificação dos participantes, as falas foram codificadas com “ENF” de enfermeiro ou “TE” de técnico de enfermagem, seguidas da letra “E” de Entrevista e posteriormente acrescidas pelos números (1, 2, 3.... até 17) na ordem sequencial em que foram realizadas, representando cada um dos participantes.

A pesquisadora principal sistematizou os dados e, considerando a análise da TIC, extraiu as situações, os comportamentos e as consequências, compondo os ICs, que receberam, a partir da visão dos participantes, referências positivas ou negativas, correspondendo às potencialidades e limitações da supervisão de enfermagem, respectivamente. Empregou-se, inicialmente, a estatística descritiva para quantificar os ICs e proceder à análise do conteúdo(17).

Os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo de Bardin(18), submetidos a pré-análise, com leitura flutuante e preparo do material, incluindo correções gramaticais, excluídos vícios de linguagem, interferências e ruídos externos, visando permitir ao leitor a compreensão do sentido da entrevista; posteriormente, foi realizada a exploração do material com os relatos pertinentes a cada situação, comportamento e consequência, agrupados por similaridade de conteúdo; e finalmente, os resultados obtidos foram interpretados segundo o contexto do SAMU e pressupostos teóricos da supervisão de enfermagem.

Aspectos Éticos

O estudo foi apreciado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, conforme parecer 4.240.326 (em 27 de agosto de 2020), de maneira a atender às determinações da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, antes de realizar as entrevistas.

RESULTADOS

Foram entrevistados 17 profissionais, distribuídos entre dez técnicos de enfermagem (59%) e sete enfermeiros (41%). Do total de 21 profissionais de enfermagem do SAMU, quatro não atenderam aos critérios de inclusão. A maioria dos entrevistados correspondeu ao sexo feminino (n = 10; 59%). Houve maior concentração de participantes na faixa etária de 41 a 50 anos (n = 8; 47%); entre 10 e 15 anos de formação profissional (n = 7; 41%), que atuavam na unidade entre seis e dez anos (n = 7; 41%).

Das 17 entrevistas, originaram-se 77 ICs, dos quais 17(22%) receberam referências positivas e 60(78%) negativas, agrupando-se esses ICs em quatro categorias: Singularidades da supervisão de enfermagem, com 34% de referências positivas e 66% referências negativas; Condições Organizativas, com 100% de referências negativas; Gestão de pessoas com 20% de referências positivas e 80% de referências negativas e Regulação de vagas, com 12% de referências positivas e 88% de referências negativas.

Singularidades da Supervisão de Enfermagem

A categoria “Singularidades da supervisão de enfermagem” agrupa ICs relativos ao modo característico da supervisão de enfermagem no SAMU, no qual técnico e enfermeiro pertencem a equipes distintas. Houve predomínio de incidentes com referência negativa, como é possível constatar:

Eu não sei o que o técnico está fazendo, a não ser que eu esteja com ele ou que seja um problema muito discrepante que eu ouço no rádio, mas eu não estou ouvindo rádio tempo todo; a supervisão aqui ela não é direta, ela é à distância, a enfermeira não tem contato com o técnico de enfermagem o tempo todo (ENF E14).

Às vezes, o técnico está fazendo alguma coisa inadequada; por exemplo, não estava fazendo massagem cardíaca corretamente, mas ele jamais iria me perguntar se eu não estivesse lá, acompanhando o atendimento. (ENF E01)

Aqui no SAMU a supervisão é muito indireta, a enfermeira não consegue estar junto com o técnico de enfermagem na ambulância o tempo todo, são viaturas separadas, a gente não está ali no momento exato do atendimento para supervisionar, orientar uma técnica, um cuidado. (ENF E06).

Em contrapartida, são sugeridas formas para minimizar os aspectos negativos, com ICs que representam perspectivas positivas (34%):

O que mais ajuda, quando tem problemas nos atendimentos, é poder esclarecer dúvidas com a supervisão de enfermagem, complementar, no sentido de agregar, entendeu? Mas, na maior parte do tempo, não fazem a supervisão direta. (TE E7)

Eu converso muito com a equipe sobre os atendimentos em que participo, me interesso pelo que eles realizam; quando tem alguma coisa diferente ou que eles discutiram, quero saber detalhes do que aconteceu; essa interação favorece a supervisão de enfermagem (ENF E14)

O hábito de chegar na base e discutir sobre o atendimento, tanto com a enfermeira, quanto entre nós, técnicos e socorristas, é sempre uma coisa positiva para refletir e aprender. (TE E10)

No tocante à singularidade da supervisão de enfermagem, a ausência da supervisão direta revela-se um fator limitante, que decorre da especificidade do processo de trabalho em bases descentralizadas do SAMU.

Condições Organizativas

A categoria “Condições Organizativas” agrupa incidentes que envolvem a limpeza e a conservação das unidades de atendimento móvel e da base do SAMU, gerenciamento e disponibilidade de materiais e insumos de trabalho.

Quando tem problema, gente da USB fica com uma ambulância inferior, porque a USA não pode trabalhar com uma ambulância inferior, mas a básica pode, mas não é bom para o atendimento. (TE E07)

A limpeza, higiene, são complicadas aqui, a maioria da equipe não limpa e não vejo a supervisão atuando. (TE E11)

Eu assumi um plantão e não tive tempo de realizar o checklist da ambulância; saí para o atendimento e considerei que o colega tinha deixado tudo certo, era entrar e trabalhar. No local, era um paciente com BIPAP, que precisava estar ligado na rede de oxigênio para não dessaturar, e o torpedo de oxigênio estava vazio. (TE E17)

Eles nem sempre higienizam a ambulância, e eu não vejo a supervisão de enfermagem atuando continuamente para isso (ENF E9)

Vale ressaltar que não houve aspectos positivos na categoria de incidentes “Condições Organizativas”.

Gestão de Pessoas

A categoria “Gestão de Pessoas” agrupa incidentes referentes ao dimensionamento da equipe, manejo de escala e gerenciamento de conflitos. Apresentou maior frequência de incidentes negativos:

A enfermeira não pode autorizar hora extra, mas precisa de troca de escala, tem muita Licença Saúde e precisa viabilizar o funcionamento do serviço. (TE E3)

Quando eu passei no concurso da prefeitura, fui informada que iria trabalhar no SAMU, que tinha vaga disponível, mas eu desejava trabalhar em outro tipo de serviço de saúde. (TE E16)

Eu já presenciei situações em que um funcionário queria agredir o outro, brigas devido à demora para responder à solicitação, conflitos que são gerados pelo tipo de personalidade de algumas pessoas. (ENF E15)

No entanto, também foram evidenciados incidentes positivos:

Na pandemia, a gente conseguiu ficar em dois enfermeiros no plantão; era possível sair nos atendimentos junto com o técnico, isso fazia uma boa diferença: poder ensinar, acompanhar o que e como está fazendo. (ENF E6)

A Covid, apesar de ter trazido tanta dor, trouxe algumas coisas boas de atualização de conhecimentos para a equipe de enfermagem. (ENF E1)

Regulação de Vagas

A categoria “Regulação de vagas” reuniu ICs referentes à relação dos profissionais de enfermagem e às demandas da Central de Regulação (CR) para o SAMU, com predomínio de incidentes negativos:

A CR é fora do município, é regional e o pessoal da regulação não conhece muito bem a realidade local e isso complica o trabalho. (ENF E1)

Um tipo de discussão muito difícil que acontece é entre os tripulantes das unidades e o pessoal da CR; o enfermeiro fica nesse meio termo, de ter que orientar para não dar respostas grosseiras ou questionar o tipo de atendimento, mas as USBs sempre questionam e fica uma disputa com a CR. (ENF E14)

CR chama para atendimentos de baixíssima complexidade, eu diria atendimentos “banais” (TE E12)

Você está na viatura, se não for e acontecer alguma coisa com o paciente, você sabe qual é a minha posição! Vai, faz e, na hora em que chegar, relata o que está acontecendo; façam o melhor, usem o último recurso, tudo que puderem, e aí qualquer coisa depois a gente questiona e conversa com a CR. (ENF E14)

DISCUSSÃO

Em relação às variáveis sociodemográficas e profissionais dos participantes, verifica-se que os resultados são semelhantes aos achados de trabalho desenvolvido no mesmo contexto, na região metropolitana de São Paulo(19). As competências são desenvolvidas ao longo dos anos de prática profissional, e o enfermeiro leva de dois a três anos para ter desempenho prático adequado, que geralmente decorre de aproximações sucessivas aos problemas cotidianos e possíveis soluções(20).

Nos atendimentos básicos, o TE não está o tempo todo com o enfermeiro, o que torna a supervisão de enfermagem desafiadora, pois impossibilita a avaliação e o suporte da equipe de enfermagem no momento da assistência ao paciente. A supervisão de enfermagem deve ser conduzida como um processo dinâmico, a partir da análise situacional, seguida pela implementação de intervenções para alcançar os objetivos estabelecidos – que deverão ser reavaliados a partir dos resultados obtidos – e para realizar ajustes, se necessário for(21).

A categoria “Singularidades da supervisão” teve predomínio de incidentes limitantes para o desempenho da supervisão de enfermagem. As características do processo de trabalho, no qual, para os atendimentos básicos, o TE não está o tempo todo com o enfermeiro, tornam a supervisão de enfermagem peculiar no SAMU. A superação de barreiras relativas à supervisão de enfermagem é multifatorial; existem intencionalidades e questões evidenciadas na prática cotidiana de trabalho(10). O uso da supervisão sob uma abordagem educativa é potente, mas requer apoio institucional e investimento do enfermeiro no desenvolvimento de autonomia da equipe.

Os resultados evidenciam que os participantes indicaram caminhos que favoreceram a supervisão de enfermagem – com especial destaque às reuniões após os atendimentos – caminhos estes construídos de modo coletivo e horizontalizados, que repercutem positivamente no trabalho e favorecem a reflexão sobre a prática, oportunizam a troca de conhecimento e podem direcionar iniciativas que trazem um respaldo teórico mais robusto. Destaca-se a educação como ferramenta da supervisão de enfermagem, realizada a partir de feedback oportuno do enfermeiro para a equipe de TE e do coordenador de enfermagem para os enfermeiros. Um feedback claro e construtivo visa aprimorar a comunicação, aumentar a confiança e segurança no desempenho profissional(8). A criação de espaços e oportunidades de escuta empática e utilização de medidas que proporcionem a interação dos membros da equipe são ações primordiais como possibilidade de qualificação da equipe e superação de desafios(10).

Na categoria “Condições Organizativas” foram elencados somente incidentes negativos, ou seja, que limitam a supervisão de enfermagem. Cabe ressaltar que essa categoria agrupa incidentes que, comumente, transcendem o poder de deliberação do enfermeiro, uma vez que prover estrutura adequada, insumos e demais aspectos organizativos – para que os processos assistenciais e gerenciais aconteçam plenamente – é responsabilidade institucional. Entretanto, ainda assim, a responsabilidade por ações referentes à organização recai sobre esse profissional, o que corrobora seu caráter de referência no serviço.

Ressalta-se que infraestrutura, materiais e manutenções insuficientes são razões de insatisfação dos profissionais e fragilizam a assistência, assim como – somados à ausência de escala/organização para atividades inerentes à rotina, como limpeza, organização e reposição de materiais – fazem com que a equipe trabalhe de forma desarticulada e desestimulada, trazendo a falsa impressão de que se trata de atividades de menor importância, mas são essenciais para garantir o atendimento adequado e seguro de ocorrências. Inadequação e a insuficiência de materiais, de equipamentos e de veículos de suporte – aspectos relativos ao apoio institucional para o funcionamento do serviço – não estão na governabilidade do enfermeiro, mas repercutem em condições que podem representar riscos assistenciais e profissionais, trazendo sentimento de insegurança e desvalorização.

Ações como a manutenção dos veículos de suporte de vida são essenciais para um atendimento seguro e eficiente, uma vez que as unidades de suporte básico e avançado são o local de trabalho da equipe até o usuário chegar ao serviço de referência(22). A inadequação de manutenção das unidades de suporte básico e avançado pode expor pacientes e a própria unidade de saúde a condições inseguras, que implicam à instituição sanções éticas e legais(23).

A implementação de escalas para atividades cotidianas, como conferência de materiais, organização e limpeza, permite valorização da atividade pela equipe, de forma a favorecer a finalidade de controle da supervisão de enfermagem, no sentido de conferir padronização ao serviço. Ademais, o estresse ocupacional percebido por enfermeiros de emergência é agravado pela escassez de recursos, baixo suporte oferecido, má definição de papéis e atribuições, falta de autonomia e carga de trabalho excessiva(24).

O desenvolvimento da supervisão de enfermagem também precisa considerar o contexto e as condições nas quais o trabalho da equipe de enfermagem e do enfermeiro está sendo desenvolvido; é pouco provável que se atinjam práticas de excelência em condições organizativas falhas; em cenários assim, muitas vezes, a supervisão de enfermagem fica reduzida a uma dimensão de controle de produção. O exercício da supervisão nos serviços beneficia a equipe com aumento do sentimento de apoio, favorece a redução da fadiga emocional, e melhora o relacionamento entre a equipe de enfermagem, o que pode refletir em melhora na satisfação do trabalho e no desenvolvimento das práticas profissionais(25).

Na categoria “Gestão de pessoas”, houve predomínio de incidentes negativos. A dificuldade de comunicação e os conflitos presentes, tanto na equipe quanto entre órgãos de apoio, interferem no processo da prática da supervisão de enfermagem e causam impacto na satisfação profissional e no desempenho de atividades cotidianas. A falta de objetividade e clareza na comunicação pode resultar em planejamento inapropriado para o atendimento à ocorrência. Além disso, a falta de direcionamento específico da contratação de pessoal, para determinado serviço, pode implicar em profissionais insatisfeitos, por não conseguirem ser alocados nos locais de trabalho com os quais têm maior afinidade.

Nesse sentido, entende-se que a supervisão e a comunicação são saberes gerenciais primordiais para os enfermeiros, na condução da equipe, para o manejo de conflitos e para o alcance da amplitude da prática profissional no SAMU, exercendo a liderança de maneira democrática e horizontalizada, respaldados em conhecimentos técnicos e científicos(26). Adversidades inerentes ao relacionamento interpessoal devem ser enfrentadas para além da busca de uma prática cotidiana humanizada, ética e colaborativa, e também para minimizar ou até evitar a legitimação de meios evasivos e defensivos frente a situações desafiadoras do cotidiano de trabalho(10), de modo a favorecer a qualidade na assistência e preservar o bem-estar psicológico dos trabalhadores. A qualidade do ambiente e do trabalho é essencial, principalmente no cenário de pandemia(27).

No contexto do SAMU, mudanças decorrentes da pandemia repercutiram em aumento do contingente de profissionais, um fator que potencializou a supervisão de enfermagem, viabilizou a oportunidade de experenciar desdobramentos positivos a partir da supervisão direta e do atendimento em conjunto com o TE. Porém, é preciso ressaltar que mudanças decorrentes da pandemia intensificaram os desafios já existentes na atuação do SAMU(28).

O dimensionamento da equipe de enfermagem, aquém das necessidades do serviço, impacta na qualidade do atendimento nas diferentes áreas de atuação da enfermagem, gera sobrecarga de trabalho, favorece o estresse, a ocorrência de erros e de eventos adversos, fatores que comprometem a segurança do paciente(29).

A promoção de ações educativas na perspectiva da educação continuada e permanente e a organização de ambientes seguros entre a equipe, para discussão de casos com fundamentação teórica da supervisão de enfermagem, em consonância com conhecimento técnico – assim como reuniões periódicas entre os enfermeiros, a fim de melhorar a prática profissional, trocar experiências acerca de questões gerenciais e organizacionais, estabelecendo ambientes para a construção coletiva, incentivando a força interna da equipe – foram consideradas fatores potencializadores da supervisão de enfermagem nesse contexto de trabalho. Um ambiente de apoio entre os profissionais para trocas de experiências, comunicação, promoção de treinamentos sobre temas pertinentes ao contexto é uma contribuição positiva para a equipe como um todo e, por consequência, uma melhoria da qualificação do cuidado. Esse apoio inclui protocolos e técnicas assistenciais, limpeza, uso de equipamentos e tecnologias ligadas ao cuidado direto, assim como discussões de casos após as ocorrências, já presentes no serviço, que consideram as reflexões sobre situações vivenciadas.

O apoio à inclusão de atividades educativas (cursos e treinamentos) – realizado em horário de trabalho, sem prejuízo para o trabalhador e com dimensionamento adequado do quadro de profissionais para cobertura da escala de trabalho – poderia ser uma forma de enfrentamento dos desafios inerentes à prática da supervisão de enfermagem no SAMU. A partir da análise das oportunidades de aprimoramento, torna-se possível impulsionar o desenvolvimento de competências dos profissionais por meio da aplicação prática do conhecimento(30).

A categoria “Regulação de vagas” concentrou maior contingente de referências negativas, o que representa limitações para a supervisão de enfermagem. Os incidentes referentes à central de regulação de vagas podem ser entendidos como complexos, uma vez que – embora sejam interface crucial entre sistema e serviços de saúde com usuários e profissionais – muitas vezes, desencadeiam ruídos de comunicação e conflitos, que repercutem na satisfação e adequação do atendimento ao usuário, nas atribuições e responsabilidades de diferentes pontos da rede de atenção e na atuação das respectivas equipes de saúde. Particularmente, para a enfermagem, pode-se inferir que representa a dimensão da articulação política da supervisão.

Os profissionais do SAMU dependem diretamente da orientação e do bom funcionamento da Central de Regulação de Urgência/Emergência (CRUE) para a realização do seu trabalho; por outro lado, não possuem a visibilidade sobre a disponibilidade de vagas e todo o contexto de saúde da região, no momento do atendimento. Sendo assim, é necessário que se estabeleça uma relação de confiança, com o propósito de promover o atendimento ágil, seguro e eficiente ao paciente, minimizando os agravos à saúde.

Alguns usuários do SAMU desconhecem ou não foram esclarecidos sobre o serviço de saúde; estes devem buscar a razão pela qual optam pelo atendimento que julgam apropriado para o problema enfrentado naquele momento. É comum o uso desse serviço como meio de transporte, para solução de demandas sociais, ou como uma porta de entrada ao SUS, fora da situação de urgência, por ser um serviço em que o usuário encontrará, de forma rápida, uma equipe completa de profissionais, tratamento imediato e serviços de maior complexidade(22).

O exposto evidencia aspectos macro-organizacionais, que repercutem também na supervisão de enfermagem; por exemplo, ruídos na interface com a CRUE, que podem causar insatisfação nos profissionais, resultar em conflitos e atrasos no atendimento, condições que independem da atuação direta dos profissionais do SAMU. Nesse sentido, as estratégias de enfrentamento não podem ser simplistas; entretanto, destacam-se, de modo oportuno, a capacidade de usar estratégias educativas tanto junto à equipe de enfermagem para mitigar problemas de comunicação e conflitos, quanto a oportunidade de a equipe esclarecer a população sobre uso do SAMU e outros serviços de saúde.

Como limitação do estudo, ressalta-se a análise de apenas um serviço, que restringe a possibilidade de análise ampliada do objeto de estudo; ademais, à época, estava começando a flexibilização das medidas de segurança relativas à pandemia de Covid-19 e estava em curso um processo de readequação dos serviços de saúde. Entretanto, apesar das limitações, o estudo contribui significativamente para a área da enfermagem, ao destacar aspectos que limitam e potencializam a supervisão de enfermagem, oferecendo insights valiosos para a melhoria da prática profissional e a criação de um ambiente de aprendizado e diálogo. Finalizando, não se pretende propor um guia ou modelo de trabalho, mas os resultados possibilitam sugerir aspectos a serem considerados no enfoque referente à supervisão de enfermagem no SAMU, como a possibilidade de explorar a prática da supervisão direta sempre que possível, com o enfermeiro como membro da equipe de suporte básico junto ao técnico de enfermagem.

A partir dos resultados e discussão, apresenta-se a síntese de aspectos que potencializam a realização da supervisão de enfermagem no SAMU: o apoio institucional no que tange a aspectos organizativos como veículo de transporte, materiais de limpeza e manutenções e no que se refere a instrumentos de ajustes para suprir demandas emergenciais de escala, como hora extra; o apoio à inclusão de atividades educativas em horário de trabalho, sem prejuízo para o trabalhador, realizando o uso da educação como ferramenta da supervisão de enfermagem, a partir de “feedback” oportuno; o encorajamento de ambiente de apoio entre os profissionais, visando estimular trocas de experiências; o fomento às discussões de casos após as ocorrências, de modo a considerar reflexões sobre situações vivenciadas, analisadas e pautadas no conhecimento técnico-científico e ético; reuniões periódicas com a equipe, como oportunidades de troca de conhecimento, com comunicação clara e objetiva, horizontalizada, capaz de refletir na valorização dos profissionais e suas funções; dimensionamento adequado do quadro de profissionais para cobertura da escala de trabalho junto da organização do serviço para atividades cotidianas, a partir de ferramentas, como escalas de trabalho, protocolos e procedimentos operacionais de rotinas de limpeza, checagem e reposição de materiais; estímulo e realização da supervisão direta do enfermeiro durante o atendimento da equipe de SBV, sempre que possível, com o objetivo de apoio, avaliação da prática profissional e realização de intervenções necessárias durante a prática ou por meio de medidas educativas após o atendimento.

Ainda considerando-se os resultados e discussão, apresenta-se a síntese de fatores limitantes para o desempenho da supervisão de enfermagem no SAMU: O próprio processo de trabalho direciona a equipe a partir do tipo de atendimento, o que repercute em fragmentação da equipe, uma vez que, nos atendimentos da equipe de Suporte Básico de Vida (SBV), o TE e o enfermeiro não ocupam o mesmo espaço, o que torna a supervisão de enfermagem desafiadora nesse serviço, visto que não há possibilidade de avaliação e suporte da equipe de enfermagem no momento da assistência ao paciente. Quanto aos aspectos organizativos, a inadequação e insuficiência de materiais, de manutenção dos equipamentos e de veículos de suporte, não estão na governabilidade do enfermeiro, mas repercutem em condições que podem representar riscos assistenciais e profissionais; ainda nessa temática, a ausência de organização para atividades inerentes à rotina, como limpeza, organização e reposição de materiais, faz com que a equipe trabalhe de forma desarticulada e desestimulada e impacta no atendimento adequado e seguro das ocorrências. Somam-se a esses fatores as dificuldades de comunicação e conflitos presentes tanto na equipe quanto entre órgãos de apoio.

CONCLUSÃO

Com base nos resultados alcançados nesta pesquisa, tornou-se possível a identificação do predomínio de aspectos que limitam o desempenho da supervisão de enfermagem no contexto do SAMU. Isso destaca a premência de um olhar mais atento – particularmente no que diz respeito à supervisão de enfermagem – aos requisitos críticos necessários para a execução dessa atividade e à insuficiente abordagem educacional dedicada a esse componente gerencial, no contexto estudado.

Os resultados estimulam a reflexão sobre o desempenho do papel do enfermeiro no exercício da supervisão, mas também revelam aspectos relevantes relacionados ao gerenciamento do cuidado no SAMU. Esse cenário contribui significativamente para identificar e aprimorar pontos críticos, fornecendo apoio ao enfermeiro, no que se refere à prática da gestão do serviço, gerenciamento da equipe e realização da assistência. Nesse contexto, mesmo que os resultados não sejam passíveis de generalização, é plausível que outras unidades em contextos semelhantes possam extrair benefícios a partir das investigações apresentadas neste estudo.

Há muito que avançar nos conhecimentos teórico-práticos acerca do exercício da supervisão de enfermagem no SAMU, em especial sob a perspectiva educativa, que, mesmo apontada como um recurso utilizado, ainda se apresenta limitada em sua potencialidade.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente.

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    » https://repositorio.usp.br/item/003140710

Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Lilia de Souza Nogueira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    07 Ago 2024
  • Aceito
    16 Abr 2025
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