RESUMO
Introdução: A Injúria Renal Aguda (IRA) deriva de insultos renais que desencadeiam o estresse oxidativo, apoptose, anomalias estruturais nas células e suas organelas e até mesmo instabilidade no DNA mitocondrial. O tocilizumabe é um anticorpo monoclonal inibidor da interleucina-6, inicialmente utilizado para tratamento de artrite reumatoide e, posteriormente, usado para o tratamento de COVID-19 que pode ter efeito de proteção na IRA.
Objetivo: Avaliar o efeito do tocilizumabe sobre a função e o perfil oxidativo renal de ratos com IRA’ isquêmica.
Métodos: Trata-se de um estudo experimental com animais de abordagem quantitativa. Os animais foram randomizados em 4 grupos: SHAM (controle); TCZ (tocilizumabe); I/R (isquemia/reperfusão renal por clampeamento dos pedículos renais por 30 minutos) e TCZ + I/R. Foram feitas provas de função renal (clearance de inulina, creatinina plasmática) e oxidação renal (peróxidos urinários, substâncias oxidativas derivadas do ácido malondealdeído) e agentes antioxidantes endógenos (tióis).
Resultados: Quanto à função renal, o grupo tratado apresentou elevação do clearance de inulina (IR 0,24 ± 0,3 vs TCZ + IR 0,65 ± 0,05; p < 0,05) e da creatinina plasmática (IR 2,3 ± 0,6 vs TCZ + IR 0,8 ± 0,3; p < 0,05). A análise do perfil oxidativo demonstrou redução dos peróxidos, confirmando uma atenuação do mecanismo redox (IR 15,8 ± 2,8 vs TCZ + IR 3,7 ± 1,3; p < 0,05).
Conclusão: O tocilizumabe apresentou um efeito renoprotetor, com melhora da função renal e redução do estresse oxidativo.
DESCRITORES
Injúria Renal Aguda; Anticorpos Monoclonais; Isquemia
ABSTRACT
Introduction: Acute kidney injury (AKI) results from renal damage that triggers oxidative stress, inducing apoptosis, structural abnormalities in cells and their organelles, and even mitochondrial DNA instability. Tocilizumab is a monoclonal antibody inhibitor of interleukin-6, initially used to treat rheumatoid arthritis and later tested for COVID-19 treatment, which may have a protective effect on AKI.
Objective: To evaluate the effect of tocilizumab on renal function and oxidative profile in rats with ischemic AKI.
Methods: This is an experimental study using a quantitative approach with animals. The animals were randomized into four groups: SHAM (control); TCZ (tocilizumab); I/R (ischemia/renal reperfusion, clamping of both renal pedicles for 30 minutes); and TCZ + I/R. Tests were performed to assess renal function (inulin clearance and plasma creatinine), renal oxidation (urinary peroxides, malondialdehyde-derived oxidative substances), and endogenous antioxidant agents (thiols).
Results: Regarding renal function, the treated group showed improvement in inulin clearance (IR 0.24 ± 0.3 vs TCZ + IR 0.65 ± 0.05; p < 0.05) and plasma creatinine levels (IR 2.3 ± 0.6 vs TCZ + IR 0.8 ± 0.3; p < 0.05). Analysis of the oxidative profile revealed a reduction in peroxides, confirming an attenuation of the redox mechanism (IR 15.8 ± 2.8 vs. TCZ + IR 3.7 ± 1.3; p < 0.05).
Conclusion: Tocilizumab demonstrated renoprotective effects, improving renal function and reducing oxidative stress.
DESCRIPTORS
Acute Kidney Injury; Monoclonal Antibodies; Ischemia
RESUMEN
Introducción: La lesión renal aguda (LRA) se deriva de daños renales que desencadenan estrés oxidativo, apoptosis, anomalías estructurales en las células y sus orgánulos, e incluso inestabilidad en el ADN mitocondrial. El tocilizumab es un anticuerpo monoclonal inhibidor de la interleucina-6, utilizado inicialmente para el tratamiento de la artritis reumatoide y, posteriormente, para el tratamiento de la COVID-19 que puede tener un efecto protector en la LRA.
Objetivo: Evaluar el efecto del tocilizumab sobre la función y el perfil oxidativo renal de ratas con LRA isquémica.
Métodos: Se trata de un estudio experimental con animales de enfoque cuantitativo. Los animales fueron aleatorizados en cuatro grupos: SHAM (control); TCZ (tocilizumab); I/R (isquemia/reperfusión renal por pinzamiento de los pedículos renales durante 30 minutos) y TCZ + I/R. Se realizaron pruebas de función renal (aclaramiento de inulina, creatinina plasmática) y oxidación renal (peróxidos urinarios, sustancias oxidativas derivadas del ácido malondialdehído) y agentes antioxidantes endógenos (tioles).
Resultados: En cuanto a la función renal, el grupo tratado presentó un aumento del aclaramiento de inulina (IR 0,24 ± 0,3 vs TCZ + IR 0,65 ± 0,05; p < 0,05) y de la creatinina plasmática (IR 2,3 ± 0,6 vs TCZ + IR 0,8 ± 0,3; p < 0,05). El análisis del perfil oxidativo demostró una reducción de los peróxidos, confirmando una atenuación del mecanismo redox (IR 15,8 ± 2,8 vs TCZ + IR 3,7 ± 1,3; p < 0,05).
Conclusión: El tocilizumab presentó un efecto renoprotector, con una mejora de la función renal y una reducción del estrés oxidativo.
DESCRIPTORES
Lesión Renal Aguda; Anticuerpos Monoclonales; Isquemia
INTRODUÇÃO
A Injúria Renal Aguda (IRA) é a redução abrupta da função renal, definida pela diminuição da Taxa de Filtração Glomerular (TFG), resultando em aumento transitório das escórias renais, como ureia e creatinina, podendo ser acompanhada de redução do fluxo urinário e de desequilíbrios hidroeletrolíticos(1).
Dentre as suas classificações, segundo a etiologia, estão descritas a pré-renal e renal, que podem estar associadas a eventos de isquemia, como sepse, choque, infecções, uso de contrastes radiológicos e toxicidade por medicamentos(2). Segundo a organização Kidney Disease: improving global outcomes (KDIGO), 1 em cada 5 adultos (21,6%) e 1 em cada 3 crianças (33,7%) desenvolvem IRA no mundo. Clinicamente, essa síndrome é definida como aumento de 0,3 mg/dL ou 1,5 vezes na creatinina sérica basal em 48h ou redução do fluxo urinário para menos de0,5 mL/Kg durante 6 h(3).
Em cenários de isquemia onde há a ocorrência de períodos de redução prolongada do fluxo sanguíneo causando a hipoperfusão renal, como em casos de sepse, cirurgias cardiovasculares ou transplantes de aloenxertos, ocorre o comprometimento da integridade e do metabolismo celular renal e estresse oxidativo e, em última instância, as disfunções vasculares, glomerulares e tubulares, o que gera um insulto nesse órgão(3,4).
A lesão por isquemia é causa da redução da TFG, porém, esta nem sempre se relaciona diretamente com a condição basal do paciente, o que mostra a complexidade dos processos vasculares e tubulares na disfunção renal(4).
Alguns estudos propõem um procedimento de mimetização da Injúria Renal Aguda gerada por Isquemia (IRAi) que consiste em hipóxia nos tecidos renais, causada pela interrupção da irrigação sanguínea local. Nesse caso, a isquemia é induzida por meio do clampeamento dos pedículos renais, seguido de reperfusão do fluxo sanguíneo no tecido renal(4).
Essa técnica de insulto renal causa danos mitocondriais, pois essas organelas dependem de oxigênio para realizar a produção dos processos de fosforilação oxidativa, o principal mecanismo de produção de energia. Na ausência ou supressão do oxigênio, esse processo ocorre de forma anaeróbica e resulta na formação de produtos, como o ácido lático. Esse ácido, quando acumulado, gera acidose celular e pode ocasionar danos na estrutura da membrana mitocondrial(5–6). Esse conjunto de danos celulares resulta na inflamação, consequência da ativação do sistema imune pró-inflamatório próximo ao local(7).
No que se refere às células de defesa e aos agentes inflamatórios, destacam-se os leucócitos, mastócitos e plaquetas, que liberam vários tipos de mediadores lipídicos (eicosanoides), proteínas (citocinas e quimiocinas) e mediadores gasosos (óxido nítrico, monóxido de carbono, espécies reativas de oxigênio)(7). A inflamação tem sido considerada o principal mecanismo de lesão nas lesões isquêmicas como a IRAi e está diretamente envolvida com o mecanismo redox.
Na IRAi, a interleucina-6 (IL-6) desempenha um papel importante tanto na fase inicial de inflamação quanto na fase de recuperação. Durante a isquemia, ocorre uma resposta inflamatória significativa na qual a IL-6 é rapidamente produzida pelas células endoteliais, macrófagos e células epiteliais renais. A produção de IL-6 é estimulada por sinais locais de estresse celular e hipóxia, promovendo a ativação de leucócitos e a liberação de outras citocinas pró-inflamatórias(7–8).
O mecanismo inflamatório na IRAi envolve o aumento da infiltração de neutrófilos e macrófagos nos rins lesionados, o que agrava o dano tecidual. A via de trans-sinalização da IL-6, mediada pelo receptor solúvel de IL-6 (sIL-6R), está particularmente associada à intensificação do processo inflamatório, agravando a lesão renal ao amplificar a resposta imune e causar dano oxidativo e apoptose nas células renais(8–9).
Nesse sentido, a hipótese deste estudo é que o tocilizumabe (TCZ) pode prevenir a IRA pela ação inibitória sobre a IL-6, interferindo tanto nas respostas imunológicas específicas a antí-genos quanto nos processos inflamatórios, posicionando-se como um dos principais agentes da etapa inicial da inflamação(8).
Sumariamente, o TCZ é um anticorpo monoclonal inibidor da IL-6. Ele foi inicialmente utilizado para tratamento de artrite reumatoide e, posteriormente, testado para tratamento da infecção respiratória aguda causada pelo coronavírus SARSCoV-2 (COVID-19), por seus efeitos no perfil de marcadores inflamatórios, como proteína C-reativa, ferritina e desidrogenase lática em pacientes com cânula nasal de alto fluxo e ventilação não invasiva(8–9).
O estudo ora apresentado segue um modelo de pesquisa pré-clínica cujos resultados podem subsidiar decisões assistenciais após sua incorporação em estudos clínicos e ensaios randomizados, podendo resultar em relevantes melhorias na prática clínica(10,11,12).
O enfermeiro pesquisador tem um papel vital na medicina translacional, ao desenvolver e testar modelos experimentais e inovações que têm como objetivo final a aplicação prática e a melhoria dos resultados clínicos, como no caso de novos fármacos, para preservar a função renal à semelhança do projeto ora apresentado(13).
O domínio das ciências básicas, portanto, é essencial tanto à formação de novos pesquisadores quanto à prática avançada, ampliando o modelo tradicional do “cuidar” e legitimando a participação da enfermagem na criação de terapias inovadoras(13). Sendo assim, a vigente pesquisa teve o objetivo de avaliar o efeito do tocilizumabe sobre a função e o perfil oxidativo renal de ratos com IRA isquêmica.
MÉTODOS
Aspectos Éticos
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética para Uso de Animais da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (CEUA-FMUSP), sob o registro CEUA: 2013/2023. Foram utilizados 20 ratos Wistar, machos e adultos, fornecidos pela Faculdade de Medicina da USP. O estudo foi desenvolvido no Laboratório Experimental de Modelos Animais (LEMA) da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP). O aspecto ético do protocolo experimental baseou-se na Diretriz Brasileira para o Cuidado e a Utilização de Animais para fins Científicos e Didáticos – DBCA. Seguindo o acordo com os preceitos da Lei nº 11.794, de 8 de outubro de 2008, do Decreto nº 6.899, de 15 de julho de 2009 e com normas editadas pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação em Animais (CONCEA) e do guia ARRIVE 2.0(14).
Delineamento Experimental
O cálculo amostral utilizado no estudo foi realizado por meio do software G*power, que recomenda o número de animais necessários ao experimento. Os ratos Wistar, machos e adultos, pesavam entre 250 e 300 g. Os animais foram randomizados em quatro grupos: Grupo SHAM (n = 5): animais controle submetidos à laparotomia para simulação do clampeamento dos pedículos renais; Tocilizumabe (TCZ, n = 5): animais que receberam Tocilizumabe (4 mg/kg, i.p., dose única), no 1° dia do protocolo experimental; Isquemia e reperfusão (I/R, n = 5): animais submetidos à laparotomia para o clampeamento bilateral dos pedículos renais por 30 minutos; e TCZ + I/R (n = 5): animais que receberam o Tocilizumabe (4 mg/kg, i.p., dose única) no 1° dia de protocolo e, no 2º dia, foram submetidos ao procedimento de I/R.
Os animais receberam pré-anestésico com morfina (2%, 2 mg/kg, uma vez, intramuscular) e, após 10 min, foram anestesiados com isoflurano (5% dose de indução e 3% dose de manutenção à 2 L de O2) e submetidos a laparotomia para clampeamento bilateral dos pedículos renais com clamps vasculares não traumáticos. Todos os animais foram suturados com fio mononylon 3.0, acompanhados durante a recuperação anestésica e receberam protocolo de analgesia no pós-operatório com tramadol (15 mg/Kg intramuscular, 3 vezes ao dia, 3 dias). No 3º dia, foram colocados em gaiola metabólica para análise da função renal e perfil oxidativo.
No 4º dia, os animais foram anestesiados conforme descrito acima (morfina seguida de isoflurano) e colocados em mesa cirúrgica aquecida. Realizou-se uma traqueostomia para liberação das vias aéreas superiores. Em seguida, procedeuse à dissecção da veia jugular esquerda para infusão de inulina durante 2 horas e coleta de amostras de sangue a cada 60 minutos, além da canulação da carótida direta para mensuração da pressão arterial média. Foi realizada também uma laparotomia para drenagem da bexiga e coleta de amostras de urina a cada 30 minutos, seguida da dissecção ou punção da aorta abdominal. O rim esquerdo foi removido, acondicionado e armazenado em refrigerador a -80º C para estudos posteriores de mensuração de tióis não proteicos.
Avaliação do Estresse Oxidativo
As avaliações foram feitas nas amostras de plasma, urina e tecido renal extraídas e armazenadas após a eutanásia, obedecendo as análises a seguir:
Peróxidos urinários: foram avaliados pelo ensaio de oxidação ferrosa de laranja de xilenol (FOX), que faz mensuração direta de peróxidos e consiste na utilização de ferro-xilenol laranja para determinação dos níveis de peróxidos urinários(15–16).
Peroxidação lipídica: foi analisada pelo ensaio de substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico (TBARS), o qual mensura o malondealdeído (MDA) por ser um dos principais produtos dessa cascata. Um método para detecção desse produto é a dosagem do ácido tiobarbitúrico ao qual ele reage(17–18).
Síntese de nitrato urinário: foi avaliada por meio da quantificação de nitrito (NO2-), metabólito estável do NO, pelo método de Griess. A reação é colorimétrica e baseia-se na reação dos nitritos com ácido sulfanílico e copulação com cloridrato de alfa-naftilamina em meio ácido (pH entre 2,5 e 5,0) formando o ácido alfa-naftilamino-p-azobenzeno-p-sulfônico de coloração rósea. Cerca de 150 µl da amostra urinária dos diversos grupos foram adicionados a 150 µl do reagente que permaneceu em repouso por 15 min. A leitura foi realizada em absorbância de 545 nm, em leitor de ELISA. A absorbância das amostras foi comparada a uma curva padrão de nitrito de sódio 15 (NaNO2) na concentração de 0,1 a 1,0 M(18).
Quantificação de tióis (antioxidantes): foi utilizada como indicador de resposta antioxidante, considerando o seguinte princípio: quanto maior o grau de estresse oxidativo, maiores foram os níveis de tióis oxidados e menores foram as concentrações de tióis no tecido renal(18).
Análise Estatística
A análise dos dados foi realizada no software GraphPad Prism versão 8.0, por meio do método ANOVA. Adotou-se um nível de significância de p < 0,05, considerando-se que o efeito de pelo menos um dos grupos diferisse dos outros. E os testes múltiplos de comparação 2 a 2 feitos pelo teste de Tukey, comparando os possíveis pares de médias baseando-se na diferença mínima significativa na homogeneidade das variâncias que diferem ou não entre si nos grupos.
RESULTADO
Parâmetros de Função Renal
Os parâmetros de função renal estão apresentados na Figura 1. Os dados do SHAM foram utilizados como grupo controle, considerados referência de normalidade. Nessa mesma lógica, o grupo TCZ apresentou dados de função renal (clearance de inulina) semelhantes àqueles demonstrados pelo grupo SHAM, confirmando que o tocilizumabe, isoladamente, não afetou a função renal.
O grupo I/R confirmou a IRAi considerando a elevação da creatinina e a diminuição do clearance de inulina (p < 0,05) (Tabela 1 e Figura 1). O grupo TCZ + I/R demonstrou redução da creatinina plasmática (p < 0,05) e elevação relevante no clearance de inulina na comparação com o grupo I/R. (Figura 1 e Tabela 1).
Perfil Oxidativo
Os parâmetros do perfil oxidativo foram apresentados na Figura 2. Conforme demonstrado, o grupo SHAM foi considerado com valores de normalidade. O grupo TCZ mostrou dados semelhantes aos do grupo SHAM.
Quanto aos peróxidos urinários, peroxidação lipídica e nitrato urinário, observou-se que o grupo I/R apresentou média elevada desses parâmetros quando comparado aos grupos controle SHAM e TCZ. O grupo TCZ + I/R apresentou redução dos metabólitos oxidativos em comparação com o grupo I/R.
Esse achado demonstra uma resposta oxidativa semelhante entre os grupos controle e o grupo TCZ + I/R. Quanto à resposta antioxidante, os grupos I/R e TCZ + I/R apresentaram valores inferiores (p < 0,05) aos dos grupos controle e praticamente sem diferença entre si (Figura 2 e Tabela 2).
DISCUSSÃO
É importante analisar o recorte deste estudo, no qual foram avaliados parâmetros de função renal (clearance de inulina) e marcadores de estresse oxidativo em animais submetidos à injúria renal isquêmica. Os resultados demonstraram que o uso do TCZ, um anticorpo monoclonal humanizado para o receptor da interleucina 6 (IL-6) usado em condições inflamatórias, promoveu atenuação significativa da lesão determinada pela síndrome de isquemia-reperfusão induzida pelo modelo de clampeamento renal, evidenciada pela elevação do clearance de inulina e pela redução do estresse oxidativo.
No estudo, os animais foram submetidos a hipoperfusão tecidual, processo denominado isquemia, que é similar ao que ocorre no organismo em processos de sepse, síndrome coronariana aguda e transplante de órgãos, seguida pelo restabelecimento do fluxo sanguíneo denominado reperfusão. Tal procedimento gera um insulto tecidual que desencadeia a ativação de citocinas inflamatórias e estresse oxidativo(19).
Erdem et al. demonstraram que o dano de IRAi é causado por alguns oxidantes, como o monoaldeído, e alguns mediadores inflamatórios, dentre eles NF-κB, TNF-α, IL-6 e IL-1 β. Sabe-se ainda que a IL-6 tem um papel no dano e reparo de células renais e principalmente em alterações imunológicas, metabólicas, isquêmicas ou toxêmicas nos rins(19).
O estudo demonstrou ainda que a ocorrência de IRAi resultou do procedimento de clampeamento dos pedículos renais. Nesse cenário de lesão por hipoperfusão induzida, observouse que, quando instituído o tratamento prévio com TCZ, o comprometimento de função determinado pela isquemia foi atenuado, demonstrado pela elevação do marcador padrãoouro de função renal aplicado nesse estudo, que é o clearance de inulina(20).
O papel da IL-6 na função renal e a potencial lacuna de uso farmacológico do tocilizumabe está descrito para os danos renais identificados em glomerulonefrites agudas e em transplantes renais, nos quais ela atua como mecanismo próinflamatório(21–22). A IL-6 desempenha um papel central nesse contexto, uma vez que regula processos inflamatórios, além de mediar a ativação e maturação de células T, células B e plasmócitos – mecanismos intimamente ligados à rejeição. Estudos prévios, como o de Jordan et al. (2017), demonstraram que a inibição dessa citocina reduz significativamente a perda de enxertos, reforçando o potencial terapêutico do TCZ em cenários de injúria renal(23).
Em um modelo experimental realizado na Turquia com ratos submetidos a uma hora de isquemia e seguida por seis horas de reperfusão, dividiram seus animais em três grupos, isquêmicos e isquêmicos tratados com TCZ prévio, observouse que os tratados demonstraram redução nos valores de ureia e creatinina, em consonância com o nosso modelo, que usou o clearance de creatinina como marcador de função(23).
Segundo Fukuda (2021), em um relato de caso de pacientes que fizeram uso de tocilizumabe e apresentavam a função renal comprometida, mantiveram suas funções residuais preservadas e permaneceram sem necessidade de terapias de substituição renal, comprovando a proteção renal desse fármaco, contudo, ainda não há consenso sobre o uso profilático do TCZ em doenças renais(24,25,26,27,28). .Um estudo clínico que utilizou o TCZ reforçou achados promissores em transplantes renais, nos quais a rejeição mediada por anticorpos é uma das principais causas de complicações pós-transplante(28,29).
Nessas condições, os resultados mostrados no presente trabalho corroboram os achados de pesquisas experimentais e clínicas que destacam o tocilizumabe não apenas modulando a inflamação via IL-6, mas também reduzindo significativamente o estresse oxidativo, protegendo contra danos celulares e disfunções vasculares, confirmando que a redução do estresse oxidativo comprovou a redução da inflamação(28–29).
A análise dos marcadores de estresse oxidativo demonstrou valores de normalidade nos grupos SHAM e TCZ e alterações de função renal do grupo I/R. O grupo TCZ + I/R apresentou grande redução no perfil de peroxidação lipídica e peróxidos urinários. Isso pressupõe que o tocilizumabe foi eficaz na redução de EROs e, possivelmente, tenha contribuído para a melhora da resposta mitocondrial em condições de isquemia(28–29). Além disso, à avaliação de nitrato urinário, o grupo TCZ + I/R demonstrou diferença significativa com os grupos controle e com o grupo I/R. Esses achados confirmam a capacidade do tocilizumabe de reduzir espécies reativas de nitrogênio(28–29).
Em contrapartida, alguns autores que estudaram a expressão de microarray mostraram que o TCZ, em pacientes tratados com artrite idiopática juvenil, pode diminuir tanto o potencial de membrana quanto a produção de ATP com subsequente aumento no nível de EROS intracelulares. Atualmente, há evidências crescentes de que as EROS mitocondriais e as respostas antioxidantes defeituosas desempenham um papel importante na patogênese de uma série de doenças antinflamatórias e autoimunes(28,29,30).
Dessa forma, o estudo demonstrou que o tocilizumabe se confirma como fármaco com ação antioxidante, com efeito renoprotetor, capaz de atenuar a lesão renal desencadeada pela síndrome isquemia-reperfusão renal, corroborando os achados encontrados na literatura, podendo representar uma estratégia terapêutica em situações em que a isquemia já está instalada, como nos casos de sepse ou mesmo em cirurgias de transplante renal, para atenuar os efeitos lesivos do tempo de isquemia do enxerto e otimizar a recuperação de função no pós-operatório(29–30).
Na esfera da pesquisa experimental, vale ressaltar que a construção desse trabalho gerou evidências na pesquisa básica que servem como um subsídio essencial para a prática de Enfermagem, uma vez que a integração das ciências fundamentais, como fisiologia, biologia molecular e experimentação animal, amplia a capacidade de o enfermeiro interpretar mecanismos fisiopatológicos e de articular intervenções mais seguras e consistentes à beira-leito(29–30).
Portanto, o pertencimento à medicina translacional concerne à prática do enfermeiro e corrobora a fisiologia humana, fruto da pesquisa básica, fortalecendo a tomada de decisão fundamentada em evidências e elevando o padrão de cuidado no manejo da IRA(29–30).
Limitações
O fato de tratar-se de um estudo com modelo experimental com animais pode restringir sua aplicabilidade imediata na clínica, contudo, os resultados aqui identificados representam subsídio para estudo com humanos, como ensaios randomizados, que possam vir a impactar políticas públicas e resultar na inserção oficial do medicamento e seus similares no arsenal farmacológico nacional, para casos em que a inflamação é o mecanismo determinante de doenças em âmbito nacional.
Implicações Futuras
As perspectivas futuras desta pesquisa envolvem a expansão dos achados e a elucidação minuciosa dos mecanismos de ação do tocilizumabe na injúria renal aguda isquêmica (IRAi), além disso, a condução de avaliações a longo prazo para investigar o impacto do TCZ na recuperação renal e na prevenção de danos crônicos subsequentes à IRAi em modelos animais e, futuramente, em estudos clínicos.
CONCLUSÃO
O tocilizumabe mostrou-se promissor na proteção do rim em modelo pré-clínico de isquemia e reperfusão, visto a melhora da função renal demonstrada pela creatinina sérica e pela clearance de inulina. Quanto ao perfil oxidativo, esse medicamento mostrou efeito antioxidante, com redução nos peróxidos urinários, na peroxidação lipídica e no nitrato urinário no modelo de IRAi delineado no estudo.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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Fonte: Dados da autora, 2024. Legenda: ap < 0,05 versus SHAM; bversus TCZ; cversus I/R. Fig.l. *p < 0,05 de acordo com os grupos IR e TCZ + IR. ClIn: clearance de inulina e CrS: creatinina sérica, SHAM: grupo saudável, TCZ: grupo tocilizumabe, IR: grupo isquemia e reperfusão renal, TCZ + IR: grupo tocilizumabe + isquemia e reperfusão.
Fonte: Dados da autora, 2024. Legenda: ap < 0,05 versus SHAM; bversus TCZ; cversus I/R. Fig.2. Níveis de TBARS e FOX na urina, níveis de Tióis no tecido renal e níveis de NO na urina. *p < 0,05 de acordo com os grupos I/R e TCZ + I/R. TBARS: peroxidação lipídica, FOX: Peróxidos urinários, Tióis: Antioxidante e NO: Nitrato urinário, SHAM: Grupo saudável, TCZ: Grupo Tocilizumabe, IR: Grupo isquemia e reperfusão renal, TCZ + I/R: Grupo isquemia e reperfusão + Tocilizumabe.